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A correspondência de Fradique Mendes / memórias e notas cover

A correspondência de Fradique Mendes / memórias e notas

Chapter 26: IX
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About This Book

A collection of fictional letters, memoir fragments and critical notes by an urbane, erudite correspondent who mixes literary criticism, reminiscence and travel anecdote. The pieces alternate affectionate satire and cultured reflection on poetic taste, modernity and artistic form, often invoking French influences while sketching urban scenes and journeys. Tone shifts between nostalgic reverie and witty commentary, offering concise portraits, stylistic pastiches and learned asides that probe how form, memory and cultural change shape literary sensibility.

ao snr. e. mollinet
Director da Revista de Biographia e de Historia


Paris, setembro.


Meu caro snr. Mollinet.—Encontrei hontem á noite, ao voltar de Fontainebleau, a carta em que o meu douto amigo, em nome e no interesse da Revista de Biographia e de Historia, me pergunta quem é este meu compatriota Pacheco (José Joaquim Alves Pacheco), cuja morte está sendo tão vasta e amargamente carpida nos jornaes de Portugal. E deseja ainda o meu amigo saber que obras, ou que fundações, ou que livros, ou que idéas, ou que accrescimo na civilisacão portugueza deixou esse Pacheco, seguido ao tumulo por tão sonoras, reverentes lagrimas.

Eu casualmente conheci Pacheco. Tenho presente, como n'um resumo, a sua figura e a sua vida. Pacheco não deu ao seu paiz nem uma obra, nem uma fundação, nem um livro, nem uma idéa. Pacheco era entre nós superior e illustre unicamente porque tinha um immenso talento. Todavia, meu caro snr. Mollinet, este talento, que duas gerações tão soberbamente acclamaram, nunca deu, da sua força, uma manifestação positiva, expressa, visivel! O talento immenso de Pacheco ficou sempre calado, recolhido, nas profundidades de Pacheco! Constantemente elle atravessou a vida por sobre eminencias sociaes: Deputado, Director geral, Ministro, Governador de bancos, Conselheiro d'Estado, Par, Presidente do conselho—Pacheco tudo foi, tudo teve, n'este paiz que, de longe e a seus pés, o contemplava, assombrado do seu immenso talento. Mas nunca, n'estas situações, por proveito seu ou urgencia do Estado, Pacheco teve necessidade de deixar sahir, para se affirmar e operar fóra, aquelle immenso talento que lá dentro o suffocava. Quando os amigos, os partidos, os jornaes, as repartições, os corpos collectivos, a massa compacta da nação, murmurando em redor de Pacheco «que immenso talento!» o convidavam a alargar o seu dominio e a sua fortuna—Pacheco sorria, baixando os olhos serios por traz dos oculos dourados, e seguia, sempre para cima, sempre para mais alto, através das instituições, com o seu immenso talento aferrolhado dentro do craneo como no cofre d'um avaro. E esta reserva, este sorrir, este lampejar dos oculos, bastavam ao paiz que n'elles sentia e saboreava a resplandecente evidencia do talento de Pacheco.

Este talento nasceu em Coimbra, na aula de direito natural, na manhã em que Pacheco, desdenhando a Sebenta, assegurou «que o seculo XIX era um seculo de progresso e de luz». O curso começou logo a presentir e a affirmar, nos cafés da Feira, que havia muito talento em Pacheco: e esta admiração cada dia crescente do curso, communicando-se, como todos os movimentos religiosos, das multidões impressionaveis ás classes raciocinadoras, dos rapazes aos lentes, levou facilmente Pacheco a um premio no fim do anno. A fama d'esse talento alastrou então por toda a academia—que, vendo Pacheco sempre pensabundo, já d'oculos, austero nos seus passos, com praxistas gordos debaixo do braço, percebia alli um grande espirito que se concentra e se retesa todo em força intima. Esta geração academica, ao dispersar, levou pelo paiz, até os mais sertanejos burgos, a noticia do immenso talento de Pacheco. E já em escuras boticas de Traz-os-Montes, em lojas palreiras de barbeiros do Algarve, se dizia, com respeito, com esperança:—«Parece que ha agora ahi um rapaz de immenso talento que se formou, o Pacheco!»

Pacheco estava maduro para a representação nacional. Veio ao seu seio—trazido por um governo (não recordo qual) que conseguira, com dispendios e manhas, apoderar-se do precioso talento de Pacheco. Logo na estrellada noite de dezembro em que elle, em Lisboa, foi ao Martinho tomar chá e torradas, se susurrou pelas mesas, com curiosidade:—«É o Pacheco, rapaz de immenso talento!» E desde que as Camaras se constituiram, todos os olhares, os do governo e os da opposição, se começaram a voltar com insistencia, quasi com anciedade, para Pacheco, que, na ponta d'uma bancada, conservava a sua attitude de pensador recluso, os braços cruzados sobre o collete de velludo, a fronte vergada para o lado como sob o peso das riquezas interiores, e os oculos a faiscar... Finalmente uma tarde, na discussão da resposta ao discurso da Corôa, Pacheco teve um movimento como para atalhar um padre zarolho que arengava sobre a «liberdade». O sacerdote immediatamente estacou com deferencia; os tachygraphos apuraram vorazmente a orelha: e toda a camara cessou o seu desafogado susurro, para que, n'um silencio condignamente magestoso, se podesse pela vez primeira produzir o immenso talento de Pacheco. No emtanto Pacheco não prodigalisou desde logo os seus thesouros. De pé, com o dedo espetado (geito que foi sempre muito seu), Pacheco affirmou n'um tom que trahia a segurança do pensar e do saber intimo:—«que ao lado da liberdade devia sempre coexistir a autoridade!» Era pouco, decerto:—mas a camara comprehendeu bem que, sob aquelle curto resumo, havia um mundo, todo um formidavel mundo, de idéas solidas. Não volveu a fallar durante mezes—mas o seu talento inspirava tanto mais respeito quanto mais invisivel e inaccessivel se conservava lá dentro, no fundo, no rico e povoado fundo do seu sêr. O unico recurso que restou então aos devotos d'esse immenso talento (que já os tinha, incontaveis) foi contemplar a testa de Pacheco—como se olha para o céo pela certeza que Deus está por traz, dispondo. A testa de Pacheco offerecia uma superficie escanteada, larga e lustrosa. E muitas vezes, junto d'elle, Conselheiros, e Directores geraes balbuciavam maravilhados:—«Nem é necessário mais! Basta vêr aquella testa!»

Pacheco pertenceu logo ás principaes commissões parlamentares. Nunca porém accedeu a relatar um projecto, desdenhoso das especialidades. Apenas ás vezes, em silencio, tomava uma nota lenta. E quando emergia da sua concentração, espetando o dedo, era para lançar alguma idéa geral sobre a Ordem, o Progresso, o Fomento, a Economia. Havia aqui a evidente attitude d'um immenso talento que (como segredavam os seus amigos, piscando o olho com finura) «está á espera, lá em cima, a pairar». Pacheco mesmo, de resto, ensinava (esboçando, com a mão gorda, o voar superior d'uma aza por sobre arvoredo copado) que o «talento verdadeiro só devia conhecer as coisas pela rama».

Este immenso talento não podia deixar de soccorrer os conselhos da Corôa. Pacheco, n'uma recomposição ministerial (provocada por uma roubalheira) foi Ministro:—e immediatamente se percebeu que massiça consolidação viera dar ao Poder o immenso talento de Pacheco. Na sua pasta (que era a da Marinha) Pacheco não fez durante os longos mezes de gerencia «absolutamente nada», como insinuaram tres ou quatro espiritos amargos e estreitamente positivos. Mas pela primeira vez, dentro d'este regimen, a nação deixou de curtir inquietações e duvidas sobre o nosso Imperio Colonial. Porquê? Porque sentia que finalmente os interesses supremos d'esse Imperio estavam confiados a um immeaso talento, ao talento immenso de Pacheco.

Nas cadeiras do governo, Pacheco rarissimamente surdia do seu silencio repleto e fecundo. Ás vezes porém, quando a opposição se tornava clamorosa, Pacheco descerrava o braço, tomava com lentidão uma nota a lapis:—e esta nota, traçada com saber e madurissimo pensar, bastava para perturbar, acuar a opposição. É que o immenso talento de Pacheco terminára por inspirar, nas camaras, nas commissões, nos centros, um terror disciplinar! Ai d'esse sobre quem viesse a desabar com colera aquelle talento immenso! Certa lhe seria a humilhação irresgatavel! Assim dolorosissimamente o experimentou o pedagogista, que um dia se arrojou a accusar o snr. Ministro do Reino (Pacheco dirigia então o Reino) de descurar a Instrucção do paiz! Nenhuma incriminação podia ser mais sensivel áquelle immenso espirito que, na sua phrase lapidaria e succulenta, ensinára que «um povo sem o curso dos lyceus é um povo incompleto». Espetando o dedo (geito sempre tão seu) Pacheco esborrachou o homem temerario com esta coisa tremenda:—«Ao illustre deputado que me censura só tenho a dizer que emquanto, sobre questões d'Instrucção Publica, s. exc.a, ahi n'essas bancadas, faz berreiro, eu, aqui n'esta cadeira, faço luz!»—Eu estava lá, n'esse esplendido momento, na galeria. E não me recordo de ter jámais ouvido, n'uma assembléa humana, uma tão apaixonada e fervente rajada de acclamações! Creio que foi d'ahi a dias que Pacheco recebeu a grã-cruz da Ordem de S. Thiago.

O immenso talento de Pacheco pouco a pouco se tornava um credo nacional. Vendo que inabalavel apoio esse immenso talento dava ás instituições que servia, todas o appeteceram. Pacheco começou a ser um Director universal de Companhias e de Bancos. Cubiçado pela Corôa, penetrou no Conselho de Estado. O seu partido reclamou avidamente que Pacheco fosse seu Chefe. Mas os outros partidos cada dia se soccorriam com submissa reverencia do seu immenso talento. Em Pacheco pouco a pouco se concentrava a nação.

Á maneira que elle assim envelhecia, e crescia em influencia e dignidades, a admiração pelo seu immenso talento chegou a tomar no paiz certas fórmas d'expressão só proprias da religião e do amor. Quando elle foi Presidente do Conselho, havia devotos que espalmavam a mão no peito com uncção, reviravam o branco do olho ao céo, para murmurar piamente:—«Que talento!» E havia amorosos que, cerrando os olhos e repenicando um beijo nas pontas apinhadas dos dedos, balbuciavam com langor:—«Ai! que talento!» E, para que o esconder? Outros havia, a quem aquelle immenso talento amargamente irritava, como um excessivo e desproporcional privilegio. A esses ouvi eu bradar com furor, atirando patadas ao chão:—«Irra, que é ter talento de mais!» Pacheco no emtanto já não fallava. Sorria apenas. A testa cada vez se lhe tornava mais vasta.

Não relembrarei a sua incomparavel carreira. Basta que o meu caro snr. Mollinet percorra os nossos annaes. Em todas as instituições, reformas, fundações, obras, encontrará o cunho de Pacheco. Portugal todo, moral e socialmente, está repleto de Pacheco. Foi tudo, teve tudo. Decerto, o seu talento era immenso! Mas immenso se mostrou o reconhecimento da sua patria! Pacheco e Portugal, de resto, necessitavam insubstituivelmente um do outro, e ajustadissimamente se completavam. Sem Portugal—Pacheco não teria sido o que foi entre os homens: mas sem Pacheco—Portugal não seria o que é entre as nações!

A sua velhice offereceu um caracter augusto. Perdera o cabello radicalmente. Todo elle era testa. E mais que nunca revelava o seu immenso talento—mesmo nas minimas coisas. Muito bem me lembro da noite (sendo elle Presidente do Conselho) em que, na sala da Condessa de Arrôdes, alguem, com fervor, appeteceu conhecer o que s. exc.a pensava de Canovas del Castillo. Silenciosamente, magistralmente, sorrindo apenas, s. exc.a deu com a mão grave, de leve, um corte horisontal no ar. E foi em torno um murmurio d'admiração, lento e maravilhado. N'aquelle gesto quantas coisas subtis, fundamente pensadas! Eu por mim, depois de muito esgravatar, interpretei-o d'este modo:—«mediocre, meia-altura, o snr. Canovas!» Porque, note o meu caro snr. Mollinet como aquelle talento, sendo tão vasto—era ao mesmo tempo tão fino!

Rebentou;—quero dizer, s. exc.a morreu, quasi repentinamente, sem soffrimento, no começo d'este duro inverno. Ia ser justamente creado marquez de Pacheco. Toda a nação o chorou com infinita dôr. Jaz no alto de S. João, sob um mausoleu, onde por suggestão do snr. conselheiro Accacio (em carta ao Diario de Noticias) foi esculpida uma figura de Portugal chorando o Genio.

Mezes depois da morte de Pacheco, encontrei a sua viuva, em Cintra, na casa do dr. Videira. É uma mulher (asseguram amigos meus) de excellente intelligencia e bondade. Cumprindo um dever de portuguez, lamentei, diante da illustre e affavel senhora, a perda irreparavel que era sua e da patria. Mas quando, commovido, alludi ao immenso talento de Pacheco, a viuva de Pacheco ergueu n'um brusco espanto, os olhos que conservára baixos—e um fugidio, triste, quasi apiedado sorriso arregaçou-lhe os cantos da bôca pallida... Eterno desaccordo dos destinos humanos! Aquella mediana senhora nunca comprehendera aquelle immenso talento! Creia-me, meu caro snr. Mollinet, seu dedicado—Fradique.



IX

A CLARA...
(Trad.)

Paris, junho.


Minha adorada amiga.—Não, não foi na Exposição dos Aguarellistas, em março, que eu tive comsigo o meu primeiro encontro, por mandado dos Fados. Foi no inverno, minha adorada amiga, no baile dos Tressans. Foi ahi que a vi, conversando com Madame de Jouarre, diante d'uma console, cujas luzes, entre os molhos de orchideas, punham nos seus cabellos aquelle nimbo d'ouro que tão justamente lhe pertence como «rainha de graça entre as mulheres». Lembro ainda, bem religiosamente, o seu sorrir cançado, o vestido preto com relevos côr de botão d'ouro, o leque antigo que tinha fechado no regaço. Passei; mas logo tudo em redor me pareceu irreparavelmente enfadonho e feio; e voltei a readmirar, a meditar em silencio a sua belleza, que me prendia pelo esplendor patente e comprehensivel, e ainda por não sei quê de fino, de espiritual, de dolente e de meigo que brilhava através e vinha da alma. E tão intensamente me embebi n'essa contemplação, que levei commigo a sua imagem, decorada e inteira, sem esquecer um fio dos seus cabellos ou uma ondulação da sêda que a cobria, e corri a encerrar-me com ella, alvoroçado, como um artista que n'algum escuro armazem, entre poeira e cacos, descobrisse a Obra sublime d'um Mestre perfeito.

E, porque o não confessarei? Essa imagem foi para mim, ao principio, meramente um Quadro, pendurado no fundo da minha alma, que eu a cada dôce momento olhava—mas para lhe louvar apenas, com crescente surpreza, os encantos diversos de Linha e de Côr. Era sómente uma rara tela, posta em sacrario, immovel e muda no seu brilho, sem outra influencia mais sobre mim que a d'uma fórma muito bella que captiva um gosto muito educado. O meu sêr continuava livre, attento ás curiosidades que até ahi o seduziam, aberto aos sentimentos que até ahi o solicitavam;—e só quando sentia a fadiga das coisas imperfeitas ou o desejo novo d'uma occupação mais pura, regressava á Imagem que em mim guardava, como um Fra Angelico, no seu claustro, pousando os pinceis ao fim do dia, e ajoelhando ante a Madona a implorar d'ella repouso e inspiração superior.

Pouco a pouco, porém, tudo o que não foi esta contemplação perdeu para mim valor e encanto. Comecei a viver cada dia mais retirado no fundo da minha alma, perdido na admiração da Imagem que lá rebrilhava—até que só essa occupação me pareceu digna da vida, no mundo todo não reconheci mais que uma apparencia inconstante, e fui como um monge na sua cella, alheio ás coisas mais reaes, de joelhos e hirto no seu sonho, que é para elle a unica realidade.

Mas não era, minha adorada amiga, um pallido e passivo extasi diante da sua Imagem. Não! era antes um ancioso e forte estudo d'ella, com que eu procurava conhecer através da Fórma a Essencia, e (pois que a Belleza é o esplendor da Verdade) deduzir das perfeições do seu Corpo as superioridades da sua Alma. E foi assim que lentamente surprehendi o segredo da sua natureza; a sua clara testa que o cabello descobre, tão clara e lisa, logo me contou a rectidão do seu pensar: o seu sorriso, d'uma nobreza tão intellectual, facilmente me revelou o seu desdem do mundanal e do ephemero, a sua incansavel aspiração para um viver de verdade e de belleza: cada graça de seus movimentos me trahiu uma delicadeza do seu gosto: e nos seus olhos differencei o que n'elles tão adoravelmente se confunde, luz de razão, calor de coração, luz que melhor aquece, calor que melhor alumia... Já a certeza de tantas perfeições bastaria a fazer dobrar, n'uma adoração perpetua, os joelhos mais rebeldes. Mas succedeu ainda que, ao passo que a comprehendia e que a sua Essencia se me manifestava, assim visivel e quasi tangivel, uma influencia descia d'ella sobre mim—uma influencia estranha, differente de todas as influencias humanas, e que me dominava com transcendente omnipotencia. Como lhe poderei dizer? Monge, fechado na minha cella, comecei a aspirar á santidade, para me harmonisar e merecer a convivencia com a Santa a que me votára. Fiz então sobre mim um aspero exame de consciencia. Investiguei com inquietação se o meu pensar era condigno da pureza do seu pensar; se no meu gosto não haveria desconcertos que podessem ferir a disciplina do seu gosto; se a minha idéa da vida era tão alta e séria como aquella que eu presentira na espiritualidade do seu olhar, do seu sorrir; e se o meu coração não se dispersára e enfraquecera de mais para poder palpitar com parallelo vigor junto do seu coração. E tem sido em mim agora um arquejante esforço para subir a uma perfeição identica áquella que em si tão submissamente adoro.

De sorte que a minha querida amiga, sem saber, se tornou a minha educadora. E tão dependente fiquei logo d'esta direcção, que já não posso conceber os movimentos do meu sêr senão governados por ella e por ella ennobrecidos. Perfeitamente sei que tudo o que hoje surge em mim de algum valor, idéa ou sentimento, é obra d'essa educação que a sua alma dá á minha, de longe, só com existir e ser comprehendida. Se hoje me abandonasse a sua influencia—devia antes dizer, como um asceta, a sua Graça—todo eu rolaria para uma inferioridade sem remissão. Veja pois como se me tornou necessaria e preciosa... E considere que, para exercer esta supremacia salvadora, as suas mãos não tiveram de se impôr sobre as minhas—bastou que eu a avistasse de longe, n'uma festa, resplandecendo. Assim um arbusto silvestre floresce á borda d'um fôsso, porque lá em cima nos remotos céos fulge um grande sol, que não o vê, não o conhece, e magnanimamente o faz crescer, desabrochar, e dar o seu curto aroma... Por isso o meu amor attinge esse sentimento indescripto e sem nome que a Planta, se tivesse consciencia, sentiria pela Luz.

E considere ainda que, necessitando de si como da luz, nada lhe rogo, nenhum bem imploro de quem tanto póde e é para mim dona de todo o bem. Só desejo que me deixe viver sob essa influencia, que, emanando do simples brilho das suas perfeições, tão facil e dôcemente opéra o meu aperfeiçoamento. Só peço esta permissão caridosa. Veja pois quanto me conservo distante e vago, na esbatida humildade d'uma adoração que até receia que o seu murmurio, um murmurio de prece, roce o vestido da imagem divina...

Mas se a minha querida amiga por acaso, certa do meu renunciamento a toda a recompensa terrestre, me permittisse desenrolar junto de si, n'um dia de solidão, a agitada confidencia do meu peito, decerto faria um acto de ineffavel misericordia—como outr'ora a Virgem Maria quando animava os seus adoradores, ermitas e santos, descendo n'uma nuvem e concedendo-lhes um sorriso fugitivo, ou deixando-lhes cahir entre as mãos erguidas uma rosa do Paraiso. Assim, ámanhã, vou passar a tarde com Madame de Jouarre. Não ha ahi a santidade d'uma cella ou d'uma ermida, mas quasi o seu isolamento: e se a minha querida amiga surgisse, em pleno resplendor, e eu recebesse de si, não direi uma rosa, mas um sorriso, ficaria então radiosamente seguro de que este meu amor, ou este meu sentimento indescripto e sem nome que vai além do amor, encontra ante seus olhos piedade e permissão para esperar.—Fradique.



X

a madame de jouarre
(Trad.)

Lisboa, junho.


Minha excellente madrinha.—Eis o que tem «visto e feito», desde maio, na formosissima Lisboa, Ulyssipo pulcherrima, o seu admiravel afilhado. Descobri um patricio meu, das Ilhas, e meu parente, que vive ha tres annos construindo um Systema de Philosophia no terceiro andar d'uma casa de hospedes, na travessa da Palha. Espirito livre, emprehendedor e destro, paladino das Idéas Geraes, o meu parente, que se chama Procopio, considerando que a mulher não vale o tormento que espalha, e que os oitocentos mil reis de um olival bastam, e de sobra, a um espiritualista—votou a sua vida á Logica e só se interessa e soffre pela Verdade. É um philosopho alegre; conversa sem berrar; tem uma aguardente de muscatel excellente;—e eu trepo com gosto duas ou tres vezes por semana á sua officina de Metaphysica a saber se, conduzido pela alma dôce de Maine de Biran, que é o seu cicerone nas viagens do Infinito, elle já entreviu emfim, disfarçada por traz dos seus derradeiros véos, a Causa das Causas. N'estas piedosas visitas vou, pouco a pouco, conhecendo alguns dos hospedes que n'esse terceiro andar da travessa da Palha gozam uma boa vida de cidade, a doze tostões por dia, fóra vinho e roupa lavada. Quasi todas as profissões em que se occupa a classe-média em Portugal estão aqui representadas com fidelidade, e eu posso assim estudar, sem esforço, como n'um indice, as idéas e os sentimentos que no nosso Anno da Graça formam o fundo moral da nação.

Esta casa de hospedes offerece encantos. O quarto do meu primo Procopio tem uma esteira nova, um leito de ferro philosophico e virginal, cassa vistosa nas janellas, rosinhas e aves pela parede,—e é mantido em rigido asseio por uma d'estas creadas como só produz Portugal, bella moça de Traz-os-Montes, que, arrastando os seus chinelos com a indolencia grave d'uma nympha latina, varre, esfrega e arruma todo o andar; serve nove almoços, nove jantares e nove chás; escarolla as louças; prega esses botões de calças e de ceroulas que os portuguezes estão constantemente a perder; engomma as saias da Madama; reza o terço da sua aldeia; e tem ainda vagares para amar desesperadamente um barbeiro visinho, que está decidido a casar com ella quando fôr empregado na Alfandega. (E tudo isto por tres mil reis de soldada). Ao almoço ha dois pratos, sãos e fartos, de ovos e bifes. O vinho vem do lavrador, vinhinho leve e precoce, feito pelos veneraveis preceitos das Georgicas, e semelhante decerto ao vinho da Rethia—quo te carmine dicam, Rethica? A torrada, tratada pelo lume forte, é incomparavel. E os quatro paineis que ornam a sala, um retrato de Fontes (estadista, já morto, que é tido pelos portuguezes em grande veneração), uma imagem de Pio IX sorrindo e abençoando, uma vista da varzea de Collares, e duas donzellas beijocando uma rôla, inspiram as salutares idéas, tão necessarias, de Ordem Social, de Fé, de Paz campestre, e de Innocencia.

A patrôa, D. Paulina Soriana, é uma Madama de quarenta outonos, frescalhota e roliça, com um pescoço muito nedio, e toda ella mais branca que o chambre branco que usa por sobre uma saia de sêda roxa. Parece uma excellente senhora, paciente e maternal, de bom juizo e de boa economia. Sem ser rigorosamente viuva—tem um filho, já gordo tambem, que roe as unhas e segue o curso dos lyceus. Chama-se Joaquim, e, por ternura, Quinzinho; soffreu esta primavera não sei que duro mal que o forçava a infindaveis orchatas e semicupios; e está destinado por D. Paulina á Burocracia que ella considera, e muito justamente, a carreira mais segura e a mais facil.

—O essencial para um rapaz (affirmava ha dias a apreciavel senhora, depois do almoço, traçando a perna) é ter padrinhos e apanhar um emprego; fica logo arrumado; o trabalho é pouco e o ordenadosinho está certo ao fim do mez.

Mas D. Paulina está tranquilla com a carreira do Quinzinho. Pela influencia (que é toda-poderosa n'estes Reinos) d'um amigo certo, o snr. conselheiro Vaz Netto, ha já no Ministerio das Obras Publicas ou da Justiça uma cadeira de amanuense, reservada, marcada com lenço, á espera do Quinzinho. E mesmo como o Quinzinho foi reprovado nos ultimos exames, já o snr. conselheiro Vaz Netto lembrou que, visto elle se mostrar assim desmazelado, com pouco gosto pelas letras, o melhor era não teimar mais nos estudos e no Lyceu, e entrar immediatamente para a repartição...

—Que ainda assim (ajuntou a boa senhora, quando me honrou com estas confidencias) gostava que o Quinzinho acabasse os estudos. Não era pela necessidade, e por causa do emprego, como v. exc.a vê: era pelo gosto.

Quinzinho tem pois a sua prosperidade agradavelmente garantida. De resto supponho que D. Paulina junta um peculio prudente. Na casa, bem afreguezada, ha agora sete hospedes—e todos fieis, solidos, gastando, com os extras, de quarenta e cinco a cincoenta mil reis por mez. O mais antigo, o mais respeitado (e aquelle que eu precisamente já conheço) é o Pinho—o Pinho brazileiro, o commendador Pinho. É elle quem todas as manhãs annuncia a hora do almoço (o relogio do corredor ficou desarranjado desde o Natal) sahindo do seu quarto ás dez horas, pontualmente, com a sua garrafa d'agua de Vidago, e vindo occupar á mesa, já posta, mas ainda deserta, a sua cadeira, uma cadeira especial de verga, com almofadinha de vento. Ninguem sabe d'este Pinho nem a idade, nem a familia, nem a terra de provincia em que nasceu, nem o trabalho que o occupou no Brazil, nem as origens da sua commenda. Chegou uma tarde de inverno n'um paquete da Mala Real; passou cinco dias no Lazareto; desembarcou com dois bahús, a cadeira de verga, e cincoenta e seis latas de dôce de tijolo; tomou o seu quarto n'esta casa de hospedes, com janella para a travessa; e aqui engorda, pacifica e risonhamente, com o seis por cento das suas inscripções. É um sujeito atochado, baixote, de barba grisalha, a pelle escura, toda em tons de tijolo e de café, sempre vestido de casimira preta, com uma luneta d'ouro pendente d'uma fita de sêda, que elle, na rua, a cada esquina, desemmaranha do cordão d'ouro do relogio para lêr com interesse e lentidão os cartazes dos theatros. A sua vida tem uma d'essas prudentes regularidades que tão admiravelmente concorrem para crear a ordem nos Estados. Depois de almoço calça as botas de cano, lustra o chapéo de sêda, e vai muito devagar até á rua dos Capellistas, ao escriptorio terreo do corretor Godinho, onde passa duas horas pousado n'um môcho, junto do balcão, com as mãos cabelludas encostadas ao cabo do guarda-sol. Depois entala o guarda-sol debaixo do braço, e pela rua do Ouro, com uma pachorra saboreada, parando a contemplar alguma senhora de sêdas mais tufadas ou alguma vittoria de librés mais lustrosas, alonga os passos para a tabacaria Sousa, ao Rocio, onde bebe um copo de agua de Caneças, e repousa até que a tarde refresque. Segue então para a Avenida, a gozar o ar puro e o luxo da cidade, sentado n'um banco; ou dá a volta ao Rocio, sob as arvores, com a face erguida e dilatada em bem-estar. Ás seis recolhe, despe e dobra a sobrecasaca, calça os chinelos de marroquim, enverga uma regalada quinzena de ganga, e janta, repetindo sempre a sopa. Depois do café dá um «hygienico» pela Baixa, com demoras pensativas, mas risonhas, diante das vitrines de confeitaria e de modas; e em certos dias sobe o Chiado, dobra a esquina da rua Nova da Trindade, e regateia, com placidez e firmeza, uma senha para o Gymnasio. Todas as sextas-feiras entra no seu banco, que é o London Brazilian. Aos domingos, á noitinha, com recato, visita uma moça gorda e limpa que mora na rua da Magdalena. Cada semestre recebe o juro das suas inscripcões.

Toda a sua existencia é assim um pautado repouso. Nada o inquieta, nada o apaixona. O universo, para o commendador Pinho, consta de duas unicas entidades—elle proprio, Pinho, e o Estado que lhe dá o seis por cento: portanto o universo todo está perfeito, e a vida perfeita, desde que Pinho, graças ás aguas de Vidago, conserve appetite e saude, e que o Estado continue a pagar fielmente o coupon. De resto, pouco lhe basta para contentar a porção d'Alma e Corpo de que apparentemente se compõe. A necessidade que todo o sêr vivo (mesmo as ostras, segundo affirmam os Naturalistas) tem de communicar com os seus semelhantes por meio de gestos ou sons, é em Pinho pouco exigente. Pelos meados d'abril, sorri e diz, desdobrando o guardanapo—«temos o verão comnosco»: todos concordam e Pinho goza. Por meados d'outubro, corre os dedos pela barba e murmura—«temos comnosco o inverno»: se outro hospede discorda, Pinho emmudece, porque teme controversias. E esta honesta permutação de idéas lhe basta. Á mesa, comtanto que lhe sirvam uma sopa succulenta, n'um prato fundo, que elle possa encher duas vezes—fica consolado e disposto a dar graças a Deus. O Diario de Pernambuco, o Diario de Noticias, alguma comedia do Gymnasio, ou uma Magica, satisfazem e de sobra essas outras necessidades de intelligencia e de imaginação, que Humboldt encontrou mesmo entre os Botecudos. Nas funcções do sentimento Pinho só pretende modestamente (como revelou um dia ao meu primo) «não apanhar uma doença». Com as coisas publicas está sempre agradado, governe este ou governe aquelle, comtanto que a policia mantenha a ordem, e que não se produzam nos principios e nas ruas disturbios nocivos ao pagamento do coupon. E emquanto ao destino ulterior da sua alma, Pinho (como elle a mim proprio me assegurou)—«só deseja depois de morto que o não enterrem vivo». Mesmo ácerca d'um ponto tão importante, como é para um commendador o seu mausoléo, Pinho pouco requer:—apenas uma pedra lisa e decente, com o seu nome, e um singelo orai por elle.

Errariamos porém, minha querida madrinha, em suppôr que Pinho seja alheio a tudo quanto seja humano. Não! Estou certo que Pinho respeita e ama a humanidade. Sómente a humanidade, para elle, tornou-se no decurso da sua vida excessivamente restricta. Homens, homens serios, verdadeiramente merecedores d'esse nobre nome, e dignos de que por elles se mostre reverencia, affecto, e se arrisque um passo que não cance muito—para Pinho só ha os prestamistas do Estado. Assim, meu primo Procopio, com uma malicia bem inesperada n'um espiritualista, contou-lhe ha tempos em confidencia, arregalando os olhos, que eu possuia muitos papeis! muitas apolices! muitas inscripções!... Pois na primeira manhã que voltei, depois d'essa revelação, á casa de hospedes, Pinho, ligeiramente córado, quasi commovido, offereceu-me uma boceta de dôce de tijolo embrulhada n'um guardanapo. Acto tocante, que explica aquella alma! Pinho não é um egoista, um Diogenes de rabôna preta, sêccamente retrahido dentro da pipa da sua inutilidade. Não. Ha n'elle toda a humana vontade de amar os homens seus semelhantes, e de os beneficiar. Sómente quem são, para Pinho, os seus genuinos «semelhantes»? Os prestamistas do Estado. E em que consiste para Pinho o acto de beneficio? Na cessão aos outros d'aquillo que a elle lhe é inutil. Ora Pinho não se dá bem com o uso da goiabada—e logo que soube que eu era um possuidor de inscripções, um seu semelhante, capitalista como elle, não hesitou, não se retrahiu mais ao seu dever humano, praticou logo o acto de beneficio, e lá veio, ruborisado e feliz, trazendo o seu dôce dentro d'um guardanapo.

É o commendador Pinho um cidadão inutil? Não, certamente! Até para manter em estabilidade e solidez a ordem d'uma nação, não ha mais prestadio cidadão do que este Pinho, com a sua placidez de habitos, o seu facil assentimento a todos os feitios da coisa publica, a sua conta do banco verificada ás sextas-feiras, os seus prazeres colhidos em hygienico recato, a sua reticencia, a sua inercia. D'um Pinho nunca póde sahir idéa ou acto, affirmação ou negação, que desmanche a paz do Estado. Assim gordo e quieto, collado sobre o organismo social, não concorrendo para o seu movimento, mas não o contrariando tambem, Pinho apresenta todos os caracteres d'uma excrescencia sebacea. Socialmente, Pinho é um lobinho. Ora nada mais inoffensivo que um lobinho: e nos nossos tempos, em que o Estado está cheio de elementos morbidos, que o parasitam, o sugam, o infeccionam e o sobreexcitam, esta inoffensibilidade de Pinho póde mesmo (em relação aos interesses da ordem) ser considerada como qualidade meritoria. Por isso o Estado, segundo corre, o vai crear barão. E barão d'um titulo que os honra a ambos, ao Estado e a Pinho, porque é n'elle simultaneamente prestada uma homenagem graciosa e discreta á Familia e á Religião. O pae de Pinho chamava-se Francisco—Francisco José Pinho. E o nosso amigo vai ser feito barão de S. Francisco.

Adeus, minha querida madrinha! Vamos no nosso decimo oitavo dia de chuva! Desde o começo de junho e das rosas, que n'este paiz de sol sobre azul, na terra trigueira da oliveira e do louro, queridos a Phebo, está chovendo, chovendo em fios d'agua cerrados, continuos, imperturbados, sem sopro de vento que os ondule, nem raio de luz que os diamantise, formando das nuvens ás ruas uma trama molle de humidade e tristeza, onde a alma se debate e definha como uma borboleta presa nas teias d'uma aranha. Estamos em pleno versiculo XVII, do capitulo VII do Genesis. No caso d'estas aguas do céo não cessarem, eu concluo que as intenções de Jehovah, para com este paiz peccador, são diluvianas; e, não me julgando menos digno da Graça e da Alliança divina do que Noé, vou comprar madeira e betume, e fazer uma Arca segundo os bons modelos hebraicos ou assyrios. Se por acaso d'aqui a tempos uma pomba branca fôr bater com as azas á sua vidraça, sou eu que aportei ao Havre na minha Arca, levando commigo, entre outros animaes, o Pinho e a D. Paulina, para que mais tarde, tendo baixado as aguas, Portugal se repovoe com proveito, e o Estado tenha sempre Pinhos a quem peça dinheiro emprestado, e Quinzinhos gordos com quem gaste o dinheiro que pediu a Pinho. Seu afilhado do coração—Fradique.



XI

a mr. bertrand b.
Engenheiro na Palestina


Paris, abril.


Meu caro Bertrand.—Muito ironicamente, hoje, n'este Domingo de Paschoa em que os céos contentes, se revestiram paschalmente d'uma chasula d'ouro e d'azul, e os lilazes novos perfumam o meu jardim para o santificar, me chega a tua horrenda carta, contando que findaste o traçado do Caminho de Ferro de Jaffa a Jerusalem! E triumphas! Decerto, á porta de Damasco, com as botas fortes enterradas no pó de Josaphat, o guarda-sol pousado sobre uma pedra tumular de propheta, o lapis ainda errante sobre o papel, sorris, todo te dilatas, e através das lunetas defumadas contemplas, marcada por bandeirinhas, a «linha» onde em breve, fumegando e guinchando, rolará da velha Jeppo para a velha Sião o negro comboio da tua negra obra! Em redor os empreiteiros, limpando o grosso suor da façanha, desarrolham as garrafas da cerveja festiva! E por traz de vós o Progresso, hirto contra as muralhas de Herodes, todo engonçado, todo aparafusado, tambem triumpha, esfregando, com estalidos asperos, as suas rigidas mãos de ferro fundido.

Bem o sinto, bem o comprehendo o teu escandaloso traçado, oh filho dilecto e fatal da Escóla de Pontes e Calçadas! Nem necessitava esse plano com que me deslumbras, todo em linhas escarlates, parecendo golpes d'uma faca vil por cima d'uma carne nobre. É em Jaffa, na antiquissima Jeppo, já heroica e santa antes do Diluvio, que a tua primeira Estação com os alpendres, e a carvoeira, e as balanças, e a sineta, e o chefe de bonet agaloado, se ergue entre esses laranjaes, gabados pelo Evangelho, onde S. Pedro, correndo aos brados das mulheres, resuscitou Dorcas, a boa tecedeira, e a ajudou a sahir do seu sepulchro. D'ahi a locomotiva, com a sua 1.ª classe forrada de chita, rola descaradamente pela planicie de Saaron, tão amada do céo, que, mesmo sob o bruto pisar das hordas philistinas, nunca n'ella murchavam anemonas e rosas. Corta através de Beth-Dagon, e mistura o pó do seu carvão de Cardiff ao vetusto pó do Templo de Baal, que Samsão, mudo e repassado de tristeza, derrocou movendo os hombros. Corre por sobre Lydda, e atrôa com guinchos o grande S. Jorge, que ainda couraçado, emplumado, e o guante sobre a espada, alli dorme o seu somno terrestre. Toma agua, por um tubo de couro, do Poço Santo d'onde a Virgem na fugida para o Egypto, repousando sob o figueiral, deu de beber ao Menino. Pára em Ramleh, que é a velha Arymathea (Arymathea, quinze minutos de demora!), a aldeia dos dôces hortos e do homem dôce que enterrou o Senhor. Fura, por tunneis fumarentos, as collinas de Judá, onde choraram os prophetas. Rompe por entre ruinas que foram a cidadella e depois a sepultara dos Machabeus. Galga, n'uma ponte de ferro, a torrente em que David errante escolhia pedras para a sua funda derrubadora de monstros. Colleia e arqueja pelo valle melancolico que habitou Jeremias. Suja ainda Emmauz, vara o Cedron, e estaca emfim, suada, azeitada, sordida de felugem, no valle de Hennom, no terminus de Jerusalem!

Ora, meu bom Bertrand, eu que não sou das Pontes e Calçadas, nem accionista da Companhia dos Caminhos de Ferro da Palestina, apenas um peregrino saudoso d'esses logares adoraveis, considero que a tua obra de civilisação é uma obra de profanação. Bem sei, engenheiro! S. Pedro resuscitando a velha Dorcas; a florescencia miraculosa das roseiras de Saaron; o Menino bebendo, na fuga para o Egypto, á sombra das arvores que os anjos iam adiante semeando,—são fabulas... Mas são fabulas que ha dois mil annos dão encanto, esperança, abrigo consolador, e energia para viver a um terço da Humanidade. Os logares onde se passaram essas historias, decerto muito simples e muito humanas, que depois, pela necessidade que a alma tem do Divino, se transformaram na tão linda mythologia christã, são por isso veneraveis. N'elles viveram, combateram, ensinaram, padeceram, desde Jacob até S. Paulo, todos os sêres excepcionaes que hoje povoam o céo. Jehovah só entre esses montes se mostrava, com terrifico esplendor, no tempo em que visitava os homens. Jesus desceu a esses valles pensativos para renovar o mundo. Sempre a Palestina foi a residencia preferida da Divindade. Nada de Material devia pois desmanchar o seu recolhimento Espiritual. E é penoso que a fumaraça do Progresso suje um ar que conserva o perfume da passagem dos anjos, e que os seus trilhos de ferro revolvam o sólo onde ainda não se apagaram as pégadas divinas.

Tu sorris, e accusas precisamente a velha Palestina de ser uma incorrigivel fonte de Illusão. Mas a illusão, Bertrand amigo, é tão util como a certeza: e na formação de todo o espirito, para que elle seja completo, devem entrar tanto os Contos de Fadas como os Problemas de Euclides. Destruir a influencia religiosa e poetica da Terra Santa, tanto nos corações simples como nas intelligencias cultas, é um retrocesso na Civilisação, na verdadeira, n'aquella de que tu não és obreiro, e que tem por melhor esforço aperfeiçoar a Alma do que reforçar o Corpo, e, mesmo pelo lado da utilidade, considera um Sentimento mais util do que uma Machina. Ora, locomotivas manobrando pela Judéa e Galiléa, com a sua materialidade de carvão e ferro, o seu desenvolvimento inevitavel de hoteis, omnibus, bilhares e bicos de gaz, destroem irremediavelmente o poder emotivo da Terra-dos-Milagres, porque a modernisam, a industrialisam, a banalisam...

Esse poder, essa influencia espiritual da Palestina, de que provinha? De ella se ter conservado, através d'estes quatro mil annos, immutavelmente biblica e evangelica... Decerto sobrevieram mudanças em Israel; a administração turca tem menos esplendor que a administração romana; dos vergeis e jardins que cercavam Jerusalem, só resta penhasco e ortiga; as cidades, esboroadas, perderam o seu heroismo de cidadellas; o vinho é raro; todo o saber se apagou; e não duvido que aqui e além, em Sião, n'algum terraço de mercador levantino, se assobie ao luar a valsa de Madame Angot.

Mas a vida intima, na sua fórma rural, urbana ou nomada, as maneiras, os costumes, os ceremoniaes, os trajes, os utensilios,—tudo permanece como nos tempos de Abrahão e nos tempos de Jesus. Entrar na Palestina é penetrar n'uma Biblia viva. As tendas de pelle de cabra plantadas á sombra dos sycomoros; o pastor apoiado á sua alta lança, seguido do seu rebanho; as mulheres, veladas de amarello ou branco, cantando, a caminho da fonte, com o seu cantaro no hombro; o montanhez atirando a funda ás aguias; os velhos sentados, pela frescura da tarde, á porta das villas muradas; os claros terraços cheios de pombas; o escriba que passa, com o seu tinteiro dependurado da cinta; as servas moendo o grão; o homem de longos cabellos nazarenos que nos saúda com a palavra de paz, e que conversa comnosco por parabolas; a hospedeira que nos acolhe, atirando, para passarmos, um tapete ante o limiar da sua morada; e ainda as procissões nupciaes, e as danças lentas ao rufe-rufe das pandeiretas, e as carpideiras em torno aos sepulchros caiados,—tudo transporta o peregrino á velha Judéa das Escripturas, e de um modo tão presente e real, que a cada momento duvidamos se aquella ligeira e morena mulher, com largas argolas d'ouro e um aroma de sandalo, que conduz um cordeiro preso pela ponta do manto, não será ainda Rachel, ou se, entre os homens sentados além, á sombra da figueira e da vinha, aquelle de curta barba frisada, que ergue o braço, não será Jesus ensinando.

Esta sensação, preciosa para o crente, é preciosa para o intellectual, porque o põe n'uma communhão flagrante com um dos mais maravilhosos momentos da Historia Humana. Decerto seria igualmente interessante (mais interessante talvez) que se podesse colher a mesma emoção na Grecia, e que ahi encontrassemos ainda nos seus trajes, nas suas maneiras, na sua sociabilidade, a grande Athenas de Pericles. Infelizmente, essa Athenas incomparavel jaz morta, para sempre soterrada, desfeita em pó, sob a Athenas romana, e a Athenas byzantina, e a Athenas barbara, e a Athenas musulmana, e a Athenas constitucional e sordida. Por toda a parte o velho scenario da historia está assim esfrangalhado e em ruinas. Os proprios montes perderam, ao que parece, a configuração classica: e ninguem póde achar no Lacio o rio e o fresco valle que Virgilio habitou e tão virgilianamente cantou. Um unico sitio na terra permanecia ainda com os aspectos, os costumes, com que o tinham visto, e de que tinham partilhado, os homens que deram ao mundo uma das suas mais altas transformações:—e esse sitio era um pedaço da Judéa, da Samaria e da Galiléa. Se elle fôr grosseiramente modernisado, nivelado ao prototypo social, querido do seculo, que é o districto de Liverpool ou o departamento de Marselha, e se assim desapparecer para sempre a opportunidade educadora de vêr uma grande imagem do Passado, que profanação, que devastação bruta e barbara! E por perder essa fórma sobrevivente das civilisações antigas, o thesouro do nosso saber e da nossa inspiração fica irreparavelmente diminuido.

Ninguem mais do que eu, decerto, aprecia e venera um caminho de ferro, meu Bertrand;—e ser-me-ia penoso ter de jornadear de Paris a Bordeus, como Jesus subia do valle de Jerichó para Jerusalem, escarranchado n'um burro. As coisas mais uteis, porém, são importunas, e mesmo escandalosas, quando invadem grosseiramente logares que lhes não são congeneres. Nada mais necessario na vida do que um restaurante: e todavia ninguem, por mais descrente ou irreverente, desejaria que se installasse um restaurante com as suas mesas, o seu tinir de pratos, o seu cheiro a guisados,—nas naves de Norte-Dame ou na velha Sé de Coimbra. Um caminho de ferro é obra louvavel entre Paris e Bordeus. Entre Jerichó e Jerusalem basta a egua ligeira que se aluga por dois drachmas, e a tenda de lona que se planta á tarde entre os palmares, á beira de uma agua clara, e onde se dorme tão santamente sob a paz radiante das estrellas da Syria.

E são justamente essa tenda, e o camello grave que carrega os fardos, e a escolta flammejante de beduinos, e os pedaços de deserto onde se galopa com a alma cheia de liberdade, e o lyrio de Salomão que se colhe nas fendas d'uma ruina sagrada, e as frescas paragens junto aos poços biblicos, e as rememorações do Passado á noite em torno á fogueira do acampamento, que fazem o encanto da jornada, e attrahem o homem de gosto que ama as emoções delicadas de Natureza, Historia e Arte. Quando de Jerusalem se partir para a Galiléa n'um wagon estridente e cheio de pó, talvez ninguem emprehenda a peregrinação magnifica—a não ser o destro commis-voyageur que vai vender pelos Bazares chitas de Manchester ou pannos vermelhos de Sedan. O teu negro comboio rolará vazio. Que pura alegria essa para todos os entendimentos cultos—que não sejam accionistas dos Caminhos de Ferro da Palestina!...

Mas socega, Bertrand, engenheiro e accionista! Os homens, mesmo os que melhor servem o Ideal, nunca resistem ás tentações sensualistas do Progresso. Se d'um lado, á sahida de Jaffa, a propria caravana da Rainha de Sabá, com os seus elephantes e onagros, e estandartes, e lyras, e os arautos coroados de anemonas, e todos os fardos abarrotados de pedrarias e balsamos, infindavel em poesia e lenda, se offerecesse ao homem do seculo XIX para o conduzir lentamente a Jerusalem e a Salomão—e do outro lado um comboio, silvando, de portinholas abertas, lhe promettesse a mesma jornada, sem soalheiras nem solavancos, a vinte kilometros por hora, com bilhete d'ida e volta, esse homem, por mais intellectual, por mais eruditamente artista, agarraria a sua chapelleira e enfiaria sofregamente para o wagon, onde podesse descalçar as botas, e dormitar de ventre estendido.

Por isso a tua obra maligna prosperará pela propria virtude da sua malignidade. E, dentro de poucos annos, o occidental positivo que de manhã partir da velha Jeppo, no seu wagon de 1.ª classe, e comprar na estação de Gaza a Gazeta Liberal do Sinai, e jantar divertidamente em Ramleh no Grand-Hotel dos Machabeus—irá, á noite, em Jerusalem, através da Via Dolorosa illuminada pela electricidade, beber um bock e bater tres carambolas no Casino do Santo Sepulchro!

Será este o teu feito—e o fim da lenda christã.

Adeus, monstro!—Fradique.



XII