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A Cidade e as Serras

Chapter 9: IV
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About This Book

A narrator recounts the life of Jacintho, an heir raised amid Parisian luxury whose days are filled with technological comforts, fashionable amusements, and mounting ennui. Struck by illness and dissatisfaction, he withdraws from the urban scene to his ancestral estate in the hills, where slower rhythms, manual work, and natural surroundings restore his appetite and spirits. The narrative traces his transformation from cosmopolitan excess to rural renewal, contrasting artificial modernity with simple pleasures and offering ironic observations on taste, progress, and the healing power of landscape and community.




Quando o dia social de Jacintho se apresentava mais desafogado, e o céo de Março nos concedia caridosamente um pouco de azul agoado, sahiamos depois d'almoço, a pé, através de Paris. Estes lentos e errantes passeios eram outr'ora, na nossa edade de Estudantes, um gozo muito querido de Jacintho—porque n'elles mais intensamente e mais minuciosamente saboreava a Cidade. Agora porém, apesar da minha companhia, só lhe davam uma impaciencia e uma fadiga que desoladoramente destoava do antigo, illuminado extasi. Com espanto (mesmo com dôr, porque sou bom, e sempre me entristece o desmoronar d'uma crença) descobri eu, na primeira tarde em que descemos aos Boulevards, que o denso formigueiro humano sobre o asphalto, e a torrente sombria dos trens sobre o macadam, affligiam o meu amigo pela brutalidade da sua pressa, do seu egoismo, e do seu estridor. Encostado e como refugiado no meu braço, este Jacintho novo começou a lamentar que as ruas, na nossa Civilisação, não fossem calçadas de gutta-percha! E a gutta-percha claramente representava, para o meu amigo, a substancia discreta que amortece o choque e a rudeza das cousas. Oh maravilha! Jacintho querendo borracha, a borracha isoladora, entre a sua sensibilidade e as funcções da Cidade! Depois, nem me permittiu pasmar diante d'aquellas dourejadas e espelhadas lojas que elle outr'ora considerava como os «preciosos museus do seculo XIX»...

—Não vale a pena, Zé Fernandes. Ha uma immensa pobreza e seccura d'invenção! Sempre os mesmos florões Luiz XV, sempre as mesmas pelucias... Não vale a pena!

Eu arregalava os olhos para este transformado Jacintho. E sobretudo me impressionava o seu horror pela Multidão—por certos effeitos da Multidão, só para elle sensiveis, e a que chamava os «sulcos».

—Tu não os sentes, Zé Fernandes. Vens das serras... Pois constituem o rijo inconveniente das Cidades, estes sulcos! É um perfume muito agudo e petulante que uma mulher larga ao passar, e se installa no olfacto, e estraga para todo o dia o ar respiravel. É um dito que se surprehende n'um grupo, que revela um mundo de velhacaria, ou de pedantismo, ou de estupidez, e que nos fica collado á alma, como um salpico, lembrando a immensidade da lama a atravessar. Ou então, meu filho, é uma figura intoleravel pela pretenção, ou pelo mau-gosto, ou pela impertinencia, ou pela rellice, ou pela dureza, e de que se não póde sacudir mais a visão repulsiva... Um pavor, estes sulcos, Zé Fernandes! De resto, que diabo, são as pequeninas miserias d'uma Civilisação deliciosa!

Tudo isto era especioso, talvez pueril—mas para mim revelava, n'aquelle chamejante devoto da Cidade, o arrefecimento da devoção. N'essa mesma tarde, se bem recordo, sob uma luz macia e fina, penetramos nos centros de Paris, nas ruas longas, nas milhas de casario, todo de caliça parda, erriçado de chaminés de lata negra, com as janellas sempre fechadas, as cortininhas sempre corridas, abafando, escondendo a vida. Só tijolo, só ferro, só argamassa, só estuque: linhas hirtas, angulos asperos: tudo secco, tudo rigido. E dos chãos aos telhados, por toda a fachada, tapando as varandas, comendo os muros, Taboletas, Taboletas...

—Oh, este Paris, Jacintho, este teu Paris! Que enorme, que grosseiro bazar!

E, mais para sondar o meu Principe do que por persuasão, insisti na fealdade e tristeza d'estes predios, duros armazens, cujos andares são prateleiras onde se apilha humanidade! E uma humanidade impiedosamente catalogada e arrumada! A mais vistosa e de luxo nas prateleiras baixas, bem envernisadas. A relles e de trabalho nos altos, nos desvãos, sobre pranchas de pinho nú, entre o pó e a traça...

Jacintho murmurou, com a face arripiada:

—É feio, é muito feio!

E accudiu logo, sacudindo no ar a luva de anta:

—Mas que maravilhoso organismo, Zé Fernandes! Que solidez! Que producção!

Onde Jacintho me parecia mais renegado era na sua antiga e quasi religiosa affeição pelo Bosque de Bolonha. Quando moço, elle construira sobre o Bosque theorias complicadas e consideraveis. E sustentava, com olhos rutilantes de fanatico, que no Bosque a Cidade cada tarde ia retemperar salutarmente a sua força, recebendo, pela presença das suas Duquezas, das suas Cortezãs, dos seus Politicos, dos seus Financeiros, dos seus Generaes, dos seus Academicos, dos seus Artistas, dos seus Clubistas, dos seus Judeus, a certeza consoladora de que todo o seu pessoal se mantinha em numero, em vitalidade, em funcção, e que nenhum elemento da sua grandeza desapparecera ou deperecera! «Ir ao Bois» constituia então para o meu Principe um acto de consciencia. E voltava sempre confirmando com orgulho que a Cidade possuia todos os seus astros, garantindo a eternidade da sua luz!

Agora, porém, era sem fervor, arrastadamente, que elle me levava ao Bosque, onde eu, aproveitando a clemencia d'Abril, tentava enganar a minha saudade d'arvoredos. Emquanto subiamos, ao trote nobre das suas egoas lustrosas, a Avenida dos Campos-Elyseos e a do Bosque, rejuvenescidas pelas relvas tenras e fresco verdejar dos rebentos, Jacintho, soprando o fumo da cigarrete pelas vidraças abertas do coupé, permanecia o bom camarada, de veia amavel, com quem era doce philosophar através de Paris. Mas logo que passavamos as grades douradas do Bosque, e penetravamos na Avenida das Acacias, e enfiavamos na lenta fila dos trens de luxo e de praça, sob o silencio decoroso, apenas cortado pelo tilintar dos freios e pelas rodas vagarosas esmagando a areia,—o meu Principe emmudecia, mollemente engilhado no fundo das almofadas, d'onde só despegava a face para escancarar bocejos de fartura. Pelo antigo habito de verificar a presença confortadora do «pessoal, dos astros», ainda, por vezes, apontava para algum coupé ou vittoria rodando com rodar rangente n'outra arrastada fila—e murmurava um nome. E assim fui conhecendo a encaracolada barba hebraica do banqueiro Ephraim; e o longo nariz patricio de Madame de Trèves abrigando um sorriso perenne; e as bochechas flacidas do poeta neo-platonico Dornan, sempre espapado no fundo de fiacres; e os longos bandòs pre-raphaelitas e negros de Madame Verghane; e o monoculo defumado do director do Boulevard; e o bigodinho vencedor do Duque de Marizac, reinando de cima do seu phaeton de guerra; e ainda outros sorrisos immoveis, e barbichas á Renascença, e palpebras amortecidas, e olhos farejantes, e pelles empoadas d'arroz, que eram todas illustres e da intimidade do meu Principe. Mas, do topo da Avenida das Acacias, recomeçavamos a descer, em passo sopeado, esmagando lentamente a areia; na fila vagarosa que subia, calhambeque atraz de landau, vittoria atraz de fiacre, fatalmente reviamos o binoculo sombrio do homem do Boulevard, e os bandòs furiosamente negros de Madame Verghane, e o ventre espapado do neo-platonico, e a barba talmudica, e todas aquellas figuras, d'uma immobilidade de cera, super-conhecidas do meu camarada, recruzadas cada tarde através de revividos annos, sempre com os mesmos sorrisos, sob o mesmo pó d'arroz, na mesma immobilidade de cera; então Jacintho não se continha, gritava ao cocheiro:

—Para casa, depressa!

E era pela Avenida do Bosque, pelos Campos-Elyseos, uma fuga ardente das egoas a quem a lentidão sopeada, n'um roer de freios, entre outras egoas tambem d'ellas super-conhecidas, lançavam n'uma exasperação comparavel á de Jacintho.

Para o sondar eu denegria o Bosque:

—Já não é tão divertido, perdeu o brilho!...

Elle acudia, timidamente:

—Não, é agradavel, não ha nada mais agradavel; mas...

E accusava a friagem das tardes ou o despotismo dos seus affazeres. Recolhiamos então ao 202, onde, com effeito, em breve embrulhado no seu roupão branco, diante da mesa de crystal, entre a legião das escovas, com toda a electricidade refulgindo, o meu Principe se começava a adornar para o serviço social da noite.

E foi justamente numa d'essas noites (um sabado) que nós passamos, n'aquelle quarto tão civilisado e protegido, por um d'esses brutos e revoltos terrores como só os produz a ferocidade dos Elementos. Já tarde, á pressa (jantavamos com Marizac no Club para o acompanhar depois ao Lohengrin na Opera) Jacintho arrocheava o nó da gravata branca—quando no lavatorio, ou porque se rompesse o tubo, ou se dessoldasse a torneira, o jacto d'agua a ferver rebentou furiosamente, fumegando e silvando. Uma nevoa densa de vapor quente abafou as luzes—e, perdidos n'ella, sentiamos, por entre os gritos do escudeiro e do Grillo, o jorro devastador batendo os muros, esparrinhando uma chuva que escaldava. Sob os pés o tapete ensopado era uma lama ardente. E como se todas as forças da natureza, submettidas ao serviço de Jacintho, se agitassem, animadas por aquella rebellião da agua—ouvimos roncos surdos no interior das paredes, e pelos fios dos lumes electricos sulcaram faiscas ameaçadoras! Eu fugira para o corredor, onde se alargava a nevoa grossa. Por todo o 202 ia um tumulto de desastre. Diante do portão, attrahidas pela fumarada que se escapava das janellas, estacionava policia, uma multidão. E na escada esbarrei com um reporter, de chapéo para a nuca, a carteira aberta, gritando sofregamente «se havia mortos?»

Domada a agua, clareada a bruma, vim encontrar Jacintho no meio do quarto, em ceroulas, livido:

—Oh Zé Fernandes, esta nossa industria!... Que impotencia, que impotencia! Pela segunda vez, este desastre! E agora, apparelhos perfeitos, um processo novo...

—E eu encharcado por esse processo novo! E sem outra casaca!

Em redor, as nobres sêdas bordadas, os brocateis Luiz XIII, cobertos de manchas negras, fumegavam. O meu Principe, enfiado, enchugava uma photographia de Madame d'Oriol, d'hombros decotados, que o jorro bruto maculára d'empolas. E eu, com rancor, pensava que na minha Guiães a agua aquecia em seguras panellas—e subia ao meu lavatorio, pela mão forte da Catharina, em seguras infusas! Não jantamos com o duque de Marizac, no Club. E, na Opera, nem saboreei Lohengrin e a sua branca alma e o seu branco cysne e as suas brancas armas—entallado, aperreado, cortado nos sovacos pela casaca que Jacintho me emprestára e que rescendia estonteadoramente a flores de Nessari.





No domingo, muito cedo, o Grillo, que na véspera escaldára as mãos e as trazia embrulhadas em sêda, penetrou no meu quarto, descerrou as cortinas, e á beira do leito, com o seu radiante sorriso de preto:

—Vem no Figaro!

Desdobrou triumphalmente o jornal. Eram, nos Echos, doze linhas, onde as nossas aguas rugiam e espadavam, com tanta magnificencia e tanta publicidade, que tambem sorrí, deleitado.

—E toda a manhã, o telephone, siô Fernandes! exclamava o Grillo, rebrilhando em ebano. A quererem saber, a quererem saber... «Está lá? Está escaldado?» Paris afflicto, siô Fernandes!

O telephone, com effeito, repicava, insaciavel. E quando desci para o almoço, a toalha desapparecia sob uma camada de telegrammas, que o meu Principe fendia com a faca, enrugado, rosnando contra a «massada». Só desannuviou, ao ler um d'esses papeis azues, que atirou para cima do meu prato, com o mesmo sorriso agradado com que de manhã sorriramos, o Grillo e eu:

—É do Gran-Duque Casimiro... Ratão amavel! Coitado!

Saboreei, através dos ovos, o telegramma de S. Alteza. «O que! o meu Jacintho inundado! Muito chic, nos Campos-Elyseos! Não volto ao 202 sem boia de salvação! Compassivo abraço! Casimiro...» Murmurei tambem com deferencia:—«Amavel! Coitado!» Depois, revolvendo lentamente o montão de telegrammas que se alastrava até ao meu copo:

—Oh Jacintho! Quem é esta Diana que incessantemente te escreve, te telephona, te telegrapha, te...?

—Diana?... Diana de Lorge. É uma cocotte. É uma grande cocotte!

—Tua?

—Minha, minha... Não! tenho um bocado.

E como eu lamentava que o meu Principe, senhor tão rico e de tão fino orgulho, por economia d'uma gamella propria chafurdasse com outros n'uma gamella publica—Jacintho levantou os hombros, com um camarão espetado no garfo:

—Tu vens das serras... Uma cidade como Paris, Zé Fernandes, precisa ter cortezãs de grande pompa e grande fausto. Ora para montar em Paris, n'esta tremenda carestia de Paris, uma cocotte com os seus vestidos, os seus diamantes, os seus cavallos, os seus lacaios, os seus camarotes, as suas festas, o seu palacete, a sua publicidade, a sua insolencia, é necessario que se aggremiem umas poucas de fortunas, se forme um syndicato! Somos uns sete, no Club. Eu pago um bocado... Mas meramente por Civismo, para dotar a cidade com uma cocotte monumental. De resto não chafurdo. Pobre Diana!... Dos hombros para baixo nem sei se tem a pelle côr de neve ou côr de limão.

Arregalei um olho divertido:

—Dos hombros para baixo?... E para cima?

—Oh para cima tem pó d'arroz!... Mas é uma sécca! Sempre bilhetes, sempre telephones, sempre telegrammas. E tres mil francos por mez, além das flores... Uma massada!

E as duas rugas do meu Principe, aos lados do seu afilado nariz, curvado sobre a salada, eram como dous valles muito tristes, ao entardecer.

Acabavamos o almoço, quando um escudeiro, muito discretamente, n'um murmurio, annunciou Madame d'Oriol. Jacintho pousou com tranquillidade o charuto; eu quasi me engasguei, n'um sorvo alvoroçado de café. Entre os reposteiros de damasco côr de morango ella appareceu, toda de negro, d'um negro liso e austero de Semana Santa, lançando com o regalo um lindo gesto para nos socegar. E immediatamente, n'uma volubilidade docemente chalrada:

—É um momento, nem se levantem! Passei, ia para a Magdalena, não me contive, quiz vêr os estragos... Uma inundação em Paris, nos Campos-Elyseos! Não ha senão este Jacintho. E vem no Figaro! O que eu estava assustada, quando telephonei! Imaginem! Agua a ferver, como no Vesuvio... Mas é d'uma novidade! E os estofos perdidos, naturalmente, os tapetes... Estou morrendo por admirar as ruinas!

Jacintho, que não me pareceu commovido, nem agradecido com aquelle interesse, retomára risonhamente o charuto:

—Está tudo secco, minha querida senhora, tudo secco! A belleza foi hontem, quando a agua fumegava e rugia! Ora que pena não ter ao menos cahido uma parede!

Mas ella insistia. Nem todos os dias se gozavam em Paris os destroços d'uma inundação. O Figaro contára... E era uma aventura deliciosa, uma casa escaldada nos Campos-Elyseos!

Toda a sua pessoa, desde as plumasinhas que frisavam no chapéo até á ponta reluzente das botinas de verniz, se agitava, vibrava, como um ramo tenro sob o boliço do passaro a chalrar. Só o sorriso, por traz do véo espesso, conservava um brilho immovel. E já no ar se espalhára um aroma, uma doçura, emanadas de toda a sua mobilidade e de toda a sua graça.

Jacintho no emtanto cedera, alegremente: e pelo corredor Madame d'Oriol ainda louvava o Figaro amavel, e confessava quanto tremera... Eu voltei ao meu café, felicitando mentalmente o Principe da Gran-Ventura por aquella perfeita flôr de Civilisação que lhe perfumava a vida. Pensei então na apurada harmonia em que se movia essa flôr. E corri vivamente á ante-camara, verificar diante do espelho o meu penteado e o nó da minha gravata. Depois recolhi á sala de jantar, e junto da janella, folheando languidamente a Revista do Seculo XIX, tomei uma attitude de elegancia e d'alta cultura. Quasi immediatamente elles reappareceram: e Madame d'Oriol, que, sempre sorrindo, se proclamava espoliada, nada encontrára que recordasse as agoas furiosas, roçou pela mesa, onde Jacintho procurava, para lhe offerecer, tangerinas de Malta, ou castanhas geladas, ou um biscouto molhado em vinho de Tokai.

Ella recusava com as mãos guardadas no regalo. Não era alta, nem forte—mas cada prega do vestido, ou curva da capa, cahia e ondulava harmoniosamente, como perfeições recobrindo perfeições. Sob o véo cerrado, apenas percebi a brancura da face empoada, e a escuridão dos olhos largos. E com aquellas sêdas e velludos negros, e um pouco do cabello louro, d'um louro quente, torcido fortemente sobre as pelles negras que lhe orlavam o pescoço, toda ella derramava uma sensação de macio e de fino. Eu teimosamente a considerava como uma flôr de Civilisação:—e pensava no secular trabalho e na cultura superior que necessitára o terreno onde ella tão delicadamente brotára, já desabrochada, em pleno perfume, mais graciosa por ser flôr d'esforço e d'estufa, e trazendo nas suas pétalas um não sei quê de desbotado e de ante-murcho.

No emtanto, com a sua volubilidade de passaro, chalrando para mim, chalrando para Jacintho, ella mostrava o seu lindo espanto por aquelle montão de telegrammas sobre a toalha.

—Tudo esta manhã, por causa da inundação?... Ah, Jacintho é hoje o homem, o unico homem de Paris! Muitas mulheres n'esses telegrammas?

Languidamente, com o charuto a fumegar, o meu Principe empurrou para a sua amiga o telegramma do Gran-duque. Então Madame d'Oriol teve um ah! muito grave e muito sentido. Releu profundamente o papel de S. A. que os seus dedos acariciavam com uma reverencia gulosa. E sempre grave, sempre séria:

—É brilhante!

Oh, certamente! n'aquelle desastre tudo se passára com muito brilho, n'um tom muito Parisiense. E a deliciosa creatura não se podia demorar, porque fizera marcar um logar na egreja da Magdalena para o sermão!

Jacintho exclamou com innocencia:

—Sermão?... É já a estação dos sermões?

Madame d'Oriol teve um movimento de carinhoso escandalo e dôr. O quê! pois nem na austera casa dos Trèves dera pela entrada da quaresma? De resto não se admirava—Jacintho era um turco! E, immediatamente celebrou o prégador, um frade dominicano, o Père Granon! Oh d'uma eloquencia! d'uma violencia! No derradeiro sermão prégara sobre o amor, a fragilidade dos amores mundanos! E tivera coisas d'uma inspiração, d'uma brutalidade! Depois que gesto, um gesto terrivel que esmagava, em que se lhe arregaçava toda a manga, mostrando o braço nú, um braço soberbo, muito branco, muito forte!

O seu sorriso permanecia claro sob o olhar que negrejára dentro do véo negro. E Jacintho, rindo:

—Um bom braço de director espiritual, hein? Para vergar, espancar almas...

Ella acudiu:

—Não! infelizmente o Père Granon não confessa!

E de repente reconsiderou—aceitava um biscouto, um cálice de Tokai. Era necessario um cordial para affrontar as emoções do Père Granon! Ambos nos precipitáramos, um arrebatando a garrafa, outro offerecendo o prato de bonbons. Franzio o véo para os olhos, chupou á pressa um bolo que ensopára no Tokai. E como Jacintho, reparando casualmente no chapéo que ella trazia, se curvára com curiosidade, impressionado, Madame d'Oriol apagou o sorriso, toda seria, ante uma cousa seria:

—Elegante, não é verdade?... É uma creação inteiramente nova de Madame Vial. Muito respeitoso, e muito suggestivo, agora na Quaresma.

O seu olhar, que me envolvera, tambem me convidava a admirar. Approximei o meu focinho de homem das serras para contemplar essa creação suprema do luxo de Quaresma. E era maravilhoso! Sobre o velludo, na sombra das plumas frizadas, aninhada entre rendas, fixada por um prégo, pousava delicadamente, feita de azeviche, uma Corôa de Espinhos!

Ambos nos extasiamos. E Madame d'Oriol, n'um movimento e n'um sorriso que derramou mais aroma e mais claridade, abalou para a Magdalena.

O meu Principe arrastou pelo tapete alguns passos pensativos e molles. E bruscamente, levantando os hombros com uma determinação immensa, como se deslocasse um mundo:

—Oh Zé Fernandes, vamos passar este Domingo n'alguma cousa simples e natural...

—Em quê?

Jacintho circumgirou os olhares muito abertos, como se, atravez da Vida Universal, procurasse anciosamente uma cousa natural e simples. Depois, descançando sobre mim os mesmos largos olhos que voltavam de muito longe, cançados e com pouca esperança:

—Vamos ao Jardim das Plantas, vêr a girafa!



IV



N'essa fecunda semana, uma noite, recolhiamos ambos da Opera, quando Jacintho, bocejando, me annunciou uma festa no 202.

—Uma festa?...

—Por causa do Gran-Duque, coitado, que me vai mandar um peixe delicioso e muito raro que se pesca na Dalmacia. Eu queria um almoço curto. O Gran-Duque reclamou uma ceia. É um barbaro, besuntado com litteratura do seculo XVIII, que ainda acredita em ceias, em Paris! Reuno no domingo tres ou quatro mulheres, e uns dez homens bem typicos, para o divertir. Tambem aproveitas. Folheias Paris n'um resumo... Mas é uma massada amarga!

Sem interesse pela sua festa, Jacintho não se affadigou em a compôr com relevo ou brilho. Encommendou apenas uma orchestra de Tziganes (os Tziganes, as suas jalecas escarlates, a melancolia aspera das Czardas ainda n'esses tempos remotos emocionavam Paris): e mandou, na Bibliotheca, ligar o Theatrophone com a Opera, com a Comedia-Franceza, com o Alcazar e com os Buffos, prevendo todos os gostos desde o tragico até ao picaro. Depois no domingo, ao entardecer, ambos visitamos a mesa da ceia, que resplandecia com as velhas baixellas de D. Galião. E a faustosa profusão de orchideas, em longas sylvas por sobre a toalha bordada a sêda, enroladas aos fructeiros de Saxe, trasbordando de crystaes lavrados e filagranados d'ouro, espalhava uma tão fina sensação de luxo e gosto, que eu murmurei:—«Caramba, bemdito, seja o dinheiro!» Pela primeira vez, tambem, admirei a copa e a sua installação abundante e minuciosa—sobretudo os dois ascensores que rolavam das profundidades da cozinha, um para os peixes e carnes aquecido por tubos d'agua fervente, o outro para as saladas e gelados revestido de placas frigorificas. Oh, este 202!

Ás nove horas, porém, descendo eu ao gabinete de Jacintho para escrever a minha boa tia Vicencia, em quanto elle ficára no toucador com o manícuro que lhe polia as unhas, passamos n'esse delicioso palacio, florido e em gala, por bem corriqueiro susto! Todos os lumes electricos, subitamente, em todo o 202, se apagaram! Na minha immensa desconfiança d'aquellas forças universaes, pulei logo para a porta, tropeçando nas trevas, ganindo um Aqui d'Elrei! que tresandava a Guiães. Jacintho em cima berrava, com o manícuro agarrado ás pyjamas. E de novo, como serva ralassa que recolhe arrastando as chinellas, a luz resurgiu com lentidão. Mas o meu Principe, que descera, enfiado, mandou buscar um engenheiro á Companhia Central da Electricidade Domestica. Por precaução outro creado correu á mercearia comprar pacotes de velas. E o Grillo desenterrava já dos armarios os candelabros abandonados, os pesados castiçaes archaicos dos tempos inscientificos de D. Galião: era uma reserva de veteranos fortes, para o caso pavoroso em que mais tarde, á ceia, falhassem perfidamente as forças bisonhas da Civilisação. O Electricista, que acudira esbaforido, afiançou porém que a Electricidade se conservaria fiel, sem outro amuo. Eu, cautelosamente, soneguei na algibeira dous côtos de estearina.

A Electricidade permaneceu fiel, sem amuos. E quando desci do meu quarto, tarde (porque perdera o collete de baile e só depois d'uma busca furiosa e praguejada o encontrei cahido por traz da cama!), todo o 202 refulgia, e os Tziganes, na antecamara, sacudindo as guedelhas, atiravam as arcadas d'uma valsa tão arrastadora que, pelas paredes, os immensos Personagens das tapeçarias, Priamo, Nestor, o engenhoso Ulysses, arfavam, boliam com os pés venerandos!

Timidamente, sem rumor, puxando os punhos, penetrei no gabinete de Jacintho. E fui logo acolhido pelo sorriso da condessa de Treves, que, acompanhada pelo illustre historiador Danjon (da Academia Franceza), percorria maravilhada os Apparelhos, os Instrumentos, toda a sumptuosa Mechanica do meu super-civilisado Principe. Nunca ella me parecera mais magestosa do que n'aquellas sêdas côr de açafrão, com rendas cruzadas no peito á Maria-Antonietta, o cabello crespo e ruivo levantado em rolo sobre a testa dominadora, e o curvo nariz patricio, abrigando o sorriso sempre luzidio, sempre corrente, como um arco abriga o correr e o luzir d'um regato. Direita como n'um solio, a longa luneta de tartaruga acercada dos olhos miudos e turvamente azulados, ella escutava deante do Graphophono, depois deante do Microphono, como melodias superiores, os commentarios que o meu Jacintho ia atabalhoando com uma amabilidade penosa. E ante cada roda, cada mola, eram pasmos, louvores finamente torneados, em que attribuia a Jacintho, com astuta candura, todas aquellas invenções do Saber! Os utensilios misteriosos que atulhavam a mesa d'ebano foram para ella uma iniciação que a enlevou. Oh, o «numerador de paginas»! oh, o «collador d'estampilhas»! A caricia demorada dos seus dedos seccos aquecia os metaes. E supplicava os endereços dos fabricantes para se prover de todas aquellas utilidades adoraveis! Como a vida, assim apetrechada, se tornava escorregadia e facil! Mas era necessario o talento, o gosto de Jacintho, para escolher, para «crear!» E não só ao meu amigo (que o recebia com resignação) ella offertava o fino mel. Affagando com o cabo da luneta o Telegrapho, achou a possibilidade de recordar a eloquencia do Historiador. Mesmo para mim (de quem ignorava o nome) arranjou junto do Phonographo, e ácerca de «vozes d'amigos que é doce colleccionar», uma lisonjasinha redondinha e lustrosa, que eu chupei como um rebuçado celeste. Boa casaleira que vae atirando o grão aos frangos famintos, a cada passo, maternalmente, ella nutria uma vaidade. Sofrego d'outro rebuçado, acompanhei a sua cauda sussurrante e côr d'açafrão. Ella parára deante da Machina-de-contar, de que Jacintho já lhe fornecera pacientemente uma explicação sapiente. E de novo roçou os buracos d'onde espreitam os numeros negros, e com o seu enlevado sorriso murmurou:—«Prodigiosa, esta prensa electrica!...»

Jacintho accudiu:

—Não! Não! Esta é...

Mas ella sorria, seguia... Madame de Treves não comprehendera nenhum apparelho do meu Principe! Madame de Treves não attendera a nenhuma dissertação do meu Principe! N'aquelle gabinete de sumptuosa Mechanica ella sómente se occupára em exercer, com proveito e com perfeição, a Arte de Agradar. Toda ella era uma sublime falsidade. Não escondi a Danjon a admiração que me penetrava.

O facundo Academico revirou os olhos bogalhudos:

—Oh! e um gôsto, uma intelligencia, uma seducção!... E depois como se janta bem em casa d'ella! Que café!... Mulher superior, meu caro senhor, verdadeiramente superior!

Deslisei para a bibliotheca. Logo á entrada da erudita nave, junto da estante dos Padres da Egreja onde alguns cavalheiros conversavam, parei a saudar o director do Boulevard e o Psychologo-feminista, o auctor do Coração Triple, com quem na véspera me familiarisára ao almoço, no 202. O seu acolhimento foi paternal: e, como se necessitasse a minha presença, reteve na sua mão illustre, rutilante de anneis, com força e com gula, a minha grossa palma serrana. Todos aquelles senhores, com effeito, celebravam o seu Romance, a Couraça, lançado n'essa semana entre gritinhos de gôzo e um quente rumor de saias alvoroçadas. Um sobretudo, com uma vasta cabeça arranjada á Van Dick e que parecia postiça, proclamava, alçado na ponta das botas, que nunca penetrára tão fundamente, na velha alma humana, a ponta da Psychologia Experimental! Todos concordavam, se apertavam contra o Psychologo, o tratavam por «mestre». Eu mesmo, que nem sequer entrevira a capa amarella da Couraça, mas para quem elle voltava os olhos pedinchões e famintos de mais mel, murmurei com um leve assobio:—«uma delicia!»

E o Psychologo, reluzindo, com o labio humido, entalado n'um alto collarinho onde se enroscava uma gravata á 1830, confessava modestamente que dissecára todas aquellas almas da Couraça com «algum cuidado», sobre documentos, sobre pedaços de vida ainda quentes, ainda a sangrar... E foi então que Marizac, o duque de Marizac, notou, com um sorriso mais afiado que um lampejo de navalha, e sem tirar as mãos dos bolsos:

—No emtanto, meu caro, n'esse livro tão profundamente estudado ha um erro bem estranho, bem curioso!...

O Psychologo, vivamente, atirára a cabeça para traz:

—Um erro?

Oh, sim, um erro! E bem inesperado n'um mestre tão experiente!... Era attribuir á esplendida amorosa da Couraça, uma duqueza, e do gosto mais puro,—um collete de setim preto! Esse collete, assim preto, de setim, apparecia na bella pagina de analyse e paixão em que ella se despia no quarto de Ruy d'Alize. E Marizac, sempre com as mãos nos bolsos, mais grave, appellava para aquelles senhores. Pois era verosimil, n'uma mulher como a duqueza, esthetica, pre-raphaelitica, que se vestia no Doucet, no Paquin, nos costureiros intellectuaes, um collete de setim preto?

O Psychologo emmudecera, colhido, trespassado! Marizac era uma tão suprema auctoridade sobre a roupa intima das duquezas, que á tarde, em quartos de rapazes, por impulsos idealistas e anceios d'alma dolorida—se põem em collete e saia branca!... De resto o director do Boulevard condemnára logo sem piedade, com uma experiencia firme, aquelle collete, só possivel n'alguma mercieira atrazada que ainda procurasse effeitos de carne nedia sobre setim negro. E eu, para que me não julgassem alheio ás coisas dos adulterios ducaes e do luxo, acudi, mettendo os dedos pelo cabello:

—Realmente, preto, só se estivesse de lucto pesado, pelo pae!

O pobre mestre da Couraça succumbira. Era a sua gloria de Doutor em Elegancias-Femininas desmantelada—e Paris suppondo que elle nunca vira uma duqueza desatacar o collete na sua alcova de Psychologo! Então, passando o lenço sobre os labios que a angustia ressequira, confessou o erro, e contrictamente o attribuiu a uma improvisação tumultuosa:

—Foi um tom falso, um tom perfeitamente falso que me escapou!... Com effeito! é absurdo, um collete preto!... Mesmo por harmonia com o estado da alma da duqueza devia ser lilaz, talvez côr de reseda muito desmaiada, com um frouxo de rendas antigas de Malines... É prodigioso como me escapou! Pois tenho o meu caderno de entrevistas bem annotadas, bem documentadas!...

Na sua amargura, terminou por supplicar a Marizac que espalhasse por toda a parte, no Club, nas salas, a sua confissão. Fôra um engano de artista, que trabalha na febre, vasculhando as almas, perdido nas profundidades negras das almas! Não reparára no collete, confundira os tons... E gritou, com os braços estendidos para o director do Boulevard:

—Estou prompto a fazer uma rectificação, n'uma interview, meu caro mestre! Mande um dos seus redactores... Ámanhã, ás dez horas! Fazemos uma interview, fixamos a côr. Evidentemente é lilaz... Mande um dos seus homens, meu caro mestre! É tambem uma occasião para eu confessar, bem alto, os serviços que o Boulevard tem feito ás sciencias psychologicas e feministas!

Assim elle supplicava, encostado á estante, ás lombadas dos Santos Padres. E eu abalei, vendo ao fundo da Bibliotheca Jacintho que se debatia e se recusava entre dous homens.

Eram os dois homens de Madame de Treves—o marido, conde de Treves, descendente dos reis de Candia, e o amante, o terrivel banqueiro judeu, David Ephraim. E tão enfronhadamente assaltavam o meu Principe que nem me reconheceram, ambos n'um aperto de mão molle e vago me trataram por «caro conde»! N'um relance, rebuscando charutos sobre a mesa de limoeiro, comprehendi que se tramava a Companhia das Esmeraldas da Birmania, medonha empreza em que scintillavam milhões, e para que os dous confederados de bolsa e d'alcôva, desde o começo do anno, pediam o nome, a influencia, o dinheiro de Jacintho. Elle resistira, n'um enfado dos negocios, desconfiado d'aquellas esmeraldas soterradas n'um valle da Asia. E agora o conde de Treves, um homem esgrouviado, de face rechupada, erriçada de barba rala, sob uma fronte rotunda e amarella como um melão, assegurava ao meu pobre Principe que no Prospecto já preparado, demonstrando a grandeza do negocio, perpassava um fulgôr das Mil e Uma noites. Mas sobretudo aquella excavação de esmeraldas convidava todo o espirito culto pela sua acção civilisadora. Era uma corrente de idéas occidentaes, invadindo, educando a Birmania. Elle acceitára a direcção por patriotismo...

—De resto é um negocio de joias, de arte, de progresso, que deve ser feito, n'um mundo superior, entre amigos...

E do outro lado o terrivel Ephraim, passando a mão curta e gorda sobre a sua bella barba, mais frisada e negra que a d'um Rei Assyrio, affiançava o triumpho da empreza pelas grossas forças que n'ella entravam, os Nagayers, os Bolsans, os Saccart...

Jacintho franzia o nariz, enervado:

—Mas, ao menos, estão feitos os estudos? Já se provou que ha esmeraldas?

Tanta ingenuidade exasperou Ephraim:

—Esmeraldas! Está claro que ha esmeraldas!... Ha sempre esmeraldas desde que haja accionistas!

E eu admirava a grandeza d'aquella maxima—quando appareceu, esbaforido, desdobrando o lenço muito perfumado, um dos familiares do 202, Todelle (Antonio de Todelle), moço já calvo, d'infinitas prendas, que conduzia Cotillons, imitava cantores de Café Concerto, temperava saladas raras, conhecia todos os enredos de Paris.

—Já veio?... Já cá está o Gran-Duque?

Não, S. Alteza ainda não chegára. E Madame de Todelle?

—Não poude... No sophá... Esfolou uma perna.

—Oh!

—Quasi nada... Cahiu do velocipede!

Jacintho, logo interessado:

—Ah! Madame de Todelle anda já de velocipede?

—Aprende. Nem tem velocipede!... Agora, na quaresma, é que se applicou mais, no velocipede do padre Ernesto, do cura de S. José! Mas hontem, no Bosque, zás, terra!... Perna esfolada. Aqui.

E na sua propria côxa, com a unha, vivamente, desenhou o esfolão. Ephraim, brutal e serio, murmurou:—«Diabo! é no melhor sitio!» Mas Todelle nem o escutára, correndo para o director do Boulevard, que se avançava, lento e barrigudo, com o seu monoculo negro semelhante a um pacho. Ambos se collaram contra uma estante, n'um cochichar profundo.

Jacintho e eu entramos então no bilhar, forrado de velhos couros de Cordova, onde se fumava. Ao canto d'um divan, o grande Dornan, o poeta neo-platonico e mystico, o Mestre subtil de todos os rithmos, espapado nas almofadas, com um dos pés sob a côxa gorda, como um Deus indio, dois botões do collete desabotoados, a papeira cahida sobre o largo decote do collarinho, mamava magestosamente um immenso charuto. Ao pé d'elle, também sentado, um velho que eu nunca encontrára no 202, esbelto, de cabellos brancos em anneis passados por traz das orelhas, a face coberta de pó de arroz, um bigodinho muito negro e arrebitado, findára certamente alguma historia de bom e grosso sal—porque deante do divan, de pé, Joban, o suprèmo Critico de Theatro, ria com a calva escarlate de gôso, e um moço muito ruivo (descendente de Colygny), de perfil de periquito, sacudia os braços curtos como azas, e gania: «delicioso! divino!» Só o poeta idealista permanecera impassivel, na sua magestade obesa. Mas, quando nos acercamos, esse Mestre do rythmo perfeito, depois de soprar uma farta fumarada e me saudar com um pesado mover das palpebras, começou n'uma voz de rico e sonoro metal:

—Ha melhor, ha infinitamente melhor... Todos aqui conhecem Madame Noredal. Madame Noredal tem umas immensas nadegas...

Desgraçadamente para o meu regalo Todelle invadiu o bilhar, reclamando Jacintho com alarido. Eram as senhoras que desejavam ouvir no Phonographo uma aria da Patti! O meu amigo sacudiu logo os hombros, n'uma surda irritação:

—Aria da Patti... Eu sei lá! Todos esses rolos estão em confusão. Além d'isso o Phonographo trabalha mal. Nem trabalha! Tenho tres. Nenhum trabalha!

—Bem! exclamou alegremente Todelle. Canto eu a Pauvre fille... É mais de ceia! Oh, la pauv', pauv', pauv'...

Travou do meu braço, e arrastou a minha timidez serrana para o salão côr de rosa murcha, onde, como Deusas n'um circulo escolhido do Olympo, resplandeciam Madame d'Oriol, Madame Verghane, a princeza de Carman, o uma outra loura, com grandes brilhantes nas grandes farripas, e d'hombros tão nús, e braços tão nús, e peitos tão nús, que o seu vestido branco com bordados d'ouro pallido parecia uma camisa, a escorregar. Impressionado, ainda retive Todelle, rugi baixinho:—«Quem é?» Mas já o festivo homem correra para Madame d'Oriol, com quem riam, n'uma familiaridade superior e facil, Marizac (o duque de Marizac) e um moço de barba côr de milho e mais leve que uma penugem, que se balouçava gracilmente sobre os pés, como uma espiga ao vento. E eu, encalhado contra o piano, esfregava lentamente as mãos, amassando o meu embaraço, quando Madame Verghane se ergueu do sophá onde conversava com um velho (que tinha a Gran-Cruz de Santo André), e avançou, deslizou no tapete, pequena e nedia, na sua copiosa cauda de velludo verde-negro. Tão fina era a cinta, entre os encontros fecundos e a vastidão do peito, todo nú e côr de nacar, que eu receava que ella partisse pelo meio, no seu lento ondular. Os seus famosos bandós negros, d'um negro furioso, inteiramente lhe tapavam as orelhas; e, no grande aro d'ouro que os circumdava, reluzia uma estrella de brilhantes, como na fronte dos anjos de Boticelli. Conhecendo sem dúvida a minha auctoridade no 202, ella despediu sobre mim ao passar, como raio benefico, um sorriso que lhe liquescia mais os olhos liquidos, e murmurou:

—O Gran-Duque vem, com certeza?

—Oh com certeza, minha senhora, para o peixe!

—P'ra o peixe?...

Mas justamente, na antecamara, rompeu, em rufos e arcadas triumphaes, a marcha de Rakoczy. Era elle! Na Bibliotheca, o nosso retumbante mordomo annunciava:

—S. Alteza o Gran-Duque Casimiro!

Madame de Verghane, com um curto suspiro d'emoção, alteou o peito, como para lhe expôr melhor a magnificencia eburnea. E o homem do Boulevard, o velho da Gran-Cruz, Ephraim, quasi me empurraram, investindo para a porta, na immensa sofreguidão de Pessoa Real.

Precedido por Jacintho, o Gran-Duque surgiu. Era um possante homem, de barba em bico, já grisalha, um pouco calvo. Durante um momento hesitou, com um balanço lento sobre os pés pequeninos, calçados de sapatos rasos, quasi sumidos sob as pantalonas muito largas. Depois, pesado e risonho, veio apertar a mão ás senhoras que mergulhavam nos velludos e sêdas, em mesuras de Côrte. E immediatamente, batendo com carinhosa jovialidade no hombro de Jacintho:

—E o peixe?... Preparado pela receita que mandei, hein?

Um murmurio de Jacintho tranquillisou S. Alteza.

—Ainda bem, ainda bem! exclamou elle, no seu vozeirão de commando. Que eu não jantei, absolutamente não jantei! É que se está jantando deploravelmente em casa do Joseph. Mas porque se vai jantar ainda ao Joseph? Sempre que chego a Paris, pergunto: «Onde é que se janta agora?» Em casa do Joseph!... Qual! não se janta! Hoje, por exemplo, gallinholas... Uma peste! Não tem, não tem a noção da gallinhola!

Os seus olhos azulados, d'um azul sujo, rebrilhavam, alargados pela indignação:

—Paris está perdendo todas as suas superioridades. Já se não janta, em Paris!

Então, em redor, aquelles senhores concordaram, desolados. O conde de Treves defendeu o Bignon, onde se conservavam nobres tradições. E o director do Boulevard, que se empurrava todo para S. Alteza, attribuia a decadencia da cozinha, em França, á Republica, ao gosto democratico e torpe pelo barato.

—No Paillard, todavia...—começou o Ephraim.

—No Paillard! gritou logo o Gran-Duque. Mas os Borgonhas são tão maus! os Borgonhas são tão maus!...

Deixára pender os braços, os hombros, descorçoado. Depois, com o seu lento andar balançado como o d'um velho piloto, atirando um pouco para traz as lapellas da casaca, foi saudar Madame d'Oriol, que toda ella faiscou, no sorriso, nos olhos, nas joias, em cada préga das suas sêdas côr de salmão. Mas apenas a clara e macia creatura, batendo o leque como uma aza alegre, começára a chalrar, S. Alteza reparou no apparelho do Theatrophone, pousado sobre uma mesa entre flôres, e chamou Jacintho:

—Em communicação com o Alcazar?... O Theatrophone?

—Certamente, meu senhor.

Excellente! Muito chic! Elle ficára com pena de não ouvir a Gilberte n'uma cançoneta nova, as Casquettes. Onze e meia! Era justamente a essa hora que ella cantava, no ultimo acto da Revista Electrica...—Collou ás orelhas os dous «receptores» do Theatrophone, e quedou embebido, com uma ruga séria na testa dura. De repente, n'um commando forte:

—É ella! Chut! Venham ouvir!... É ella! Venham todos! Princeza de Carman, para aqui! Todos! É ella! Chut...

Então, como Jacintho installára prodigamente dois Theatrophones, cada um provido de doze fios, as senhoras, todos aquelles cavalheiros, se apressaram a acercar submissamente um receptor do ouvido, e a permanecer immoveis para saborear Les Casquettes. E no salão côr de rosa murcha, na nave da Bibliotheca, onde se espalhára um silencio augusto, só eu fiquei desligado do Theatrophone, com as mãos nas algibeiras e ocioso.

No relogio monumental, que marcava a hora de todas as Capitaes e o movimento de todos os Planetas, o ponteiro rendilhado adormeceu. Sobre a mudez e a immobilidade pensativa d'aquelles dorsos, d'aquelles decotes, a Electricidade refulgia com uma tristeza de sol regelado. E de cada orelha attenta, que a mão tapava, pendia um fio negro, como uma tripa. Dornan, esbroado sobre a mesa, cerrára as palpebras, n'uma meditação de monge obeso. O historiador dos Duques d'Anjou, com o «receptor» na ponta delicada dos dedos, erguendo o nariz agudo e triste, gravemente cumpria um dever palaciano. Madame d'Oriol sorria, toda languida, como se o fio lhe murmurasse doçuras. Para desentorpecer arrisquei um passo timido. Mas cahiu logo sobre mim um chut severo do Gran-Duque! Recuei para entre as cortinas da janella, a abrigar a minha ociosidade. O Philologo da Couraça, distante da mesa, com o seu comprido fio esticado, mordia o beiço, n'um esforço de penetração. A beatitude de S. Alteza, enterrado n'uma vasta poltrona, era perfeita. Ao lado o collo de Madame Verghane arfava como uma onda de leite. E o meu pobre Jacintho, n'uma applicação conscienciosa, pendia sobre o Theatrophone tão tristemente como sobre uma sepultura.

Então, ante aquelles seres de superior civilisação, sorvendo n'um silencio devoto as obscenidades que a Gilberte lhes gania, por debaixo do solo de Paris, atravez de fios mergulhados nos esgotos, cingidos aos canos das fezes,—pensei na minha aldeia adormecida. O crescente de lua, que, seguido d'uma estrellinha, corria entre nuvens sobre os telhados e as chaminés negras dos Campos-Elyseos, tambem andava lá fugindo, mais lustrosa e mais dôce, por cima dos pinheiraes. As rãs coaxavam ao longe no Pego da Dona. A ermidinha de S. Joaquim branquejava no cabeço, nuasinha e candida...

Uma das senhoras murmurou:

—Mas, não é a Gilberte!...

E um dos homens:

—Parece um cornetim...

—Agora são palmas...

—Não, é o Paulin!

O Gran-Duque lançou um chut feroz... No pateo da nossa casa ladravam os cães. D'além do ribeiro respondiam os cães do João Saranda. Como me encontrei descendo por uma quelha, sob as ramadas, com o meu varapau ao hombro? E sentia, entre a sêda das cortinas, n'um fino ar macio, o cheiro das pinhas estalando nas lareiras, o calor dos curraes atravez das sebes altas, e o susurro dormente das levadas...

Despertei a um brado que não sahia nem dos eidos, nem das sombras. Era o Gran-Duque que se erguera, encolhia furiosamente os hombros:

—Não se ouve nada!... Só guinchos! E um zumbido! Que massada!... Pois é uma belleza, a cançoneta: