CAPITULO TERCEIRO
AS INVASÕES DOS BARBAROS
O mestre de Socrates, Anaxagoras, que professou a philosophia em Athenas cinco seculos antes de Christo, ensinava aos seus discipulos este principio: o Espirito começou pacientemente a revolução, que deve realisar-se; os seus progressos são rapidos, sel-o-ão cada vez mais.
Este espirito, sem duvida, era a lei da perfectibilidade humana, bem evidente nos seus resultados, embora enygmatica nas proprias origens.
O periodo historico da Edade-Media resulta da acção reciproca das tres manifestações do espirito, representadas pelo paganismo, pelo christianismo e pelos barbaros. É a longa phase das suas luctas, das suas concessões mutuas, das suas combinações, verdadeira endosmose e exosmose de idéas, que termina pela constituição homogenea das sociedades modernas.
A Edade-Media começou no seculo V, definida pela primeira invasão dos barbaros, germanos, hunos e alanos, e dura até á tomada de Constantinopla, em 1453, pelos turcos de Mahomet II. Estes dez seculos, sombrios e tristes, infundem ainda hoje, apesar da distancia do tempo, um sentimento vago de pavor e de melancholia, taes são os flagellos, as guerras, as miserias, como eguaes não houve n'outra quadra historica, que n'este espaço immenso, principalmente até ao seculo X, assolaram a humanidade.
A acção reciproca do paganismo e do Christianismo já procurámos esboçal-a nos anteriores capitulos. Vamos referir-nos, agora, aos barbaros, elemento novo e activo, causa de poderosa transformação social e moral sem duvida, que vem entrar directa e profundamente na scena da historia. De entre os tres, como é de justiça, reconheçamos a hegemonia ao Christianismo.
Já no tempo de Constantino hordas numerosas de barbaros, mais ou menos organisadas em nações, se distribuiam pelas vastas fronteiras do Imperio, desde a cordilheira do Caucaso até á embocadura do Rheno. Os hunos e os germanos constituiam a primeira zona d'estes povos, apertados entre os limites do Imperio e outras zonas de barbaros, escalonadas para o norte da Europa. Os hunos de raça mongolica occupavam as vertentes septentrionaes do Caucaso e estendiam-se para o nordeste. Os godos guarneciam a costa norte do Mar Negro e mais além, para o occidente, a margem esquerda do Danubio; os vandalos, os allemanos, os francos e frisões, depois, até á embocadura do Rheno, fechavam o circuito, cheio de perigos previstos e tremendos.
De quando em quando, esta massa de innumeraveis guerreiros trasbordava em alguns pontos e passava as fronteiras romanas; comtudo, até ao seculo V o Imperio resistira. Derrotava-os, dominava-os e concedia-lhes até vastas provincias, confiando-lhes a guarda d'essas fronteiras, ameaçadas por outras hordas. A acção da diplomacia imperial completava a dos exercitos, semeando intrigas e dissensões entre as nações barbaras e os mais poderosos chefes, assoldadando generaes e guerreiros; empregando, emfim, todos os meios de intriga e de veniaga que dividem as forças do inimigo.
Assim, correram os factos até ao fim do seculo IV, quando um movimento geral dos hunos, promovido por causas particulares internas, arremessou estas grandes massas nomadas e os alanos, sobre os ostrogodos e os visigodos. Os primeiros submetteram-se ao jugo dos hunos. Os visigodos vencidos entraram no Imperio do Oriente, obtendo terras a pedido de Ulphilas, bispo godo ariano. Revoltados em breve, bateram o Imperador Valente e mataram-n'o em Andrinopla. A habilidade do Imperador Theodosio dominou-os e deteve-lhes a expansão conquistadora; mas esta primeira investida deve ser considerada o facto primordial da invasão dos barbaros.
Theodosio organisou o Imperio, que, durante os dezeseis annos do seu reinado, gosou tranquillidade relativa; todavia, o movimento dos hunos e dos alanos para o occidente communicou-se a todas as nações barbaras, repercutindo-se até ao Rheno.
Logo no principio do seculo V os visigodos de Alarico assolaram a Italia e pozeram cêrco a Roma. Quasi a seguir, os suevos de Radagués precipitaram-se como nova onda sobre a peninsula, sendo vencidos por Stilicon, da raça vandala, ao serviço do Imperador Honorio. Os visigodos, seis annos depois, apparecem novamente e assediam Roma. O grande chefe Alarico morre, quando preparava a conquista da Sicilia.
Entretanto, Attila, o famoso chefe dos hunos, marchava sobre a França. Romanos, francos e godos vencem-n'o em Arles. Attila retira sobre a Italia, devasta as regiões do Pó, desce sobre a cidade de Roma, que foi salva pelo Papa Leão o Grande. A morte de Attila dissolveu a invasão dos hunos, cuja crueldade e selvageria ficaram historicas.
Outra horda de barbaros vem devastar a Italia: os vandalos de Genserico tomam e saqueiam a cidade de Roma. A esta onda segue-se outra, os herulos de Odoacro. Novo saque de Roma, novas devastações precedem a coroação do chefe herulo, como Rei da Italia. A queda do Imperio do Oriente, pela desmembração das respectivas provincias, tornou-se emfim um facto consummado.
Quasi no fim do seculo V, os ostrogodos de Theodorico fecharam o primeiro periodo das invasões barbaras. Odoacro é vencido e morto. A restauração do Imperio do Occidente já não era possivel; mas Theodorico consegue reconstituir, nos antigos moldes imperiaes, um vasto dominio, comprehendendo a Italia, limitado ao oriente pelo Drina, para além o Imperio Byzantino, ao norte pelo Danubio, para além os lombardos e os gepides, e a oeste definido pelas nações dos francos, dos borguinhões e dos visigodos.
Tal é em succinto o quadro, a pintura do estado de guerras e de miserias, que atravessaram os paizes e os povos do antigo Imperio Romano, reduzido no fim do seculo V ao Imperio Byzantino, no extremo oriente da Europa. A estes movimentos dos barbaros nos referiremos apenas, porque os outros, na Bretanha, na Gallia e na Hespanha, tiveram n'esse periodo pequena importancia sobre a arte christã, que na realidade nasceu em Italia e no Imperio Byzantino.
Todos estes barbaros, que em ondas successivas se precipitaram sobre o Imperio do Occidente, exceptuando os hunos e os alanos, constituiam ramos da mesma raça aryana, de que os gregos e os romanos provinham tambem, descendentes mais ou menos puros e directos de emigrações remotissimas. Se as linguas d'estas nações barbaras eram, pois, entre si incomprehensiveis, embora da mesma familia, os caracteres individuaes e ethnicos apresentavam intimas analogias.
Mais ou menos nomadas, as nações barbaras possuiam energico espirito bellicoso. Rudes e destemidas, embora não selvagens ou crueis, essas vastas confederações nacionaes procuravam em luctas aventurosas satisfazer o espirito guerreiro, que mais tarde singularmente manifestaram duas instituições suas: o feudalismo e a cavallaria.
O polytheismo, entre ellas, tivera o mesmo caracter, antes de se converterem á heresia do arianismo. A religião manifestava entre os barbaros um espirito poetico e nebuloso, que lhe davam os bardos, como entre os celtas cantando hymnos, em que eram glorificados os deuses e os grandes actos dos heroes nacionaes. Foram estes bardos, que na Edade-Media deram origem aos famosos menestreis.
Homens robustos, de caracter franco e aberto, leaes como companheiros, fieis aos seus chefes, estes barbaros, como lhes chamavam os romanos, nutriam enraizados no espirito o amor da liberdade e o respeito da propria dignidade, professando, como se diria hoje, um energico individualismo. A este amor da liberdade individual se devem attribuir em grande parte alguns factos importantes da historia, como, por exemplo, a constituição das communas e principalmente o movimento da reforma religiosa, a bella e grande lucta da theocracia e da democracia christãs, em que esta ficou vencedora, a final, no seculo XVI.
Assim, o caracter disciplinado, a dedicação pelos chefes, em geral escolhidos pelo valor e por altos feitos, não excluiam uma organisação social democratica, que se manifestava em reuniões periodicas de guerreiros, onde se discutiam e resolviam as questões de interesse commum da tribu. Estas qualidades singulares dos barbaros, bem oppostas ás dos romanos da decadencia, caracterisam ainda hoje as nações do norte da Europa, suas legitimas descendentes.
O amor da liberdade fraccionava as nacionalidades barbaras, constituidas pela federação de pequenos estados ou tribus, onde era possivel a vida local. Communicava-lhes um certo espirito nomada, inimigo dos grandes centros; exigia-lhes uma vida separada e independente de pequenos senhores, avessos ao trabalho, ignorantes por indolencia não por desprezo das artes e das sciencias, só ardentes e activos na guerra, na caça e no exercicio da soberania. Sentem-se n'estes traços os futuros barões feudaes. Entregando o trabalho penoso aos escravos e ás mulheres, pelas quaes aliás professavam certo respeito, considerando-as investidas de dons propheticos, estes barbaros traziam em si o germen, que, ao calor do Christianismo, devia produzir a consideração, singular e antinomica com outros costumes, e o amor mystico e respeitoso pela mulher no tempo da cavallaria.
Estas virtudes, sem duvida, tinham reverso; os barbaros eram irasciveis, ebrios, jogadores e libertinos; ainda n'isto se manifestavam os futuros barões feudaes. Tal era o caracter dos povos, que assolaram o Imperio do Occidente no seculo V, não falando nos hunos e nos alanos, povos de outra raça que foram um episodio na historia da Europa. Ora, estas qualidades, no exercicio da intelligencia e nas diversas manifestações sociaes, tiveram grande influencia no organismo da Edade-Media, e logicamente sobre a arte; influencia mais accentuada nos periodos romanico e ogival.
Quando os barbaros tocavam a antiga civilisação romana, eram fascinados por ella. É um facto incontestavel na historia. A primeira demonstração deu-se na constituição do reino godo de Italia por Theodorico, um precursor de Carlos Magno e como elle um barbaro de genio. Educado na côrte imperial de Constantinopla, apreciára o immenso valor da organisação social e do direito romanos, offuscados e desprestigiados pela pequenez dos homens. A grandeza do espirito de Theodorico avalia-se bem por um só facto, extraordinario e caracteristico. Legislando a justiça no seu vasto imperio, decretou que as questões suscitadas entre dois godos, seriam resolvidas por um godo, entre um romano e um godo por um romano, entre romanos por outro romano; assim, conclue o barbaro: cada um terá o seu direito garantido e, apesar da differença dos juizes, uma só justiça reinará para todo o mundo. E, todavia, os godos eram os conquistadores e os romanos os vencidos!
Este espirito de justiça nascia do amor pela liberdade e do respeito pela dignidade humana, que é a sua consequencia logica. Era a manifestação esplendida do caracter fundamental da sua raça, que os barbaros traziam para a caduca civilisação romana, recebendo em troca tradições de gloria, sabias instituições e um direito escripto, que ainda hoje causa a admiração do mundo moderno. Na religião, Theodorico, um sectario das doutrinas de Ario, idéa perseguida nos seus adeptos e fulminada nos concilios, mostra se tolerante. A Italia era orthodoxa e continua a professar as suas doutrinas. Os christãos elevam templos por toda a parte, gosam de inteira liberdade de culto. O barbaro só vacilla um momento no fim da sua vida, como represalia ao Imperador do Oriente, que perseguia o arianismo com violencia e crueldade.
O seu governo pacifico e justo restabelece a ordem, desenvolve a riqueza, fomenta o commercio interno e externo. As antigas instituições romanas são respeitadas, consultadas até. Os cargos civis são para os romanos, os militares para os godos, que assim se conservam separados como casta guerreira. O direito romano serve de base ao novo direito gothico. Emfim, a combinação das tres manifestações do Espirito, segundo a expressão de Anaxagoras, começa a dar homogeneidade a uma nova civilisação.
O reinado de Theodorico é, pois, uma tentativa da fusão de principios, um relampago de luz serena e clara que irrompe do seio tenebroso dos primeiros tempos da Edade-Media. Dentro de dois seculos constituir-se-ha o Santo Imperio de Carlos Magno.
PARTE SEGUNDA
OS ESTYLOS CHRISTÃOS PRIMITIVOS
V SECULO AO X SECULO
CAPITULO PRIMEIRO
ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO LATINO
O Christianismo saíra das catacumbas nos meiados do seculo IV. Quasi todo o seculo seguinte passara-se em invasões successivas. Hordas de barbaros precipitaram-se sobre a Italia, talando, destruindo e roubando o que umas ás outras deixavam. As perseguições religiosas haviam cessado; mas a heresia de Ario perturbava os espiritos, e as invasões accumulavam morticinios e flagellos. O trabalho não tinha socego, a agricultura abandonada decaíra, a propriedade estava ameaçada e a industria e o commercio esmoreciam, asphixiados por pesada atmosphera de fogo, de sangue e de incerteza. Não é n'estas condições da sociedade e do espirito humano que as artes se desenvolvem e florescem. O Estylo Latino, que principiára a formar-se nos meiados do seculo IV, constitui-se lentamente no seculo seguinte.
A derrota do paganismo inutilisára os templos e mutilára as estatuas dos antigos deuses. Ora, parece-nos haver comprehendido na historia das religiões, que a vencedora esmaga a doutrina vencida, persegue-lhe ferozmente os adeptos e, como os antigos exercitos definiam a victoria dormindo sobre o campo da batalha, as religiões triumphantes occupam e apropriam ao seu culto os antigos templos profanados e desertos.
Este principio deriva de rasões logicas e de qualidades ou defeitos da propria alma humana. O vencedor expolia o vencido; vê-se isto ainda nos tempos modernos. O espirito da nova religião sente a necessidade orgulhosa de fazer adorar o seu Deus nos mesmos recintos e altares, onde os idolatras adoravam os deuses vencidos. Além d'isso, os templos inuteis offerecem, em regra, condições de construcção adequadas ás praticas religiosas; ora, em todas as religiões mais perfeitas existem usos e praticas similhantes. O vencedor não tem tempo para construir logo a principio, encontra sanctuarios em sitios escolhidos e convenientes, aproveita-os. É uma rasão. Assim, nós vemos os arabes de Hespanha aproveitarem as egrejas godas, transformando-as em mesquitas, onde o Alcorão occupa o logar da Biblia; mesquitas que, depois, se tornam templos christãos. Assim, os turcos de Mahomet II, tomando Constantinopla, fizeram de Santa Sophia e dos templos byzantinos do Oriente conquistado as suas primeiras mesquitas.
O Christianismo não procedeu por esta fórma, salvo raras excepções. Em primeiro logar, porque o espirito e os ritos da nova religião eram assás differentes dos do paganismo. A expressão da arte classica não dizia bem com a essencia do culto christão. Além d'isso, os templos classicos eram pouco espaçosos. O naos, a cella ou sanctuario dos deuses, era pequeno; o que dava amplidão ao tempo classico, o pro-naos, o portico que mais ou menos envolvia o naos, correspondia ao culto e aos ritos pagãos; não se amoldava, porém, aos do Christianismo, cujas multidões, sempre crescentes, precisavam reunir-se amiudadas vezes para os exercicios divinos.
As circumstancias desgraçadas da sociedade romana, esboçadas anteriormente, proporcionaram aos christãos os grandes edificios das basilicas, logares de reuniões publicas, tribunaes, mercados e bolsas de commercio e bancarias, se em referencia a esses tempos se podem empregar as ultimas expressões tão modernas.
O amortecimento da actividade social e a extincção da vida politica dos cidadãos, que os chamavam aos foros junto dos quaes existiam as basilicas, o abatimento do commercio e das industrias, emfim, as condições adversas dos seculos IV e V tornaram quasi inuteis estes enormes edificios, outr'ora correspondendo a necessidades publicas e regorgitando de cidadãos, na plena actividade de trabalho em variadas operações commerciaes. Os christãos preponderantes em Roma, logo no principio do imperio de Constantino, começaram a apropriar-se d'estes edificios do Estado, adequando-os ao culto e aos ritos da nova religião.
As basilicas romanas produziram, pois, a fórma e o estylo das primeiras egrejas christãs. Sobre as respectivas disposições existiam duvidas, que a critica e a inducção procuraram resolver; assim, a reconstituição d'estes edificios parece ser hoje questão resolvida. A importancia que tiveram sobre a arte christã, a grandeza e a magnificencia dos que existem hoje, principalmente em Roma, obrigam-nos a mais desenvolvida descripção.
Vitruvio deu-nos as regras principaes da construcção d'estes monumentos e esclareceu-nos sobre os seus empregos. O architecto aconselha que as basilicas sejam levantadas em sitios quentes e amenos, para facilitar a reunião dos commerciantes. Os seus fins estão, pois, definidos, pelo menos no ultimo seculo antes de Christo em que viveu o celebre architecto romano. As regras são incompletas, sem deixarem de ser tambem interessantes, porque traduzem o espirito methodico e as proporções prefixadas e tradicionaes da arte classica.
A largura das basilicas, diz Vitruvio, deve ser pelo menos, o terço do seu comprimento. Adequadas ao terreno, que, se for longo, obrigará a construir chalcidicos nos extremos da basilica. As columnas do pavimento terreo terão altura egual á largura dos porticos, como o architecto chama ás naves lateraes, que a seu turno devem offerecer approximadamente um terço da largura do corpo ou nave central. As columnas superiores, as das galerias sobrepostas aos porticos, serão um quarto mais baixas do que as do pavimento terreo. O parapeito, lançado entre as columnas d'estas galerias, offerecerá altura sufficiente para que as pessoas de cima não sejam vistas pelas de baixo. Por muito incompletos que pareçam, estes pormenores seriam sufficientes para dar approximada idéa dos fins e das disposições d'estes edificios classicos.
Schema de uma basilica romana
O nome de basilicas parece indicar-lhes origem na Grecia, onde provavelmente existiram construcções com fins equivalentes; comtudo, pode tambem definir-lhes a grandeza e a magnificencia, visto que a palavra grega expressa o poder real.
A basilica apparece nos ultimos tempos da republica. Construida nas proximidades dos foros, grandes praças onde existia a tribuna dos oradores e se discutiam e resolviam os negocios publicos, a basilica parece ter sido um annexo indispensavel d'estes foros, recinto abrigado e coberto para occasiões de intemperie. A mais antiga em Roma, a Basilica Porcia, suppõe-se ter sido construida cêrca de duzentos annos antes de Christo. Depois, como mais importantes, contavam-se a Basilica Emilia, construida por Fulvio, a Basilica Simpronia, elevada por Tito Sempronio, censor no ultimo seculo antes de Christo. Estas construcções faziam parte das dadivas, com que os politicos e os ambiciosos do tempo procuravam conquistar as boas graças do povo.
Os imperadores, depois, elevaram muitas. Cesar, Trajano, e por ultimo Constantino construiram-nas em Roma. Cidades de importancia secundaria possuiam basilicas. Assim, pudémos ver ainda os restos da que existiu em Pompeia, junto do pequeno forum. Ora, esta cidade era, como outras, semeadas nas margens do golpho de Napoles, uma verdadeira estação de verão, provavelmente do caracter que hoje têem Nice e as povoações da Côte-d'Azur, sobre o Mediterraneo.
A basilica de Pompeia constitue um excellente exemplar, porque demonstra que nas primitivas não existia ábside. No fim da nave principal, uma tribuna quadrada, avançando sobre o transepto e de altura superior á de um homem de regular estatura, constituia, decerto, o espaço reservado para o tribunal. Nas ultimas basilicas posteriormente construidas, por exemplo a de Constantino, já apparece a ábside saliente, abobadada em meia cupula, para installação dos juizes.
A descripção d'esta ultima basilica dar-nos-á idéa clara da disposição interior e grandeza d'esta natureza de construcções. Media cêrca de 90 metros de comprido, por 75 metros de largo. Em geral, as basilicas offereciam consideravel superficie. Segundo o maior comprimento, eram divididas em tres naves, cortadas perpendicularmente por tres transeptos. Na extremidade dos eixos da nave e do transepto centraes existia uma ábside; no outro extremo, em face das ábsides, abriam-se as entradas, das quaes a principal dava sobre a Via-Sacra.
Reunindo estes elementos, podemos figurar com grande exactidão as disposições internas das basilicas. Em geral, Reunindo estes elementos, podemos figurar com grande exactidão as disposições internas das basilicas. Em geral, eram vastos edificios, constituidos por uma nave central terminada em ábside e ladeada de porticos sobrepostos em dois pavimentos, que attingiam a altura do corpo central. Este conjunto, exceptuando a ábside abobadada em meia cupula, tinha cobertura de madeira com as traves a descoberto.
Nos tempos primitivos, pelo menos, o edificio cercado de porticos era accessivel por todos os pontos. Depois, as columnas periphericas foram substituidas por paredes, onde havia portas symetricas nos extremos das naves em face das ábsides.
No pavimento terreo reunia-se o tribunal, occupando a ábside e o transepto annexo; os negocios commerciaes e bancarios d'aquelle tempo tratavam-se na grande nave central; nos porticos inferiores lateraes estavam os logares dos vendedores, á similhança dos bazares orientaes. Os porticos superiores constituiam logar de reunião para ociosos e para os que procuravam as diversões da sociedade e da conversação.
Para bem fixar os caracteres das basilicas, apresentamos um claro schema, onde todos os respectivos elementos estão expressamente desenhados. N'este schema faremos notar as disposições relativas do tribunal, constituido pela ábside, onde estacionava o juiz e o pessoal annexo, pelas cadeiras ou tribunas dos advogados, ladeando esta ábside, e finalmente pelo recinto fechado, que sem duvida devia existir para separar os negocios do tribunal dos restantes, que se tratavam tambem nas basilicas. Estes elementos são a origem de disposições especiaes nas egrejas do Estylo Latino, como adeante diremos.
Emfim, diz-se que as basilicas eram de architectura simples e de modesta ornamentação. É um erro; taes edificios, dados os seus fins e a mira dos doadores e constructores, principalmente quando foram os Cesares, não podiam deixar de manifestar grandeza architectonica, embora a severa e solemne grandeza classica. A ornamentação era rica e profusa em estatuas e objectos de arte, como o foi sempre a grega e a romana. Este ultimo facto, pelo menos, é attestado pelas descripções dos historiadores. É claro que n'este ponto nos referimos ás antigas basilicas romanas e não ás que, seguindo o estylo, edificaram depois os christãos.
As basilicas romanas deram, pois, origem ás primeiras egrejas do Christianismo no occidente. Parece-nos, todavia, conveniente, n'esta formação do estylo latino, distinguir dois periodos, sem lhes poder fixar datas, como aliás é sempre difficilimo nas transições artisticas: o primitivo, desde Constantino até Theodorico, em que o estylo devia ser, em regra, relativamente simples e pobre, e o segundo, sob a influencia da riquissima arte byzantina, que ia successivamente attingindo a perfeição manifestada no seculo VI, pela construcção de Santa Sophia de Constantinopla. As relações entre o occidente e oriente eram muito frequentes e activas n'aquella epoca, para que se não desse esta influencia de uma arte grandiosa e de ornamentação riquissima, sobre o Estylo Latino nascente.
Nos primeiros tempos houve, sem duvida, vacillações. A consolidação da egreja deve ter influido muito na constituição do estylo. As basilicas christãs dos melhores tempos tinham fórmas definidas; obedeciam, por assim dizer, ás regras de alguns typos apurados e preferidos; por isso, é até certo ponto possivel descrever-lhes os caracteres geraes.
A disposição interior das egrejas do Estylo Latino apresentava figuras differentes; a circular e a rectangular foram as mais empregadas, principalmente a ultima. Exemplos ha, tambem, do emprego combinado do circulo e do rectangulo, como se vê na egreja basilica de S. Martinho de Tours. A architectura era simples e sobria, seguindo o espirito e a fórma do estylo classico romano. A diversidade manifesta-se mais accentuada nas disposições internas, accommodadas ás necessidades do novo culto, e na ornamentação mais ou menos rica, onde exerceu decidida influencia o Estylo Byzantino, em plena florescencia no seculo VI.
Figuremos, agora, uma visita a estas basilicas do Estylo Latino, fazendo um ligeiro schema dos seus caracteres principaes; observaremos, comtudo, que esta descripção theorica soffre as modificações impostas pelas circumstancias, pelas disposições dos edificios apropriados e, emfim, pela imaginação e concepção artisticas, que, embora dentro das regras dos estylos, teem sempre maior ou menor liberdade de acção.
Um espaçoso atrio, fechado por muros, ás vezes revestidos de porticos internos, dava ingresso á egreja. No fundo d'este atrio quadrado, que foi origem dos adros das nossas egrejas, em frente da respectiva entrada, elevava-se o edificio do templo. A fachada era formada por tres portas e tres janellas, correspondendo aos eixos das tres naves internas. A porta central servia para os grandes ceremoniaes. Sobrepujando as portas e as janelas, um frontão pouco alto encobria o madeiramento dos telhados. N'esta disposição vê-se a ordenança classica.
Em frente da egreja e encostado á fachada, um portico de columnas formava alpendre sobre as portas, logar protegido onde se abrigavam os fieis. Algumas vezes, não havia saliencia para fóra da superficie vertical da fachada, que então repousava sobre o intercolumnio externo do portico. As portas da egreja ficavam, n'este caso, precedidas de uma especie de vestibulo. Nos lados d'este portico duas fontes serviam para as abluções.
N'estas fontes teem origem os baptisterios, edificios sumptuosos que mais tarde foram elevados junto das egrejas, nos atrios ou fóra d'elles, onde se praticava em grandes bacias de marmore o baptismo por immersão, usado n'aquelles tempos. Depois, a transformação dos ritos, dando caracter symbolico ao baptismo, introduziu os baptisterios no corpo das egrejas proximo da entrada.
As fachadas lateraes da egreja, em regra, não tinham janelas. A parede lisa era coroada por uma cornija, repousando sobre modilhões. As janelas da fachada eram fechadas por grandes laminas de marmore, rendilhadas de pequenas aberturas circulares ou em lozangos, dando a impressão das rotulas orientaes.
No interior, a egreja offerecia as caracteristicas disposições da basilica romana: tres naves, a do centro mais larga e alta, as lateraes com dois pavimentos sobrepostos, abrindo na principal, compunham a superficie coberta do edificio. Segundo o preceito primitivo da divisão dos sexos nas ceremonias religiosas, os homens occupavam a nave lateral da esquerda, as mulheres casadas a da direita e as virgens e as viuvas os pavimentos superiores d'estas naves.
ROMA. BASILICA DE S. PAULO—Fachada principal
Nos extremos das naves, em frente das portas, rasgavam-se tres ábsides; a da nave central, a mais importante, constituía o presbyterio ou a tribuna. Nas lateraes guardavam-se os livros santos e os objectos do culto. Estas ultimas foram a origem dos thesouros e das sacristias das nossas egrejas.
Na ábside central, a tribuna, em degraus de marmore dispostos em amphitheatro, sentavam-se os presbyteros; ao fundo, n'uma cadeira tambem de marmore o bispo, ou o officiante, presidia ás cerimonias religiosas. Nas basilicas romanas, como vimos, era este o logar dos juizes.
Em face da tribuna, isolado, levantava-se o altar, coberto pelo ciborio, o baldachino das basilicas modernas de Roma, vasto e alto docel sustentado por columnas, formando uma especie de pallio de marmore. O altar, em geral, era o sarcophago de um santo, o da invocação da egreja. Sobre a mesa do altar viam-se baixos relevos, o alpha e o ómega, o labaro, a palma do martyrio e outros symbolismos religiosos.
No solo, por baixo do altar, existia um pequeno subterraneo, o martyrio ou a confissão, contendo reliquias de santos; quando este subterraneo era vasto tomava o nome de crypta. Todos estes elementos nasceram das tradições do Christianismo das catacumbas.
Este conjunto do altar, o santuario, ficava entre a tribuna e o côro, constituido por um vasto espaço quadrado, limitado por muros baixos, no extremo da nave central. Nos tres lados do côro, excepto o mais proximo do altar, bancadas de marmore em amphitheatro davam logar aos chantres e cantores. Dois ambons symetricos, nos extremos do côro, ladeavam quasi o altar. Correspondiam proximamente ás tribunas dos advogados romanos e são a origem dos pulpitos. Estas disposições caracteristicas pódem observar-se ainda hoje nas antigas cathedraes hespanholas, cujos coros cortam as naves principaes.
A conveniencia de extremar o publico da tribuna e do altar, fez mais tarde construir um muro, ou balaustrada perpendicular aos eixos das naves, entre o côro e o altar. Assim, ficou definido o transepto e desenhada a cruz latina das egrejas dos futuros estylos occidentaes.
Os tectos eram de madeira, em geral de vigas descobertas, ás vezes de grandes caixões. A abobada não foi, nem podia ser empregada em edificios d'esta construcção.
A riqueza e o luxo das egrejas do Estylo Latino manifestavam-se principalmente no interior. Os tectos eram de essencias raras, esculpidos e recamados de metaes, entre os quaes figurava o ouro. As columnas das naves, ligadas por architraves, ou por arcos de volta inteira, as paredes das naves, divididas em compartimentos por pilastras, eram construidas e revestidas de finos marmores e de porphyros. O altar e o côro principalmente offereciam ornamentação riquissima, revestidos de esculpturas onde e quando era possivel; assim como a tribuna, cuja semi-cupula representava grandes quadros biblicos em mosaico de fundo de ouro, que ás vezes se estendia a outros pontos da egreja. É evidente que esta pujante ornamentação se desenvolveu nos melhores tempos do estylo, sob a influencia do Estylo Byzantino. Sabe-se, com effeito, que os romanos empregavam com raridade o mosaico nas paredes.
ROMA, BASILICA DE S. PAULO—Fachada lateral (norte)
O pavimento das egrejas nos tempos primitivos fôra de grandes lages; depois, vieram os mosaicos de desenho fino e variado, formados de pequenos cubos de marmore branco, de esmalte e de porphyro verde e amarello, chamado opus alexandrinus, nome que lhe caracterisa a origem oriental.
Se accrescentarmos, por simples curiosidade, por exceder a esphera da Historia da Arte, que os primitivos templos eram construidos pelo systema romano na qualidade e disposição dos materiaes, teremos dado uma succinta idéa da formação e dos caracteres do Estylo Latino, isto é, do primitivo estylo christão no occidente.
Não temos, infelizmente, em Portugal um só exemplo do Estylo Latino. O nome de basilica, applicado a algumas das nossas egrejas, taes como a da Estrella e a de Mafra, corresponde simplesmente á expressão de grandeza e sumptuosidade, mais ou menos merecida, sem se referir a qualidades architectonicas, porque estas egrejas são de caracteristico Estylo da Renascença. Os maiores e mais bellos exemplares existentes do Estylo Latino é necessario procural-os entre as trezentas e oitenta e nove egrejas e capellas, que ornam a artistica e historica cidade de Roma!
Entre as basilicas do Estylo Latino avultam as de S. João de Latrão, Santa Maria Maior, S. Paulo e S. Lourenço, as duas ultimas construidas fóra dos muros da antiga cidade. Ora, são exactamente estas ultimas que nos parecem mais caracteristicas, quer nos elementos externos, quer nas disposições internas.
A Egreja de S. Paulo, fóra dos muros, constitue de facto um formoso e rico exemplar do Estylo Latino. As suas disposições geraes traduzem, com a possivel exactidão, os caracteres das basilicas romanas, anteriormente descriptas. Esta grandiosa construcção conserva ainda uma pequena parte antiga, se não primitiva, mas o restante é de epoca moderna.
Diz a tradição que no local de um cemiterio, onde repousavam os restos de S. Paulo, o grande Apostolo das Gentes, o imperador Constantino mandou edificar uma primeira basilica, que depois foi restaurada e engrandecida por successivos imperadores, sendo terminada por Honorio no anno 423 da nossa era. Um grande incendio destruiu em 1827 grande parte d'esta primitiva basilica.
Então, o Papa Leão XII, pedindo donativos á fé dos christãos de todo o mundo, começou a reedificação da antiga basilica; fazendo, porém, engrandecer e enriquecer os novos planos. Em 1854, o Papa Pio IX sagrou o novo e magnifico templo, do qual apresentamos os principaes elementos, como excellente definição das feições especiaes do Estylo Latino.
ROMA—Interior de S Paulo
A fachada principal é formada por um vasto portico da Ordem Corynthia, para o qual se abrem as sete portas da egreja; por detrás d'este portico eleva-se o corpo da nave central do templo. Devemos observar que nas egrejas do Estylo Latino, em regra, desappareceram as galerias superiores das basilicas romanas. Abolido o uso da separação dos sexos nas ceremonias religiosas, a conveniencia de bem illuminar as egrejas aconselhou a suppressão d'estas galerias. Assim, o corpo da nave central eleva-se sobre os corpos lateraes, recebendo luz directa e profusa de grandes janelas. A fachada principal de S. Paulo é ricamente decorada por mosaicos modernos. As portas, que abrem no bello portico, são antigas, de bronze e de excellente Estylo Byzantino.
O interior da egreja offerece cinco grandes naves, formadas por quatro ordens parallelas de columnas, vinte em cada ordem. São, pois, oitenta columnas, tendo as bases e os pedestaes de marmore branco e os fustes de granito rosa polido. Sobre a cornija da nave central corre uma serie de medalhões circulares em mosaico, que representam retratos de antigos Papas. Esta grande nave é directamente illuminada por dez janelas lateraes, sendo os respectivos intervallos preenchidos por frescos, que representam scenas da vida de S. Paulo. O tecto riquissimo é feito de caixões de madeira esculpidos e dourados. O arco da capella-mór constitue, talvez, um dos elementos da primitiva basilica de Constantino. Este arco, ladeado por duas estatuas colossaes de S. Pedro e de S. Paulo, é guarnecido na parte superior por antigo mosaico, que se suppõe ser do anno 440 da nossa era.
A ábside, para onde se sobe por tres degraus, tem na semi-cupula um mosaico, que se presume ser do seculo XIII. O altar, do mesmo seculo, é coberto por um ciborio, formado por quatro columnas de porphiro, que sustentam um docel de Estylo Ogival.
No lado norte do transepto abrem-se, tambem, tres portas precedidas de um portico corynthio de menor importancia. A torre dos sinos, coroada de um mirante, está collocada por detrás da ábside.
A Egreja de S. Lourenço, segundo a tradição tambem construida por Constantino no anno 330 da nossa era, foi modernamente restaurada por Pio IX, cujos restos mortaes n'ella repousam, e constitue egualmente um exemplar muito bom do Estylo Latino, mais modesto e severo.
Na fachada, o portico é da Ordem Jonica, coberto por telhados muito inclinados e evidentes. O corpo da nave central, ornada de pinturas a fresco, não tem frontão.
No interior, de cada lado, onze fortes columnas jonicas de granito rosa e de cipolino dividem o templo em tres naves, dando-lhe um aspecto de severidade e grandeza que mais realça ainda a cobertura da nave central, feita de grandes vigas descobertas, douradas e esculpidas. Esta egreja não tem na realidade um verdadeiro transepto, o que mais a approxima das fórmas tradicionaes das basilicas romanas, das quaes se afasta, por outro lado, porque a ábside termina em parede plana, guarnecida de janelas.
ROMA. BASILICA DE S. LOURENÇO
Não sendo possivel nem opportuno desenvolver descripções mais completas d'estas grandiosas e riquissimas basilicas, julgamos haver escripto e apresentado graphicamente os sufficientes elementos para bem fixar os caracteres do Estylo Latino, mais puro e rico.
ROMA—Interior da Basilica de S. Lourenço
CAPITULO SEGUNDO
ESPIRITO E CARACTERES DO ESTYLO BYZANTINO
Roma deixára de ser a capital do Imperio. Conservára de direito as suas antigas tradições, o seu cognome de cidade-eterna; de facto, a capital do Imperio já no seculo III, sob Maximiano, havia sido deslocada, para o norte. Era em Milão. Assim, foi n'esta cidade que Constantino promulgou o edito de tolerancia, de que data a liberdade do Christianismo. As extensas fronteiras e as enormes agglomerações de estados e de povos, que formavam o Imperio, exigiram, talvez, uma capital mais no centro, com sacrificio de Roma, muito afastada, quasi no meio da peninsula italica.
Além d'isso, os imperadores, em geral, preferiam habitar as cidades do oriente, onde por exemplo Diocleciano residiu quasi sempre. As tendencias luxuosas e os costumes mais do que faceis dos imperadores deviam tender a approximal-os do fóco de luxo e de vida devassa, de que os satrapas médo-persas deram exemplo imitado e haviam deixado profundas tradições respeitadas. São ainda hoje proverbiaes o luxo e os costumes do oriente.
Constantino, pelas razões que expozemos, edificára em Bysancio a nova capital do Imperio. A permanencia da côrte do autocrata romano no oriente foi, sem duvida, um golpe profundo na vida social e na riqueza da Italia, reduzida a um exarchado. Com o chefe supremo e a alta administração do Imperio, a pouco e pouco devem ter emigrado para Constantinopla as melhores forças vivas e os mais valiosos elementos sociaes, que tendem sempre a agrupar-se em torno do poder central.
O Christianismo existia já n'aquellas provincias do Imperio; mas a acção da nova capital e do proprio imperador imprimiu-lhe necessariamente grande expansão. As mesmas causas e influencias, que no occidente haviam produzido o Estylo Latino, foram encontrar-se com outras especiaes, nascidas e desenvolvidas no oriente. Um outro estylo christão, differente do occidental, foi tambem o producto da acção reciproca d'estes elementos. A sua formação é coeva e parallela. Póde dizer-se que o espirito classico e o do Christianismo produziram simultaneamente dois estylos architectonicos: no occidente, o Latino; no oriente o Byzantino, de que nos vamos occupar.
O genio romano era o reflexo, um pouco pallido na verdade, do genio hellenico. Imitou-o na religião, na sciencia e na arte, seguiu-lhe os passos nem sempre com grande felicidade. Nas manifestações da actividade social os romanos foram superiores aos gregos; mas em creações do espirito, na sciencia, na philosophia e na arte, a Grecia teve apenas em Roma um soffrivel discipulo. Os romanos, é certo, eram amadores, grandes amadores da arte, como os inglezes modernos exactamente, que a adoram, cultivando-a pouco, ou pelo menos não produzindo creações novas, comparaveis com os d'outros povos.
Apenas a Grecia se tornou provincia romana, o enorme thesouro da arte hellenica foi posto a saque; Roma enriqueceu-se com tudo quanto podia ser transportado: estatuas, quadros, vasos, vieram adornar os templos, os foros e os edificios publicos, povoar os palacios e as galerias dos vencedores, que assim se enriqueceram com productos artisticos, durante seculos creados e accumulados pelo trabalho e pelo genio gregos.
Roma adorava a Grecia. Nero, deante do povo hellenico, quiz ser athleta e artista. O prestigio imperial provocou as acclamações; a força garantiu-lhe e facilitou-lhe a grande espoliação dos objectos artisticos. É provavel que, sujeita a este espirito dos amadores romanos, a Grecia ficasse quasi desprovida de estatuas, algumas das quaes poderemos ver ainda hoje nos grandes museus da Italia.
Apesar de tudo, o genio artistico grego era tão vivo e energico que se manteve sempre, durante os flagellos da conquista e das depredações romanas. Foi este genio de grandes qualidades estheticas, formado n'uma escola de excepcional grandeza, que a modesta arte latina do occidente, formada pelo classico romano e pelo Christianismo, encontrou ainda pujante e activa no imperio byzantino. Ora, esta substituição da esthetica romana pela grega constituia já uma grande vantagem para a nova evolução da Arte.
Além d'isso, Constantinopla estava perto da Asia Menor e d'essas grandes provincias romanas, que comprehendiam a Mesopotamia e parte do grande imperio dos Sassanides. Esta vasta região, onde floresceram tantas civilisações antigas, confinava com a mysteriosa Fars, a Persia, que em guerras successivas fôra vencida pelos heroes da Grecia. Todas estas nações, a Phrygia, a Lycia, a Caria, a Lydia e sobretudo a Assyria e a Persia haviam tido uma arte mais ou menos adiantada. Esta parte da historia da arte antiga é assás obscura nas origens e nas relações reciprocas; mas estudos modernos vão demonstrando a importancia das manifestações estheticas entre estes povos orientaes.
A influencia de ornamentações riquissimas e de estylos cheios de originalidade, adequados aos costumes, ás necessidades e ao clima do oriente, estendia-se principalmente para os lados do Bosphoro, o caminho que tinham seguido as invasões médo-persas. Foi a acção reciproca d'estes elementos, o classico hellenico e os estylos orientaes, que, substituindo o romano e sob o influxo do Christianismo, produziu o Estylo Byzantino.
A basilica, levada do occidente por Constantino e pelos christãos do seu tempo, chegára a elevar-se na capital e nas provincias orientaes do Imperio; mas as suas fórmas especiaes, pobres e severas, não poderam por longo tempo resistir á atmosphera ardente da arte oriental. O seculo V foi, pois, o periodo da evolução rapida d'esse novo estylo christão, que o imperador Justiniano teve a gloria e o orgulho de caracterisar n'um só edificio, dos mais bellos do mundo.
Os planos e a construcção de Santa Sophia de Constantinopla foram dirigidos por Anithemius, nascido em Tralles, e por Isidoro, de Mileto. Estes architectos, cuja fama ficou immorredoura como a de Ictino e Callisthenes, os constructores do Parthenon o mais bello templo do classico hellenico, eram ambos naturaes da Asia Menor, onde haviam florescido adeantadas colonias jonicas. Mileto, uma das mais famosas, pertencia á Caria, Tralles á Lycia, provincias limitrophes, das quaes a ultima tocava a Assyria e a Mesopotamia, approximando-se do Imperio dos Sassanides, a Persia. Estes dois homens de incontestavel genio foram, pois, oriundos de raças e nações, onde o espirito hellenico e o oriental tinham descoberto combinações singulares e bellas na arte da construcção, nos estylos e na ornamentação dos edificios.
A construcção do templo de Justiniano, iniciada em 532, correu com tal rapidez, que em 27 de novembro de 537, dia da sua sagração, o Imperador pôde soltar esta soberba e historica expressão: Gloria a Deus que me julgou digno de construir uma tal obra. Venci-te Salomão!
De facto, nunca a riqueza da ornamentação e do culto excedeu a magnificencia de Santa Sophia, nos tempos do Imperio Byzantino. Ainda hoje, decahido e estragado pelos turcos, que lhe cobriram os marmores e os mosaicos com estuques rendilhados, onde se lêem versiculos do Alcorão, o edificio de Santa Sophia constitue o primeiro e mais admiravel monumento do Estylo Byzantino, o seu melhor exemplar, o mais perfeito e mais rico.
O Estylo Byzantino, que se estendeu com enorme rapidez pelo norte da Italia e pelo sul da França, chegando até á Allemanha, não penetrou em Hespanha e muito menos em Portugal, pelo menos em edificios importantes que tenham deixado tradições ou vestigios materiaes.
Para definirmos, pois, os caracteres d'este estylo, esbocemos curta descripção de Santa Sophia de Constantinopla, o seu principal monumento, que nos esclarecerá e servirá de guia, como fizemos no Estylo Latino.
O exterior de Santa Sophia é simples e severo. Uma multidão de cupulas de differentes dimensões, dominadas pela grande cupula do corpo central da antiga egreja, dão-lhe um aspecto caracteristico, perfeitamente oriental, como o das cidades em climas onde a neve é desconhecida, a chuva rara e reina quasi sempre calor ardente. A impressão de solidez do edificio deprehende-se d'essas cupulas achatadas, repousando sobre paredes espessas, separadas por botareos entre os quaes se abrem pequenas janelas de volta inteira. Estamos já longe das coberturas de madeira sobre paredes delgadas do Estylo Latino e bem perto das pesadas abobadas sobre muros espessos, reforçados por botareos, do Estylo Romanico. Na gravura, que apresentamos, Santa Sophia é representada no estado actual, isto é, ladeada de quatro minaretes e cercada de construcções, que as necessidades do culto do Islamismo e a selvageria artistica dos turcos teem feito encostar ao antigo monumento.