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A Divorciada

Chapter 12: XI
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About This Book

A narrativa acompanha os preparativos e a festa de aniversário de uma jovem, descrevendo minuciosamente a organização doméstica, a disposição dos móveis, os trajes e penteados, e os papéis sociais desempenhados por parentes e amigos. Ao longo da reunião, conversas, ciúmes discretos, modos de cortejo e comentários sobre moda revelam vaidades, tensões e costumes de uma pequena burguesia urbana; o relato privilegia detalhes sensoriais — comidas, flores, música — e observações irônicas sobre educação, conveniência e aparência, sem recorrer a grandes reviravoltas dramáticas.

—Ai o commendador, o padrinho!—

—Aonde?

—Ali, na superior, olha...

Lá estava realmente, recostado, uma grande abstracção do meio, a suissa recortando a brancura do collarinho, os oculos d'ouro reflectindo scintillações irisadas de luz.—

—Não entendia nada do lyrico, antes os cavallinhos, as operetas; mas era moda; precisava a gente impor o seu bocado, chamar-lhe-iam urso.—

Ermelinda inclinava o corpo, uma agitação inquieta, um desejo de ser notada, cumprimentada. O Carvalhinho ao vel-a fizera descrever ao seu chapeu uma curva graciosa, muito reverenciadora; e logo o Luiz Serra e o Juca Mendes, e os amigos do Alberto, os dandys que estacionavam pela superior.

O commendador voltara-se tambem por sua vez; um sorriso amavel, luminosas facetações de brilhantes no peitilho da camisa.

Regosijava-se. O Alberto mesmo sentia-se jubiloso em reflectir sobre ella as saudações dos seus conhecidos, dando-se um ar de importancia, de popularidade, no seio do hig-life.

Um camarote abriu-se; uma mulher entrou, uma grande frescura de mocidade, o assetinado do poudre de riz, amaciando a côr trigueira das faces. Vinha só; um vestido elegante, de faille preto, guarnições de setim, o decote aberto n'um{137} impudor provocante, o cabello negro frisado, uma risca rosada separando dous bandós reluzentes. Brilhantes nas orelhas, irisando a luz, e um olhar quebrado, na doçura amortecida d'uns cilios negros, tendo ás vezes umas ironias relampejantes, d'um cynismo deshonesto.

Poisou o binoculo no rebordo do camarote, a luva branca de canhão comprido, a enroscar-se n'uma pulseira d'ouro, o leque n'uma agitação lenta.

—Quem é aquella, Alberto?

Olhou na direcção indicada; fez-se vermelho, um rubor de collegial apanhado em flagrante, e para disfarçar:

—Não sei, não conheço! Ora deixa ver o binoculo.—

O pano subia, a attenção de Ermelinda desviou-se para a scena; appareciam umas arvores seculares, o baixo cantando uma canção monotona, e logo depois o tenor, um typo gordo, umas notas desafinadas que a plateia recebeu com murmurios de censura.

Mas elle, não desfitando o binoculo, o espirito preso a uma corrente de ideias bem diversas d'aquelle meio, absorvendo aquella mulher atravez das lentes, fazendo uma analyse demorada de todos os seus encantos e de toda a sua toillette, um prazer voluptuoso em sentir-se attrahido:

—Mas é a Annita, não tem que ver!... que luxo!... onde iria ella apanhar o pato! E mais bonita, sim, mais bonita! Até mais gorda; eu bem o previa, que a gordura havia de a aformosear!—

E recordava as suas convivencias passadas, a{138} atmosphera quente de bordel onde a conhecera, a sua inclinação, aquellas ceias em que bebiam champagne e adormeciam ébrios nos braços um do outro, os requintes de lubricidade, em que se juravam amor

—e a pequena, que faria ella da pequena?—

Esquecia-se de que tinha Ermelinda junto de si, a imaginação engolphinhando-se nas anfractuosidades do seu passado, a scena ultima, sobretudo—aquella scena que os tornara talvez irreconciliaveis para sempre.—

—Mas o pato, o pato, quem seria!—havia de sabel-o e d'ahi quem adivinhara, talvez que ella ainda lhe tivesse alguma dedicação.—

O pano cahiu. Uma pateada á ultima area do tenor.—

—Ia fumar um pouco, vinha já, se ella queria tomar alguma cousa—

—não, não, pódes ir,—e vendo ainda aquella mulher no camarote fronteiro

—Então conheceste-a?

—Nada, não—e sahiu rapidamente, o espirito alvoroçado, intrigado por colher informações exactas, que o illucidassem, muitos pormenores.

Fumava-se nos corredores, apertos de mão, criticas á empreza, á opera, aos artistas.

—Uma pepineira—dizia o Luiz Serra no seu calão de botequim.—

—É para a frente, rapazes, pateada a valer, ha-de ficar a noite memoranda.

—Não vale tudo os quatro contos do subsidio.—{139}

—E querem publico as senhoras emprezas, pois não! para apresentarem esta chinfrinada.

O Alberto entrou no grupo.

—Então, rapazes!

—Homem, caes da lua...

—Mas já não é da lua de mel, que elle cae, aposto!

—Explica-te.

—Vejo a Annita n'um luxo asiatico, aquillo é teu, ein, Alberto?

—Não, jurava que não, e até gostava de saber quem era o pato.—

—Pois pensavamos que fosses tu.—

—Eu sim, descartei-me a tempo d'aquillo—respondeu com um certo desdem.

—Pois está magnifica e de mais a mais pouco accessivel.—

—Conta lá, menino!

—Um tigre, um monstro; passou outro dia no Suisso e voltou-nos as costas como quem despreza os antigos conhecimentos.—

Grande risada.

—tinha graça, a final.—

A campainha tocava dentro; a orchestra principiava a desenrolar harmonias.

—Ao chinfrim, rapazes, ao chinfrim.—

Os espectadores entravam retardatariamente, n'uma linha obliqua, caminhando de lado.

Os córos desafinavam o mais possivel, n'um compromisso funesto de enterrar a partitura. Via-se o regente gesticular, n'uma agitação febril, a batuta n'um voltear vertiginoso; um rumor surdo{140} sahia das torrinhas, prenuncios de tempestade na plateia.

—Vai ahi haver um chinfrim medonho—disse o Alberto no camarote.

—Se nós nos retirassemos!...

—Ora deixa-te de tolices, tinha graça perder o melhor do espectaculo!—e voltou-lhe as costas, a vista medindo a força numerica dos pateantes, e a sua força qualitativa.

Depois os olhos volviam-se-lhe obstinadamente para o camarote d'Annita; tomava do binoculo observando-a ainda uma vez, approximando-a de si por meio d'aquella illusão d'optica, o pensamento revolvendo-se no leito de Procusta do seu passado.

—Só... mas hei-de sabel-o,—murmurava—o Juca sabe tudo, elle ha-de saber isto; é impossivel que o não saiba.—

Annita tinha-o visto logo ao chegar; um escandecimento de sangue subira-lhe nas faces, um desejo instinctivo de o descompor, de lhe chamar pulha, ali, naquelle mundo que o conhecia, em frente d'aquella mulher que era d'elle, um escandalo enorme, de que todo o Porto falasse.

—Mas não, estava vingada; dava-o ao desprezo—e amollecia as suas iras na comparação do seu bem estar actual, a vida facil correndo como um rio de leite, os seus caprichos satisfeitos, um luxo que nunca conhecera, brilhantes, toilettes caras.

E olhava de soslaio a mulher de Alberto, n'uma analyse curiosa e miuda, averiguando da riqueza{141} do seu vestido, comparando, desdenhando da sua inferioridade em joias.

—E o Alberto seria feliz?—interrogava-se, sentindo a piedade dos afortunados, um ar compassivo para desditas phantasiadas.

—Sempre era o pae de sua filha!... felizmente que a pequenita tinha morrido—e uma nuvem de tristeza poisava sobre a sua imaginação, escurecendo-lhe a claridade, como um cirrhus a um raio de luar. A recordação porém era fugitiva, cedia á efflorescencia de novos pensamentos que a occupavam.

—Parece que se não dão lá muito bem—observava—quasi sempre de costas para ella!...

E quando via o binoculo de Alberto assestado para o seu camarote.

—Pois não meu lindo amor, ha-de ganhar muito com isso—e voltava-se mais, o rosto desviado para o palco, a attenção obrigada a prender-se na scena que se estava representando, o tenor pedindo perdão, com as suas notas desafinadas, á prima-dona que tinha offendido com as suas infedelidades.

—Ora, tanto entendo eu d'aquillo como de lagar d'azeite—e meneou o corpo n'um coquetismo estudado, um sorriso levemente franzido nos seus labios vermelhos, fazendo-o voar imperceptivelmente, como uma fina essencia, para a plateia, a encontrar o commendador, que lhe correspondia n'uma irradiação d'olhar entre satisfeita e ciumenta.

A pateada rebentou furiosa, uma grande tempestade; cadeiras rangiam e viam-se dandys{142} n'uma tarefa ingloria, tentando quebrar os bancos, assobiando, gesticulando com vehemencia. Fallava-se alto, disputas, questões com os visinhos, uma balburdia, panno descido.

A claque aventurou algumas palmas, mas logo a pateada recomeçou e gritos tumultuosos de

—Fóra, fóra—a policia interveio, desmaios nos camarotes, as familias burguezas retiraram-se.

—Um grande horror áquelles malcreados, que não deixavam gosar,—apesar de que era bem cabida uma manifestação de desagrado—nunca se vira no Porto uma companhia tão réles.—

O Alberto tivera de ceder ás instancias de Ermelinda; sahira, ia para casa contra vontade,

—uma imbecil aquella sua mulher—mas emfim era preciso contemporisar um pouco! o pae parecia já não andar muito satisfeito!—

—Que miseria, com os diabos! Antes a Annita, mil vezes a Annita—

e affagava o desejo de a encontrar, volver com ella áquella vida aventureira do passado, gosar, saciar-se brutalmente n'um desmando de jejunalidade imposta e depennar, n'uma boa camaradagem, o pato que ella só depennava agora, despojando-o das suas pennas para se cobrir de velludos e brilhantes.—

XI

O Jorge queixava-se, principiava a sentir um desequilibrio nas finanças da casa; Ermelinda e Alberto tinham exigencias imprudentes.

—Um luxo por ahi além—dizia a Joaquina—nem{143} que fossem uns principes—e depois cá estão as costas largas! que poupe, que poupe; d'aqui por diante nem carne se ha-de ver na panella, t'arrenego!—

Os noivos levavam uma vida ociosa, d'uma tranquilidade aerea. Ermelinda queria vestidos caros, luxuosos,

—que podessem apparecer diante da baroneza de Lindoso, da mulher do commendador Bernardo, das Castrinhos, das Cardosas, as suas novas amigas do hig-life, com quem se encontrava no Palacio, no S. João.—

E eram despezas superfluas de trem, de presentes generosos, de noites seguidas de theatro, de passeios, uma vertigem doce, um rodar inexperiente no plano inclinado da economia.

O Alberto secundava-a; tinha da sua individualidade uma ideia balofa, um desprezo das mediocridades, das coisas reles

—não podia realmente viver d'outra fórma, ali, onde todos o conheciam, onde elle tratava por tu toda a rapaziada elegante! não se tinha casado para ser um burguez amarrado á bisca sueca, ou ao loto com as senhoras visinhas! não faltava mais nada que agora o casamento o viesse privar da liberdade dos seus gozos.—

O Jorge começava a comprehender que fôra talvez um erro aquelle casamento; de dia para dia Alberto revelava-se irascivel, grosseiro, indelicado para com Ermelinda, quando lhe não satisfaziam exigencias de dinheiro.

Mandava a mulher ter com o pae{144}

—que se arranjasse, não haviam de ficar em casa a morrer de aborrecimento.

Ermelinda procurava ser o laço de conciliação entre os dous; animava o pae, nunca depois de casada tivera para com elle carícias tão meigas.—

—Pois sim, filha, mas é necessario deitar contas á nossa vida; os negocios vão mal, mesmo mal.—

—De hora em hora Deus melhora, papá.—

—Fia-te na virgem e não andes! Isto assim não tem geito, e olha, se queres que te diga, se tivesse tanto de santo como tenho de arrependido...

—Mas agora que se lhe ha-de fazer, papá; em verdade tambem, está mesmo um usurario, quer que a gente morra de tédio em casa!—

E convencia-o, subjugava-o com razões futeis, ditas graciosamente, a promessa d'um beijo e perguntando-lhe a sorrir com uma candura de ingenua—

—Se tambem havia de ser assim mau para o seu netinho.—

Este ultimo argumento quebrava-lhe todas as energias, cedia logo

—que remedio! não havia de contrarial-a n'aquelle estado, podia prejudicar a sua saude; não, coitadinha, ella não tinha culpa; mas depois havia de pôr cobro a isto, oh! se havia—

—mas a elle mesmo—considerava—não convinha cortar radicalmente por todo aquelle superfluo de exteriorisações; que diriam os outros, os seus collegas, a praça, o commercio que o julgava com boas garantias de capital... não, não se podia{145} fazer a cousa assim de vez, era preciso ir de vagar.—

e traçava combinações, adoptava um plano, um bom plano que o livrasse d'aquelles apertos sérios—tinha em vista uma grande especulação de fundos, a cousa era certa, o capital do Banco figuraria e se houvesse algum revez, soffresse quem soffresse.—

Estas ideias chamavam-o á realidade das suas occupações; fôra distribuido o relatorio, propunha-se um bom dividendo, mas

—francamente a coisa não estava muito sólida,—já até se rosnava um pouco, mas emfim os accionistas pertenciam áquella das bem-aventuranças, que premeia com o reino do ceu,—o que elles queriam era bons dividendos, e esses davam-se, a cousa havia de caminhar; a questão era resolver aquelles embaraços da crise e depois ficava mais desaffogado.—

Associava-se-lhe a este ultimo pensamento o encargo das despezas do genro,

—um vadio afinal, nem mesmo confio já na tal herança; uma mystificação!... mas agora é aguentar por honra da firma... podéra,—e lembrava-se de que seria talvez conveniente empregal-o, um lugar no banco não podendo ser n'outra parte, tinha boa lettra, ajudante do guarda-livros, uma pechincha; havia de lhe fallar.—

E quando estavam ao dessert insinuou a ideia:

—que era preciso entreter-se, aquella vida enfastiava, o trabalho era pouco, e depois murmurava-se, era mesmo conveniente...—

O Alberto ficou silencioso, partia a marmelada{146} aos pequeninos retalhos, uma distracção inconsciente de movimentos.

—A coisa não lhe desagradava realmente, chegava para charutos, o resto viria,—e acariciava a ideia de especulações estranhas, d'um arrojo funambulesco que o fizessem rapidamente rico, que lhe dessem um trem magnifico, cavallos de raça, um palacio luxuoso, de vastas escadarias de marmore; o Banco seria o meio, o caminho de lá chegar; sempre affagara o pensamento de se introduzir n'uma d'aquellas machinas de numerario, onde se rolam as cifras volumosas, como na roleta as moedas baratas; mas era estupido estar ali preso, amarrado como um macaco; o trabalho causava-lhe um tédio mortal.—E para o sogro:

—que havia de pensar n'isso, fallariam depois—e desceu para o seu quarto.

Ermelinda teve um bom impulso de o aconselhar,—

—faz-lhe a vontade, filho, faze; e depois é até mesmo bom, e tu distrahes, o trabalho tambem entretem; e é uma garantia de futuro... tu pensa...—disse-lhe baixo, o rosto affogueando-se n'um rubor honesto de confissão custosa.

—Ahi vens tu com a tua télha! ora adeus, d'aqui a lá não nos dôa a cabeça; n'este mundo todos se arranjam.

—Mas as cousas levam-se de longe, menino...

—Vae prégar moral a outra freguezia; que tem que vêr uma cousa com outra? o que vier veio, acabou-se, á fome não hade morrer e se morrer... era uma vez um anginho que voou ao ceu,{147} pedirei ao Luiz Serra que lhe faça um necrologio em verso.—

Ermelinda revoltava-se no seu sentimento de maternidade contra estas rajadas que a feriam no ser que ella ainda desconhecia, mas que amava já; achava pouco delicado o proceder d'Alberto para com ella, tinha mesmo uma certa dôr por vêr que elle se não enchia de jubiloso alvoroço, sabendo que ella em breve o faria pae; mas desculpava-o, tomava como gracejo as suas palavras, e abrigava-se, como uma creança, na aza do seu carinho, a imaginação a sonhar um futuro de delicias para o entesinho que ia dever-lhe a vida, tendo exquisitices incoherentes, uma grande volubilidade caprichosa.—

Alberto passeiava no quarto, passos largos, o pensamento concentrado na proposta do Jorge.

—Era o unico meio de se salvar, não via outro; o dinheiro do jogo ia dasapparecendo e depois... além d'isso o arranjo não era de todo mau; nem o deslustrava, lá estava o Visconde da Ribeira no Mercantil... e quem sabe; podia mesmo vir a ser o gerente do Banco; o sogro andava acabrunhado, aquillo não ia longe...—

e sentando-se junto d'Ermelinda, uma caricia affectada para a sua mulhersinha, batendo-lhe uma leve palmadinha nos joelhos:

—Acho que aceito, Lili; que dizes tu?

—Oh, filho, faze o que tu quizeres; mas eu digo-te que sim... olha, até depois o papá não nos receberá de tão mau humor, quando quizermos alguma cousa; vê lá tu, mas eu fazia-lhe a vontade, coitado, elle é tão nosso amigo...{148}

—Hum! hum!... ha a distinguir!—

—Não, Alberto, não, tu és injusto.—

—Bem, bem; fallemos n'outro assumpto; pois decido-me, faço-te a vontade; vá lá, é preciso sacrificar um poucochito ao futuro... tu tens razão, minha Lili...

—Obrigada—e tomou-lhe a testa, um beijo longo, muito carinhoso, como um agradecimento evolado do intimo.

Sentia-se feliz n'aquelle instante; uma como fluctuação luminosa palpitava dentro da sua alma de mulher, dando-lhe uma ebriedade suave; tinha vontade de absorver dentro de si toda a personalidade do seu Alberto, integrando-a n'um mesmo amor, com a do pequenino ser mysterioso, que vivia no sanctuario das suas entranhas. Queria ella ser o fóco de irradiação fecunda para os dous, que se confundiam n'um só, ser o carinho affectuoso, a consolação, a ambrozia que os ungisse na mesma embrocação de felicidade.

—Porque não havia de ser sempre assim! para que se haviam de levantar espinhos no jardim da sua existencia? como era bom amar sendo amada!...—

Nem quiz sahir n'aquelle dia; foi para a varanda que deitava sobre o quintal, ver descer serenamente a tarde no ceu côr de rosa, deixando um sorriso de saudade ás franças das arvores, que matisavam, como grandes nodoas, o alvor das casarias da cidade; e á noute quando a meia luz do abat-jour lhe deixou ver o Alberto a seu lado, repoltreado n'uma cadeira de verga, pensou no seu tempo feliz de mulher solteira e lembrou-se{149} de Bertha, áquellas horas ouvindo o sussurro eterno do mar, ao lado do seu Roberto.

Communicaram ao Jorge a resolução tomada,

—ainda bem, ainda bem—e jantou n'aquelle dia com mais appetite, a satisfação de ver dissipar-se uma nuvem que pesava sobre o seu espirito.—E á noute nos seus colloquios entre amorosos e confidenciaes com a Joaquina:

—o rapaz indireitou-se, vamos lá—

—Deus queira que elle tome tento na bola, Snr. Jorge.

—Ha-de tomar, ha-de tomar, cá estou eu para o dirigir.—

Estava contente, uma claridade a illuminar-lhe a soturnidade do pensamento, como um raio de sol na atmosphera humida d'um armazem sombrio. Ha muito tempo já que a Joaquina o não vira d'aquella fórma; tornara-se mais rapaz, brincalhão, dando-lhe umas palmadinhas sonoras no quadril arredondado, tendo exigencias segredadas a que ella reagia,

—Ou elle, olha agora a lembrança.—


Dous dias depois tinha de reunir-se a Assembleia geral do Banco; o Jorge lá estava com os seus collegas, prompto para a defeza, varios papeis enrolados na mão, gravemente cintado na sua sobre-casaca preta.

Grupos de brazileiros e commerciantes questionavam; discutiam o relatorio, o parecer do conselho fiscal.

O commendador lá estava, os seus oculos d'ouro{150} em refracções caprichosas de luz, um pouco importante, conscio do seu peso monetario, e da sua sciencia algarithmica.

Os brazileiros tinham-o como um corypheo da arithmetica.

—Entende de cifras como poucos, dizia-se—e depois este tem que perder, não é para ahi nenhum barlavento; nome respeitado na praça,—

e rodeavam-o, procurando saber a sua opinião sobre o relatorio e contas da direcção, consultando-o como um oraculo,

—Que diz o commendador a esta embrulhada? eu por mim não sei o que quer dizer esta verba—e apontavam-lhe uma parcella a figurar no Passivo, que não harmonisava com o Activo—

—uma coisa inexplicavel, que ninguem era capaz de comprehender.—

O Mendes apostrophava—

—Macacos mi mordam si eu entendo isto.—

O commendador dizia prudentemente, com receio de raia:

—Elles explicarão logo isso, ein; é pedir a palavra e fallar... mas me não parece que o Banco vá mal; oito por cento de dividendo, ein; não póde dizer-se mau negocio.—

—Lá isso é verdade, vão elles dando e o diabo que os entenda—aventurou um bacalhoeiro da rua de S. João.

—Não é tanto assim, Snr. Araujo; se querem as cousas claras; no Rio se não vê um relatorio por esta fórma.—

—Isto as cousas cá mudam de figura, meu caro senhor.—{151}

—Qual figura, nem qual carapuça; não ha lá banco que não tenha sua escripturação em dia.—

—Isso tambem cá, meu rico senhor.

—Me diz aonde, se faz favor? tudo uma embrulhada; quer que lhe diga eu ao senhor aqui em particular, tudo isto é uma capiranga e ai de nossos capitaes! Se faz politica, aqui, em todos os estabelecimentos bancarios.—

—Isso me diga o senhor,—

e o bacalhoeiro lembrava-se, que elle já tinha recorrido ao credito n'uns embaraços sérios, fazendo pezar a sua influencia eleitoral.

A campainha da presidencia vibrou pela sala; homens irromperam dos corredores, descobrindo-se respeitosamente. Havia silencio.

O secretario procedeu á leitura da acta precedente, que uma inclinação de corpos sentados approvou por unanimidade. Dispensou-se a leitura do relatorio.

—Se algum accionista pedia a palavra sobre o relatorio e contas da direcção—perguntou a presidencia.

Um silencio geral, esperando todos que apparecesse o primeiro; mas ninguem, a larynge seccava-se-lhes n'um spasmo anti-rethorico; murmurios surdos se espalhavam.

—E ninguem, ora esta!—

Segredou-se ao commendador que fallasse, o Mendes apontava aquella parcella inexplicavel.

A presidencia repetiu a pergunta.

O commendador pediu a palavra.

Libertaram-se os peitos n'um ah de satisfação;

—até que emfim a cousa começava.—{152}

A direcção estava um pouco trémula, presagiando tempestade; mas o Jorge conhecia o commendador, era seu amigo, d'ali não podia vir grande batalha.—

O orador foi breve—

—que não tencionava pedir elle a palavra; mas que... no animo d'alguns senhores accionistas se apresentava uma duvida—

Muitos apoiados com vocalisação especial da Mendes—

—e essa duvida dizia respeito á parcella A que figurava no Passivo, sem a correspondente do Activo.

Muitos accionistas procuravam no relatorio a falta de harmonia notada pelo orador.

—que pois a digna direcção o esclarecesse a elle e á respeitavel assembleia, que se daria por satisfeito com essas explicações, e que no resto approvava o relatorio e contas e bem assim o parecer do digno conselho fiscal.—E sentou-se, a mão ageitando os oculos para encobrir o rubor congestivo das suas faces.

Apoiados resoaram.

O Jorge pediu a palavra por parte da direcção.

—Vamos a ver, o que elle responde; o commendador não é homem que se fique,—sempre quero saber a historia da tal verba.—

O Jorge narrou as circunstancias do Banco, a epocha da crise, a historia de transacções, as difficuldades monetarias, multiplicou cifras apontando para o relatorio, de que lia variados trechos, foi prolixo, d'uma claridade confusa, torcendo os espiritos n'um labyrintho de arithmetica, {153} e—concluia—tinha assim justificado aquella aliás justissima observação do seu amigo Commendador e da illustre Assembleia geral.—

Apoiados estalaram; o commendador declarou que se dava por satisfeito.

A presidencia perguntou se mais algum accionista tomava a palavra.

Então o Alberto levantou-se,

O Jorge olhou-o com sobresalto.

—que ia elle fazer, aquelle doido—e sentiu vontade de o fazer desapparecer, de o sumir pelo chão abaixo, como a um diabo das magicas. Os seus collegas interrogavam-o mudamente,

—que significava aquillo?—

mas elle encolhia os hombros

—estava absorto tambem, não podia dar a mais leve explicação.

Entretanto o Alberto principiara—

—que o não prendiam n'aquelle lugar considerações de parentesco ou amizade, mas visto que alguns snrs. accionistas punham em duvida a sensata elaboração do relatorio, elle como accionista que zelava acima de tudo os seus interesses, não hesitava em tomar parte nos debates.—

O Jorge estava cada vez mais enfiado; a direcção impacientava-se.

Mas o gesto largo de Alberto, a sua pose d'orador impunham-se á massa bruta dos accionistas.

—que estavam n'aquelles lugares—e apontava para a direcção,—homens d'uma probidade inconcussa, capitalistas respeitados, cujo nome nunca ninguem ousara macular com a mais leve suspeita,{154}

Muito apoiados—

—que melhor que ninguem elles tinham sabido atravessar com circumspecção e tacto financeiro a epocha da crise e a prova ali estava n'aquelle resultado final, os oito por cento de dividendo.—E tecia um largo elogio, palavrões sonoros, com uma grande fluencia de expressão.

Apoiados mais calorosos ainda de possuidores de acções.—Murmurava-se, como n'um applauso unanime—

—falla bem o rapaz, e entende da póda,—está dito—

Alberto continuava embriagado no seu triumpho—

—que não hesitava por isso em propor uma recompensa pecuniaria á direcção, e que se não dissesse que era o interesse de familia que o impulsionava, por isso que da sua proposta excluia o cavalheiro, com quem estava ligado por laços de parentesco.—

Mas o publico bradou

—que a proposta devia ser geral—

o commendador accrescentou até

—que todos eram dignos d'essa gratificação—e propoz ainda um voto de louvor ao conselho fiscal.—

O relogio batia quatro horas; a presidencia apresentou as propostas dos dous oradores e os accionistas approvaram

—queriam ir jantar, que os levasse o diabo a todos.—

O Mendes dizia cá fóra aos grupos que o rodeavam—{155}

—que a historia da parcella ninguem a esclarecêra.—

Grupos formavam-se de novo; um discutir incoherente e tumultuario contrastando com o silencio que tinham guardado lá dentro. Commentava-se o Alberto

—fallava bem, não havia que ver.

—estava mesmo a pintar para uma direcção,

—de vagar se ia ao longe—

E dispersavam-se na confluencia das ruas, contentes dos oito por cento,—que vinham agora mesmo ao cahir da faneca—dizia o merceeiro de S. João.

Trens rodavam subindo vagarosamente a rua de Ferreira Borges, um desfilar de população laboriosa que vai cuidar do estomago, burgueses pesados questionando aos bocados, caixeiros de escriptorio com rolos de papeis debaixo do braço.

O Jorge entretanto dava-se a si proprio os parabens por aquella revelação do genro—

—Isto bem aproveitadinho, não lhes conto nada—dizia para os collegas—

Se o rapaz quizesse entrar cá para o banco—aventurou um dos directores.

—Eu lhe fallarei, a cousa ha-de-se arranjar,—um papagaio de vez em quando convém.—E applaudia-se de ser elle o que lhe havia feito já a mesma proposta, mas que n'esta occasião occulta,

—era sempre conveniente; são elles os agradecidos.—

E em casa, quando Ermelinda veio recebel-o ao cimo da escada, contou-lhe a proeza do Alberto,{156} muito satisfeito, alegre com a desopilação d'aquelle peso do relatorio e contas, a gratificação a entre-sorrir-lhe no meio dos seus embaraços.

O Alberto deu-se uns ares de modestia recolhida

—que outro qualquer faria o que elle fez; nada de extranho a final; tinha ouvido uns zuns-zuns de vespas importunas, aquillo indignara-o e resolvera-se a fallar, eis ahi estava.—

Ermelinda olhava-o com uma admiração mais terna; parecia-lhe aquillo um feito de semi-deus, erguia-lhe o culto fetichista dos heroes; e julgava-se reflectida no esplendor d'aquella acção, uma emphase vaidosa de ser sua mulher, de lhe chamar seu, eternamente seu. E as nuvens que até ahi tinham assombreado o ceu da sua união pareciam-lhe agora desfazer-se, como as neblinas tenues da manhã, deixando clarear um horisonte aberto, d'uma grande pureza luminosa.

E o Alberto, contente de si, applaudindo-se na execução da sua inspiração:

—Boa ideia, com os diabos, a cousa ha-de seguir naturalmente, fui feliz, a questão é de aproveitar a maré, isto é melhor do que a roleta; os pontos teem a mais um pouco de dinheiro e uma dose de parvoice.—

Sonhava especulações estrondosas, que o enriquecessem em pouco tempo, um el-dorado onde podesse ser invejado, dar as leis no mundo financeiro, no mundo argentario. Atirava com a imaginação para um vasto horisonte d'ambições, fazendo-a descrever uma curva vertiginosa e{157} brilhante, vendo-se respeitado com um grande poder, rodeado de todos os voluptuosos contactos do luxo; viagens ao estrangeiro, prazeres d'uma variedade infinita.

Estas ideias que elle communicava a Ermelinda inflammavam-os a ambos n'uma ambição mentirosa, o espirito desviando-se da realidade espinhosa das cousas praticas, e gastando por isso largamente, agora mais desaffrontados porque o Banco lhe dava um bom ordenado, atirando-se a uma extravagancia de despezas, uma loucura que os estonteava.

O Jorge inquietava-se, receiava uma derrocada fatal; a especulação que bafejara tinha-se gorado; iam cada vez mais em peior estado os negocios do Banco—

—E ao Alberto não havia quem lhe dissesse uma palavra, um orgulhoso.—Demais a Ermelinda sentia-se no ultimo periodo da gestação, adoentada, umas syncopes frequentes, que a prostravam muito—o Dr. Roberto dissera que só melhoraria depois—era por isso necessario esperar.—

Mas todas estas difficuldades torturavam-lhe o espirito; possuia-se d'uma tristeza grande, agitado, pouco communicativo até mesmo para com a Joaquina,—que o aconselhava,—uma partidaria do Laisser faire, laisser passer.

—Coma e beba e leve o diabo paixões, senhor Jorge—

—fallas bem, fallas bem, se te visses n'ellas como eu—e o pensamento engolphinhava-se n'aquelle labyrintho de embaraços, que o iam{158} apertando como as malhas d'uma rede, uma accumulação consecutiva de difficuldades, que renasciam multiplicadas como uma fecunda geração de polypos, ao passo que ia cortando algumas.

Era menos frequente á noite no Club e quando apparecia, distracções imperdoaveis no wist faziam-o perder quasi sempre.

Comia menos, o seu vigor physico ia gradualmente diminuindo; appareciam uns achaquesitos, umas dores de cabeça que duravam dous a tres dias, a face cahindo n'uma pallidez doente; uma fraqueira no estomago.

—Uns caldinhos de substancia, é o que isso precisa—dizia-lhe a criada.—

Principiou a consultar o medico; o Dr. Roberto aconselhou-lhe tonicos, distracções, ares lavados do campo.—E ao jantar com uma grande fé meticulosa tomava uns confeitosinhos brancos, de ferro, que andavam muito annunciados nos jornaes do dia.—

—E talvez fosse flato—aventurava a Joaquina—

—Sim, tambem padecia!—e tomava á noite umas quatro pilulas catharticas de Ayer, lendo sempre com minuciosa attenção o folheto que trasia as explicações sobre o seu modo de emprego, affiançando o seu effeito salutar, tonico e natural, tendo a rara propriedade de serem innocentes e ao mesmo tempo efficazes.

Isto tranquilisava-o bastante.

—Se não fizessem bem, tambem não fariam mal.

Mas a saude, apesar das promessas do folheto,{159} ia entrando n'uma decadencia gradual. A D. Gabriella já fazia promessas ao Senhor de Mathosinhos e a Joaquina essa tinha mais fé com o Senhor da Pedra.

—Cacos velhos, cacos velhos, D. Gabriella.—

—Nem diga isso, credo, velhos são os farrapos—e lamentava aquelle derruir precoce de saude, onde iam as suas esperanças, como as heras que vivem radicadas nos velhos edificios e se destroem com a sua derrocada.

Alberto assistia áquelle esphacelar com uma secreta alegria intima, de quem se vê livre d'um fardo importuno.

—Seria mais senhor das suas acções, não teria aquelle Argus constantemente a vigiar-lhe os passos, e agora... bem se importava... tinha uma posição segura no Banco; os collegas do Jorge respeitavam-o... os seus planos realisar-se-iam em breve; e o velho não ia longe, não, bem se conhecia.—

XII

Ermelinda sentia-se agitada por uma forte impressionabilidade; amedrontava-a o receio d'uma maternidade dolorosa, consultava o medico amiudadas vezes, tomava conselhos com senhoras cazadas suas conhecidas.

—Quem lhe dera já ver-se livre d'aquelle perigo—dizia—e ia entretanto occupando o pensamento com o enxoval do seu bebé, um enxoval rico, umas rendas finas a enfeitarem as camisinhas, as pequeninas saias, os vestidinhos de passeio.{160} A Joaquina aconselhava com o bom senso pratico das filhas do povo—

—que era preciso tratar das envoltas, das flanellas, de cousas que agasalhassem e trouxessem a creança sempre fresca,—

—Tu sabes lá o que dizes!...

—Pois a senhora verá... para que lhe servem os bonitinhos.—

Mas os bonitinhos encantavam a imaginação da futura mãe; via a sua filhinha,—havia de ser uma menina—toda aceiada no collo da ama, uma capa branca de fustão cobrindo-a toda n'uma ondulação macia, a touca de rendas circumdando, como uma auréola, o seu pequenino rosto de cherubim, d'um côr de rosa pennugento;

—passearia com ella no Palacio á hora da musica, nos formosos dias de primavera que vinham a despontar, quando o sol, como um bohemio alegre, fatigado do ar soturno do inverno, se rebolasse a sorrir na limpida atmosphera azul.

—por-lhe-ia o nome de Rosina, um nome poetico, celebrado nos romances, uma heroina por quem se inflammara no capitoso aroma da paixão o coração do conde de Almaviva.

—E a sua Rosina, seria linda, não admittia a possibilidade d'ella ser feia... nem mesmo tinha a quem sahir—accrescentava n'um confronto vaidoso da sua e da plastica do Alberto.—

Via-a depois com a gracil formosura dos oito annos, vindo toda ladina do collegio, já uma senhora feita nos ditos espirituosos, uma precocidade nubil de namoros, e entrando mais tarde nos bailes, invejada como ella o fôra, requestada{161} pelos mais elegantes, chegando a causar delirio na impetuosidade das walsas.—

A despertal-a d'estes embevecimentos a natureza annunciava a approximação da crise por vagas dores contrativas, e toda ella se recolhia n'um receio pueril, com panico de morrer, a imaginação a figurar-lhe casos muito funestos.

—Não, que não era nenhuma brincadeira—e consultava a Joaquina, tornara-se até mais amoravel para com ella, exigia a presença do pae, do Alberto, do Doutor.—

Riam-se muito, consolando-a, esforçando-se por lhe communicar uma alegria desafogada.

—Nem que estivessem agora todos os perigos reservados para ti.—

—Pois sim, tambem não dizia isso, mas só Deus sabia.—

O Alberto não comprehendia aquellas flebeis impressionabilidades de espirito doente.

—Isso era nervoso—dizia n'uma formula generica, que para elle abrangia todos os casos—e recordava-se de que a Annita andara a pé quasi até ao fim, que nunca tivera aquellas exquisitices, a Magdalena viera na occasião e as duas, lá no quarto, tinham-se arranjado dentro de meia hora.—Aborreciam-lhe aquellas pieguices, aquellas puerilidades, um enfado por todas aquellas exigencias d'ella, dando-lhe mesmo vontade de romper abruptamente—

mas soffreava as suas manifestações de irritação, era preciso contemporisar,

—o diabo ás vezes tecia-as—o Doutor recommendara tranquilidade d'espirito, a coisa era por{162} pouco tempo, deixar correr, não queria responsabilidades.—

A crise dolorosa manifestou-se; foram chamar a parteira, a D. Anna Cardoso, uma loirita baixa, que tinha residencia no hospital e que o Dr. Roberto indicara como muito habil.

—que se não affligisse, o parto promettia ser bom,—e fallava baixinho á Joaquina, fazendo certas recommendações.

Ermelinda contorcia-se, uns gemidos entrecortados, o rosto a empallidecer.

—Então, um bocadinho d'animo, descançasse um poucochinho—e deslisava a mão por baixo da roupa, n'um auxilio de contracções provocadas.

A Joaquina tinha perdido a sua placidez apathica, andava aparvalhada, nunca imaginara que a Ermelinda podesse assim soffrer. Curvava-se sobre o leito, um carinho de mãe,

—Não ha-de ter perigo, Nossa Senhora do Bom-successo lhe valha, já lhe prometti duas velinhas de quarta.—

Ermelinda continuava a gemer, um contrahir doloroso, as mãos segurando-se na cabeceira do leito, retesando-se, com grande violencia muscular.

A parteira annunciou o termo, curvou-se mais sobre o leito, e um vagido de creança, d'um timbre inimitavel, fez-se ouvir.

Ermelinda tinha ficado n'uma prostração apathica, syncopal.

O Doutor entrou, recommendou socego, fez-lhe engulir uma colher de vinho generoso. Despertou lentamente,{163}

—Então!?—perguntou—mas vendo o medico junto de si, sentiu-se confusa, um pejo do seu estado.

A Joaquina disse logo

—Uma menina, D. Ermelindinha, uma menina.—

—Oh, uma menina, tragam-m'a, quero vel-a.—

O Doutor sahiu.

Fóra o Alberto passeava lentamente; o Jorge sentara-se, os cotovellos fincados sobre uma meza.

—Não ha perigo; está a cousa prompta; foi muito feliz até, vamos lá, por ser a primeira vez... parabens—e o medico accendeu um charuto.—

Vou ainda para o escriptorio, ate ás quatro, se fôr necessario mandem dizer; a parteira é de confiança...

O Jorge alvoroçou d'uma alegria intima; parecia-lhe até que não sentira tanta, quando ha vinte e seis annos, lhe annunciaram a existencia d'aquella que agora o fazia avô.

—Um baptisado de pompa, ein!—

—Está dito—concordou Alberto.

Elle, por si, não sentira accelerar-se muito a sua emotividade, confrontava o caso um pouco analogo com o da Annita,

—era até um encargo que a gente tomava—e de mais a mais uma menina;—não via demasiado motivo para os parabens do Roberto.—

Mas apesar d'isto aquelle corpo pequenino, brando como uma gelatina, d'uma leveza de passaro, impressionava-o d'alguma fórma, parecia-lhe{164} uma como integração do seu ser, de que só agora conhecia a falta, e alguma cousa o agitava extraordinariamente, fazendo-lhe borbulhar dentro da alma uma sensação nova de carinho, como o rebentar inesperado d'um jacto d'aguas gazozas, que rompe a crusta da terra n'um determinado ponto. A emoção affectiva abria brecha na sua sensibilidade gasta pelos prazeres e pelo cynismo; dominava-se comtudo.

—Não lhe faltava mais nada que tornar-se piegas á ultima hora—

e accendia um charuto para distrahir de sobre si aquella ideia nova, que o envolvia como uma nuvem perfumada, de subtis aromas.


Ermelinda foi-se pouco a pouco restabelecendo. Procurou-se uma ama

—achava estupido estar agora a alimentar a creança—dizia Alberto—isso era bom para a gente do povo.

Ermelinda concordava—

—era realmente assim; fanava-se a belleza d'uma senhora, e depois uma creança tinha tantas impertinencias, seria sempre um empecilho, um estorvo a qualquer distracção.—

O Dr. Roberto contestou-lhe

—que era o melhor o leite da mãe, que muitas vezes se deterioravam aquelles organismos debeis com a alimentação d'uma mulher mercenaria.—

—Não, isso não, doutor; eu mesmo sou fraca,{165} escolhe-se uma ama robusta, o papá escreve para a Maia, assim não tem duvida.—

—Como V. Ex.ª quizer...—

A ama veio, uma aldeã vigorosa, muito palradeira,

—que tivera até de passar o filho d'ella pela roda só para servir o Snr. Jorge,—e então a menina, benzesse-a Deus, havia de ser uma latagona; nem a senhora a podia crear; o que ella precisava era leite, leite de sustancia—

e offerecia aos beiços da pequerrucha um seio farto, d'uma dilatação espapada de multipara.

Ermelinda deleitava-se em ver a sua pequenina a babujar n'aquelle peito que não tinha a brancura assetinada do seu,

—mas deixal-o, o que ella quer é leitinho—

e beijava-a depois, os seus finos dedos, com aneis de cobra, acariciando a face vermelha e enrugada da creança.

Sentia-se mais alegre, mais gracil no seu novo papel de mãe; a febre do leite dando-lhe uma ternura entre voluptuosa e morbida, que lhe aquecia o sangue ainda depauperado. Exigia muito o Alberto junto de si, rodeava-o com caricias, impunha-se e offerecia-se, uma doudice de creança, as vibrações nervosas d'uma impressionabilidade doentia.

—Elle porém não estava para a aturar,—até ali contemporisara; mas era de mais!... enfadavam-o já aquellas momices!... E depois a nostalgia da reclusão, do banco para casa, de casa para o banco e isto por causa d'ella, para a{166} não perturbar no seu estado grave! Mas isso acabara—

e repulsava-a com desabrimento, a sobrancelha sempre enrugada, um tédio por aquelle regimen de prisão cellular, um aborrecimento de ser cazado, a imaginação dourando-lhe os quadros da sua vida livre e licenciosa de rapaz.

Ermelinda pesava-lhe como um despotismo absoluto, um obstaculo invencivel ás suas aspirações de liberdade, á sua independencia pessoal; e d'ahi as revoltas repetidas contra aquelle jugo, questiunculas que os separavam, uma acrimonia em todos os actos que exigiam convergencia de reciprocidades.

Supportavam-se apenas; disputas incessantes se levantavam e aquella paz octaviana que durara pelo espaço do período grave d'Ermelinda, rompia-se agora a cada momento, em discordias muito tempo soffreadas, com uma effervescencia azeda, que depositava uma bilis odiosa no coração de cada um—

—mas era um viver infernal—dizia ella a cada momento,—

—É ir tendo paciencia, filha, nem tudo são rosas na vida de cazados—aconselhava o Jorge.

Porém aquelles queixumes d'Ermelinda amarguravam-o, ralavam-o d'uma mortificação cruciante; sentia-se cada vez mais adoentado, os embaraços pecuniarios cercavam-o, o vigor physico fallecia, e ainda por cima a filha, o seu idolo de fetiche, soffria d'um soffrimento irremediavel—

Lembrou-lhe o divorcio, chegou mesmo a fallar-lhe n'isso{167}

—mas era um escandalo, uma vergonha, fosse vendo se o levava por bons modos.—

Ermelinda tentou reconciliar-se; chegou mesmo a dar-se uns ares de martyr resignada, mas o Alberto

—achava estupido que lhe distribuissem o papel de tyranno de comedia—tinha phrases irritantes, d'uma grosseria mal educada, que a pungiam na sua delicadeza.—

Concordavam apenas n'uma tregua de harmonia, quando tinham de sahir juntos, alguma visita, um ou outro passeio, qualquer pequena soirée familiar... Ahi mesmo porém Ermelinda lacrimava-se com as suas intimas, aconselhava as solteiras a que não cazassem,—havia muitos espinhos que só a experiencia revelava.

E deposta a mascara com que se tinham afivellado para apparecer ao publico, a tregua rompia-se, um motivo futil os irritava, cada um querendo a superioridade da sua opinião, distanciando-se n'uma separação odiosa, enojados de se verem, de terem de se corresponder a cada momento.

Ermelinda principiou assim a ter uma aversão da toilette, do aceio; deixava-se ficar todo o dia com o penteador encardido da gordura dos cabellos, um desleixo de si, uma preguiça sentimental occupada em se lastimar.

—Não que valia a pena, realmente, estar a enfeitar-se para o senhor seu marido! nunca ella o tivera conhecido—

—e tambem era só para lhe fazer a raiva; só{168} porque elle gostava de luxo, é que ella se não vestiria.—

O Alberto ás vezes sentia ainda desejos de reconciliação; a natureza impulsionava-o, uns fermentos da paixão, que o tinha attrahido para a formosura de Ermelinda, levedavam no seu coração d'homem, tornando-o bom, momentaneamente acaroavel. Vinha de fóra com tenções conciliativas,

—dar-lhe-ia um beijo, recordaria com ella as venturas formosas do passado—combinaria planos sobre o futuro da pequena—

mas via-a desleixada, ainda com a roupa da manhã, bocejando de tédio, desabafando n'um mau humor de contrariada com a sua presença.

Enojava-o aquillo;—

—fizera-se porca de mais a mais—e a creança andava mal limpa, a ama só tratava de comer bem e de dormir, deixando-a n'uma immundicie revoltante, os olhos remelados, o babeirito sujo.

—Era impossivel! não estava para se encommodar,—a mãe que olhasse por ella, se quizesse—

E comia, n'um mutismo obstinado, uma ou outra palavra rapidamente proferida, levantava-se ao dessert sahia logo, ia tomar o seu café no Suisso.—

—Vê, papai, é isto e eu que o ature! não... tambem já é de mais... agora só lá para as duas da noite.

e vinha para o quarto lastimar-se, arremeçava-se sobre o leito, a cabeça occulta no travesseiro, lagrimas a desfiarem n'uma torrente impetuosa,{169} levantando-se com os olhos injectados, muito abatida e quebrada.

O Jorge, o cotovello sobre a meza, com um ar de compassividade, via-a sahir abruptamente.

—Quem o havia de dizer, Joaquina.

—Eu sempre o prophetisei; aquella cara nunca me enganou; e sabe que mais? o remedio é cada um para seu lado; olha agora o pandilha! a menina assim cae ahi doente e depois o verás...

—Mas que vergonha, que vergonha!

Todas estas sensações desagradaveis se infiltravam no seu espirito, desmoronando-lhe a firmeza e claridade, como as aguas salitrosas que arruinam um bello edificio. Fallava pouco, um esquecimento de si mesmo em meditações prolongadas, a fixação d'uma ideia a absorver-lhe toda a actividade do pensamento. Os seus padecimentos aggravaram-se, tomava muitos remedios depauperando-se com dietas obrigadas; apparecia um achaque pelo mais ligeiro motivo, a cabeça que tinha dores nevralgicas, o estomago que depunha os alimentos quando a Joaquina apresentava um prato novo, o figado que se opilava á mais leve indisposição.

Andava hypocondriaco, tinha distracções imperdoaveis, os empregados do banco chegavam a ter por elle um sorriso de commiseração, quando o viam errar a mais simples conta de sommar.

O commendador chegou mesmo a provocal-o a uma confidencia,

—Anda tão abatido o amigo Jorge!

—Vai-se andando, vai-se andando.{170}

—Trate de si, homem.

—Um pouco adoentado, realmente um pouco adoentado.

—Vão-se os anneis e fiquem os dedos, você me entende, hein... quem cá ficar que se arranje...

No espirito do Jorge esta phrase cahiu como uma gotta de metal em fusão.

—Quem cá ficar... ah, sim, ficava ella, se elle lhe faltasse de um momento para o outro... e sem amparo a pobre da rapariga, de mais a mais com a pequerrucha... n'elle nem queria pensar... estavam servidas as pobresinhas... ainda se lhes podesse deixar muito... mas as cousas estavam tão mal, os primeiros passos errados haviam sido como um meandro, que o envolvera... agora sim, era ver se lhe podia salvar algum bocadito... mas para isso só a separação de pessoa e bens... uma vergonha, Jesus, o que lhe estava reservado para o fim da vida.

Alheava-se n'estas considerações, um olhar espantado, d'uma tranquilidade triste, quando via a Ermelinda curvando-se sobre o berço da filha, fazendo umas festasinhas chilreadas á creança.

E a verdade é, que aquella familia se não desagregara talvez desde muito, porque tinha em Jorge um laço de cohesão, uma como columna a sustentar a estabilidade do edificio. Elle conheci-o; o Alberto respeitava-o um pouco, o seu interesse egoista a isso o obrigava,

—Mas se eu falto, se eu falto, que ha de ser de tudo isto?—

Esta ideia atravessava-o com uma tenacidade{171} impertinente de verruma; impunha-se-lhe a todos os pensamentos, pesava sobre elle como uma grande avalanche precipitando-se no declive d'uma serra.

Era necessario tomar uma resolução definitiva:—não, assim aquillo não tinha geito.—

O Alberto não se emendava; sacudia com hypocrisia o jugo despotico da casa, ia conquistando pouco a pouco a sua liberdade sacrificada. Uma noute por outra não apparecia; e depois, quando no dia seguinte Ermelinda, com uma ejaculação represada de bilis, abria o capitulo das recriminações, elle ao sentir-se culpado, tomava uma attitude acriminosa, abafava com a sua voz trovejante as queixas d'ella, revestia-se d'uma pose sarcastica, a palavra secca de ironias,—se tinha medo a menina havia de comprar um cãosinho.—

E não conseguiam reconciliar-se, obstinadamente mudos um para com o outro, olhando-se odiosamente durante dous ou tres dias até que uma futilidade qualquer os ia abonançando, supportando-se então, a paz calma dos vulcões suspensos.—

Mas as hostilidades abriam-se por um motivo ligeiro; questinculas pequenas surgiam, contradicções oppondo-se teimosas, mutuamente.

—É o cão e o gato—dizia a Joaquina ao vel-os de novo n'uma discussão quasi sempre futil.—

Havia já despedido a ama. A creança principiava já a balbuciar as primeiras palavras, as suas pernitas roliças tinham as hesitações dos primeiros movimentos; o Jorge sentia dilatar-se d'um{172} amor paternal ao ver a pequerrucha trepando-lhe pelas pernas, n'uma tenacidade em vencer aquellas columnas que se lhe afiguravam collossaes.

—Olha o diabrete, não chegas cá, ainda tens muito pão para comer.

A Rosina não desanimava porém, estendia o bracinho curto, queria apanhar-lhe a Suissa que voejava por sobre o collarinho, balbuciando a palavra—Avô,—chamando-o com imperio, querendo subjugal-o ao capricho da sua pequenina vontade.

Entrava n'esse periodo gracil da infancia, em que os mais indifferentes abrem um sorriso ás suas irriquietas travessuras, aos lampejos vibrantes das suas phantasias de baby.

Ermelinda approximava-se d'ella mais; exhultava porque tivesse passado esse longo estadio de trabalhos e canceiras obscuras, e habituava-se agora a vel-a como um pequeno figurino trajando o costume da sua phantasia, uma boneca que ella tinha de enfeitar pondo n'isso toda a sua vaidade de mulher e de mãe. O Alberto mesmo demorava-se um pouco mais depois do jantar, a carne feliz d'uma boa digestão, alegrando-se de ouvir chilrear aquelle passarinho as notas phantasiosas d'umas mentiras imaginaveis.

—Diabo da pequerrucha era mesmo um encanto—e como ella inventava umas historias sem pés nem cabeça.—

A Rosina parecia pois pouco a pouco ir estabelecendo a harmonia entre os dous; esqueciam-se de si, a attenção convergindo para a filha, surprehendendo-se até de se verem agora tão amaveis,{173} admirados de que houvessem adormecido aquellas disputas incessantes que até ahi os divorciavam em recriminações asperas e molestas.

Mas este periodo não se prolongou muito. O Alberto uma noite entrou tarde; por acaso o Jorge tinha-se encontrado mal. Ermelinda estava ainda a pé; e quando o viu chegar, uma esfusiada de ironias a atacou.

—Bonito, não tinha duvida! Tres horas da manhã!... em casa tudo tinha andado em afflições, e o estroina lá por fóra... nas orgias... um bello comportamento de homem casado... o pae doente, tão mal, sem haver quem fosse chamar um medico... realmente...

Encolheu os hombros, friamente, resistindo na armadura d'uma indifferença fingida áquelle assalto de palavras irritantes.

Mas ella continuou, um phrenesi insaciado:

—Isto só no inferno, só a minha paciencia! Mas é de mais, todas as cousas teem um termo.—

—Pois é procural-o—respondeu bruscamente.

—Olé se hei-de, pois que pensava o meu menino!...—

E cantava ironicamente o diminutivo, o corpo saracoteando n'um movimento de rotação, uma attitude de escarneo provocante.

O Alberto avançou para ella, apertou-lhe os pulsos violentamente, os olhos injectados d'uma colera animal.

—Tu não penses que brincas comigo! e sacudiu-a fortemente, com uma rudesa aspera.—

Ermelinda encarou n'elle com um olhar profundo de desprezo e de colera por se sentir fraca;{174} e depois o corpo enteiriçando-se, muito pallida, a voz com um timbre imperativo:

—Deixe-me, senhor.—

O Alberto largou-a, sahiu do quarto impetuosamente, os seus passos ouviam-se sonoramente no corredor emquanto ella atirando-se sobre o pequeno leito de Rosina.

—Oh, minha filha, como ambas fomos infelizes.—

XIII

No quarto de Jorge a luz mortiça d'uma lampada derramava uns tons lividos em todos os objectos. A roupa da cama, um pouco em desalinho, enroscava-se em volta do corpo do doente, cuja cabeça esbatida n'uma côr macillenta, revellava soffrimentos graves, irremediaveis, o corpo levantando-se nas almofadas, arquejando em movimentos rapidos, d'uma dyspnea violenta. O braço descarnado, com a brancura da camisola a envolvel-o, procurava a pequena escarradeira de porcellana que Ermelinda lhe apresentava com um carinho muito affectuoso.

O commendador, sentado n'uma cadeira aos pés do leito, tinha uma attitude gravemente composta, d'uma embecilidade passiva em face d'um mal, que não podia remediar.

Pronunciava palavras de conforto, de espaço a espaço, uma grande oppressão d'aquelle meio taciturno, com volatilisações acres de mostarda e um cheiro de doença, que provinha da renovação incompleta do ar.{175}

A Joaquina entrava de quando em quando, com uma taça de caldo na mão, os olhos avermelhando-se na fricção de lagrimas absorvidas na ponta do avental, e sempre esquecendo um objecto necessario, a colhér para remecher o caldo, o guardanapo para limpar os labios, o copo d'agua que se lhe havia pedido, uma perturbação de sentidos que a alienava, fazendo-a entregar disparatadamente um objecto em logar d'outro.

Pedia a Deus:

—que lhe valesse—e sahia a cochichar umas resas, seduzindo a divindade e a patrocinação dos bem-aventurados com a promessa d'umas velas de cera, d'umas missas pedidas, d'umas voltas de joelhos em que flagellasse a propria carne em de redor da capella do santo invocado...

O Dr. Roberto dissera confidencialmente ao Alberto:

—que não havia esperança, e depois, aquelle espirito estava n'um abatimento grave, algum desgosto profundo o havia prostrado.—

Estas palavras queimavam-lhe a alma; tinha vontade de entrar no quarto do sogro, pedir-lhe perdão, prometter que d'ali para o futuro seria sempre o leal amigo d'Ermelinda, que podia morrer descansado e confiando n'elle.

Mas o Jorge entrava sempre n'um paroxismo violento, quando a sua figura assomava á porta do quarto, rosnava umas palavras entrecortadas, que mal se entendiam e depois pedia a neta,

—que lhe trouxessem a Rosina, porque não estava ali á beira do avô.—

Abraçava a pequena, beijando-a com soffreguidão,{176} os olhos avivando-se d'um brilho excitado,—

O commendador recommendava-lhe prudencia—

—que aquelles abalos lhe faziam até mal—e pedia a Ermelinda, que retirasse a creança, que era necessario presença d'espirito.

—e não chorasse, havia sempre esperança, emquanto havia vida.—

Ermelinda agradecia no seu intimo aquellas consolações, onde a sua fina perspicacia de mulher percebia um tremulo de amor e sinceridade!—Oh, quanto não seria mais feliz em ter desposado aquelle homem, que agora a ampararia, que a respeitaria sempre como um escravo, que teria por ella todas as attenções delicadas d'uma alma leal;—mas era irremediavel, estava unida ao outro!...

Ao outro, que differença no confronto!... Sempre fôra bem creança em se apaixonar pelo que suppunha ser o romance da vida!... Oh, como estava arrependida.—

Vinham-lhe estas considerações, velando á cabeceira do leito, emquanto o Jorge, n'uma intermittencia calma, entregue a uma somnolencia de prostração, dormitava brandamente, o vigor alquebrando-se n'aquella madornice comatosa, como um fio de azeite que se escoa lentamente por um orificio aberto no fundo d'um vaso, e o Commendador e o Alberto, conversando baixo com o doutor, na saleta proxima, rumorejavam agouros funerarios.

O doente teve um momento de allivio; a respiração tornou-se-lhe calma, o rosto socegado deixou{177} de se contorcer em contrações paroxisticas, a palavra, posto que branda, sahia com uma fluencia doce.

—Melhorzinho, ein—disse o commendador consolando-o.—

—Melhor, realmente! Isto ha-de ir indo, ha-de ir indo.—

—Coragem é o que se quer.—

O Jorge permaneceu calado; um pensamento agitava-lhe a imaginação.

—Se não fossem ellas, commendador!—bem me importava a mim a morte.

—Deixe essas ideias, ouviu, isso lhe prejudica.—

—Não posso, quer que lhe diga, não posso, levo-as aqui atravessadas—e apontava para a garganta, como se um obstaculo invencivel estivera lá collocado.—

—Mas então... se por fatalidade isso acontecesse, o que está muito longe de ser, ellas ficavam amparadas, ein!... quantas desejariam ficar assim.—

O Jorge quedou silencioso; dentro do seu espirito uma onda de verdade se agitava; mas o seu egoismo, a confissão do seu infortunio, um quebranto de cobardia sopesavam-o com toda a força. Depois, abruptamente, como quem atira de si um fardo pesado:

—Oiça, commendador; eu sei que é meu amigo; Ermelinda é infeliz, ella... coitada, digna de tão boa sorte... e depois sabe... o banco... ai, não posso, não posso... e uma dor sobre o coração fel-o contorcer n'uma agonia violenta, a{178} falta de ar reapparecia, a respiração agitava-se frequente.—

O commendador amparou-o, tinha palavras de consolação, d'uma sinceridade leal, n'aquelle momento em que presentia que um moribundo se debatia nos seus braços.

—Eu velarei por ellas, descance, não tenho familia, serão a minha, amigo Jorge, vamos... coragem, isso passa...—

Mas o doente abria desmedidamente a bocca n'uma ancia de ar, os olhos voltavam-se nas orbitas, no estrabismo da agonia, um apagar da scintillação da vida, as mãos avincando-se como que procurando alguem.

O commendador chamou para fóra.

Veio o Alberto, a Ermelinda, a Joaquina. O Jorge exhalava o ultimo suspiro.

—Meu pae, meu paesinho, olhe sou eu, é a sua filha, tem ali a sua netinha...

O Alberto teve uma phrase sonora.

—Já te não ouve, Ermelinda.—

Um deliquio sobreveio, o rosto impallideceu rapidamente, e cahiu nos braços do commendador, que a amparou n'uma grande atrapalhação carinhosa, o espirito desejoso de prestar todas as consolações de affecto áquella mulher, que pela primeira vez sustentava nos seus braços, na mais critica das occasiões, quando o corpo do pae ainda quente lhe parecia lembrar na baça fixidez do seu olhar cadaverico, que velasse por ella, por aquella desgraçada...

Encheu-se de gente a casa; veio a D. Gabriella, a D. Clementina, a familia do Mendes, a Amelinha{179} Bastos; todas porfiavam em prestar os seus serviços, installando-se provisoriamente, rodeando Ermelinda de consolações banaes, e murmurando entre si, calculando o estado de fortuna em que tinha ficado, commentando a morte do Jorge, muitos incidentes miudamente accumulados—

—que ainda ha pouco tempo andava tão bom.—

—um homem que parecia que vendia saude—dizia a apaixonada D. Gabriella—ai, se me lembro d'uma cousa assim.—

A D. Carola Mendes insinuava:

—que talvez algum desgosto,... os negocios iam tão maus; ella d'alguma cousa sabia, o seu marido dissera-l'ho confidencialmente.—

—pois desgosto houve e grande—confirmava a D. Gabriella—mas quanto a isso, D. Carola, talvez não, aqui era sempre do bom e do melhor...—

—Onde se tira e se não põe, minha cára amiga...

A D. Clementina aventurou outra hypothese:

—Não ia por alli o gato ás filhozes, a cousa era outra...—

Mas a D. Carola não se dava por vencida.

—Pois se o Mendes m'o disse, menina.—

—deixasse lá fallar os homens, elles ás vezes não eram dos primeiros que sabiam as cousas; que tambem—accrescentava—não dizia que não houvesse certos embaraços pecuniarios, porque luxo, louvado Deus, era o que se via, um desaforo...—

—Lá isso era verdade.—{180}

—Mas aqui para nós a Ermelinda deu-me outro dia certas queixas; creio que o Jorge não vivia muito bem com o genro...—

—Isso até o mais cego o percebia—

—Vejam lá os passetes que elle fez; aquillo era tudo impostura, mas olhe lá agora, lagrimas, viste-as, nem eu!...—

Seguiu-se por unanimidade esta ultima hypothese,

—que o Jorge morrera d'um grande desgosto motivado n'uma forte questão com o Alberto, que os dois se não podiam ver, que isso estava provado á evidencia—

—quem devia saber pormenores havia de ser o commendador—lembrou a D. Gabriella.—

—sim, o commendador, esse devia saber—concordou a D. Clementina affogueando-se d'um carminado serodio.—

—mas aquillo era caixa fechada, não se descosia com facilidade.—

—a questão era de saber tirar os nabos do pucaro sem a gente se escaldar.—

—e realmente o commendador tinha o feitio d'um pucaro; havia de chamar-se d'ora em deante o commendador Pucaro.—

Uma risadinha abafada acolheu o dito; a D. Clementina riu forçadamente para fazer côro, mas lá no seu intimo mordia com ferocidade o espirito d'aquellas pedantes,

—umas tolas, capazes de festejar o pucaro... se elle lhes acenasse com a sua riqueza.—

Dentro, na saleta armada em camara ardente, o cadaver estendia-se na sua immobilidade, o{181} rosto lividamente esbatido na reflexão dos lumes de cera, de casaca preta, o chapeu alto sobre o ventre, o braço esquerdo rigidamente estendido ao longo do corpo. Um criado do armador espevitava as velas, com uma grande indifferença de habitué, fumando o mais voluptuosamente que podia o seu cigarro, em companhia do Christo, que o contemplava da sua cruz branca de marfim.

Um carro funebre parou á porta, um ruido surdo, de molas pesadas e lentas; e logo os mercenarios subiram, um tropel tumultuoso, phrases grosseiras em dialecto gallego.