Em Janeiro—mette obreiro
Mez meante—que não ante.
Mez meante—que não ante.
E, de resto, o goso de conceber as suas obras e de indicar, estendendo a bengala por cima de valle e monte, os sitios privilegiados que ellas aformoseariam, bastava por ora ao meu Principe, ainda mais imaginativo que operante. E, em quanto meditava estas transformações da terra, muito progressivamente e com um amavel esforço, se ia familiarisando com os homens simples que a trabalhavam. Na sua chegada a Tormes, o meu Principe soffria d'uma estranha timidez diante dos caseiros, dos jornaleiros, e até de qualquer rapazinho que passasse, tangendo uma vacca para o pasto. Nunca elle então se demoraria a conversar com os moços, quando á borda d'um caminho ou n'um campo em monda elles se endireitavam de chapeu na mão, n'um respeito de velha vassalagem. De certo o empecia a preguiça, e talvez ainda o pudico recato de transpor toda a immensa distancia que se alargava desde a sua complicada super-civilisação até á rude simplicidade d'aquellas almas naturaes:—mas sobretudo o retinha o medo de mostrar a sua ignorancia da lavoura e da terra, ou de parecer talvez desdenhoso de occupações e de interesses, que para os outros eram supremos e quasi religiosos. Remia então esta reserva com uma profusão de sorrisos, de doces acenos, tirando tambem o chapeu em cortezias profundas, com uma tal emphase de polidez que eu por vezes receava que elle murmurasse aos jornaleiros: «Tenha v. ex.a muito boas tardes;... Creado de v. ex.a!»
Mas agora, depois d'aquellas semanas de serra, e de já saber (com um saber ainda fragil,) a epocha das sementeiras e das ceifas, e que as arvores de fructa se semeiam no inverno, já se aprazia em parar junto dos trabalhadores, contemplar descançadamente o trabalho, dizer cousas affaveis e vagas.
—Então, isso vae andando?... Ora ainda bem!... Este bocado de torrão aqui é rico... O talude ali adeante está precisando concerto...
E cada um d'estes tão simples dizeres lhe era doce, como se por meio d'elles penetrasse mais fundamente na intimidade da terra, e consolidasse a sua encarnação em «homem do campo,» deixando de ser uma mera sombra circulando entre realidades. Já por isso não crusava no caminho o mocinho atraz das vaccas, que não o detivesse, o não interrogasse: «Para onde vaes tu? De quem é o gado? Como te chamas?» E, contente comsigo, sempre gabava gratamente o desembaraço do rapaz, ou a esperteza dos seus olhos. Outra satisfação do meu Principe era conhecer os nomes de todos os campos, as nascentes d'agua, e as delimitações da sua quinta.
—Vês acolá, para além do ribeiro, o pinheiral. Já não é meu, é dos Albuquerques.
E com a perenne alegria de Jacintho as noites da serra, no vasto casarão, eram faceis e curtas. O meu Principe era então uma alma que se simplificava:—e qualquer pequenino goso lhe bastava, desde que n'elle entrasse paz ou doçura. Com verdadeira delicia ficava, depois do café, estendido n'uma cadeira, sentindo atravez das janellas abertas, a nocturna tranquillidade da serra, sob a mudez estrellada do ceu.
As historias, muito simples e muito caseiras, que eu lhe contava, de Guiães, do abbade, da tia Vicencia, dos nossos parentes da Flôr da Malva, tão sinceramente o interessavam que eu encetára, para seu regalo, a chronica completa de Guiães, com todos os namoricos, e as façanhas de forças, e as desavenças por causa de servidões ou d'aguas. Tambem por vezes nos enfronhavamos, com afferro n'uma partida de gamão, sobre um bello taboleiro de pau preto, com pedras de velho marfim, que nos emprestára o Silverio. Mas nada de certo o encantava tanto como atravessar as casas, pé ante pé, até uma saleta que dava para o pomar, e ahi ficar encostado á janella, sem luz, n'um enlevado socego, a escutar longamente, languidamente, os rouxinoes que cantavam no laranjal.
X
N'uma dessas manhãs—justamente na vespera do meu regresso a Guiães—, o tempo, que andára pela serra tão alegre, n'um inalterado riso de luz rutilante, todo vestido d'azul e ouro, fazendo poeira pelos caminhos, e alegrando toda a natureza, desde os passaros até os regatos, subitamente, com uma d'aquellas mudanças que tornam o seu temperamento tão semelhante ao do homem, appareceu triste, carrancudo, todo embrulhado no seu manto cinzento, com uma tristeza tão pesada e contagiosa que toda a serra entristeceu. E não houve mais passaro que cantasse, e os arroios fugiram para debaixo das hervas com um lento murmurio de chôro.
Quando Jacintho entrou no meu quarto, não resisti á malicia de o aterrar:
—Sudoeste! gralhas a grasnar por todos esses soutos... Temos muita agua, Snr. D. Jacintho! Talvez duas semanas d'agua! E agora é se vae saber quem é aqui o fino amador da Natureza, com esta chuva pegada, com vendaval, com a serra toda a escorrer!
O meu Principe caminhou para a janella com as mãos nas algibeiras:
—Com effeito! Está carregado. Já mandei abrir uma das malas de Paris e tirar um casacão impermeavel... Não importa! Fica o arvoredo mais verde. E é bom que eu conheça Tormes nos seus habitos d'inverno.
Mas como o Melchior lhe affiançára que a «chuvinha só viria para a tarde», Jacintho decidiu ir antes d'almoço á Corujeira, onde o Silverio o esperava para decidirem da sorte d'uns castanheiros, muito velhos, muito pittorescos, inteiramente interessantes, mas já roidos, e ameaçando desabar. E, confiando nas previsões do Melchior, partimos sem que Jacintho se vestisse á prova d'agoa. Não andaramos porém meio caminho, quando, depois d'um arrepio nas arvores, um negrume carregou, e, bruscamente, desabou sobre nós uma grossa chuva obliqua, vergastada pelo vento, que nos deixou estonteados, agarrando os chapeus, enrodilhados na borrasca. Chamados por uma grande voz, que se esganiçava no vento, avistamos n'um campo mais alto, á beira d'um alpendre, o Silverio, debaixo d'um guarda-chuva vermelho, que acenava, nos indicava o trilho mais curto para aquelle abrigo. E para lá rompemos, com a chuva a escorrer na cara, patinhando na lama, contorcidos, cambaleantes, atordoados no vendaval, que n'um instante alagára os campos, inchára os ribeiros, esboroava a terra dos socalcos, lançára n'um desespero todo o arvoredo, tornára a serra negra, bravamente agreste, hostil, inhabitavel.
Quando emfim, debaixo do vasto guarda-chuva com que o Silverio nos esperava á beira do campo, corremos para o alpendre, nos refugiamos n'aquelle abrigo inesperado, a escorrer, a arquejar, o meu Principe, enxugando a face, enxugando o pescoço, murmurou, desfallecido:
—Apre! que ferocidade!
Parecia espantado d'aquella brusca, violenta colera d'uma serra tão amavel e accolhedora, que em dous mezes, inalteradamente, só lhe offerecera doçura e sombra, e suaves ceus, e quietas ramagens, e murmurios discretos de ribeirinhos mansos.
—Santo Deus! Vem muitas vezes assim, estas borrascas?
Immediatamente o Silverio aterrou o meu Principe:
—Isto agora são brincadeiras de verão, meu senhor! Mas ha de V. Ex.a vêr no inverno, se V. Ex.a se aguentar por cá! Então é cada temporal, que até parece que os montes estremecem!
E contou como fôra tambem apanhado, quando ia para a Corujeira. Felizmente, logo pela manhã, quando sentiu o ar carrancudo e as folhinhas dos choupos a tremer, se acautelára com o chapeu de chuva e calçára as suas grandes botas.
—Ainda estive para me abrigar em casa do Esgueira, que é um caseiro de cá. Aquella casa, ali abaixo, onde está a figueira... Mas a mulher tem estado doente, já ha dias... E como póde ser obra que se pegue, bexigas ou coisa que o valha, pensei comigo: Nada, o seguro morreu de velho! Metti para o alpendre... E não passára um credo quando lobriguei a V. Ex.a... Coisa assim!... E o Snr. D. Jacintho é voltar para casa, e mudar-se, que temos um dia e uma noite d'agoa.
Mas, justamente, a chuva começára a cahir perpendicular, d'um ceu ainda negro, onde o vento se calára; e para além do rio e dos montes havia uma claridade, como entre cortinas de pano cinzento que se descerram.
Jacintho repousava. Eu não cessára de me sacudir, de bater os pés encharcados, que me arrefeciam. E o bom Silverio, passando a mão pensativa sobre o negrume das suas barbas, reflectia, emendava os seus prognosticos:
—Pois, não senhor... Ainda estía! Nunca pensei. É que tornejou o vento.
O alpendre que nos cobria assentava sobre duas paredes em angulo, de pedra solta, restos d'algum casebre desmantelado, e sobre um esteio fazendo cunhal. N'esse momento só abrigava madeira, um cuculo de cestos vasios, e um carro de bois, onde o meu Principe se sentára, enrolando um cigarro confortador. A chuva desabava, copiosa, em longos fios reluzentes. E todos tres nos callavamos, n'aquella contemplação inerte e sem pensamento, em que uma chuva grossa e serena sempre immobilisa e retem olhos e almas.
—Ó Snr. Silverio, murmurou lentamente o meu Principe, que é que o senhor esteve ahi a dizer de bexigas?
O procurador voltou a face surprehendido:
—Eu, Ex.mo Snr.?... Ah sim! a mulher do Esgueira! É que póde ser, póde ser... Não imagine V. Ex.a que faltam por cá doenças. O ar é bom. Não digo que não! Arsinho são, agoasinha leve. Mas ás vezes, se V. Ex.a me dá licença, vae por ahi muita maleita.
—Mas não ha medico, não ha botica?
O Silverio teve o riso superior de quem habita regiões civilisadas e bem providas...
—Então não havia d'haver? Pois ha um boticario, em Guiães, lá quasi ao pé da casa aqui do nosso amigo. E homem entendido... o Firmino, hein, Snr. Fernandes? Homem capaz. Medico é o Dr. Avelino, d'aqui a legoa e meia, nas Bolsas. Mas já V. Ex.a vê, esta gentinha é pobre!... Tomaram elles para pão, quanto mais para remedios!
E de novo se estabeleceu um silencio, sob o alpendre, onde penetrava a friagem crescente da serra encharcada. Para além do rio, a promettedora claridade não se alargára entre as duas espessas cortinas pardacentas. No campo, em declive deante de nós, ia um longo correr de ribeiros barrentos. Eu terminára por me sentar na ponta d'um madeiro, enervado, já com a fome aguçada pela manhã agreste. E Jacintho, na borda do carro, com os pés no ar, cofiava os bigodes humidos, palpava a face, onde, com espanto meu, reapparecera a sombra, a sombra triste dos dias passados, a sombra do 202!
E, então, surdiu por traz da parede do alpendre um rapasito, muito rotinho, muito magrinho, com uma carita miuda, toda amarella sob a porcaria, e onde dous grandes olhos pretos se arregalavam para nós, com vago pasmo e vago medo. Silverio immediatamente o conheceu.
—Como vae a tua mãe? Escusas de te chegar para cá, deixa-te estar ahi. Eu ouço bem. Como vae a tua mãe?
Não percebi o que os pobres beicitos descorados murmuraram. Mas Jacinto, interessado:
—Que diz elle? Deixe vir o rapaz! Quem é a tua mãe?
Foi o Silverio que informou respeitosamente:
—É a tal mulher que está doente, a mulher do Esgueira, ali do casal da figueira. E ainda tem outro abaixo d'este... Filharada não lhe falta.
—Mas este pequeno tambem parece doente!—exclamou Jacintho. Coitadito, tão amarello!... Tu tambem estás doente?
O rapasinho emmudecera, chupando o dedo, com os tristes olhos pasmados. E o Silverio sorria, com bondade:
—Nada! este é sãosinho... Coitado, é assim amarellado e enfezadito, por que... Que quer V. Ex.a? Mal comido! muita miseria... Quando ha o bocadito de pão é para todo o rancho. Fomesinha, fomesinha!
Jacintho pulou bruscamente da borda do carro.
—Fome? Então elle tem fome? Ha aqui gente com fome?
Os seus olhos rebrilhavam, n'um espanto commovido, em que pediam, ora a mim, ora ao Silverio, a confirmação d'esta miseria insuspeitada. E fui eu que esclareci o meu Principe:
—Homem! está claro que ha fome! Tu imaginavas talvez que o Paraiso se tinha perpetuado aqui nas serras, sem trabalho e sem miseria... Em toda a parte ha pobres, até na Australia, nas minas d'ouro. Onde ha trabalho ha proletariado, seja em Paris, seja no Douro...
O meu Principe, teve um gesto d'afflicta impaciencia:
—Eu não quero saber o que ha no Douro. O que eu pergunto é se aqui, em Tormes, na minha propriedade, dentro d'estes campos que são meus, ha gente que trabalhe para mim, e que tenha fome... Se ha creancinhas, como esta, esfomeadas? É o que eu quero saber.
O Silverio sorria, respeitosamente, ante aquella candida ignorancia das realidades da Serra:
—Pois está bem de vêr, meu senhor, que ha para ahi caseiros que são muito pobres. Quasi todos... É uma miseria, que se não fosse algum soccorro que se lhes dá, nem eu sei!... Este Esgueira, com o rancho de filhos que tem, é uma desgraça... Havia V. Ex.a de vêr as casitas em que elles vivem... São chiqueiros. A do Esgueira, acolá...
—Vamos vêl-a! atalhou Jacintho com uma decisão exaltada.
E sahiu logo do alpendre, sem attender á chuva, que ainda cahia, mais leve e mais rala. Mas então Silverio alargou os braços deante d'elle, com anciedade, como para o salvar d'um precipicio.
—Não! V. Ex.a lá na casa do Esgueira é que não entra! Não se sabe o que a mulher tem, e cautella e caldo de gallinha...
Jacintho não se alterou na sua polidez paciente:
—Obrigado pelo seu cuidado, Silverio... Abra o seu chapeu de chuva, e ávante!
Então o Procurador vergou os hombros, e, como S. Ex.a mandava, abriu com estrondo o immenso pára-agoas, abrigou respeitosamente Jacintho, através do campo encharcado. Eu segui, pensando na esmola sumptuosa que o bom Deus mandava áquelle pobre casal por um remoto senhor das Cidades! Atraz vinha o pequenito perdido n'um immenso pasmo.
Como todos os casebres da serra, o do Esgueira era de grossa pedra solta, sem reboco, com um vago telhado, de telha musgosa e negra, um postigo no alto, e a rude porta que servia para o ar, para a luz, para o fumo, e para a gente. E em redor, a Natureza e o Trabalho tinham, através d'annos, accumulado ali trepadeiras e flôres silvestres, e cantinhos d'horta, e sebes cheirosas, e velhos bancos roidos de musgo, e panellas com terra onde crescia salsa, e regueiros cantantes, e videiras enforcadas nos olmos, e sombras e charcos espelhados, que tornavam deliciosa, para uma Ecloga, aquella morada da Fome, da Doença e da Tristeza.
Cautelosamente, com a ponteira do guarda-chuva, Silverio empurrou a porta, chamando:
—Eh! tia Maria... Olá rapariga!
E na fenda entreaberta appareceu uma moça, muito alta, escura e suja, com uns tristes olhos pisados, que se espantaram para nós, serenamente.
—Então como vae a tua mãe?—Abre lá a porta, que estão aqui estes senhores...
Ella abriu, lentamente, e ia murmurando n'uma voz dolente e arrastada mas sem queixume, que um vago, resignado sorriso acompanhava:
—Ora, coitada! como ha de ir? Malzinha... malzinha.
E dentro, n'um gemido que subia como do chão, d'entre abafos, amodorrado e lento, a mãe repetiu a desconsolada queixa:
—Ai! para aqui estou, e malzinha, malzinha!...
O Silverio, sem passar da porta, com o guarda-chuva em riste, meio aberto, como um escudo contra a infecção, lançou uma consolação vaga:
—Não ha de ser nada, tia Maria!... Isso foi friagem! Não foi senão friagem!
E, sobre o hombro de Jacintho, encolhido:
—Já V. Ex.a vê... Muita miseria! Até lhe chove lá dentro.
E, no pedaço de chão que viam, chão de terra batida, uma mancha humida reluzia, da chuva pingada de uma telha rôta. A parede, coberta de fuligem, das longas fumaraças da lareira, era tão negra como o chão. E aquella penumbra suja parecia atulhada, n'uma desordem escura, de trapos, de cacos, de restos de coisas, onde só mostravam fórma comprehensivel uma arca de pau negro, e por cima, pendurado d'um prego, entre uma serra e uma candeia, um grosso saiote escarlate.
Então Jacintho, muito embaraçado, murmurou abstrahidamente:
—Está bem, está bem...
E largou pelo campo para o lado do alpendre como se fugisse, emquanto o Silverio decerto revelava á rapariga, a presença augusta do «fidalgo», por que a sentimos, da porta, levantar a voz dolorida:
—Ai! Nosso Senhor lhe dê muito boa sorte! Nosso Senhor o acompanhe!
Quando o Silverio, com as grandes passadas das suas grandes botas, nos colheu, no meio do campo, Jacintho parára, olhava para mim, com os dedos tremulos a torturar o bigode, e murmurava:
—É horrivel, Zé Fernandes, é horrivel.
Ao lado, o vozeirão do Silverio trovejou:
—Que queres tu outra vez, rapaz? Vae para a tua mãe, creatura!
Era o pequeno rotinho, esfaimadinho, que se prendia a nós, n'um immenso pasmo das nossas pessoas, e com a confusa esperança, talvez, que d'ellas, como de Deuses encontrados n'um caminho, lhe viesse affago ou proveito. E Jacintho, para quem elle mais especialmente arregalava os olhos tristes, e que aquella miseria, e a sua muda humildade, embaraçavam, acanhavam horrivelmente, só soube sorrir, murmurar o seu vago: «Está bem, está bem...» Fui eu que dei ao pequenito um tostão, para o fartar, o despegar dos nossos passos. Mas como elle, com o seu tostão bem agarrado, nos seguia ainda, como no sulco da nossa magnificencia, o Silverio teve de o espantar, como a um passaro, batendo as mãos, e de lhe gritar:
—Já para casa! E leve esse dinheiro á mãe. Roda, roda!...
—E nós vamos almoçar, lembrei eu olhando o relogio. O dia ainda vae estar lindo.
Sobre o rio, com effeito, reluzia um pedaço d'azul lavado e lustroso; e a grossa camada de nuvens já se ia enrolando sob a lenta varredela do vento, que as levava, despejadas e rôtas, para um canto escuso do ceu.
Então recolhemos lentamente para casa, por uma vereda ingreme, que ensinára o Silverio, e onde um leve enchurro vinha ainda, saltando e chalrando. De cada ramo tocado, rechuvia uma chuva leve. Toda a verdura, que bebera largamente, reluzia consolada.
Bruscamente, ao sahirmos da vereda para um caminho mais largo, entre um socalco e um renque de vinha, Jacintho parou, tirando lentamente a cigarreira:
—Pois, Silverio, eu não quero mais estas horriveis miserias na quinta.
O Procurador deu um geito aos hombros, com um vago eh! eh! d'obediencia e dúvida.
—Antes de tudo, continuava Jacintho, mande já hoje chamar esse Dr. Avelino para aquella pobre mulher... E os remedios que os vão buscar logo a Guiães. E recommendação ao medico para voltar ámanhã, e em cada dia; até que ella melhore... Escute! E quero, Melchior, que lhe leve dinheiro, para os caldos, para a dieta, uns dez, ou quinze mil réis... Bastará?
O Procurador não conteve um riso respeitoso. Quinze mil réis! Uns tostões bastavam... Nem era bom acostumar assim, a tanta franqueza, aquella gente. Depois todos queriam, todos pedinchavam...
—Mas é que todos hão-de ter, disse Jacintho simplesmente.
—V. Ex.a manda, murmurou o Silverio.
Encolhera os hombros, parado no caminho, no espanto d'aquellas extravagancias. Eu tive de o apressar, impaciente:
—Vamos conversando e andando! É meio dia! Estou com uma fome de lobo!
Caminhamos, com o Silverio no meio, pensativo, a fronte enrugada sob a vasta aba do chapeu, a barba immensa espalhada pelo peito, e a barraca exorbitante do guarda-chuva vermelho enrolada debaixo do braço. E Jacintho, puxando nervosamente o bigode, arriscava outras idéas bemfazejas, cautelosamente, no seu indominavel medo do Silverio:
—E as casas tambem... Aquella casa é um covil!... Gostava de abrigar melhor aquella pobre gente... E naturalmente, as dos outros caseiros são pocilgas eguaes... Era necessario uma reforma! Construir casas novas a todos os rendeiros da quinta...
—A todos?...—O Silverio gaguejava,—emudeceu.
E Jacintho balbuciava aterrado:
—A todos... Emfim, quero dizer... Quantos serão elles?
Silverio atirou um gesto enorme:
—São vinte e coisas... Vinte e tres! se bem lembro. Upa! Upa! Vinte e sete...
Então Jacintho emmudeceu tambem, como reconhecendo a vastidão do numero. Mas desejou saber, por quanto ficaria cada casa!... Oh! uma casa simples, mas limpa, confortavel, como a que tinha a irmã do Melchior, ao pé do lagar. Silverio estacou de novo. Uma casa como a da Ermelinda? Queria Sua Ex.a saber? E alijou a cifra, muito d'alto, como uma pedra immensa, para esmagar Jacintho:
—Duzentos mil réis, Exmo Senhor! E é para mais que não para menos!
Eu ria da tragica ameaça do excellente homem. E Jacintho, muito docemente, para conciliar o Silverio:
—Bem, meu amigo... Eram uns seis contos de réis! Digamos dez, por que eu queria dar a todos alguma mobilia e alguma roupa.
Então o Silverio teve um brado de terror:
—Mas então, Ex.mo Senhor, é uma revolução!
E como nós, irresistivelmente, riamos dos seus olhos esgazeados de horror, dos seus immensos braços abertos para traz, como se visse o mundo desabar,—o bom Silverio encavacou:
—Ah! V. Ex.as riem? Casas para todos, mobilias, pratas, bragal, dez contos de réis! Então tambem eu rio! Ah! ah! ah! Ora viva a bella chalaça!... Está bôa a risota!
E subitamente, n'uma profunda mesura, como declinando toda a responsabilidade n'aquelle disparate magnifico:
—Emfim, V. Ex.a é quem manda!
—Está mandado, Silverio. E tambem quero saber as rendas que paga essa gente, os contractos que existem, para os melhorar. Ha muito que melhorar. Venha vossê almoçar comnosco. E conversamos.
Tão saturado d'espanto estava o Silverio, que nem recebeu mais espanto com essa «melhoria de rendas». Agradeceu o convite, penhorado. Mas pedia licença a Sua Ex.a para passar primeiramente pelo lagar, para ver os carpinteiros que andavam a concertar a trave do rio. Era um instante, e estava em seguida ás ordens de S. Ex.a.
Metteu a corta matto, saltando um cancello. E nós seguimos, com passos que eram ligeiros, pela hora do almoço que se retardára, pello azul alegre que reapparecia, e por toda aquella justiça feita á pobresa da serra.
—Não perdeste hoje o teu dia, Jacintho, disse eu, batendo, com uma ternura que não disfarcei, no hombro do meu amigo.
—Que miseria, Zé Fernandes! Eu nem sonhava... Haver por ahi, á vista da minha casa, outras casas, onde creanças teem fome! É horrivel...
Estavamos entrando na alameda. Um raio de sol, sahindo d'entre duas grossas, algodoadas nuvens, passou sobre uma esquina do casarão, ao fundo, uma viva tira d'ouro. O clarim dos gallos soava claro e alto. E um doce vento, que se erguera, punha nas folhas lavadas e luzidias um fremito alegre e doce.
—Sabes o que eu estava pensando, Jacintho?... Que te aconteceu aquella lenda de Santo Ambrosio... Não, não era Santo Ambrosio... Não me lembra o santo... Nem era ainda santo... apenas um cavalleiro peccador, que se enamorára d'uma mulher, puzera toda a sua alma n'essa mulher, só por a avistar a distancia na rua. Depois, uma tarde que a seguia, enlevado, ella entrou n'um portal de egreja, e ahi, de repente, ergueu o veu, entreabriu o vestido, e mostrou ao pobre cavalleiro o seio roido por uma chaga! Tu, tambem andavas namorado da serra, sem a conhecer, só pela sua belleza de verão. E a serra, hoje, zás! de repente, descobre a sua grande ulcera... É talvez a tua preparação para S. Jacintho.
Elle parou, pensativo, com os dedos nas cavas do collete:
—-É verdade! Vi a chaga! Mas emfim, esta, louvado seja Deus, é das que eu posso curar!
Não desilludi o meu Principe. E ambos subimos alegremente a escadaria do casarão.
XI
No dia que seguiu estas largas caridades recolhi a Guiães. E, desde então, tantas vezes trotei por aquellas tres legoas entre a nossa e a velha alameda dos Jacinthos, que a minha egoa, quando a desviava d'essa estrada familiar, conduzindo a uma cavallariça familiar, (onde ella privava com o garrano do Melchior) relinchava de pura saudade. Até a tia Vicencia se mostrava vagamente ciumenta d'aquella Tormes, para onde eu sempre corria, d'aquelle Principe de quem incessantemente celebrava o rejuvenescimento, a caridade, os piteus, e as chimeras agricolas. Já um dia com um grão de sal e ironia,—o unico que cabia n'um coração todo cheio d'innocencia,—ella me dissera, movendo com mais vivacidade as agulhas da sua meia:
—Olha que te podes gabar! Até me tens feito curiosidade de conhecer esse Jacintho... Traze cá essa maravilha, menino!
Eu rira:
—Socegue, tia Vicencia, que o trarei agora, para o dia dos meus annos, a jantar... Damos uma festa, haverá um bailarico no pateo, e vem ahi toda essa senhorama dos arredores. Talvez até se arranje uma noiva para o Jacintho.
Eu, com effeito, já convidára o meu Principe para este «natalicio». E de resto convinha que o senhor de Tormes conhecesse todos aquelles senhores das boas casas da serra... Sobretudo, como eu lhe dizia rindo, convinha que elle conhecesse algumas mulheres, algumas d'aquellas fortes raparigas dos solares serranos, por que Tormes tinha uma solidão muito monastica; e o homem, sem um pouco do Eterno Feminino, facilmente se enrudece e ganha uma casca aspera como a das arvores, na solidão.
—E esta Tormes, Jacintho, esta tua reconciliação com a Natureza, e o renunciamento ás mentiras da Civilisação é uma linda historia... Mas, caramba, faltam mulheres!
Elle concordava, rindo, languidamente estendido na cadeira de vime:
—Com effeito, ha aqui falta de mulher, com M. grande. Mas essas senhoras ahi das casas dos arredores... Não sei, estou pensando que se devem parecer com legumes. Sans, nutritivas, excellentes para a panella—mas, emfim, legumes. As mulheres que os poetas comparam ás Flores são sempre as mulheres das Côrtes, das Capitaes, ás quaes, invariavelmente, desde Hesiodo e de Horacio, se rendem os poetas... E evidentemente não ha perfume, nem graça, nem elegancia, nem requinte, n'uma cenoura ou n'uma couve... Não devem ser interessantes as senhoras da minha serra.
—Eu te digo... A tua visinha mais chegada, a filha do D. Theotonio, com effeito, salvo o respeito que se deve á casa illustre dos Barbedos, é um mostrengo! A irmã dos Albergarias, da quinta da Loja, tambem não tentaria nem mesmo o precisado Santo Antão. Sobretudo se se despisse, por que é um espinafre infernal! Essa realmente é legume, e não dos nutritivos.
—Tu o disseste: espinafre!
—Temos tambem a D. Beatriz Velloso... Essa é bonita... Mas, menino, que horrivelmente bem fallante! Falla como as heroinas do Camillo. Tu nunca leste o Camillo... E depois, um tom de voz que te não sei descrever, o tom com que se falla em D. Maria, em peças de sentimento. Tu tambem nunca viste o Theatro de D. Maria... Emfim, um horror! E perguntas pavorosas. «V. Ex.a. Snr. Doutor, não se delicia com Lamartine?» Já me disse esta, a indecente!
—E tu?
—Eu! Arregalei os olhos... «Oh Lamartine!». Mas, coitada, é uma excellente rapariga! Agora, por outro lado, temos as Rojões, as filhas de João Rojão, duas flores, muito frescas, muito alegres, com um cheiro e um brilho a sadio, e muito simples... A tia Vicencia morre por ellas. Depois ha a mulher do Dr. Alypio, que é uma belleza. Oh! uma creatura esplendida! Mas, emfim, é a mulher do Dr. Alypio, e tu renunciaste aos deveres da Civilisação... Além disso, mulher muito séria, toda absorvida nos seus dous pequenos, que parecem dous anjinhos de Murillo... E quem mais? Já agora, quero completar a lista do pessoal feminino. Temos a Mello Rebello, de Sandofim, muito engraçada, com cabello lindo... Borda na perfeição, faz doces como uma freira do antigo Regimen... Havia tambem uma Julia Lobo, muito linda, mas morreu... Agora não me lembro mais. Mas falta a flôr da Serra, que é a minha prima Joanninha, da Flôr da Malva! Essa é uma perfeição de rapariga.
—E tu, primo Zé, como tens tu resistido?
—Somos como irmãos, creados de pequeninos, mais acostumados e familiares que tu e eu... A familiaridade esbate os sexos. A mãe d'ella era a unica irmã da tia Vicencia, e morreu muito nova. A Joanninha, quasi desde o berço que se creou em nossa casa, em Guiães. O pae é bom homem, o tio Adrião. Erudito, antiquario, colleccionador... Collecciona toda a sorte de cousas exquisitas, campainhas, esporas, sinetes, fivellas... Tem uma collecção curiosa. Elle ha muito que deseja vir a Tormes, para te visitar... Mas, coitado, soffre da bexiga, não póde montar a cavallo. E a estrada da Flôr da Malva aqui é impossivel para carruagens...
O meu Principe espreguiçára longamente os braços:
—Não, está claro! eu é que hei-de visitar teu tio, e a tia Vicencia... Desejo conhecer os meus visinhos. Mas mais tarde, quando socegar. Agora ando todo occupado com o meu povo.
E com effeito! Jacintho era agora como um Rei fundador d'um Reino, e grande edificador. Por todo o seu dominio de Tormes andavam obras, para o renovamento das casas dos rendeiros, umas que se concertavam, outras mais velhas, que se derrubavam para se reconstruirem com uma larguesa commoda. Pelos caminhos constantemente chiavam carros, carregados de pedra, ou de madeiras cortadas nos pinheiraes.
Na taberna do Pedro, á entrada da freguezia, ia um desusado movimento, de pedreiros e carpinteiros contractados para as obras;—e o Pedro, com as mangas arregaçadas, por traz do balcão, não cessava de encher os decilitros com uma vasta enfusa.
Jacintho, que tinha agora dous cavallos, todas as manhãs cedo percorria as obras, com amor. Eu, inquieto, sentia outra vez, latejar e irromper no meu Principe o seu velho, maniaco furor d'accumular Civilisação! O plano primitivo das obras era incessantemente alargado, aperfeiçoado. Nas janellas, que deviam ter apenas portadas, segundo o secular costume da serra, decidira pôr vidraças, apezar do mestre d'obras lhe dizer honradamente, que depois d'habitadas um mez, não haveria casa com um só vidro. Para substituir as traves classicas queria estucar os tectos;—e eu via bem claramente que elle se continha, se retesava dentro do Bom-senso, para não dotar cada casa com campainhas electricas. Nem sequer me espantei, quando elle uma manhã me declarou que a porcaria da gente do campo provinha de elles não terem onde commodamente se lavar, pelo que andava pensando em dotar cada casa com uma banheira. Desciamos n'esse momento, com os cavallos á redea, por uma azinhaga precipitada e escabrosa; um vento leve ramalhava nas arvores, um regato saltava ruidosamente entre as pedras. Eu não me espantei—mas realmente me pareceu que as pedras, o arroio, as ramagens e o vento, se riam alegremente do meu Principe. E além d'estes confortos, a que o João, mestre d'obras, com os olhos loucamente arregalados chamava «as grandezas», Jacintho meditava o bem das almas. Já encommendára ao seu architecto, em Paris, o plano perfeito d'uma escola, que elle queria erguer, n'aquelle campo da Carriça, junto á capellinha que abrigava «os ossos». Pouco a pouco, ahi crearia tambem uma bibliotheca, com livros d'estampas, para entreter, aos domingos, os homens a quem já não era possivel ensinar a lêr. Eu vergava os hombros, pensando:—«Ahi vem a terrivel accumulação das Noções! Eis o livro invadindo a Serra!» Mas outras idéas de Jacintho eram tocantes,—e eu mesmo me enthusiasmei, e excitei o enthusiasmo da tia Vicencia com o seu plano d'uma Creche, onde elle esperava ter manhãs muito divertidas vendo as creancinhas a gatinhar, a correr tropegamente atraz d'uma bola. De resto, o nosso boticario de Guiães estava já apalavrado para estabelecer uma pequena pharmacia em Tormes, sob a direcção do seu praticante, um afilhado da tia Vicencia, que tinha publicado um artigo sobre as festas populares do Douro no Almanach de Lembranças. E já fôra offerecido o partido medico de Tormes, com ordenado de 600$000 réis.
—Não te falta senão um Theatro! dizia eu, rindo.
—Um theatro não. Mas tenho a idéa d'uma sala, com projecções de lanterna magica, para ensinar a esta pobre gente as cidades d'esse mundo, e as cousas d'Africa, e um bocado de Historia.
E tambem me ensoberbeci com esta innovação!—E quando a contei ao tio Adrião, o digno antiquario bateu, apezar do seu rheumatismo, uma palmada tremenda na côxa. «Sim, senhor! Bella idéa! Assim se podia ensinar áquella gente illetrada, vivamente, por imagens, a Historia Santa, a Historia Romana, até a Historia de Portugal!...» E voltado para a prima Joanninha, o tio Adrião declarou Jacintho um «homem de coração!»
E realmente pela Serra crescia a popularidade do meu Principe. N'aquelle, «guarde-o Deus, meu senhor!» com que as mulheres ao passar o saudavam, se voltavam para o vêr ainda, havia uma seriedade d'oração, o bem sincero desejo de que Deus o guardasse sempre. As creanças a quem elle distribuia tostões, farejavam de longe a sua passagem,—e era em torno d'elle um escuro formigueiro de caritas trigueiras e sujas, com grandes olhos arregalados, que se ainda tinham pasmo, já não tinham medo. Como o cavallo de Jacintho uma tarde se chapára, ao desembocar da alameda, n'umas grossas pedras que ahi deformavam a estrada, logo ao outro dia um bando d'homens, sem que Jacintho o ordenasse, veio por dedicação ensaibrar e alisar aquelle pedaço perigoso de caminho, aterrados com o risco que correra o bom senhor. Já pela serra se espalhava esse nome de «bom senhor». Os mais edosos da freguezia não o encontravam sem exclamarem, uns com gravidade, outros com grandes risos desdentados:—Este é o nosso bemfeitor! Por vezes, alguma velha corria do fundo do eido, ou vinha á porta do casebre, ao avistal-o no caminho, para gritar, com grandes gestos dos braços magros: «Ai que Deus o cubra de bençãos! Que Deus o cubra de bençãos!»
Aos domingos, o padre José Maria, (bom amigo meu e grande caçador) vinha de Sandofim, na sua egoa ruça, a Tormes, para celebrar a missa na Capellinha. Jacintho assistia ao officio na sua tribuna, como os Jacinthos d'outras eras, para que aquelles simples o não suppuzessem estranho a Deus. Quasi sempre então elle recebia presentes, que as filhas dos caseiros, ou os pequenos, vinham muito corados, trazer-lhe á varanda, e eram vasos de manjaricão, ou um grosso ramalhete de cravos, e por vezes um gordo pato. Havia então uma distribuição de cavacas e merengues de Guiães, ás raparigas e ás creanças,—e, no pateo, para os homens circulavam as infusas de vinho branco. O Silverio já sustentava com espanto, e redobrado respeito, que o Snr. D. Jacintho em breve disporia de mais votos nas eleições que o Dr. Alypio. E eu proprio me impressionei, quando o Melchior me contou que o João Torrado, um velho singular d'aquelles sitios, de grandes barbas brancas, hervanario, vagamente alveitar, um pouco adivinho, morador mysterioso d'uma cova no alto da serra, a todos affirmava que aquelle bom senhor era El-Rei D. Sebastião, que voltára!
XII
Assim chegou Setembro, e com elle o meu natalicio, que era a 3 e n'um Domingo. Toda essa semana a passára eu em Guiães, nos preparos da vindima,—e de manhã cedo, n'esse Domingo illustre, me fui debruçar da varanda do quarto do saudoso tio Affonso, vigiando a estrada, por onde devia apparecer o meu Principe, que emfim visitava a casa do seu Zé Fernandes. A tia Vicencia, desde a madrugada, andava atarefada pela cosinha e pela copa, porque, desejando mostrar ao meu Principe «o pessoal» da serra, convidára para jantar algumas familias amigas, dos arredores, as que tinham carruagens ou carroções, e podiam, pelas estradas mal seguras, recolher tarde, depois d'um bailarico campestre, no pateo, já enfeitado para esse effeito de lanternas chinezas. Mas logo ás dez horas me desesperei, ao receber, por um moço da Flôr da Malva, uma carta da prima Joanninha, em que dizia «a pena de não poder vir porque o Papá estava desde a vespera com um leicenço, e ella não o queria abandonar.» Corri indignado á cosinha, onde a tia Vicencia presidia a um violento bater de gemas d'ovos dentro d'uma immensa terrina.
—A Joanninha não vem! Sempre assim! Diz que o pae tem um leicenço... Aquelle tio Adrião escolhe sempre os grandes dias para ter leicenços, ou para ter a pontada...
A boa face redondinha e corada da tia Vicencia enterneceu-se.
—Coitado! será em sitio que não se pudesse sentar na carruagem! Coitado! Olha, se lhe escreveres, dize-lhe que ponha um emplastrosinho de folhas d'alecrim. É com que teu tio se dava bem.
Eu gritei simplesmente para o moço, que dava de beber ao burro no pateo:
—Dize á Snr.a D. Joanninha que sentimos muito... Que talvez eu lá appareça ámanhã.
E voltei á janella, impaciente, por que o relogio do corredor, muito atrazado, já cantára a meia hora depois das dez e o Principe tardava para o almoço. Mas, mal eu me chegára á varanda, appareceu justamente na volta da estrada Jacintho, de grande chapeu de palha, no seu cavallo, seguido do Grillo que, tambem de chapeu de palha, e abrigado sob um immenso guarda-sol verde, se escarranchava no albardão da velha egoa do Melchior. Atraz, um moço com uma maleta á cabeça. E eu, na alegria de avistar emfim o meu Principe trotando para a minha casa d'aldeia, no dia dos meus trinta e seis annos, pensava n'outro natalicio, no d'elle, em Paris, no 202, quando, entre todos os esplendores da Civilização, nós bebemos tristemente ad manes, aos nossos mortos!
—Salvè! gritei da varanda. Salvè, domine Jacinthi!
E entoei, para o accolher, n'um alegre tarantantan, o hymno da carta!
—Isto por aqui tambem é lindo!—gritou elle de baixo. E o teu palacio tem um soberbo ar... Por onde é a porta?
Mas eu já me precipitava para o pateo—onde Jacintho, apeando, contou alegremente os tormentos do Grillo, que nunca montára a cavallo, e não cessára de berrar ante os perigos d'aquella aventura.
E o digno preto, offegante, lustroso de suor, e livido sob o esplendor da sua negrura, exclamava, apontando com a mão tremula para a pobre egoa, que solta, de cabeça pensativa, parecia de pedra, sobre as patas mais immoveis que marcos:
—Pois se o siô Fernandes visse! Uma fera, que nunca veiu quieta. Sempre para a esquerda, sempre para a direita, pé aqui, pé além! Só para me sacudir! Só para me sacudir!
E não resistiu. Com a ponta do guarda-sol atirou uma pontoada vingativa contra a egoa, sobre o albardão.
Subindo a escadaria ligeira, penetrando no alegre corredor, com a sua janella ao fundo engrinaldada de rosinhas, Jacintho louvava grandemente a nossa casa, que o repousava das rijas muralhas, das grossas portas feudaes de Tormes. E no seu quarto agradeceu os cuidados maternaes da tia Vicencia, que enchera de flores os dois vasos da China sobre a commoda, e adornára a cama com uma das nossas colxas da India mais ricas, côr de canario, com grandes aves d'ouro. Eu sorria, enternecido. Então estreitamos os ossos n'um grande abraço, pelo natalicio... «Trinta e oito, hein, Zé Fernandes?»—«Trinta e quatro, animal!» E o meu Principe abrindo a mala, sobria maleta de philosopho, offereceu os «nobres presentes, que são devidos», como diz sempre o astuto Ulysses na Odyssea. Era um alfinete de gravata, com uma saphira, uma cigarreira de aro fosco, adornada de um florido ramo de macieira em delicado esmalte, e uma faca para livros de velho lavor Chinez. Eu protestava contra a prodigalidade.
—É tudo das malas de Paris... Mandei-as abrir hontem á noite. E tomei a liberdade de trazer esta lembrança á tua tia Vicencia. Não vale nada... É só por ter pertencido á princeza de Lamballe.
Era uma caldeirinha d'agoa benta, em prata lavrada, d'um gosto florido e quasi galante.
—A tia Vicencia não sabe quem é a princeza de Lamballe, mas ficará encantada! E é uma garantia, por que ella suspeita da tua religião, como homem de Paris, da terra das impiedades... E agora, lavar, escovar, e ao almoço!
A tia Vicencia pareceu toda surprehendida, e logo encantada com o meu camarada, que ella suppuzera realmente um Principe, arrogante, escarpado e difficil. Quando elle lhe offereceu a caldeirinha, com um delicado pedido «para se lembrar d'elle nas suas orações», duas largas rosas, mais roseas e frescas que as rosas que enchiam a mesa, cobriram as faces redondas da boa senhora, que nunca recebera tão piedoso presente, com tão linda palavra. Mas o que sobretudo a captivou foi o tremendo appetite de Jacintho, a enthusiasmada convicção com que elle, accumulando no prato montes de cabidella, depois altas serras d'arroz de forno, depois bifes de numerosa cebolada, exaltava a nossa cosinha, jurava nunca ter provado nada tão sublime. Ella resplandecia:
—Até faz gosto, até faz gosto!... Ora mais uma d'estas batatinhas recheadas...
—Com certesa, minha senhora! até duas! As minhas rações, em mesas d'estas, tão perfeitas, são sempre as de Gargantua.
—Não cites Rabelais, que a tia Vicencia não conhece os auctores profanos! exclamava eu, tambem radiante. E prova esse vinho branco cá da nossa lavra, e louva Deus que amadurece tal uva.
E o almoço foi muito alegre, muito intimo, muito conversado, sobre as obras de Jacintho em Tormes, e a sua Creche, que enlevava a tia Vicencia, e as esperanças da vindima, e a minha prima Joanninha, que tinha o papá doente, e o pessimo estado dos caminhos. Mas o enternecimento maior foi quando, ao servir o café, o creado poz ao lado de Jacintho um pires com um pau de canella, o seu estranho e costumado pau de canella. Não o esquecera a tia Vicencia! Ali tinha o seu pausinho de canella!—Queria que elle, em Guiães, continuasse os seus habitos como em Tormes... E aquelle pau de canella foi o symbolo de adopção do meu Principe como novo sobrinho da tia Vicencia.
Ella em breve recolheu á cosinha, aos preparativos do banquete. Nós fumamos um preguiçoso charuto no jardim, ao pé do repuxo, sob a recolhida sombra do cedro. Depois, inexoravelmente, como proprietario, mostrei ao meu Principe a propriedade toda, com desapiedada minuciosidade, sem lhe perdoar uma leira, um regueiro, uma arvore, um pé de vinha. Só quando a sua face começou a opar e a empallidecer, de cançaço, e que do entendimento totalmente atordoado só lhe escorria um vago—«muito bonito! bella terra!»—é que voltei os passos para casa, tornejando ainda n'uma volta larga para lhe mostrar o lagar, uma plantação d'espargos, e o sitio onde existira a ruina d'um velho castro romano. Ao penetrarmos de novo, pelo jardim, na fresca sala, ainda o empurrei, como uma rez, para a livraria do meu bom tio Affonso, para lhe mostrar as preciosidades, uma magnifica chronica de D. João I por Fernão Lopes, a primeira edição do Imperador Clarimundo, uma Henriada, com a assignatura de Voltaire, foraes d'El-Rei D. Manoel, e outras maravilhas. Elle respirava fechando o derradeiro pergaminho, quando eu o arrastei á adega, para que admirasse a famosa pipa, que tinha, em relevo, na madeira do tampo, as complicadas armas dos Sandes. Eram quatro horas. O meu Principe tinha o ar esgaseado e livido. Cravando n'elle os olhos inexoraveis, olhos em que eu mesmo sentia reluzir a ferocidade, declarei «que iriamos agora vêr a tulha.» Mas então, com as mãos nos rins, elle murmurou, humildemente, n'um murmurio de creança:
—Não se me dava de me sentar um poucochinho!
Tive então piedade, abri as garras, deixei que elle se arrastasse, atraz de mim, para o seu quarto, onde freneticamente descalçou as botas, se atirou para um fresco canapé forrado de ganga, murmurando n'um abatimento profundo:—«Bella propriedade!»
Consenti generosamente que elle adormecesse,—e eu mesmo desci a verificar se a Gertrudes dispusera bem as escovas, as toalhas de renda, no quarto onde os convidados, em breve, ao chegar, lavariam as mãos, escovariam a poeira da estrada. E justamente, uma caleche rodava no pateo, a velha caleche do D. Theotonio, com a parelha ruça. Espreitando da janella descobri, com prazer, que chegava só, de gravata branca, sob o guarda-pó, sem a horrendissima filha. Corri alegremente ao quarto da tia Vicencia, que, ajudada pela Catharina, abrochava á pressa as suas pulseiras ricas de topazios.
—Tia Vicencia! chegou o D. Theotonio! Felizmente vem sem a filha... Não se demore, os outros não tardam. O Manoel que esteja bem penteado, de gravata bem teza!... Vamos a vêr como corre a festa!
XIII
Ai de mim! a festa no meu anniversario não se passou com brilho, nem com alegria!
Quando o meu Principe entrou na sala, com uma elegancia, (onde eu senti as malas de Paris, abertas na vespera)—uma rosa branca no jaquetão preto, collete branco lavrado e trespassado, copiosa gravata de sêda branca, tufando, e presa por uma perola negra,—já todos os convidados estavam na sala,—o D. Theotonio, o Ricardo Velloso, o Dr. Alypio, o gordo Mello Rebello, de Sandofim, os dois manos Albergarias, da quinta da Loja—; todos de pé, n'um pellotão cerrado. Em torno do sophá onde a tia Vicencia se installára, um magotesinho de cadeiras reunira as senhoras,—a Beatriz Velloso, de cassa branca sobre sèda, que a tornava mais aeria e magra, com a sua trunfa immensa de cabello riçado; as duas Rojões, (com a tia Adelaide Rojão) vermelhinhas como camoezas, ambas de branco; e a mulher do Dr. Alypio, de preto, esplendida como uma Venus Rustica... E foi na sala, como se realmente entrasse um Principe, d'esses paizes do Norte onde os Principes são magnificos, muito distantes dos homens, e aterram as gentes. Um silencio, como se o tecto de carvalho descesse, nos esmagava: e todos os olhos se enristaram contra o meu desgraçado Jacintho, como n'uma caçada hindú, quando á orla da floresta surge o Tigre Real. Debalde,—nas confusas, apressadas apresentações, com que eu o levava atravez da sala,—os seus apertos de mão, os sorrisos, o vago murmurio, «da sua honra, do seu prazer» foram repassados de sympathia, de simplicidade. Todos os cavalheiros permaneciam reservados, observando o Principe, que subira á serra: e as senhoras mais se aconchegavam á sombra da tia Vicencia, como ovelhas á volta do pastor, quando na altura assoma o lobo. Eu, já inquieto, lancei o D. Theotonio, o mais ornamental d'aquelles cavalheiros.
—O Snr. D. Theotonio foi muito amavel em vir, Jacintho. Raras vezes sae da sua linda casa da Abrujeira.
O digno D. Theotonio sorriu, cofiando os espessos bigodes brancos, de velho brigadeiro:
—V. Ex.a chegou directamente de Vienna?
Não! Jacintho viera directamente de Paris, com o amigo Zé Fernandes. D. Theotonio insistiu:
—Mas certamente visita muitas vezes Vienna...
Jacintho sorria surprehendido:
—Vienna, porque?... Não. Ha mais de quinze annos que não vou a Vienna.
O fidalgo murmurou um lento ah! e ficou calado, de palpebras baixas, como revolvendo analyses profundas, com as mãos cruzadas sob as abas da longa sobrecasaca azul.
Eu então, vigilante, lancei o Dr. Alypio:
—O nosso Doutor, meu caro Jacintho, é o mais poderoso influente de todo o districto.
O Doutor curvou a cabeça bem feita, com um bello cabello preto, admiravelmente alisado e lustroso. Mas a tia Vicencia, que se erguera do sofá, chamava o meu Principe, porque o Manoel annunciára o jantar, mudamente, mostrando apenas, á porta da sala, a sua corpulenta pessoa,—inteiriçado e vermelho.
Á mesa, onde os pudins, as travessas de doce d'ovos, os antigos vinhos da Madeira e do Porto, nas suas pesadas garrafas de cristal lapidado, fundiam com felicidade os seus tons ricos e quentes, Jacintho ficou entre a tia Vicencia e uma das Rojões, a Luizinha, sua afilhada, que, por costume velho, quando jantava em Guiães, sempre se collocava á sombra da sua bôa madrinha. E a sôpa, que era de gallinha com macarrão, foi comida n'um tão largo e pesado silencio que eu, na ancia de o quebrar, exclamei, ao acaso, sem pensar que me achava em Guiães depois de tanto tempo e em minha própria casa:
—Deliciosa, esta sopa!
Jacintho echoou:
—Divina!!
Mas como todos os convidados certamente estranharam este meu brado, e a excessiva admiração de Jacintho, o silencio, carregado de cerimonia, mais se carregou de embaraço. Felizmente a tia Vicencia, com aquelle seu bom sorriso, observou que Jacintho parecia gostar da comida portugueza... E eu, sempre no intuito d'animar a conversa, nem deixei que o meu Principe confirmasse o seu amor da cosinha vernacula, e gritei:
—Como gostar! Mas é que delira!... Pudera! Tanto tempo em Paris, privado dos piteus lusitanos...
E como, ditosamente, me lembrára o prato de arroz doce preparado na occasião do natalicio de Jacintho, pelo cosinheiro do 202, contei a historia, profusamente, exaggerando, affirmando que esse arroz doce continha foie gras, e que sobre a sua ornamentada pyramide fluctuava a bandeira tricolor, por cima do busto do conde de Chambord! Mas o arroz doce de Paris, assim estragado tão longe da Serra, não interessára ninguem. Puxou apenas alguns sorrisos de polida condescendencia, quando eu, alternadamente, me voltava para um cavalheiro, para uma senhora, insistindo, exclamando:—Extraordinario, hein?
D. Theotonio observou, mysteriosamente, que o «cosinheiro sabia para quem cosinhava.» E a bella mulher do Dr. Alypio ousou murmurar, corando:
—Havia de ser bonito prato, e talvez não fosse mau!
Eu, sempre na ancia de espiritualisar o banquete, de produzir conversação, ataquei com desabrida alegria a Snr.a D. Luiza, por ella assim defender a profanação do nosso grande acepipe nacional! Mas, pobre de mim! tão excessiva e ruidosamente interpellei a formosa senhora, que ella se enconchou, emmudeceu, toda corada, e mais formosa assim. E outro silencio se abatia sobre a mesa, como uma nevoa, quando a tia Vicencia, providencial, se desculpou para com Jacintho de não ter peixe! Mas quê! ali na Serra era impossivel, ainda a peso d'ouro, ter peixe, a não ser a pescada salgada, ou o bacalhau. O excellente Rojão, com aquelle seu modo, tão suave que cada syllaba para correr mais docemente parecia lubrificada com oleos santos, lembrou que o Snr. D. Jacintho possuia uma larga facha do rio Douro com privilegio para a pesca do savel. Jacintho não sabia, nem imaginava que houvesse saveis... O Dr. Alypio não se admirava por que essas pescas tinham sido vendidas ao Cunha brasileiro, ha vinte annos, na mocidade do Snr. D. Jacintho. E hoje, segundo o D. Theotonio, não valiam dois mil réis. Se já não ha saveis!... E a proposito das antigas pescas do Douro se ia formando, em torno da mesa, entre os homens mais visinhos, lentas cavaqueirinhas ruraes, que as senhoras aproveitavam para cochichar, no desabafo d'aquelle silencio cerimonioso, que viera pesando cada vez mais desde a sôpa até os frangos guisados. Receoso de que essa orla de murmurios lentos, sem brilho e sem alegria, se estabelecesse de novo, me abalancei (para animar), a interpellar Jacintho, recordando a famosa aventura do peixe da Dalmacia encalhado no ascensor.
—Isso foi uma das melhores historias que nos succederam em Paris! O Jacintho, por causa d'um peixe muito raro, que lhe mandára o Grão-Duque Casimiro, dava uma magnifica ceia, a que o Grão-Duque... o Grão-Duque Casimiro, o irmão do Imperador...
Todos os olhos se desviaram para o meu Jacintho, que se servia de ervilhas:—e o Mello Rebello quasi se engasgou, n'um sorvo precipitado ao copo, para contemplar no meu amigo algum reflexo do Grão-Duque. E eu contei, com profusão, o peixe encalhado, o Grão-Duque pescando, o anzol feito com um gancho da Princeza de Carman, o duque de Marizac, cahindo quasi no poço do elevador... Mas não se produziu um unico riso, e a attenção mesma era dada com esforço, por cortezia. Debalde eu arremessava aquelles nomes magnificos de principes e princezas, misturados a cousas picarescas... Nenhum dos meus convidados comprehendia o maquinismo do elevador, um prato encalhado n'um poço negro... Perante o gancho da princeza as Albergarias baixaram os olhos. E a minha deliciosa historia morreu n'uma reticencia, ainda mais regelada pela exclamação innocente da tia Vicencia:
—Oh! filho, que cousas!
Mas, como Jacintho se enfronhára de repente n'uma larga conversa com a Luizinha Rojão, que ria, toda luminosa e palradora,—todos, como libertados do peso cerimonioso da sua presença augusta, se lançaram nas conversinhas discretas, a que o champagne, agora, depois do assado, dava mais viveza. Eram os soturnos murmurios, em torno da mesa, que definitivamente se perpetuavam. Foi então que desisti de animar o jantar. Mergulhei com a bella mulher do Doutor Alypio na grande questão social d'esse tempo em Guiães, o casamento da D. Amelia Noronha com o feitor! E eu defendia a D. Amelia, os direitos do amor, quando se alargou um silencio,—e era Jacintho, que se debruçava, de copo na mão.
—Velho amigo Zé Fernandes, á tua! Muitos e bons, e sempre em companhia de tua tia e minha senhora, a quem peço para saudar.
Todos os copos, onde a espuma morria sobre um fundo de champagne, se ergueram n'um largo rumor de amisade, e boa visinhança. Eu acenei ao Manoel, vivamente, para encher os copos; e logo, tambem de pé, atirando para traz a sobrecasaca:
—Meus senhores, peço uma grande saude para o meu velho amigo Jacintho, que pela primeira vez honra esta casa fraternal... Que digo eu? que pela primeira vez honra com a sua presença a sua querida patria! E que por cá fique, pelas serras, muitos annos, todos bons. Á tua, meu velho!
Outro rumor correu pela mesa, mas ceremonioso e sereno. A nossa oratoria, positivamente, não incendiára as imaginações! A tia Vicencia fez tilintar o seu copo, quasi vasio, com o de Jacintho, que tocou no copo da sua visinha, a Luizinha Rojão, toda resplandecente, e mais vermelha que uma peonia. Depois foi um encadeamento de saudes, com os copos quasi vasios, entre todos os convidados, sem esquecer o tio Adrião, e o Abbade, ambos ausentes, ambos com furunculos. E a tia Vicencia espalhava aquelle olhar, que prepára o erguer, o arrastar de cadeiras,—quando D. Theotonio, erguendo o seu copo de vinho do Porto, com a outra mão apoiada á mesa, meio erguido, chamou Jacintho, e n'uma voz respeitosa, quasi cava:
—Esta é toda particular, e entre nós... Brindo o ausente!
Esvasiou o copo, como em religião, pontificando. Jacintho bebeu assombrado, sem comprehender. As cadeiras arrastavam,—eu dei o braço á tia Albergaria.
E só comprehendi, na sala, quando o Dr. Alypio, com a sua chavena de café e o charuto fumegante, me disse, n'um d'aquelles seus olhares finos, que lhe valiam a alcunha de Dr. Agudo:—«Espero que ao menos, cá por Guiães, não se erga de novo a forca!...» E o mesmo fino olhar me indicava o D. Theotonio, que arrastára Jacintho para entre as cortinas d'uma janella, e discorria, com um ar de fé e de mysterio. Era o miguelismo, por Deus! O bom D. Theotonio considerava Jacintho como um hereditario, ferrenho, miguelista,—e na sua inesperada vinda ao seu solar de Tormes, entrevia uma missão politica, o começo d'uma propaganda energica, e o primeiro passo para uma tentativa de Restauração. E na reserva d'aquelles cavalheiros, ante o meu Principe, eu senti então a suspeita liberal, o receio d'uma influencia rica, nova, nas Eleições proximas, e a nascente irritação contra as velhas ideias, representadas n'aquelle moço, tão rico, de civilisação tão superior. Quasi entornei o café, na alegre surpreza d'aquella sandice. E retive o Mello Rebello, que repunha a chavena vasia na bandeja, fitei, com um pouco de riso, o Dr. Agudo.
—Então, francamente, os amigos imaginam que o Jacintho veio para Tormes trabalhar no miguelismo?
Muito serio, Mello Rebello chegou o seu grosso bigode á minha orelha:
—Até corre, como certo, que o Principe D. Miguel está com elle em Tormes!
E como eu os considerava esgazeado, o Dr. Alypio—tão agudo!—confirmou:
—É o que corre... Disfarçado em creado!
Em creado? Oh! santo Deus! Era o Baptista! Justamente, Ricardo Velloso veio, puxando do seu cigarrinho, para o accender no meu charuto. E o bom Rebello logo invocou o seu testemunho.—Pois não corria, que o filho de D. Miguel estava em Tormes, escondido?...
—Disfarçado em lacaio, confirmou logo o digno Rebello.
Accendeu o cigarro, soprou o fumo, e erguendo muito as sobrancelhas meditativas:
—Se assim é, lá me parece desplante... Que eu não desgostava de o vêr. Dizem que é bonito moço, bem apessoado. Mas emfim, meu tio João Vaz Rebello foi partido ás postas, a machado, nas prisões d'Almeida... E se recomeçam essas questões, mau, mau! Ora o seu amigo...
Emmudeceu. Jacintho, que se libertára do velho D. Theotonio, e ainda conservava um resto de riso, d'assombro divertido, vinha para mim, desabafar:
—Extraordinario! Vejo que, aqui, na serra, ainda se conservam, sem uma ruga, as velhas e boas ideias...
Immediatamente, sem se conter, Mello Rebello acudiu:
—É conforme o que V. Ex.a chama boas ideas.
E eu agora, furioso com aquella disparatada invenção, que cercava d'hostilidade o meu pobre Jacintho, estragava aquella amavel noite d'annos, intervim, vivamente:
—Tu jogas o voltarete, Jacintho? Não jogas... Então vamos arranjar duas mesas... O D. Theotonio ha de querer cartas.
E arrastei Jacintho para as senhoras, que de novo se aninhavam á sombra da tia Vicencia, estabelecida no seu canto do sofá. Todas se callavam, parecia encolherem-se ante a apparição do meu Principe, como pombas avistando o abutre. E deixei o temido homem affirmando á mulher do Dr. Alypio (um pouco desgarrada do bando das aves timidas) que lhe dera grande prazer aquella occasião de conhecer as suas visinhas de Tormes... Ella abrira nervosamente o leque, sorria, e nunca de certo Jacintho admirára na Cidade uma bocca mais vermelha, dentinhos mais rutilantes. Mas depois d'organisar a mesa do voltarete, tive de abancar, eu, para substituir o Manoel Albergaria, que era dispeptico, se declarára «affrontado», e desejava respirar um momento na varanda. Todos aquelles cavalheiros, de resto, se queixavam de calor. Mandei abrir as janellas que davam sobre as mimosas do pateo. O Velloso, ao baralhar, parava, bufando, como opprimido:
—Está abafado... Ainda temos trovoada!
E o Dr. Alypio, inquieto, por que tinha uma hora d'estrada até casa, e uma das egoas da caleche era escabriada, correu á janella, espreitar o ceu, que ennegrecera, morno e pesado.
—Com effeito, vae cahir agoa.
As hastes das mimosas ramalhavam, arripiadas: e o ar que agitava as cortinas era intermittente, estonteado. De certo na sala, entre as senhoras, surgira a mesma inquietação, porque a tia Albergaria appareceu, avisando o mano Jorge.
Era prudente pensar em partir, a noite ameaçava... E o Dr. Alypio, puxando o relogio, propoz que, levantada aquella remissa, se preparasse a marcha. Justamente o Albergaria recolhia da varanda desaffrontado, alliviado com um calice de genebra: e rotomou as suas cartas, annunciando tambem que vinha ahi uma trovoada valente.
Voltando á sala, encontrei Jacintho muito alegre entre as senhoras, que se familiarisaram, escutando cheias de riso e gosto, a historia da sua chegada a Tormes, sem malas, sem creados, tão desprovido que dormira com a camisa da caseira! Mas a minha pobre noite d'annos findava, desorganisada. A tia Albergaria rondava de janella em janella, assustada com a volta á Roqueirinha, espreitando a treva abafada. Calçando lentamente as luvas, a bella mulher do Dr. Alypio perguntava se ainda havia a remissa. E a tia Vicencia apressára o chá, que o Manoel seguido pela Gertrudes, com a bandeja de bolos, já começava a servir ás senhoras. Jacintho, de pé, offerecendo chavenas, gracejava:
—Então tanta pressa, tanto medo, por causa d'uma trovoadinha?
Ellas replicavam, familiarizadas, n'uma crescente sympathia pelo meu Principe:
—Ora o senhor falla bem, porque fica debaixo de telhas...
—Sempre o queriamos vêr... se fosse agora para Tormes, com esta noite cerrada!
O voltarete findára nas duas mesas: e aquelles cavalheiros, das janellas, gritavam ordens para o pateo negro, onde as carroagens esperavam atreladas:
—Desce a cabeça da victoria, ó Diogo!
—Accende o lampeão, Pedro! Sempre ajuda a luz das lanternas.
A creada Quiteria chegava á porta com os braços carregados de chales, de mantilhas de renda. Como uma das Albergarias ia no assento de deante na victoria, eu corri a buscar o meu casaco de borracha, para ella se abrigar se a chuva viesse. E só o D. Theotonio, que tinha até casa apenas meia legoa de estrada boa, se não apressava, filado outra vez no meu Principe, que levava para os cantos mais solitarios, em conversas profundas, que o seu dedo solemne, espetado, sublinhava gravemente. Mas a tia Albergaria gritou que já chovia;—e então foi uma pressa das senhoras, que beijocavam vivamente a tia Vicencia, em quanto os homens, na ante-camara, enfiavam açodadamente os paletós.
Jacintho e eu descemos ao pateo para acompanhar aquella debandada,—e uma a uma, a traquitana do Dr. Alypio, a victoria das Albergarias, a velha e immensa caleche dos Vellosos, rolaram sob a noite, entre os nossos desejos de boa jornada. Por fim D. Theotonio calçou as luvas pretas e entrou para a sua caleche, dizendo a Jacintho:
—Pois, primo e amigo, Deus permitta que, do nosso encontro, e do mais que se passar, algum bem resulte a esta terra!
Subindo a escada, o meu Principe desabafou:
—Este Theotonio é extraordinario! Sabes o que descobri por fim?... Que me toma por um miguelista, e imagina que eu vim para Tormes preparar a restauração de D. Miguel?!
—E tu?
—Eu fiquei tão espantado, que nem o desilludi!
—Pois sabe mais, meu pobre amigo. Todos pensam o mesmo, estão desconfiados, e receiam vêr de novo erguidas as fôrcas em Guiães! E corre que tu tens o Principe D. Miguel escondido em Tormes, disfarçado em creado. E sabes quem elle é? o Baptista!
—Isso é sublime! murmurou Jacintho, com uns grandes olhos abertos.
Na sala, a tia Vicencia nos esperava desconsolada, entre todas as luzes, que ardiam ainda no silencio e paz do serão debandado:
—Ora uma cousa assim! Nem quererem ficar para tomar um copinho de gelea, um calice de vinho do Porto!
—Esteve tudo muito desanimado, tia Vicencia! exclamei desafogando o meu tedio. Todo esse mulherio emmudeceu; os amigos com um ar desconfiado...
Jacintho protestou, muito divertido, muito sincero:
Não! pelo contrario. Gostei immenso. Excellente gente! E tão simples... Todas estas raparigas me pareceram optimas. E tão frescas, tão alegres! Vou ter aqui bons amigos, quando verificarem que não sou miguelista.
Então contamos á tia Vicencia a prodigiosa historia de D. Miguel escondido em Tormes... Ella ria! Que cousa! E mau seria...
—Mas o Snr. Jacintho, não é?
—Eu, minha senhora, sou socialista...
Acudi, explicando á tia Vicencia, que socialista era ser pelos pobres. A doce senhora considerava esse partido o melhor, o verdadeiro:
—O meu Affonso, que Deus haja, era liberal... Meu pae, tambem e até amigo do Duque da Terceira...
Mas um rude trovão rolou, atroou a noite negra:—e uma batega d'agoa cantou nos vidros, e nas pedras da varanda.
—Santa Barbara! gritou a tia Vicencia! Ai aquella pobre gente!... Até estou com cuidado... As Rojões, que vão na victoria!
E correu para o quarto, na sua pressa de accender as duas velas costumadas no oratorio, ainda antes de ir guardar as pratas, e resar o terço, com a Gertrudes.