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A correspondência de Fradique Mendes / memórias e notas cover

A correspondência de Fradique Mendes / memórias e notas

Chapter 32: XV
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About This Book

A collection of fictional letters, memoir fragments and critical notes by an urbane, erudite correspondent who mixes literary criticism, reminiscence and travel anecdote. The pieces alternate affectionate satire and cultured reflection on poetic taste, modernity and artistic form, often invoking French influences while sketching urban scenes and journeys. Tone shifts between nostalgic reverie and witty commentary, offering concise portraits, stylistic pastiches and learned asides that probe how form, memory and cultural change shape literary sensibility.

a madame de jouarre

Quinta de Refaldes (Minho).


Minha querida madrinha.—Estou vivendo pinguemente em terras ecclesiasticas, porque esta quinta foi de frades. Agora pertence a um amigo meu, que é, como Virgilio, poeta e lavrador, e canta piedosamente as origens heroicas de Portugal emquanto amanha os seus campos e engorda os seus gados. Rijo, viçoso, requeimado dos soes, tem oito filhos, com que vai povoando estas cellas monasticas forradas de cretones claros. E eu justamente voltei de Lisboa a estes milheiraes do Norte para ser padrinho do derradeiro, um famoso senhor de tres palmos, côr de tijolo, todo roscas e regueifas, com uma careca de melão, os olhinhos luzindo entre rugas como vidrilhos, e o ar profundamente sceptico e velho. No sabbado, dia de S. Bernardo, sob um azul que S. Bernardo tornára especialmente vistoso e macio, ao repicar dos sinos claros, entre aromas de roseira, e jasmineiro, lá o conduzimos, todo enfeitado de laçarotes e rendas, á Pia, onde o Padre Theotonio inteiramente o lavou da fetida crosta de Peccado Original, que desde a bolinha dos calcanhares até á moleirinha o cobria todo, pobre senhor de tres palmos que ainda não vivera da alma, e já perdera a alma... E desde então, como se Refaldes fosse a ilha dos Latophagios, e eu tivesse comido em vez da couve-flôr da horta a flôr do Lotus, por aqui me quedei, olvidado do mundo e de mim, na doçura d'estes ares, d'estes prados, de toda esta rural serenidade, que me affaga e me adormece.

O casarão conventual que habitamos, e onde os conegos Regrantes de Santo Agostinho, os ricos e nedios Cruzios, vinham preguiçar no verão, prende por um claustro florido de hydrangeas e a uma egreja lisa e sem arte, com um adro assombreado por castanheiros, pensativo, grave, como são sempre os do Minho. Uma cruz de pedra encima o portão, onde pende ainda da corrente de ferro a vetusta e lenta sineta fradesca. No meio do pateo, a fonte, de boa agua, que canta adormecidamente cahindo de concha em concha, tem no topo outra cruz de pedra, que um musgo amarellento reveste de melancolia secular. Mais longe, n'um vasto tanque, lago caseiro orlado de bancos, onde decerto os bons Cruzios se vinham embeber pelas tardes de frescura e repouso, a agua das regas, limpida e farta, brota dos pés de uma santa de pedra, hirta no seu nicho, e que é talvez Santa Rita. Adiante ainda, na horta, outra santa franzina, sustentando nas mãos um vaso partido, preside, como uma nayade, ao borbulhar de outra fonte, que por quelhas de granito vai luzindo e fugindo através do feijoal. Nos esteios de pedra que sustentam a vinha ha por vezes uma cruz gravada, ou um coração sagrado, ou o monogramma de Jesus. Toda a quinta, assim santificada por signos devotos, lembra uma sacristia onde os tectos fossem de parra, a relva cobrisse os soalhos, por cada fenda borbulhasse um regato, e o incenso sahisse dos cravos.

Mas, com todos estes emblemas sacros, nada ha que nos môva; ou severamente nos arraste, aos renunciamentos do mundo. A quinta foi sempre, como agora, de grossa fartura, toda em campos de pão, bem arada e bem regada, fecunda, estendida ao sol como um ventre de Nimpha antiga. Os frades excellentes que n'ella habitaram amavam largamente a terra e a vida. Eram fidalgos que tomavam serviço na milicia do Senhor, como os seus irmãos mais velhos tomavam serviço na milicia d'El-rei—e que, como elles, gozavam risonhamente os vagares, os privilegios e a riqueza da sua Ordem e da sua Casta. Vinham para Refaldes, pelas calmas de julho, em seges e com lacaios. A cozinha era mais visitada que a egreja—e todos os dias os capões alouravam no espeto. Uma poeira discreta velava a livraria, onde apenas por vezes algum conego rheumatisante e retido nas almofadas da sua cella mandava buscar o D. Quichote, ou as Farças de D. Petronilla. Espanejada, arejada, bem catalogada, com rotulos e notas traçadas pela mão erudita dos Abbades—só a adega...

Não se procure pois, n'esta morada de monges, o precioso sabor das tristezas monasticas; nem as quebradas de serra e valle, cheias de ermo e mudez, tão dôces para n'ellas se curtirem deliciosamente as saudades do céo; nem as espessuras de bosque, onde S. Bernardo se embrenhava, por n'ellas encontrar melhor que na sua cella a «fecunda solidão»; nem os claros de pinheiral gemente, com rochas núas, tão proprias para a choça e para a cruz do ermita... Não! Aqui, em torno do pateo (onde a agua da fonte todavia corre dos pés da cruz) são solidas tulhas para o grão, fofos eidos em que o gado medra, capoeiras abarrotadas de capões e de perús reverendos. Adiante é a horta viçosa, cheirosa, succulenta, bastante a fartar as panellas todas de uma aldeia, mais enfeitada que um jardim, com ruas que as tiras de morangal orlam e perfumam, e as latadas ensombram, copadas de parra densa. Depois a eira de granito, limpa e alisada, rijamente construida para longos seculos de colheitas, com o seu espigueiro ao lado, bem fendilhado, bem arejado, tão largo que os pardaes voam dentro como n'um pedaço de céo. E por fim, ondulando ricamente até ás collinas macias, os campos de milho, e de centeio, o vinhedo baixo, os olivaes, os relvados, o linho sobre os regatos, o matto florido para os gados... S. Francisco de Assis e S. Bruno abominariam este retiro de frades e fugiriam d'elle, escandalisados, como de um peccado vivo.

A casa dentro offerece o mesmo bom conchego temporal. As cellas espaçosas, de tectos apainelados, abrem para as terras semeadas, e recebem d'ellas, através da vidraçaria cheia de sol, a perenne sensação de fartura, de opulencia rural, de bens terrenos que não enganam. E a sala melhor, traçada para as occupações mais gratas, é o refeitorio, com as suas varandas rasgadas, onde os regalados monges podessem, ao fim do jantar, conforme a veneravel tradição dos Cruzios, beber o seu café aos golos, galhofando, arrotando, respirando a fresquidão, ou seguindo nas faias do pateo o cantar alto d'um melro.

De sorte que não houve necessidade de alterar esta vivenda, quando de religiosa passou a secular. Estava já sabiamente preparada para a profanidade;—e a vida que n'ella então se começou a viver, não foi differente da do velho convento, apenas mais bella, porque, livre das contradicções do Espiritual e do Temporal, a sua harmonia se tornou perfeita. E, tal como é, deslisa com incomparavel doçura. De madrugada, os gallos cantam, a quinta acorda, os cães de fila são acorrentados, a moça vai mungir as vaccas, o pegureiro atira o seu cajado ao hombro, a fila dos jornaleiros mette-se ás terras—e o trabalho principia, esse trabalho que em Portugal parece a mais segura das alegrias e a festa sempre incansavel, porque é todo feito a cantar. As vozes vêm, altas e desgarradas, no fino silencio, d'além, d'entre os trigos, ou do campo em sacha, onde alvejam as camisas de linho crú, e os lenços de longas franjas vermelhejam mais que papoulas. E não ha n'este labor nem dureza, nem arranque. Todo elle é feito com a mansidão com que o pão amadurece ao sol. O arado mais acaricia do que rasga a gleba. O centeio cae por si, amorosamente, no seio attrahente da foice. A agua sabe onde o torrão tem sêde, e corre para lá gralhando e refulgindo. Ceres n'estes sitios bemditos permanece verdadeiramente, como no Lacio, a Deusa da Terra, que tudo propicia e soccorre. Ella reforça o braço do lavrador, torna refrescante o seu suor, e da alma lhe limpa todo o cuidado escuro. Por isso os que a servem, mantêm uma serenidade risonha na tarefa mais dura. Essa era a ditosa feição da vida antiga.

Á uma hora é o jantar, serio e pingue. A quinta tudo fornece prodigamente:—e o vinho, o azeite, a hortaliça, a fructa têm um sabor mais vivo e são, assim cabidos das mãos do bom Deus sobre a mesa, sem passar pela mercancia e pela loja. Em palacio algum, por essa Europa superfina, se come na verdade tão deliciosamente como n'estas rusticas quintas de Portugal. Na cozinha enfumarada, com duas panellas de barro e quatro achas a arder no chão, estas caseiras de aldeia, de mangas arregaçadas, guizam um banquete que faria exultar o velho Jupiter, esse transcendente guloso, educado a nectar, o Deus que mais comeu, e mais nobremente soube comer, desde que ha Deuses no céo e na terra. Quem nunca provou este arroz de caçoula, este anho paschal candidamente assado no espeto, estas cabidellas de frango coevas da Monarchia que enchem a alma, não póde realmente conhecer o que seja a especial bemaventurança tão grosseira e tão divina, que no tempo dos frades se chamava a comezaina. E a quinta depois, com as suas latadas de sombra macia, a dormente susurração das aguas regantes, os ouros claros e foscos ondulando nos trigaes, offerece, mais que nenhum outro paraiso humano ou biblico, o repouso acertado para quem emerge, pesado e risonho, d'este arroz e d'este anho!

Se estes meios-dias são um pouco materiaes, breve a tarde trará a porção de poesia de que necessita o Espirito. Em todo o céo se apagou a refulgencia d'ouro, o esplendor arrogante que se não deixa fitar e quasi repelle; agora apaziguado e tratavel, elle derrama uma doçura, uma pacificação que penetra na alma, a torna tambem pacifica e dôce, e cria esse momento raro em que céo e alma fraternisam e se entendem. Os arvoredos repousam n'uma immobilidade de contemplação, que é intelligente. No piar velado e curto dos passaros ha um recolhimento e consciencia de ninho feliz. Em fila, a boiada volta dos pastos, cançada e farta, e vai ainda beberar ao tanque, onde o gotejar da agua sob a cruz é mais preguiçoso. Toca o sino a Ave-Marias. Em todos os casaes se está murmurando o nome de Nosso Senhor. Um carro retardado, pesado de matto, geme pela sombra da azinhaga. E tudo é tão calmo e simples e terno, minha madrinha, que, em qualquer banco de pedra em que me sente, fico enlevado, sentindo a penetrante bondade das coisas, e tão em harmonia com ella, que não ha n'esta alma, toda encrostada das lamas do mundo, pensamento que não podesse contar a um santo...

Verdadeiramente estas tardes santificam. O mundo recua para muito longe, para além dos pinhaes e das collinas, como uma miseria esquecida:—e estamos então realmente na felicidade de um convento, sem regras e sem abbade, feito só da religiosidade natural que nos envolve, tão propria á oração que não tem palavras, e que é por isso a mais bem comprehendida por Deus.

Depois escurece, já ha pyrilampos nas sebes. Venus, pequenina, scintilla no alto. A sala, em cima, está cheia de livros, dos livros fechados no tempo dos Cruzios—porque só desde que não pertence a uma ordem espiritual é que esta casa se espiritualisou. E o dia na quinta finda com uma lenta e quieta palestra sobre idéas e letras, emquanto na guitarra ao lado geme algum dos fados de Portugal, longo em saudades e em ais, e a lua, ao fundo da varanda, uma lua vermelha e cheia, surde, como a escutar, por detraz dos negros montes.

Deus nobis haec otia fecit in umbra Lusitaniae pulcherrimae... Mau latim—grata verdade.

Seu grato e mau afilhado—Fradique.



XIII

a clara...
(Trad.)


Paris, novembro.


Meu amor.—Ainda ha poucos instantes (dez instantes, dez minutos, que tanto gastei n'um fiacre desolador desde a nossa Torre de Marfim) eu sentia o rumor do teu coração junto do meu, sem que nada os separasse senão uma pouca de argilla mortal, em ti tão bella, em mim tão rude—e já estou tentando recontinuar anciosamente, por meio d'este papel inerte, esse ineffavel estar comtigo que é hoje todo o fim da minha vida, a minha suprema e unica vida. É que, longe da tua presença, cesso de viver, as coisas para mim cessam de ser—e fico como um morto jazendo no meio de um mundo morto. Apenas, pois, me finda esse perfeito e curto momento de vida que me dás, só com pousar junto de mim e murmurar o meu nome—recomeço a aspirar desesperadamente para ti como para uma resurreição!

Antes de te amar, antes de receber das mãos de meu Deus a minha Eva—que era eu, na verdade? Uma sombra fluctuando entre sombras. Mas tu vieste, dôce adorada, para me fazer sentir a minha realidade, e me permittir que eu bradasse tambem triumphalmente o meu—«amo, logo existo!» E não foi só a minha realidade que me desvendaste—mas ainda a realidade de todo este Universo, que me envolvia como um inintelligivel e cinzento montão de apparencias. Quando ha dias, no terraço de Savran, ao anoitecer, te queixavas que eu contemplasse as estrellas estando tão perto dos teus olhos, e espreitasse o adormecer das collinas junto ao calor dos teus hombros—não sabias, nem eu te soube então explicar, que essa contemplação era ainda um modo novo de te adorar, porque realmente estava admirando nas coisas a belleza inesperada que tu sobre ellas derramas por uma emanação que te é propria, e que, antes de viver a teu lado, nunca eu lhes percebera, como se não percebe a vermelhidão das rosas ou o verde tenro das relvas antes de nascer o sol! Foste tu, minha bem-amada, que me alumiaste o mundo. No teu amor recebi a minha Iniciação. Agora entendo, agora sei. E, como o antigo Iniciado, posso affirmar:—«Tambem fui a Eleusis; pela larga estrada pendurei muita flôr que não era verdadeira, diante de muito altar que não era divino; mas a Eleusis cheguei, em Eleusis penetrei—e vi e senti a verdade!...»

E accresce ainda, para meu martyrio e gloria, que tu és tão sumptuosamente bella e tão ethereamente bella, d'uma belleza feita de Céo e de Terra, belleza completa e só tua, que eu já concebera—que nunca julgára realizavel. Quantas vezes, ante aquella sempre admirada e toda perfeita Venus de Milo, pensei que se debaixo da sua testa de Deusa podessem tumultuar os cuidados humanos; se os seus olhos soberanos e mudos se soubessem toldar de lagrimas; se os seus labios, só talhados para o mel e para os beijos, consentissem em tremer no murmurio de uma prece submissa; se, sob esses seios, que foram o appetite sublime dos Deuses e dos Heroes, um dia palpitasse o Amor e com elle a Bondade; se o seu marmore soffresse, e pelo soffrimento se espiritualisasse, juntando ao esplendor da Harmonia a graça da Fragilidade; se ella fosse do nosso tempo e sentisse os nossos males, e permanecendo Deusa do Prazer se tornasse Senhora da Dôr—então não estaria collocada n'um museu, mas consagrada n'um santuario, porque os homens, ao reconhecer n'ella a alliança sempre almejada e sempre frustrada do Real e do Ideal, decerto a teriam acclamado in eternum como a definitiva Divindade. Mas quê! A pobre Venus só offerecia a serena magnificencia da carne. De todo lhe faltava a chamma que arde na alma e a consome. E a creatura incomparavel do meu scismar, a Venus Espiritual, Cytherêa e Dolorosa, não existia, nunca existiria!... E quando eu assim pensava, eis que tu surges, e eu te comprehendo! Eras a encarnação do meu sonho, ou antes d'um sonho que deve ser universal—mas só eu te descobri, ou, tão feliz fui, que só por mim quizeste ser descoberta!

Vê, pois, se jámais te deixarei escapar dos meus braços! Por isso mesmo que és a minha Divindade,—para sempre e irremediavelmente estás presa dentro da minha adoração. Os Sacerdotes de Carthago acorrentavam ás lages dos Templos, com cadeias de bronze, as imagens dos seus Baals. Assim te quero tambem, acorrentada dentro do templo avaro que te construi, só Divindade minha, sempre no teu altar,—e eu sempre diante d'elle rojado, recebendo constantemente n'alma a tua visitação, abysmando-me sem cessar na tua essencia, de modo que nem por um momento se descontinue essa fusão ineffavel, que é para ti um acto de Misericordia e para mim de Salvação. O que eu desejaria na verdade é que fosses invisivel para todos e como não existente—que perpetuamente um estofo informe escondesse o teu corpo, uma rigida mudez occultasse a tua intelligencia. Assim passarias no mundo como uma apparencia incomprehendida. E só para mim, de dentro do involucro escuro, se revelaria a tua perfeição rutilante. Vê quanto te amo—que te queria entrouxada n'um rude, vago vestido de merino, com um ar quêdo, inanimado... Perderia assim o triumphal contentamento de vêr resplandecer entre a multidão maravilhada aquella que em segredo nos ama. Todos murmurariam compassivamente—«Pobre creatura!» E só eu saberia da «pobre creatura», o corpo e a alma adoraveis!

Quanto adoraveis! Nem comprehendo que, tendo consciencia do teu encanto, não estejas de ti namorada como aquelle Narciso que treme de frio, coberto de musgo, à beira da fonte, em Savran. Mas eu largamente te amo e por mim e por ti! A tua belleza, na verdade, attinge a altura de uma virtude:—e foram decerto os modos tão puros da tua alma que fixaram as linhas tão formosas do teu corpo. Por isso ha em mim um incessante desespero de não te saber amar condignamente—ou antes (pois desceste de um céo superior) de não saber tratar, como ella merece, a hospeda divina do meu coração. Desejaria, por vezes, envolver-te toda n'uma felicidade immaterial, seraphica, calma infinitamente como deve ser a Bemaventurança—e assim deslisarmos enlaçados através do silencio e da luz, muito brandamente, n'um sonho cheio de certeza, sahindo da vida á mesma hora e indo continuar no além o mesmo sonho estatico. E outras vezes desejaria arrebatar-te n'uma felicidade vehemente, tumultuosa, fulgurante, toda de chamma, de tal sorte que n'ella nos destruissemos sublimemente, e de nós só restasse uma pouca de cinza sem memoria e sem nome! Possuo uma velha gravura que é um Satanaz, ainda em toda a refulgencia da belleza archangelica, arrastando nos braços para o Abysmo uma freira, uma Santa, cujos derradeiros véos de penitencia se vão esgaçando pelas pontas das rochas negras. E na face da Santa, através do horror, brilha, irreprimida e mais forte que o horror, uma tal alegria e paixão, tão intensas—que eu as appeteceria para ti, oh minha Santa roubada! Mas de nenhum d'estes modos te sei amar, tão fraco ou inhabil é o meu coração, de modo que por o meu amor não ser perfeito, tenho de me contentar que seja eterno. Tu sorris tristemente d'esta eternidade. Ainda hontem me perguntavas:—«No calendario do seu coração, quantos dias dura a eternidade?» Mas considera que eu era um morto—e que tu me resuscitaste. O sangue novo que me circula nas veias, o espirito novo que em mim sente e comprehende, são o meu amor por ti—e se elle me fugisse, eu teria outra vez, regelado e mudo, de reentrar no meu sepulchro. Só posso deixar de te amar—quando deixar de ser. E a vida comtigo, e por ti, é tão inexprimivelmente bella! É a vida de um Deus. Melhor talvez:—e se eu fosse esse pagão que tu affirmas que sou, mas um pagão do Lacio, pastor de gados, crente ainda em Jupiter e Apollo, a cada instante temeria que um d'esses Deuses invejosos te raptasse, te elevasse ao Olympo para completar a sua ventura divina. Assim não receio:—toda minha te sei e para todo o sempre, olho o mundo em torno de nós como um Paraiso para nós creado, e durmo seguro sobre o teu peito na plenitude da gloria, oh minha tres vezes bemdita, Rainha da minha graça.

Não penses que estou compondo canticos em teu louvor. É em plena simplicidade que deixo escapar o que me está borbulhando na alma... Ao contrario! Toda a Poesia de todas as idades, na sua gracilidade ou na sua magestade, seria impotente para exprimir o meu extase. Balbucio, como posso, a minha infinita oração. E n'esta desoladora insufficiencia do Verbo humano é como o mais inculto e o mais illetrado que ajoelho ante ti, e levanto as mãos, e te asseguro a unica verdade, melhor que todas as verdades—que te amo, e te amo, e te amo, e te amo!... Fradique.



XIV

a madame de jouarre
(Trad.)


Lisboa, junho.


Minha querida madrinha.—N'aquella casa de hospedes da travessa da Palha, onde vive, atrellado á lavra angustiosa da Verdade, meu primo o Metaphysico, conheci, logo depois de voltar de Refaldes, um padre, o padre Salgueiro, que talvez a minha madrinha, com essa sua maliciosa paciencia de colleccionar Typos, ache interessante e psychologicamente divertido.

O meu distrahido e pallido Metaphysico affirma, encolhendo os hombros, que padre Salgueiro não se destaca por nenhuma saliencia de Corpo ou Alma entre os vagos padres da sua Diocese;—e que resume mesmo, com uma fidelidade de indice, o pensar, e o sentir, e o viver, e o parecer da classe ecclesiastica em Portugal. Com effeito, por fóra, na casca, padre Salgueiro é o costumado e corrente padre portuguez, gerado na gleba, desbravado e afinado depois pelo Seminario, pela frequentação das auctoridades e das Secretarias, por ligações de confissão e missa com fidalgas que têm capella, e sobretudo por longas residencias em Lisboa, n'estas casas de hospedes da Baixa, infestadas de litteratura e politica. O peito bem arcado, de folego fundo, como um folle de forja; as mãos ainda escuras, asperas, apesar do longo contacto com a alvura e doçura das hostias; o carão côr de couro curtido, com um sobre-tom azul nos queixos escanhoados; a corôa livida entre o cabello mais negro e grosso que pellos de clina; os dentes escaroladamente brancos—tudo n'elle pertence a essa forte plebe agricola de onde sahiu, e que ainda hoje em Portugal fornece á Egreja todo o seu pessoal, pelo desejo de se alliar e de se apoiar á unica grande instituição humana que realmente comprehende e de que não desconfia. Por dentro, porém, como miolo, padre Salgueiro apresenta toda uma estructura moral deliciosamente pittoresca e nova para quem, como eu, do Clero Lusitano só entrevira exterioridades, uma batina desapparecendo pela porta d'uma sacristia, um velho lenço de rapé posto na borda d'um confessionario, uma sobrepeliz alvejando n'uma tipoia atraz d'um morto...

O que em padre Salgueiro me encantou logo, na noite em que tanto palestramos, rondando pachorrentamente o Rocio, foi a sua maneira de conceber o Sacerdocio. Para elle o Sacerdocio (que de resto ama e acata como um dos mais uteis fundamentos da sociedade) não constitue de modo algum uma funcção espiritual—mas unicamente e terminantemente uma funcção civil. Nunca, desde que foi collado á sua parochia, padre Salgueiro se considerou senão como um funccionario do Estado, um Empregado Publico, que usa um uniforme, a batina (como os guardas da alfandega usam a fardeta), e que, em logar de entrar todas as manhãs n'uma repartição do Terreiro do Paço para escrevinhar ou archivar officios, vai mesmo nos dias santificados, a uma outra repartição, onde, em vez da carteira se ergue um altar, celebrar missas e administrar sacramentos. As suas relações portanto não são, nunca foram, com o céo (do céo só lhe importa saber se está chuvoso ou claro)—mas com a Secretaria da Justiça e dos Negocios Ecclesiasticos. Foi ella que o collocou na sua Parochia, não para continuar a obra do Senhor guiando docemente os homens pela estrada limpa da Salvação (missões de que não curam as secretarias do Estado), mas, como funccionario, para executar certos actos publicos que a lei determina a bem da ordem social—baptisar, confessar, casar, enterrar os parochianos.

Os sacramentos são, pois, para este excellente padre Salgueiro, meras ceremonias civis, indispensaveis para a regularisação do estado civil,—e nunca, desde que os administra, pensou na sua natureza divina, na Graça que communicam ás almas, e na força com que ligam a vida transitoria a um principio Immanente. Decerto, outr'ora no seminario, padre Salgueiro decorou em compendios ensebados a sua Theologia Dogmatica, a sua Theologia Pastoral, a sua Moral, o seu S. Thomaz, o seu Liguori—mas meramente para cumprir as disciplinas officiaes do curso, ser ordenado pelo seu bispo, depois provido n'uma parochia pelo seu ministro, como todos os outros bachareis que em Coimbra decoram as Sebentas de Direito natural e de Direito romano para «fazerem o curso», receber na cabeça a borla de doutor, e depois o aconchego de um emprego facil. Só o grau vale e importa, porque justifica o despacho. A sciencia é a formalidade penosa que lá conduz—verdadeira provação, que, depois de atravessada, não deixa ao espirito desejos de regressar á sua disciplina, á sua aridez, á sua canceira. Padre Salgueiro, hoje, já esqueceu regaladamente a significação theologica e espiritual do casamento:—mas casa, e casa com pericia, com bom rigor liturgico, com boa fiscalisação civil, esmiuçando escrupulosamente as certidões, pondo na benção toda a uncção prescripta, perfeito em unir as mãos com a estola, cabal na ejaculação dos latins, porque é subsidiado pelo Estado para casar bem os cidadãos, e, funccionario zeloso, não quer cumprir com defeitos funcções que lhe são pagas sem atrazo.

A sua ignorancia é deliciosa. Além de raros actos da vida activa de Jesus, a fuga para o Egypto no burrinho, os pães multiplicados nas bodas de Caná, o azorrague cahindo sobre os vendilhões do Templo, certas expulsões de Demonios, nada sabe do Evangelho—que considera todavia muito bonito. Á doutrina de Jesus é tão alheio como á philosophia de Hegel. Da Biblia tambem só conhece episodios soltos, que aprendeu certamente em oleographias—a Arca de Noé, Samsão arrancando as portas de Gaza, Judith degollando Holophernes. O que tambem me diverte, nas noites amigas em que conversamos na travessa da Palha, é o seu desconhecimento absolutamente candido das origens, da historia da Egreja. Padre Salgueiro imagina que o Christianismo se fundou de repente, n'um dia (decerto um domingo), por milagre flagrante de Jesus Christo:—e desde essa festiva hora tudo para elle se esbate n'uma treva incerta, onde vagamente reluzem nimbos de santos e tiáras de papas, até Pio IX. Não admira, porém, na obra pontifical de Pio IX, nem a Infallibilidade, nem o Syllabus:—porque se préza de liberal, deseja mais progresso, bemdiz os beneficios da instrucção, assigna o Primeiro de Janeiro.

Onde eu tambem o acho superiormente pittoresco, é cavaqueando ácerca dos deveres que lhe incumbem como pastor de almas—os deveres para com as almas. Que elle, por continuação de uma obra divina, esteja obrigado a consolar dôres, pacificar inimizades, dirigir arrependimentos, ensinar a cultura da bondade, adoçar a dureza dos egoismos, é para o benemerito padre Salgueiro a mais estranha e incoherente das novidades! Não que desconheça a belleza moral d'essa missão, que considera mesmo cheia de poesia. Mas não admitte que, formosa e honrosa como é, lhe pertença a elle padre Salgueiro! Outro tanto seria exigir de um verificador da alfandega que moralisasse e purificasse o commercio. Esse santo emprehendimento pertence aos Santos. E os Santos, na opinião de padre Salgueiro, formam uma Casta, uma Aristocracia espiritual, com obrigações sobrenaturaes que lhes são delegadas e pagas pelo Céo. Muito differentes se apresentam as obrigações de um parocho! Funccionario ecclesiastico, elle só tem a cumprir funcções rituaes em nome da Egreja, e portanto do Estado que a subsidia. Ha ahi uma criança para baptisar? Padre Salgueiro toma a estola e baptisa. Ha ahi um cadaver para enterrar? Padre Salgueiro toma o hyssope e enterra. No fim do mez recebe os seus dez mil reis (além da esmola)—e o seu bispo reconhece o seu zelo.

A idéa que padre Salgueiro tem da sua missão determina, com louvavel logica, a sua conducta. Levanta-se ás dez horas, hora classicamente adoptada pelos empregados do Estado. Nunca abre o breviario—a não ser em presença dos seus superiores ecclesiasticos, e então por deferencia gerarchica, como um tenente, que, em face ao seu general, se perfila, pousa a mão na espada. Emquanto a orações, meditações, mortificações, exames d'alma, todos esses pacientes methodos de aperfeiçoamento e santificação propria, nem sequer suspeita que lhe sejam necessarios ou favoraveis. Para que? Padre Salgueiro constantemente tem presente que, sendo um funccionario, deve manter, sem transigencias, nem omissões, o decoro que tornará as suas funcções respeitadas do mundo. Veste, por isso, sempre de preto. Não fuma. Todos os dias de jejum come um peixe austero. Nunca transpoz as portas impuras de um botequim. Durante o inverno só uma noite vai a um theatro, a S. Carlos, quando se canta o Polliuto, uma opera sacra, de purissima lição. Deceparia a lingua, com furor, se d'ella lhe pingasse uma falsidade. E é casto. Não condemna e repelle a mulher com colera, como os Santos Padres:—até a venéra, se ella é economica e virtuosa. Mas o regulamento da Egreja prohibe a mulher: elle é um funccionario ecclesiastico, e a mulher portanto não entra nas suas funcções. É rigidamente casto. Não conheço maior respeitabilidade do que a de padre Salgueiro.

As suas occupações, segundo observei, consistem muito logicamente, como empregado (além das horas dadas aos deveres liturgicos), em procurar melhoria de emprego. Pertence por isso a um partido politico:—e em Lisboa, tres noites por semana, toma chá em casa do seu chefe, levando rebuçados ás senhoras. Maneja habilmente eleições. Faz serviços e recados, complexos e indescriptos, a todos os directores geraes da Secretaria dos Negocios Ecclesiasticos. Com o seu bispo é incansavel:—e ainda ha mezes o encontrei, suado e afflicto, por causa de duas incumbencias de. S. exc.a uma relativa a queijadas de Cintra, outra a uma collecção do Diario do Governo.

Não fallei da sua intelligencia. É pratica e methodica—como verifiquei, assistindo a um sermão que elle prégou pela festa de S. Venancio. Por esse sermão, encommendado, recebia padre Salgueiro 20$000 reis—e deu, por esse preço, um sermão succulento, documentado, encerrando tudo o que convinha á glorificação de S. Venancio. Estabeleceu a filiação do Santo; desenrolou todos os seus milagres (que são poucos) com exactidão, exarando as datas, citando as auctoridades; narrou com rigor agiologico o seu martyrio; enumerou as egrejas que lhe são consagradas, com as épocas da fundação. Enxertou destramente louvores ao Ministro dos Negocios Ecclesiasticos. Não esqueceu a Familia Real, a quem rendeu preito constitucional. Foi, em summa, um excellente relatorio sobre S. Venancio.

Felicitei n'essa noite, com fervor, o reverendo padre Salgueiro. Elle murmurou, modesto e simples:

—S. Venancio infelizmente não se presta. Não foi bispo, nunca exerceu cargo publico!... Em todo o caso, creio que cumpri.

Ouço que vai ser nomeado conego. Larguissimamente o merece. Jesus não possue melhor amanuense. E nunca realmente comprehendi por que razão outro amigo meu, um frade do Varatojo, que, pelo extasi da sua fé, a profusão da sua caridade, o seu devorador cuidado na pacificação das almas, me faz lembrar os velhos homens evangelicos, chama sempre a este sacerdote tão zeloso, tão pontual, tão proficiente, tão respeitavel—«o horrendo padre Salgueiro!»

Ora veja, minha madrinha! Mais de trinta ou quarenta mil annos são necessarios para que uma montanha se desfaça e se abata até ao tamanhinho d'um outeiro que um cabrito galga brincando. E menos de dois mil annos bastaram para que o Christianismo baixasse dos grandes padres das Sete Egrejas da Asia até ao divertido padre Salgueiro, que não é de sete Egrejas, nem mesmo d'uma, mas sómente, e muito devotamente, da Secretaria dos Negocios Ecclesiasticos. Este baque provaria a fragilidade do Divino—se não fosse que realmente o Divino abrange as religiões e as montanhas, a Asia, o padre Salgueiro, os cabritinhos folgando, tudo o que se desfaz e tudo o que se refaz, e até este seu afilhado, que é todavia humanissimo.—Fradique.



XV

a bento de s.

Paris, outubro.


Meu caro Bento.—A tua idéa de fundar um jornal é damninha e execravel. Lançando, e em formato rico, com telegrammas e chronicas, uma outra «d'essas folhas impressas que apparecem todas as manhãs», como diz tão assustada e pudicamente o Arcebispo de Paris, tu vaes concorrer para que no teu tempo e na tua terra se aligeirem mais os Juizos ligeiros, se exacerbe mais a Vaidade, e se endureça mais a Intolerancia. Juizos ligeiros, Vaidade, Intolerancia—eis tres negros peccados sociaes que, moralmente, matam uma Sociedade! E tu alegremente te preparas para os atiçar. Inconsciente como uma peste, espalhas sobre as almas a morte. Já decerto o Diabo está atirando mais braza para debaixo da caldeira de pez, em que, depois do Julgamento, recozerás e ganirás, meu Bento e meu reprobo!

Não penses que, moralista amargo, exagero, como qualquer S. João Chrysostomo. Considera antes como foi incontestavelmente a Imprensa, que, com a sua maneira superficial, leviana e atabalhoada de todo affirmar, de tudo julgar, mais enraigou no nosso tempo o funesto habito dos juizos ligeiros. Em todos os seculos decerto se improvisaram estouvadamente opiniões: o grego era inconsiderado e garrulo; já Moysés, no longo Deserto, soffria com o murmurar variavel dos Hebreus; mas nunca, como no nosso seculo apressado, essa improvisação impudente se tornou a operação natural do entendimento. Com excepção de alguns philosophos escravisados pelo Methodo, e d'alguns devotos roidos pelo Escrupulo, todos nós hoje nos deshabituamos, ou antes nos desembaraçamos alegremente, do penoso trabalho de verificar. É com impressões fluidas que formamos as nossas massiças conclusões. Para julgar em Politica o facto mais complexo, largamente nos contentamos com um boato, mal escutado a uma esquina, n'uma manhã de vento. Para apreciar em Litteratura o livro mais profundo, atulhado de idéas novas, que o amor de extensos annos fortemente encadeou—apenas nos basta folhear aqui e além uma pagina, através do fumo escurecedor do charuto. Principalmente para condemnar, a nossa ligeireza é fulminante. Com que soberana facilidade declaramos—«Este é uma besta! Aquelle é um maroto!» Para proclamar—«É um genio!» ou «É um santo!» offerecemos uma resistencia mais considerada. Mas ainda assim, quando uma boa digestão ou a macia luz d'um céo de maio nos inclinam á benevolencia, tambem concedemos bizarramente, e só com lançar um olhar distrahido sobre o eleito, a corôa ou a aureola, e ahi empurramos para a popularidade um maganão enfeitado de louros ou nimbado de raios. Assim passamos o nosso bemdito dia a estampar rotulos definitivos no dorso dos homens e das coisas. Não ha acção individual ou collectiva, personalidade ou obra humana, sobre que não estejamos promptos a promulgar rotundamente uma opinião bojuda. E a opinião tem sempre, e apenas, por base aquelle pequenino lado do facto, do homem, da obra, que perpassou n'um relance ante os nossos olhos escorregadios e fortuitos. Por um gesto julgamos um caracter: por um caracter avaliamos um povo. Um inglez, com quem outr'ora jornadeei pela Asia, varão douto, collaborador de Revistas, socio de Academias, considerava os francezes todos, desde os senadores até aos varredores, como «porcos e ladrões»... Porquê, meu Bento? Porque em casa de seu sogro houvera um escudeiro, vagamente oriundo de Dijon, que não mudava de collarinho e surripiava os charutos. Este inglez illustra magistralmente a formação escandalosa das nossas generalisações.

E quem nos tem enraizado estes habitos de desoladora leviandade? O jornal—o jornal, que offerece cada manhã, desde a chronica até aos annuncios, uma massa espumante de juizos ligeiros, improvisados na vespera, á meia noite, entre o silvar do gaz e o fervilhar das chalaças, por excellentes rapazes que rompem pela redacção, agarram uma tira de papel, e, sem tirar mesmo o chapéo, decidem com dois rabiscos da penna sobre todas as coisas da Terra e do Céo. Que se trate d'uma revolução do Estado, da solidez d'um Banco, d'uma Magica, ou d'um descarrillamento, o rabisco da penna, com um traço, esparrinha e julga. Nenhum estudo, nenhum documento, nenhuma certeza. Ainda, este domingo, meu Bento, um alto jornal de Paris, commentando a situação economica, e politica de Portugal, affirmava, e com um aprumado saber, que «em Lisboa os filhos das mais illustres familias da aristocracia se empregam como carregadores da alfandega, e ao fim de cada mez mandam receber as soldadas pêlos seus lacaios!» Que dizes tu aos herdeiros das casas historicas de Portugal, carregando pipas de azeite no caes da alfandega, e conservando criados de farda para lhes ir receber o salario? Estas pipas, estes fidalgos, estes lacaios dos carregadores, formam uma deliciosa e chimerica alfandega que é menos das Mil e Uma Noites, que das Mil e Uma Asneiras. Pois assim o ensinou um jornal consideravel, rico, bem provido de Encyclopedias, de Mappas, de Estatisticas, de Telephones, de Telegraphos, com uma redacção muito erudita, pinguemente remunerada, que conhece a Europa, pertence á Academia das Sciencias Moraes e Sociaes, e legisla no Senado! E tu, Bento, no teu jornal, fornecido tambem de Encyclopedias e de Telephones, vaes com penna sacudida lançar sobre a França e sobre a China, e sobre o desventuroso Universo que se torna assumpto e propriedade tua, juizos tão solidos e comprovados como os que aquella bemdita gazeta archivou definitivamente ácerca da nossa alfandega e da nossa fidalguia...

Este é o primeiro peccado, bem negro. Considera agora outro, mais negro. Pelo jornal, e pela reportagem que será a sua funcção e a sua força, tu desenvolverás, no teu tempo e na tua terra, todos os males da Vaidade! A reportagem, bem sei, é uma util abastecedora da Historia. Decerto importou saber se era adunco ou chato o nariz de Cleopatra, pois que do feitio d'esse nariz dependeram, durante algum tempo, de Philippes a Actium, os destinos do Universo. E quantos mais detalhes a esfuracadora bisbilhotice dos reporters revelar sobre o snr. Renan, e os seus moveis, e a sua roupa branca, tantos mais elementos positivos possuirá o seculo XX para reconstruir com segurança a personalidade do auctor das Origens do Christianismo, e, através d'ella, comprehender a obra. Mas, como a reportagem hoje se exerce, menos sobre os que influem nos negocios do Mundo ou nas direcções do Pensamento, do que, como diz a Biblia, sobre toda a «sorte e condições de gente van», desde os jockeys até aos assassinos, a sua indiscriminada publicidade concorre pouco para a documentação da historia, e muito, prodigiosamente, escandalosamente, para a propagação das vaidades!

O jornal é com effeito o folle incansavel que assopra a vaidade humana, lhe irrita e lhe espalha a chamma. De todos os tempos é ella, a vaidade do homem! Já sobre ella gemeu o gemebundo Salomão, e por ella se perdeu Alcibiades, talvez o maior dos gregos. Incontestavelmente, porém, meu Bento, nunca a vaidade foi, como no nosso damnado seculo XIX, o motor offegante do pensamento e da conducta. N'estes estados de civilisação, ruidosos e ôcos, tudo deriva da vaidade, tudo tende á vaidade. E a fórma nova da vaidade para o civilisado consiste em ter o seu rico nome impresso no jornal, a sua rica pessoa commentada no jornal! Vir no jornal! eis hoje a impaciente aspiração e a recompensa suprema! Nos regimens aristocraticos o esforço era obter, senão já o favor, ao menos o sorriso do Principe. Nas nossas democracias a ancia da maioria dos mortaes é alcançar em sete linhas o louvor do jornal. Para se conquistarem essas sete linhas bemditas, os homens praticam todas as acções—mesmo as boas. Mesmo as boas, meu Bento! O «nosso generoso amigo Z...» só manda os cem mil reis á Creche, para que a gazeta exalte os cem mil reis de Z..., nosso amigo generoso. Nem é mesmo necessario que as sete linhas contenham muito mel e muito incenso: basta que ponham o nome em evidencia, bem negro, n'essa tinta cujo brilho é mais appetecido que o velho nimbo d'ouro do tempo das Santidades. E não ha classe que não ande devorada por esta fome morbida do reclamo. Ella é tão roedora nos sêres de exterioridade e de mundanidade, como n'aquelles que só pareciam amar na vida, como a sua fórma melhor, a quietação e o silencio... Entrámos na quaresma (é entre as cinzas, e com cinzas, que te estou moralisando). Agora, n'estas semanas de peixe, surdem os frades dominicanos, do fundo dos seus claustros, a prégar nos pulpitos de Paris. E porquê esses sermões sensacionaes, d'uma arte profana e theatral, com exhibicões de psychologia amorosa, com affectações de anarchismo evangelico, e tão creadores de escandalo que Paris corre mais gulosamente a Notre-Dame em tarde de Dominicano, do que á Comedia-Franceza em noite de Coquelin? Porque os monges, filhos de S. Domingos, querem setenta linhas nos jornaes do Boulevard, e toda a celebridade dos histriões. O Jornal estende sobre o mundo as suas duas folhas, salpicadas de preto, como aquellas duas azas com que os iconographistas do seculo XV representavam a Luxuria ou a Gula: e o Mundo todo se arremessa para o jornal, se quer agachar sob as duas azas que o levem á gloriola, lhe espalhem o nome pelo ar sonoro. E é por essa gloriola que os homens se perdem, e as mulheres se aviltam, e os Politicos desmancham a ordem do Estado, e os Artistas rebolam na extravagancia esthetica, e os Sabios alardeiam theorias mirabolantes, e de todos os cantos, em todos os generos, surge a horda ululante dos charlatães... (Como me vim tornando altiloquente e roncante!...) Mas é a verdade, meu Bento! Vê quantos preferem ser injuriados a serem ignorados! (Homenzinhos de letras, poetisas, dentistas, etc.). O proprio mal appetece sofregamente as sete linhas que o maldizem. Para apparecerem no jornal, ha assassinos que assassinam. Até o velho instincto da conservação cede ao novo instincto da notoriedade: e existe tal maganão, que ante um funeral convertido em apotheose pela abundancia das corôas, dos coches e dos prantos oratorios, lambe os beiços, pensativo, e deseja ser o morto.

N'este verão, uma manhã, muito cedo, entrei n'uma taberna de Montmartre a comprar phosphoros. Rente ao balcão de zinco, diante de dois copos de vinho branco, um meliante, que pelas ventas chatas, o bigode hirsuto e pendente, o barrete de pelle de lontra, parecia (e era) um Huno, um sobrevivente das hordas d'Alarico,—gritava triumphalmente para outro vadio imberbe e livido, a quem arremessára um jornal:

—É verdade, em todas as letras, o meu nome todo! Na segunda columna, logo em cima, onde diz:—Hontem um infame e ignobil bandido... Sou eu! O nome todo!

E espalhou lentamente em redor um olhar que triumphava. Eis-ahi, como agora se diz tão alambicadamente, um «estado d'alma»! Tu, Bento, vaes crear d'estes estados.



Depois considera o derradeiro peccado, negrissimo. Tu fundas, com o teu novo jornal, uma nova escola de Intolerancia. Em torno de ti, do teu partido, dos teus amigos, ergues um muro de pedra miuda e bem cimentada: dentro d'esse murosinho, onde plantas a tua bandeirola com o costumado lemma de imparcialidade, desinteresse, etc., só haverá, segundo Bento e o seu jornal, intelligencia, dignidade, saber, energia, civismo; para além d'esse muro, segundo o jornal de Bento, só haverá necessariamente sandice, vileza, inercia, egoismo, traficancia! É a disciplina de partido (e para te agradar, entendo partido, no seu sentido mais amplo, abrangendo a Litteratura, a Philosophia, etc.) que te impõe fatalmente esta divertida separação das virtudes e dos vicios. Desde que penetras na batalha, nunca poderás admittir que a Razão ou a Justiça ou a Utilidade se encontrem do lado d'aquelles contra quem descargas pela manhã a tua metralha silvante de adjectivos e verbos—porque então a decencia, se não já a consciencia, te forçariam a saltar o muro e desertar para esses justos. Tens de sustentar que elles são maleficos, desarrazoados, velhacos, e vastamente merecem o chumbo com que os trespassas. Das solas dos pés até aos teus raros cabellos, meu Bento, desde logo te atolas na Intolerancia! Toda a idéa que se eleve, para além do muro, a condemnarás como funesta, sem exame, só porque appareceu dez braças adiante, do lado dos outros, que são os Reprobos, e não do lado dos teus, que são os Eleitos. Realisam esses outros uma obra? Bento não poupará prosa nem musculo para que ella pereça: e se por entre as pedras que lhe atira, casualmente entrevê n'ella certa belleza ou certa utilidade, mais furiosamente apressa a sua demolição, porque seria mortificante para os seus amigos que alguma coisa de util ou de bello nascesse dos seus inimigos—e vivesse. Nos homens que vagam para além do teu muro, tu só verás peccadores; e quando entre elles reconhecesses S. Francisco d'Assis distribuindo aos pobres os derradeiros ceitis da Porciuncula, taparias a face para que tanta santidade te não amollecesse, e gritarias mais sanhudamente:—«Lá anda aquelle malandro a esbanjar com os vadios o dinheiro que roubou!»

Assim tu serás no teu jornal. E, em torno de ti, os que o compram e o adoptam lentamente e moralmente se fazem á tua imagem. Todo o jornal distilla intolerancia, como um alambique distilla alcool, e cada manhã a multidão se envenena aos goles com esse veneno capcioso. É pela acção do jornal que se azedam todos os velhos conflictos do mundo—e que as almas, desevangelisadas, se tornam mais rebeldes á indulgencia. A sociabilidade incessantemente amacia e arredonda as divergencias humanas, como um rio arredonda e alisa todos os seixos que n'elle rolam: e a humanidade, que uma longa cultura e a velhice tem tornado docemente sociavel, tenderia a uma suprema pacificação—se cada manhã o jornal não avivasse os odios de Principios, de Classes, de Raças, e, com os seus gritos, os acirrasse como se acirram mastins até que se enfureçam e mordam. O jornal exerce hoje todas as funcções malignas do defuncto Satanaz, de quem herdou a ubiquidade; e é não só o Pae da Mentira, mas o Pae da Discordia. É elle que por um lado inflamma as exigencias mais vorazes—e por outro fornece pedra e cal ás resistencias mais iniquas. Vê tu quando se alastra uma gréve, ou quando entre duas nações bruscamente se chocam interesses, ou quando, na ordem espiritual, dois credos se confrontam em hostilidade: o instincto primeiro dos homens, que o abuso da Civilisação material tem amollecido e desmarcialisado, é murmurar paz! juizo! e estenderem as mãos uns para os outros, n'aquelle gesto hereditario que funda os pactos. Mas surge logo o jornal, irritado como a Furia antiga, que os separa, e lhes sopra na alma a intransigencia, e os empurra á batalha, e enche o ar de tumulto e de pó.

O jornal matou na terra a paz. E não só atiça as questões já dormentes como borralhos de lareira, até que d'ellas salte novamente uma chamma furiosa—mas inventa dissensões novas, como esse anti-semitismo nascente, que repetirá, antes que o seculo finde, as anachronicas e brutas perseguições medievaes. Depois é o jornal...

Mas escuta! Onze horas! Onze horas ligeiras estão dançando, no meu velho relogio, o minuete de Gluck. Ora esta carta já vai, como a de Tiberio, muito tremenda e verbosa, verbosa et tremenda epistola; e eu tenho pressa de a findar, para ir, ainda antes do almoço, lêr os meus jornaes, com delicia.—Teu Fradique.



XVI