Foi n'uma occasião d'estas que o commendador, de volta do Rio de Janeiro, a veiu encontrar—
—tinha-lhe custado saber onde moravam agora, ein, mas afinal se tinha informado bem; e como iam, como iam, a Rosina estava uma senhora—
—coitada! tinha uma infancia bem desgraçada—
—n'aquellas idades o que se queria era brincar; mas ella, ella, que a achava muito transformada, se estava doente?—perguntava carinhoso—
—doente, não, iria morrendo lentamente, o mundo já para ella não tinha alegrias,—
—que deixasse lá, era nova! e depois a minina!—
Mas a Joaquina interveio.
—que não era verdade, não, que ella queria encobrir, que a D. Ermelindinha andava muito doente, nem comia, era mesmo um passarinho de magresa! e depois aquelle desgosto que a matava.—
—A gente se distrahe.—
—vão lá fallar-lhe nisso!...
—oh, Joaquina, cala-te por Deus,—
—eu cá não tenho papas na lingua; sabe Vossa senhoria, pois é como lhe digo, não que eu tenho-lhe amisade, isso é que ella não póde negar; não sou como essas visitas que alvoraram todas,{228} ninguem procura gente pobre!... E vai-se vivendo, Deus sabe como!—
—Joaquina... então...
—deixe ella dizer, deixe ella dizer.—
—e digo, sim senhor; se Vossa senhoria cá tivesse estado, veria como as cousas tem corrido!... Agora nem a D. Clementina por cá pisa, boa... tem medo que lhe peçam alguma cousa; pois se Deus quizer, emquanto eu tiver dous braços, não se ha-de occupar aquella sastrona!...
—Joaquina—interveiu n'um tom reprehensivo.
Mas o commendador pedia-lhe:
—que deixasse fallar, que deixasse fallar—a sua indole harmonisava-se com aquelles desabafos expansivos da Joaquina,—queria as cousas assim, não era homem do rodeios, pão pão, queijo queijo—e commovia-se d'uma compassividade altruista por aquelle infortunio, em que as via,
—Mas estava elle agora alli, não havia de ser assim—protestava—
—a Joaquina tinha-se sacrificado muito por ella, a unica pessoa que a não abandonara—dizia depois Ermelinda ao commendador.—
—boa criada, não as ha hoje assim! conserve-a, conserve-a sempre.
—sempre, só se ella quizesse deixal-a; era quasi sua mãe.—
O commendador resolveu desde logo modificar-lhe as condições do seu viver.
—mas que diria o mundo? não, não acceitava, em tudo se lançava veneno—
—mas não podia consentir, o seu amigo tinha-lhe recommendado a filha na hora da morte,{229} e depois, elle não tinha familia, dotaria a Rosina, já ella não tinha de que ter escrupulos.—
E principiou a enviar copiosos presentes, mobilia e comestiveis, um rodeio de confortos, sollicito em adivinhar-lhe os pensamentos, conta aberta na modista, uma submissão de escravo em todas as suas acções, alegrando-se de ver como Ermelinda se refasia, um pouco mais rosada já, engordando até, a nutrição sadia agradecendo os bons alimentos delicados, como a flor estiolada agradece o raio do sol que lhe faltava.
—E não tinha que agradecer-lhe, pelo contrario, elle é que se considerava feliz em poder-lhe fazer algum bem; cumpria religiosamente um dever, andava contente, não precisava de mais.—
Ermelinda porém enchia-se por elle d'uma suave gratidão; o sangue novo que a revigorava, entumescia-a de incongruentes desejos; adivinhava a alma do commendador e sentia-se feliz em ser assim amada, submissamente, como uma rainha, com a adoração respeitosa e fervente d'um fanatico.
—Como teria sido feliz, se o houvera desposado—pensava—que desgraça a sua, em ter conhecido o outro!—
—e elle afinal, a que podia aspirar coitado?!... que falsa posição a sua—como se lhe affigurava uma indignidade revoltante aquelle voto que a sociedade lhe houvera imposto com o processo de separação!—
—porque não havia ella de ser livre, poder amal-o, poder dedicar-lhe o seu coração tão cheio de boa gratidão, principiar com elle uma vida {230} nova, toda cheia de paz e de carinho, formando uma familia honesta e honrada!—
—que era ella afinal? nem solteira, nem casada, nem viuva! que lei infame!... e não havia justiça na terra!—
Um circulo de ferro a envolvia de todos os lados, estreitando, diminuindo de raio, esmagando-a dentro d'aquellas interrogativas sem resposta.
E ao commendador, por seu lado, uma nostalgia da vida, tenue como um nevoeiro, o ia invadindo;
—aquella mulher era o seu desejo, a sua felicidade, o seu bem! mas não abusaria, seria uma infamia! e entretanto a lei quasi o incitava, em face d'aquelle despotismo cruel, que tinha tyrannicamente roubado a liberdade áquella mulher... e porquê, não lhe diriam?... porque ella se tinha revoltado contra um bebado, um jogador, um patife que a espancava,—era um absurdo, realmente.—
—e entretanto, conhecia-o, não bastavam á sua natureza forte, aquelles idealismos cavalheirescos de Magriço, que o faziam sacrificar por ella; um grande tedio o aborrecia, aquella pura devoção não satisfazia a anciedade exigente do seu espirito.—
—E talvez que ella o não repudiasse, presentia-o, o seu olhar fazia-lhe agora mais mal do que nunca, quando o surprehendia a pousar sobre si n'uma quietação contemplativa e muda—
—era preciso affastar-se, vel-a menos vezes,{231} fazer-lhe todo o bem que pudesse, mas fugir, fugir a final de contas.—
Ermelinda vendo que o commendador distanceava as suas vizitas, sentia-se intrigada, descontente de si, accusava-se de não ter sido mais accessivel, o ar um pouco severo de quem obstinadamente se recusa.—
—E não, não era por isso—uma gratidão por elle a envolvia, como uma nuvem de perfumes, e sentia-se bem, quando pensava que d'ella dependia a sua felicidade.—
A sua saude revigorando-se, energias de temperamento se despertavam; habitos adquiridos se reaccendiam em desejos brutaes, instigando a carne, n'uma provocação petulante. E na incoherencia d'estas ideias, que ainda não se vasavam n'uma fórma nitida, a imagem d'Alberto extinguia-se, esvaecendo-se n'uma penumbra indistincta, sacrificando-se á imagem do commendador, que se destacava luminosa, em toda a pujança d'uma vehemencia indomita,—
E Ermelinda, costurando silenciosamente, o espirito a divagar em sonhos incoerciveis, via no quintal visinho a mulher do ensamblador, debaixo da ramada, a beijar carinhosamente o marido, e depois, quando vinham de dentro, ella a cantar, como um passaro alegre, umas trovas cheias de fogosa paixão peninsular, muito satisfeita de si, a voz crystalina revoando, como um trinado sonoro, no azul d'aquelle ar, onde volitavam as andorinhas que regressavam a saudar a primavera.{232}
XVI
Tinham passado mezes.
Uma lucta titanica, surdamente ferida, no mysterio concavo psychico das almas de Ermelinda e do commendador. Uma attração incoercivel os chamava, uma vontade de revolta contra o convencionalismo social, contra aquella tyrannia da lei que os expulsava da felicidade, como o archanjo expulsara do Eden, ferozmente, com uma brutalidade inquebrantavel, o primeiro par humano.
Vinham-lhes desejos de peccar, de bater de face aquella prohibição medonha, que os separava, de arrojar para longe o manto pudico d'uma honestidade eterna, a que a lei os comdemnara fatalmente.
Ermelinda estava mais gorda, o sangue vivo das alimentações fortes, o temperamento flammejante de exigencias, uma lassa morbidez quebrando-a na incoherencia insaciada e vaga de desejos, que se formulavam em pensamentos languidos.
Mudava muito de roupa, narcisando-se a miudo, horas esquecidas na sua chaise-longue, o jornal do dia cahindo sobre o roupão claro, que a desenhava toda nas suas formas appetitosas, o pésinho bamboleando no sapato bronzeado, com as fitas enroscadas como uma cobra nas columnas assetinadas da meia côr de cinza.
Percorria os olhos pelo jornal; gostava muito do folhetim e do noticiario. {233}
Um dia claro, de sol doirado, palpitava lá fóra, coando-se impertinente atravez dos stores de madeira; espreguiçou-se lentamente, bocejou, o jornal cahiu no chão, deslisando suave. Fez um grande esforço para o apanhar, o braço movendo-se lento, o corpo requebrado n'uma attitude madorrenta; mas de repente empallideceu; atirou o periodico com arremeço—
—Que nojo!...—e poz-se em pé, passeando para o lado contrario, como não querendo vel-o.—
Uma carruagem parou á porta.
—Quem seria?—e foi á janella muito curiosa, levantando um poucochinho o store, o pescoço curvando-se para ver melhor.
—Ah, o commendador!... e então que estava só, tinha de ir abrir-lhe a porta, a Joaquina fôra buscar a Rosina ao collegio... valesse-lhe Deus.—
A campainha vibrou; demorou-se um instantesinho em frente do espelho, anediou o cabello.
—E nem tempo tinha do se vestir! Jesus! recebel-o-ia mesmo assim de roupão, elle não era de cerimonia!—
E foi abrir a porta; o commendador entrou, trasia um bello ramo de rosas, e um embrulhosinho,
—uma lembrança para a Rosina—
—tinha ido para o collegio estava só em casa, mas subisse, ella ficaria contente ao vel-o, já não apparecia ha tanto tempo!...
As escadas terminavam; entravam no gabinete, ella tomava o ramo de rosas, d'um perfume vivo, muito aromaticas, um avelludado formoso de petalas sanguineas.{234}
—Que lindas rosas! É muito galanteador, na verdade!...
—Oh, D. Ermelinda!...
—Aposto que as trouxe do Palacio.
—Justamente, tinha adivinhado!—e sentou-se, o corpo cahindo pesadamente n'uma cadeira pequena, situada junto da meza de costura. Ermelinda dispoz as rosas n'um vaso com agua; collocou-as ao centro,
—gostava muito de flores! ella!...—e então que era feito d'elle, porque não apparecia,—disia n'um tom reprehensivo.—
Curvava-se para affagar as rosas, uma voluptuosidade em sorver aquelle perfume intenso, o corpo desenhando-se na justesa clara do roupão.
O commendador estava embaraçado; não sabia que responder; desejava ter n'aquelle momento a Rosina, que com as suas travessuras o tornasse menos timido, dando-lhe um tom alegre de creança.
—Viu o jornal no chão, apanhou-o; mas Ermelinda fez-se corada, teve mesmo um movimento brusco, disse-lhe zangada:
—Deixe o jornal; então não prefere conversar? se soubesse o que ahi vem!...
—Aqui?
—Ahi, sim, veja,—e apontou uma local do noticiario, a mão nervosa affagando as flores, emquanto o commendador lia baixo:
—CHRONICA POLICIAL—Foi encontrado em estado de embriaguez Alberto de Sá, sendo conduzido para o Carmo, onde teve de passar a noute.—{235}
—E então, que diz a isso?—perguntou com meiguice.—
—Coisas d'este mundo!... Uma desgraça!...
—Uma desgraça, sim, uma desgraça!—e principiou a choramingar.
—Então, vale a pena affligir; aguas passadas não moem moinho! o que lá vai, lá vai!...
—Diz bem, porque é livre! commendador!... mas eu n'esta posição falsa e condemnada.
—Livre, antes o não fôra!... Se soubesse o que me compunge o seu estado, se estivesse na minha mão fazel-a feliz...
—Oh, obrigada, obrigada—e tomou-lhe a mão com eternecimento, um tremor nervoso agitando-a, perdendo pouco a pouco a energia da vontade, um entorpecimento lasso quebrantando-a.
—Como seriamos felizes—balbuciou o commendador—e vendo que Ermelinda se calava, uma esfusiada de palavras lhe sahia dos labios, as imagens colorindo-se n'um fogo calcinante de paixão, que se libertava, a allucinação dos sentidos torturando-se no leito procusteano do prazer e do soffrimento, a torrente espraiando-se n'um desafogo perdoado, supplicas urgentes, que a commoviam, a imaginação atordoada diante da formosura d'aquella mulher, que fôra o seu sonho, apertando-lhe as mãos, beijando-as com soffreguidão estonteadora. Ermelinda levantou-se.
—Oh, não, não, é impossivel!
Uma risada christallina de creança explosiu á porta da rua. Era Rosina que voltava do collegio.
—Está zangada commigo?—perguntou o commendador entre confuso e meigo.{236}
Calou-se um pouco.
—Olhe, somos dous infelizes—disse apertando-lhe a mão,—que devo eu agora á dignidade d'um ébrio, que a policia levanta por caridade?... Se podessemos casar!...
—Mas é impossivel, bem vê, a lei tem d'estes absurdos, d'estas tyrannias inqualificaveis. É uma fatalidade!
—Sim, é uma fatalidade—e pousando-lhe rapidamente um beijo na testa, Ermelinda sahiu, deixando o commendador estonteado, um atordoamento que deslumbra, a alma larga não cabendo na estreiteza da palavra, que se paralysa.
Alberto e Annita tinham dissipado a mãos cheias o que lhe restara de tempos de maior conforto; liquidado o dinheiro dos moveis de cada um partiram para Hespanha e só quando a exhaurição da bolsa lhes annunciou a hora ultima d'aquella folia, é que então se resolveram a regressar a Portugal, delineando fortes planos de combate, resolvidos a luctar no meio que os conhecia, muito corajosos de vontade artificiosa. Mas a desillusão veiu depressa; os habitos da ociosidade haviam-lhe tirado a energia do trabalho, e os dous, recriminando-se mutuamente a causualidade do infortunio proprio, principiavam a aborrecer-se, supportando-se uma intimidade que se enraisara no vicio do passado, mas praticando cada um a sua independencia. Alberto passando a noute na batota e nos cafés, Annita passarinhando pelas{237} praças, e pelas lojas, acenando com os restos da sua belleza physica áquelles que um dia a tinham cubiçado.
A degradação veio pouco a pouco, uma decadencia embrutecedora, que embaciava as ultimas vibrações da dignidade, as roupas encardidas, a consciencia derreada, as nodoas das ultimas camadas alastrando-se por sobre os restos d'aquella fina elegancia.
Alberto embriagava-se frequentemente; o alcool era o seu amigo, a sua consolação, depois das noutes caliginosas do jogo, em que o azar o perseguia, com uma tenacidade medonha.
Embrutecia-se horrivelmente, a policia tomara-o já como incorrigivel, houvera mesmo umas pequenas historias pouco dignas, que o tinham compromettido com o codigo penal.
Resolveu ir com a Annita para Lisboa.
—Outra cousa, a capital!... batotas a cada esquina, aquelles inglezes a cahirem como patos...—
—E depois lá quasi não somos conhecidos—concordava a Annita—mas o peior era o dinheiro...
—Com os diabos, a sorte nem sempre havia de falhar.—
Effectivamente uma bafagem de felicidade o favoreceu. Vestiram-se melhor, partiram. Mas o dinheiro esgotou-se depressa; as desillusões vieram, foram cahindo, dissolvendo-se no grande meio, incapazes para a lucta, uma degradação rapida e miseravel.
O Alberto fes-se cocheiro.{238}
—gostava d'aquillo!... guiaria os cavallos dos outros já que não podia guiar os seus!...—
e quando as effervescencias do alcool lhe produziam visões extravagantes, um sorriso se abria na sua imaginação, sonhando-se n'um tylbury elegante, uma formosa parelha d'egoas normandas, a pelle de tigre cobrindo-lhe os joelhos, o pingalim traçando uma curva no ar tremente das vibrações da carruagem.
—Eh, lá, eh, eh!—gritava no sonho, uma incitação animada, parecendo-lhe ouvir um rodar vertiginoso de trem. Mas o entorpecimento da embriaguez passava, os olhos abriam-se a custo, e atravez das pupillas ainda esfumadas e baças do alcool, elle entrevia a enxerga do catre policial, ou as taboas cobertas de palha da cavallariça, os cavallos ruminando silenciosamente na manjadora.
—era bem estupido aquillo—disia levantando-se—e estava frio, precisava um golo de geribita, um copinho que matasse o bicho, que desse calor.—
De vez em quando uma recordação do doce conforto do passado, lhe atravessava a memoria já muito gasta; mas não eram as imagens de Ermelinda ou da filha, que elle entrevia; essas fluctuavam vagamente, n'uma indecisão de contornos apagados.
—bem se importava!... o que elle desejava era a boa cama, a boa meza, a chelpa sempre ás ordens para gastar! e a ellas que as levasse o diabo.—
O alcool ia fazendo estragos, a memoria esquecida,{239} a intelligencia apagando-se nas rudezas bestialisadoras da sua nova vida, do contacto dos vadios e das cavallariças; a Annita mesmo abandonava-o um pouco, fizera-se corista d'um theatro barato, e por isso cuidava-o menos, deixava-lhe encardir a roupa branca, aborrecia-se d'aquellas vaidades de o trazer limpo.
—que se arranjasse, o theatro tomava-lhe o tempo... e depois um brazileiro andava para cahir na rêde, quem sabe... talvez ainda podesse casar... era agora a sua ideia, bastava já de privações, e depois com elle nunca poderia fazel-o, era um homem casado... afinal.—
Uma commoção extraordinaria agitava os espiritos; alguma cousa de gigante, como o despertar de um povo, fazia palpitar o coração da patria; Portugal preparava-se para o tricentenario de Camões.
Chegara o mez de junho; os jornaes vinham cheios de noticias relativas á commemoração do poeta. A companhia dos Caminhos de Ferro estabelecera comboyos a preços reduzidos para Lisboa. Um formigueiro de povo esfervilhava em Santa Apolonia; os trens de praça alinhavam-se, convidando os viajantes. Illuminações no Tejo e no largo da Estação davam á cidade o aspecto d'uma creação feerica.
—Como era lindo, como era lindo!—dizia uma mulher que sahia da Estação pelo braço d'um sujeito baixo, todo envolvido no seu guarda-pó,{240} um bonnet de seda a descer sobre os aros d'ouro d'uns oculos escuros.
Chamaram um trem.
—Nos leva ao hotel Borges, ein, você sabe?—
Mas quando o cocheiro fechava a porta, um balão veneziano, ardendo, projectou um raio de claridade sobre o seu rosto.
Ermelinda escondeu-se na almofada, soltando um pequeno grito; tinha reconhecido o Alberto.—
—Boa gorgeta, ein,—dizia ainda o commendador com o corpo inclinado para fóra da janella.—
FIM