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A Engomadeira: Novela Vulgar Lisboeta cover

A Engomadeira: Novela Vulgar Lisboeta

Chapter 18: EDITOR:
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About This Book

The narrative follows a laundry worker who endures sustained mockery, practical jokes, and petty cruelties from her coworkers, which gradually escalate from teasing to physical humiliation. Through a series of vivid episodes—torn clothing, spoiled lunches, public taunts, and a dramatic act of retaliation—her private dignity and small rebellions emerge. The prose shifts between brusque comedy and sharp indignation, using impressionistic, sometimes frenetic scenes to evoke urban social textures, communal cruelty, and the precariousness of a marginalized life while maintaining moments of stubborn humor and defiance.

+XI+

Era muito pra lá do cemiterio mesmo na volta das furnas. Os carros da estrada quando passavam por ali iam mais depressa e de noite não passavam. De noite a volta das furnas ficava sósinha. Um dia appareceu uma cruz negra muito mal-feita e ainda ha muita gente no logar que diz que viu com os proprios olhos a cruz negra do moinho velho toda accesa de noite. Uma noite foi tão grande o clarão que até houve sinos a rebate julgando ser fogo. D'outras vezes é tão grande a gritaria que vem de lá do moinho que as mulheres, coitadas, pôem-se a chorar baixinho com medo de fazer barulho. Até o senhor prior que não acreditava foi lá sósinho pra desencantar o bruxedo com agua-benta porque as mulheres gritavam pra não deixar ir os maridos… e fizeram bem porque o senhor prior, não se sabe d'elle! Uma velhinha que voltou tarde da feira e não se lembrou e passou por lá prendeu-se-lhe uma rã nas voltas das saias e appareceu morta na estrada só sobre um pé. Depois é que nasceu o castanheiro que lá está no sitio. A gritaria que vem de lá do moinho é como o coaxar das rãs com o regato a correr filtrado. E cabra que paste por alli só dá peçônha. Um dia uma escola de repetição quiz-se fazer teza e os canhões foram fumados pelo commandante que se tinha esquecido de comprar charutos. Quando rompeu a manhã os batalhões já eram rãs que se tinham calado. Por isto mesmo, e é bastante, já não ha aldeia nenhuma n'este sitio de que estou fallando. Apenas existe um poço de cimento armado com balde e agua salôbra onde eu e a minha desditosa amante iamos gastar as tardes longe da cidade consoante a recommendação do meu medico que por deferencia que nunca esquecerei foi n'este caso o medico d'ella.

Não sei positivamente a razão d'aquella mudança tão repentina no espirito irrequieto da minha amante que quasi já nem sabia fallar e quando fallava era pra me pedir amendoas sentadas ou prá levar a pessear onde caem os balões. A saude physica antes de a perder, pelo contrario, desenvolvera-se-lhe extraordinariamente sem uma constipação apesar de preferir andar por toda a parte sempre núa. Uma manhã quando accordei no chalet que eu alugara sósinho n'aquelle monte longe de toda a gente reparei que ella não estava na minha cama!

A prêta, a cosinheira, tambem não sabia nada. De todas as janellas que eu espreitasse ella só poderia estar das que eu não espreitasse. Se descia ao rez-do-chão ouvia passos no outro andar mas se estivesse no outro andar ouvia passos no rez-do-chão. Tambem, se por acaso, eu dava uma volta pela quinta prá procurar quando voltasse era certo que ella ainda não tinha accordado. Ás vezes a luz tambem faltava de repente com o frio de uma janella que se abria mas quando a luz voltava as portas de dentro das janellas tambem estavam fechadas. Uma noite eu estava a escrever um conto realista e o aparo da canêta era uma vêspa. Pensei toda a noite na vêspa e na manhã seguinte o meu conto realista estava acabado com lettra da minha amante que, mais extraordinario é, nunca aprendeu a lêr. A cosinheira prêta chegou-se um dia junto de mim a chorar como doze cosinheiras prêtas e disse-me que tinha medo de dormir no sotão porque as têlhas de noite punham-se todas em braza e que depois quando se derretiam cahiam em picadellas de alfinetes. Tambem contou que uma madrugada tendo-se sentido mal que se tinha ido vêr ao espêlho e que vira com os dois olhos da cara a agua do contador a cahir pra cima. No dia seguinte o carteiro trouxe uma carta registada que quando eu a abri foi logo um estôjo de barba com sabonete e tudo, e quando eu fui pra mostrar este presente á minha amante encontrei-a sentada sobre uma vela accesa a cortar reflexos com uma thesoura das unhas que já faltava no meu estojo da barba quando eu o abri. Quando a vela ardeu toda começaram a apparecer pelas parede ás escuras immensos t t que vinham uns depois dos outros e cortados por estrellas cadentes que eram uma nota de musica quando acabavam. Immediatamente entrou a cosinheira e vinha com um castiçal de cobre acceso mas trazia a cabeça ás avessas; vinha preguntar-me se eu sabia, por acaso, onde é que eu tinha lido aquella frase que ella já se não lembrava se era i ou de chumbo. Mas peor do que nunca, foi quando n'aquella manhã de Maio eu accordei no meio de um sônho em que vira a minha amante como sendo cosinheira preta da cintura pra cima e sendo apenas a minha amante da cintura pra baixo. Quiz certificar-me. Sentei-me na cama e tive um grande prazer em verificar que tinha sido apenas um sonho aquelle horror. Porém, quando ella se ergueu era effectivamente, ainda que ao contrario do meu sonho, a minha amante da cintura pra cima e a cosinheira preta da cintura pra baixo.

Desci preoccupado as escadas, tive a noção exacta da profundidade até onde estavam pregados os pregos dos degraus; comprehendi como um degrau póde ser um mundo se nós quizermos e é um mundo real mesmo que nós o não queiramos. Achei mesmo dois mundos differentes dentro de um mesmo prego—um era a cabeça do prego, o resto era o outro. O que me interessou mais foi justamente o que era apenas a cabeça do prego. E logo havia outro mundo n'outra cabeça de prego… e outro n'uma cabeça de prego maior… e outro n'outra cabeça de prego ainda maior, e outro n'uma cabeça de prego da altura da Torre Eiffel e um prego cuja cabeça fôsse a Terra e apesar d'isso ainda houvesse outros pregos muitissimo maiores.

Tive mesmo dentro do meu cerebro as dimensões de um prego em que a Terra fôsse o atomo minimo do ferro que pezasse em toneladas a capacidade do mundo astral com todas as suas distancias.

E mais ainda: eu sentia que cada póro do meu corpo, cada molécula isolada, era uma série de mundos diferentes onde cada mundo mesmo os das ultimas subdivisões tivessem um mappa e leis e onde cada sêr fôsse tão complicado como o homem e mais ainda do que o homem, como eu. Não era sómente este segrêdo que já fazia parte da minha riqueza, havia outro. Era eu ter conduzido a minha sensibilidade (educada exclusivamente pelos que me educaram na psicologia humana) pelos timbres dos metaes… Ah! os mundos interessantissimos que são aos milhares nos timbres dos metaes, e nas côres dos metaes e na ferrugem e na duracidade e em todas as partes do corpo mineral e em todas as sensações da alma mineral muito mais independente que a psycologia humana pela unica razão de aquella ser independente. E que exercitos tão mais gloriosos e que Alexandres e Napoleões bem mais deuses desfilam n'esta historia immensa, muito mais antiga que a nossa, e com historiadores que sendo poetas vivem n'um mundo inteiramente mais perfeito, apesar de existirem talvez apenas no bico do alfinete que o senhor Barbosa traz espetado na gravata encarnada e verde. Isto vem a proposito do senhor Barbosa ter communicado n'um bilhete postal á minha amante que ia escrever um livro sobre… sobre quê!? O senhor Barbosa que por ser senhor Barbosa é toda a gente, quer seja senhor Barbosa na Arte, quer o seja na Politica ou na Individualidade ou em tudo é n'este mundo o mesmo que um remedio que nunca haverá de livrar as pessoas da morte. Digo nunca haverá porque não creio em absoluto na intelligencia humana por isto que o homem só vive exclusivamente a vida nitidamente animal ou a mysteriosamente espiritual porque nem esta mesmo na sua metaphysica soube definir quanto mais a vida mineral, a vegetal, a fluida, a do orvalho, a da phosphorescencia, todas as infinitas vidas synthetisadas na côr verde e em todas as outras côres e em todos os tons provaveis e impossiveis de todas essas côres e de todos os seus contrastes simultaneos… etc., etc. Ora como quer o senhor Barbosa escrever um livro se nem mesmo como transeunte o senhor Barbosa é completo ou competente. Ou como póde o Papa ser infallivel em materia de Deus se o meu Deus é differente do d'elle e do de todos os seus catholicos e até differente do Deus de todos os atheus. Deus ha tantos quantos os instantes de todas as vidas de todos os mundos e esse ninguem póde adora-lo porque o não póde conceber. Só esse proprio Deus é que o póde conceber, e mesmo Este não admitte a sua propria concepção porque se a Terra por destino tiver fim os outros mundos subsistem e se o fim fôr uma logica das determinantes d'aqui a um milhão de annos os mundos serão todos outros com as metamorphoses de outros mundos ainda.

Mas nem é preciso ir tão longe, vamos á vida, restrinjamo-nos. Eu se dou a minha opinião republicana a um republicano acha elle que sou talassa. Se é um monarchico que me ouve as theorias conservadoras desliga-se de mim por causa de eu ser revolucionario. Se é um artista que discute apressa-se em dizer-me que a arte d'elle é differente da minha como se houvesse duas artes, como se Deus fôsse dois como as approximações da loteria. O que esse artista não sabe é que essa tal arte d'elle é tão pouca coisa como o mercurio fechado dentro de um thermometro centigrado e que só póde subir até cem assim como se cem fôsse o limite do vacuo e onde começa justamente uma formação de mundos onde a atmosphera é rigida com relação á nossa impenetrabilidade.

Ora o senhor Barbosa vae escrever um livro sobre quê?! O senhor Barbosa aprendeu no catecismo ou na educação civica que o homem tem cinco sentidos e foi no bote como qualquer ministro quer seja de Deus ou da Republica. Ora foi justamente o senhor Barbosa um dos primeiros que me veiu dar os parabens por causa de um Christo por mim publicado n'uma revista de rapazes a Ideia Nacional cuja unica particularidade para os outros foi ser verde e não ter cabeça.

Justamente como se eu tivesse tido a ideia de fazer uma cabeça de Christo e não um Christo inteiro. Não me dirá o senhbr Barbosa o que terá percebido do meu Christo? Julgou que fôsse partida aos catholicos? Julgou que era a minha adhesão á Republica? Julgarão tambem os catholicos que me merece alguma consideração essa sua archaica restricção religiosa? Julgarão acaso os catholicos que eu pretendi cantar-lhes a devoção? Julgarão os monarchicos tambem alguma coisa em seu favor?

Christo, cuja unica nodoa consiste em andar recentemente a dar extensão a appelidos de pessôas que não são muito extensas, tem outras grandezas das quaes não são os catholicos nem os christãos que partilham d'ellas, A Lenda de Christo é a unica profecia exacta de toda a Historia Universal. É simultaneamente a historia da Humanidade desde o primeiro homem até ao ultimo de todos os homens e a vida interior, consciente e inconsciente, de cada um dos homens separadamente. A Lenda de Christo edificada talvez sobre a vida de um homem cujo descriptivo symbolisava essa propria Lenda, canta a Personalidade, as luctas pela victoria da Intelligencia, os sacrificios pelo Bem dos outros admittindo entre estes todos os que a esthetica comparou. Teria mesmo muito mais que dizer a este respeito mas como a minha amante, coitada, já se está a affligir demais, porque embirra immenso que esteja a discutir politica, eu paro hoje por aqui porque além d'isso ainda tenciono ir ao Chiado Terrasse com ella, coitadita!

+XII+

O anão já não era o mesmo—morrera o bôbo das tabernas, o poeta mendigo da Torre. Pobre anão corcunda dobrando as pernas curtas cançadas de um ventre enorme. Os largos pés sem abrigos calejavam as sollas a arrastarem-se em desiquilibrios que até pareciam de proposito. Os braços inteiros fingiam metades e ajudavam-lhe os passos a dar-a-dar. Os dedos curtos e cabelludos em cima não eram os dedos das mãos eram os dedos dos pulsos. A cabeça tinha a expressão de não estar bem cheia, mal-ageitada sobre os hombros subidos a susterem-lhe as faces inchadas com uma barba rala de ferrugem de prego torto no meio da estrada depois da chuva. O nariz soprado mettia mais pra dentro uns olhos escondidos como toupeiras nos buracos á espera da noite. O rithmo do deslocamento total era o maximo de intensidade theatral n'um drama socialista e o casaco negro, verde de velho, vestia-o todo e ainda se espojava por detraz d'elle n'um movimento de andar menos depressa e não ter rodas. Ás vezes com o sol em chapa chegava a ter a imponencia do manto arrogante de um rei. E o povo todo ao vêl-o esgueirar-se timido plas vielas já não ria os gestos cortados do bôbo das tabernas, todos recordavam as graças mortas do outro anão do mesmo casaco comprido. Dantes pedia esmola ou vendia cautelas, ou estropiava n'um fandango de ir cahir, as coplas mais indecentes das revistas; agora fugia dos outros e não mendigava, tinha mesmo um orgulho de saber uma coisa que os outros não sabiam. Ás vezes quando encontrava os mendigos punha-se a chorar e convidava-os pra ir prás terras e dava-lhes uma moeda de prata. Porém, continuava a morar n'aquella torre já quasi sem base e no ultimo quarto mais perto de onde cahia a chuva, uma cela immunda sem postigos onde o sol de medo e de nojo nunca fôra. E todas as noites, todas ia subindo de gatas a contar com o ventre a chocalhar os degraus comidos que o cançavam até ao ultimo quarto da torre. Então gemia a cancella na monotonia do grito do seu viver corcunda e tombava-se sempre vestido nas palhas apodrecidas sentindo-se rei no halito fedorento da enxovia que arruinava as pedras interiores n'um halito viscoso de urina de sapos.

Passa da meia-noite. A torre em cuidados tinha-se sentado embrulhada no chaile á espera do seu anão á porta da propria torre.

Quasi manhã viu-o a torre nos fins do caminho a cambalear. Cantava indecencias aos zig-zags de dissonantes no luar cançado da manhã. Com chapeladas e gargalhadas saudava com exageros desconjuntados as arvores medrosas que guardam os caminhos. Por vezes julgava-se elegante e andava dois passos sem zig-zags e se esbarrasse em alguma arvore comentava logo sem premeditação: Croia! Ás vezes abraçava-se a um tronco pra precisar um pensamento obscêno e demorava-se n'aquella sua opinião de osgas em que todas as mulheres eram uma só e descalça e desgrenhada cujo sexo fôsse uma sangue-suga côr de rosa. Depois seguiu com os olhos uma setta da côr da estrada e que seguia p'la estrada fóra e que depois chegava a uma torre e que subia até lá cima e acabava em palhas ás escuras. Trazia tambem saudades da Torre. E como sempre lá ia subindo a contar com o ventre a chocalhar os degraus cançados da escada magra e cega sentina dos gatos vadios.

Na cancella mais anã do que elle alliviou-lhe as trancas em fatigantes demoras e aprumou-se dono e rei ao ouvir tlintar os ferros nas lagens humidas. Contente ia rindo aquella felicidade de ter encontrado o seu solar de sombra. Sentiu um peso no bolso do casaco que ficou preso n'um prego espetado ao contrario, e com um vomito de champagne tirou do bolso um frasco elegante de Chevalier d'Orsay. Esbofeteou-lhe o gargalo e teve um gesto de o atirar plas escadas abaixo. A torre, porém, vomitou na rua um anão corcunda emmaranhado nas vestes e que foi parar defronte n'um marco geodesico sobre o precipicio. No peito cavádo e nú sujo de cabellos negros a branquear repousava obscêno o verde esmeralda postiço dos labios de uma mulher.

Lisbôa, 7 de Janeiro de 1915.

+FIM+

+Preço $25+

EDITOR:

O AUTOR

1917

TIPOGRAFIA MONTEIRO & CARDOSO

End of Project Gutenberg's A Engomadeira, by José Sobral de Almada Negreiros