VII
Julho findára com uma chuva refrescante e consoladora:—e eu pensava em realisar finalmente a minha romagem ás cidades da Europa, sempre retardada, através da primavera, pelas surprezas do Mundo e da Carne. Mas, de repente, Jacintho começou a rogar e a reclamar que o seu Zé Fernandes o acompanhasse, todas as tardes, a casa de Madame d'Oriol! E eu comprehendi que o meu Principe (á maneira do divino Achilles, que, sob a tenda, e junto da branca, insipida e docil Briseis, nunca dispensava Patoclo) desejava ter, no retiro do Amor, a presença, o confôrto e o soccorro da Amizade. Pobre Jacintho! Logo pela manhã combinava pelo telephone com Madame d'Oriol essa hora de quietação e doçura. E assim encontravamos sempre a superfina Dama prevenida e solitaria n'aquella sala da rua de Lisbonne, onde Jacintho e eu mal cabiamos, suffocavamos na confusão, entre os cestos de flôres, e os ouros rocalhados, e os monstros do Japão, e a galante fragilidade dos Saxes, e as pelles de feras estiradas aos pés de sophás adormecedores, e os biombos de Aubusson formando alcôvas favoraveis e languidas... Aninhada n'uma cadeira de bambú lacada de branco, entre almofadas aromatisadas de verbena da India, com um romance pousado no regaço, ella esperava o seu amigo, n'uma certa indolencia passiva e mansa que me lembrava sempre o Oriente e um Harem. Mas, pelas frescas sedinhas Pompadour, parecia tambem uma marquezinha de Versalhes cançada do grande seculo; ou então, com brocados sombrios e largos cintos cravejados, era como uma veneziana, preparada para um Doge. A minha intrusão, na intimidade d'aquellas tardes, não a contrariava—antes lhe trazia um vassallo novo, com dous olhos novos para a contemplar. Eu era já o seu cher Fernandez!
E apenas descerrava os labios avivados de vermelho, semelhantes a uma ferida fresca, e começava a chalrar—logo nos envolvia o burburinho e a murmuração de Paris. Ella só sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o resumo da sua Classe, e sobre a sua existencia que era o resumo do seu Paris:—e a sua existencia, desde casada, consistira em ornar com suprema sciencia o seu lindo corpo; entrar com perfeição n'uma sala e irradiar; remexer em estofos e conferenciar pensativamente com o grande costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vittoria como uma imagem de cêra; decotar e branquear o collo; debicar uma perna de gallinhola em mezas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a vaidade esfalfada; percorrer de manhã, tomando chocolate, os «Echos» e as «Festas» do Figaro; e de vez em quando murmurar para o marido—«Ah, és tu?...» Além d'isso, ao lusco-fusco, n'um sophá, alguns certos suspiros, entre os braços d'alguem a quem era constante. Ao meu Principe, n'esse anno, pertencia o sophá. E todos estes deveres de Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorrira, desde casada, que já duas prégas lhe vincavam os cantos dos beiços, indelevelmente. Mas nem na alma, nem na pelle, mostrava outras maculas de fadiga. A sua Agenda de Visitas continha mil e tresentos nomes, todos do Nobiliario. Através, porém, desta fulgurante sociabilidade arranjára no cerebro (onde de certo penetrára o pó d'arroz que desde o collegio acamava na testa) algumas Idéas Geraes. Em Politica era pelos Principes; e todos os outros «horrores», a Republica, o Socialismo, a Democracia que se não lava, os sacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa juntava ás rendas do chapeu a Corôa amarga de espinhos—por serem esses, para a gente bem-nascida, dias de penitencia e dôr. E, deante de todo o Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoção e formulava finamente o juizo, que no seu Mundo, e n'essa Semana, fôsse elegante formular e sentir. Tinha trinta annos. Nunca se embaraçára nos tormentos d'uma paixão. Marcava, com rigida regularidade, todas as suas despezas n'um Livro de Contas encadernado em pellucia verde-mar. A sua religião intíma (e mais genuina do que a outra, que a levava todos os domingos á missa de S. Philippe du Roule) era a Ordem. No inverno, logo que na amavel cidade começavam a morrer de frio, debaixo das pontes, creancinhas sem abrigo—ella preparava com commovido cuidado os seus vestidos de patinagem. E preparava tambem os de Caridade—porque era boa, e concorria para Bazares, Concertos e Tombolas, quando fossem patrocinados pelas Duquezas do seu «rancho». Depois, na primavera, muito methodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de inverno. Paris admirava n'ella uma suprema flôr de Parisianismo.
Pois respirando esta macia e fina flôr passamos nós as tardes d'esse julho em quanto as outras flôres pendiam e murchavam na calma e no pó. Mas, na intimidade do seu perfume, Jacintho não parecia encontrar esse contentamento d'alma, que entre tudo que cança jámais cança. Era já com a paciente lentidão com que se sobem todos os Calvarios, os mais bem tapetados, que elle subia a escadaria de Madame d'Oriol, tão suave e orlada de tão frescas palmeiras. Quando a appetitosa creatura, com dedicação, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pavão desdobra a cauda, o meu pobre Principe puxava os pêllos do bigode murcho, na murcha postura de quem, por uma manhã de Maio, em quanto os melros cantam nas sebes, assiste, n'uma egreja negra, a um responso funebre por um Principe. E no beijo que elle chuchurreava sobre a mão da sua dôce amiga, para se despedir, havia sempre alacridade e allivio.
Mas ao outro dia, ao começar da tarde, depois de errar através da Bibliotheca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do telegrapho, atirando algum recado molle pelo telephone, espalhando o olhar desalentado sobre o saber immenso dos trinta mil livros, remexendo a collina dos Jornaes e Revistas, terminava por me chamar, já com a preguiça triste da façanha a que se impellia:
—Vamos a casa de Madame d'Oriol, Zé Fernandes? Eu tinha marcadas para hoje seis ou sete coisas, mas não posso, é uma secca! Vamos a casa de Madame d'Oriol... Ao menos lá, ás vezes, ha um bocado de frescura e paz.
E foi n'uma d'essas tardes, em que o meu Principe assim procurava desesperadamente um «bocado de frescura e paz», que encontramos, ao meio da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido de Madame d'Oriol. Eu já o conhecia—porque Jacintho m'o mostrára uma noite, no Grand Café, ceiando com dançarinas do Moulin Rouge. Era um moço gordalhufo, indolente, de uma brancura crúa de toucinho, com uma calvice já séria e já lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos carregados de anneis. N'essa tarde, porém, vinha vermelho, todo emocionado, calçando as luvas com colera. Estacou diante de Jacintho—e sem mesmo lhe apertar a mão, atirando um gesto para o patamar:
—Visita lá acima? Vai achar a Joanna em pessima disposição... Tivemos uma scena, e tremenda.
Deu outro puxão desesperado á luva côr de palha, já esgaçada:
—Estamos separados, cada um vive como lhe appetece, é excellente! Mas em tudo ha medida e fórma... Ella tem o meu nome, não posso consentir que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do trintanario. Amantes na nossa roda, vá! Um lacaio, não!... Se quer dormir com os creados que emigre para o fundo da provincia, para a sua casa de Corbelle. E lá até com os animaes!... Foi o que eu lhe disse! Ficou como uma fera.
Sacudiu então a mão do Jacintho que «era da sua roda»—rebolou pela escadaria florida e nobre. O meu Principe, immovel nos degraus, de face pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando para mim, como um sèr saturado de tedio e em quem nenhum tedio novo póde caber:
—Já agora subamos, sim?
Parti então, com muita alegria, para a minha appetecida romagem ás Cidades da Europa.
Ia viajar!... Viajei. Trinta e quatro vezes, á pressa, bufando, com todo o sangue na face, desfiz e refiz a mala. Onze vezes passei o dia n'um wagon, envolto em poeirada e fumo, suffocado, a arquejar, a escorrer de suor, saltando em cada estação para sorver desesperadamente limonadas mornas que me escangalhavam a entranha. Quatorze vezes subi derreadamente, atraz de um creado, a escadaria desconhecida d'um Hotel; e espalhei o olhar incerto por um quarto desconhecido; e estranhei uma cama desconhecida, d'onde me erguia, estremunhado, para pedir em linguas desconhecidas um café com leite que me sabia a fava, um banho de tina que me cheirava a lôdo. Oito vezes travei bulhas abominaveis na rua com cocheiros que me espoliavam. Perdi uma chapelleira, quinze lenços, tres ceroulas, e duas botas, uma branca, outra envernizada, ambas do pé direito. Em mais de trinta mezas-redondas esperei tristonhamente que me chegasse o boeuf-a-la-mode, já frio, com môlho coalhado—e que o copeiro me trouxesse a garrafa de Bordeus que eu provava e repellia com desditosa carantonha. Percorri, na fresca penumbra dos granitos e dos marmores, com pé respeitoso e abafado, vinte e nove Cathedraes. Trilhei mollemente, com uma dôr surda na nuca, em quatorze muzeus, cento e quarenta salas revestidas até aos tectos de Christos, heroes, santos, nymphas, princezas, batalhas, architecturas, verduras, nudezes, sombrias manchas de betume, tristezas das formas immoveis!... E o dia mais dôce foi quando em Veneza, onde chovia desabaladamente, encontrei um velho inglez de penca flammejante que habitára o Porto, conhecêra o Ricardo, o José Duarte, o Visconde do Bom Successo, e as Limas da Boa Vista... Gastei seis mil francos. Tinha viajado.
Emfim, n'uma bemdita manhã d'outubro, na primeira friagem e nevoa d'outomno, avistei com enternecido alvoroço as cortinas de seda ainda fechadas do meu 202! Affaguei o hombro do Porteiro. No patamar, onde encontrei o ar macio e tepido que deixára em Florença, apertei os ossos do Grillo excellente:
—E Jacintho?
O digno negro murmurou, d'entre os altos, reluzentes collarinhos:
—S. Exc.a circula... Pesadote, fartote. Entrou tarde do baile da Duqueza de Loches. Era o contracto de casamento de Mademoiselle de Loches... Ainda tomou antes de se deitar um chá gelado... E disse a coçar a cabeça: «Eh! que massada! Eh! que massada!»
Depois do banho e do chocolate, ás dez horas, consolado e quentinho dentro do roupão de velludo, rompi pelo quarto do meu Principe, de braços abertos e sedentos:
—Oh Jacintho!
—Oh viajante!...
Quando nos estreitamos, fartamente, eu recuei para lhe contemplar a face—e n'ella a alma. Encolhido n'uma quinzena de panno côr de malva orlada de pelles de martha, com os pellos do bigode murchos, as suas duas rugas mais cavadas, uma molleza nos hombros largos, o meu amigo parecia já vergado sob o pezo e a oppressão e o terror do seu dia. Eu sorri, para que elle sorrisse:
—Valente Jacintho... Então como tens vivido?
Elle respondeu, muito serenamente:
—Como um morto.
Forcei uma gargalhada leve, como se o seu mal fôsse leve:
—Aborrecidote, hein?
O meu Principe lançou, n'um gesto tão vencido, um oh tão cansado—que eu compadecido de novo o abracei, o estreitei, como para lhe communicar uma parte d'esta alegria solida e pura que recebi do meu Deus!
Desde essa manhã, Jacintho começou a mostrar claramente, escancaradamente, ao seu Zé Fernandes, o tédio de que a existencia o saturava. O seu cuidado realmente e o seu esfôrço consistiram então em sondar e formular esse tédio—na esperança de o vencer logo que lhe conhecesse bem a origem e a potencia. E o meu pobre Jacintho reproduziu a comedia pouco divertida d'um Melancolico que perpetuamente raciocina a sua Melancolia! N'esse raciocinío, elle partia sempre do facto irrecusavel e massiço—que a sua vida especial de Jacintho continha todos os interesses e todas as facilidades, possiveis no seculo XIX, n'uma vida de homem que não é um Genio, nem um Santo. Com effeito! Apezar do appetite embotado por doze annos de Champagnes e môlhos ricos elle conservava a sua rijeza de pinheiro bravo; na luz da sua intelligencia não apparecêra nem tremor nem morrão; a boa terra de Portugal, e algumas Companhias macissas, pontualmente lhe forneciam a sua doce centena de contos; sempre activas e sempre fieis o cercavam as sympathias d'uma Cidade inconstante e chasqueadora; o 202 estourava de confôrtos; nenhuma amargura de coração o atormentava;—e todavia era um Triste. Porque?... E d'aqui saltava, com certeza fulgurante, á conclusão de que a sua tristeza, esse cinzento burel em que a sua alma andava amortalhada, não provinham da sua individualidade de Jacintho—mas da Vida, do lamentavel, do desastroso facto de Viver! E assim o saudavel, intellectual, riquissimo, bem-acolhido Jacintho tombára no Pessimismo.
E um Pessimismo irritado! Porque (segundo affirmava) elle nascera para ser tão naturalmente optimista como um pardal ou um gato. E, até aos doze annos, emquanto fôra um bicho superiormente amimado, com a sua pelle sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena—e as lagrimas eram para elle tão incomprehensiveis que lhe pareciam viciosas. Só quando crescêra, e da animalidade penetrára na humanidade, despontára n'elle esse fermento de tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das primeiras curiosidades, e que depois alastrára, o invadira todo, se lhe tornára consubstancial e como o sangue das suas veias. Soffrer portanto era inseparavel de Viver. Soffrimentos differentes nos destinos differentes da Vida. Na turba dos humanos é a angustiada lucta pelo pão, pelo tecto, pelo lume; n'uma casta, agitada por necessidades mais altas, é a amargura das desillusões, o mal da imaginação insatisfeita, o orgulho chocando contra obstaculo; n'elle, que tinha os bens todos e desejos nenhuns, era o tédio. Miseria do Corpo, tormento da Vontade, fastio da Intelligencia—eis a Vida! E agora aos trinta e tres annos a sua occupação era bocejar, correr com os dedos desalentados a face pendida para n'ella palpar e appetecer a caveira.
Foi então que o meu Principe começou a ler apaixonadamente, desde o Ecclesiastes até Schopenhauer, todos os lyricos e todos os theoricos do Pessimismo. N'estas leituras encontrava a reconfortante comprovação de que o seu mal não era mesquinhamente «Jacinthico»—mas grandiosamente resultante d'uma Lei Universal. Já ha quatro mil annos, na remota Jerusalém, a Vida, mesmo nas suas delicias mais triumphaes, se resumia em Illusão. Já o Rei incomparavel, de sapiencia divina, summo Vencedor, summo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os despojos das suas conquistas, e os marmores novos dos seus Templos, e as suas tres mil concubinas, e as Rainhas que subiam do fundo da Ethiopia para que elle as fecundasse e no seu ventre depozésse um Deus! Não ha nada novo sob o sol, e a eterna repetição das coisas é a eterna repetição dos males. Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do pó, em pó se tornam. Tudo tende ao pó ephemero, em Jerusalém e em Paris! E elle, obscuro no 202, padecia por ser homem e por viver—como no seu throno d'ouro, entre os seus quatro leões d'ouro, o filho magnifico de David.
Não se separava então do Ecclesiastes. E circulava por Paris trazendo dentro do coupé Salomão, como irmão de dôr, com quem repetia o grito desolado que é a summa da verdade humana—Vanitas Vanitatum! Tudo é Vaidade! Outras vezes, logo de manhã o encontrava estendido no sophá, n'um roupão de sêda, absorvendo Schopenhauer—emquanto o pedicuro, ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e pericia as unhas dos pés. Ao lado pousava a chavena de Saxe, cheia d'esse café de Moka enviado por emires do Deserto, que não o contentava nunca, nem pela força, nem pelo aroma. A espaços pousava o livro no peito, resvalava um olhar compassivo para o pedicuro, como a procurar que dôr o torturaria—pois que a todo o viver corresponde um soffrer. Decerto o remexer assim, perpetuamente, em pés alheios... E quando o pedicuro se erguia, Jacintho abria para elle um sorriso de confraternidade—com um «adeus, meu amigo» que era «um adeus, meu irmão!»
Esse foi o periodo esplendido e soberbamente divertido do seu tédio. Jacintho encontrára emfim na vida uma occupação grata—maldizer a Vida! E para que a podésse maldizer em todas as suas fórmas, as mais ricas, as mais intellectuaes, as mais puras, sobrecarregou a sua vida propria de novo luxo, de interesses novos d'espirito, e até de fervores humanitarios, e até de curiosidades supernaturaes.
O 202, n'esse inverno, refulgiu de magnificencia. Foi então que elle iniciou em Paris, repetindo Heliogabalo, os Festins de Côr contados na Historia Augusta: e offereceu ás suas amigas esse sublime jantar côr de rosa, em que tudo era roseo, as paredes, os moveis, as luzes, as louças, os crystaes, os gelados, os Champagnes, e até (por uma invenção da Alta-Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros serviam, empoados de pó rosado, com librés da côr da rosa, em quanto do tecto, d'um velario de seda rosada, cahiam petalas frescas de rosas... A Cidade, deslumbrada, clamou—«Bravo, Jacintho!» E o meu Principe, ao rematar a festa fulgurante, plantou deante de mim as mãos nas ilhargas e gritou triumphalmente:—«Hein? Que massada!...»
Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospicio no campo, entre jardins, para velhinhos desamparados, outro para creanças debeis á beira do Mediterraneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hindù de Mayolle penetrou no Theosophismo: e montou tremendas experiencias para verificar a mysteriosa exteriorisação da motilidade. Depois, desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegraphicos do Times, para que no seu gabinete, como n'um coração, palpitasse toda a vida Social da Europa.
E a cada um d'estes esforços da elegancia, do humanitarismo, da sociabilidade, e da intelligencia indagadora, voltava para mim, de braços alegres, com um grito victorioso:—«Vês tu, Zé Fernandes? Uma massada!»—Arrebatava então o seu Ecclesiastes, o seu Schopenhauer, e, estendido no sophá, saboreava voluptuosamente a concordancia da Doutrina e da Experiencia. Possuia uma Fé—o Pessimismo: era um apostolo rico e esforçado: e tudo tentava, com sumptuosidade, para provar a verdade da sua Fé! Muito gozou n'esse anno o meu desgraçado Principe!
No começo do inverno, porém, notei com inquietação que Jacintho já não folheava o Ecclesiastes, desleixava Schopenhauer. Nem festas, nem Theosophismos, nem os seus Hospicios, nem os fios do Times, pareciam interessar agora o meu amigo, mesmo como demonstrações gloriosas da sua Crença. E a sua abominavel funcção de novo se limitou a bocejar, a passar os dedos molles sobre a face pendida palpando a caveira. Incessantemente alludia á morte como a uma libertação. Uma tarde mesmo, no melancolico crepusculo da Bibliotheca, antes de refulgirem as luzes, consideravelmente me aterrou, fallando n'um tom regelado de mortes rapidas, sem dôr, pelo choque d'uma vasta pilha electrica ou pela violencia compassiva do acido cyanidrico. Diabo! O Pessimismo, que apparecera na Intelligencia do meu Principe como um conceito elegante—atacára bruscamente a Vontade!
Todo o seu movimento então foi o d'um boi inconsciente que marcha sob a canga e o aguilhão. Já não esperava da Vida contentamento—nem mesmo se lastimava que ella lhe trouxesse tédio ou pena. «Tudo é indifferente, Zé Fernandes!» E tão indifferentemente sahiria á sua janella para receber uma Corôa Imperial offerecida por um Povo—como se estenderia n'uma poltrona rôta para emmudecer e jazer. Sendo tudo inutil, e não conduzindo senão a maior desillusão, que podia importar a mais rutilante actividade ou a mais desgostada inercia? O seu gesto constante, que me irritava, era encolher os hombros. Perante duas ideias, dois caminhos, dois pratos, encolhia os hombros! Que importava?... E no minimo acto, raspar um phosphoro ou desdobrar um Jornal, punha uma morosidade tão desconsolada que todo elle parecia ligado, desde os dedos até á alma, pelas voltas apertadas d'uma corda que se não via e que o travava.
Muito desagradavelmente me recordo do dia dos seus annos, a 10 de Janeiro. Cêdo, de manhã, recebèra, com uma carta de Madame de Trèves, um açafate de camelias, azaleas, orchideas e lyrios do valle. E foi este mimo que lhe recordou a data consideravel. Soprou sobre as petalas o fumo do cigarro e murmurou com um riso de lento escarneo:
—Então, ha trinta e quatro annos que eu ando n'esta massada?
E como eu propunha que telephonassemos aos amigos para beberem no 202 o Champagne do «Natalicio»—elle recusou, com o nariz enojado. Oh! Não! Que horrivel sécca!... E bradou mesmo para o Grillo:
—Eu hoje não estou em Paris para ninguem. Abalei para o campo, abalei para Marselha... Morri!
E a sua ironia não cessou até ao almoço perante os bilhetes, os telegrammas, as cartas, que subiam, se arredondavam em collina sobre a meza d'ebano, como um preito da Cidade. Outras flôres que vieram, em vistosos cestos, com vistosos laços, foram por elle comparadas ás que se depõe sobre uma tumba. E apenas se interessou um momento pelo presente de Ephraim, uma engenhosa meza, que se abaixava até ao tapete ou se alteava até ao tecto—para que, senhor Deus meu?
Depois do almoço, como chovia sombriamente, não arredamos do 202, com os pés estendidos ao lume, em preguiçoso silencio. Eu terminára por adormecer beatificamente. Acordei aos passos açodados do Grillo... Jacintho, enterrado na poltrona, com umas tesouras, recortava um papel! E nunca eu me compadeci d'aquelle amigo, que cançára a mocidade a accumular todas as noções formuladas desde Aristoteles e a juntar todos os inventos realisados desde Tharamenes, como n'essa tarde de festa, em que elle, cercado de Civilisação nas maximas proporções para gozar nas maximas proporções a delicia de viver, se encontrava reduzido, junto ao seu lar, a recortar papeis com uma tesoura!
O Grillo trazia um presente do Gran-Duque—uma caixa de prata, forrada de cedro, e cheia d'um chá precioso, colhido, flôr a flôr, nas veigas de Kiang-Sou por mãos puras de virgens, e conduzido através da Asia, em caravanas, com a veneração d'uma reliquia. Então, para despertar o nosso torpôr, lembrei que tomassemos o divino chá—occupação bem harmonica com a tarde triste, a chuva grossa alagando os vidros, e a clara chamma bailando no fogão. Jacintho accedeu—e um escudeiro acercou logo a meza de Ephraim para que nós lhe estreassemos os serviços destros. Mas o meu Principe, depois de a altear, para meu espanto, até aos crystaes do lustre, não conseguiu, apezar de uma suada e desesperada batalha com as molas, que a meza regressasse a uma altura humana e cazeira. E o escudeiro de novo a levou, levantada como um andaime, chimerica, unicamente aproveitavel para o gigante Adamastor. Depois veio a caixa do chá entre chaleiras, lampadas, coadores, filtros, todo um fausto de alfaias de prata, que communicavam a essa occupação, tão simples e dôce em caza de minha tia, fazer chá, a magestade d'um rito. Prevenido pelo meu camarada da sublimidade d'aquelle chá de Kiang-Sou, ergui a chavena aos labios com reverencia. Era uma infusão descorada que sabia a malva e a formiga. Jacintho provou, cuspiu, blasphemou... Não tomamos chá.
Ao cabo d'outro pensativo silencio, murmurei, com os olhos perdidos no lume:
—E as obras de Tormes? A egreja... Já haverá egreja nova?
Jacintho retomára o papel e a thesoura:
—Não sei... Não tornei a receber carta do Silverio... Nem imagino onde param os ossos... Que lugubre historia!
Depois chegou a hora das luzes e do jantar. Eu encommendára pelo Grillo ao nosso magistral cozinheiro uma larga travessa d'arroz dôce, com as iniciaes de Jacintho e a data ditosa em canella, á moda amavel da nossa meiga terra. E o meu Principe á meza, percorrendo a lamina de marfim onde no 202 se inscreviam os pratos a lapis vermelho, louvou com fervôr a ideia patriarchal:
—Arrôz dôce! Está escripto com dois ss, mas não tem dúvida... Excellente lembrança! Ha que tempos não cômo arrôz dôce!... Desde a morte da avó.
Mas quando o arrôz dôce appareceu triumphalmente, que vexâme! Era um prato monumental, de grande arte! O arrôz, massiço, moldado em fórma de pyramide do Egypto, emergia d'uma calda de cereja, e desapparecia sob os fructos seccos que o revestiam até ao cimo, onde se equilibrava uma corôa de Conde feita de chocolate e gomos de tangerina gelada! E as iniciaes, a data, tão lindas e graves na canella ingenua, vinham traçadas nas bordas da travessa com violetas pralinadas! Repellimos, n'um mudo horror, o prato acanalhado. E Jacintho, erguendo o copo de Champagne, murmurou como n'um funeral pagão:
—Ad Manes, aos nossos mortos!
Recolhemos á Bibliotheca, a tomar o café no conchego e alegria do lume. Fóra, o vento bramava como n'um êrmo serrano: e as vidraças tremiam, alagadas, sob as bategas da chuva irada. Que dolorosa noite para os dez mil pobres que em Paris erram sem pão e sem lar! Na minha aldeia, entre cêrro e valle, talvez assim rugisse a tormenta. Mas ahi cada pobre, sob o abrigo da sua telha vã, com a sua panella atestada de couves, se agacha no seu mantéo ao calor da lareira. E para os que não tenham lenha ou couve, lá está o João das Quintas, ou a tia Vicencia, ou o abbade, que conhecem todos os pobres pelos seus nomes, e com elles contam, como sendo dos seus, quando o carro vae ao matto e a fornada entra no fôrno. Ah Portugal pequenino, que ainda és dôce aos pequeninos!
Suspirei, Jacintho preguiçava. E terminamos por remexer languidamente os jornaes que o mordomo trouxera, n'um monte facundo, sobre uma salva de prata—jornaes de Paris, jornaes de Londres, Semanarios, Magazines, Revistas, Illustrações... Jacintho desdobrava, arremessava: das Revistas espreitava o summario, logo farto; ás Illustrações rasgava as folhas com o dedo indifferente, bocejando por cima das gravuras. Depois, mais estirado para o lume:
—É uma sécca... Não ha que lêr.
E de repente, revoltado contra este fastio oppressor que o escravisava, saltou da poltrona com um arranque de quem despedaça algemas, e ficou erecto, dardejando em torno um olhar imperativo e duro, como se intimasse aquelle seu 202, tão abarrotado de Civilisação, a que por um momento sequer fornecesse á sua alma um interesse vivo, á sua vida um fugitivo gôsto! Mas o 202 permaneceu insensivel: nem uma luz, para o animar, avivou o seu brilho mudo: só as vidraças tremeram sob o embate mais rude de agua e vento.
Então o meu Principe, succumbido, arrastou os passos até ao seu gabinete, começou a percorrer todos os apparelhos completadores e facilitadores da Vida—o seu Telegrapho, o seu Telephone, o seu Phonographo, o seu Radiometro, o seu Graphophono, o seu Microphono, a sua Machina d'Escrever, a sua Machina de Contar, a sua Imprensa Electrica, a outra Magnetica, todos os seus utensilios, todos os seus tubos, todos os seus fios... Assim um Supplicante percorre altares d'onde espera soccorro. E toda a sua sumptuosa Mechanica se conservou rigida, reluzindo frigidamente, sem que uma roda girasse, nem uma lamina vibrasse, para entreter o seu Senhor.
Só o relogio monumental, que marcava a hora de todas as capitaes e o curso de todos os planetas, se compadeceu, batendo a meia-noite, annunciando ao meu amigo que mais um Dia partira levando o seu pêzo—diminuindo esse sombrio pêzo da Vida, sob que elle gemia, vergado. O Principe da Gran-Ventura, então, decidiu recolher para a cama—com um livro... E durante um momento, estacou no meio da Bibliotheca, considerando os seus setenta mil volumes estabelecidos com pompa e magestade como Doutores n'um Concilio—depois as pilhas tumultuarias dos livros novos que esperavam pelos cantos, sobre o tapete, o repouso e a consagração das estantes d'ebano. Torcendo mollemente o bigode caminhou por fim para a região dos Historiadores: espreitou seculos, farejou raças: pareceu attrahido pelo explendor do Imperio Byzantino: penetrou na Revolução Franceza d'onde se arredou desencantado: e palpou com mão indeliberada toda a vasta Grecia desde a creação de Athenas até a aniquilação de Corintho. Mas bruscamente virou para a fila dos Poetas, que reluziam em marroquins claros, mostrando, sobre a lombada, em ouro, nos titulos fortes ou languidos, o interior das suas almas. Não appeteceu nenhuma d'essas seis mil almas—e recuou, desconsolado, até aos Biologos... Tão massiça e cerrada era a estante de Biologia que o meu pobre Jacintho estarreceu, como ante uma cidadella inaccessivel! Rolou a escada—e, fugindo, trepou, até ás alturas da Astronomia: destacou astros, recollocou mundos: todo um Systema Solar desabou com fragor. Aturdido, desceu, começou a procurar por sobre as rimas das obras novas, ainda brochadas, nas suas roupas leves de combate. Apanhava, folheava, arremessava: para desentulhar um volume, demolia uma torre de doutrinas: saltava por cima dos Problemas, pisava as Religiões: e relanceando uma linha, esgravatando além n'um indice, todos interrogava, de todos se desinteressava, rolando quasi de rastos, nas grossas vagas de tomos que rolavam, sem se poder deter, na ancia de encontrar um Livro! Parou então no meio da immensa nave, de cocoras, sem coragem, contemplando aquelles muros todos forrados, aquelle chão todo alastrado, os seus setenta mil volumes—e, sem lhes provar a substancia, já absolutamente saciado, abarrotado, nauseado pela opressão da sua abundancia. Findou por voltar ao montão de jornaes amarrotados, ergueu melancholicamente um velho Diario de Noticias, e com elle debaixo do braço subiu ao seu quarto, para dormir, para esquecer.
VIII
Ao fim d'esse inverno escuro e pessimista, uma manhã que eu preguiçava na cama, sentindo através da vidraça cheia de sol ainda pallido um bafo de Primavera ainda timido—Jacintho assomou á porta do meu quarto, revestido de flanellas leves, d'uma alvura de açucena. Parou lentamente á beira dos colxões, e, com gravidade, como se annunciasse o seu casamento ou a sua morte, deixou desabar sobre mim esta declaração formidavel:
—Zé Fernandes, vou partir para Tormes.
O pulo com que me sentei abalou o rijo leito de pau preto do velho D. Galião:
—Para Tormes? Oh Jacintho, quem assassinaste?...
Deleitado com a minha emoção, o Principe da Gran Ventura tirou da algibeira uma carta, e encetou estas linhas, já decerto relidas, fundamente estudadas:
—«Ill.mo e exc.mo snr.—Tenho grande satisfação em communicar a v. exc.a que por toda esta semana devem ficar promptas as obras da capella...»
—É do Silverio? exclamei.
—É do Silverio. «...as obras da capella nova. Os venerandos restos dos excelsos avós de v. exc.a, senhores de todo o meu respeito, podem pois ser em breve trasladados da egreja de S. José, onde têm estado depositados por bondade do nosso Abbade, que muito se recommenda a v. exc.a... Submisso, aguardo as prestantes ordens de v. exc.a a respeito d'esta magestosa e afflictiva ceremonia...»
Atirei os braços, comprehendendo:
—Ah! bem! Queres ir assistir á trasladação...
Jacintho sumiu a carta no bolso.
—Pois não te parece, Zé Fernandes? Não é por causa dos outros avós, que são ossos vagos, e que eu não conheci. É por causa do avô Galião... Tambem não o conheci. Mas este 202 está cheio d'elle; tu estás deitado na cama d'elle; eu ainda uso o relogio d'elle. Não posso abandonar ao Silverio e aos caseiros o cuidado de o installarem no seu jazigo novo. Ha aqui um escrupulo de decencia, de elegancia moral... Emfim, decidi. Apertei os punhos na cabeça, e gritei—vou a Tormes! E vou!... E tu vens!
Eu enfiara as chinellas, apertava os cordões do roupão:
—Mas tu sabes, meu bom Jacintho, que a casa de Tormes está inhabitavel...
Elle cravou em mim os olhos aterrados.
—Medonha, hein?
—Medonha, medonha, não... É uma bella casa, de bella pedra. Mas os caseiros, que lá vivem ha trinta annos, dormem em catres, comem o caldo á lareira, e usam as salas para seccar o milho. Creio que os unicos moveis de Tormes, se bem recordo, são um armario, e uma espinetta de charão, côxa, já sem teclas.
O meu pobre Principe suspirou, com um gesto rendido em que se abandonava ao Destino:
—Acabou!... Alea jact est! E como só partimos para abril, ha tempo de pintar, d'assoalhar, d'envidraçar... Mando d'aqui de Paris tapetes e camas... Um estofador de Lisboa vae depois forrar e disfarçar algum buraco... Levamos livros, uma machina para fabricar gelo... E é mesmo uma occasião de pôr emfim n'uma das minhas casas de Portugal alguma decencia e ordem. Pois não achas? E então essa! Uma casa que data de 1410... Ainda existia o Imperio Byzantino!
Eu espalhava, com o pincel, sobre a face, flocos lentos de sabão. O meu Principe accendeu muito pensativamente um cigarro; e não se arredou do toucador, considerando o meu preparo com uma attenção triste que me incommodava. Por fim, como se remoesse uma sentença minha, para lhe reter bem a moral e o succo:
—Então, definitivamente, Zé Fernandes, entendes que é um dever, um absoluto dever, ir eu a Tormes?
Afastei do espelho a cara ensaboada para encarar com divertido espanto o meu Principe:
—Oh Jacintho! foi em ti, só em ti que nasceu a ideia d'esse dever! E honra te seja, menino... Não cedas a ninguem essa honra!
Elle atirou o cigarro—e, com as mãos enterradas nas algibeiras das pantalonas, vagou pelo quarto, topando nas cadeiras, embicando contra os postes torneados do velho leito de D. Galião, n'um balanço vago, como barco já desamarrado do seu seguro ancoradouro, e sem rumo no mar incerto. Depois encalhou sobre a mesa onde eu conservava enfileirada, por gradações de sentimentos, desde o dagarreotypo do papá até á photographia do Carocho perdigueiro, a galeria da minha Familia.
E nunca o meu Principe (que eu contemplava esticando os suspensorios) me pareceu tão corcovado, tão minguado, como gasto por uma lima que desde muito o andasse fundamente limando. Assim viera findar, desfeita em Civilisação, n'aquelle super-requintado magricellas sem musculo e sem energia, a raça fortissima dos Jacinthos! Esses guedelhudos Jacinthões, que nas suas altas terras de Tormes, de volta de bater o moiro no Salado ou o castelhano em Valverde, nem mesmo despiam as fuscas armaduras para lavrar as suas chans e amarrar a vide ao olmo, edificando o Reino com a lança e com a enxada, ambas tão rudes e rijas! E agora, alli estava aquelle ultimo Jacintho, um Jacinthiculo, com a macia pelle embebida em aromas, a curta alma enrodilhada em Philosophias, travado e suspirando baixinho na miuda indecisão de viver.
—Oh Zé Fernandes, quem é esta lavradeirona tão rechonchuda?
Estendi o pescoço para a Photographia que elle erguera d'entre a minha galeria, no seu honroso caixilho de pellucia escarlate:
—Mais respeito, Snr. D. Jacintho... Um pouco mais de respeito, cavalheiro!... É minha prima Joanninha, de Sandofim, da Casa da Flôr da Malva.
—Flôr da Malva, murmurou o meu Principe. É a casa do Condestavel, de Nun'alvares.
—Flôr da Rosa, homem! A casa do Condestavel era na Flôr da Rosa, no Alemtejo... Essa tua ignorancia trapalhona das coisas de Portugal!
O meu Principe deixou escorregar mollemente a photographia da minha prima d'entre os dedos molles—que levou á face, no seu gesto horrendo de palpar atravez da face a caveira. Depois, de repente, com um soberbo esforço, em que se endireitou e cresceu:
—Bem! Alea jacta est! Partamos pois para as serras!... E agora nem reflexão, nem descanço!... Á obra! E a caminho!
Atirou a mão ao fecho dourado da porta como se fosse o negro loquete que abre os Destinos—e no corredor gritou pelo Grillo, com uma larga e açodada voz que eu nunca lhe conhecera, e me lembrou a d'um Chefe ordenando, n'alvorada, que se levante o Acampamento, e que a Hoste marche, com pendões e bagagens...
Logo n'essa manhã (com uma actividade em que eu reconheci a pressa enjoada de quem bebe oleo-de-ricino), escreveu ao Silverio mandando caiar, assoalhar, envidraçar o casarão. E depois do almoço appareceu na Bibliotheca, chamado violentamente pelo telephone, para combinar a remessa de mobilias e confortos, o director da Companhia Universal de Transportes.
Era um homem que parecia o cartaz da sua Companhia, apertado n'um jaquetão de xadrezinho escuro, com polainas de jornada sobre botas brancas, uma sacola de marroquim a tiracolo, e na botoeira uma roseta multicor resumindo as suas condecorações exoticas de Madagascar, de Nicaragua, da Persia, outras ainda, que provavam a universalidade dos seus serviços. Apenas Jacintho mencionou «Tormes, no Douro...»—elle logo, atravez d'um sorriso superior, estendeu o braço, detendo outros esclarecimentos, na sua intimidade minuciosa com essas regiões.
—Tormes... Perfeitamente! Perfeitamente!
Sobre o joelho, na carteira, escrevinhou uma fugidia nota—emquanto eu considerava, assombrado, a vastidão do seu saber Chorographico, assim familiar com os recantos d'uma serra de Portugal e com todos os seus velhos solares. Já elle atirára a carteira para o bolso... E «nós, seus caros senhores, não tinhamos senão a encaixotar as roupas, as mobilias, as preciosidades! Elle mandaria as suas carroças buscar os caixotes, a que poria, em grossa letra, com grossa tinta, o endereço...»
—Tormes, perfeitamente! Linha Norte-Hespanha-Medina-Salamanca... Perfeitamente! Tormes... Muito pittoresco! E antigo, historico! Perfeitamente, perfeitamente!
Desengonçou a cabeça n'uma venia profundissima—e sahiu da Bibliotheca, com passos que devoravam leguas, annunciavam a presteza dos seus Transportes.
—Vê tu, murmurou Jacintho muito serio. Que promptidão, que facilidade!... Em Portugal era uma tragedia. Não ha senão Paris!
Começou então no 202 o collossal encaixotamento de todos os confortos necessarios ao meu Principe para um mez de serra aspera—camas de penna, banheiras de nickel, lampadas Carcel, divans profundos, cortinas para vedar as gretas rudes, tapetes para amaciar os soalhos broncos. Os sotãos, onde se arrecadavam os pesados trastes do avô Galião, foram esvasiados—porque o casarão medieval de 1410 comportava os tremós romanticos de 1830. De todos os armazens de Paris chegavam cada manhã fardos, caixas, temerosos embrulhos que os emmaladores desfaziam, atulhando os corredores de montes de palha e de papel pardo, onde os nossos passos açodados se enrodilhavam. O cozinheiro, esbaforido, organisava a remessa de fornalhas, geleiras, bocaes de trufas, latas de conservas, bojudas garrafas de aguas mineraes. Jacintho, lembrando as trovoadas da serra, comprou um immenso pára-raios. Desde o amanhecer, nos pateos, no jardim, se martellava, se pregava, com vasto fragor, como na construcção d'uma cidade. E o desfilar das bagagens, através do portão, lembrava uma pagina de Herodoto contando a marcha dos Persas.
Das janellas, Jacintho com o braço estendido, saboreava aquella actividade e aquella disciplina:
—Vê tu, Zé Fernandes, que facilidade!... Sahimos do 202, chegamos á serra, encontramos o 202. Não ha senão Paris!
Recomeçára a amar a Cidade, o meu Principe, emquanto preparava o seu Exodo. Depois de ter, toda a manhã, apressado os encaixotadores, descortinado confortos novos para o abandonado solar, telephonado gordas listas de encommendas a cada loja de Paris—era com delicia que se vestia, se perfumava, se floria, se enterrava na vittoria ou saltava para a almofada do phaeton, e corria ao Bosque, e saudava a barba talmudica do Ephraim, e os bandós furiosamente negros da Verghane, e o Psychologo de fiacre, e a condessa de Trèves na sua nova caleche de oito-molas fornecida pelas operações conjunctas da Bolsa e da alcôva. Depois arrebanhava amigos para jantares de surpreza no Voisin ou no Bignon, onde desdobrava o guardanapo com a impaciencia d'uma fome alegre, vigiando fervorosamente que os Bordeus estivessem bem aquecidos e os Champagnes bem granitados. E no theatro das Nouveautés, no Palais Royal, nos Buffos, ria, batendo na côxa, com encanecidas facecias d'encanecidas farças, antiquissimos tregeitos d'antiquissimos actores, com que já rira na sua infancia, antes da guerra, sob o segundo Napoleão!
De novo, em duas semanas, se abarrotaram as paginas da sua Agenda. A magnificencia do seu trage, como imperador Frederico II de Suabia, deslumbrou, no baile mascarado da Princesa de Cravon-Rogan (onde tambem fui, de «moço de forcado».) E na Associação para o Desenvolvimento das Religiões Esotericas discursou e batalhou bravamente pela construcção d'um Templo Budhista em Montmartre!
Com espanto meu recomeçou tambem a conversar, como nos tempos de Escóla, da «famosa Civilisação nas suas maximas proporções.» Mandou encaixotar o seu velho telescopio para o usar em Tormes. Receei mesmo que no seu espirito germinasse a idéa de crear, no cimo da serra, uma Cidade com todos os seus orgãos. Pelo menos não consentia o meu Jacintho que essas semanas da silvestre Tormes interrompessem a illimitada accumulação das noções—porque uma manhã rompeu pelo meu quarto, desolado, gritando que entre tantos confortos e fórmas de Civilisação esqueceramos os livros! Assim era—e que vexame para a nossa Intellectualidade! Mas que livros escolher entre os facundos milhares sob que vergava o 202? O meu Principe decidiu logo dedicar os seus dias serranos ao estudo da Historia Natural—e nós mesmos, immediatamente, deitamos para o fundo d'um vasto caixote novo, como lastro, os vinte e cinco tomos de Plinio. Despejamos depois para dentro, ás braçadas, Geologia, Mineralogia, Botanica... Espalhamos por cima uma camada aeria de Astronomia. E, para fixar bem no caixote estas Sciencias oscillantes, entalamos em redor cunhas de Metaphysica.
Mas quando a derradeira caixa, pregada e cintada de ferro, sahiu do portão do 202 na derradeira carroça da Companhia dos Transportes, toda esta animação de Jacintho se abateu como a efervescencia n'um copo de Champagne. Era em meados já tepidos de Março. E de novo os seus desagradaveis bocejos atroaram o 202, e todos os sophás rangeram sob o peso do corpo que elle lhe atirava para cima, mortalmente vencido pela fartura e pelo tedio, n'um desejo de repouso eterno, bem envolto de solidão e silencio. Desesperei. O que! Aturaria eu ainda aquelle Principe palpando amargamente a caveira, e, quando o crepusculo entristecia a Bibliotheca, alludindo, n'um tom rouco, á doçura das mortes rapidas pela violencia misericordiosa do acido cyanhidrico? Ah não, caramba! E uma tarde em que o encontrei estirado sobre um divan, de braços em cruz, como se fosse a sua estatua de marmore sobre o seu jazigo de granito, positivamente o abanei com furor, berrando:
—Accorda, homem! Vamos para Tormes! O casarão deve estar prompto, a reluzir, a abarrotar de cousas! Os ossos de teus avós pedem repouso, em cova sua!... A caminho, a enterrar esses mortos, e a vivermos nós, os vivos!... Irra! São cinco de Abril!... É o bom tempo da serra!
O meu Principe resurgiu lentamente da inercia de pedra:
—O Silverio não me escreveu, nunca me escreveu... Mas, com effeito, deve estar tudo preparado... Já lá temos certamente creados, o cosinheiro de Lisboa... Eu só levo o Grillo, e o Anatole que envernisa bem o calçado, e tem geito como pedicuro... Hoje é Domingo.
Atirou os pés para o tapete, com heroismo:
—Bem, partimos no Sabbado!... Avisa tu o Silverio!
Começou então o laborioso e pensativo estudo dos Horarios—e o dedo magro de Jacintho, por sobre o mappa, avançando e recuando entre Paris e Tormes. Para escolher o «salão» que deviamos habitar durante a temida jornada, duas vezes percorremos o deposito da Estação d'Orleans, atolados em lama, atraz do Chefe do Trafico que entontecia. O meu Principe recusava este salão por causa da côr tristonha dos estofos; depois recusava aquelle por causa da mesquinhez afflictiva do Water-Closet! Uma das suas inquietações era o banho, nas manhãs que passariamos rolando. Suggeri uma banheira de borracha. Jacintho, indeciso, suspirava... Mas nada o aterrou como o trasbordo em Medina del Campo, de noite, nas trevas da Velha Castella. Debalde a Companhia do Norte de Hespanha e a de Salamanca, por cartas, por telegrammas, socegaram o meu camarada, affirmando que, quando elle chegasse no comboio de Irun dentro do seu salão, já outro salão ligado ao comboio de Portugal esperaria, bem aquecido, bem allumiado, com uma ceia que lhe offertava um dos Directores, D. Esteban Castillo, ruidoso e rubicundo conviva do 202! Jacintho corría os dedos anciosos pela face:—«E os saccos, as pelles, os livros, quem os transportaria do salão de Irun para o salão de Salamanca?» Eu berrava, desesperado, que os carregadores de Medina eram os mais rapidos, os mais destros de toda a Europa! Elle murmurava:—«Pois sim, mas em Hespanha, de noite!...» A noite, longe da Cidade, sem telephone, sem luz electrica, sem postos de policia, parecia ao meu Principe povoada de surprezas e assaltos. Só acalmou depois de verificar no Observatorio Astronomico, sob a garantia do sabio professor Bertrand, que a noite da nossa jornada era de lua cheia!
Emfim, na sexta-feira, findou a tremenda organisação d'aquella viagem historica! O sabbado predestinado amanheceu com generoso sol, de affagadora doçura. E eu acabava de guardar na mala, embrulhadas em papel pardo, as photographias das creaturinhas suaves que, n'esses vinte e sete mezes de Paris, me tinham chamado «mon petit chou! mon rat cheri!»—quando Jacintho rompeu pelo quarto, com um soberbo ramo de orchideas na sobrecasaca, pallido e todo nervoso.
—Vamos ao Bosque, por despedida?
Fomos—á grande despedida! E que encanto! Até nas almofadas e molas da vittoria senti logo uma elasticidade mais emballadora. Depois, pela Avenida do Bosque, quasi me pezava não ficar sempiternamente rolando, ao trote rimado das eguas perfeitas, no rebrilho rico de metaes e vernizes, sobre aquelle macadam mais alisado que marmore, entre tão bem regadas flôres e relvas de tão tentadora frescura, cruzando uma Humanidade fina, de elegancia bem acabada, que almoçára o seu chocolate em porcellanas de Sevres ou de Minton, sahira d'entre sèdas e tapetes de tres mil francos, e respirava a belleza de Abril com vagar, requinte e pensamentos ligeiros! O Bosque resplandecia n'uma harmonia de verde, azul e ouro. Nenhuma cova ou terra solta desalisava as polidas alleas que a Arte traçou e enroscou na espessura—nenhum esgalho desgrenhado desmanchava as ondulações macias da folhagem que o Estado escóva e lava. O piar das aves apenas se elevava para espalhar uma graça leve de vida alada;—e mais natural parecia, entre o arvoredo sociavel, o ranger das sellas novas, onde pousavam, com balanço esbelto, as amazonas espartilhadas pelo grande Redfern. Em frente ao Pavilhão de Armenonville cruzamos Madame de Trèves, que nos envolveu ambos na caricia do seu sorriso, mais avivado áquella hora pelo vermelhão ainda humido. Logo atraz a barba talmudica de Ephraim negrejou, fresca tambem da brilhantine da manhã, no alto d'um phaeton tilintante. Outros amigos de Jacintho circulavam nas Acacias—e as mãos que lhe acenavam, lentas e affaveis, calçavam luvas frescas côr de palha, côr de perola, côr de lilaz. Todelle relampejou rente de nós sobre uma grande bycicleta. Dornan, alastrado n'uma cadeira de ferro, sob um espinheiro em flôr, mamava o seu immenso charuto, como perdido na busca de rimas sensuaes e nedias. Adeante foi o Psychologo, que nos não avistou, conversando com um requebro melancolico para dentro d'um coupé que rescendia a alcova, e a que um cocheiro obeso imprimia dignidade e decencia. E rolavamos ainda, quando o Duque de Marizac, a cavallo, ergueu a bengala, estacou a nossa vittoria para perguntar a Jacintho se apparecia á noite nos «quadros vivos» dos Verghanes. O meu Principe rosnou um—«não, parto para o sul...»—que mal lhe passou d'entre os bigodes murchos... E Marizac lamentou—porque era uma festa estupenda. Quadros vivos da Historia Sagrada e da Historia Romana!... Madame Verghane, de Magdalena, de braços nús, peitos nús, pernas núas, limpando com os cabellos os pés do Christo!—O Christo, um latagão soberbo, parente dos Trèves, empregado no Ministerio da Guerra, gemendo, derreado, sob uma cruz de papelão! Havia tambem Lucrecia na cama, e Tarquinio ao lado, de punhal, a puxar os lençoes! E depois ceia, em mezas soltas, todos nos seus trajes historicos. Elle já estava aparceirado com Madame de Malbe, que era Agrippina! Quadro portentoso esse—Agrippina morta, quando Nero a vem contemplar e lhe estuda as fórmas, admirando umas, desdenhando outras como imperfeitas. Mas, por polidez, ficára combinado que Nero admiraria sem reserva todas as fórmas de Madame de Malbe... Emfim collossal, e estupendamente instructivo!
Acenamos um longo adeus áquelle alegre Marizac. E recolhemos sem que Jacintho emergisse do silencio enrugado em que se abysmára, com os braços rigidamente cruzados, como remoendo pensamentos decisivos e fortes. Depois, em frente ao Arco de Triumpho, moveu a cabeça, murmurou:
—É muito grave, deixar a Europa!