VIII
Trens de praça, os cocheiros com librés de luxo, iam-se pouco a pouco enfileirando na rua onde morava o Jorge. O povinho ia parando, mulheres sobretudo, desejosas de ver sahir o cortejo. Os convidados ainda com os sobretudos e já de luva gris-perle, as senhoras de vestidos de sêda, entravam e logo o director do banco com um sorriso amavel, d'uma cortezia palaciana, sahia a recebel-os, um bello ar festivo, a barba escanhoada, a gravata branca sobre um peitilho folheado, todo grave na sua casaca preta.
Tinha sempre uma phrase nova para receber os cumprimentos.
—Meus parabens, sr. Jorge.{91}
—Obrigado, amigo Mendes, sei que são sinceros!
Rodava mais uma carruagem e logo outro, entoando:
—Parabens, parabens!
—Recebo-os, como a mais amavel das felicitações—e sorria.
As senhoras todas subiam, queriam ajudar a vestir a noiva. Tinham o fetichismo das grandes occasiões. A Adelaide Mendes dizia que havia de ser ella quem pregaria o ultimo alfinete!—e todas queriam fazer o mesmo, as solteironas afim de serem as primeiras a seguir na via lactea do matrimonio.
No seu quarto a Ermelinda estava já vestida, o rosto afogueado n'uma vermelhidão casta; um largo espelho a reflectia com o seu vestido de faille nevado, d'uma scintillação velludinea guarnecido a flores de larangeira; iam pôr-lhe o véo, um largo véo de fino tulle branco!—Mas em antes as amigas rodeando-a, notavam uma préga que era necessario desfazer, encobrir... com um ramo, e uma elevação no penteado, que urgia modificar.
Davam-lhe os parabens com sorrisinhos maliciosos e ditos agudos, d'uma levesa picante, capazes de crestar o avelludado d'aquellas flores virgineas, que a engrinaldavam,—e a corôa, que a repartisse pelas amigas, não se esquecesse, para o noivo bastava a... outra—
A Adelaide Mendes disse que preferia a sua parte do bouquet;—
—ah! tambem, tambem!—{92}
—vai mais chegadinho ao coração—
E uns dedos rosados vinham logo ageitar o bouquet, um pequeno ramo gracioso, de flores de larangeira, que fechava o decóte do vestido, poisando sobre a curva do seio, com uma castidade toda timida, narcisando com a sua fina essencia a carne assetinada, d'uma alvura de camelia, onde poisava um formoso signal escuro, cheio de pequeninas provocações.
Estava prompta em fim. Nunca o seu espelho lhe parecera tão lisongeiro, como n'aquelle momento;
—Ah, era assim que ella se tinha sonhado nos seus devaneios incoherentes de mulher nova e moça!
—mas sentia-se nervosa, muito agitada; tinha sobretudo uma grande sêde!—
A Amelinha, disse-lhe:
—que tambem ella estivera assim, mas passava, não tinha duvida—e preparou-lhe um copo d'agua com assucar, que a Ermelinda tomou, curvando-se para não deixar cahir alguma gotta sobre a sua toilette de noiva.
A D. Carola, a esposa do Mendes entrou, um sorriso largo, a pronuncia brazileira:
—Vamos, meninas, são horas de conduzir minha afilhada—
—E elogiou-a,—que estava muito bonita realmente, era o mais formoso dia da sua vida—
—Eu sei, D. Carola! talvez o mais infeliz!—e abriu as palpebras a umas lagrimasinhas brancas, d'uma humidade crystallina, que rolaram {93} como pequenas perolas sobre os olhos negros, avelludados.
—Ora já viram, a menina a chorar—rompeu a Amelinha Bastos!—eu cá até me ri, podera não! se eu ia por minha vontade—
Mas a D. Carola reflectiu:
—que poucas deixavam de chorar, realmente a cousa bem pensada, não era para menos! mas que não havia nada mais lindo, dando-se bem...
Em baixo os convidados cercavam o Jorge, perguntando pelo Alberto, o noivo. Elle explicava:
—O casamento effectuar-se-hia em Cedofeita, era um pouco do tom, e o Alberto iria dar á Egreja com os seus amigos.
—E os padrinhos, os padrinhos quem eram?
—Da sua Ermelinda era o Mendes e a D. Carola.
—E do Alberto?
—Do Alberto, ah, do Alberto, era o commendador Faria e a senhora do Dr. Roberto Jocy, um amigo d'elle, muito intimos, uma senhora de esmerada educação, pertencente a uma familia ingleza.
A noiva desceu emfim.
Os homens olhavam-a com uma grande sensualidade hypocrita; trocavam-se sorrisos velhacos e ditos apimentados, que Paulo de Kock não despresaria. Tomaram logar nos trens. A D. Carola foi com Ermelinda, o Jorge ia com o Mendes. O cortejo principiou a desfilar em direcção a Cedofeita.
Lá estava o Alberto, o commendador Faria, um pouco pallido talvez e o Dr. Roberto Jocy, um{94} rapaz moreno, de physionomia insinuante e sympatica, a senhora, um typo esguio, de ingleza magra, com uma pronuncia incorrecta; e o Juca Mendes, o Alfredo Costa, o Luiz Serra, o Carvalhinho e outros ainda, companheiros da pandega, uns crevés perfumados; de penteados divididos em dous hemispherios, muito luzentes, os pequenos bigodes retorcidos. Conversavam nos claustros.
—Um poucochito magra, ein,—rapazes.
—Havia de engordar com as delicias do matrimonio—
—Respeito á moral da burguezia, meus caros D. Juans.
—Que estupida asneira fez o Alberto!
Foram entrando no templo; alinhando-se; o sachristão, com a sua batinha vermelha, d'um tom sanguineo, de carrasco, ia distribuindo brandões accesos, aos homens, ás senhoras, como se os preparasse para um sacrificio murtuario, de festas funebres. O povo entrava, collocando-se ao fundo, na penumbra escura do guardavento. Um cheiro de cera derretida se espalhava no ar e vozes ciciavam em commentarios de má lingua, de sensualidade rutilante. Por fim os padrinhos e noivos sahiram da sachristia, e os dous proximos um do outro, com um sorriso promettedor de felicidades nubentes, caminharam entre as alas dos convidados, até ao arco-cruzeiro, onde o padre, paramentado, com um livro d'orações na mão, os esperava, com um latim já velho auctorisador de caricias para mysticamente os unir n'um laço{95} eterno, indissoluvel, que nunca mais podesse desatar-se.
O padre enlaçou-lhes as mãos e ao pronunciar o «Ego vos conjugo» Ermelinda sentiu a face orvalhada, as lagrimas convencionaes da noiva romantica, que o Alberto recebeu com um sorriso leve, finamente desenhado nos seus labios vermelhos. O commendador Faria, sentia-se mal; bagas de suor frio lhe porejavam a fronte e o seu lenço de fina bretanha roçava-se sobre a pelle humida, absorvente, como uma esponja; um pensamento importuno, que se não sacode facilmente, penetrava-o com grande desespero seu.
—Mas que me importa ella a mim?—perguntava a si proprio—e insensivelmente os seus olhos cravavam-se em Ermelinda, toda formosa no seu vestido branco, um bello ar de virgindade pudica, como as esposas do Senhor nos dias de noviciado.
—mas, que raiva esta!... Ora, ora!...
E desviava os olhos, terminando em fitar um S. Miguel doirado, domando bellicosamente o velho Lucifer, d'uma cara angulosa, que o olhava, o pescoço torto, com um grande ar sarcastico.
—Podia ser minha, mas não é, acabou-se!... E desviava o pensamento para objectos communs, negocios que o interessassem, passeios que tinha destinado fazer; mas como um pendulo que se move em volta do mesmo centro, a ideia voltava tenaz ao mesmo assumpto, suppliciando-o, amargurando-lhe aquelles momentos, em que desejaria ter a mais santa tranquillidade.
Só a D. Clementina adivinhava talvez, no seu{96} ciume de solteirona, o que se passava na alma do commendador.
—Ah, mas era bem feito, não estava ella ali que se morria por elle... e agora, que felicidade... ficaria só no campo... Ermelinda era d'outro.—
A ceremonia terminou finalmente. Todos tratavam de a abraçar, cumprimentando, com uma chuva de felicitações.
Depois do casamento os noivos iriam para Braga, passar a lua de mel no Bom-Jesus.
—Era moda—dizia-se—havia tom n'este voejar de pombos livres para a solidão tranquilla das florestas.
Ermelinda foi a casa mudar de vestido e o sequito esperando-a, acompanhou-os até Campanhã, enchendo a gare.
Muitos abraços trocados, mas a machina silvou, um grande silvo agudo, vibrante como um gemido soluçado. Ermelinda teve até um pequenino susto.
—Credo, não esperava agora por aquillo.—
Mas era tempo; entraram no wagon, a locomotiva arrastava-se lenta, com um vagar preguiçoso, de quem sabe ser uma boa locomotiva portugueza. Os adeuses cruzavam-se no ar, frementes de saudade, gloriosos, muito alegres. Os convidados retiraram-se.
O Luiz Serra, um poetastro noviço, dizia para o Dr. Roberto, em cujo trem regressava para a cidade:
—Gosto d'isto, tem poesia, Dr.—{97}
—Escreva-lhe uns versos—respondeu ironicamente o joven medico.
—E vou escrever, a inspiração está ainda muito recente, muito viva! Um casal de pombos, que se unem, n'uma união mystica, recamada de perfumes, acompanhada dos canticos religiosos, e depois o esvoaçar livre, no grande espaço, até irem poisar na floresta densa, onde ensaiam a tentativa do primeiro ninho,—n'um idylio palpitante d'amor.
—Melhor o ensaiassem em casa.—
—Oh! Dr., isso é fossil!
—É por isso mesmo que na epocha de hoje deve ter um grande valor!
—Deve confessar que uma lua de mel passada dentro de casa é a maior sensaboria, que os nossos bons burguezes podiam inventar; falta o amor, o idylio, a ventura, a felicidade dos primeiros dias de noivado! Eu cá por mim protesto contra esse erro de chronologia, de lesa-elegancia, de lesa-poesia.—
—Que de lesões ahi não vão, santo Deus,—ora oiça-me, Luiz Serra.—Tudo o que o Sr. pensa a proposito d'esse primeiro periodo de noivado, não passa d'um bolo coberto de assucar lyrico, deixe-me exprimir assim. Que vantagem póde ter essa iniciação mentirosa na felicidade do casal, não me dirá? E depois attenda; a lua de mel é um cyclo que devia deixar de existir no casamento; o bom senso e a boa educação protestam contra ella! Ou a lua de mel deve exprimir a synthese da felicidade e essa deve durar sempre, não póde limitar-se a uns bons dias apenas,{98} ou ella exprime sómente uma convenção idylica entre os noivos e é isto o germen de futuras questões, de dissidencias graves, que terminam muitas vezes no adulterio, no divorcio.—Que faz o Alberto em ir com a Ermelinda pipillar idylios nas carvalheiras do Bom-Jesus?
—Mas amam-se, asseguram a sua felicidade.
—É exactamente o contrario do que o meu amigo pensa; por que não iriam antes sensatamente para sua casa perfumar com as primeiras alegrias de noivos o quarto, onde teem sempre de dormir, a saleta do trabalho, onde viverão juntos, o jardimsinho que os distrahirá nas horas de aborrecimento?
—Florian dentro de casa, Dr.—
—Ou Florian nos bosques do Bom-Jesus! Ora diga-me; que recordação podem ligar os dous a esse leito de hospedaria, onde se tem deitado um casal de noivos por semana, convencionalmente e só para obedecer a uma imposição do chic? Com que alegrias podem elles revestir depois o seu quarto, a sua casa, quando se recolherem quebrados já da vertigem voluptuosa, com os primeiros defeitos mutuamente reconhecidos, murchas as flores santas da illusão? Pois não lhe parece que a lua de mel deve ser uma iniciação augusta, com que se cimente o bem estar do lar, longe de ser uma iniciação mentirosa, com que se encobrem os primeiros defeitos e se envenenam os pacificos dias do futuro?
N'este momento o trem parava em frente do escriptorio do medico. Luiz Serra despediu-se:
—Discutiremos ainda, doutor, a sua doutrina{99} tem um realismo, capaz de estancar a mais copiosa fonte de lyrismo.—
—Se ella foi secante, deve confessar.
Riram-se; a esposa do medico apertou-lhe docemente a mão.
—Não auguro bem d'este casamento Roberto.
—Nem eu—concordou, encolhendo os hombros—deixal-os lá—educação, educação—e o Dr. aspirou tranquillamente o seu charuto, expellindo um fumo claro, que subiu em pequeninos rolos.
Mas o Luiz Serra precisava affirmar em publico a sua sympathia pelos noivos e as incorrecções do seu estylo, e por isso nos jornaes do dia immediato as iniciaes L. S. declaravam ao mundo:
—que se tinham unido pelos sagrados laços do matrimonio os Ex.mos Srs. Alberto de Sá, um dos cavalheiros mais distinctos da nossa sociedade elegante e D. Ermelinda Jorge a formosa filha do director do Banco Commercial,—que os noivos tinham sido acompanhados á gare do Caminho de ferro por um numeroso sequito e arrastado na aza vertiginosa do comboyo, iriam passar a lua de mel na floresta do Bom-Jesus—
que elle lhes desejava o mais auspicioso futuro, uma lua de mel perenne, de que seriam fiadoras as qualidades distinctas dos nubentes—e terminava por
um parabem enthusiasta.—{100}
A payzagem tinha as macias tintas melancholicas do Outono, arvores que se desfolhavam saudosas da sua côr esmeralda, olivaes escuros, enfileirados ao longe como soldados obedientes d'um batalhão em marcha; as casarias das aldeias, docemente esbatidas por uma luz crepuscular, desappareciam, deixando no espirito, sensações ternas de idylios perfumados. Os regatos, como cobras azuladas, enroscavam-se no verde das campinas, em beijos limpidos de fecundidade luminosa; os montes escalvados desfilavam ao longe n'uma fluctuação duvidosa de luz e os pinheiraes, como pelotões de gigantes, formados á beira da estrada, animavam-se, movendo-se n'uma illusão d'optica que se impõe quando marchamos n'um movimento rapido. O comboyo tinha umas oscillações cortantes, barulhosas, de ruidos de molas abafadas, e os rails, duas fitas indefinidas que se desenrolavam diante d'elle, desappareciam n'um recolher rapido, apressado, de trou-trou, incansavel.
Alberto e Ermelinda iam n'uma mesma janella, hombros chegados, mãos enlaçadas na cintura, embevecidos no pantheismo bucolico d'aquelle diorama que lhes fugia diante dos olhos.
—Como isto é lindo—dizia ella—eu gosto muito do campo.—
—É poetico...
—Olha aquella casinha, não vês... toda enfofada em verduras.—
—Havemos de arranjar uma assim; é bonito é chic vir passar um mez na nossa casinha de campo.—{101}
—Ah, como tu és bom!...—e recolhia-se um pouco para dentro, a imaginação debruada de phantasias coloristas, cofiando-lhe o queixo, muito de leve, mansa e insinuante, offerecendo-lhe o rosto, em que elle depunha um beijo amoravel, muito demorado. Sentaram-se um ao lado do outro, começaram a brincar, umas pancadinhas furtivas, d'uma graça infantil a que ella fazia uma moue de ingenua, muito adoravel, de pequenina gata.
E depois enroscando-lhe o pescoço com um grande impeto d'amor agradecido:
—Ainda me parece um sonho, Alberto.—
—É verdade, ainda me parece um sonho.—
E estreitava-a, arqueando-lhe a cintura na curva dos seus braços, beijando-a doidamente, voluptuosamente, fustigando-a de excitações nervosas. Ermelinda deixava-se amollentar no avelludado quente d'aquellas caricias, que nunca conhecera.
—Ah, como era bom ser assim amada—dizia, toda offegante, a respiração curta; muito quebrada por sensações incoherentes, d'uma delicia indefinida; e ameigando-o, muito carinhosa:
—Tu és o meu maridinho, ora não és?—
—Se sou!—e segurava-a com vigor, apertando-a muito contra o peito, n'uma sollicitação sedenta de namorado, communicando-lhe um tremor convulso, entre voluptuoso e dolorido, que a perturbava de fortes commoções.
Anoitecia; tinha-se passado Nine; principiava a lucillação do luar, n'um tremulo vago, a palpitar amorosamente por sobre as cumieiras da{102} serra, que escureciam na grande paz dormente; as arvores tornavam-se indistinctas massas confusas, fluctuantes, n'aquelle arfar constante do comboyo; umas bafagens quentes penetrando pelas janellas, passavam de quando em quando indo affagal-os n'um enlanguescimento morno.
Os beijos d'Alberto tinham um calor penetrante e Ermelinda, entre os seus joelhos, o cerebro atordoado, deixando-se cahir n'um affrouxamento languido, a voz ciciando um queixume:
—Alberto!...—
A locomotiva silvou; avistava-se Braga, com as suas luzes encravadas como pequenos pyrilampos na massa vultuosa da cidade.
Um quarto de hora depois estavam no hotel.
—Ainda n'aquella noite iriam para o Bom-Jesus; que lindo! subir a montanha á luz candida da lua, elles, agora tão felizes, tão amiguinhos um do outro—dizia Ermelinda.
—E se nós fossemos ámanhã?—ponderou Alberto.
—Ámanhã, ora, que tolice!—replicou enfastiada.
—Tolice, não; ia-se mais descançado.—
—Olha a grande fadiga,—respondeu com uma nevoasinha de colera—que semsaboria ficar em Braga!...—e amimando-o, a mãosinha no rosto,
—Havemos de ir hoje, sim?—
—Vamos la, és uma feiticeira!...
—E depois, que lindeza ámanhã, quando acordarmos, ouvirmos o gorgear dos rouxinoes na sombra fresca das carvalheiras!
—Romantica!{103}
—E tu não o és tambem! Não amas como eu esses espectaculos da natureza!... e depois quando se é noivo!...
—Tens razão; seria uma tolice ficar em Braga.—
Mas no fundo, bem no fundo do pensamento de cada um, a desillusão entre-abria-se, como uma flor venenosa que tem nas finas particulas aromaticas a corrupção futura do ar que embalsama. Na imaginação d'Ermelinda, Alberto cahira no prosaismo das commodidades triviaes,—um materialão, ora vejam lá, e eu que o julgava uma alma apaixonada, radiosa de luz, de poesia d'amor... e fiava que o futuro lhe descobriria ainda mais em relevo esses defeitos,—que elle não saberia ter as delicadezas subtis, de que toda a mulher se quer vêr rodeada, como n'uma onda de finissimo arminho,—que seria talvez grosseiro, conhecera-o na ruga animada da sobrancelha, quando lhe contrariou o seu desejo de irem n'aquella mesma noite para o Bom-Jesus.—
Mas olhava para elle, era o seu Alberto, o seu maridinho;—ora, que lhe importava tudo isso agora, era noiva, estava na sua lua de mel... e rodeava-o d'uma caricia longa, na ebriedade do seu novo estado.
A seu turno o Alberto pensava:
—Uma romantica, ein!... gostava da mulher que não fosse prosaica, mas parecia-lhe que a sua tinha essas qualidades exageradas, e depois um vidrinho de cheiro, tinha genio, conhecia-se; mas havia de amansar, que remedio!... mas, com os demonios, não era agora occasião de pensar n'isso.—{104}
E beijava-a, no aquecimento febril da sua paixão sensual, ébrio de gozo, como um rapaz estroina que saboreia uma garrafa de champagne, sem se lembrar que tem de pagar depois.
Alugaram um carro, e partiram. A cidade perseguiu-os durante algum tempo com a illuminação dos seus candieiros, as suas casas interiormente illuminadas, as suas tascas, as suas egrejas succedendo-se a curtos espaços, os seus ruidos; mas para logo uma aragem fresca de campo lhes beijou as faces, e o luar, na silenciosa tranquillidade da noite, escorrendo como um banho de neve por sobre a fluctuação indistincta da payzagem, envolvia-os suavemente, como n'um manto opalino, tecido por mãos feericas.
O carro ia devagar, subindo sempre, n'um zig-zag monotono; as grandes arvores velavam-lhe por vezes a lua, que logo reapparecia n'um vacillar tremulo, d'uma limpidez crystallina. Chegaram ao hotel. O criado appareceu, e logo o cocheiro, um poucochinho confidencial:
—Trata-me bem d'esses dous pombinhos.—
IX
Em casa o Jorge principiava a sentir a nostalgia do isolamento; encerrava-se no seu gabinete e procurava interessar-se no trabalho, que trazia entre mãos, o relatorio do Banco; mas a penna suspendia-se sobre a brancura do papel, morosa, sem poder fixar uma ideia clara; e para{105} encobrir essa carencia de actividade demorava-se pacientemente, minuciosamente, nas perfeições caligraphicas d'uma palavra qualquer como que receiando achar o vacuo para além do ultimo traço.
E descontente de si atirava com a penna para o lado, levantava-se, punha-se a passeiar, accumulando factos, reminiscencias, que podessem dar-lhe em resultado uma associação d'ideias precisas, methodicamente definidas; mas apesar de tudo o trabalho não progredia, o papel lá estava branco, com as suas linhas azues parallelamente dispostas, como o zig-zag d'uma estrada que era preciso caminhar.
—Não estava com disposição—concluia e arrumava tudo na sua pasta envernizada, com um grande vagar minucioso, entretendo-se, matando o tempo, que a elle o matava com o seu aborrecimento feroz.
A Joaquina vinha chamal-o para tomar o chá.
Sentava-se, lançava o liquido fervente sobre a sua fina chavena de porcellana; mas tinha abstracções, deixava-a transbordar, enchendo o pires. A Joaquina do lado, a mão apoiada sobre as costas da cadeira, avisava-o, com certa familiaridade de criada antiga:
—Que está fazendo, Sr. Jorge!... Ou elle credo! nem que ella fosse para o fim do mundo!... Olhe que a estas horas lembram-se lá bem de si...
—Dizes bem, dizes bem, Joaquina—e esquecia-se de deitar o assucar
—está azedo, o chá...{106}
—Podera não, se o senhor o não adoçou!... ora, ora até dá vontade de rir.
—Joaquina, então.
—Isto foi graça, o senhor desculpe;—e impertigando-se toda na sua seriedade—não que elle uma cousa assim...—
O Jorge comia pouco, um biscoito apenas; o appetite faltava, o seu bello appetite burguez, tão sadio e tão prompto.
—Não, assim até é desnecessario fazer comida—ponderava a Joaquina,—ao jantar fica tudo, ao chá é isto que se vê.
—Não tenho vontade, mulher...
—Vontade? faz-se!... o senhor não está doente, Deus louvado...—
—Então que queres?
—Quero que coma, boa pergunta!...
E a Joaquina retirava o serviço da meza, curvando-se, arredondando os seus largos quadris, e deixando ver a brancura da meia, que se descobria atraz, n'uma provocação macia.
Abriram-se um pouco mais em intimidades, unindo-se no seu isolamento; o Jorge confiava-lhe pequenos planos e ella approvava ou reprovava com uma capacidade intelligente, que elle até ali sempre lhe desconhecera. Começou então a considerar a Joaquina uma mulher, um sêr quasi egual, capaz de faculdades affectivas, de intelligencia.
—parecia-lhe menos criada, superiorisava-a e experimentava uma certa satisfação egoista n'aquella descoberta.
A noite adiantava-se; a Joaquina dentro tinha{107} feito a arrumação da louça e viera perguntar.
—Se não queria mais nada...
—Não, podia-se deitar.
Viu-a retirar com um vagar pachorrento, seguindo-a instinctivamente com os olhos, surprehendendo-se de que nunca tal fizera e pareceu-lhe uma mulher fresca, lembrou-se da brancura da meia que ha pouco se lhe havia entremostrado e um desejo quente mordicou-o, esfervilhando-lhe no sangue. E para affugentar uma ideia fugaz, que lhe perpassou no pensamento, como se fôra uma mosca luminosa, levantou-se, resolveu ir deitar-se.
Tinha de passar pelo quarto d'ella; fel-o tremulamente como um collegial; ouviu um rangido de leito, pareceu-lhe mesmo ter surprehendido um suspiro vago.
Mas caminhou rapido, entre descontente e satisfeito, respirando emfim quando chegou ao seu quarto; sentou-se a lêr o «Commercio» entranhando-se no labyrintho dos cambios, que o acalmaram, como uma poção anodina.
Depois já na cama suscitava razões especiosas que o absolvessem, minorando-lhe o extraordinario do caso, reduzindo-o ás proporções limitadas d'um facto vulgar—que todos os dias se está vendo;—e calculou que a Joaquina devia ter para cima dos seus trinta e cinco, não era nenhuma creança e lembrava-se da sua viuvez propria, inconsolada agora que o unico affecto, a filha, lhe fugia, amando mais o marido, o outro.—Sentiu-se encher d'um certo ciume para aquelle{108} que o tinha deslocado, uma revolta intransigente, impetuosa.
—Mas é lei do mundo, acabou-se; já o Evangelho dizia «Por elle deixarás pae e mãe»—
e foi cahindo n'um dormitar resignado, as palpebras cerrando-se, uma respiração doce, que lhe conciliou definitivamente o somno.
Dormiu mal, um sonhar agitado, o sangue effervescente e de manhã quando a poeira luminosa se coava atravez do store da janella teve um sorriso largo, muito significativo para a Joaquina, a boa Joaquina que vinha trazer-lhe o chocolate.
Os noivos chegaram á tarde; vinham moidos, o corpo quebrado, n'uma lassidão relaxada, as roupas brancas sujas do fino carvão da locomotiva, anciosos de banho, um banho fresco, que os estimulasse, dando-lhe tom aos nervos fatigados; deitaram-se cedo, pouco loquazes para com o Jorge, que, os interrogava ácerca dos monumentos de Braga, a velha sé, onde se mostram os altos sapatos d'um bispo pequenino, e o Bom-Jesus, a Cintra do Porto, um bello panorama, um dos primeiros do paiz, segundo diziam pessoas authorisadas.—
—Tudo na mesma—respondiam um pouco aborrecidos. E para a Joaquina—ámanhã agua para o banho, não te esqueças.—
—Podiam dormir descançados.—
Deram as boas noites; foram para o seu quarto. O Jorge ficou um poucochinho ressentido d'aquelle acolhimento ás suas perguntas; isolava-o{109} aquella friesa, e instinctivamente voltava-se para a Joaquina,—um sorriso franco, sempre alegre, uma grande palradeira, que o escutava com muita attenção e respeito.—
—Isto agora é outro modo de vida, não tem que ver.—
—Mas então, que dizes tu a isto, Joaquina?—
—Boa!... olhe, se quer que lhe falle com franqueza, eu com a cara d'elle não engraço.—
—Lá isso tambem não, é bom rapaz, o Alberto.
—As obras é que o hão-de dizer; olhe que as apparencias tambem enganam.
Os primeiros dias iam passando; uma nevoasinha de tédio descia, envolvendo-os, fazendo descer o nivel elevado da emotividade.
Ermelinda achava a sua casa pouco romantica para aninhar, n'um aconchego tépidamente voluptuoso, a pomba ideal da sua paixão;
—Oh, quanto mais lindo não era o Bom-Jesus, com as suas arvores de copas obumbradas, as suas fontes de crystalina agua, o lago com o barcosinho, o azul esbatido da luz, cortando-se nas irregularidades da payzagem.
Comparava com a sua casa, uma monotonia, sempre aquelle barulho ruidoso de cidade amortecendo-se pelos corredores, a sala forrada a papel, com aquelle monstro do piano a um canto, umas bugigangas de biscuit eternamente postas sobre as consoles; o seu quarto um pouco pesado, com a grande cama á franceza, de mogno, occupando o centro, sem uma recordação boa, que o povoasse de saudade, a lamina do espelho, reflectindo-a, como um confidente silencioso, que{110} parecia adivinhar-lhe os mais occultos pensamentos, e depois a Joaquina, uma criada sem a elegancia moderna, sem aquella submissão respeitosa do criado encasacado, que passa nobremente nos tapetes offerecendo-nos um copo d'agua, com uma ceremonia de diplomata.
—Ai, o Bom-Jesus!...—suspirava—e estendia-se lassidamente na sua chaise-longue, preguiçosa, sem vontade de trabalho, quebrada pelos excessos d'aquelles dias voluptuosos, os melhores da sua vida, a imaginação revoando ao encontro desses momentos de febre, os braços inteiriçando-se n'um espreguiçar de creoula, bocejando frequentemente.
A seu turno o Alberto dava ao diabo ja o convencionalismo da lua de mel, sentia-se aborrecido, o spleen d'um lord; lembrava-se ruidosamente dos cafés áquella hora povoados, uma atmosphera quente, ditos scintillantes, anedoctas escandalosas que se entornavam por sobre as reputações como os calices de cognac por sobre as bandejas, os choques entrecortados das bolas de marfim na baeta verde dos bilhares, os artistas que appareciam contando a novidade de bastidores, e os theatros com o seu latejar de luzes na via-lactea dos collos das burguezas, a rapaziada fina nas plateias assestando intemeratamente os binoculos, o Juca, o Luiz Serra, o Carvalhinho, uns estroinas, capazes de bater uma claque e armar um chinfrim, e depois irem tranquillamente comer ao Gomes, ás duas da manhã, ostras cruas com vinho de Bordeaux.
E todo este mundo tão seu conhecido, tão seu{111} intimo, se movia no seu pensamento parecendo escapar-lhe, n'uma aspiração vaga, como aquelles rolos esbranquiçados do fumo do seu charuto, que se desfaziam, em largas ondulações, no ambiente estreito do seu quarto. A phrase rhetorica, afinada pelo diapasão do sentimentalismo, cahia lentamente nos monosylabos chãos, muito simples, d'uma chatesa trivial, que não póde mais fingir, sem os arremeços vehementes e lancinantes da paixão.
Ermelinda notara-o, com a tristeza d'uma pétala nevada que se vê cahir da corolla das illusões; mas
—confiava em si—dizia—e procurava dominal-o com as excitações nervosas do prazer, prostrando-o a seus pés, n'um ciciar timido, ardentemente enamorado, que a enlevava toda no ceu indefinido das idealidades.
E os dous ainda, n'um consumir rapido das phospherencias da paixão, supportavam-se mutuamente as pequeninas discussões, as nevoasinhas de tédio, a descoberta reciproca dos defeitos que atiravam, para de fóra do velludo das caricias, la greffe du diable, que mais tarde lhe rasgaria a solidariedade do seu bem-estar.
Sentiam-se ainda felizes, muito amiguinhos e promettiam sêl-o:
—para sempre, para todo o sempre—
Mas cada um, no escaninho mysterioso do seu espirito, via bem descer no rutilante ceu da sentimentalidade, a branca lua do seu noivado que ia desapparecendo n'uma curva rapida, deixando{112} um rastro luminoso, que se apagava já, na orla occidental d'esse horisonte ideado.
E no egoismo do seu gozo esqueciam o Jorge, affastando-se, como que evitando-lhe a presença, tornando o menos possivel demorados os momentos em que tinham de estar juntos, sendo os primeiros a levantar-se da meza, os primeiros a dar as boas noutes depois do chá.
—Isto custa, Joaquina.
—Boa, até parece mais triste esta casa!
E approximavam-se n'uma necessidade imperiosa de convivencia, consolando-se mutuamente, recordando os dias tranquillos do passado em que todos os corações tinham a suave claridade da paz; iam-se prendendo, ensilvando, n'uma attracção baseada na mesma força, revelando-se reciprocamente, contentes por se comprehenderem, por se verem reunidos no mesmo caminho de solidão. E eram já mais amigos, permittindo-se pequenos gracejos, umas familiaridades demoradas, em que se espancava o convencionalismo do respeito. O molle temperamento lymphatico da Joaquina accendia-se, como uma phosphorencia errante; e quando á noite o seu corpo cahia no macio nevado dos lençoes, a imagem do Jorge, substituindo a do policia 45, desenhava-se nitida, d'uma perfeição correcta na sua imaginação de mulher viuva de materialidades sensuaes.
Quanto a elle sentia o sangue inflammar-se, uma desfaçatez de desejo apresentando-se intransigente á sua moralidade, com uma causticidade irrequieta, penetrando-o, atravessando-o com o impeto d'uma amazona de circo atravez da fragilidade{113} d'um arco de papel. Quebrava as hesitações com argumentos especiosos, como um britador teimoso as pedras que lhe resistem; mas era cauteloso, prudente, tivera sempre medo do escandalo; e por isso evitava as occasiões de tentação, com um puritanismo timido, balbuciante, não se querendo aventurar sem a certeza da acquiescencia, gostando muito de jogar pelo seguro,
—esperar o ensejo, sobretudo—dizia.
Os primeiros aborrecimentos iam-se accentuando, mais repetidos, mais duradouros. Ermelinda conhecia que o Alberto lhe fugia, a imaginação fatigada, farto á saciedade do seu papel romantico de Antony; sentia um grande desconsolo, uma melancholia enervante, vendo esfolhar-se a flor azul das suas illusões, e recolhendo-se no fundo da propria phantasia, como n'uma cella monastica, deixando-se voar ao encontro do extasi mysterioso, que tantas vezes sonhara quando via nos livros a paixão descripta com traços patheticos, d'um mysticismo ideal.
—Ah, como são infelizes as pobres mulheres—dizia—que decepção as espera!
e recostava-se na sua poltrona, um romance aberto, a imaginação voejando com o romancista no caminho de fogo, onde appareciam em sulcos luminosos os grandes heroes do amor, os martyres, os eternos namorados, os divinisadores da paixão.
E a sua phantasia vendo apenas o drama, engolphava-se n'este sonhar d'uma morbidez debilisadora, esquecendo que para aquem d'esse ideal{114} mentiroso, existia bem perto d'ella, um outro ideal menos allucinante, mas mais casto, cheio das austéras doçuras intimas, dos affectos suaves, das virtudes ignoradas mas nem por isso menos formosas, um ideal, que toda a mulher deveria ter como a columna de luz que lhe guiasse os passos atravez do caminho da existencia.
E n'essa abstracção, em que lhe andava erradamente o espirito, Ermelinda tinha descuidos imperdoaveis de toilette, um desleixo que a amollentava, ficando ás vezes um dia inteiro com o penteador da manhã, o cabello cahido, simplesmente preso na nuca, deixando uma humidade oleosa na brancura da bretanha.
—Ora, que lhe importava; já não perdia casamento!—
E depois via o Alberto tambem, um descuidado, atirando o fato para cima das cadeiras, escovando-se e penteando-se apenas quando tinha de sahir, desarranjando uma gaveta para procurar um lenço, calçando as luvas já no meio da rua, tendo deixado no quarto uma desordem de moveis, de roupa, de calçado. Sentia uma vontade de repôr tudo no seu lugar, minuciosamente, com um grande geito femenil,
—mas ora, a Joaquina que se arranjasse!... não estava para lhe poupar trabalho—e desviava os olhos, repoltreando-se na cadeira, ávida da continuação da leitura.
O Alberto vinha encontral-a assim:
—Então, ainda n'esse estado!...
—que me importa.
—se vier por ahi alguem,{115}
—se vier, veio; não te afflijas que eu depressa me arranjo,—
Deixava-a, trauteava uma aria, dando um passeio no quarto, indifferente áquelle desarranjo d'ella. E depois, muito amoravel, batendo-lhe uma palmadinha na face:
—Então a Lili sabe quem eu encontrei?
—Que me importa quem tu encontraste!...
—Foi a...
—A Amelinha Bastos, a estas horas!
—Adivinhou!...
—E d'ahi?
—Perguntou-me por ti, quando lhe ias fazer uma visita.
—Ora, que tenha juizo.
—Não, mas agora fallando sério, olha que é preciso fazermos as nossas visitas de casamento...
—Já pensei n'isso, mas... é uma massada...
—Em fim teem de fazer-se; é um dever da boa sociedade...
—Has-de comprar-me umas luvas, sim, quero-as de sete botões...—
—Certamente; de menos é chinfrim...—concordava, muito convencido. E brincando, n'um momento de humour, arrancou-lhe o livro.
—Ora que brincadeira tola!—disse estendendo os braços para o rehaver.—
—Ah, é tola, pois toma, vai buscal-o!... e n'um arremeço o livro voou pelo quarto, indo parar proximo da cama.
Ermelinda levantou-se pallida, muito séria, a sua vaidade ferida. Uma lagrima rolou-lhe por entre as pestanas.{116}
—Grosseiro—murmurou sem que elle ouvisse, e foi buscar o livro, sentando-se de novo, as costas voltadas, a vista divagando sobre a mesma pagina.
Mas a Joaquina chamara para o jantar, e os dous sahiram do quarto, a physionomia contrahida, carrancudos, intransigentes na sua seriedade. O jantar correu rapidamente, friamente, sem trocarem uma palavra; o Jorge sentia um desconforto glacial penetral-o, abafando a necessidade de palestras expansivas, coarctando-o, pesando sobre elle como uma atmosphera de chumbo.
Ermelinda apenas tocava nos pratos; comia pouco, um phrenesi colerico, atirando as travessas, servindo-se ella mesmo antes que o Alberto tivesse o constrangimento de servil-a.
A Joaquina pensava:
—Estão de trombas, os pombinhos!...
O Alberto bebia mais que o costume; umas libações longas, demoradas, esvasiando o copo d'uma só vez, e no fim um contrahir de face, um morder incisivo do labio, a mão tocando mecanicamente as guias do bigode, e um relancear de olhos para Ermelinda, furtivo, instantaneo, com uma scintillação de colera concentrada.
O Jorge não podia mais.
—Parece que estamos na semana santa, credo, fallem para ahi...—e experimentava uma conversa, um caso do dia, uma anedocta, que morria logo, amortecendo-se aos monossylabos d'Alberto, o unico que ainda lhe respondia.
Ermelinda sentia-se contrariada, indisposta, uma raivasinha secreta, amargurando-a, com{117} engulhos de lagrimas; levantou-se, uma grande necessidade de chorar, de estar só, de se julgar infeliz. E ao passar pela Joaquina, o lenço enxugava-lhe os olhos, que se avermelhavam, n'uma côr injectada de desesperos, humedecendo-se.
—Oh, menina, pois vale lá a pena chorar, quem é que não tem os seus arrufos; isso d'aqui a pouco já não é nada—consolou-a, muito ternamente, uma caricia de velha criada, que a trouxera ao collo.—
Mas ella aspera, cortante:
—Sabe que mais, metta-se com a sua vida—e desceu a escada, dirigindo-se para o quarto.
A Joaquina ficou de pé, assombrada, uma estupidez idiota na physionomia, entalada, como se sentisse um spasmo no esophago; e depois, com as lagrimas a bailarem-lhe nos olhos:
—É bem feito, grandissima burra, não lhe ganhasses tanta amizade.—
No seu quarto, Ermelinda desatou n'um largo choro.
—Era uma infeliz, uma desilludida... ah, quanto mais não valia o ter ficado solteira—
e assombreava com negro colorido o quadro da sua existencia, n'um appello á desgraça, ao infortunio; mas depois procurava consolar-se, desentranhava-se em affagos para comsigo mesmo, procurando esquecer, não fazer caso; e as palavras da Joaquina soavam-lhe ainda aos ouvidos, tornando-a reflexiva.
—Sim, era crueldade, quem é que não tinha os seus arrufos.—
Esta palavra sensibilisava-a, dando-lhe ainda{118} um perfume gentil de namorada, imaginando-se requestada por elle, muito estremecida.
—Foi o melhor tempo—suspirou.—
E a reminiscencia recordava-lhe essas horas do passado, aquelles enthusiasmos apaixonados d'elle, a verve cheia de fogo, a calcinação ardente da palavra.
—Oh, quanto a realidade era differente!... E o noivado, ah! o seu noivado!...
Uma recordação doce se lhe entornava na alma, perfumando-a, n'uma ébriedade feliz. Via o Alberto a seus pés, timido, como uma creança, segredando-lhe pedidos d'uma volupia embriagante, muito submisso, dizendo-lhe baixinho:—Adoro-te—; e a esta evocação tão acariciadora, quente como um arfar da atmosphera no estio, deixava cerrar os olhos, esquecendo o motivo de toda a sua colera e transportando-se com elle ao ceu da sua idealidade; assim disposta achava encantador—que elle viesse muito humilde, pedir-lhe o beijo do perdão, affagal-a n'uma reconciliação harmoniosa.
—Não lhe resistiria, não; mas tambem não queria ser a primeira a quebrar—dizia, ainda com resaibos da offensa recebida, entumecendo-se n'um grande orgulho de si propria.
O Alberto desceu; viu-a sentada na cadeira, a mão sustentando o queixo redondinho. Escovou ligeiramente o fato, poz o chapeu na cabeça, principiou a calçar as luvas. Ermelinda teve um pensamento de ciume.
—E se elle fosse procurar outra! oh, não, que ideia.{119}
N'este momento o Alberto preparava-se para sahir; mas não veiu como de costume poisar-lhe um beijo na testa.
—Até logo—disse bruscamente.
Levantou-se, embargou-lhe a passagem.
—Tu onde vais?
—A ti que te importa?
—Que me importa!... Vamos, não sejas mau—disse timidamente, confusa por ser ella a primeira a pedir, envergonhada de si, mas o pensamento queimado ainda por aquella ideia ultima que a assaltava; e tirando-lhe o chapeu, n'uma moue engraçada, o corpo quebrando-se n'uma gentileza voluptuosa, a sorrir-se:
—Não te deixo ir, tira as luvas, sim, vais logo...
—Creancices—volveu, encolhendo os hombros, e tirou as luvas, sentando-se.
—Aqui me tens!—bruscamente.
Sentou-se-lhe nos joelhos, balouçando-se, fingindo que cahia, forçando-o a amparal-a nos seus braços, provocante, roçando-lhe ao de leve o rosto pelos seus labios.
O Alberto cedeu; deu-lhe o primeiro beijo, e logo outros, o sangue excitado, uma pontinha d'alcool na circulação.
N'aquella tarde não sahiu de casa.
X
A modista trouxera-lhe o chapeu, um modelo de Pariz, d'uma plumagem finissima, poisando{120} maciamente na côr granada do velludo; collocara-se em frente do espelho, experimentando-o, vendo-o se lhe ficava bem, meneando-se, apanhando a maior porção da lamina.
—Era um primor, realmente, mas tinha que elevar um pouco mais o penteado, assentaria melhor—
e voltava-o de vagar, com uma admiração insaciada, tocando delicadamente nas petalas assetinadas da flor, antegosando a inveja que aquillo causaria ás suas amigas.
—É já de senhora cazada—dizia, n'uma distincção frivola de toilette, applaudindo-se por este conhecimento, por esta grande noção de differenciação de estados, baseada no vestido—que muitas não tinham, umas ignorantes, trazendo os myosotis por exemplo, que só são dados ás meninas solteiras, e outras cousas mais,—umas minuciosidades futeis, que a enchiam de vaidade,
—E depois dizia muito bem com o vestido, oh, muito bem!
Era um vestido de faille plumbagineo, a traine de velludo, umas rendas caras, que M.me Sellier's mandara de proposito vir de Pariz, um talhe elegante, que lhe devia realçar a formosura. Abriu o guarda-vestidos, admirando-o ainda uma vez em toda a extensão fluctuante das suas rugas, pendente do cabide, na macia suavidade da côr, no matiz nevado das preciosas rendas.
—E agora que já tinha o chapeu, não era possivel adiar mais tempo; iriam fazer as suas visitas de casamento.
Alugaram um trem, um coupé do Marques, de{121} molas doces, acolchoado, elegante, confortavel, d'um estofo assetinado.
—Ah, como seria bom ter um trem—pensava—reclinar-se languidamente nas suas almofadas, correr nas brancas fitas do mac-adam ao som estrepitoso dos grandes cavallos normandos, os lacaios flamantes, de compridos casacões, com largos botões chapeados.
—Como eram felizes os ricos—e revoltava-se contra essa desigualdade de fortunas, n'um impeto socialista, figurando-se-lhe uma injustiça a falta d'aquelles sumptuosos contactos do luxo.
Mas o trem havia parado á porta do Mendes. Era a primeira visita. O cocheiro desceu, tocando violentamente a campainha.
Uns beijos cantadinhos se trocaram,—muitos parabens, estava até mais bonita, um poucochinho gorda; ah, agora é que era gozar.—
—Certamente, D. Carola, em quanto a gente é moça.—
—Pois não, Snr. Alberto, depois se vem os filhos e isso é sempre o mais certo.—E voltando-se para Ermelinda:
—Onde mandaste fazer o vestido, menina?
—Na Sellier's; um poucochito caro...—regosijava-se por ter sido notada, quebrando-as de inveja.
—Eu bem digo á mamã, que se tire de costureiras baratas, é mesmo uma zanga, nunca as cousas ficam em termos; o que se ha-de dar ao rato...
—Devagar, menina, devagar, a economia...
—Ora, grandes economias!...—atalhava.{122}
O Alberto afastara-se um pouco; olhava o jardim, esperando, com um ar passivo, de marido obediente.
Palraram muito.
Fallaram das modistas, dos chapeus, do theatro. A conversação cahiu no baile que o Bernardo ia dar para festejar os annos do cazamento.
—Melhor, tivesse juizo, aqui para nós, olha agora a doida! Elle!... sempre ha homens que se varreram de juizo!—
A Ermelinda sentiu-se um pouco afogueada; sabia vagamente d'uma aventura com o Alberto, que a Amelinha Bastos lhe tinha narrado.
—Mas emfim, era ainda solteiro, adeus! a tola fôra ella—desculpava-o—e criticavam o Bernardo.
—Bom estomago! havia de ser o Mendes.
—E o Alberto, não lhe digo nada, ciumento ali chegou!
Mas o Alberto interveiu:
—que era tarde, ainda tinham de ir a outras partes; sentia ter de cortar tão deliciosos momentos.—
—Tão poucochinho tempo.—
—Para outra vez seria mais: era uma via-sacra a percorrer.—
—Então venham jantar um dia.
—Desde já agradeciam, e viriam, viriam, era-lhes muito agradavel a companhia da madrinha e da D. Adelaidinha.—
—E depois—recordou Ermelinda um pouco afogueada—a gente lembra-se com saudade d'esta sala...{123}
—Ai, é verdade, fôra ali que principiara o namoro; pois viessem, viessem, era mais uma razão...
Despediram-se; novos beijos, um shake-hands ceremonioso do Alberto, os seus respeitos ao amigo Mendes.
Mãe e filha acompanharam; ficaram-os olhando do alto da escada, umas mezuras com a cabeça, uns adeusinhos agitados.
—Que luxo ein, onde iria aquillo parar.
—Só o chapeu, mamã.
—Bem diz o teu papá; ai, banco, banco!
Sentia-se o coupé rodar na calçada.
Visitaram a Amelinha Bastos, a D. Gabriella. Chegou a vez á D. Clementina.
Encontraram-a a acariciar o seu Tótó, o seu amor felpudinho, que principiou a grunir, n'uma revolta sorna, por ver que os estranhos lhe vinham roubar as caricias da sua amiga. Chegou até a accommeter o Alberto, n'uma grande indignação ciumenta. Mas ella amansou-o explicando:
—que o Tótó tinha realmente ciumes, era um verdadeiro tigre.—
E batendo umas palmadinhas amigaveis em Ermelinda:
—Então como se dá a minha menina com o seu novo estado?
—Bem, D. Clementina, muito bem.—
—Podera não; elle ha lá melhor vidinha!—suspirava—e depois quando se tem um marido novo, elegante...
—Oh, D. Clementina, eu passo a ter ciumes...{124}
—Ai, filha, não, isso não...—riram ambas, um cascalhar timbrado, a brancura dos dentes a desfiar pelo carmezim dos labios.
—E muito linda, muito linda!...
O Alberto interveiu, uma graça de galanteria...
—Não m'a encha de vaidade; Vocencia deve saber por experiencia propria, que a formosura das mulheres é o inferno dos homens...—
—Ora, nem diga isso! é o paraizo, o paraizo d'elles! Os senhores são uns mal agradecidos.—
Mirava-lhe o chapeu, o vestido; calculava o preço da fazenda, das guarnições, da pluma, das flores.
—Um dinheirão—pensava—isto assim hão-de dal-as frescas—e regosijava-se já d'um mal futuro, elogiando-se as proprias qualidades economicas, n'uma ferocidade ciumenta de solteirona.
—Trazes um chapeu chic; é modelo, menina?
—que sim, que era—e não fôra caro.—
—Então?
—Quatro libras!...
—Ah, quatro libras, não era caro, não!—e pensava que por aquelle preço se podiam ter dous chapeus bons, uma desgovernada—não, não tinha duvida, por aquelle andar a herança da tal tia em breve se lhe havia de ver o fim.
Despediram-se.
—Ainda tinham de ir a casa do Dr. Roberto, morava longe, na Foz, em Carreiros, uma boa hora.—
—Isso decerto, menina; e depois só para aturarem aquelle carapau inglez—chacoteou.—{125}
—Oh, D. Clementina, é do meu parecer—acudiu Ermelinda—o Alberto que não, que não, mas eu embirro com aquella cara, um ar seraphico, de mestra de meninas.—
—Mas não tens razão, Lili—é uma boa creatura, um pouco excentrica talvez, ingleza, isso comprehendia-se.—
—Ai, deixe lá, Snr. Alberto, gente que se não entende, que falla uma algaravia...—
—É a sua lingua, o seu idioma.—
—Pois sim, não digo menos d'isso; mas estou com a D. Ermelinda, não engraço com a tal ingleza, que chama á gente senhorra... senhorra! ora que desconchavo!...
—Nem sei como o Dr. se namorou d'aquillo! Elle ha gostos!...—
—Pois vivem muito bem, um casal modelo...—
Ermelinda replicou:
—bem se fiava n'essas; haviam de ter as suas, todos as tinham—
E passavam-lhe pela mente as questinculas futeis, que tão frequentemente se levantavam agora entre os dous, enevoando-lhes o sol da harmonia, distanciando-os em espirito, desatando-lhes a alma n'um relaxamento indifferentista.
Disseram-se adeus; beijocaram-se, o Alberto um grave aperto de mão. O Tótó impacientava-se, um rosnar regougado, até que sentiu em baixo bater a porta da campainha, e viu a D. Clementina sentar-se no sophá, saltitando então, satisfeito, o nariz afilado, procurando o calor das saias, muito cadongueiro, uns latidos meigos.{126}
Ficava o mar em frente. Um sussurro monotono, cheio de casta poesia, a alma do gigante a segredar queixumes, beijando a praia com um amor voluptuoso, em beijos nevados, de espumosa prata; e abrindo sobre o largo as janellas da casa do Doutor, a namorarem a luz, a perfumarem-se das emanações iodadas das plantas marinhas, rasgadas ao alto, umas cortinas de cassa a toucarem-as pudicamente.
Appareceu-lhes Bertha,
—vinha da cosinha, tinha ido ella mesmo preparar o plum-pudding, o seu Roberto gostava muito, era doudo por aquillo.—
—E o Doutor, bom, de saude?...
—Ainda na cidade; olhe, vem ás quatro horas, trabalha muito, coitado; por ora vivemos aqui, é longe, mas é mais economico; e talvez vivamos sempre, é tão saudavel este ar...—
—Mas devia ser insipido n'aquella quadra,—ella, Ermelinda, só gostava da Foz no tempo de banhos, havia convivencia, bailes; as manhãs da praia, as tardes de musica no Passeio Alegre...
O Alberto apoiava:
—Sim, devia ser realmente insipido.—
—Pois, olhe, não nos aborrecemos; até gostamos mais d'esta quadra, vivemos mais um para o outro; á tarde o Roberto vem cançado, fatigado, janta bem, e vamos passeiar, duas creanças ás vezes, a liberdade solitaria da praia... era muito lindo, deveria gostar...—
—Não, não, Deus a livrasse de tal; e como passava as noites, aquellas noites longas de inverno, sem theatros, sem partidas...{127}
—Temos as nossas partidas—volveu sorrindo Bertha,—fazemos musica os dous; o meu Roberto é um artista, toca violino, eu acompanho-o ao piano, a musica é uma boa distracção, não deixa a gente aborrecer-se; são uns bons companheiros, Mendelssohn, Mozart, Meyerbeer,...
—Mas sempre musica, realmente!... eu tambem toco, mas, confesso-lhe, ás vezes aborreço-me; a gente nem sempre está com disposição.
—Tem razão, é verdade, mas olhe, então variamos; lemos juntos, eu gosto muito de Elliot, de Michelet, de Taine, e de Dickens, que é o romancista da minha patria; e ás vezes quando a leitura nos não distrahe, e que a nossa alma precisa como que receber um bocado d'essa onda de sociabilidade, vamos ao theatro tambem, não nos julgue mysantropos; o Roberto ás vezes não quer ir, diz-me que não; mas eu conheço-o, nós as mulheres lemos bem no pensamento d'estes senhores; não é depois que appareça o tédio que eu devo distrahil-o, é em antes, que eu devo fazer com que não haja tempo de formar-se; e não se fórma, assim, tenha a certeza!—
A physionomia de Bertha illuminava-se-lhe docemente espelhando a luz da sua consciencia limpida, crystalina, que fazia d'aquelle amor uma religião; era branca, da brancura nevada das filhas do Norte, o olhar azul meigo, como uma ambrozia; a face rosada, d'um colorido de saude; a gracil agilidade das miss, uma insinuação que attrahia, que fazia estar bem junto d'ella.
Tinha uma actividade de spinster, pondo em tudo um conforto macio, um aconchego carinhoso,{128} alegre, limpando ella mesmo a sua salinha, o seu gabinete, vigiando a sua casinha, confeccionando pelas suas proprias mãos o prato favorito de Roberto, que vinha ás tardes, do Porto, o espirito fatigado, um desgosto de clinica, um doente que lhe morrera, apesar de todos os esforços,—mas que ao vel-a toda branca no seu roupão claro, offerecendo-lhe a face e o jantar, esquecia tudo, espreguiçava-se na sua indolencia de senhor e até
—nem tinha vontade de sahir de casa—dizia,
Ermelinda sentia a seu pezar o influxo d'aquella honestidade sã e boa, e as palavras de Bertha, enchiam-a d'uma claridade intima, que ella procurava assombrear com a tinta escura do seu ideal corrompido. Amesquinhava-a, deprimia, pensava em que tudo aquillo podia muito bem ser uma mentira, uma falsidade..
Mas a protestar contra estas ideias de vileza os objectos mudos pareciam levantar-se na sua simplicidade de coordenação e bom gosto. Os moveis, os albuns, os quadros, as musicas, as cortinas de cassa das janellas, as begonias opulentas nos seus vasos de dez tostões, o chão encerado das escadas, os metaes das portas polidos como espelhos, tudo revelava um gosto de aceio, uma alegria de suaves expansões, uma intelligencia curiosa e activa,
—que ella não podia deixar de reconhecer a final—
—Mas não era ella, não, aquella magra loirinha, que fazia aquelle milagre; oh, é por que tinha um bom marido, isso sim!—e comparava-o {129} Alberto com o Doutor, fazendo-lhe a saliencia dos defeitos, dos vicios que todos os dias se iam revelando com um impudor cynico—
—oh, tivera ella um marido como o outro e veriamos—e o seu espirito divorciava-se lentamente do espirito do seu esposo, accusando-o de grosseiro e hypocrita, de menos cavalheiresco, de não ter a fina comprehensão dos sentimentos delicados do coração feminil.
Isto enchia-a d'uma certa inveja para com Bertha, amesquinhava-lhe a belleza physica, chamava-lhe uma
—cotovia magra, um carapau de Inglaterra.—
—Ai, a D. Clementina é que a definira bem.—
Bertha offereceu-lhes um calice do Porto, um pequeno lunch; estavam na praia, não fossem ceremoniosos.—
—Não, não acceitavam; tirava-lhes a vontade de jantar; e eram horas, desculpasse a massada.—
—Nenhuma, absolutamente nenhuma: gosto de os vêr felizes; tão felizes como ella o era com o seu Roberto—
Abria-lhe um sorriso jovial, d'uma cordealidade doce, e
—offerecia-lhe a sua casa, viessem uma vez ou outra, nos dias santos, quando a cidade os enfastiasse; seriam sempre bem vindos; o Roberto lamentaria não lhes ter fallado.—
Ermelinda sentiu um calor mordente, quando Bertha lhe poz um beijo na face, despedindo-se, e roçou ao de leve, muito ao de leve, os seus labios no rosto branco da ingleza.{130}
E já no carro, quando a Foz ia desapparecendo com o silencio das casas inhabitadas e o sussurro eterno do seu mar,
—Estará ali a felicidade realmente?—perguntava-se, a imaginação mergulhando como n'um crepusculo côr de rosa e ouro, e vendo-se querida do eleito do seu coração, uma existencia suave e tranquilla, a claridade intima no espirito, o sorriso bom nos labios, dous companheiros leaes caminhando na montanha da vida, um ao lado do outro, elle protegendo-a com a sua força, ella renovando-o com a sua graça, indifferentes para o mundo, para esse mundo egoista, que os envenenava com as suas seducções e os despresava com os seus escarneos.
Ia calada, a phantasia acariciada n'este bello sonho, os olhos acompanhando vagamente a corrente esverdeada do Douro, que descia, banhando as casarias brancas da Aforada, espelhando o cotovello saliente da montanha, as fabricas do Andersen, a verdura matizada de Santo Antonio de Val-Piedade, e depois toda Villa Nova cortando a luz com as irregularidades dos seus edificios, a linha escura dos pinheiraes ao longe, orlando o horisonte vasto.
O trem subia vagarosamente a Restauração; harmonias de banda regimental cahiam lentamente, ondas apagadas d'uma sonoridade distante.
—Musica na Cordoaria! E se fossemos para lá um bocadito, Lili!—
—Como quizeres!
—São duas e meia; é cedo ainda para o jantar!...{131}
—Vamos lá, sim, manda parar então.
Apeiaram-se; burguezes espanejavam ao sol a sua obesidade preguiçosa, dandys com camelias na botoeira, damas todas encolhidas no regalo quente das suas pelles, cocottes com vestidos mirabolantes, estudantes de medicina pondo uma vaidade espectaculosa nas suas pastas amarellas, de fitas vermelhas fluctuando, militares alisando as fardas com luvas de camurça, todo um publico pacato, passeiando com um methodo ordeiro na grande alea, acotovellando os mirones que paravam em frente do coreto, para não perderem o gesto largo da batuta do regente e as notas que se rebolavam com uma liberdade mal educada por sobre os ramos esguios do arvoredo, creanças saltando em redor do lago na admiração curiosa dos habitos dos cysnes, brazileiros aposentados que occupavam pachorrentamente as cadeiras do Asylo, um ou outro municipal em vadiagem destacando-se com o colorido escarlate dos vivos da farda e das chapas reluzentes do metal das agulhetas.
—Muita gente, hoje!
—Sim, muita gente.
Deram o braço, cadenceando o passo no rythmo da musica, cumprimentando pessoas conhecidas, umas cortezias elegantes, de affectação estudada.
A orchestra batia valentemente a grande marcha da Aida; a voz perdia-se na sonoridade dos instrumentos.
Caminhavam juntos, uma vaidade de se verem moços e admirados, Ermelinda arrojando aos olhos das outras, que passeavam, a sua toilette{132} formosa, o seu chapeu modelo de finissimas flores; e elle a luva correctamente calçada, a guia do bigode n'uma curva de artista, atirando ao publico com a formosura da sua Lili; toda elegante com o seu vestido de traine de velludo, invejada, seguida pelo olhar cubiçoso dos dandys que o cumprimentavam, dos estudantes que ao vel-a passar prorompiam n'um cortejo de gulosas interjeições admiraveis.
Iam e vinham na grande alea povoada, encarando sempre em frente com a massa granitica do hospital da Misericordia, d'uma architectura pesada e d'um sumptuoso imponente, o trem esperando-os á porta do jardim.
—Estava já cansada—dizia—a bota do pé esquerdo apertava-a um pouco.—
O jardim despovoava-se; a musica cessara; tres horas nos Clerigos lembrando as necessidades physiologicas do estomago.
Chegaram a casa moidos, um pouco fatigados. A toilette incommodava-os, um desejo violento de se despirem, de se pôrem á larga.
E Ermelinda depoz o vestido sobre a cama, o chapeu n'uma cadeira, despenteou-se, os cabellos cahindo n'um desleixo emmaranhado, o corpo mettido n'um penteador um pouco surrado, os pés n'uns sapatinhos commodos.
—Estava á sua vontade, emfim—e subiu á sala de jantar, um grande appetite, palradeira, comendo gulosamente azeitonas antes de principiar o jantar.
O Jorge interveio:
—que lhe faziam mal, que era uma creancice.{133}
—Antes isto do que o tal lunch de Carreiros, ein, Alberto—gargalhou.
—Sim, antes isso—e comia devoradoramente, pouco expansivo, o pescoço curvo sobre o prato de sopa, bebendo de espaço a espaço, o guardanapo limpando os cantos da bocca.
—Então foram tambem a Carreiros?
—Fomos, podéra!
—E o Doutor, o sympathico Doutor?—interrogava.—
—Não estava lá!—
Ficou muda, um pensamento fugitivo, associando-se áquella adjectivação, com que o pae mimoseava Roberto, a imaginação alvoroçada, uma comparação desfavoravel para o seu marido, que agora sem os atavios da elegancia, um casaco usado, com a gola voltada, encobrindo a auzencia dos collarinhos,—muito comilão.—
—E se nós fossemos hoje ao S. João?—
—Vai a Lucia, creio eu.—
—Ai, a Lucia, quero ir então; e se houver enchente!... o melhor era o papá ir já comprar o camarote...
—Pois sim, eu vou,—e saboreava de vagar a ultima sobremeza, muito guloso, o créme esfiando-se pelos bordos da pequena colher.
—A Joaquina fez hoje isto bem—elogiou.
—O que succede raras vezes—acudiu o Alberto.
—Não, vamos lá, não estamos mal servidos.
—Réles, simplesmente; o ram-ram sabido, nem um prato novo; não ha como a cosinha franceza!{134}
—Eu cá por mim detesto-a,—obtemperou o Jorge—uns nomes pomposos, uma homard à la russe, uma timbale d'ecrevisses, um foie aux champignons, etc., etc., tudo uns bonitinhos e a final a barriga vasia.—
Alberto encolheu os hombros, um ar de superioridade, achando pulha aquella critica da cosinha franceza, feita pelo sogro.
Veio o café. Ermelinda bebia aos pequeninos sorvos, o corpo recostado na cadeira, a manga do penteador descia mostrando uma redondeza pennugenta de braço.
—Levantaram-se.
—Ia comprar o camarote; elle não voltaria, lá os esperava no átrio, ás oito e meia, não fossem tarde.—
—Para o anno havemos de ter assignatura, sim, Alberto?
—Certamente; não se póde viver no hig-life sem isso; é mesmo indispensavel, chamar-nos-iam pelintras, uns sovinas.—
—Oh, havemos de ter, fica já combinado...
E passou-lhe o braço no hombro, amorosamente, um agradecimento áquella acquiescencia de bom tom, esquecendo as desharmonias que se tinham manifestado, os seus aborrecimentos, a comprehensão do ideal que o separava d'elle.
Entraram no quarto, estendeu-se languidamente na poltrona, a circulação quente do jantar, a imaginação antegosando o prazer da noite de theatro, as plateias curiosas assestando os binoculos para os camarotes, os penteados, as toilettes do hig-life e tudo aquillo n'um ambiente callido,{135} de luzes scintillantes, a musica e o canto espreguiçando-se na atmosphera quente.
—Então, menina, não tratas de te pentear, vão sendo horas...
—Já!... ainda tão cedo!... estou com uma preguiça... Vou mandar chamar a penteadeira.—Se eu soubesse, antes iamos ámanhã...
—Ora... que creancice...
Fazia esforços para se levantar, o corpo quebrado, n'uma mollesa flacida, a nudez dos braços retesando-se sobre a cadeira.
—Só se tu me tirares d'aqui...—
Elle veio, tomou-a pelas mãos, fez um esforço, pôl-a rapidamente de pé; o penteador desabotoou-se, deixando ver uma renda de camisa poisando sobre o assetinado do seio,
—Oh, que desastrado!—sorriu-se—e se eu cahir outra vez!—E atirou-se sobre a poltrona, o corpo n'uma curva provocante, contente da sua semi-nudez.
Muita gente no theatro. A illuminação ainda a meio gaz, um poucochinho cedo, mas logo os violinos principiaram em afinação, uns gemidos rapidos esfiando-se delgadamente no ambito livre, e a luz scintillou, como um leque aberto, avivando as cores mirabolantes dos vestidos, o polido dos penteados, a seda lustrada dos chapeus altos. Senhoras entravam para os camarotes, accomodando-se na frente, uma grande ostentação de toilette para recompensar a incomprehensão da opera:
—Pouca gente conhecida;—e assestava o binoculo{136} movendo-o em differentes direcções, a manga do vestido descobrindo o canhão da luva gris-perle de sete botões.