Oh les casquettes,
Oh les casque-e-e-tes!...
Oh les casque-e-e-tes!...
Todos largaram os fios—proclamavam a Gilberte deliciosa. E o mordomo bemdito, abrindo largamente os dous batentes, annunciou:
—Monseigneur est servi!
Na mesa, que pelo esplendor das orchideas mereceu os louvores ruidosos de S. Alteza, fiquei entre o ethereo poeta Dornan e aquelle moço de pennugem loura que balouçava como uma espiga ao vento. Depois de desdobrar o guardanapo, de o accomodar regaladamente sobre os joelhos, Dornan desenvencilhou da corrente do relogio uma enorme luneta para percorrer o menu—que approvou. E inclinando para mim a sua face de Apostolo obeso:
—Este Porto de 1834, aqui era casa do Jacintho, deve ser authentico... Hein?
Assegurei ao Mestre dos Rythmos que o «Porto» envelhecêra nas adegas classicas do avô Galião. Elle afastou, n'uma preparação methodica, os longos, densos fios do bigode que lhe cobriam a bocca grossa. Os escudeiros serviram um consommé frio com trufas. E o moço côr de milho, que espalhára pela mesa o seu olhar azul e dôce, murmurou, com uma desconsolação risonha:
—Que pena!... Só falta aqui um general e um bispo!
Com effeito! Todas as Classes Dominantes comiam n'esse momento as trufas do meu Jacintho... Mas defronte Madame d'Oriol lançára um riso mais cantado que um gorgeio. O Gran-Duque, n'uma silva de orchideas que orlava o seu talher, notára uma, sombriamente horrenda, semelhante a um lacrau esverdinhado, de azas lustrosas, gordo e tumido de veneno: e muito delicadamente offertára a flôr monstruosa a Madame d'Oriol, que, com trinado riso, solemnemente, a collocou no seio. Collado áquella carne macia, d'uma brancura de nata fina, o lacrau inchára, mais verde, com as azas frementes. Todos os olhos se accendiam, se cravavam no lindo peito, a que a flôr disforme, de côr venenosa, apimentava o sabor. Ella reluzia, triumphava. Para ageitar melhor a orchidea os seus dedos alargaram o decote, aclararam bellezas, guiando aquellas curiosidades flammejantes que a despiam. A face vincada de Jacintho pendia para o prato vasio. E o alto lyrico do Crepusculo Mystico, passando a mão pelas barbas, rosnou com desdem:
—Bella mulher... Mas ancas seccas, e aposto que não tem nadegas!
No emtanto o moço de loura pennugem voltára á sua estranha mágoa. Não possuirmos um general com a sua espada, e um bispo com seu baculo!...
—Para que, meu caro senhor?
Elle atirou um gesto suave em que todos os seus anneis faiscaram:
—Para uma bomba de dynamite... Temos aqui um explendido ramalhete de flôres de Civilisacão, com um Gran-Duque no meio. Imagine uma bomba de dynamite, atirada da porta!... Que bello fim de ceia, n'um fim de seculo!
E como eu o considerava assombrado, elle, bebendo golos de Chateau-Yquem, declarou que hoje a unica emoção, verdadeiramente fina, seria aniquillar a Civilisação. Nem a sciencia, nem as artes, nem o dinheiro, nem o amor, podiam já dar um gosto intenso e real ás nossas almas saciadas. Todo o prazer que se extrahíra de crear estava esgotado. Só restava, agora, o divino prazer de destruir!
Desenrolou ainda outras enormidades, com um riso claro nos olhos claros. Mas eu não attendia o gentil pedante, colhido por outro cuidado—reparando que em torno, subitamente, todo o serviço estacára como no conto do Palacio Petrificado. E o prato agora devido era o peixe famoso da Dalmacia, o peixe de S. Alteza, o peixe inspirador da festa! Jacintho, nervoso, esmagava entre os dedos uma flôr. E todos os escudeiros sumidos!
Felizmente o Gran-Duque contava a historia d'uma caçada, nas coutadas de Sarvan, em que uma senhora, mulher de um banqueiro, saltára bruscamente do cavallo, n'um descampado, sem arvores. Elle e todos os caçadores param—e a galante senhora, livida, com a amazona arregaçada, corre para traz d'uma pedra... Mas nunca soubemos em que se occupava a banqueira, n'esse descampado, agachada atraz da pedra—porque justamente o mordomo appareceu, relusente de suor, e balbuciou uma confidencia a Jacintho, que mordeu o beiço, trespassado. O Gran-Duque emmudecera. Todos se entre-olhavam, n'uma anciedade alegre. Então o meu Principe, com paciencia, com heroicidade, forçando pallidamente o sorriso:
—Meus amigos, ha uma desgraça...
Dornan pulou na cadeira:
—Fogo?
Não, não era fogo. Fôra o elevador dos pratos, que inesperadamente, ao subir o peixe de S. Alteza, se desarranjára, e não se movia, encalhado!
O Gran-Duque arremessou o guardanapo. Toda a sua polidez estalava como um esmalte mal posto:
—Essa é forte!... Pois um peixe que me deu tanto trabalho! Para que estamos nós aqui então a cear? Que estupidez! E porque o não trouxeram á mão, simplesmente? Encalhado... Quero vêr! Onde é a copa?
E, furiosamente, investiu para a copa, conduzido pelo mordomo que tropeçava, vergava os hombros, ante esta esmagadora colera de Principe. Jacintho seguiu, como uma sombra, levado na rajada de S. Alteza. E eu não me contive, tambem me atirei para a copa, a contemplar o desastre, emquanto Dornan, batendo na côxa, clamava que se ceasse sem peixe!
O Gran-Duque lá estava, debruçado sobre o poço escuro do elevador, onde mergulhára uma vela que lhe avermelhava mais a face esbraseada. Espreitei, por sobre o seu hombro real. Em baixo, na treva, sobre uma larga prancha, o peixe precioso alvejava, deitado na travessa, ainda fumegando, entre rodellas de limão. Jacintho, branco como a gravata, torturava desesperadamente a mola complicada do ascensor. Depois foi o Gran-Duque que, com os pulsos cabelludos, atirou um empuxão tremendo aos cabos em que elle rolava. Debalde! O apparelho enrijára n'uma inercia de bronze eterno.
Sêdas roçagaram á entrada da copa. Era Madame d'Oriol, e atraz Madame Verghane, com os olhos a faiscar, na curiosidade d'aquelle lance em que o Principe soltára tanta paixão. Marizac, nosso intimo, surgiu tambem, risonho, propondo uma descida ao poço com escadas. Depois foi o Psychologo, que se abeirou, psychologou, attribuindo intenções sagazes ao peixe que assim se recusava. E a cada um o Gran-Duque, escarlate, mostrava com dedo tragico, no fundo da cova, o seu peixe! Todos afundavam a face, murmuravam: «lá está!» Todelle, na sua precipitação, quasi se despenhou. O periquito descendente de Colygny batia as azas, ganindo:—«Que cheiro elle deita, que delicia!» Na copa atulhada os decotes das senhoras roçavam a farda dos lacaios. O velho caiado de pó d'arroz metteu o pé n'um balde de gelo, com um berro ferino. E o Historiador dos Duques d'Anjou movia por cima de todos o seu nariz bicudo e triste.
De repente, Todelle teve uma idéa!
—É muito simples... É pescar o peixe!
O Gran-Duque bateu na côxa uma palmada triumphal. Está claro! Pescar o peixe! E no gozo d'aquella facecia, tão rara e tão nova, toda a sua colera se sumíra, de novo se tornára o Principe amavel, de magnifica polidez, desejando que as senhoras se sentassem para assistir á pesca miraculosa! Elle mesmo seria o pescador! Nem se necessitava, para a divertida façanha, mais que uma bengala, uma guita e um gancho. Immediatamente Madame d'Oriol, excitada, offereceu um dos seus ganchos. Apinhados em volta d'ella, sentindo o seu perfume, o calor da sua pelle, todos exaltamos a amoravel dedicação. E o Psychologo proclamou que nunca se pescára com tão divino anzol!
Quando dois escudeiros estonteados voltaram, trazendo uma bengala e um cordel, já o Gran-Duque, radiante, vergára o gancho em anzol. Jacintho, com uma paciencia livida, erguia uma lampada sobre a escuridão do poço fundo. E os senhores mais graves, o Historiador, o director do Boulevard, o Conde de Treves, o homem de cabeça á Van-Dick, sorriam, amontoados á porta, n'um interesse reverente pela phantasia de S. Alteza. Madame de Treves, essa, examinava serenamente, com a sua nobre luneta, a installação da copa. Só Dornan não se erguera da mesa, com os punhos cerrados sobre a toalha, o gordo pescoço encovado, no tedio sombrio de fera a quem arrancaram a posta.
No emtanto S. Alteza pescava com fervor! Mas debalde! O gancho, pouco agudo, sem presa, bamboleando na extremidade da guita frouxa, não fisgava.
—Oh Jacintho, erga essa luz! gritava elle, inchado e suado. Mais!... Agora! Agora! É na guelra! Só na guelra é que o gancho o póde prender. Agora... Qual! Que diabo! Não vae!
Tirou a face do poço, resfolgando e affrontado. Não era possivel! Só carpinteiros, com alavancas!... E todos, anciosamente, bradamos que se abandonasse o peixe!
O Principe, risonho, sacudindo as mãos, concordava que por fim «fôra mais divertido pescal-o do que comêl-o!» E o elegante bando refluiu sofregamente para a mesa, ao som d'uma valsa de Strauss, que os Tziganes arremeçaram em arcadas de languido ardôr. Só Madame de Treves se demorou ainda, retendo o meu pobre Jacintho, para lhe assegurar quanto admirava o arranjo da sua copa... Oh perfeita! Que comprehensão da vida, que fina intelligencia do conforto!
S. Alteza, encalmado pelo esforço, esvasiou poderosamente dous copos de Chateau-Lagrange. Todos o acclamavam como um pescador genial. E os escudeiros serviram o Barão de Pauillac, cordeiro das lezirias marinhas, que, preparado com ritos quasi sagrados, toma este grande nome sonoro e entra no Nobiliario de França.
Eu comi com o appetite d'um heroe de Homero. Sobre o meu copo e o de Dornan o Champagne scintillou e jorrou ininterrompidamente como uma fonte de inverno. Quando se serviram ortolans gelados, que se derretiam na bocca, o divino poeta murmurou, para meu regalo, o seu soneto sublime a «Santa Clara». E como, do outro lado, o moço de pennugem loura insistia pela destruição do velho mundo, tambem concordei, e, sorvendo o Champagne coalhado em sorvete, maldissemos o Seculo, a Civilisação, todos os orgulhos da Sciencia! Através das flôres e das luzes, no emtanto, eu seguia as ondas arfantes do vasto peito de Madame Verghane, que ria como uma bacchante. E nem me apiedava de Jacintho que, com a doçura de S. Jacintho sobre o cêpo, esperava o fim do seu martyrio e da sua festa.
Ella findou. Ainda recordo, ás tres horas da noite, o Gran-Duque na antecamara, muito vermelho, mal firme nos pés pequeninos, sem acertar com as mangas da pelissa que Jacintho e eu lhe ajudamos a enfiar—convidando o meu amigo, n'uma effusão carinhosa, a ir caçar ás suas terras da Dalmacia...
—Devo ao meu Jacintho uma bella pesca, quero que elle me deva uma bella caçada!
E emquanto o acompanhavamos, entre as alas dos escudeiros, pela vasta escada onde o mordomo o precedia erguendo um candelabro de tres lumes, S. Alteza repisava, pegajoso:
—Uma bella caçada... E tambem vae Fernandes! Bom Fernandes, Zé Fernandes! Ceia superior, meu Jacintho! O Barão de Pauillac, divino!... Creio que o devemos nomear Duque... O Senhor Duque de Pauillac! Mais um bocado da perna do Senhor Duque de Pauillac. Ah! Ah!... Não venham fóra! Não se constipem!
E do fundo do coupé, ao rodar, ainda bradou:
—O peixe, Jacintho, desencalha o peixe! Excellente, ao almoço, frio, com môlho verde!
Trepando cançadamente os degraus, n'uma molleza de Champagne e somno em que os olhos se me cerravam, murmurei para o meu Principe:
—Foi divertido, Jacintho! Sumptuosa mulher, a Verghane! Grande pena, o elevador...
E Jacintho, n'um som cavo que era bocejo e rugido:
—Uma massada! E tudo falha!
Tres dias depois d'esta festa no 202 recebeu o meu Principe inesperadamente, de Portugal, uma nova consideravel. Sobre a sua quinta e solar de Tormes, por toda a serra, passára uma tormenta devastadora de vento, corisco e agua. Com as grossas chuvas, «ou por outras causas que os peritos dirão» (como exclamava na sua carta angustiada o procurador Silverio), um pedaço de monte, que se avançava em socalco sobre o valle da Carriça, desabára, arrastando a velha egreja, uma egrejinha rustica do seculo XVI, onde jaziam sepultados os avós de Jacintho desde os tempos de el-rei D. Manoel. Os ossos veneraveis d'esses Jacinthos jaziam agora soterrados sob um montão informe de terra e pedra. O Silverio já começára com os moços da quinta a desatulhar dos «preciosos restos». Mas esperava anciosamente as ordens de sua exc.a...
Jacintho empallidecêra, impressionado. Esse velho solo serrano, tão rijo e firme desde os Godos, que de repente ruia! Esses jazigos de paz piedosa, precipitados com fragor, na borrasca e na treva, para um negro fundo de valle! Essas ossadas, que todas conservavam um nome, uma data, uma historia, confundidas n'um lixo de ruina!
—Coisa estranha, coisa estranha!...
E toda a noite me interrogou ácerca da serra e de Tormes, que eu conhecia desde pequeno, por que o velho solar, com a sua nobre alameda de faias seculares, se erguia a duas legoas da nossa casa, no antigo caminho de Guiães á estação e ao rio. O caseiro de Tormes, o bom Melchior, era cunhado do nosso feitor da Roqueirinha:—e muitas vezes, depois da minha intimidade com Jacintho, eu entrára no robusto casarão de granito, e avaliára o grão espalhado pelas salas sonoras, e provára o vinho novo nas adegas immensas...
—E a egreja, Zé Fernandes?... Entraste na egreja?
—Nunca... Mas era pittoresca, com uma torresinha quadrada, toda negra, onde ha muitos annos vivia uma familia de cegonhas... Terrivel transtorno para as cegonhas!
—Coisa estranha! murmurava ainda o meu Principe, agourado.
E telegraphou ao Silverio que desatulhasse o valle, recolhesse as ossadas, reedificasse a Egreja, e, para esta obra de piedade e reverencia, gastasse o dinheiro, sem contar, como a agua d'um rio largo.
V
No emtanto Jacintho, desesperado com tantos desastres humilhadores—as torneiras que dessoldavam, os elevadores que emperravam, o Vapor que se encolhia, a Electricidade que se sumia, decidiu valorosamente vencer as resistencias finaes da Materia e da Força por novas e mais poderosas accumulacões de Mechanismos. E n'essas semanas de Abril, emquanto as rosas desabrochavam, a nossa agitada casa, entre aquellas quietas casas dos Campos-Elyseos que preguiçavam ao sol, incessantemente tremeu, envolta n'um pó de caliça e d'empreitada, com o bruto picar de pedra, o retininte martelar de ferro. Nos silenciosos corredores, onde me era dôce fumar antes do almoço um pensativo cigarro, circulavam agora, desde madrugada, ranchos d'operarios, de blusas brancas, assobiando o Petît-Bleu, e intimidando os meus passos quando eu atravessava em fralda e chinellas para o banho ou para outros retiros. Apenas se varava com pericia algum andaime obstruindo as portas—logo se esbarrava com uma pilha de taboas, uma ceira de farramentas ou um balde enorme d'argamassa. E os pedaços de soalho levantado mostravam tristemente, como n'um cadaver aberto, todos os interiores do 202, a ossatura, os sensiveis nervos d'arame, os negros intestinos de ferro fundido.
Cada dia estacava deante do portão alguma lenta carroça, d'onde os creados, em mangas de camisa, descarregavam caixotes de madeira, fardos de lona, que se despregavam e se descosiam n'uma sala asphaltada, ao fundo do jardim, por traz da sebe de lilazes. E eu descia, reclamado pelo meu Principe, para admirar uma nova Machina que nos tornaria a vida mais facil, estabelecendo d'um modo mais seguro o nosso dominio sobre a Substancia. Durante os calores, que apertaram depois da Ascenção, ensaiamos esperançadamente, para refrescar as aguas mineraes, a Soda-Water e os Medocs ligeiros, tres geleiras, que se amontoaram na copa successivamente desprestigiadas. Com os morangos novos appareceu um instrumentosinho astuto, para lhes arrancar os pés, delicadamente. Depois recebemos outro, prodigioso, de prata e crystal, para remexer phreneticamente as saladas; e, na primeira vez que o experimentei, todo o vinagre esparrinhou sobre os olhos do meu Principe, que fugiu aos uivos! Mas elle teimava... Nos actos mais elementares, para alliviar ou apressar o esforço, se soccorria Jacintho da Dynamica. E agora era por intervenção d'uma machina que abotoava as ceroulas.
E simultaneamente, ou em obediencia á sua Idéa, ou governado pelo despotismo do habito, não cessava, ao lado da Mechanica accumulada, de accumular Erudição. Oh, a invasão dos livros no 202! Solitarios, aos pares, em pacotes, dentro de caixas, franzinos, gordos e repletos de auctoridade, envoltos em plebeia capa amarella ou revestidos de marroquim e ouro, perpetuamente, torrencialmente, invadiam por todas as largas portas a Bibliotheca, onde se estiravam sobre o tapete, se repimpavam nas cadeiras macias, se enthronisavam em cima das mesas robustas, e sobretudo trepavam contra as janellas, em sofregas pilhas, como se, suffocados pela sua propria multidão, procurassem com ancia espaço e ar! Na erudita nave, onde apenas alguns vidros mais altos restavam descobertos, sem tapume de livros, perennemente se adensava um pensativo crepusculo de outono emquanto fóra Junho refulgia. A Bibliotheca transbordára através de todo o 202! Não se abria um armario sem que de dentro se despenhasse, desamparada, uma pilha de livros! Não se franzia uma cortina sem que de traz surgisse, hirta, uma ruma de livros! E immensa foi a minha indignação quando uma manhã, correndo urgentemente, de mãos nas alças, encontrei, vedada por uma tremenda collecção de Estudos Sociaes, a porta do Water-Closet!
Mais amargamente porém me lembro da noite historica em que, no meu quarto, moido e molle d'um passeio a Versalhes, com as palpebras poeirentas e meio adormecidas, tive de desalojar do meu leito, praguejando, um pavoroso Diccionario de Industria em trinta e sete volumes! Senti então a suprema fartura do livro. Ageitando, com murros, os travesseiros, maldisse a Imprensa, a Facundia humana... E já me estirára, adormecia, quando topei, quasi parti a preciosa rotula do joelho, contra a lombada d'um tomo que velhacamente se aninhára entre a parede e os colchões. Com furor e um berro empolguei, arremessei o tomo affrontoso—que entornou o jarro, inundou um tapete rico de Daghestan. E nem sei se depois adormeci—porque os meus pés, a que não sentia nem o pisar nem o rumor, como se um vento brando me levasse, continuaram a tropeçar em livros no corredor apagado, depois na areia do jardim que o luar branqueava, depois na Avenida dos Campos-Elyseos, povoada e ruidosa como n'uma festa civica. E, oh portento! todas as casas aos lados eram construidas com livros. Nos ramos dos castanheiros ramalhavam folhas de livros. E os homens, as finas damas, vestidos de papel impresso, com titulos nos dorsos, mostravam em vez de rosto um livro aberto, a que a brisa lenta virava docemente as folhas. Ao fundo, na Praça da Concordia, avistei uma escarpada montanha de livros, a que tentei trepar, arquejante, ora enterrando a perna em flacidas camadas de versos, ora batendo contra a lombada, dura como calhau, de tomos de Exegese e Critica. A tão vastas alturas subi, para além da terra, para além das nuvens, que me encontrei, maravilhado, entre os astros. Elles rolavam serenamente, enormes e mudos, recobertos por espessas crostas de livros, d'onde surdia, aqui e além, por alguma fenda, entre dois volumes mal juntos, um raiosinho de luz suffocada e anciada. E assim ascendi ao Paraiso. Decerto era o Paraiso—porque com meus olhos de mortal argila avistei o Ancião da Eternidade, aquelle que não tem Manhã nem Tarde. N'uma claridade que d'elle irradiava mais clara que todas as claridades, entre fundas estantes d'ouro abarrotadas de codices, sentado em vetustissimos folios, com os flocos das infinitas barbas espalhados por sobre resmas de folhetos, brochuras, gazetas e catalogos—o Altissimo lia. A fronte super-divina que concebera o Mundo pousava sobre a mão super-forte que o Mundo creára—e o Creador lia e sorria. Ousei, arrepiado de sagrado horror, espreitar por cima do seu hombro coruscante. O livro era brochado, de tres francos... O Eterno lia Voltaire, n'uma edição barata, e sorria.
Uma porta faiscou e rangeu, como se alguem penetrasse no Paraiso. Pensei que um Santo novo chegára da Terra. Era Jacintho, com o charuto em braza, um molho de cravos na lapella, sobraçando tres livros amarellos que a Princeza de Carman lhe emprestára para lêr!
N'uma d'essas activas semanas, porém, a minha attenção subitamente se despegou d'este interessante Jacintho. Hospede do 202, conservava no 202 a minha mala e a minha roupa: e, acostado á bandeira do meu Principe, ainda occasionalmente comia do seu caldeirão sumptuoso. Mas a minha alma, a minha embrutecida alma, e o meu corpo, o meu embrutecido corpo, habitavam então na rua do Helder, n.º 16, quarto andar, porta á esquerda.
Descia eu uma tarde, n'uma leda paz de idéas e sensações, o Boulevard da Magdalena, quando avistei, deante da Estação dos Omnibus, rondando no asphalto, n'um passo lento e felino, uma creatura secca, muito morena, quasi tisnada, com dous fundos olhos taciturnos e tristes, e uma matta de cabellos amarellados, toda crespa e rebelde, sob o chapéo velho de plumas negras. Parei, como colhido por um repuxão nas entranhas. A creatura passou—no seu magro rondar de gata negra, sobre um beiral de telhado, ao luar de Janeiro. Dous poços fundos não luzem mais negra e taciturnamente do que luziam os seus olhos taciturnos e negros. Não recordo (Deus louvado!) como rocei o seu vestido de sêda, lustroso e encebado nas pregas; nem como lhe rosnei uma súpplica por entre os dentes que rangiam; nem como subimos ambos, morosamente e mais silenciosos que condemnnados, para um gabinete do Café Durand, safado e môrno. Deante do espelho, a creatura, com a lentidão d'um rito triste, tirou o chapéo e a romeira salpicada de vidrilhos. A sêda poida do corpete esgarçava nos cotovellos agudos. E os seus cabellos eram immensos, d'uma dureza e espessura de juba brava, em dous tons amarellos, uns mais dourados, outros mais crestados, como a côdea de uma torta ao sahir quente do forno.
Com um riso tremulo, agarrei os seus dedos compridos e frios:
—E o nomesinho, hein?
Ella séria, quasi grave:
—Madame Colombe, 16, rua do Helder, quarto andar, porta á esquerda.
E eu (miseravel Zé Fernandes!) tambem me senti muito sério, trespassado por uma emoção grave, como se nos envolvesse, n'aquella alcôva de Café, a magestade d'um Sacramento. Á porta, empurrada levemente, o creado avançou a face nedia. Ordenei uma lagosta, pato com pimentões, e Borgonha. E foi sómente ao findarmos o pato que me ergui, amarfanhando convulsamente o guardanapo, e a tremer lhe beijei a bocca, todo a tremer, n'um beijo profundo e terrivel, em que deixei a alma, entre saliva e gôsto de pimentão! Depois, n'uma tipoia aberta, sob um bafo molle de leste e de trovoada, subimos a Avenida dos Campos-Elyseos. Em frente á grade do 202 murmurei, para a deslumbrar com o meu luxo:—«Móro alli, todo o anno!...» E como ao mirar o Palacete, debruçada, ella roçára a matta fulva do pello crespo pela minha barba—berrei desesperadamente ao cocheiro; que galopasse para a rua do Helder, n.º 16, quarto andar, porta á esquerda!
Amei aquella creatura. Amei aquella creatura com Amor, com todos os Amores que estão no Amor, o Amor divino, o Amor humano, o Amor bestial, como Santo Antonino amava a Virgem, como Romeu amava Julietta, como um bode ama uma cabra. Era estupida, era triste. Eu deliciosamente apagava a minha alegria na cinza da sua tristeza; e com ineffavel gôsto afundava a minha razão na densidade da sua estupidez. Durante sete furiosas semanas perdi a consciencia da minha personalidade de Zé Fernandes—Fernandes de Noronha e Sande, de Guiães! Ora se me affigurava ser um pedaço de cêra que se derretia, com horrenda delicia, n'um forno rubro e rugidor: ora me parecia ser uma faminta fogueira onde flammejava, estalava e se consumia um mólho de galhos seccos. D'esses dias de sublime sordidez só conservo a impressão d'uma alcôva forrada de cretones sujos, d'uma bata de lã côr de lilaz com sotaches negros, de vagas garrafas de cerveja no marmore d'um lavatorio, e d'um corpo tisnado que rangia e tinha cabellos no peito. E tambem me resta a sensação de incessantemente e com arrobado deleite me despojar, arremessar para um regaço, que se cavava entre um ventre sumido e uns joelhos agudos, o meu relogio, os meus berloques, os meus anneis, os meus botões de punho de saphira, e as cento e noventa e sete libras em ouro que eu trouxera de Guiães n'uma cinta de camurça. Do solido, decoroso, bem fornecido Zé Fernandes, só restava uma carcassa errando atravéz d'um sonho, com as gambias molles e a baba a escorrer.
Depois, uma tarde, trepando com a costumada gula a escada da rua do Helder, encontrei a porta fechada—e arrancado da hombreira aquelle cartão de Madame Colombe que eu lia sempre tão devotamente e que era a sua taboleta... Tudo no meu ser tremeu como se o chão de Paris tremesse! Aquella era a porta do Mundo que ante mim se fechára! Para além estavam as gentes, as cidades, a vida, Deus e Ella. E eu ficára sósinho, n'aquelle patamar do Não-ser, fóra da porta que se fechára, unico ser fóra do Mundo! Rolei pelos degraus, com o fragor e a incoherencia d'uma pedra, até ao cubiculo da porteira e do seu homem que jogavam as cartas em ditosa pachorra, como se tão pavoroso abalo não tivesse desmantelado o Universo!
—Madame Colombe?
A barbuda comadre recolheu lentamente a vaza:
—Ja não mora... Abalou esta manhã, para outra terra, com outra porca!
Para outra terra! com outra porca!... Vasio, negramente vasio de todo o pensar, de todo o sentir, de todo o querer—boiei aos tombos, como um tonel vasio, na corrente açodada do Boulevard, até que encalhei n'um banco da Praça da Magdalena, onde tapei com as mãos, a que não sentia a febre, os olhos a que não sentia o pranto! Tarde, muito tarde, quando já se cerravam com estrondo as cortinas de ferro das lojas, surdiu, d'entre todas estas confusas ruinas do meu ser, a eterna sobrevivente de todas as ruinas—a ideia de jantar. Penetrei no Durand, com os passos entorpecidos d'um resuscitado. E, n'uma recordação que m'escaldava a alma, encommendei a lagosta, o pato, o Borgonha! Mas ao alargar o collarinho, ensopado pelo ardor d'aquella tarde de Julho, entre a poeira da Magdalena, pensei com desconfôrto:—«Santissimo Nome de Deus! Que immensa sêde me fez esta desgraça!...» De manso acenei ao moço:—«Antes do Borgonha, uma garrafa de Champagne, com muito gêlo, e um grande copo!...» Creio que aquelle Champagne se engarrafára no Ceu onde corre perennemente a fresca fonte da Consolação, e que na garrafa bemdita que me coube penetrára, antes d'arrolhada, um jorro largo d'essa fonte inneffavel. Jesus! que transcendente regalo, o d'aquelle nobre copo, embaciado, nevado, a espumar, a picar, n'um brilho d'ouro! E depois, garrafa de Borgonha! E depois, garrafa de Cognac! E depois Hortelã-Pimenta granitada em gêlo! E depois um desejo arquejante de espancar, com o meu rijo marmelleiro de Guiães, a porca que fugira com outra porca! Dentro da tipoia fechada, que me transportou n'um galope ao 202, não suffoquei este santo impulso, e com os meus punhos serranos atirei murros retumbantes contra as almofadas, onde via, furiosamente via a matta immensa de pello amarello, em que a minha alma uma tarde se perdera, e tres mezes se debatera, e para sempre se emporcalhára! Quando o fiacre estacou no 202 ainda eu espancava tão desesperadamente a besta ingrata, que, aos berros do cocheiro, dous moços accudiram e me sustiveram, recebendo pelos hombros, sobre as nucas servis, os restos cançados da minha colera.
Em cima, repelli a sollicitude do Grillo que tentava impôr ao siô Zé Fernandes, a Zé Fernandes de Guiães, a immensa indignidade d'um chá de macella! E estirado no leito de D. Galião, com as botas sobre o travesseiro, o chapéo alto sobre os olhos, ri, n'um doloroso riso, d'este Mundo burlesco e sordido de Jacinthos e de Colombes! E de repente senti uma angustia horrenda. Era Ella! Era a Madame Colombe, que esfuziára da chamma da vela, e saltára sobre o meu leito, e desabotoára o meu collete, e arrombára as minhas costellas, e toda ella, com as saias sujas, mergulhára dentro do meu peito, e abocára o meu coração, e chupava a sorvos lentos, como na rua do Helder, o sangue do meu coração! Então, certo da Morte, ganindo pela tia Vicencia, pendi do leito para mergulhar na minha sepultura, que, através da nevoa final, eu distinguia sobre o tapete—redondinha, vidrada, de porcelana e com aza. E, sobre a minha sepultura, que tão irreverentemente se assimilhava ao meu vaso, vomitei o Borgonha, vomitei o pato, vomitei a lagosta. Depois, n'um esforço ultra-humano, com um rugido, sentindo que, não sómente toda a entranha, mas a alma se esvasiava toda, vomitei Madame Colombe! Recahi sobre o leito de D. Galião... Recarreguei o chapéo sobre os olhos para não sentir os raios do sol. Era um sol novo, um sol espiritual, que se erguia sobre a minha vida. E adormeci, como uma creancinha docemente embalada n'um berço de verga pelo Anjo da Guarda.
De manhã, lavei a pelle n'um banho profundo, perfumado com todos os aromas do 202, desde folhas de limonete da India até essencia de jasmin de França: e lavei a alma com uma rica carta da Tia Vicencia, em letra farta, contando da nossa casa, e da linda promessa das vinhas, e da compota de ginja que nunca lhe sahíra tão fina, e da alegre fogueira do pateo em noite de S. João, e da menininha muito gorda e cabelluda que viéra do ceu para a minha afilhada Joanninha. Depois, á janella, bem limpo de alma e de corpo, n'uma quinzena de sedinha branca, tomando chá de Naïpò, respirando os rosaes do jardim revividos pela chuva da madrugada, considerei, em divertido pasmo, que, durante sete semanas, me emporcalhára, na rua do Helder, com um estardalho muito magro e muito tisnado! E conclui que padecera d'uma longa sezão, sezão da carne, sezão da imaginação, apanhada n'um charco de Paris—n'esses charcos que se formam através da Cidade com as aguas mortas, os limos, os lixos, os tortulhos e os vermes d'uma Civilisação que apodrece.
Então, curado, todo o meu espirito, como uma agulha para o Norte, se virou logo para o meu complicado Principe, que, nas derradeiras semanas da minha infecção sentimental, eu entrevira sempre descahido por cima de sophás, ou vagueando através da Bibliotheca entre os seus trinta mil volumes, com arrastados bocejos de inercia e de vacuidade. Eu, na minha pressa indigna, só lhe lançava um distrahido—«que é isso?» Elle, no seu moroso desalento, só murmurava um sêcco—«é calor!»
E, n'essa manhã da minha libertação, ao penetrar antes d'almoço no seu quarto, no sophá o encontrei enterrado, com o Figaro aberto sobre a barriga, a Agenda cahida sobre o tapete, toda a face envolta em sombra, e os pés abandonados, n'uma soberana tristeza, ao pedicuro que lhe polia as unhas. Decerto o meu olhar reallumiado e repurificado, a brancura das minhas flanellas reproduzindo a quietação das minhas sensações, e a segura harmonia em que todo o meu ser visivelmente se movia, impressionaram o meu Principe—a quem a melancolia nunca embotava a agudeza. Ergueu mollemente um braço molle:
—Então esse capricho?
Derramei, sobre elle todo o fulgor d'um riso victorioso:
—Morto! E, como o Snr. de Malbrouck, «morto e bem enterrado.» Jaz! Ou antes, rola! Com effeito deve andar agora rolando por dentro do cano do esgoto!
Jacintho bocejou, murmurou:
—Este Zé Fernandes de Noronha e Sande!...
E, no meu nome, no meu digno nome assim embrulhado n'um bocejo com desprendida ironia, se resumiu todo o interesse d'aquelle Principe pela suja tormenta em que se debatera o meu coração! Mas não me melindrou esse consummado egoismo... Claramente percebia eu que o meu Jacintho atravessava uma densa nevoa de tedio, tão densa, e elle tão afundado na sua molle densidade, que as glorias ou os tormentos d'um camarada não o commoviam, como muito remotas, intangiveis, separadas da sua sensibilidade por immensas camadas de algodão. Pobre Principe da Gran-Ventura, tombado para o sophá de inercia, com os pés no regaço do pedicuro! Em que lodoso fastio cahira, depois de renovar tão bravamente todo o recheio mechanico e erudito do 202, na sua lucta contra a Força e a Materia!—E esse fastio não o escondeu mais do seu velho Zé Fernandes quando recomeçou entre nós a communhão de vida e de alma a que eu tão torpemente me arrancára, uma tarde, deante da Estação dos Omnibus, no charco da Magdalena.
Não eram certamente confissões enunciadas. O elegante e reservado Jacintho não torcia os braços, gemendo—«Oh vida maldita!» Eram apenas expressões saciadas; um gesto de repellir com rancôr a importunidade das coisas; por vezes uma immobilidade determinada, de protesto, no fundo d'um divan, d'onde se não desenterrava, como para um repouso que desejasse eterno; depois os bocejos, os ôcos bocejos com que sublinhava cada passo, continuado por fraqueza ou por dever inilludivel; e sobretudo aquelle murmurar que se tornára perenne e natural—«Para que?»—«Não vale a pena!»—«Que massada!...»
Uma noite no meu quarto, descalçando as botas, consultei o Grillo:
—Jacintho anda tão mucho, tão corcunda... Que será, Grillo?
O venerando preto declarou com uma certeza immensa:
—S. Exc.a soffre de fartura.
Era fartura! O meu Principe sentia abafadamente a fartura de Paris:—e na Cidade, na symbolica Cidade, fóra de cuja vida culta e forte (como elle outr'ora gritava, illuminado) o homem do seculo XIX nunca poderia saborear plenamente a «delicia de viver», elle não encontrava agora fórma de vida, espiritual ou social, que o interessasse, lhe valesse o esfôrço d'uma corrida curta n'uma tipoia facil. Pobre Jacintho! Um jornal velho, setenta vezes relido desde a Chronica até aos Annuncios, com a tinta delida, as dobras roídas, não enfastiaria mais o Solitario, que só possuisse na sua Solidão esse alimento intellectual, do que o Parisianismo enfastiava o meu doce camarada! Se eu n'esse verão capciosamente o arrastava a um Café-Concerto, ou ao festivo Pavilhão d'Armenonville, o meu bom Jacintho, collado pesadamente á cadeira com um maravilhoso ramo de orchideas na casaca, as finas mãos abatidas sobre o castão da bengala, conservava toda a noite uma gravidade tão estafada, que eu, compadecido, me erguia, o libertava, gozando a sua pressa em abalar, a sua fuga d'ave solta... Raramente (e então com vehemente arranque como quem salta um fosso) descia a um dos seus Clubs, ao fundo dos Campos-Elyseos. Não se occupara mais das suas Sociedades e Companhias, nem dos Telephones de Constantinopla, nem das Religiões Esotericas, nem do Bazar Espiritualista, cujas cartas fechadas se amontoavam sobre a mesa d'ebano, d'onde o Grillo as varria tristemente como o lixo d'uma vida finda. Tambem lentamente se despegava de todas as suas convivencias. As paginas da Agenda côr de rosa murcha andavam desafogadas e brancas. E se ainda cedia a um passeio de Mail-coach, ou a um convite para algum Castello amigo dos arredores de Paris, era tão arrastadamente, com um esforço tão saturado ao enfiar o paletot leve, que me lembrava sempre um homem, depois d'um gordo jantar de provincia, a estalar, que, por pollidez ou em obediencia a um dogma, devesse ainda comer uma lamprêa de ovos!
Jazer, jazer em casa, na segurança das portas bem cerradas e bem defendidas contra toda a intrusão do mundo, seria uma doçura para o meu Principe se o seu proprio 202, com todo aquelle tremendo recheio de Civilisação, não lhe désse uma sensação dolorosa de abafamento, de atulhamento! Julho escaldava: e os brocados, as alcatifas, tantos moveis roliços e fôfos, todos os seus metaes e todos os seus livros, tão espessamente o opprimiam, que escancarava sem cessar as janellas para prolongar o espaço, a claridade, a frescura. Mas era então a poeira, suja e acre, rolada em bafos mornos, que o enfurecia:
—Oh, este pó da Cidade!
—Mas, oh Jacintho, por que não vamos para Fontainebleau, ou para Montmorency, ou...
—P'ra o campo? O que! P'ra o campo?!
E na sua face enrugada, através d'este berro, lampejava sempre tanta indignação, que eu curvava os hombros, humilde, no arrependimento de ter affrontosamente ultrajado o Principe que tanto amava. Desventurado Principe! Com o seu dourado cigarro d'Yaka a fumegar, errava então pelas salas, lenta e murchamente, como quem vaga em terra alheia sem affeições e sem occupações. Esses desaffeiçoados e desoccupados passos monotonamente o traziam ao seu centro, ao gabinete verde, á Bibliotheca d'ebano, onde accumulara Civilisação nas maximas proporções para gozar nas maximas proporções a delicia de viver. Espalhava em tôrno um olhar farto. Nenhuma curiosidade ou interesse lhe sollicitavam as mãos, enterradas nas algibeiras das pantalonas de sêda, n'uma inercia de derrota. Annulado, bocejava com descorçoada molleza. E nada mais instructivo e doloroso do que este supremo homem do seculo XIX, no meio de todos os apparelhos reforçadores dos seus orgãos, e de todos os fios que disciplinavam ao seu serviço as Forças Universaes, e dos seus trinta mil volumes repletos do saber dos seculos—estacando, com as mãos derrotadas no fundo das algibeiras, e exprimindo, na face e na indecisão molle d'um bocejo, o embaraço de viver!
VI
Todas as tardes, cultivando uma d'essas intimidades que entre tudo o que cança jámais cançam, Jacintho, ás quatro horas, com regularidade devota, visitava Madame d'Oriol:—por que essa flôr de Parisianismo permanecera em Paris, mesmo depois do Grand-Prix, a desbotar na calma e no cisco da Cidade. N'uma d'essas tardes, porém, o Telephone, anciosamente repicado, avisou Jacintho de que a sua dôce amiga jantava em Enghien com os Trèves. (Esses senhores gozavam o seu verão á beira do lago, n'uma casa toda branca e vestida de rosinhas brancas que pertencia a Ephrain).
Era um domingo silencioso, ennevoado e macio, convidando ás voluptuosidades da melancolia. E eu (no interesse da minha alma) suggeri a Jacintho que subissemos á Basilica do Sacré-Coeur, em construcção nos altos de Montmartre.
—É uma secca, Zé Fernandes...
—Com mil demonios! Eu nunca vi a Basilica...
—Bem, bem! Vamos á Basilica, homem fatal de Noronha e Sande!
E por fim logo que começamos a penetrar, para além de S. Vicente de Paula, em bairros estreitos e ingremes, d'uma quietação de provincia, com muros velhos fechando quintalejos rusticos, mulheres despenteadas cozendo á soleira das portas, carriolas desatreladas descançando diante das tascas, gallinhas soltas picando o lixo, cueiros molhados seccando em canas—o meu fastidioso camarada sorriu áquella liberdade e singeleza das cousas.
A vittoria parou em frente á larga rua de escadarias que trepa, cortando viellasinhas campestres, até á esplanada, onde, envolta em andaimes, se ergue a Basilica immensa. Em cada patamar barracas d'arraial devoto, forradas de panninho vermelho, transbordavam de Imagens, Bentinhos, Crucifixos, Corações de Jesus bordados a retroz, claros molhos de Rosarios. Pelos cantos, velhas agachadas resmungavam a Avè-Maria. Dois padres desciam, tomando risonhamente uma pitada. Um sino lento tilintava na doçura cinzenta da tarde. E Jacintho murmurou, com agrado:
—É curioso!
Mas a Basilica em cima não nos interessou, abafada em tapumes e andaimes, toda branca e sêcca, de pedra muito nova, ainda sem alma. E Jacintho, por um impulso bem Jacinthico, caminhou gulosamente para a borda do terraço, a contemplar Paris. Sob o ceu cinzento, na planicie cinzenta, a Cidade jazia, toda cinzenta, como uma vasta e grossa camada de caliça e telha. E, na sua immobilidade e na sua mudez, algum rolo de fumo, mais tenue e ralo que o fumear d'um escombro mal apagado, era todo o vestigio visivel da sua vida magnifica.
Então chasqueei risonhamente o meu Principe. Ahi estava pois a Cidade, augusta creação da Humanidade! Eil-a ahi, bello Jacintho! Sobre a crosta cinzenta da Terra—uma camada de caliça, apenas mais cinzenta! No emtanto ainda momentos antes a deixaramos prodigiosamente viva, cheia d'um povo forte, com todos os seus poderosos orgãos funccionando, abarrotada de riqueza, resplandecente de sapiencia, na triumphal plenitude do seu orgulho, como Rainha do Mundo coroada de Graça. E agora eu e o bello Jacintho trepavamos a uma collina, espreitavamos, escutavamos—e de toda a estridente e radiante Civilisação da Cidade não percebiamos nem um rumor nem um lampejo! E o 202, o soberbo 202, com os seus arames, os seus apparelhos, a pompa da sua Mechanica, os seus trinta mil livros? Sumido, esvaído na confusão de telha e cinza! Para este esvaecimento pois da obra humana, mal ella se comtempla de cem metros de altura, arqueja o obreiro humano em tão angustioso esforço? Hein, Jacintho?... Onde estão os teus Armazens servidos por tres mil caixeiros? E os Bancos em que retine o ouro universal? E as Bibliothecas atulhadas com o saber dos seculos? Tudo se fundiu n'uma nodoa parda que suja a Terra. Aos olhos piscos de um Zé Fernandes, logo que elle suba, fumando o seu cigarro, a uma arredada collina—a sublime edificação dos Tempos não é mais que um silencioso monturo da espessura e da côr do pó final. O que será então aos olhos de Deus!
E ante estes clamores, lançados com affavel malicia para espicaçar o meu Principe, elle murmurou, pensativo:
—Sim, é talvez tudo uma illusão... E a Cidade a maior illusão!
Tão facilmente victorioso redobrei de facundia. Certamente, meu Principe, uma Illusão! E a mais amarga, por que o Homem pensa ter na Cidade a base de toda a sua grandeza e só n'ella tem a fonte de toda a sua miseria. Vê, Jacintho! Na Cidade perdeu elle a força e belleza harmoniosa do corpo, e se tornou esse ser resequido e escanifrado ou obeso e afogado em unto, de ossos molles como trapos, de nervos tremulos como arames, com cangalhas, com chinós, com dentaduras de chumbo, sem sangue, sem febra, sem viço, torto, corcunda—esse ser em que Deus, espantado, mal póde reconhecer o seu esbelto e rijo e nobre Adão! Na Cidade findou a sua liberdade moral: cada manhã ella lhe impõe uma necessidade, e cada necessidade o arremessa para uma dependencia: pobre e subalterno, a sua vida é um constante sollicitar, adular, vergar, rastejar, aturar; rico e superior como um Jacintho, a Sociedade logo o enreda em tradições, preceitos, etiquetas, ceremonias, praxes, ritos, serviços mais disciplinares que os d'um carcere ou d'um quartel... A sua tranquillidade (bem tão alto que Deus com elle recompensa os Santos) onde está, meu Jacintho? Sumida para sempre, n'essa batalha desesperada pelo pão, ou pela fama, ou pelo poder, ou pelo gôzo, ou pela fugidia rodella d'ouro! Alegria como a haverá na Cidade para esses milhões de seres que tumultuam na arquejante occupação de desejar—e que, nunca fartando o desejo, incessantemente padecem de desillusão, desesperança ou derrota? Os sentimentos mais genuinamente humanos logo na Cidade se deshumanisam! Vê, meu Jacintho! São como luzes que o aspero vento do viver social não deixa arder com serenidade e limpidez; e aqui abala e faz tremer; e além brutamente apaga; e adiante obriga a flammejar com desnaturada violencia. As amizades nunca passam d'allianças que o interesse, na hora inquieta da defeza ou na hora sofrega do assalto, ata apressadamente com um cordel apressado, e que estalam ao menor embate da rivalidade ou do orgulho. E o Amor, na Cidade, meu gentil Jacintho? Considera esses vastos armazens com espelhos, onde a nobre carne d'Eva se vende, tarifada ao arratel, como a de vacca! Contempla esse velho Deus do Hymeneu, que circula trazendo em vez do ondeante facho da Paixão a apertada carteira do Dote! Espreita essa turba que foge dos largos caminhos assoalhados em que os Faunos amam as Nymphas na boa lei natural, e busca tristemente os recantos lobregos de Sodoma ou de Lesbos!... Mas o que a Cidade mais deteriora no homem é a Intelligencia, por que ou lh'a arregimenta dentro da banalidade ou lh'a empurra para a extravagancia. N'esta densa e pairante camada d'Idéas e Formulas que constitue a atmosphera mental das Cidades, o homem que a respira, n'ella envolto, só pensa todos os pensamentos já pensados, só exprime todas as expressões já exprimidas:—ou então, para se destacar na pardacente e chata Rotina e trepar ao fragil andaime da gloriola, inventa n'um gemente esforço, inchando o craneo, uma novidade disforme que espante e que detenha a multidão como um mostrengo n'uma Feira. Todos, intelectualmente, são carneiros, trilhando o mesmo trilho, balando o mesmo balido, com o focinho pendido para a poeira onde pisam, em fila, as pégadas pisadas;—e alguns são macacos, saltando no topo de mastros vistosos, com esgares e cabriolas. Assim, meu Jacintho, na Cidade, n'esta creação tão anti-natural onde o solo é de pau e feltro e alcatrão, e o carvão tapa o ceu, e a gente vive acamada nos predios como o panninho nas lojas, e a claridade vem pelos canos, e as mentiras se murmuram através d'arames—o homem apparece como uma creatura anti-humana, sem belleza, sem força, sem liberdade, sem riso, sem sentimento, e trazendo em si um espirito que é passivo como um escravo ou impudente como um histrião... E aqui tem o bello Jacintho o que é a bella Cidade!
E ante estas encanecidas e veneraveis invectivas, retumbadas pontualmente por todos os Moralistas bucolicos, desde Hesiodo, atravez dos seculos—o meu Principe vergou a nuca docil, como se ellas brotassem, inesperadas e frescas, d'uma Revelação superior, n'aquelles cimos de Montmartre:
—Sim, com effeito, a Cidade... É talvez uma illusão perversa!
Insisti logo, com abundancia, puchando os punhos, saboreando o meu facil philosophar. E se ao menos essa illusão da Cidade tornasse feliz a totalidade dos sêres, que a manteem... Mas não! Só uma estreita e reluzente casta goza na Cidade os gozos especiaes que ella cria. O resto, a escura, immensa plebe, só n'ella soffre, e com soffrimentos especiaes que só n'ella existem! D'este terraço, junto a esta rica Basilica consagrada ao Coração que amou o Pobre e por elle sangrou, bem avistamos nós o lobrego casario onde a plebe se curva sob esse antigo opprobrio de que nem Religiões, nem Philosophias, nem Moraes, nem a sua propria força brutal a poderão jámais libertar! Ahi jaz, espalhada pela Cidade, como esterco vil que fecunda a Cidade. Os seculos rolam; e sempre immutaveis farrapos lhe cobrem o corpo, e sempre debaixo d'elles, através do longo dia, os homens labutarão e as mulheres chorarão. E com este labor e este pranto dos pobres, meu Principe, se edifica a abundancia da Cidade! Eil-a agora coberta de moradas em que elles se não abrigam; armazenada de estofos, com que elles se não agasalham; abarrotada de alimentos, com que elles se não saciam! Para elles só a neve, quando a neve cáe, e entorpece e sepulta as creancinhas aninhadas pelos bancos das praças ou sob os arcos das pontes de Paris... A neve cáe, muda e branca na treva: as creancinhas gelam nos seus trapos: e a policia, em torno, ronda attenta para que não seja perturbado o tépido somno d'aquelles que amam a neve, para patinar nos lagos do Bosque de Bolonha com pelliças de tres mil francos. Mas quê, meu Jacintho! a tua Civilisação reclama insaciavelmente regalos e pompas, que só obterá, n'esta amarga desharmonia social, se o Capital dér ao Trabalho, por cada arquejante esfôrço, uma migalha ratinhada. Irremediavel é, pois, que incessantemente a plebe sirva, a plebe péne! A sua esfalfada miseria é a condição do esplendor sereno da Cidade. Se nas suas tigellas fumegasse a justa ração de caldo—não poderia apparecer nas baixellas de prata a luxuosa porção de foie-gras e tubaras que são o orgulho da Civilisação. Ha andrajos em trapeiras—para que as bellas Madamas d'Oriol, resplandecentes de sêdas e rendas, subam, em doce ondulação, a escadaria da Opera. Ha mãos regeladas que se estendem, e beiços sumidos que agradecem o dom magnanimo d'um sou—para que os Ephrains tenham dez milhões no Banco de França, se aqueçam á chamma rica da lenha aromatica, e surtam de collares de saphiras as suas concubinas, netas dos Duques d'Athenas. E um povo chora de fome, e da fome dos seus pequeninos—para que os Jacinthos, em janeiro, debiquem, bocejando, sobre pratos de Saxe, morangos gelados em Champagne e avivados d'um fio d'ether!
—E eu comi dos teus morangos, Jacintho! Miseraveis, tu e eu!
Elle murmurou, desolado:
—É horrivel, comemos d'esses morangos... E talvez por uma illusão!
Pensativamente deixou a borda do terraço, como se a presença da Cidade, estendida na planicie, fosse escandalosa. E caminhamos devagar, sob a molleza cinzenta da tarde, philosophando—considerando que para esta iniquidade não havia cura humana, trazida pelo esforço humano. Ah, os Ephrains, os Trèves, os vorazes e sombrios tubarões do mar humano, só abandonarão ou affrouxarão a exploração das Plebes, se uma influencia celeste, por milagre novo, mais alto que os milagres velhos, lhes converter as almas! O burguez triumpha, muito forte, todo endurecido no peccado—e contra elle são impotentes os prantos dos Humanitarios, os raciocinios dos Logicos, as bombas dos Anarchistas. Para amollecer tão duro granito só uma doçura divina. Eis pois esperança da terra novamente posta n'um Messias!... Um decerto desceu outrora dos grandes Ceus; e, para mostrar bem que mandado trazia, penetrou mansamente no mundo pela porta d'um curral. Mas a sua passagem entre os homens foi tão curta! Um meigo sermão n'uma montanha, ao fim d'uma tarde meiga; uma reprehensão moderada aos Phariseus que então redigiam o Boulevard; algumas vergastadas nos Ephrains vendilhões; e logo, através da porta da morte, a fuga radiosa para o Paraiso! Esse adoravel filho de Deus teve demasiada pressa em recolher a casa de seu Pae! E os homens a quem elle incumbira a continuação da sua obra, envolvidos logo pelas influencias dos Ephrains, dos Trèves, da gente do Boulevard, bem depressa esqueceram a lição da Montanha e do lago de Tiberiade—e eis que por seu turno revestem a purpura, e são Bispos, e são Papas, e se alliam á oppressão, e reinam com ella, e edificam a duração do seu Reino sobre a miseria dos sem-pão e dos sem-lar! Assim tem de ser recomeçada a obra da Redempção. Jesus, ou Guatama, ou Christna, ou outro d'esses filhos que Deus por vezes escolhe no seio d'uma Virgem, nos quietos vergeis da Asia, deverá novamente descer á terra de servidão. Virá elle, o desejado? Porventura já algum grave rei d'Oriente despertou, e olhou a estrella, e tomou a myrrha nas suas mãos reaes, e montou pensativamente sobre o seu dromedario? Já por esses arredores da dura Cidade, de noute, emquanto Caiphaz e Magdalena ceam lagosta no Paillard, andou um Anjo, attento, n'um vôo lento, escolhendo um curral? Já de longe, sem moço que os tanja, na gostosa pressa d'um divino encontro, vem trotando a vacca, trotando o burrinho?
—Tu sabes, Jacintho?
Não, Jacintho não sabia—e queria accender o charuto. Forneci um phosphoro ao meu Principe. Ainda rondamos no terraço, espalhando pelo ar outras idéas solidas que no ar se desfaziam. Depois penetravamos na Basilica—quando um Sachristão nedio, de barrete de velludo, cerrou fortemente a porta, e um Padre passou, enterrando na algibeira, com um cançado gesto final e como para sempre, o seu velho Breviario.
—Estou com uma sêde, Jacintho... Foi esta tremenda Philosophia!
Descemos a escadaria, armada em arraial devoto. O meu pensativo camarada comprou uma imagem da Basilica. E saltavamos para a vittoria, quando alguem gritou rijamente, n'uma surpreza:
—Eh Jacintho!
O meu Principe abriu os braços, tambem espantado:
—Eh Mauricio!
E, n'um alvoroço, atravessou a rua, para um café, onde, sob o toldo de riscadinho, um robusto homem, de barba em bico, remexia o seu absintho, com o chapéo de palha descahido na nuca, a quinzena solta sobre a camisa de sêda, sem gravata, como se descançasse n'um banco, entre as sombras do seu jardim.
E ambos, apertando as mãos, se admiravam d'aquelle encontro, n'um domingo de verão, sobre as alturas de Montmartre.
—Oh! eu estou aqui no meu bairro! exclamava alegremente Mauricio. Em familia, em chinellos... Ha tres mezes que subi para estes cimos da Verdade... Mas tu na Santa Colina, homem profano da planicie e das ruas d'Israel!
O meu Principe mostrou o seu Zé Fernandes:
—Com este amigo, em peregrinação á Basilica... O meu amigo Fernandes Lorena... Mauricio de Mayolle, velho camarada.
Mr. de Mayolle (que, pela face larga e nariz nobremente grosso, lembrava Francisco de Valois, Rei de França) ergueu o seu chapeu de palha. E empurrava uma cadeira, insistia que nos accommodassemos para um absintho ou para um bock.
—Toma um bock, Zé Fernandes! lembrou Jacintho. Tu estavas a ganir com sêde!
Corri lentamente a lingua sobre os beiços, mais sêcos que pergaminhos:
—Estou a guardar esta sêdesinha para logo, para o jantar, com um vinhosinho gelado!
Mauricio saudou, com silenciosa admiração, esta minha avisada malicia. E immediatamente, para o meu Principe:
—Ha tres annos que te não vejo, Jacintho... Como tem sido possivel, n'este Paris que é uma aldeola e que tu atravancas?
—A vida, Mauricio, a espalhada vida... Com effeito! Ha tres annos, desde a casa dos Lamotte-Orcel. Tu ainda visitas esse santuario?
Mauricio atirou um gesto desdenhoso e largo, que sacudia um mundo:
—Oh! Ha mais d'um anno que me separei d'essa bicharia heretica... Uma turba indisciplinada, meu Jacintho! Nenhuma fixidez, um dilletantismo estonteado, carencia completa e comica de toda a base experimental... Quando tu ias aos Lamotte-Orcel, e á Parola do 37, e á Cerveja ideal, o que reinava?...
Jacintho catou lentamente as suas recordações por entre os pêllos do bigode:
—Eu sei!... Reinava Wagner e a Mithologia Eddica, e o Raganarock, e as Nornas... Muito Pre-Raphaelismo tambem, e Montagna, e Fra-Angelico... Em moral, o Renanismo.
Mauricio sacudia os hombros. Oh, tudo isso pertencia a um passado archaico, quasi lacustre! Quando Madame de Lamotte-Orcel remobilára a sala com velludos Morris, grossas alcachofras sobre tons d'açafrão, já o Renanismo passára, tão esquecido como o Cartesianismo...
—Tu ainda és do tempo do culto do Eu?
O meu Principe suspirou risonhamente:
—Ainda o cultivei.
—Pois bem! Logo depois foi o Hartmanismo, o Inconsciente. Depois o Nietzismo, o Feudalismo espiritual... Depois grassou o Tolstoïsmo, um furor immenso de renunciamento neo-cenobitico. Ainda me lembro d'um jantar em que appareceu um mostrengo d'um slavo, de guedelha sordida, que atirava olhos medonhos para o decote da pobre condessa d'Arche, e que grunhia com o dedo espetado:—«Busquemos a luz, muito por baixo, no pó da terra!»—E á sobremeza bebemos á delicia da humildade e do trabalho servil, com aquelle Champagne Marceaux granitado que a Mathilde dava nos grandes dias em copos da fórma do San-Gral! Depois veio Emersonismo... Mas a praga cruel foi Ibsenismo! Emfim, meu filho, uma Babel de Ethicas e Estheticas. Paris parecia demente. Já havia uns desgarrados que tendiam para o Luciferismo. E amiguinhas nossas, coitadas, iam descambando para o Phallismo, uma moxinifada mystico-brejeira, prégada por aquelle pobre La Carte que depois se fez Monge Branco, e que anda no Deserto... Um horror! E uma tarde, de repente, toda esta massa se precipita com ancia para o Ruskinismo!
Eu, agarrado á bengala, bem fincada no chão, sentia como um vendaval que redemoinhava, me torcia o craneo! E até Jacintho balbuciou, esgazeado:
—O Ruskinismo?
—Sim, o velho Ruskin,... John Ruskin!
O meu ditoso Principe comprehendeu:
—Ah, Ruskin!... As sete lampadas da Architectura, A Corôa de Oliveira Brava... É o culto da Belleza.
—Sim! O culto da Belleza, confirmou Mauricio. Mas a esse tempo eu, enojado, já descera de todas essas nuvens vãs... Pisava um chão mais seguro, mais fertil.
Deu um sorvo lento ao absintho, cerrando as palpebras. Jacintho esperava, com o seu fino nariz dilatado, como para respirar a Flôr de Novidade que ia desabrochar:
—E então? então?...
Mas o outro murmurou, dispersamente, por entre reticencias em que se velava:
—Vim para Montmartre... Tenho aqui um amigo, um homem de genio, que percorreu toda a India... Viveu com os Toddas, esteve nos mosteiros de Garma-Khian e de Dashi-Lumbo, e estudou com Gegen-Chutu no retiro santo de Urga... Gegen-Chutu foi a decima-sexta encarnação de Guatama, e era portanto um Boddi-sattva... Trabalhamos, procuramos... Não são visões. Mas factos, experiencias bem antigas, que vem talvez desde os tempos de Christna...
Através d'estes nomes, que exhalavam um perfume triste de vetustos ritos, arredára a cadeira. E de pé, deixando cair sobre a mesa, distrahidamente, para pagar o absintho, moedas de prata e moedas de cobre, murmurava com os olhos descançados em Jacintho, mas perdidos n'outra visão:
—Por fim tudo se reduz ao supremo desenvolvimento da Vontade dentro da suprema pureza da Vida. É toda a sciencia e força dos grandes mestres Hindus... Mas a pureza absoluta da vida, eis a lucta, eis o obstaculo! Não basta mesmo o Deserto, nem o bosque do mais velho templo no alto Thibet... Ainda assim, meu Jacintho, já obtivemos resultados bem extranhos. Sabes as experiencias de Tyndall, com as chammas sensitivas... O pobre chimico, para demonstrar as vibrações do som, tocou quasi ás portas da verdade isoterica. Mas què! homem de sciencia, portanto homem d'estupidez, ficou áquem, entre as suas placas e as suas retortas! Nós fômos além. Verificámos as ondulações da Vontade! Deante de nós, pela expansão da energia do meu companheiro, e em cadencia com o seu mandado, uma chamma, a tres metros, ondulou, rastejou, despediu linguas ardentes, lambeu uma alta parede, rugiu furiosa e negra, resplandeceu direita e silenciosa, e bruscamente abatida em cinza morreu!
E o extranho homem, com o chapeu para a nuca, ficou immovel, de braços abertos e os olhares esgazeados, como no renovado assombro e no transe d'aquelle prodigio. Depois, recahindo no seu modo facil e sereno, accendendo de vagar um cigarro:
—Uma d'estas manhãs, Jacintho, appareço no 202, para almoçar comtigo, e levo o meu amigo. Elle só come arrôz, uma pouca de salada, e fructa. E conversamos... Tu tinhas um exemplar do Sepher-Zerijah e outro do Targum d'Onkelus. Preciso folhear esses livros.
Apertou a mão do meu Principe, saudou este assombrado Zé Fernandes, e serenamente seguiu pela quieta rua, com o chapeu de palha para a nuca, as mãos enterradas nas algibeiras, como um homem natural entre cousas naturaes.
—Oh Jacintho! Quem é este bruxo? Conta!... Quem é elle, santissimo nome de Deus?
Recostado na vittoria, ageitando o vinco das calças, o meu Principe contou, concisamente. Era um nobre e leal rapaz, muito rico, muito intelligente, da antiga casa soberana de Mayolle, descendente dos Duques de Septimania... E murmurou, através do costumado bocejo:
—O desenvolvimento supremo da vontade!... Theosophia, Buddhismo isoterico... Aspirações, decepções... Já experimentei... Uma massada!
Atravessamos, callados, o rumôr de Paris, sob a molleza abafada do crepusculo de verão, para jantar no Bosque, no Pavilhão d'Armenonville, onde os Tziganes, avistando Jacintho, tocaram o Hymno da Carta com paixão, com langor, n'uma cadencia de czarda dolorosa e aspera.
E eu, desdobrando regaladamente o guardanapo:
—Pois venha agora para a minha rica sêde esse vinhosinho gelado! Grandemente o mereço, caramba, que superiormente philosophei!... E creio que estabeleci definitivamente no espirito do Snr. D. Jacintho o salutar horror da cidade!
O meu Principe percorria, catando o bigode, a Lista-dos-Vinhos, em quanto o Copeiro, esperava com pensativa reverencia:
—Mande gelar duas garrafas de champagne S.t Marceaux... Mas antes, um Barsac velho, apenas refrescado... Agoa de Evian... Não, de Bussang! Bem, d'Evian e de Bussang! E, para começar, um bock.
Depois, bocejando, desabotoando lentamente a sobrecasaca cinzenta:
—Pois estou com vontade de construir uma casa nos cimos de Montmartre, com um miradouro no alto, todo de vidro e ferro, para descançar de tarde e dominar a Cidade...