Mas a Ermelinda ouviu-os; protestou, debateu-se nos braços d'Alberto.—
—que o não levassem, queria despedir-se d'elle, era a ultima vez que o via—e arremessada pela impetuosidade da sua dôr, entrou na camara ardente; os homens tiravam o chapéo que servira apenas ceremoniosamente e ella pôde ver ainda o cadaver, na sua lividez mate, um fio vermelho ao canto do labio, o nariz afilado.
—Meu pae—e cahiu n'um deliquio, as senhoras vieram, affastaram-a presurosas, com um grande carinho affectado.—
A Joaquina veio tambem; quiz vel-o sahir, era a ultima vez...
—e desatou a chorar, n'um largo pranto carpido, a voz rouqueando-lhe em gritos abafados, uma vontade de se atirar animalmente áquelle caixão, cingir nos braços o cadaver que lhe fugia e aquecel-o com os beijos da sua febre, reanimal-o para as efflorescencias da vida.{182}
—Meu rico patrãosinho, ai, meu querido sr. Jorge, que nunca mais o torno a ver,—tão meu amiguinho era!—
E na dilatação expansiva da sua dor, a pobre mulher recordava inconveniente as scenas recolhidas do seu passado com elle, e a alma quebrada n'uma saudade dolorosa:
—Nunca mais, nunca mais, tudo acabou ali.—
O Alberto percebeu a violencia d'esta saudade; as palavras da Joaquina revelavam-lhe o que elle apenas desconfiara e com um cynismo revoltante:
—Vá lá para cima, Joaquina, era melhor que se lamentasse mais a sós; não lhe faltará quem o substitua.—
E com um desprezo para aquelle morto que sahia e por aquella mulher que ficava:—
—Que bonita sogra me não dava o sr. director!—realmente, oh moralidade dos bons paes de familia!
Accendeu um charuto; foi recostar-se n'uma poltrona da sala de visitas, onde alguns homens estavam para lhe fazer companhia.
Fóra ouvia-se o rodar abafado do carro funebre, e uma claridade luminosa, proveniente das tochas dos que o acompanhavam, penetrou atravez das janellas meio cerradas, derramando uns tons amarellados por sobre a sala.
Sugeitos batiam na escada entregando cartões de visita e o Alberto, com uma vaidade orgulhosa das suas relações, ia mostral-os a Ermelinda, um pouco com o fim de humilhar de inveja as suas amigas.—{183}
—Um bilhete da Viscondessa de Romualdo para ti, menina—
—E outro do conselheiro Silva Monteiro.—
Ermelinda recebia-os com ar contristado.
—Coitados, são verdadeiros amigos!—e atirava-os para cima da meza, gloriosa dos brazões estampados, em que as amigas faziam uns minuciosos reparos.
Foi-se pouco a pouco esvaecendo a nuvem sombria d'aquelle drama de familia; os dias de nojo tinham passado e Alberto retomava as suas occupações no Banco; mas percebia que um certo desdem dos directores o envolvia, uma atmosphera de desconfiança, em que se não encontrava á sua vontade.
—Pulhas—dizia do alto da sua prosapia de imbecil—acham o osso um pouco roido! tenham paciencia... ainda tem muito que devorar!... mas não hão-de ser os unicos, eu lhes protesto; não, que não faltava mais nada.
E meditava um lance de mestre, a riqueza fascinava-o, uma sêde de vida ociosa e facil lhe acenava á imaginação ambiciosa.
—Agora de mais a mais estava livre do Jorge, livre d'uma vez para todo o sempre, não teria quem o estorvasse na sua marcha, era senhor seu, completamente seu, sem aquella peia que lhe vedava os passos.—
—Em casa mesmo tudo havia de correr d'outra maneira; até ali em qualquer questãosinha a mulher tinha logo apoio no pae, e depois a criada vinha tambem, uns grandes ares dominativos,{184} d'uma familiaridade, que se respeitava; mas a cousa ia mudar de figura... a Joaquina ia pôl-a no andar da rua, o mais pequeno motivo, uma questão qualquer... desejava uma creada chic...—
Ia a si destruindo tudo o que podesse lembrar-lhe o dominio imperativo do Jorge; esta ideia desafogava-o, fazia-o dilatar d'uma grande satisfação intima, e um dia, que uma indisposição o azedou com Ermelinda, ao ver que a Joaquina vinha intervir, como de costume, levando-lhe o conforto das consolações.
—Quem lhe deu a Você liberdade de se metter onde não é chamada?—
—Oh, senhor Alberto.
—Já lhe disse, não quero em minha casa quem mande mais do que eu e se lhe não serve, procure, estou farto de a aturar.
—E eu ao senhor; é já, é fazer-me contas e a porta da rua é larga...
O Alberto cresceu para ella—
—Não me fanfe, ouviu.
—O senhor pensa que eu lhe tenho medo.—
Esbofeteou-a; o temperamento molle da Joaquina prorompeu n'um soluço comprimido, Ermelinda interveio, patrocinou a causa d'ella...
—Nem quero ouvir fallar de tal mulher, contas e rua, já...—e sahiu da sala, um ar embofado de D. Quixote—
—Cá a espero no escriptorio.
—Oh, minha rica senhora—e abraçaram-se as duas, uma effusão tumultuosa de lagrimas, um adeus á convivencia de dezoito annos,—
—Tem paciencia, Joaquina, eu hei-de fazer-te{185} tudo que puder, mas que queres, tu bem o conheces—
—Ah que se não fosse a senhora e a menina!
—Então, mulher; olha, talvez a mais infeliz de todas seja eu...—
—E é sim, já se vê, que é; ai agora, é que a senhora as vai penar com aquelle carrasco... mas olhe que para si eu sou sempre a mesma... casas não me hão-de faltar, ainda outro dia a D. Amelinha Bastos me fallou, quando ahi esteve por occasião da morte do Snr. Jorge... ai que grande falta elle fez n'esta casa...
—Mas então com isso nada se remedeia!...—
Foi arranjar a caixa, veio entregar-lhe a chave,—se a queria ver—
—Oh, Joaquina que até me offendes com isso.—
O Alberto pagou-lhe pontualmente, despediu-a com um ar secco,
—Que estimava que fosse feliz.—
E viu-a partir seguida d'um gallego, que levava a caixa, respirando emfim por se ter desfeito d'aquella testemunha das suas humilhações, d'aquella columna de apoio em que ainda se encostava affectuosamente a alma de sua mulher.
Mas a Joaquina fóra, o eixo sobre que girava a menagerie das cousas domesticas, havia-se partido: criadas inculcadas por adelas principiaram a succeder-se, uma indifferença por tudo quanto pertencia á casa, reclamando a sua liberdade dos Domingos, roubando escandalosamente nas compras, namorando ás tardes com os criados visinhos.
Ermelinda enfastiava-se d'estas pequenas minudencias{186} de casa, confiara sempre na Joaquina e nunca se importara em dirigir a sua actividade n'esse sentido; e depois, agora que o tentava, que o seu instincto de menagerie se despertava, que tinha de pensar na educação da sua Rosina, um grande desgosto a minava surdamente, enchendo de tedio todos os seus actos.
O pae e a criada que quasi lhe fôra mãe, tinham-n'a abandonado, ficara entregue ao poder d'um marido, que principiava a detestar, a reconhecer como um tyranno insupportavel, a desmascarar d'aquella falsa douradura, com que até ahi encobrira todos os egoismos e todas as infamias; o caracter d'elle ia-se desenhando com uma nitidez de contornos assustadora e a cada revelação d'aquella alma tão vil o seu espirito recolhia-se como que dentro d'uma armadura crystallina, onde apenas se queria ver isolada com o sentimento da maternidade, o unico já agora que lhe restava.
Mas faltava-lhe a base d'uma educação solida; não sabia ter a tenacidade da lucta, um grande sentimento doentio a quebrantava, chorava como uma suppliciada diante das mais pequenas difficuldades que surgiam, orvalhava com lagrimas constantes o rosto assetinado da sua Rosina. O instincto da mulher levantava-se ás vezes como uma boa flôr que nasce por entre a aridez das urzes, mas o Alberto tinha sarcasmos crueis para aquelle rejuvenescer d'uma alma nova, murchava com o sopro das suas grosserias aquellas subtilezas perfumadas, em que o seu coração se desentranhava,{187} todo cheio de esperanças e de risos limpidos.
Vivia por isso desgostosa, um aborrecimento por tudo o que a cercava, repoltreada na sua chaise-longue, entregue á leitura d'um romance, deixando quasi sempre a direcção da casa confiada a uma creada que a illudia.
Gastava-se demasiado, o Alberto principiava a ter injurias insultantes,
—que não queria litteratas em casa, que era preciso uma California para sustentar aquelles esbanjamentos, que olhasse pela sua vida,—o dinheiro não se roubava.—
Ella replicava logo
—que o não estragasse elle lá por fóra,—para que tinha despedido a Joaquina, uma criada em quem se podia confiar!... só se queria que fosse ella varrer e cosinhar, não lhe faltava mais nada.—
Uma saraivada de insultos se trocava entre os dous; o Alberto sahia de casa para só voltar altas horas da noite, ella estancava-se em chorar, desgostosa por não ter um coração amigo, onde podesse entornar aquellas lagrimas que escaldavam o seu.
Foi n'uma situação d'estas que a D. Clementina a veio encontrar, n'uma visita á tarde,
—tinha ido ao Palacio, mas estava tanto vento, lembrara-se de vir passar com ella um bocadinho.
—agradecia-lh'o, estava tão só ultimamente.—
—e teu marido, menina, e teu marido?
Encolheu os hombros, as lagrimas a pullularem irrequietas por entre as palpebras.{188}
A possuidora do Tótó farejava um escandalo, um segredo de familia, um drama intimo de que ella ia ser a unica espectadora talvez.
—E até estás mais magra, menina, crédo! parece que não vives muito feliz.—
—As felicidades, D. Clementina, são boas para quem as merece a Deus.—
—Oh, filha! desabafa, tu bem sabes que isto aqui é um poço—e apontava para o coração—as amigas não se fizeram para outro fim! Não sei se te lembras da Vicenciasinha, que morreu envenenada, pois olha que tudo me contou e eu... bôa... calada como um pêto... isso assim é de te matar lentamente; desafoga, menina, não ha mal que não tenha remedio.—
Insinuava-se, offerecia a sua alma como um consolo anodino e bom, um balsamo que se entorna sobre feridas irritadas.—
—Não, não a deixaria sem que ella se tivesse aberto para com ella, fôra sempre muito sua amiga, desejava dar-lhe uma prova verdadeira d'isso.—
Ermelinda foi desfiando lentamente os espinhos do seu martyrio obscuro; sentia-se alliviada, uma oppressão que lhe deixava desafogado o peito, mais forte com as consolações affectuosas d'um carinho, que desde muito ninguem tinha para com ella.—
—Narrou as groserias do Alberto, a despedida da Joaquina, uma criada de dezoito annos, que a trouxera ao collo tanta vez, o inferno do seu viver atormentado, as altas horas da noite a que elle recolhia, a sua indifferença por ella e até pela{189} pequena, as revelações em que se patenteava a vilesa d'aquelle caracter;—
A D. Clementina benzia-se, interrogava minuciosamente, indagava com muita curiosidade.
—Oh, filha, eras digna de melhor sorte.
—então, que lhe havia de fazer... mas que dizia ella a tudo aquillo?
—Eu sei cá, menina, vai tendo resignação, vai tendo paciencia; os homens ás vezes teem d'estes rompantes, mas passa, passa, quem sabe até se andará por ahi mal encaminhado.—
—Oh, D. Clementina nem me diga...
—Pois olha que não é outra cousa, e hei-de-o saber com certesa; tu verás como sae certo, isso são favas contadas...
Entornava-lhe na alma o veneno do ciume, com um grande desamor cruel, fazendo alarde da sua experiencia em casos d'aquella ordem.
—Não era o primeiro, e depois olha quem!... se não se recordava d'aquella historia com a mulher do commendador Bernardo...; mas havia de o saber—protestava com empenho—e conversariam depois, viria agora visital-a mais a miudo, até lhe levava a mal que a não tivesse chamado ha mais tempo, as amigas conheciam-se nas occasiões.—
Ermelinda ficou como um doente a quem se acalma a dor com a ministração d'um veneno... aquellas palavras da sua amiga corriam-lhe na alma ao arrepio, como uma bafagem quente de verão, que respiramos mas que reconhecemos nociva; parecia-lhe que uma sensação extranha germinava dentro de si, crescendo com um grande{190} vigor luxuriante, assombreando com as suas folhas envenenadas o pouco sol que ainda sorria e lhe cantava.
Tudo lhe perdoaria menos isso—
A sua vaidade de mulher formosa crispava-se em revoltas instinctivas, e a lembrança de que uma outra possuia aquelle homem, que ella rodeara dos perfumes calcinantes da sua paixão, batia-lhe a alma como uma onda tempestuosa de ciume, pungia-lhe o orgulho em humilhações amarguradas.—
—Era talvez até a essa infame que ella devia o seu infortunio,—agora estava explicado tudo.—
As palavras da D. Clementina tinham sido uma revelação,—fizera-se a luz diante d'aquelle desvendar d'illusões—
—oh não havia que duvidar—
E relacionava todos os seus dissabores, todas as irascibilidades, todas as suas questões com Alberto n'aquelle principio de causalidade, attribuindo-lhe a origem dos seus males, do seu viver infortunado e amargo.
—mas vingar-se-hia! seria generosa e sublime, teria d'ora em diante para com elle todos os carinhos, todas as delicadezas, todas as submissões; seria uma lucta travada no desconhecido, sem que elle podesse penetrar a causa d'aquelle seu redobrar d'affectos; roubal-o-ia a essa mulher funesta, conquistando-o ainda com a sua belleza, com a força do seu ciume, com a energia de todos os seus direitos de esposa e de amante.—
E sentia-se agitada d'uma vida nova, o coração{191} alvoroçado, a alma fortalecida para aquella peleja, elevando-se aos proprios olhos pelo seu papel de heroina e de martyr, o orgulho de se não deixar vencer, a vaidade propria espicaçada.—
A D. Clementina voltou alguns dias depois.
—Altas novidades, menina, altas novidades.—
—então, dissesse, estava anciosa por saber—
—que lhe dizia ella?... era verdade, doia-lhe dar aquelle golpe, as cousas porém só se remedeiavam depois de sabidas,—
—já estava resignada, era a sua sorte—
—mas não valia a pena affligir; era a Annita, uma creatura á toa, aquella que ás vezes apparecia no S. João, sósinha n'uma frisa...
—São as peiores, D. Clementina, são funestas essas mulheres.
—e demais tinham-lhe dito que estava por conta d'um brazileiro, ainda lhe não sabia o nome, mas não descançaria em quanto o não soubesse.—
Expunha com muita verbosidade casos identicos, aconselhando pequeninos tramas, muito contente do seu papel confidencial, creando uns fóros de indispensabilidade no decorrer d'aquelle drama domestico.
—Fosse com ella o caso e veria.—
XIV
Por um d'esses phenomenos emotivos, de que só o capricho parece poder dar razão, quando se trata d'uma mulher, Annita, regalada na sua{192} vida feliz, as ambições saciadas pela profusão aurea do commendador, principiou a sentir em si um grande tédio nostalgico, desde aquella noute, em que no S. João tinha visto o Alberto, o binoculo fito na sua frisa, curvando-se depois para segredar com Ermelinda.
Vinham-lhe as recordações alegres do seu passado, buliçosas de vida e de enthusiasmo, dominando na fluencia da sua luz as manchas escuras, que lhe tinham feito conhecer o travor de tantas lagrimas.
Ao ver o Alberto com aquella mulher, que lhe chamava seu, experimentava um pequeno ciume, uma como que irritação da sua vaidade, um obstaculo que se levantava á exigencia d'um seu capricho.
—Quizesse eu e veriamos—dizia para se consolar, uma grande confiança no seu poder de seducção, os labios contorcendo-se desdenhosamente.
—mas não, não queria—argumentava, buscando na sonoridade das negativas um ponto de apoio em que firmasse a sua vontade, que se ia quebrantando..—
—era o que lhe faltava! agora que estava como n'agua!...
Scismava um pouco,
—mas tambem o commendador era tão aborrecido!... Ás vezes dava-lhe vontade de o enviar ao diabo para que o aturasse—... e era galante, uma pequena perfidiasinha...,—
O Alberto principiou a perseguil-a; offerecia-se com um grande cynismo indigno, apparecia-lhe{193} em toda a parte, passava vagarosamente recostado n'uma victoria de praça por debaixo da sua janella.
Resistira-lhe muito tempo, mas—elle era teimoso, ella não o ignorava—e pouco a pouco amollecia n'aquella resistencia de vingança.
—Alem d'isso escrevia-lhe, protestava-lhe que não era feliz, que nunca mais tivera um momento de santa alegria desde que rompera as relações com ella...
—já o tinha desesperado bastante, o pobre rapaz,
sentia uma necessidade d'aquellas convivencias estroinas, que o commendador condemnava, com o seu ar pacato, o bom conselho d'uma prudencia moderada,—de que os excessos prejudicavam a saude—e além d'isso mordia-a a curiosidade de saber d'Alberto as intimidades da sua vida, das suas relações com aquella outra, por quem elle a havia trocado, que lhe chamava seu com tanta segurança.—
E quando á tarde o Alberto passou recostado nas almofadas da victoria um sorriso lhe escapou dos labios, fugitivo como uma promessa de perdão, suave como uma esperança de paz.
Tiveram em seguida todas as palpitações quentes do romance; o Alberto vinha quando o commendador não estava, sahiam disfarçados para o campo, tinham as suas ceias no gabinete azul de mobilia estofada, quando a criada despedia o brazileiro sob o pretexto d'um grande encommodo de cabeça, de que a menina fôra acommettida.{194}
Annita achava tudo aquillo muito natural; partilhava o seu corpo entre os dous com uma rectidão segura de consciencia, como quem cumpre um dever de mercenaria e uma imposição do coração, espreguiçando a alma n'esta bonhomia deleitosa, contente por se ver rodeada d'um conforto, que tanto desejara.
O Alberto porém indignava-o aquella sociedade ignobil com o ouro do commendador; parecia-lhe pouco decente servir-se d'uma mulher que outrem sustentava, não porque elle achasse o facto indigno como um attentado contra um principio de honra, mas porque era realmente reles não poder sósinho sustentar todo aquelle luxo d'uma amante, ter de privar-se de certas liberdades, occultar-se timidamente como um estudante de dezoito annos.—
Meditava por isso um golpe de mestre; mordia-o a vileza das ambições de fortuna, e desejava ser rico dentro de pouco tempo, custasse o que custasse.—
Achava-se abjecto diante d'aquella secretaria, onde escrevia, quando no gabinete da thesouraria do Banco negociantes entravam e sahiam, ouvindo-se dentro o tilintar sonoro do ouro, os algarismos precipitando-se em accumulações estonteadoras.
—Tentou as falsificações d'umas lettras de cambio; a fortuna protegeu-o, ninguem deu por tal; a felicidade deu-lhe azas á audacia, procurou fazer a imitação d'uma firma que assignava uma lettra no valor d'alguns contos de reis.{195}
Mas a direcção apercebeu-se a tempo; chamou-o ao gabinete.
—Estava despedido e não o mettiam n'uma cadeia por consideração para com a pobre senhora filha d'um collega.—
Empallideu. Nem podia dizer se era de raiva, se era de dor;—aquella despedida desbaratava todos os seus castellos doirados, sentia-se pusillanime diante da perspectiva da vida de tribulações que se abria na sua frente.
E quando chegou a casa, um forte abatimento o prostrava, quebrando-lhe toda a energia; annunciou a sua despedida ainda com um ar de ironia...
—Sabes, Lili, aquelles senhores do Banco, uns figurões honrados, despediram-me.—
—A ti!... perguntou surprehendida,—
—Sim, a mim, não lhes fazia lá conta; achavam-me demasiado tolo para comprehender as suas gentilezas...—
Ermelinda teve a boa coragem consoladora das mulheres dignas; parecia-lhe até que d'ora em diante o amaria mais, achar-se-ia com mais força para se sacrificar por elle e levantava-o na ara do seu coração por ter sido um homem honrado, que não quizera compartilhar as indignidades d'uns ladrões engravatados.
—Ora não te afflijas, seremos um pouco mais economicos, emquanto te não empregares de novo,—
Um enternecimento brando lhe dilatava a alma, acarinhando-o muito, beijando-o affectuosamente na fronte, a sua mão cofiando-lhe o cabello negro{196} como que a excital-o corajosamente para as novas luctas, a palavra derramando-se untuosa como um balsamo por sobre aquelle golpe da adversidade.
Adormentava-o na dor, communicando-lhe a grande força da sua fé, conscia de que praticava formosamente um dever, o coração sentindo-se transbordar de sentimentos meigos e carinhosos, com que desejaria n'aquelle momento alastrar o chão da sua existencia, tornando-lh'a suave como um velludo.
Mas o Alberto achava-se ridiculo n'aquella posição; mordia-o cada vez mais a inveja de fortuna, tinha sêde d'uma vingança estrondosa, em que podesse abater o orgulho dos ricos que agora se affastavam d'elle; queria sobre tudo humilhar—aquelles pulhas do Banco.
Quasi o importunavam os extremos de carinho que sua mulher lhe dispensava, e na sua imaginação excitada por aquelle insuccesso levantavam-se novos castellos de Hespanha, jogaria forte, o ouro viria como uma grande torrente que o innundasse:
—faria um partida valente aos honrados burguezes, o commendador seria a primeira victima, tirar-lhe-ia definitivamente a Annita, installando-a n'um luxo de bom gosto, pompeando com a formosura d'ella por sobre a gula concupiscente dos pelintras, que adornavam a porta do Suisso.—
Á falta d'uma occupação que lhe gastasse o tempo pavoneava-se pelas mezas dos cafés, pelas esquinas das tabacarias, n'uma grande ociosidade{197} vadia, commentando as pequenas intrigas de theatro, o escandalo ultimo, a marcha politica dos acontecimentos. E á noute a baeta verde chamava-o com fascinações irresistiveis; recolhia tarde, quasi sempre de madrugada, quando os lampeões principiavam a apagar-se, e que o movimento dos operarios começava ruidoso, o silvo agudo das fabricas vibrando atravez da neblina esfumada da manhã.—
Ermelinda esperava-o com mansa resignação,
—que lhe faziam mal aquellas noitadas, se não tinha pena d'ella que ficava tão sósinha,—que a Rosina tinha despertado duas vezes e perguntado pelo papá.—
Respondia-lhe com azedume, uma nortada rija,
—que o deixasse, não estava para a aturar.—
Cahiam-lhe no espirito aquellas palavras mansas e cordatas, queimando-o como um cauterio de dever, preferindo que ella tivesse aquellas resistencias asperas, aquelle tom acrimonioso das questões d'outr'ora. Julgava esta mansidão uma hypocrisia, um egoismo refalsado:
—Como não tinha o paesinho que lhe aquecesse as costas, era aquillo, tudo palavrinhas doces.—
E deitava-se brutamente fatigado, indifferente áquellas caricias que o provocavam, aos affagos da pequerrucha que vinha muitas vezes beijal-o com a alegria infantil das creanças, que despertam cedo.
Mas o jogo ia levando as economias de Ermelinda, o dinheiro escasseava, recorria-se um pouco ao credito; o Alberto protestava ressarcil-a de{198} todas as perdas da occasião e pedia-lhe as joias com uma suavidade lamuriosa,—
—que tinha entrado n'umas transacções que lhe dariam um lucro certo, esperava obter um emprego com aquelle dinheirito—fazia muitos planos, um futuro delicioso em que ella e a filha tomavam a maior parte.
—Levasse-as, levasse-as, oxalá déssem o resultado que elle desejava.—
Mas as joias entravam logo n'uma caixa penhorista; o Alberto jogava o dinheiro, pagava ceias, levava vida folgada emquanto durava o producto da venda.
Uma madrugada em que de vespera tinha empenhado uma d'essas joias, entrou em casa ébrio, cambaleando, uma phraseologia de bordel cumprimentando Ermelinda.
Foi preciso que a creada, juntamente com ella, o viessem auxiliar ao subir da escada. Mas elle protestava—
—que não estava bebedo, apenas um poucochinho entrado—e pedia um beijo á criada, uma trigueira que parecia descender directamente do chimpanzé, de feições largas, rindo maliciosamente d'aquelle pittoresco Noemico.
E já no quarto, a palavra balbuciante, pedia a Ermelinda:
—que se lhe sentasse nos joelhos, haviam de fazer uma pirraça ao commendador, os dois estariam abraçados quando elle chegasse. Uma grande risada, estendia os braços tremulamente para a alcançar, fallando-lhe com uma alegria inconsciente.{199}
—Sempre o mesmo demonio, esta gatinha parda, que viesse!... então... e a nossa filhinha, coitadinha da pequerrucha... que morreu—
e desatou a chorar, a embriaguez cahindo rapidamente n'um periodo comatoso, a palavra rareando, as phrases tartamudeadas.
Ermelinda sentiu uma pallidez branca invadir-lhe a face; revoltava-se de nojo perante aquelle homem, que via ébrio, patenteando na sua inconsciencia a alma lodacenta, que ella porfiava em regenerar, em attrahir para si.
—Oh, não, não era possivel, tudo estava acabado para ella.—
Mas ao mesmo tempo que se revoltava, sentia uma grande commiseração por aquelle desgraçado, uma vontade de se sacrificar para poder salval-o, um desejo sincero de perdoar, amando-o muito.
—Quem sabe, ás vezes qualquer cousa lhe podia fazer mal. Esgotemos o calix até ás fézes, tratemol-o bem, tem-se visto tantos exemplos...—
Armava-se com raciocinios pacientes, encadeando-os logicamente, tirando do seu coração de mulher energias com que resistir e vencer aquelle estado, que se lhe affigurava anormalmente transitorio.
O Alberto porém ia perdendo o respeito pela casa; repetia a miudo aquellas scenas de embriaguez, principiava a ser grosseiro, d'uma grosseria enodoada de taberna.
A sua paciencia de mulher esgotou-se, recalcitrou fortemente, impugnou-o com azedume.{200}
—Até que emfim a santinha arremessava a capa—respondeu-lhe com ironia.
—que não era santa, estava bem longe de o ser, mas que a paciencia tinha limites, um grosseiro, isto fazia desesperar,—
—que repetisse, que repetisse,—e crescia para ella, a face affogueada na congestão do alcool.
—Não era elle que fallava, tinha desculpa.—
—Ah, não, não era elle, pois tomasse lá—e esbofeteou-a precipitadamente, arremessando-a contra um movel, animalmente feroz, a colera faiscando no seu olhar injectado, toda a serenidade perdida.
—Era um inferno aquelle viver assim, infame!—
—Não o irritasse mais, se queria os ossos direitos.
—Não, aquillo assim não podia continuar.
—Quando quizesse, até lhe fazia um grande favor.
—Se o meu papá fosse vivo!...
—Assobia-lhe agora, dize-lhe que te venha ca valer.—
Ermelinda empallideceu; e logo uma onda de sangue a escaldou, uma indignação que a suffocava.—
—Demais a mais cobarde, a insultar um morto que lhe tinha feito bem; era revoltante!—os seus pensamentos atropellavam-se, como creanças inscientes de um perigo, que se acotovellam sobre a aresta d'um precipicio. Debruçava-se sobre a sua dôr intima e uma grande escuridão sombria, onde{201} apenas lucillava humilde a estrella do seu amor de mãe, se estendia diante dos seus olhos.
—Era preferivel matar-se!—dizia.
Mas a imagem de Rosina levantava-se, como uma margarida branca a indicar-lhe a grande lucta da vida; e foi d'ali abraçar-se n'ella demoradamente, os olhos copiosos de lagrimas:
—Minha filha, minha pobre filha.—
Estas scenas continuavam; viviam mal, o Alberto, perdido uma vez o respeito por ella, usava d'uma violencia brutal pela mais leve questiuncula. Não queria que lhe exprobrassem o seu procedimento, e Ermelinda tinha muitas vezes de fechar-se no quarto com a filha para escapar á irritação da sua colera, do seu mau vinho. Um dia porém levou o insulto mais longe; foi o cumulo dos opprobrios para ella; trouxe-lhe a Annita, offereceu-lhe de jantar, fez com que Ermelinda a servisse, obrigando-a pela ameaça da força.
—Oh, era de mais, era de mais tambem—dizia amargurando-se, imbelle para romper com elle, para fazer valer os seus direitos, para se fazer ao menos respeitar dignamente.
—que lhe batésse, perdoava-lh'o já, mas apresentar-lhe aquella mulher em casa, obrigal-a a ser sua escrava, ver sobre o pescoço d'ella uma joia que fôra de sua mãe,—não, não podia resistir—
mas quebrava nas lagrimas a sua reacção corajosa, não sabia mesmo o que havia de fazer,{202} causava-lhe medo o ver-se depois isolada, sem forças para luctar, sentindo-se fraca e impotente diante do mundo que ainda talvez a condemnasse.—
Emmagrecia rapidamente, a sua formosura emmurchecida pelos dissabores e soffrimentos physicos, umas olheiras roxas occupando metade da face.
—Sahiria, iria tomar conselho com alguem, queria desabafar, não podia mais!—
E procurou a D. Clementina; encontrou-a a brincar com o Tótó, muito folgada na sua vida de solteirona, as carnes cada vez mais dilatadas n'um contentamento de nutrição feliz.
—Oh, mulher, tu parece que vens do Repouso!
—Antes lá estivera, que não seria tão infeliz!
—Desabafa, menina, desabafa.—
—Oh, Pulcheria—chamou para a criada—leve a menina e dê-lhe biscoutos—era preciso ter cautella em fallar diante de creanças—dizia prudentemente.
—E então a Rosina que era tão viva.—
—Pois por isso mesmo; então menina, conta lá.—
Fez-lhe uma confidencia completa; narrou-lhe dolorosamente a inutilidade dos seus enthusiasmos em o regenerar, as suas noites perdidas, as violencias de que era victima
—que visse,—e mostrava-lhe os braços com largas echymoses, como nodoas de tinta postas na tez assetinada.—
—Mas isso é um horror, filha, tu não pódes continuar a viver com esse monstro.{203}
—E ainda aquillo não era nada, que fosse vendo, que fosse vendo—descobria-lhe o corpo, n'um impudor precipitado, nodoas roxas apparecendo a macular a brancura da pelle.
—Mas eu tudo lhe perdoaria, tudo! a ultima, porém, que elle me fez, a de me levar a casa aquella maldita mulher, obrigar-me a servil-a, oh! D. Clementina, eu na presença d'ella não chorava, não lhe queria dar esse prazer; mas depois, quando estive só, as lagrimas eram como punhos, queimavam-me.
A D. Clementina enternecia-se, consolava-a com brandura, tinha para suavisar-lhe aquellas dôres palavras dôces, d'uma ternura lacrimosa, chorando tambem.—
—Mas nem mais um dia com esse homem! é tratar da separação, e isto já, antes que elle te dê cabo do que é teu e da tua filha; ainda que não fosse senão por causa da pequena, que está a ser escandalosamente roubada, e depois que exemplo!... bradava ao ceu.—
Ermelinda tinha objecções fracas, adversativas hesitantes...
—mas que diria o mundo...
—o mundo, ora não faltava mais nada; estar uma victima ali debaixo do jugo do carrasco e ainda por cima havia de fallar! que lhe importava a ella! Com elle escusava tentar a felicidade, era remar contra a maré.—
—sabia isso, mas tão só, que vergonha!... e depois que posição a sua! Nem solteira, nem casada!... Uma cousa assim!—{204}
Mas a D. Clementina tinha a coragem da reacção, communicava-lhe energia
—fosse ella homem e veria se a não fasia já assignar um requerimento ao juiz!... mas iria ella mesmo a um advogado! Não, que eu fui muito amiga de tua mãe, isto é,—considerou—ella era um pouco mais velha do que eu.—
—se eu tivesse pae, D. Clementina.—
—mas não tens, acabou-se, d'ahi não vem agora o remedio!... Descansa que eu ámanhã lá vou a tua casa; boa! eu te direi o que tens a fazer!...
Sentia-se contente do seu papel activo, uma solução rapida a todos os obstaculos, uma consciencia da sua imprescindibilidade, detalhando planos com uma volubilidade agitada, communicando-lhe uma excitação de energia, chicotando a sua mollesa hesitante e irresoluta.—
—Tu verás, tu verás como tudo ha-de correr bem! É preciso pôr termo a esse martyrio.—
E quando a Ermelinda sahiu, a D. Clementina sentou-se a uma escrivaninha, fez um pequeno bilhete n'uma calligraphia miuda e redondinha, e chamando a Pulcheria:
—Toma, vae levar isto ao hotel, ao Snr. commendador.
—Ao Snr. commendador!
—Sim, então, fica-te ahi pasmada se te parece!—
O commendador palitava os dentes, recostado n'uma cadeira de braços, muito satisfeito da sua digestão regular; o criado veiu:{205}
—que a moça da D. Clementina tinha entregado aquillo.—
—Me não larga a carioca—pensou o brazileiro.
E abriu o bilhete; uma pallidez leve o invadiu, ficou immovel; e logo, levantando-se, uma resolução tomada...
—que dissesse á criada, que lá ia já.—
Veiu para o quarto, releu de novo; a D. Clementina dizia-lhe:
«Peço-lhe o obsequio de me vir fallar immediatamente; trata-se de arrancar a pobre Ermelinda a um martyrio cruel.»
—Mas que martyrio será este, ein?...—
—o marido talvez... me recordo agora que o Jorge ao morrer me disia que ella não era feliz... ha-de ser isto, ha-de... pois cumprirei a minha palavra... apesar de que a gente metter-se entre casados... veremos, veremos... a D. Clementina me explicará!... É mulher para revolver meio mundo.—
E apresentou-se em casa d'esta; atacou-o ex-abrupto.
—Contei comsigo e parece-me ter feito bem...
—Oh, minha senhora!...—
—Eu lhe digo, se eu fôra homem, trabalharia só, assim não me é possivel.—
—Mas estou inteiramente á sua disposição.
—Trata-se de obter o divorcio de Ermelinda.
—Mas isso é negocio tão grave—atalhou o commendador.—
—Por isso mesmo é que precisa ser resolvido e de prompto... desculpe-me, eu nem lhe roguei{206} que se sentasse, mas tenho as ideias tão confusas...—
O commendador tomou logar no sophá; o Tótó rosnava roçando-lhe pelas pernas.
—Oiça, ella esteve aqui ha um instante; é uma martyr, a pobre creatura! se lhe visse o corpo... tudo são manchas de pancadas, nodoas negras que o senhor não imagina.—
—Mas isso é uma barbaridade!...
—É, é, e para evitarmos que um dia qualquer aquelle monstro a mate, é que a auxiliaremos na separação; é capaz de tudo o maldito!... E depois se fôra só isso!...
—Então ainda ha mais?
—Olhe, vai bebado para casa, altas horas da noite, insulta-a, injuria-a, tem-lhe dado cabo das joias, aquella casa está pela agua abaixo.
—Me espanta tudo isso que diz; não haverá exagero?!
—Exagero, exagero! Nós as mulheres só nos revoltamos, quando mais não podemos soffrer; se a visse ha pouco, como eu a vi, está mirrada a pobre da rapariga; não tem feito senão chorar!
—Me commove o seu estado, creia, D. Clementina!—
—Podera não, só se o commendador não tivesse coração!... E ás vezes parece não o ter—disse n'uma queixa d'amor não correspondido.—
—Oh, minha senhora.
—E sabe o resto, o que lhe fez aquelle infame!
—Pois mais!...
—Ouça e verá! Outro dia, elle anda para ahi{207} a trote com uma mulher á tôa, uma Annita, a quem chamam a Gatinha parda!—
O commendador compoz os oculos com uma certa precipitação, ruborisou-se-lhe o rosto n'um carminado subito; abaixou-se para fazer uma festa ao Tótó, a primeira que lhe fasia em sua vida.
A D. Clementina continuou:
—Pois outro dia teve o descaro de entrar com ella em casa, de lhe dar de jantar, de faser com que Ermelinda servisse a tal grande senhora.
—Oh, é de mais, é de mais—rompeu o commendador pondo-se em pé...
—Já vê que a pobre martyr não póde continuar a viver com aquelle verdugo.
—Não, não póde continuar, fez bem em me chamar; auxilial-a-hei em tudo o que possa; cumpro mesmo com um dever; o Jorge tinha-me dito que ella não era feliz, mas a morte veiu, não teve tempo de se explicar.—
—Pois ahi está tudo explicado.
—Infelizmente!... Mas ainda hoje eu irei fallar a um advogado, ein, e lhe protesto que ella se libertará d'aquelle despota.
O espirito do commendador nunca se sentira tão agitado, como desde aquella revelação da D. Clementina; por um lado, no seu coração uma chamma d'amor relampejava, inflammando na sua labareda todas aquellas recordações semi-extinctas que o tinham feito pensar em Ermelinda, como um ideal que se não attinge,
—o baile da casa do Mendes, as noites da sueca, o debruçar do seu corpo gentil nos braços{208} d'elle, quando o Jorge fallecera, esta scena sobre tudo, perpassavam-lhe na imaginação com um colorido quente e vivo, como se ali refervessem ondas tumultuosas de vapor, que não tivessem por onde se escapar.
E depois a revelação de que a Annita o trahia escandalosamente,
—ella, a quem elle tinha levantado da miseria, a quem dera sêdas e brilhantes, a quem montara uma casa com todas as commodidades do luxo,—para outro gozar, afinal—
—ah, era de mais!—protestava—e vingar-se-ia, vingar-se-ia estrondosamente, despedil-a-ia como quem despede uma escrava, sentindo apenas que não podesse cortar-lhe as carnes com um bom chicote, como no Brazil se fazia aos negros! e a elle então tirar-lhe-ia a mulher como uma boa desforra, desmascarar-lhe-ia aquella refalsada hypocrisia, daria uma publicidade grande á sua infamia, exhaltando a martyr, e depois quem sabia—talvez que no coração d'ella brotasse um perfume de gratidão e amor!... apesar de que a lei condemnava-a brutalmente a um celibatario perpetuo, uma lei estupida, que a collocava n'uma posição violenta e falsa, fechando-lhe a felicidade como um pomo vedado,—mas veriamos, veriamos.—
Foi d'ali ter com um advogado.
—Ella que requeresse, que requeresse, allegasse as violencias, os maus tratos, as infamias do marido, paragrapho 4.º do art. 1204 do codigo, elle dava-lhe já a norma, e não arrefecessem,{209} conhecia bem aquelle patife, um vadio que todos despresavam; se sabia a historia do banco,
—Não, não, ignorava...
—Pois tinha-se querido abotoar a creança, uma falsificação de firma, a coisa abafara-se em attenção á pobre senhora...
—Ainda mais essa!... se admirava de tanta audacia!...
—É como lhe digo, e não descanse, não descanse. E o melhor será tambem que ella requeira o deposito, o patife é capaz de acabar com ella.—
Sahindo do escriptorio do advogado o commendador começou a delinear o melhor plano de se desfaser da Annita; lembrou-se primeiro d'um lance dramatico
—elle iria, surprehendel-a-ia em flagrante, despedil-a-ia com violencia, seria inexhoravel, impetuoso como um tufão.—
Mas a prudencia aconselhava:
—que a cousa podia tornar-se escandalosa, com aquellas mulheres tudo era de esperar, depois um conflicto com elle, nada, nada, o melhor era dar ao diabo tudo aquillo, despedir-se por uma carta, não querer saber d'ella para mais cousa nenhuma; faria de conta que tinha perdido aquelles cobres, não lhe fasiam falta, graças a Deus! e livrava o seu nome de compromettimentos, era melhor, muito melhor...—
Onze horas da noite, a Annita recostada n'um sophá, o Alberto com a cabeça poisada nos seus{210} joelhos, o fumo d'um charuto a espreguiçar-se voluptuosamente, como um thuribulo que a perfumasse, sentiu a criada bater uma pancadinha na porta do gabinete.
—Que é?—perguntou contrariada.
—uma carta com toda a urgencia.
Levantou-se, o Alberto ficou a vel-a caminhar, um movimento gracil na linha dos quadris, os braços nús sahindo provocadoramente das mangas rendilhadas da camisa.—
—Então cartinhas a esta hora e urgentes, ah!... trahe o seu Albertinho, ora deixe estar.—
—Oh, filho, não me bacoreja coisa boa.
Annita abriu a porta; viu-se a criada a estender uma carta, e fechou logo, um saltinho de travesti indo poisar n'uma banqueta que estava aos pés do Alberto.
—Lê tu, filho.—
O Alberto tomou a carta.
—Eu conheço esta lettra com toda a certesa... vejamos a assignatura, ah, é de S. Ex.ª o commendador—disse ironicamente,
—que não pôde cá vir, oh, que pandega, dormes cá, está dito; vou dizer á Emilia que traga sandwichs e champagne.—
—Espera lá, espera lá.—E o Alberto ao lêr, sentia-se tomar d'uma pallidez desesperadora.—
—então!
—ouve:—«Minha Senhora»
—Ora essa, nunca me tratou assim.—
—não me interrompas, com todos os diabos!
—credo, que cara a tua!
—ouve lá:—«Sabendo do seu comportamento{211} indigno a meu respeito, envio esta carta como uma despedida formal na occasião talvez em que o seu amante a possa lêr.
Faria.»
—Bonito, sim, senhor!... Eu sempre esperei isto d'aquelle carioca! Não diz mais nada?
—Um post-scriptum.
—Ah, que diz?
—«P. S.—Tudo o que existe n'essa casa lhe fica pertencendo; não mais desejo que me procure.»
—Tó rola, eu procural-o depois d'uma d'estas!—
E enlaçando o pescoço do Alberto:
—Oh, filho, agora sim, que somos livres.—
XV
O commendador era d'uma actividade zelosa e multiplicada; conferenciava com a D. Clementina, consultava o advogado, fallava ao juiz, convidava o Mendes e o Dr. Roberto para membros do conselho de familia.
O Mendes ainda lembrava:
—a conciliação... seria bom concilial-os... aquillo ás vezes era o diabo.—
—Nada, nada, estava reconhecido que elle era um grande tratante; era preciso salvar a pobre senhora e a filha! que havia de ser da creança com aquelles exemplos! não lhe diria!—
—visse na que se mettia! por elle estava prompto a acompanhal-o.—{212}
O Doutor concordava tambem:
—era um triste remedio, mas era infelizmente o unico; ella ficaria n'uma posição falsa, evidentemente falsa, condemnada pela brutalidade da lei a um ostracismo perpetuo, inutil para a sociedade, como aquellas antigas martyres que morriam entaipadas, mas que se lhe havia de fazer? o indispensavel era poupal-a ao menos ás violencias d'um infame.—
Poucos dias depois ás onze horas da manhã uma carruagem parou á porta do Alberto...
Sahiram dous homens e uma senhora ficou ainda.
Eram o juiz e um escrivão.
N'aquella manhã o Alberto recolhera tarde de casa d'Annita; o seu espirito andava irritado com as contrariedades que de toda a parte o rodeavam, e cheio de um mau humor canalha tinha ainda pouco tempo antes espancado brutalmente sua mulher.
O juiz encontrou-a ainda com os olhos humidos de lagrimas, as palpebras inchadas.
O Alberto, quando o magistrado se fez annunciar, sentiu-se invadir d'um terror cobarde; foi todavia amavel, d'uma amabilidade ironica, quando teve de dirigir-se a Ermelinda,
—Se ella quer...
Ermelinda chorava, a Rosina chorava por ver chorar a mãe, e nos seus olhos limpidos, um espanto se desenhava como que adivinhando que alguma cousa de grave se estava passando.
Ermelinda hesitava; mas depois, como uma onda que se arremeça precipitadamente na praia:{213}
—Sim, senhor juiz, a fatalidade a isso me obriga; vou, acompanhal-o-hei, mas hei-de levar a minha filhinha!
—Prepare-se então, minha senhora, a sua filha irá com V. Ex.ª, a lei authorisa-me essa providencia; o seu deposito provisorio far-se-ha em casa da D. Clementina.—
O Alberto perdeu a serenidade.
—Eu logo vi que havia de ser esse bandalho.—
—Lembro ao cavalheiro que está diante d'um magistrado,—observou-lhe severamente o juiz.
Ermelinda sahiu para voltar logo; trajava de preto, um véo descido, as lagrimas a saltarem silenciosamente dos seus olhos, a filhinha pela mão,
—Então nós vamos embora?—perguntou a Rosina.
—vamos, filha, para nunca mais voltar.—
—quero levar então as minhas bonecas.
O juiz affagou-a:
—A mamã dará outras depois—
e voltando-se para Ermelinda:
—V. Ex.ª não quer mais nada d'esta casa?
—não, senhor juiz, estou prompta.
—n'esse caso partamos.—
A filha do Jorge sentia-se fraca, o espirito abatido diante d'aquelle momento, que ia cahir, como a louza d'um tumulo, sobre toda a sua existencia, apagando-a para a felicidade; a Rosina sentia tremer-lhe a mão e ao ver que a mamã continuava a chorar, os seus olhos d'uma candura d'anjo mareavam-se de lagrimas tambem.{214}
O juiz esperava, um ar sereno, de gravidade compungida.
Ermelinda fez um esforço; dirigiu-se ao marido, apertou-lhe a mão.
—Adeus, Alberto, sê feliz e perdoa-me!—
—adeus, senhora—respondeu seccamente.
A Rosina perguntou espantada:
—O papá não vem?
—não, filha, dá-lhe um beijo.—
O Alberto levantou a creança, beijou-a nervosamente, uma lagrima de emoção rolou precipitadamente sobre a sua face.
—Adeus, filhinha!...
O juiz interveio:
—Vamos, senhora, poupe-se a estas scenas dilacerantes.
Desceram a escada; o Alberto viu-os descer, a Ermelinda primeiro com a filha, depois o juiz, atraz o escrivão.
Uma voz de mulher, que vinha da rua, repercutiu na escada.
—Coragem, menina, estás livre d'esse monstro!—
Era a voz da D. Clementina. A carruagem rodou, n'um murmurio fremente de calçada.
Passada a emoção de momento, o Alberto passeava phreneticamente no gabinete.
—Então, ein, não fui comido! Tudo se conspira contra mim com mil diabos!...
Pensamentos de vingança, d'uma desforra estrondosa, lampejavam no seu cerebro escandecido; acalmava porém, reflectia:
—E agora era tirar de tudo o melhor proveito!{215} que a levasse o demonio! lá á pequena tinha-lhe um bocado de amisade, mas adeus, isso passava.—
Ideias se encadeiavam n'uma associação tumultuosa, e a sua reminescencia avivava as lembranças do passado, o namoro com ella, o casamento, que—tinha sido afinal um logro porque tinha menos do que elle pensava—
a sua lua de mel, as primeiras questões, o seu emprego no Banco, a morte do Jorge, a reconciliação com a Annita.
—eu fui um bocado violento, devemos confessar,—mas com um raio, não era para me fazer isto!—comparava-a com a Annita, que o tinha aturado um anno, vivendo na penuria, levando a sua dose, de quando em quando, e afinal uma mulher de cunho, amando-o sempre, uma escrava dos seus caprichos,
—e vou-me até lá, trago-a para aqui... e viva a Gatinha parda, com mil diabos; muito se vae ella rir de toda esta trapalhada!... parece uma comedia, hei-de lembrar ao Luiz Serra que faça de mim um personagem...—
Fluctuava já indecisa a imagem d'Ermelinda; esbatia-se na sombra diante da figura arrebicada e travessa da Annita,—que riria muito, e pediria champagne para festejar a sua liberdade d'elle.—
—Vida airada, e nem se lembrava de tal! já devia ter sido ha mais tempo.—
Não o commovia o isolamento da casa; habituara-se desde muito ao seu egoismo n'aquelle meio que quasi lhe era estranho; não sentia a{216} falta dos carinhos da espoza, nem das tranquinadas da filha que o aborreciam! O que elle queria era dormir, descançar, quando vinha de fóra,—aquelles seres que se moviam em volta d'elle affiguravam-se-lhe sombras fluctuantes, como as visões de sonhos incompletos! E agora parecia-lhe que tudo se havia desfeito, evaporado, abrindo a janella da sua gelosia, vendo entrar o sol da liberdade n'uma poeira luminosa e embriagante.
Foi d'ali direito para casa d'Annita; encontrou-a ainda na cama, uns habitos preguiçosos de cocotte, deshonrando-se, se tinha de por-se a pé antes da uma hora.
Sentou-se na margem do leito.
—Sabes Annoca, estou sem mulher!...
—sem mulher, conta lá isso—e sentou-se, o corpo recostado na almofada, a camisa de rendas finissimas cahindo n'uma voluptuosidade preguiçosa por sobre a redondesa dos seios, as espaduas nuas, o collo levantando-se n'uma linha correcta d'uma côr leitosa e velludinea.—
Narrou-lhe tudo minuciosamente, com todos os incidentes; e no fim a Annita, muito galhofeira, o corpo rebolando-se no leito, descobrindo-se n'uma provocação concupiscente.
—Ah, ah, oh, deixa-me rir; com que cara não havias tu de ficar, e dou-te os meus sentimentos, menino, dou-te os meus sentimentos; eu tambem estou sem homem!—
Ria muito, umas gargalhadas limpidas, espadanando-se de encontro áquelle caso tão serio, comparando a situação dos dous,
—nem de proposito, só a nós!...{217}
—mas que graça lhe encontras tu!
—graça, pois não tem!... a modo que ficaste com pena... a Gatinha tem ciumes, ouviste!...
beijou-o no pescoço, mordendo-o sensualmente, uma provocação excitando-o, cheia d'umas caricias felinas.
—E estamos livres outra vez, é como d'antes!... agora sim que me agrada isto!.... Vamos ser um do outro para sempre... valeu?
—Valeu, com mil demonios—e enlaçou-a nos braços, queimando-se na quente languidez d'aquelle corpo, o olhar esvaecendo-se n'aquella nudez appetitosa, d'um trigueiro rosado, uma pennugem negra maculando-a.
Alguns dias depois, no tribunal, em audiencia secreta, tinha logar o julgamento da acção, que separava definitivamente de pessoa e bens os conjugues Alberto de Sá e Ermelinda Jorge.
Estavam o Commendador, o Mendes, o Dr. Roberto, o Luiz Serra e o Guilherme, cazado com a Amelinha Bastos, e ainda o Juiz, o escrivão, o delegado do ministerio publico, os advogados.
Ermelinda estava com a filha a um lado, Alberto a outro, uns bellos ares contristados d'uma gravidade composta.
Recolhidas as testemunhas o juiz dirigiu aos dous palavras prudentes de conciliação, d'uma severidade amiga e triste.
Mas o Alberto protestou logo,—
—não, que pela parte d'elle não desejava tal{218} conciliação, seria uma indignidade, quando fôra ella que requerera o divorcio.—
Ermelinda por sua vez dizia:
—que bastava de martyrio, que esgotara o calix, não desejava de novo unir-se a elle; uma vez dado aquelle passo não voltaria atraz.—
As testemunhas então vieram depôr; a D. Clementina e a Joaquina especialmente foram eloquentes, d'uma convicção odiosa contra aquelle senhor, que era peior que um selvagem—dizia a ex-criada vingando-se d'aquelles bofetões, que a tinham despedido.
Os advogados fallaram, uma rhetorica eloquente, sobretudo o advogado d'Ermelinda, a quem o commendador promettera uma boa recompensa; e em seguida o juiz, os vogaes do conselho de familia, o ministerio publico, o escrivão recolheram-se a uma sala de conferencias, votaram a separação.
Depois, por um accordo reciproco, convencionou-se que a filha ficasse com a mãe, podendo ir visitar o pae todas as vezes que este o exigisse. A questão de bens tinha pouco litigio; o Alberto fôra desbaratando as pequenas economias do Jorge e alguma cousa que restava concordou-se, que ficasse como subsidio de alimentos e como dote para a pequena.
Vestida de preto, a Rosina pela mão, os olhos cubrindo-se de lagrimas, vexada no seu novo estado, cedendo ao peso da vergonha d'aquelle processo judicial, Ermelinda entrou em casa da D. Clementina, muito commovida, branca de marmore, a voz soluçante.{219}
—Tudo, tudo acabou!
—ou elle credo, nem que tivesse morrido alguem.—
—antes morrera eu, D. Clementina, teria sido mais feliz!...
—e a tua filha, sim, não me dirás? o egoismo não te deixa ver o que seria d'essa creança sem pae, nem mãe?...
—Tem razão, tem, é preciso viver para ella; ha-de ter mãe, já que não tem pae—protestou.
As lagrimas foram rareando; a commoção esbatia-se na vulgaridade dos accidentes chãos, como nuvem que se esfarrapa, aclareando-se, em pedaços do azul; o tempo ia derramando um balsamo doce sobre aquella ferida, cicatrisando-a, n'uma suavidade lenta.
O commendador visitava-a de quando em quando, sempre muito attencioso, um pequeno bijou para a Rosina.
—E porque não vinha mais vezes?—dizia a D. Clementina, entre suspirosa e affogueada.—
—seus negocios, seus negocios, mas não as esquecia, tudo que precisassem d'elle, era só dizer; não era homem de palavras, mas nas occasiões alli estava prompto.—
Ermelinda confirmava—
—que lhe era muito grata, se não fôra elle e a D. Clementina, quem sabe, talvez já não existisse.—
—e sabe noticias d'elle?—perguntou a D. Clementina.—
—mas seria melhor que não fallassem n'isso,—observava—fôra{220} viajar, segundo lhe tinham dito, creio que com uma mulher á tôa.—
O rosto d'Ermelinda rosou-se levemente; um rubor de ciume,—e os seus olhos quasi supplicaram ao commendador que a poupasse áquellas narrativas,—
—mas não fallemos n'isso, nem vale a pena,—obedeceu o brazileiro.—
Ia intrigado d'aquellas visitas, commovia-o o estado triste d'aquella mulher; uma onda de commiseração, que não estava longe do amor, principiava a enternecer-lhe fortemente a alma, com desejos impetuosos d'uma tyrannia cruel. Rareava por isso as visitas.
—não queria que ella perdesse por sua causa, e depois, apesar de não ter marido, tambem não podia casar com ella, uma estupidez da lei—
mas enviava á Rosina lindas corbeilles de flôres, bouquets de violetas, umas prendasinhas graciosas, que pareciam levar intenções significativas.—
—O commendador, realmente,—disia a D. Clementina—muito amigo é da tua pequena; nunca lhe conheci este affecto pelas creanças.—
—é d'uma bondade grande, lá isso é, e delicado, tem uma alma generosa debaixo d'aquella apparencia—disia Ermelinda—e ficava calada, um pensamento volteando na sua imaginação ociosa, de romantismo desilludido, pensando n'aquelle baile em que pela primeira vez tinha conhecido os dous, o commendador baixo e desgracioso, como um tronco de velha arvore, o Alberto{221} elegante e esbelto como um jasmineiro perfumado,—
—como as apparencias enganavam—suspirou.—
Mas a D. Clementina principiou a desconfiar d'aquelles elogios apparentemente banaes; uma pontinha de ciume a mordicava, umas picadas ao arrepio no seu sentimentalismo serodio, e tinha ás vezes respostas enviesadas, um pouco acrimoniosas, de quem está na sua casa, fazendo um favor e recebendo uma ingratidão em troca, isolando-se um pouco nos seus aposentos, pretextando visitas para deixar Ermelinda sósinha, dando-lhe a entender que lhe estava sendo pesada, picando-a no seu orgulho, como entendia que ella a picava no seu amor.
Ermelinda tragava em silencio aquellas desconsiderações que a magoavam,
—sim, que havia ella de fazer n'uma casa sósinha com a filha?... e depois as despezas! ali não pagava aluguer de casa, nem criada, isto já não era pouco!—
Mas um dia a Joaquina veiu visital-a, encontrou-a a chorar, quiz saber o motivo e ella então contou-lhe:
—as affrontas que soffria, um sorriso quando estava alguem, mas um mau modo quando estavam as duas, tornara-se impertinente, tinha respostas bruscas que offendiam, parecia que lhe comiam o pão tambem,
—pois é arranjar uma casinha, olhe, eu já agora não a deixarei; não me dou muito bem com a Amelinha, ella não é má, mas aquillo é um desgoverno,{222} é uma casa de Orates, ninguem se entende ali, cada um pucha para seu lado.—
Convencionaram por fim, em que seria a Joaquina que arranjasse a casa,
—uma casinha barata, retirada podendo ser; haviam de levar a vida, não tivesse medo—confortava a boa da criada.—
D. Clementina viu-a sahir com certa satisfação mal disfarçada.
—que não sabia para que ella fasia aquillo, mas emfim não a impedia, estava mais á sua vontade; e se precisasse d'ella, bem sabia;—
—nunca esqueceria as finesas que lhe devia, tinha sido uma boa amiga, mas não deveria abusar, não;—
—bem conhecia que lhe estava sendo um pouco pesada.—
—se eu fosse muito rica, menina—
—mas não se despedia dos seus favores, ia trabalhar, precisava de o fazer, e a D. Clementina tinha relações, valer-lhe-ia de muito, uns bordados, obras de cabello.—
—lá isso, podendo ella, estivesse descançada.—
Abraçaram-se, uns beijos lacrimosos,
—que se visitariam a miudo:—
Mas as visitas da D. Clementina rarearam; quando lhe perguntavam por Ermelinda, disfarçava mal o seu ciume outomniço, uns desabafos contra a ingratidão,—que a via agora poucas vezes—, realmente sahira-lhe uma rôlha.—
E a filha do Jorge ia pouco a pouco cahindo no esquecimento; nem a Mendes, nem a Bastinhos, nem as Gomes, nem as amigas do hig-life a procuravam{223} já. Alguma que o fasia era por curiosidade, uma vontadesinha de a humilhar, encommendando-lhe uns trabalhos futeis,—
—realmente era pouco decoroso conservar relações com uma senhora n'aquelle estado; a sociedade não via bem essas relações, sempre era uma mulher sem posição! E depois, o escandalo d'um divorcio!—
Retesavam-se n'uma honestidade pruriginosa, muito meticulosas na escolha das pessoas amigas, um grande respeito pela moralidade da opinião,
—não dava honra em verdade conviver com uma mulher divorciada.—
Apagavam-lhe com desculpas banaes a aureola de martyr, que n'um momento lhes dera o syncretismo do sentimento por ella e achavam que:
—deveria ter tido mais paciencia, não fôra tão mimalho, não se apanhavam moscas com vinagre—
O commendador mesmo, obrigado a partir repentinamente para o Brazil a fim de obviar a uma crise commercial, que o ameaçara, teve de cortar as suas vizitas, em face d'esta força maior.
E era assim que Ermelinda se via gradualmente rechaçada das suas relações, accommodando-se no seu isolamento humilhante, um desejo de ver as outras cahir tambem, azedando-se n'uma fermentação acre de vinganças miudinhas, uma aspiração malquerente para com a sociedade, que a repellia injustamente, a energia quebrantada, amollecendo n'uma lassidão vadia de temperamento, um grande desmazelo de si, a vida figurando-se-lhe{224} um fardo pesado, que tinha de arrastar no caminho ingreme da fatalidade.—
A filha sómente lograva purificar um pouco aquella alma que se corrompia; esquecia-se de si, como os pantanos se esquecem das suas aguas perniciosas, para alimentar a flôr luminosa de mocidade e candura, que se levantava como um lyrio, seivando-se no lodo d'um paul.
O trabalho rendia pouco, comia-se uma parte do pequeno capital, a Joaquina mesmo adoecera com a fadiga, e isto sobrecarregara o estado financeiro da casa; a miseria pairava, como um corvo, que se banqueteia n'um cadaver e Ermelinda sahia raras vezes, receiosa de encontrar uma antiga conhecida que lhe attentasse no vestido surrado, fóra da moda.
Emmagrecia, a sua formosura esvaecendo-se, como uma estrella que descora, o tom quente das faces substituido por um macillento doentio, de pobresa chlorotica de sangue, os bons alimentos que faltavam.
Perdia a energia para o trabalho e quedava-se ás vezes em longas contemplações scismaticas, um confronto do seu presente com o seu passado, a vida amargurada d'agora, com a vida facil e descuidosa d'então, maldisendo o seu destino, sem resignações corajosas para aquelle infortunio, que tinha de devorar ella só.
E apesar de que a imagem da filha vinha occupar, como um clarão amigo, quasi todo aquelle negror da sua alma, sentia que lá ficava ainda uma sombra, um vacuo que o amor de mãe não podia preencher, alguma cousa de desconsolador,{225} que deixava no seu coração um arrepio gelado, como a corrente d'uma noute fria que penetra n'uma sala quente, atravez d'um vidro partido. Uma aspiração se elevava d'uma precisão mal definida, fluctuante e incorporea, como que devendo encher aquelle vasio—
—Lembrava-se de que talvez a miseria lhe custaria menos se tivesse um companheiro que a comprehendesse e a alentasse, que tivesse para ella um sorriso amigo e carinhoso, que lhe incutisse força n'aquelle peregrinar atravez d'espinhos;—
—Via tantos pobres felizes!... justamente o seu bairro mostrava-lhe frequentemente d'estes exemplos; morava em frente de si um operario honesto, um ensamblador, que tinha pela mulher uma adoração fanatica; havia dous filhos, uma santa paz, o trabalho alegre como uma benção, e ás tardes, quando elle largava o serviço, via os dous no quintal, á sombra fresca d'uma ramada, bebendo tranquillamente pela mesma caneca de vinho, os pequenos a faserem hortinhas, uma bonhomia suave, que fasia lembrar um quadro hollandez, e depois o operario estender-se preguiçosamente sobre um banco de pinho, a cabeça no regaço da mulher, que o catava muito de manso, baixando-se a espaços para o beijar carinhosamente na testa.—
Não tirava os olhos d'elles e a agulha cahia-lhe da mão, a imaginação a pintar-lhe um quadro identico, em que ella tambem se baixaria para beijar a fronte pallida do seu marido, a Rosina{226} traquinando com as suas bonecas a um canto do jardim.
—Como fôra infeliz!... e era preciso tão pouco para se ter a felicidade—suspirava.—
Quasi tinha inveja áquella mulher honrada e áquelle operario honesto; affigurava-se-lhe uma injustiça aquelle contraste de paz em frente da sua vida de amarguras, e ás vezes, ao vêr que os dous sahiam do quintal, braços enlaçados, rindo muito, alegres do seu amor, uma bafagem quente lhe subia no peito, um desejo incoherente de se sentir beijada nos labios varonis, a reminiscencia avivando lembranças felizes d'outros tempos, a energia do seu temperamento despertando indomita, n'um esfusiar esteril e impotente.
Vinha-lhe porém adjunta a recordação do Alberto, e uma onda tumultuosa de odios represados a dilatava toda.—
—Nunca mais, odiava-o de morte; um pulha, um miseravel, um indigno que não quizera comprehendel-a, e que lhe tinha roubado para sempre a felicidade!—
—quando se lembrava que a sua filha era filha d'elle, quasi a olhava com desamor,!... mas não tinha culpa, a pobre creança.—
E ficava n'uma exaltação nervosa, um atropellamento de pensamentos chocando-se violentamente, frenetica, incoherente, passarinhando muito pela casa, respondendo asperamente á Joaquina, repellindo as meiguices da pequena, arremeçando com aborrecimento a costura, tomando um livro para logo o deixar, até que se ia quebrantando{227} este nervosismo, a excitação cahindo n'uma prostração apathica, que terminava sempre por um largo choro copioso, muito mansa e abatida, deitada de bruços sobre o leito, e fechada sósinha no seu quarto.