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A agua profunda

Chapter 5: IV Realidades
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About This Book

The narrative opens with reflections on proverbs about still waters to set a contrast between outward sociability and hidden feeling, then recounts an intimate sentimental episode centered on a woman of society whose restrained inner life and need for intense emotions collide with social obligations. A chance errand at a shop acts as the catalyst for a long-prepared crisis, and the story traces how small coincidences, appearances, and moral constraints produce a private tragedy. Themes include social mask versus private passion, the magnetic pull of urban life, and the quiet, dangerous depths of concealed feeling.

III

Primeiros esforços

É possivel? Joanna tinha os maiores desejos de responder «sim» a esta pergunta, para que o seu pensamento se apressasse a colligir e amontoar os argumentos que podiam confirmar esta inexperada, esta fulminante descoberta.

Quando viu Valentina fechar a porta da carruagem que a conduzia para um recanto occulto d'esse grande Paris—tão propicio a encontros mysteriosos,—invadiu-a uma violenta commoção.

N'um só momento, o procedimento da sua orgulhosa prima tinha-a rehabilitado aos seus proprios olhos, rebaixando aquella ao seu nivel.

E, posto que o facto de Valentina ter abandonado a carruagem á porta do grande armazem, lhe provasse que a sua primeira supposição era racional, a sua excitação tornára-se tão viva que se não sentia capaz de esperar—o que era natural—que a senhora de Chalinhy voltasse, a fim de verificar{38} a attitude d'esta, interrogal-a mesmo e observar o seu natural embaraço.

Bastar-lhe-hia metter-se no coupé abandonado, de maneira que no momento da entrada, depois da visita clandestina, a marqueza a encontrasse na sua frente e fosse violentada a confessar tacitamente a falta, só pela natural confusão.

Um tal procedimento exigia, porém, um sangue frio de que Joanna se não julgava capaz. Mostraria logo pela sua propria perturbação, que espionava a rival. E esta, advertida por aquella fórma, dominar-se-hia, depois de passada a primeira impressão. Posta de sobre aviso, procuraria, de futuro, desnortear qualquer curiosidade que pretendesse penetrar mais intimamente no segredo que, até ao presente, tão bem tinha sabido occultar. Não. Para chegar a saber se effectivamente Valentina tinha qualquer mácula na sua vida, a principal condição era que esta nem sequer suspeitasse da descoberta. A primeira idêa de Joanna de Node, em presença do sobresalto d'uma tal revelação, foi fugir, para não ser vista pela prima, e ir para casa. Lá meditaria sobre o meio mais seguro de não perder o fio que um phantastico acaso acabava de pôr nas suas mãos, e que não abandonaria mais. Parecia-lhe até imprudente que qualquer pessoa da sua intimidade a encontrasse na visinhança do grande armazem, e podesse denunciar a sua estada ali, n'esta tarde, á marqueza de Chalinhy.

Só conseguiu tranquilisar-se, depois de ter subido para a carruagem, e dito ao cocheiro que a conduzisse á rua Barbet-de-Jouy.{39}

—«É possivel?...» repetia ainda emquanto o cavallo d'aluguer da sua carruagem seguia ao longo das Tulherias, e depois pelo caes e ponte de Solferino. Mesmo contra sua vontade, tantas provas de seriedade dadas por Valentina desde a mais tenra infancia, influenciavam no seu espirito, destruiam a suspeita, luctavam contra a injuriosa hypothese sugerida repentinamente pelo indicio implacavelmente revelador.

Ha mulheres que praticam a caridade occultamente.

E se Valentina fosse a casa d'alguns pobres, modestamente, sem ir na sua carruagem, porque esses pobres habitavam n'alguns bairros escusos, onde a sua equipagem causasse escandalo, ou o cocheiro e trintanario corressem risco de ser insultados?...

Mas n'este caso teria entrado no armazem como uma criminosa, temendo evidentemente ser seguida? Sahiria com aquella precipitação e em taes condicções?

Todos os bairros populares ficam, hoje, nas proximidades dos boulevards ou de qualquer praça, onde uma mulher rica póde ir com os seus cavallos, sem necessitar servir-se de carruagem extranha...

«Tel-a-hia Norberto prohibido de dar esmolas?...

«Mas isso é facil de saber. Basta-me perguntar-lh'o...» Fez com a mão o gesto de apertar a pequena esphera de cautchú do aparelho que serve para chamar o cocheiro... Ia dar-lhe ordem para, de caminho, parar na rua Varenne. Eram as commodidades{40} que a sua qualidade de prima proporcionava ao adulterio.

Deixou, porem, cahir a esphera sem a ter comprimido: «Seria perdel-a se estava culpada, isso não faria ella.»

Uma primeira tentação—nem sequer a sombra d'uma denuncia—passára rapidamente pelo seu pensamento, e o mesmo sentimento que, ha annos, a fazia invejar Valentina, apresentava esta agora aos seus proprios olhos, n'uma attitude generosa mas não sem uns laivos da sua habitual acrimonia.

«Não o faria...» repetia ainda. «E o que aproveito eu com isso? Não sei, porventura, que Norberto não se preocupa mesmo nada com os seus actos? Que deposita n'ella a mais absoluta confiança. Tambem eu a tinha. E igual. Não se faz, porem, o que acabo de lhe ver fazer, sem haver para isso muito poderosos motivos...»

—Porque, emfim, podia ser vista por qualquer outra pessoa que não fosse eu e que não seria certamente tão indulgente...

Onde iria ella?... Ah! Eu o saberei! Mas como?

Era já noite e a baroneza de Node entrara em casa, passado muito tempo, sem que, atravez d'essas multiplas occupações d'uma tarde toda:—escrever bilhetes, receber visitas intimas, fazer a sua toilette para a noite—cessasse de dirigir a si mesma esta pergunta, para que não obtinha resposta: «Sim, como?»

Se taes pesquizas são já difficeis e trabalhosas para um homem que tem o previlegio de poder{41} andar por toda a parte, quasi sem ser notado, para uma mulher, nova, bonita e um tanto elegante, tornam-se impossiveis. Deve-se pensar. Não lhe é permitido sahir de casa senão vestida com fato proprio da sua classe. Basta isto para limitar muito o seu campo d'acção. Ha agencias particulares cujos prospectos, com promessas de segredo absoluto, pontualidade e rapidez, são enviados, de tempos a tempos, pelo correio, ás diversas pessoas que, por qualquer motivo, figuram em um dos numerosos annuarios do mundo parisiense, grande ou pequeno. Joanna tinha muitas vezes ouvido falar a alguns homens do meio em que vivia havia dez annos, do perigo de similhantes processos, para se expôr, de caso pensado, em emprezas certas de exploração e talvez de chantage.

Revelar a policias incompetentes o vehemente desejo de saber o segredo de sua prima, não era pol-os ao corrente de outro segredo—o seu?

Estes obstaculos, levantados deante da curiosidade do mundo, explicam como tantas historias adivinhadas e assacadas á bocca pequena, ficam sempre inverificadas, e, portanto, facilmente negaveis. Poucas pessoas teem geralmente um tão grande interesse em as conhecer nos seus mais intimos e insignificantes detalhes, que se aventurem a arrostar com tantas difficuldades.

A mór parte permanece n'uma incerteza que lhes permitte misturar justos indicios com infames calumnias, alliviando a sua consciencia com estas phrases classicas:

«Em todo o caso se não é verdade, podia muito{42} bem sel-o!...—Se é possivel acreditar-se tudo quanto se diz!...—Eu cá nada vi, e isto são coisas tão graves!...»—indulgentes formulas tão deploraveis como os ditos maliciosos que pretendem attenuar.

Attestam bem quanta leviandade ha nas conversas dos salões e dos clubs, e tambem que n'ellas caminham a par o indifferentismo e a ferocidade!

Mas a baroneza de Node não se achava em presença de um «diz-se», tratava-se d'um facto, com consequencias funestas!

O procurar conhecer toda a verdade, sem compromisso proprio, tendo a luctar com a finura d'uma mulher tão prudente, que havia sido necessario um inacreditavel concurso de circumstancias para pôr a sua parenta mais proxima, quasi sua irmã, sobre esta pista, muito vaga, quasi perdida já—é trabalho para esgotar todas as paciencias, mas não a d'uma invejosa!

Quando, um pouco antes das oito horas, a baroneza sahiu de caza para ir jantar com os Guy de Sarliévre, das relações de ambas, e aonde sua prima devia tambem estar—a resolução de pôr inteiramente a claro o enygma, que subitamente se lhe deparou, era tão irrevogavel como um juramento corso, e a primitiva idéa estava posta de parte.

O ardor d'uma lucta começada—a mais forte das sensações para os nervos d'uma parisiense de habitos tão monotonos—dava á sua belleza, um tanto apagada, uma animação singular. Os olhos pretos, a que faltava muitas vezes a expressão, tinham um brilho desusado; o rosto quasi sempre descórado,{43} um vivo colorido; toda a sua pessoa, mixto de frieza e fadiga, muita vitalidade e movimento.

A impaciencia de tornar a ver Valentina obrigara-a a partir muito cedo para a casa aonde ia jantar, chegando a sua nevrose ao mais elevado grau, quando a marqueza de Chalinhy que, por acaso, foi a ultima a apparecer, entrou, acompanhada pelo marido, na sala em que se achavam reunidos os convidados—quatorze, contando os recem-chegados.

A marqueza tinha aquella expressão de doçura e candidez que tão bem sabia guardar, mesmo quando vestia uma toilette de soirée, que punha inteiramente a descoberto os seus hombros finos opulentos, os braços d'um contorno delicioso, a nuca graciosa e robusta—toda a graça dos seus trinta annos. Era o agrado da sua encantadora cabeça de cabellos louros, illuminada pelos olhos d'um azul tão curioso—era o pudor, e a pureza.

N'este dia usava um vestido á moda do tempo de Luiz XIII, d'uma tonalidade rosea, com bordados antigos, laços de setim e fivelas de diamantes. O penteado, em dois espessos bandós, d'onde se escapavam sobre a testa pequenos anneis, harmonisava com a toilette e lembrava os retratos d'essas mulheres do primeiro quartel do seculo XVII, que realisavam tão completamente o typo exquisito da franceza de outro tempo, por uma mistura unica de delicadeza e distincção, feminidade e sensatez, gentileza e honestidade.

—«Não é deliciosa esta gentil Chalinhy?...» perguntou alguem atraz da baroneza de Node, «é preciso{44} que Norberto seja muito tolo para não o comprehender, pois não é verdade?...»

Era o duque de Arcole que assim falava, dirigindo-se ao visinho, um dos irmãos Mosé, o conde Abel, um dos parisienses mais circumspectos da sociedade elegante; tão circumspecto que Luciano d'Arcole ficou sem resposta.

A justificação de bravo official, que tem um nome glorioso, estava em que, mesmo com licença, só pensava no seu esquadrão. Não tinha reparado que a amante de Chalinhy se achava na sua frente. A um rapido signal, uma leve inclinação de cabeça, feito por Mosé, percebeu a sua inconveniencia. Joanna, que os via perfeitamente no espelho que lhe ficava fronteiro, poude observar o gesto dissimulado de Mosé, e que o duque se ruborisou um pouco.

Quando reconhecia por estes e outros pequenos indicios que se suspeitava da sua aventura com Norberto, sentia uma viva irritação. N'aquelle momento, foi-lhe quasi intoleravel que o elogio da prima fosse misturado com uma expressão mal contida da censura com que a sociedade a feria.

Desejaria poder gritar a Mosé, ao duque de Arcole, a todos os presentes, os quaes estava bem certa d'isso, tinham já ouvido censurar ou elles mesmo censurado a sua falta: «Sim, Chalinhy é meu amante.

«É verdade, atraiçoa a mulher comigo. Mas perguntai-lhe tambem a ella, para que entrevista ia hoje, de carruagem, ás 3 horas da tarde?...»Desejaria tambem poder fulminar com aquella phrase{45} vingadora o proprio Chalinhy que se lhe dirigiu para a cumprimentar, com um certo ar de constrangimento, que já por mais vezes lhe tinha notado, quando estavam em publico. Nunca se tinha podido habituar a taes reservas, muito insultantes para esta ligação, e contra as quaes só as suas caricias eram soberanas—durante os momentos em que as proporcionava a esse amante, ao mesmo tempo tão invejavel como incomprehensivel.

Quizera ainda dirigir a phrase insultuosa á propria Valentina, cuja doce serenidade contrastava, d'uma maneira imprudente, com o seu procedimento d'aquelle dia, se tal procedimento era culposo, e a verdadeira confirmação d'essa culpabilidade seria a resposta á pergunta insidiosa que sua prima ia fazer-lhe em seguida—primeiro passo andado no caminho d'uma devassa que, por perfidia, se devia transformar, bem depressa, em denuncia.

—«Cheguei a imaginar que mudarias de tenção» começou Joanna, «e que me mandasses dizer esta manhã que podiamos sahir juntas. Esperei, porém, em vão, uma palavra tua...»

—«Acompanhar-te-hei ámanhã se quizeres, respondeu Valentina. Hoje não tive um momento de meu. Tinha muitas coisas atrazadas que pôr em ordem. Para a semana vamos para Pont-Yonne...»

—«Percebo, poseste as tuas visitas em dia. Onde foste então?»

—«Oh! A dez casas differentes e só em duas deixei bilhetes.»

—«A maior parte das familias das minhas relações são estrangeiras. É esta a sua estação em Paris;{46} mas não se comprehende muito bem o que veem cá fazer, visto estarem sempre em casa.»

Annunciava-se que ia ser servido o jantar, na occasião em que Valentina acabava de descrever a sua prima como tinha occupado toda a tarde d'esse dia, acompanhando a descripção com um sorriso tão infantil, tão fresco, que punha de parte qualquer idêa de mentira.

As duas primas separaram-se.

A senhora de Sarliévre, na qualidade de dona de casa, julgava faltar a um dever de delicadeza, se não proporcionasse a duas pessoas, suspeitas d'um amor clandestino, estando em sua casa, mais uma occasião de passarem algumas horas ao lado uma da outra. Reservou tambem, naturalmente, a Chalinhy o prazer de conduzir para a mesa a baronesa de Node. É o processo habitualmente empregado em Paris, pelas mulheres levianas, quando desejam que lhes façam o mesmo, e pelas mulheres honestas, quando querem recrutar frequentadores assiduos para os seus salões.

Enganam-se muitas vezes, pensando que, procedendo por esta fórma, são agradaveis para com os seus convivas.

Acontece frequentemente que estas complacencias obrigam amantes arrufados a uma visinhança deveras incommoda e impertinente. Acontece tambem que magoam certas susceptibilidades um pouco desconfiadas, como sendo uma indelicadesa. É mostrar muito claramente que se conhecem os segredos da sua vida. Chalinhy pertencia ao grupo dos amorosos susceptiveis.{47}

Vinte vezes Joanna de Node o tinha visto, em jantares como este, sentar-se junto d'ella com o mesmo aspecto melancolico, contrafeito, com os mesmos modos retrahidos d'um homem que se encontra n'uma situação falsa, e vinte vezes lhe disse, para o empolgar, para readquirir o imperio sobre elle, phrases de estimulante ternura como a que lhe murmurou, quasi em segredo, aproveitando o primeiro bulicio da instalação á mesa:

—«É uma felicidade para mim passarmos juntos alguns momentos. Ha mais de uma semana que lá não vaes».

—«Sabes perfeitamente que a culpa não é minha, tenho caçado quasi todos os dias...»

—«Sei tambem que isso te não pode servir de desculpa,» disse galantemente. «Tinhas um ar tão contrafeito quando a Emiliana te pediu para me conduzires á mesa...»

—«Respeito-te muito,» replicou, «por isso confesso-te que fiquei contrariado... Sempre que jantamos fóra, nos collocam propositadamente um junto do outro. Sei perfeitamente o que isto significa...»

—«E eu tambem,» respondeu ella. «Sejamos francos, Norberto, não é a minha pessoa que te preoccupa...»

—«Quem é então?...»

Joanna lançou um olhar para o lado de Valentina, d'uma significação tão clara que Chalinhy respondeu vivamente:

—«E se tiver por ella toda a consideração? Se desejar evitar-lhe um desgosto?»

—«E imaginas que ella tem a teu respeito iguaes{48} sentimentos?» replicou a amante. Depois, com uma expressão singular que ainda esse dia não tinha tido, deixou escapar dos seus labios um: «Estás bem certo d'isso?» que acompanhou com um sorriso ainda mais singular, e voltou-se para o visinho do lado, que lhe perguntou:

—«O que está dizendo o Chalinhy que tanto a faz rir?...»

—«Oh! nada», respondeu, «é a historia d'um marido. São sempre divertidas.»

Poz-se a rir, mas mais alegremente, da enormidade da sua insolencia. Não pensou senão no effeito a produzir em Chalinhy, e, por acaso, o visinho a quem se dirigiu n'aquelles termos, era nem mais nem menos do que Paulo Moraines, o marido «mais marido» de toda aquella sociedade. Peor do que isso. Era publico e notorio que o luxo da sua esposa fôra pago primeiramente pelo velho Desforges e depois por um outro dos Mosé, o conde Abrahão. Mas Moraines não desconfiou nunca das galanterias venaes da sua Suzanna—da aventura com o elegante Casal, por exemplo, ou da ligação com o poeta René Vincy.

A herança inesperada da senhora Bois-Daufraines—prima afastada de Suzanna Moraines—veio trazer ao casal dois milhões de francos, justamente no momento em que os Desforges e Mosé iam começar a fazer falta, agora que a idade chegava com o seu fatal cortejo: pontos dourados na alvura dos dentes, tranças postiças e espartilhos reparadores! Paulo Moraines tinha a mania de contar a toda a gente a historia d'essa herança, em{49} todos os pormenores, e accrescentava invariavelmente: «Vejam o que é ter uma mulher inteligente. Quasi que nem chegámos a perceber que tinhamos alguns milhares de libras de renda a mais, tão boa dona de casa ella é!»

Nem uma leve sombra passou pelo rosto aberto do excellente homem, quando a baroneza de Node deixou escapar, tão gravemente, deante d'elle, o classico proverbio: «não se falla em corda...»

Ao contrario, insistiu até:

—«Se é escandalo, digam-me que é para o contar á Suzanna. Não poude vir por estar com uma enxaqueca; mas, em indo para casa, conto-lhe tudo.»

A um novo golpe de vista lançado a Chalinhy, Joanna comprehendeu que não necessitava empregar nova ironia—ella tinha ouvido a phrase de Moraines—e começou com este uma animada conversação, uma d'essas tagarelices dos grandes jantares parisienses, que são a justificação plena da anthipathia dos homens superiores por esse meio banal.

É manifesta a antithese entre as deficiencias do espirito e os explendores da decoração.

A sala de jantar do palacio de Sarliévre, com as suas altas paredes cobertas de magnificas tapeçarias de Arraz, com o esplendido mobiliario á Luiz XVI, com os elegantes centros de meza e jarras de Saxe, com o intenso brilho de flores, dos pratos e crystaes, realisava um sonho vivo da mais requintada opulencia. As seis mulheres assentadas á meza, entre oito homens, trajando com o maior rigor{50} eram todas formosas, e a mais velha, Emmelina de Sarliévre, tinha apenas trinta e sete annos.

Eram, além da elegante Joanna e da graciosa Valentina, a muito gentil senhora de Bonivet, a deliciosa Monniot e a sua amiga, a joven Croix Firmin.

Se um phonographo recolhesse as phrases trocadas entre estas princezas da moda e os cavalheiros que as rodeavam, uma tal miseria de espirito e de idéas, era de fazer chorar!... Mas não. O que se diz n'aquelle meio, não é a imagem do que se pensa.

A verdade da vida parisiense não está nas palavras. Está nas situações a que essas «palavras vãs» empregando o dito popular, servem de indifferente acompanhamento.

Entre essas quatorze pessoas, muitas d'ellas estavam talvez na frente uma das outras, em situações similhantes á de Joanna para com os esposos Chalinhy. Quando interesses d'esta ordem occupam o espirito e o coração, as exterioridades não passam d'um méro alibi, em que a questão importante é não trahir o drama intimo.

E era verdadeiramente um drama que a baroneza de Node observava na physionomia do amante, na qual se denunciavam as alternativas do seu pensamento, agitado pela sua perfida insinuação.

Pela primeira vez ousava, não criticar Valentina na presença do marido—porque já o tinha feito muitas vezes—mas, atacal-a na sua qualidade de esposa legitima.

Este: «Estás bem certo d'isso!...» escapou-lhe;{51} sem lhe medir o alcance, como um echo das phrases que tinha pronunciado para si só, depois da descoberta pasmosa d'essa tarde. Com o seu instincto de amante tinha procurado ferir Chalinhy precisamente no ponto mais vulneravel.

Conhecia-o perfeitamente! A physionomia attribulada d'este homem indicava claramente que a feição predominante do seu caracter era a incerteza. Um rapaz cheio de timidez, com attitudes imperiosas de voluntariedade. Esta paixão—porque uma verdadeira timidez é uma pura paixão, no sentido amplo da palavra—desconcerta todas as analyses. Meio physica, meio moral, affecta as mais intimas fibras do nosso ser, onde se effectua a reunião das duas naturezas, a animal e a espiritual.

O seu effeito mais constante é a vacillação da intelligencia e da vontade ao mesmo tempo; uma não pensando com firmeza e segurança e a outra não executando com decisão.

Caso estranho! Esta desconfiança em nós mesmo, constitue muitas vezes uma superioridade. Os bons resultados obtidos por Chalinhy nos seus negocios provinham d'isso precisamente. Habituara-se a seguir na esteira dos que vira ser bem succedidos, com um bom senso que, em presença dos resultados, era uma força, mas que na realidade constituia uma fraqueza.

No casamento acontecia-lhe o mesmo, não se libertava d'uma vez das suas peias, não tinha força para o fazer, detido pela esposa, tão sensivel tambem.

Não ha disposição mais propicia aos mal entendidos{52} da existencia commum, do que os excessos de susceptibilidade. Quando a intimidade quotidiana não vence a timidez, exaspera-a. Esta especie de perturbação moral, ainda aggravada pela reserva de Valentina, que o marido inconsiderado e susceptivel tomava por indifferença, impedia-o de experimentar pela esposa essa sensação d'amor partilhado, sem a qual nenhuma união é completa.

Era por causa dos apetites de sensualidade não satisfeitos no seio da familia que Joanna o tinha attrahido e que continuava a prendel-o.

Sabia-o, e sabia tambem que Norberto tinha pela esposa uma estima nunca interrompida, a qual o obrigava a permanecer n'um constante estado de incerteza e irresolução.

Não comprehendia bem Valentina, e, por momentos, receava-a.

Teve Joanna a prova d'isso, ha pouco, durante o jantar, que passou quasi todo no mutismo d'um homem que está inteiramente preoccupado por uma idéa fixa—não conversando com ella nem com a sua outra visinha, a agradavel senhora de Bonnivet, senão o indispensavel para não passar por grosseiro; e quando se levantou da mesa e que finalmente, se achou só com a amante, n'um dos angulos da sala, foi por uma allusão á sua enigmatica pequena phrase de ha pouco, que recomeçou a conversa interrompida no principio do jantar.

—«Foste bem pouco amavel comigo» disse-lhe n'um metal de voz como de quem deseja que nenhuma das palavras proferidas chegue a ouvidos estranhos, e que tantos amantes teem a ingenuidade{53} de adoptar nos seus segredos!—«Sim bem descaroavel para uma amiga que considera como uma felicidade passar o tempo na tua companhia. Quizeste unicamente incommodar-me?»

—«Eu? incommodei-te? E como?»

—«Sábel-o perfeitamente», respondeu. «Como» insistiu Joanna. «Sabes que me desgosta a nossa situação com Valentina e parece que estás propositadamente disposta a tornar-me tal situação mais difficil, magoando-me por sua causa. Que pretendias dizer, quando, a proposito do pesar que sentia por causa d'ella, receioso de que desconfiasse de nossa intimidade, me dirigiste a pergunta:

«Estás bem certo d'isso?... E com o resto...»

—«Não pretendia coisa alguma. O receio de perturbares a tranquilidade de Valentina apavora-te. Obrigas-me a repetir-te ainda mais uma vez que seria mais prudente teres pensado d'essa maneira n'outro tempo, e mais conveniente para mim. Quiz dizer simplesmente que ella não é tôla e que sabe perfeitamente o que se passa em relação aos nossos sentimentos. O que isso prova é que a sua amisade por ti não é o que a tua fatuidade imagina, e que se não preocupa tanto comtigo como julgas.

«Eis tudo... Ha muito tempo que te repito que esse receio não passa d'uma simples chimera. Quando digo os nossos sentimentos, acrescentou Joanna, é os meus que deveria dizer. Não tens emoções senão por causa d'ella. Mas não supportarei esta situação por muito tempo...»

Agitou nervosamente o leque, lançando esta{54} ameaça de rompimento, com um sorriso de desafio. Os calculados vaes vens das brancas e flexiveis pennas de abestruz faziam chegar junto do amante um effluvio do perfume de que estavam impregnadas as mais reconditas peças do seu vestuario.

Sentia-se bella, e movia a cabeça com um gesto que mostrava melhor a alvura do colo. Os seus olhos pretos, meio cerrados, com um olhar provocante, iam procurar no fundo das pupilas de Chalinhy o pensamento, longinquo.

Este homem terno e complexo, que, durante todo o jantar se tinha só preoccupado com a esposa, e que muitas vezes desejava ver terminada uma ligação tão criminosa para a sua consciencia, sentia n'aquelle momento,—como muitas outras vezes—um d'estes impetos de desejo, que produz nas suas victimas a desordem de toda a sua racional energia.

Respondeu n'uma voz quasi imperceptivel:

—«Sabes muito bem que só a ti amo. Vemos-nos tão pouco actualmente, e isto entristece-me tanto... Esta semana tenho ainda que ir a Pont-Yonne passar trez dias. Queres que vamos á nossa casa, antes de partir? Queres, ámanhã...?»

—«Sim,» disse Joanna, muito baixo, e mudando rapidamente de tom, como se a perturbação do amante se tivesse tambem apoderado d'ella «ás quatro horas. Vou libertar a Valentina», disse em voz alta, pronunciando o final da phrase com tanta força, que a senhora de Chalinhy, que estava assentada apenas a alguns passos de distancia, sem que o marido tivesse dado por isso, voltou a cabeça{55} e, desejosa de terminar uma insipida conversa com o dono da casa, o aborrecido Sarliévre, perguntou á prima:

—«Fallam de Valentina, que dizem a meu respeito?»

Foi sentar-se ao lado d'aquella que trahia tão abominavelmente havia um anno, e que se preparava para perder sem remedio logo que estivesse inteiramente senhora do segredo de que conhecia apenas alguns indicios—mas que indicios!

Inclinou-se, como para examinar um lindo bracelete da rival, de modo que as suas cabeças ficavam muito proximas, e n'essa posição observava Chalinhy. Tinha prazer em authenticar o seu dominio sobre o amante, forçando-o a assistir a scenas de intimidade que lhe desagradavam. Bem sabia que n'aquellas occasiões o fazia soffrer; mas acreditava, e não sem logica, que assim desarmaria a sua resistencia.

Somos geralmente tanto mais fracos quanto menos felizes, e ella tinha necessidade de aproveitar toda a fraqueza de Chalinhy para a realisação das combinações que sempre julgára tão longinquas, tão indefinidas, quando o inexperado acontecimento d'essa tarde, corroborado pela indiscutivel mentira da marqueza, vinha tornal-as precisas, pela primeira vez.{56}

 

IV

Realidades

Taes combinações—ou, mais propriamente, tal combinação era o divorcio de Chalinhy. Com a natureza suggestionavel que Joanna lhe conhecia, como não seguira por este caminho desde o principio? O acaso pozera-lhe nas mãos uma tal arma! Não devia tentar utilisal-a? Vimos já que entre os sonhos que lhe attenuavam as amarguras de mulher aviltada, o mais phantastico, mas tambem o mais permanente, era o de um novo casamento. Mas para isso era necessario que fosse livre. Vimos tambem que esperava que essa liberdade viesse da iniciativa do marido, conforme o tal artigo do codigo, mais ou menos rigorosamente interpretado. Esta iniciativa, tinha dito muitas vezes comsigo mesma, tomal-a hia, em todo o caso, ella propria, se algum dia se lhe proporcionasse occasião propicia para um novo casamento, e essa occasião deparava-lh'a o destino.

Era a amante de Chalinhy. Tinha o direito, na conformidade do codigo feminino, de provar que elle a tinha seduzido, por isso que fôra o seu primeiro e unico amante, e que portanto, a devia desposar, se um dia fossem livres...{57}

—Livres!...

—Esta palavra, sempre a mesma, a perseguil-a, como um retornello d'esperança. Livres? Podia sel-o com um processo judiciario, e Chalinhy podia sel-o tambem se a mulher o enganasse e tivesse a prova d'isso. Mas quem lhe forneceria essa prova? Seria ella mesma? A tentação de denunciar o segredo surprehendido tinha ao principio tocado ao de leve o espirito da invejosa mas repeliu-a desde os primeiros momentos. Repelliu-a, e, comtudo, pouco a pouco, foi-se tornando mais persistente. A prova está na insinuação enygmatica, tão perfidamente feita no principio do jantar, em casa da Sarliévre. O sobresalto de pundonor que a levára a repetir depois as suas proprias palavras, dando-lhe uma interpretação anodina, duraria ainda? Tel-o-hia affirmado com a maior energia se a interrogassem quando regressava da soirée—debaixo da impressão da promessa d'uma entrevista com o marido da prima. Mas n'aquelle momento, deitada na cama, e passando em revista atravez do seu espirito tão insignificantes incidentes com tão importantes consequencias, teria apenas objectado que no fim de contas havia muitos meios para chegar a conhecer a verdade.

Pois não era facilimo que o acaso, que lhe deu a conhecer a intriga de Valentina, se reproduzisse com qualquer outra pessoa! E porque é que essa outra pessoa não havia de ser o proprio marido? Uma mulher que tem na sua vida uma aventura occulta, commette geralmente imprudencias; tinha sido uma verdadeira imprudencia a mudança de{58} trem n'aquella tarde; e então a maneira como Valentina explicava o que tinha feito n'essa mesma tarde, equivalia a uma completa confissão.

«Se Chalinhy descobre tudo, não tenho nada de que me penitenciar, e Valentina não poderá lamentar-se se occupo um logar que não póde ser d'ella... Mas o que ha a descobrir? Que tem um amante?

«Quem é? Passa esta semana fóra de Paris, não saberei nada. Tanto melhor, desconfiará menos de mim.

«Ficará para quando voltar... Em todo o caso, ámanhã não deixarei Norberto pronunciar sequer o seu nome... A minha dignidade exige-o. Não saberá nada por mim!...»

Se a perigosa e felina creatura podesse penetrar bem no intimo d'esta resolução,—debaixo de cuja impressão ia dormir—plenamente satisfeita!—reconheceria haver n'ella mais prudencia do que magnanimidade.

Communicar ao marido indicios tão incompletos não era advertir a mulher?

Não teve grande difficuldade, no dia seguinte, em cumprir, na entrevista em local occulto que o adultero Chalinhy designou por «nossa casa», a promessa que fez a si mesma. Não offerece duvida que o desejo de designar assim o magnifico palacio da rua Varenne, dependia muito da graça enebriante que a amante desenvolvesse para com elle n'esse dia. Anciava porque o estonteamento das suas caricias o acompanhasse até Pont-Yonne, junto de Valentina, e impedisse entre elles a renovação{59} da intimidade conjugal, que é o receio permanente da amante d'um homem casado.

Joanna, durante muito tempo, conservou-se alheia a taes receios, emquanto julgou Valentina inteiramente inaccessivel ao amor; a sua opinião, porém, modificou-se bruscamente.

As consequencias da mudança na apreciação do caracter da prima avolumaram-se durante os dias da separação que seguiram a ultima entrevista, e, portanto, só poude ensaiar por todas as fórmas, interrogando subtilmente uns e outros, as mais infructiferas investigações sobre o mysterio cujo rasto havia surprehendido.

Associando o nome d'um novo personagem da sociedade que frequentava, ao da senhora de Chalinhy, não se calariam todos deante d'ella, uns porque era sua parenta muito proxima e outros porque era a rival da gentil marqueza?

Quiz sabel-o a todo o custo, e não conseguiu recolher mais do que os echos dos elogios que conhecia muito bem, por ter soffrido tanto com elles. Passando em revista os frequentadores habituaes dos salões da rua Varenne, não conseguiu tambem fixar as suspeitas n'um unico.

Todos, sem excepção, desde os conquistadores que começavam a envelhecer, como Casal, Vardes, até aos moços «bellos» de nova geração, um Pedro de Eysséne, um Maximo de Portille, tinham para com a marqueza de Chalinhy, as attitudes do natural respeito que se não inventa, que se não finge.

Emana de todo o seu ser, e traduz-se pela maneira{60} especial de olhar uma mulher, de se approximar d'ella, de lhe falar, com a qual outra mulher se não pode enganar, por isso mesmo que teem para com ella modos bem differentes. Por mais imperceptivel que seja a mudança todos a sentem.

Não, não havia entre os individuos que mais conviviam com Valentina, um unico homem de quem Joanna podesse dizer: «É este!» com uma sombra de verosimilhança.

Quando se encontrou novamente com os Chalinhy, no regresso de Pont Yonne, não tinha conseguido colher um unico esclarecimento mais, sobre o mysterio da vida da sua rival, sabia tanto como no momento em que viu as plumas pretas do seu chapeu desapparecerem na carruagem, no meio da rua Saint Honoré; e as ternuras do amante ao tornar a vêr as duas, abraçando-se, tratando-se por tu, dizendo-se mutuamente palavras de amisade, não tinha diminuido tambem.

Um unico ponto se modificou.

A semana de isolamento e de meditação amorteceu definitivamente, ou antes, destruiu por completo os escrupulos que tornavam odiosa para Joanna a idéa da denuncia ao marido.

Todos os rancores do seu amor proprio ulcerado durante tantos annos, por uma comparação constantemente renovada, sempre deprimente, tinham-se condensado num sentimento que ella formulava nas seguintes palavras. Se manifestava em todas ellas a coragem dos seus intimos desejos, não se pronunciava nitidamente senão na ultima phrase.{61}

—«Tanto peor para ella, se tomo a minha desforra. Assiste-me todo o direito de assim proceder desde que tem disfructado todas as venturas e eu nenhumas... No fim de contas ha n'isto um fundo de justiça!»

As mais hediondas perversidades que possam commetter-se entre mulheres, estão já envoltas n'este appello á equidade. Quer se trate da ordem social ou da ordem sentimental, esta palavra justiça, tão solemne, serve geralmente para nos absolver, perante a nossa propria consciencia, da inveja da felicidade dos outros.

É sempre opportuno repetil-a n'uma epocha em que se procura envolver em phrasiologia idealista as mais baixas e menos generosas paixões! Esta galante mulher, d'um tão perverso egoismo, não raciocinava por sua propria conta d'um modo differente dos promotores de revoluções. O seu sophisma era sómente menos perigoso, posto o desejo de prejudicar fosse ainda mais forte.

Se as vontades muito firmes realizam muitas vezes, com felicidade, os seus emprehendimentos é porque applicam toda a attenção das suas faculdades aos menores acontecimentos, e não deixam escapar nenhuma occasião de operar.

Depois de ter passado, mentalmente, em revista todos os processos de espionagem possiveis, Joanna acabou por optar pelo mais simples.

Era tambem o que infallivelmente daria o resultado tão ardentemente desejado: redobrar de intimidade e de persistencia para surprehender Valentina, em sua casa, a todas as horas. A sua perspicacia{62} de mulher saberia descobrir um signal qualquer que lhe permitisse exercer uma acção efficaz. Por experiencia propria tinha aprendido que uma ligação prolongada cria naturalmente habitos d'uma regularidade quasi burgueza. A maior parte dos amantes acabam por ter entrevistas quasi periodicas, em consequencia da necessidade de harmonisar os prazeres clandestinos com os actos do seu viver habitual.

Quando, ao contrario, taes entrevistas são irregulares, é sempre do lado da amante que se deve procurar a causa.

É que os momentos de liberdade nem sempre apparecem, e como esta depende em geral da presença ou ausencia do marido, é na vida d'este que deve procurar-se o desconhecido do viver da mulher. Aquella, porém, cujo marido e senhor caça muitas vezes por semana, escolherá antes uma d'essas tardes em que se julga segura de qualquer surpreza.

Não acontecia assim no caso presente.

Valentina observada? Era-o tão pouco. Podia commetter todas as imprudencias e com inteira segurança.

Mas, sendo dissimulada a ponto de denunciar a existencia de uma intriga amorosa, em presença da attitude que tomava, deveria tambem, em tal caso, ser prudente e por principio.

As verdadeiras hypocritas são assim. Um dos seus caracteristicos habituaes é uma absoluta discordancia entre o seu modo de pensar e de proceder. Nunca a marqueza de Chalinhy se retrahira, como{63} uma pessoa que tem um segredo a occultar na sua existencia.

Era com esta particularidade que Joanna contava. Fez este raciocinio simples mas evidente: entre os indicios que a tinham decidido a seguir sua prima de longe, quando a fosse esperar no grande armazem, o mais decisivo era o da sua maneira de vestir.

Pareceu-lhe que havia n'ella a intenção de passar despercebida.

Pensou que, no dia em que Valentina se preparasse de novo para a mysteriosa expedição, se vestiria da mesma fórma, senão com o mesmo vestido pelo menos com egual severidade.

Ainda não tinha passado uma semana, depois do regresso dos primos, e reconhecia já que o seu feminino talento de inducção lhe havia suggerido o melhor systema. Só lhe seria necessaria alguma paciencia. Á inveja que é por natureza uma paixão silenciosa e alimentada de longas impressões, raras vezes lhe falta.

Joanna nem mesmo teve tempo de empregar a sua.

Foi á rua Varenne, n'aquelle dia, uma segunda feira, pelas onze horas da manhã, para abraçar a «cara prima» antes d'almoçar e combinar com ella o que deviam fazer n'essa tarde. Treze dias antes, precizamente á mesma hora, mas então por méro acaso, fez a Valentina a mesma pergunta: «Vamos sahir juntas?» e que ella lhe respondeu. «Não posso» dando como desculpa ter que fazer algumas visitas. Desde que entrára no gabinete reservado{64} junto do quarto de Valentina, no qual esta costumava, antes do almoço, tratar da sua correspondencia, teve Joanna um grande presentimento. A prima tinha o mesmo vestido que levava no celebre dia. A sua emoção era tão viva que lhe tremia a voz ao formular uma tão simples e natural pergunta. Tão convencida estava antecipadamente de que a resposta seria: «Não posso» que ao ouvil-a pronunciou apenas estas ligeiras palavras de insistencia: «Porque? Que tens que fazer?» ás quaes a outra oppoz uma explicação ainda mais vaga.

«—Não, effectivamente não posso; tenho umas duas ou tres visitas a fazer que não devo de fórma nenhuma adiar.»

Joanna desistiu de a interrogar mais com receio de suscitar uma desconfiança, que poderia deitar por terra o plano concebido pelo seu espirito, para o pôr em execução opportunamente.

Consistia em, no dia que surprehendesse os signaes reveladores, esperar, occulta dentro d'uma carruagem com os estóres corridos, á esquina do «boulevard» dos Invalidos para a rua Varenne, e seguir a equipagem da marqueza de Chalinhy quando esta sahisse de casa.

A invejosa pensára primeiramente, n'um phrenesi de saber a verdade, em empregar este meio brutal sem esperar os taes signaes, e todos os dias, até obter o resultado desejado. O seu bom senso, porém advertiu-a de que uma operação d'esta natureza não tinha probabilidades de exito, se fosse repetida muitas vezes.

Uma carruagem de aluguer que segue um «coupé»{65} particular não se nota á primeira vez; mas á terceira ou quarta se não é apercebida pela pessoa que vae dentro do «coupé», sel-o-ha pelo cocheiro ou trintanario.

N'aquelle dia, tendo surprehendido a rival com uma toilette tão significativa para ella, que constituia quasi a certeza da renovação da scena anterior, como poderia Joanna hesitar?

Deixou a prima ás 11 horas e meia.

Sabia que almoçava ao meio dia e um quarto, que habitualmente mandava preparar a carrruagem ás duas e meia.

Desde a uma hora que estava no posto de observação anteriormente fixado, tendo tido a coragem, muito de admirar n'uma senhora da sua educação, de realizar com o cocheiro d'um trem de praça um d'estes pactos que estabelecem entre a pessoa que o propõe e a que o acceita, uma muito aviltante cumplicidade.

—«O seu cavallo será capaz de seguir uma boa parelha que vá com toda a velocidade?...» perguntou-lhe Joanna, depois de concluido o ajuste.

—«Junte mais dez francos á conta, minha senhora,» respondeu o homem, «e juro que, em toda a cidade de Paris, não nos escapará.»

Esta familiaridade da parte d'uma creatura de tão infima condição, a cujo nivel o dialogo travado a rebaixára, fez ruborisar a baroneza de Node. Não renunciou, porém, por tão pouco, a um projecto de que esperava um resultado tão simples quão definitivo e completo.

Foi baldado o receio de que o rocinante atrelado{66} á carruagem de aluguer não podesse acompanhar a magnifica parelha de cavallos inglezes da prima, e a fanfarronada do cocheiro não teve occasião de ser posta em experiencia, pela simples razão de que ás duas horas a marqueza de Chalinhy sahia effectivamente do palacio, mas a pé.

Do seu carro e atravez dos intersticios do pedaço de seda azul, uzado e sujo, que a mão nervosa apenas affastava, via a prima caminhar pela rua adiante, lenta e tranquillamente, com o passo d'uma mulher que aproveita o bom tempo para dar um passeio hygienico. Não pareceu mesmo ter reparado na anomalia que representava, n'um bairro tão pouco propicio ás aventuras parisienses, a permanencia d'uma carruagem com os estores corridos, immovel, no extremo da pacata rua Varenne!

Atravessou o «boulevard», sem se voltar, e chegou ao pequeno jardim dos Invalidos, que transpoz, sempre com o mesmo passo indifferente.

A baroneza de Node, que disse ao cocheiro que descesse a avenida do mesmo nome, a passo, não perdia um unico gesto da passeante.

A certeza do bom exito começava já a abandonal-a. Uma tia das duas, a velha condessa de Nerestaing, morava no caes d'Orsay, junto da esplanada.

Iria Valentina, simplesmente, visitar aquella velha fidalga?

Mas não. Em logar de seguir n'esta direcção, dirigiu-se para o «boulevard» de Tour-Maubourg. Chegando ali, mandou tambem parar uma carruagem{67} que passava. O coração de Joanna batia com extraordinaria violencia.

Decorridos alguns momentos apenas, saberia se a prima ia fazer uma excursão sugerida durante o passeio, ou se ia á entrevista secreta, que era a unica explicação plausivel do abandono da sua equipagem no outro dia, e da sua mentira.

A carruagem que alugou tinha a caixa pintada de amarello, o que permittia seguil-a com tanta mais facilidade, quanto era certo que avançava ao trote lento d'um cavallo muito cançado.

Seguiu ao longo do «boulevard» Tour-Maubourg primeiro, depois pela avenida Duquesne, para contornar a egreja de S. Francisco Xavier, e ganhar um pouco adeante a comprida arteria popular da rua Vaugirard, que não abandonou mais até ao Luxemburgo.

Joanna, cuja carruagem rodava a uns vinte metros á retaguarda, pouco mais ou menos, estava agora convencida que d'esta vez tinha encontrado a verdadeira pista. Viu a carruagem amarella entrar na rua de Medecis, e na de Soufflot, seguir ao longo do muro do vasto lyceu Henrique IV. Nomes que a baroneza de Node nunca tinha sequer visto desenrolavam-se nas placas das esquinas: «Rua Clovis, R. Etrapa de Thourin... Rua Mouffetard». Mais algumas voltas ainda, e atravessada a concorrida arteria da rua Monge, a carruagem attingia o extremo da rua Lacépède que desemboca em frente do jardim das Plantas.

Ao chegar ali parou. A marqueza de Chalinhy desceu e pagou a corrida, com uma moeda de antemão{68} preparada—um outro pequeno signal indicativo de que desejava desembaraçar-se do cocheiro o mais brevemente possivel.

—«Não iria á Piedade, cuja fachada cinzenta se erguia mais á direita?» Joanna, cuja carruagem tinha continuado a andar, e agora estava parada junto da grade do jardim, teve por um momento a idéa que a prima ia entrar no hospital. A hypothese d'uma visita de caridade que lhe passara já pela mente com um certo receio, e fôra posta de parte pelo seu odio, era então verdadeira?... Ainda não. A senhora de Chalinhy esperou no meio da rua que a carruagem partisse e seguiu a pé pelo estreito passeio da rua Lacépède. Teria dado uns cincoenta passos, quando muito, e Joanna viu-a bater á porta d'uma pequena casa com dois andares. A porta abriu-se. A marqueza, que até ahi parecia completamente extranha a qualquer desejo de se occultar, lançou em torno um olhar investigador, como de quem quer ficar bem certa de que não foi reconhecida—e desappareceu por detraz do batente que se fechou logo. A baroneza de Node presenceou tudo, tão bem quanto lh'o permittia o afastamento forçado do seu posto de observação, com uma alegria cruel, a que se misturava, porém, muito espanto, para ser completa.

Por experiencia propria e pelas confidencias que alguns homens lhe tinham feito, estava perfeitamente industriada nas condições habituaes das secretas felicidades prohibidas da alta sociedade parisiense.

Como não havia, pois, de ficar desconcertada,{69} até ao assombro, ao ver o bairro que a prima escolhera para as suas entrevistas d'amor. Joanna desceu da carruagem, e, caminhando ao longo do estreito passeio que a marqueza de Chalinhy percorrera alguns momentos antes, observava os modestos estabelecimentos d'este começo do arrabalde de S. Marçal: aqui uma lavanderia, com pouca roupa e pobre; mais adeante uma lojéca de revendedor; ao fundo uma serralharia de meio preço, e n'outra parte uma casa de venda de jornaes a dez réis. A accumulação e irregularidade das construcções, sem duvida contemporaneas da epoca em que Madame de Miramion construiu todo o bairro de S. Pelagio, hoje destruido, a humidade dos passeios, os resumbramentos dos descorados rebocos, tudo no aspecto da velha rua attestava a humildade dos moradores, para os quaes as visitas mais ou menos regulares d'uma mulher nova, bonita, superiormente elegante, como era a marqueza, devia constituir um acontecimento.

O proprio aspecto da casa em que acabava de entrar era de natureza a provocar a curiosidade e, por consequencia, a investigação, com todas as consequencias dos artificios escandalosos para extorquir dinheiro que quasi sempre d'ella derivam.

Era uma casa quadrada, isolada entre duas construcções mais elevadas, ás quaes se ligava por um muro de regular altura. Os ramos amarellados de meia duzia de tilias bastante desenvolvidas, ultrapassando o cimo do muro, denunciavam o luxo de um pequeno jardim.

Estes estreitos e quasi microscopicos talhões de{70} verdura abundavam ainda, ha vinte e cinco annos, n'esta vertente sudeste do Monte de Santa Genoveva.

Eram os minusculos destroços, salvos por acaso, dos vastos parques pertencentes a recolhimentos que George Sand descreveu com tanta poesia na «Historia da minha vida». A communidade das Augustinhas Inglezas, onde ella foi educada, era muito proxima, como muito proximo era tambem o immenso quintal da Misericordia, de que elogia as uvas douradas e os cravos de differentes côres. Depois, estes pavilhões com jardins teem desapparecido uns apóz outros. Este da extremidade da rua Lacépède não devia ter sido mais notavel do que os da rua Rollin ou Boulangers. Hoje, a sua conservação é uma anomalia que necessariamente attrahe as attenções.

A baroneza de Node passou e tornou a passar, muitas vezes, pelo passeio fronteiro, para examinar a extranha habitação com uma attenção que cada vez augmentava mais a sua surpreza. A casa tinha duas janellas no rez-do-chão, uma de cada lado da porta, e tres em cada um dos andares superiores. As do rez-do-chão eram guarnecidas de vidros despolidos e protegidas por estóres; e as sacadas do primeiro e segundo andares não tinham outra particularidade senão aquella ligeira differença de côr dos vidros que attestam a grande antiguidade de certos caixilhos.

Eram guarnecidas por bambinellas brancas, com ramagens, cahidas, e com reposteiros de estôfo, apanhados por braçadeiras, e dos quaes se via sómente{71} o fôrro de setineta crême e a franja, vermelha e azul, que os orlava.

Os passeantes estranhos ao bairro, se os havia, que se detivessem a observar uma tal frontaria, imaginavam sem duvida, por detraz d'ella uma d'estas doutas habitações burguezas, d'um sabio ou dum professor, como ha muitas entre o Luxemburgo e o Jardim das Plantas, em consequencia da proximidade do Muzeu, dos dois grandes lyceus, da Sorbonne. Mas que um tal logar podesse servir de abrigo aos amores d'uma marqueza authentica, vinda ali d'um dos mais nobres palacios do arrabalde de São Germano, constituia uma hypothese tão perfeitamente inverosimil, que era preciso que Joanna de Node fizesse um exforço enorme para se convencer de que ella estava lá dentro, e que tinha visto perfeitamente Valentina de Chalinhy collocar a mão sobre o punho de ferro, que existia a um canto da porta, á moda antiga, para o fazer soar,—empurrar a porta ao meio da qual um friso de cobre marcava a abertura d'uma caixa para cartas, destinada a receber a correspondencia, sem que o carteiro entrasse—transpôr a soleira, elevada, por tres degraus, do pavimento da rua... N'aquelle momento lá estava ella, n'um d'aquelles compartimentos fechados. E com quem?

Qual seria o homem do seu meio, que chegou a esta casa alguns momentos antes d'ella? Assim devia ser, visto que lhe abriram a porta.

Ou então era ali o abrigo d'alguma aventura ainda mais romanesca? Teria Valentina, por uma serie de circumstancias que ninguem das suas relações{72} podia suppôr, procurado uma ligação fóra da sua casta? Juntar-se-hia ali com ella um rapaz novo que nunca tivesse ido a sua casa? Que se tratava d'uma intriga amorosa, não havia a menor duvida. O que poderia oppor-se a que viesse a esta rua, pobre, mas perfeitamente decente, se fosse ali levada por um motivo justificado? E depois, o aspecto senão rico pelo menos muito confortavel da casa, não excluia tambem qualquer idéa d'uma visita de caridade? Valentina estava junto d'um amante. Mas que amante?

A violencia da curiosidade de Joanna era de tal ordem, que, esquecendo completamente a prudencia, ficou immovel, no passeio, com a cabeça levantada, em risco de ser vista do interior, se alguem se lembrasse de olhar para a rua atravez das bambinellas. Teria talvez, na febre de tudo saber, batido á porta mysteriosa, offerecido dinheiro aos lojistas visinhos para os fazer fallar, se um novo acontecimento não viesse de repente responder á pergunta tantas vezes feita: a paragem d'uma carruagem em frente d'essa casa, cuja frontaria enygmatica e muda ella observava com o olhar.

Era um coupé d'aluguer, do qual sahiu um homem ainda novo e que parecia preocupado por ter chegado tarde, por isso que, depois de bater á porta, durante o tempo que demoravam a abrir-lh'a, consultou o relogio e fez um significativo movimento de cabeça. Aberta a porta, entrou precipitadamente, abandonando o batente que se fechou logo, mas não com tanta rapidez que Joanna de{73} Node não tivesse tempo de ver quadros, columnas e uma escada atapetada—mas não distinguindo quem veio abrir a porta. Com difficuldade conseguiu observar os traços physionomicos do homem: uma physionomia intelligente, magro, cabellos ainda pretos, apparentando ter uns 45 annos, com uns olhos tão negros que lhe pareceram d'um brilho singular. Os seus olhares cruzaram-se e, debaixo da impressão do d'elle, Joanna córou. Para não parecer que exercia a espionagem, deu alguns passos para a frente, como uma pessoa que não está bem certa no caminho. A que classe social pertenceria este homem que, sem duvida, vinha ter uma entrevista com Valentina de Chalinhy?

Tinha-lhe parecido muito bem posto, e, comtudo não lhe havia dado a sensação d'uma pessoa pertencente ao meio em que vivia.

Deu ainda alguns passos na direcção da rua Monge, com a idéia de que o desconhecido a tivesse notado e abrisse talvez a sacada para verificar se ainda ali se conservava. Voltou a cabeça e reconheceu que as janellas da pequena habitação continuavam fechadas e que a carruagem que conduziu o homem se não ia embora. Apoderou-se d'ella a tentação de não se retirar e esperar que Valentina ou o desconhecido reapparecessem, ou até mesmo os dois juntos.

Mas que mais tinha a esperar? Para que expôr-se a avisa-los. Tinha já a tão desejada prova. Restava-lhe apenas saber o uso que devia fazer d'ella. Subiu para uma carruagem e voltou para o Paris aristocratico—o Paris de sua prima e d'ella—e{74} a imagem do estranho sitio em que aquella occultava o romance da sua vida ter-lhe-hia parecido um sonho se a perfida voz interior á qual no primeiro sobresalto de consciencia respondeu: «não farei isso» não tivesse recomeçado a pronunciar palavras muito nitidas, muito precisas, misturadas ás realidades da sua vida presente e aos mais positivos interesses do futuro. Tinha meio de perder Valentina para com Norberto. Não o utilisaria?