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A fallencia

Chapter 11: V
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About This Book

Ambientada no Rio de Janeiro, a narrativa acompanha o funcionamento e o colapso financeiro de uma casa de comércio vinculada ao comércio de café, alternando descrições vibrantes dos armazéns e do esforço físico dos carregadores com a rotina contida dos escritórios e das casas. Por meio de episódios sobre patrões, empregados e vizinhos, explora desigualdades sociais, ambição, moralidade perante a ruína e as consequências da crise sobre relações pessoais e destinos.

A outra era uma beata de egreja e já constava que legaria os seus haveres ao frei Angelo, dos Capuchinhos. A quitandeira affirmava que ellas haviam de passar mal da barriga: decorriam semanas sem que lhe comprassem nem um triste feixe de espinafres ou molho de cenouras!

Quando a Noca atravessava o largo, com uma creança por cada mão, para a ladeira do Seminario, sentiu que alguem, que viera correndo, lhe puxava pela saia; voltou-se e viu Sancha, com ar de medo, de quem foge.

—Uê! que é que você quer?

—Quero pedir um favor, disse a negrinha, meio engasgada, tirando do seio uma nota de quinhentos réis amarrotada e immunda.

—Que favor, gente?

—Quando voltar cá, traga isto de arsenico, disse ella apontando o dinheiro que offerecia á mulata.

—Arsenico ... p'ra que?! você tá doida?!...

—P'ra nada! faça esta esmola...

E como Noca não extendesse a mão, a negrinha atafulhou-lhe o dinheiro, rapidamente, pela golla aberta do vestido, e voltou como uma setta para casa.

As cabritas andavam soltas, pastando nas hervas altas; o sol, muito quente, alvejava roupas extendidas nas ruas, e na torre repintada dos Capuchinhos o sino badalava, convidando á oração.

Noca apressava-se, arrastando as duas meninas. Logo que chegaram a baixo, ao largo da Mãe do Bispo, viram Mario passar no seu phaeton, que elle mesmo guiava numa posição correcta. O lacaio, sem descruzar os braços, sorriu para as creanças; o moço passou sem reparar nas irmãs, que ficaram com ar despeitado, agarradas á saia da ama.

O carro de Mario rodava já pela Guarda Velha, e Noca pensou:

—Elle vae alli, vae direitinho p'ra casa da tal Luiza, o diabo da mulher que lhe come os olhos da cara. Uhm! eu gostava de ver só!

O Dionysio dizia-lhe que a franceza era bonita e muito chic, e ella sentia no fundo uma curiosidade doida de conhecer a amante d'aquelle rapaz que embalara nos braços e cujo corpo redondinho e nú suspendera tantas vezes no ar p'ra o fazer rir. E fôra uma creança alegre; agora não era; pelo menos em casa mostrava-se tão arredio e tão sério... Noca suspirou e, depois de um levantar de hombros, proseguiu nos seus pensamentos:

—Afinal de contas, faz elle muito bem: a mocidade passa e o dinheiro foi inventado para se gastar. Elle gosta d'ella, acabou-se! Sabe Deus o que o pae teria pintado tambem; agora falla e quer dar leis ao coração do filho... Está-se ninando! Aquelle! pois sim! Cada um sabe de si...

Ao mesmo tempo sentia piedade pela Nina. Em casa a unica pessoa que percebera aquelle segredo fôra ella. Sabia, mas calava-se muito bem calada; para que arranjar barulhos? Era tão boa, a pobre, tão facil de contentar... Bastava vêr os vestidos e os chapéus que ella usava: tudo restos de Milla e de Ruth, que ella fuchicava a seu geito... Nunca pedia nada, nunca se punha em evidencia, ninguem se lembrava até quando ella fazia annos! Talvez houvesse em casa um pouco de ingratidão para com a moça; mas de quem era a culpa? Mario era um rapaz rico e de bom gosto, havia de escolher mulher mais bonita, que fizesse vista numa sala.

Noca adorava o Mario; achava-o lindo, com o seu pequeno buço aloirado e os seus olhos negros e pestanudos. A flor da familia. Aquelle sahira á mãe.

Passava um electrico. As creanças sacudiram a mulata:

—Vamos, Noca!

—Vamos mesmo, que hoje de mais a mais é terça-feira...

A conselho do Dr. Gervasio Camilla, tinha marcado as terças-feiras para as suas recepções. No começo houve reluctancia em casa. Francisco Theodoro gostava de porta franca em todos os dias da semana; a mulher mesmo, criada em velhos habitos, vexava-se de marcar dia para as suas visitas. Comquanto o novo systema a constrangesse, submetteu-se, porque era da vontade do Dr. Gervasio, e para esse o portão da chacara estava sempre escancarado.

Elle não faltava, ia vêl-a todas as manhãs, almoçar no logar de Francisco Theodoro, que almoçava sosinho duas horas antes, a um canto da grande mesa vazia; e alli o medico ensinava áquella gente o meio de se conduzir na sociedade, polindo-lhe o espirito, alterando-lhe os gostos, fazendo-a preferir o queijo que elle preferia, o vinho de que mais gostava, as aves e as caças com molhos delicados, de fino paladar.

A docilidade dos ouvintes fazia-o abusar de phrases que elle formava para si, com o pretexto de as dizer aos outros, e que elles todavia acceitavam, com agrado, num sorriso...

Nessa manhã de terça-feira estavam ainda ao almoço, quando palmas gordas estrondearam no jardim.

—É o Lelio, exclamou Ruth, arrancando o guardanapo do pescoço e correndo para fóra.

Era o Lelio; viram-lhe o gordo cachaço, atravéz dos vidros da porta, quando elle passou pelo corredor.

Com o pretexto de mostrar ao medico um annel novo, Camilla extendeu-lhe a mão, luminosa de pedrarias.

Elle segurou-a, e erguendo-a um pouco, observou:

—Tal qual cinco raios de sol... Sim, senhora! é muito perfeito este brilhante ... mas este outro ainda é mais limpido...

Ella sorria, e Nina excedeu-se em tratar das creanças, com o proposito de desviar a attenção.

—Ponha este annel fóra... É indigno da sua mão.

—Brilha tanto!

—É do Cabo, muito amarello.

—Mas eu estimo-o muito. Foi o primeiro presente de meu marido.

—Vá lá, que não são mal escolhidas as suas pedras, precisa ainda de um brilhante negro, para este dedinho que está muito nú. Tenho pena que não goste de perolas; só quer pedras que fulgurem.

—Só.

—Vamos para a saleta? trouxe-lhe um livro.

—Versos?

—Não. Um romance.

—Ainda bem; eu só gosto de versos quando o senhor m'os lê. Uma monotonia...

Na saleta, ella abriu a veneziana e aspirou com força o aroma dos resedás plantados junto á parede. Gostava dos aromas fortes. Que dia maravilhoso! depois, voltando-se:

—O livro?

—Está aqui.

—Já leu?

—Já. Trata-se de um amor um pouco parecido com o nosso.

—Então não leio. Sei que está cheio de injustiças e de mentiras perversas. Os senhores romancistas não perdoam ás mulheres; fazem-nas responsaveis por tudo—como se não pagassemos caro a felicidade que fruimos! Nesses livros tenho sempre medo do fim; revolto-me contra os castigos que elles infligem ás nossas culpas, e desespero-me por não poder gritar-lhes: hypocritas! hypocritas! Leve o seu livro; não me torne a trazer d'esses romances. Basta-me o nosso, para eu ter medo do fim.

—Não tenha remorsos; o nosso não acabará!

—Remorsos ... remorsos de que? Pensa, Gervasio, que, desde o primeiro anno de casado, o meu marido não me trahiu tambem? Qual é a mulher, por mais estupida, ou mais indifferente, que não adivinhe, que não sinta o adulterio do marido no proprio dia em que elle é commettido? Ha sempre um vestigio da outra, que se mostra em um gesto, em um perfume, em uma palavra, em um carinho... Elles trahem-se com as compensações que nos trazem...

—Isso tudo é vago e abstracto.

—Não importa. E as denuncias? e as cartas anonymas? e os ditos das amigas? Eu soube de muitas coisas e fingi ignoral-as, todas! Não é isso que a sociedade quer de nós? As mentiras que o meu marido me pregou, deixaram sulco e eu paguei-lh'as com o teu amor, e só pelo amor! E assim mesmo o enganal-o peza-me, peza-me, porque, quanto mais te amo, mais o estimo. É uma tortura, que parece que foi inventada só para mim!

Gervasio não respondeu. Tinha o rosto contrahido por uma expressão de ciume. Passado um instante de silencio, murmurou:

—É extraordinario! Nunca julguei possivel essa dualidade no amor. Bem, levarei o livro. Adeus.

—Não vá... É cedo ... supplicou ella, com o rosto pallido, illuminado de paixão. Fique, é tão bom! Fallarei noutra coisa. Ensine-me a fallar, Gervasio.

—Então, diga lá:—amo-te!

E ella ia repetir as palavras, quando as gemeas entraram ruidosamente.

Lia queria saber se aquelles navios pretos e pequeninos espalhados no jornal eram do capitão Rino.

—São; disse a mãe abreviando explicações. Vão brincar.

—Ih! então elle é muito rico?

—É. Vão brincar.

As meninas sahiram e o assumpto voltou-se para o capitão Rino. O medico ridicularisava-o; queria-lhe mal, achava-o medroso, desenxabido, muito branco e muito loiro, mal ageitado nas suas roupas. Faltava-lhe linha, faltava-lhe espirito, faltava-lhe tudo.

Camilla negava alguns d'esses defeitos. Não tivesse medo: ella só o amaria a elle, em toda a sua vida.

Havia já muito tempo que duravam aquellas conversas na saleta, com a porta escancarada para o corredor, por onde de vez em quando Lia e Rachel passavam á galope, montadas nas bengalas do pae.

Era á despedida que o medico e Camilla marcavam, de vez em quando, uma entrevista, longe, em uma casa da Lagôa, conservando o respeito por aquella habitação onde as filhas d'ella viviam soltas, procurando-a a todos os instantes, irrompendo de traz dos reposteiros ou dos moveis quando menos se esperava.

Ruth acabara a licção. Sentiram os passos do maestro na escada. Gervasio ergueu-se.

—Pois vou-me por ahi abaixo com o Lelio. São horas das moças bonitas na rua do Ouvidor...

—Quem me dera que eu fosse uma d'ellas... A velhice aterra-me ... por sua causa! E ella vem perto!...

—Tontinha! e não sou eu mais velho?

—Sim ... mas os homens! Quando eu tiver os cabellos brancos, você...

—Eu já não terei nenhuns; serei calvo como um ovo e viveremos ambos com as doces recordações d'estes dias lindos. O nosso romance não acabará nunca. Dê-me as suas ordens, minha senhora, aqui temos o Lelio.

Camilla acompanhou-os ao terraço.

—Que me diz da sua discipula? perguntou ao maestro.

—Muito bem. Vae muito bem! D'aqui a pouco ensina-me...

—Ella é estudiosa...

Emquanto os dois conversavam, o medico passeou o olhar pelo jardim; depois disse, voltando-se indignado para Camilla:

—O bandido do seu jardineiro está-lhe fazendo bordaduras de horta nos canteiros! Aquelles feitios em gramas são de pessimo gosto. Não tem instincto, o desgraçado! Hei de lhe arranjar outro, um francez acostumado a lidar com as flores de Nice. Verá a differença.

Este errou a profissão: nasceu para tosquiador ou barbeiro. Nem faz idéa do que seja a harmonia das cores; veja aquelle canteiro: o rôxo ao pé do escarlate, o amarello ao pé da cor de rosa! Tudo mais, folhagens, folhagens e folhagens! Parece que estes jardineiros fazem guerra ás flores! Pois cá terá o outro amanhã. Vamos, maestro?

Elles desceram e Camilla ficou encostada a um pilar, até ver sumir-se o medico; já elle tinha desapparecido e ainda ella olhava, pensativa...

Fôra ha annos... Gervasio morava já na mesma casa do Jardim Botanico, bem installado, mas muito mettido comsigo.

Uma noite alguem lhe batera á porta com desespero: era Francisco Theodoro, que o chamava como o medico mais proximo, para ver uma filha que ardia em febre. Tinham ido provisoriamente para a sua visinhança, mudando o Mario, que tivera a palustre. O medico não clinicava, mas cedeu á supplica e salvou Ruth de um typho. A doença fôra longa; a menina só acceitava remedios e alimento pela mão do seu amiguinho, que tratou tambem de fortalecer Mario.

Camilla dizia então em extase, ao marido:

—Devemos ao Dr. Gervasio a vida de nossos filhos! A entrada fôra victoriosa; justificava o ascendente do medico na familia... Nem fôra no começo que elle amara a Camilla. Nesse tempo ella não sabia ataviar-se, nem fazer sentir a sua formosura. Tinha os modos de uma boa mãe tranquilla, muito banal, com discursos longos e choradeiras sobre a morte muito recente de uma filhinha, que a tornavam fastidiosa. As gemeas, então de mezes, andavam sempre pendentes do paletot branco da mãe. Gervasio odiava aquelles casacos e aquellas queixumeiras insipidas. Mas esse tempo de prostração foi passando, e ella ascendeu pouco a pouco, vagarosamente, para a formosura e para a graça. A evolução não foi rapida, mas reflectida e suave, como impellida por sopros delicados. Quando o medico percebeu quanto Camilla mudava, e que essa transformação lenta e visivel se fazia ao influxo dos seus gostos, da sua convivencia e do seu espirito, começou a observal-a com redobrada attenção, cultivando o prazer de a tornar outra, como que uma obra sua.

Camilla usava agora as cores claras, que lhe iam bem, e que elle lembrara como mais propicias á sua tez, adquiria expressões novas, inflexões de voz em que nascia uma musica de tons coloridos e harmoniosos, fazia outros gestos, mais graves e adequados, pisava de maneira mais rythmada e linda, deixou os perfumes misturados, sem escolha, por uma essencia branda; e tudo isso o fazia sem esforço, obedecendo á suggestão. O medico via nella um reflexo perfeito da sua alma, sentia-a voltar-se, subir para elle; e absorvido nesse estudo delicado—apaixonou-se por ella.

Levada na fascinação, só tarde Camilla percebeu o perigo que a solicitava; então quiz fugir: fechou-se em casa, esquivava-se a vêr o medico; mas, atravéz da distancia e do silencio, elle percebia o amor d'ella a chamal-o, a envolvel-o todo com uma obsessão de loucura.

Passaram-se assim longos mezes, de saudades sem remedio, de agonias mudas; até que um dia, cançados de uma resistencia inutil, deixaram-se vencer.

Para elle, aquella ligação foi uma victoria; para ella como que uma lei da fatalidade. Era, porque tinha de ser, e a sua culpa salvaguardava-se nessa crença.

Havia muito tempo já que o Dr. Gervasio entrara na intimidade da familia: sabia-lhe os segredos, lia todas as cartas vindas de Sergipe, com repetidas supplicas de dinheiro. Conhecia a historia do nascimento de Nina, filha natural do Joca, e da fugida d'elle, compromettido em uma casa de commercio; estava ao facto das doenças de D. Emilia, das habilidades calligraphicas do velho Rodrigues e da já alta somma de dotes dada por Francisco Theodoro ás cunhadas.

Tudo isto soubera-o elle naturalmente, sem indagações; vinha na enxurrada dos desabafos, no desafogo da amisade.

Com o amor, elle tinha tambem sabido conquistar a estima. Toda a gente em casa o ouvia com attenção.

Um pouco d'essas coisas vagou pelo espirito de Camilla, quando, de olhar alongado, seguia ainda a sombra de Gervasio.

Dias depois ella dava os últimos retoques á sua toilette, em frente ao espelho, quando o marido entrou.

Camilla viu-o no crystal e perguntou-lhe, mesmo sem se voltar:

—Por que é que você veio tão cedo?

—Por duas razões...

E, como elle interrompesse a phrase, ella, sobresaltada, acercou-se, indagando com interesse:

—Você está doente? Diga!

—Não tenho nada filha, descança.

Camilla sorriu e voltou tranquilla para defronte do espelho.

—Então que motivos são esses?

—O primeiro, para pedir ao Gervasio que vá ver o Motta, que quebrou hoje uma perna.

—O velho?

—Sim.

—Coitado! como foi?

—Foi no serviço da casa; descendo de um bond. Já está medicado, mas quero que o Gervasio lhe examine o apparelho. O segundo motivo é mais serio.

Sem afastar do rosto o pompon do pó de arroz, Camilla interrogou com certa indifferença:

—Que é?

—Trata-se do senhor seu filho.

—Meu só?! tem graça...

—Tem graça? Olha, eu é que lhe não acho nenhuma! Está um bilontra, o tal senhor!

—Aposto, meu velho, em como você vem por ahi com recriminações?!

—Certamente; porque afinal de contas a verdadeira culpada das patifarias do rapaz és tu.

Camilla voltou-se indignada, com os olhos chammejantes de colera:

—Hein?!

—Não dou um passo na rua que não encontre um credor do senhor meu filho!

—Ora, logo vi, por causa de dinheiro! murmurou com desprezo Camilla, olhando para o marido de alto.

Elle continuou:

—É preciso que tu o advirtas hoje mesmo, que isto não póde continuar assim! Elle mantem agora uma mulher: dá-lhe vestidos, carro, casa, e com toda a impudencia faz contas em meu nome! Já se viu coisa egual?!

—É a mocidade...

—Já me tardava! É a pouca vergonha. Que trabalhe.

—Trabalhar! Mario tem só dezenove annos!

—Faze mãos de velludo para o acariciar; é o costume!

—Mas por que não lhe falla você?

—Por que?! Ora essa! porque lhe vou á cara, se elle me retruca com um desafôro!... Esperarei mais alguns dias ... falla-lhe tu primeiro. Não lhe mettas caraminholas na cabeça; dize-lhe que trabalhe, que siga o meu exemplo, e que se deixe de fazer dividas. Isto competiria a mim, bem sei, se não me tirasses toda a força moral.

—Eu?!

—Sim. Acodes com pannos quentes sempre que o reprehendo, e ahi está o resultado... E viva um homem honrado para isto! Uma vergonha...

—Ora! tambem você exaggera. Mario tem boa indole. É incapaz de uma acção má. Descançe; eu fallarei com elle. Quer então que eu o aconselhe a deixar a tal mulher?...

—Por força! Uma perua velha, que o ha de comer por uma perna. Não posso estar continuamente a desembolsar contos de réis para os caprichos da tal madama. Podes dizer ao Mario que, ou elle toma caminho, ou o mando para a Marinha.

—Já não está em edade disso, nem eu me separo de meu filho!

—Temos outra. Faze o que quizeres; hoje falla-lhe tú, e se elle não seguir outro caminho, terá de se haver commigo. Diabo, tenho outros filhos!

—Coitado do Mario! tú nunca o amaste muito...

—Han! Eu?! eu é que nunca o amei? Oh! senhores ... está bom, está bom, fallemos noutras coisas... Acalma-te ... e veste-te á vontade. As Gomes já estão ahi: vi-as no jardim com a Ruth.

—Que me importam a mim as Gomes!

Francisco Theodoro chegou-se á janella, afastou a cortina e olhando por entre os vidros, informou com voz amavel:

—Lá está tambem o capitão Rino... Ahi estava um bom casamento para a Nina, hein? Gosto d'elle, parece um excellente rapaz ... apezar da procedencia.

—Que procedencia?

—Homem! a mãe morreu ás mãos do marido, por crime de adulterio... Emfim, isso já foi ha tantos annos, que ninguem se lembrará do caso...

—Você lembrou-se.

—Ora, porque ainda hontem me fallaram nisso... Bom casamento para a Nina ... bom casamento!...

Camilla sorriu com desdem e tratou de abotoar melhor o seu broche de perolas, sobre a escomilha côr de rosa do peitilho. Coitada da Nina ... pois sim!

—Muito bem! lá chegam o Lelio e o Gervasio... Sou muito amigo do Gervasio, mas olha que elle tambem é um exquisitão. Não diz nada á gente da sua vida, lá dos seus principios... Com a intimidade que lhe damos era natural que soubessemos mais d'elle que toda a gente; e afinal sabemos só o que todos sabem. Aqui para nós, não sympatisam geralmente com elle por ahi; dizem que elle nunca escreveu uma linha e que vive a criticar livros e auctores... Realmente, elle não perdôa a ninguem. Pois vou fallar-lhe. Até já.

Antes de sahir, Theodoro contemplou a mulher, ageitou-lhe os caracóes da nuca e, attrahindo-a, quiz beijal-a; ella porém esquivou-se com um movimento rapido. Francisco Theodoro riu-se e sahiu pensando comsigo:

—Todas as mães são assim! Só porque lhe fallei do filho...

Em baixo, Ruth colhia flôres para as visitas, que se aggrupavam sob as ramas abundantes da mangueira. As Gomes, a mãe e duas filhas moças, eram indefectiveis: todas as terças-feiras lá iam, houvesse máo ou bom tempo. A velha era uma senhora toda cheia de preconceitos e escrupulos, e com a cabeça recheada de receitas, tanto medicinaes como culinarias, que ella offerecia a toda a gente que lhe ficasse ao alcance da voz. As filhas eram expertas, cantavam ao piano e ao violão e vestiam-se com graça, fazendo valer pannos baratos.

O capitão Rino examinava as palmeiras com a attenção de um botanico, emquanto o maestro e o Dr. Gervasio cumprimentavam as senhoras.

Francisco Theodoro appareceu risonho, com as duas mãos extendidas para a querida Sra. D. Ignacia Gomes, que se levantou remexendo as sedas farfalhantes do seu vestido cor de pinhão. Que excellente seda aquella! já passara por tres feitios differentes, e ainda era aquillo que se via!

—Cara senhora, então, o amigo Gomes?

—Vem logo; ah! elle tem muito trabalho, não imagina.

—Sei, sei ... a vida foi feita para as mulheres. E ainda ellas se queixam! Só se falla por ahi em emancipação e outras patranhas... A mulher nasceu para mãe de familia. O lar é o seu altar; deslocada d'elle não vale nada!

Todos concordaram; e Francisco Theodoro passou adeante, puxando o Dr. Gervasio para uma alléa mais solitaria do jardim:

—Vou pedir-lhe um obsequio. Lá um dos meus empregados, um ajudante de guarda-livros, o Motta, quebrou hoje uma perna, ao descer de um bond. O homem foi tratado na pharmacia do Souto, mas ... sabe que esses apparelhos feitos assim á pressa não inspiram confiança; peço agora ao amigo que amanhã vá lá vêl-o.

—Perfeitamente. Onde mora?

—Na rua Funda, tenho aqui o numero...

Francisco Theodoro sacou de um bilhete escripto a lapis.

—Rua Funda? Onde é isso?

—É no outro mundo, lá para os lados da Saúde.

Emquanto Francisco Theodoro conversava com o medico, Camilla desceu a escada exterior do palacete, olhando de relance para todos.

As Gomes acharam-n'a muito bonita e, intimamente, espantavam-se de não verem nella nem o menor signal de decadencia. Aquella pelle alva e macia, aquelles cabellos negros sem um fio branco, aquelles dentes perfeitos e brilhantes, sem um toque siquer de ouro que attestasse a passagem dos annos e das mãos dos dentistas, faziam-n'a parecer sempre a mesma Camilla dos tempos da Lapa, em que D. Ignacia a conhecera.

Vendo-a descer tão bonita, o capitão Rino corou até á raiz dos cabellos e foi elle o ultimo que se approximou, tocando-lhe de leve nos dedos estrellados de anneis.

Nina, que espreitava de cima, achou a occasião opportuna para mandar pelo criado a bandeja de prata com o vermouth.

—Por que não subiram?

—Estamos bem. A sua Ruth tem feito as honras da casa. E como ella está crescida; já não lhe ficam bem os vestidos curtos...

—Não diga isso ao pé d'ella; apezar de que estou certa de que não toleraria as caudas; é muito creança e tem modos de rapaz. Não imagina, D. Ignacia, que phantasia a d'esta menina!

Não sei como se arranja, mas a verdade é que se encarrapita nas arvores com o seu violino; e faz gosto ouvil-a tocar lá em cima. Diz que é para fazer concertos com os passarinhos. Veja se eu a posso pôr de vestidos compridos. Que horror!

—Ah! mas é preciso perder este costume; ella já tem os seus treze annos...

—Quatorze ... quasi quinze! mas não parece.

—Isso de trepar nas arvores é para rapazes; uma menina de educação tem deveres...

Ruth interrompeu o discurso da velha, trazendo-lhe uma manga-rosa muito perfumada.

—Não falle mal de mim, D. Ignacia; aqui tem a senhora uma fructa colhida por mim lá nos cocurutos da arvore. Se eu não tivesse ido buscal-a, a senhora não a teria agora...

—Ahi está...

D. Ignacia cheirou a fructa, com força, cerrando os olhos papudos; e depois, voltando-se:

—Camilla, você já comeu geleia de manga?

—Não me lembra...

—Pois é gostosa e facil de fazer; olhe...

Emquanto a D. Ignacia desfiava a receita do doce, Camilla olhava para ella, ouvindo o murmurio de outras vozes, querendo distinguir as palavras do medico e do capitão, sorrindo imbecilmente, destacando de longe em longe uma ou outra coisa, um elogio ao Neptuno, da esquerda, ou um—expreme-se e põe-se na peneira—da direita.

Nesse dia Mario não appareceu ao jantar e Francisco Theodoro queixou-se d'elle ao Dr. Gervasio, em um vão de janella, num desabafo de sentimento.

Gervasio ouvia-o calado, mordendo o charuto, dando-lhe razão, sem dizer comtudo uma unica palavra. Theodoro assegurava:

—A mãe tem um coração de pomba, incapaz de fazer nem pensar no mal. A bondade excessiva leva aos desatinos ... aquelle filho é o mais velho e ella encontrou nelle toda a sua ternura ... não lhe levo a mal,—é mãe. Repare que para com as meninas ella é mais severa!

O Dr. já observara isso mesmo; nessa mesma noite elle aconselhou Camilla a que fizesse a vontade ao marido, reprimindo o filho. Elle conhecia a amante de Mario: era uma franceza gananciosa, podre de rica, de cabellos pintados e carne molle. Não valia nada e arruinara muita gente boa.

Camilla prometteu que faria valer a sua autoridade materna e envolveu-se na conversação geral, fugindo d'aquelle assumpto irritante.

Á noite foram outras visitas, dous negociantes solteiros e duas moças da visinhança, as Bragas.

Francisco Theodoro acoroçoava os jogos e as musicas, acolhendo entre os joelhos gordos, ora a filha Rachel, ora a Lia, que se atiravam para elle estonteadas, amarrotando os bordados dos seus vestidos brancos, interrompendo com as suas corridas e risadas a conversa dos grandes. E foi no meio d'aquelle barulho, que um dos negociantes, o Negreiros, da rua das Violas, se lembrou de fallar das operações commerciaes do Gama Torres, com elogio e assombro.

Uma das Gomes, a Carlotinha, cantava modinhas ao piano com uma graça picante, que a mãe tolerava a custo e que fazia rir muito as outras.

O capitão refugiou-se em uma janella. Ruth foi ter com elle: o moço ao principio não lhe prestou attenção; seguia, atravéz das cortinas, os olhares trocados entre Camilla e Gervasio.

Seriam todos cegos, só a elle caberia descortinar aquelle amor, tão evidente?

Ruth, derreando a cabeça para traz, olhava para o céo tranquillo. Houve um largo espaço de silencio entre ambos. Ruth disse por fim, sem abaixar os olhos:

—Que parecerá a terra, vista de lá...?

—Uma gotta de luz...

—Ainda bem; alegra-me saber que vivo em uma estrella. E como ellas hoje estão bonitas! Se Deus me désse a escolher uma, eu ficaria embaraçada. Olhe, repare para aquella, como é grande e suave!

—É Vesper...

—Linda, linda, linda!

—Levante mais os olhos, para acolá; repare para o Cruzeiro, como está limpido hoje! Maravilhosa noite!

—Sim ... estou vendo ... cinco estrellas brilhantes em um lago negro. Porque é tão escuro aquelle pedaço do céo ao lado do Cruzeiro?

—Porque não tem astros.

—Deveria ter sido por alli que Lucifer cahiu.

—Por que?

—Fez um rasgão no filó doirado. Por isso Deus poz alli a cruz, para que o diabo não tornasse a passar pelo buraco.

O capitão sorriu.

—Se eu fosse passaro, continuou ella, gostaria de voar á noite...

—Como as corujas.

—Não. As corujas são feias, mettem medo, e eu só gosto do que é bonito. Quereria ser uma ave branca e com azas tão fortes que me levassem até acima das nuvens. Desde pequenina que eu gosto de olhar para o céo e que me desespero por não poder voar... Ás vezes sonho que estou voando ... e é tão bom!

O capitão Rino lembrou-lhe que fosse ao Observatorio do Castello, o que lhe seria facil, visto ter lá familia na visinhança. Assim veria bem a lua e a côr das estrellas.

Interessado por aquella imaginação ardente, o capitão Rino explicava á menina os nomes das estrellas, sentindo roçar-lhe pelo hombro o cabello d'ella, vendo-lhe na transparencia luminosa do olhar a chamma de uma curiosidade insatisfeita.

Elle tinha uma linguagem clara, mas interrompia as phrases de vez em quando, com sobresalto, voltando-se para a sala attrahido pela voz de Camilla.

Ruth nem percebia a causa nem reparava mesmo naquelles movimentos e continuava a interrogal-o, com o olhar acceso para o grande céo illuminado.

Rebentaram palmas, lá dentro. Carlotinha acabara uma modinha requebrada, e andava muito faceira pela sala, desafiando as Bragas para uma valsa.

—Quem toca?

Judith foi para o piano, que atacou com força e pedal.

Apezar do barulho, Francisco Theodoro discutia com o Negreiros o arrojo do Gama Torres, attribuindo ao acaso o exito da famosa empreza, o que o amigo negava, affirmando o tino especial do outro.

Estava calor, os leques de papel adejavam como borboletas nas mãos das moças. Carlotinha não logrando dançar com o Rino nem com o Negreiros, atirou-se aos braços da Therezinha, a mais moça das Bragas. E as duas rodopiaram pela sala.

Duas horas depois o negociante acompanhava as visitas até ao portão. D. Ignacia ia desde a porta de braço com o marido, o Gomes, um velhote gordo, de grandes lunetas de tartaruga. As Bragas, muito falladoras, prometteram á Carlotinha e á Judith moldes de casaquinhas modernas, como as que traziam vestidas. Camilla acompanhava-as tambem, retardando o passo, entre o Dr. Gervasio e o capitão Rino, que não dizia nada, recebendo em cheio o effluvio d'aquella noite sem par! Um bond passou e as Gomes partiram. Nina ficara em cima, accommodando a casa, vendo fechar as janellas da sala.

O medico chegou-se então para Francisco Theodoro, perto do gradil, á espera de outro bond para o Jardim. Camilla sentou-se em baixo da mangueira e o capitão imitou-a, olhando-lhe para o perfil doce, ensaiando uma confissão que não lhe sahia nunca dos labios tremulos. Camilla abandonava-se, parecia provocar essa grande palavra, como se não bastassem á sua vaidade de mulher os amores do amante e do marido.

Assim imaginou o capitão Rino, todo penetrado do aroma e do encanto d'ella. A mão de Camilla pousara no banco, e elle então, com o mesmo gesto esquivo e assustado, apertou-a de leve; ella levantou-se, com modo brusco, sacudida por um arrependimento, culpando-se da sua leviandade, e partiu logo para a luz clara do luar, deixando o capitão na sombra da arvore. O olhar do Gervasio indagou logo de tudo, emquanto o marido fallava em coisas indifferentes. Foi nesse instante que lá em cima, no terraço, toda voltada para a lua branca, Ruth tocou no seu violino uma sonata harmoniosa e larga.

Em baixo fizeram pausa na conversa, com as almas suspensas naquella musica e naquella noite.

Sentado no mesmo banco, o capitão Rino olhava com desespero para o vulto claro de Camilla, que lhe fugia e se chegava para o seu amor feliz, toda embebida na poesia d'aquelles sons. Fechou os olhos para não ver...

A doçura da musica enchia tudo de um sentimento ignoto, prolongado... Uma estrella cadente riscou o espaço com um fugitivo fio luminoso. Camilla apontou-a com o dedo.

A sonata abria-se numa harmonia ampla e intensa, quando de repente Theodoro gritou para cima:

—Não são horas de musica. Para a cama!

Depois, em um murmurio satisfeito:

—O diabo da pequena tem sentimento, hein?

—Tem mais do que isso, affirmou Gervasio: tem talento, tem inspiração!

—Tanto esta é applicada, quanto o irmão... Bem! lá vem o seu bond doutor!

O medico, despediu-se á pressa e correu; o capitão Rino vencia a custo a sua commoção e sahiu tambem, descendo a pé pela rua a baixo, apezar dos pedidos de Theodoro, que esperasse alli mesmo outro bond para a cidade.

Camilla entrou em casa antes do marido e procurou immediatamente a Noca, que vigiava o somno de Rachel e de Lia.

—Mario já entrou, Noca?

—Não senhora. Dionysio já veio ha que tempos e disse que seu Mario ficava lá...

—Lá?... Em casa da tal Luiza?!

—É...

—Se meu marido sabe! Olhe ... se elle perguntar, você responda que Mario entrou com enxaqueca, e que por isso não foi á sala. Ouviu? Diga que elle está dormindo.

—E se elle amanhã perguntar a Dionysio?

—Você previna primeiro o rapaz.

—Tambem não sei p'ra que seu Mario faz assim; só p'ra metter a gente em embrulhos...

—Tem paciencia, Noca ... elle é creança... Amanhã eu lhe darei conselhos...

—Hum... Lia entornou o oleo da lamparina no chão, e eu já fico esperando aborrecimentos. É sabido: azeite entornado, desgosto em casa!

—Cala a bocca; lá vem seu Theodoro. Boa noite, Noca!

Francisco Theodoro gyrou pela casa, verificou se estava tudo bem fechado e fez á mulata as perguntas previstas pela mulher. Depois, já a caminho do dormitorio, voltou-se e foi dizer-lhe:

—Olhe, Noca, se a enxaqueca do Mario augmentar, sempre será bom dar-lhe uma pastilha de antipyrina...

—Sim, senhor, eu vou vêr...

Francisco Theodoro sahiu, e a criada suspirou, vexada, abaixando a cabeça.




IV

Era meio-dia, quando o Dr. Gervasio saltou do bond e encaminhou os seus pés bem calçados para a rua dos Benedictinos.

Já o trabalho descia torrencialmente por toda a larga rua. Carroções fragorosos abalavam os parallelipipedos, ameaçando esmagar tudo que topassem adeante, numa chocalhada, aos arrancos dos burros alanhados pelas correias dos chicotes. Carroceiros vermelhos, de grenha suja e pés gretados, esbofavam-se, agarrados aos grilhões dos varaes, saltando deante das rodas, na bruteza selvagem da sua lida.

Ao alarido das vozes confundidas, misturavam-se o cheiro do café crú e a morrinha do suor de tantos corpos em movimento, como que enchendo a atmosphera de uma substancia gordurosa e fétida, sensivel á pelle pouco afeita a penetrar naquelle ambiente.

Atravéz dos crystaes da sua luneta de myope, o Dr. Gervasio olhava para tudo com o seu ar curioso, de cabeça erguida e narinas dilatadas, como se o olfacto o ajudasse tambem um pouco a conhecer o porque e o destino de todas aquellas coisas.

Com a bengala suspensa, os dedos das luvas irrompendo-lhe do bolsinho do veston, a cartola luzidia, a gravata clara, picada pelo brilho faúlante de um rubim, elle atravessava como um extrangeiro aquellas ruas, só habituadas aos chapéos de côco, ás roupas do trabalho diario, alpacas e brins burguezes, ou aos trapos immundos dos carregadores boçaes.

Como tivesse perdido o endereço do velho Motta, teve o Dr. Gervasio de subir ao escriptorio de Francisco Theodoro. No armazem, em baixo, a grita do negocio tocava á loucura: pareciam todos impellidos por molas flexiveis, de movimentos rapidos; eram machinas, não eram homens, aquellas creaturas nunca dobradas ao peso do cançaço...

O Dr. Gervasio, presumindo-se de forte pela sua ducha fria e a sua gymnastica de quarto, espantava-se da maneira lépida por que aquelles homens tiravam as saccas do alto das pilhas e as punham aos hombros. O seu braço fino, mas valente, sentia-se humilhado deante d'aquelles biceps de athletas.

Francisco Theodoro sorria-se do seu espanto, e para que elle não perdesse de novo o endereço, chamou um rapaz do armazem, o Ribas, e mandou-o acompanhar o medico até á casa do enfermo.

—Será melhor assim; disse elle, não haverá perigo de errar o caminho, porque, comquanto você seja carioca, nesta parte da cidade, olhe que é mais extrangeiro do que eu!

O Ribas sacudiu a poeira do chapéo, enterrou-o até as orelhas enormes, e, balançando os longos braços sem punhos, dentro d'um casaco enfiado á pressa, caminhou adeante, todo vergado, como um velho.

E por toda a rua de S. Bento, elle guardou aquella compostura, sem relentar os passos nem voltar a cabeça. Entrado na da Prainha, modificou a atttitude de caixeiro em serviço, foi-se deixando ficar atráz, até marchar ao lado do medico, morto por lhe pedir um cigarrinho.

O Dr. Gervasio percebeu-lhe a vontade.

Deu-lhe cigarros.

Atravessavam o largo da Prainha; que o sol alcatifava de ouro. Fazia calor. Ribas lembrou:

—Se o senhor quizer tomar alguma coisa, aquelle botequim é muito bom.

—Não tenho sêde.

—É que lá para deante não ha nenhum que preste...

«O rapaz quer cerveja, pensou comsigo o medico; pois façamos a vontade ao rapaz.»

Entraram no botequim. Em uma salinha estreita, com chromos nas paredes e papeis de cor no lampeão de gaz, havia tres mesinhas vazias e uma occupada por dois ciganos angulosos, que gesticulavam largamente, sacudindo-se nas suas longas sobrecasacas encebadas. Tudo ás moscas. O dono da casa veio, com ar somnolento, pedir as ordens; o Dr. Gervasio deu-lh'as, olhando para um violão pousado no balcão, e de que se dependurava uma larga alça de cadarço vermelho.

Aquelle instrumento abandonado suggeriu-lhe a idéa das noitadas de modinhas amorosas pelas estreitas ruas do bairro. Ou na treva, ou á claridade baça do luar, aquelles predios teriam ouvidos com que escutassem musicas vagabundas? Afigurava-se-lhe que não. A fadiga dos seus dias rudes tornaria de chumbo o seu somno, impassivel a sua alma cançada. Por mais que o trovador berrasse, a sua voz chegaria lá dentro como um leve zumbir de abelhas...

O dono do botequim julgou vêr no olhar do medico um reparo ao desleixo da sala e arrebatou a viola para dentro.

«Foi-se a unica nota pittoresca», pensou Gervasio, atirando os nickeis para a mesa.

Continuaram calados o seu caminho. E era um caminho todo novo para o medico, que o achava interessante na sua fealdade, extravagante no seu conjuncto de velharias e sobejidões.

A novidade do meio dava-lhe um prazer de viagem: beccos sordidos, marinhando pelo morro; casas acavalladas, de paredes sujas; janellas onde não acenava a graça de uma cortina nem apparecia um busto de mulher; caras preoccupadas, grossos troncos arfantes de homens de grande musculatura, e ruido brutal de vehiculos pesadões, faziam d'aquelle canto da sua cidade, uma cidade alheia, infernal, preoccupada bestialmente pelo pão.

Subiam a rua da Saude. Chegando á esquina do becco do Cleto, Dr. Gervasio olhou: ao fundo, no mar muito azul, barrava o horizonte um vapor do Lloyd.

Pontas finas de mastros riscavam de escuro o espaço limpido. Em terra vinham marinheiros aos grupos, baloiçando-se nos rins. Portuguezes levavam cargas, em carrinhos de mão, para um trapiche.

Foi logo adeante que um grupo de moleques irrompeu furioso, cercando o Ribas, exigindo-lhe os dez tostões do jogo da vespera. Eram quatro: um caboclinho de olhos negros e vivos, um negrinho retinto, um menino loiro, que os outros denominavam o Bota—por trazer uma bota velha suspensa de um barbante a tiracollo—, e um italianinho sardento, sem pestanas.

—Venham os dez tostões! venham os dez tostões que você ficou devendo hontem no jogo ... reclamavam.

E o Ribas defendia-se, hypocritamente:

—Que jogo? Eu?!

—Sim, senhor, não se faça de engraçado!

O menino loiro exigiu a entrada do dinheiro para a bota: elle era o caixa; os companheiros romperam em assobios e chufas.

Dr. Gervasio apressou o passo, deixando o Ribas numa roda-viva de provocações.

Que se arranjasse.

A curiosidade instigava-o a andar para deante; por bom humor talvez, sabia-lhe bem aquella caminhada. Tinha um olhar curioso para cada fachada arruinada, e parou com um sorriso, vendo em uma janella de vidros quebrados um vaso de cravos brancos.

As flores trouxeram-lhe á idéa as mulheres.

Reparou então que só topava com homens, caixeiros apressados ou embarcadiços de pelle queimada, ou mulatos chinellando nas calçadas, mostrando os calcanhares sem meias, num bate-pés barulhento.

Já agora não sentia só o cheiro do café, como em S. Bento, sentia tambem o do assucar ensaccado, o das mantas nauseabundas da carne-secca, o dos jacás de toucinho nos trapiches e nos grandes armazens, e o de sabão das fabricas, numa mistura enjoativa e asphyxiante.

Veiu-lhe a impressão de atravessar o ventre repleto da cidade, abarrotado de alimentos brutos, ingeridos com a avidez porca da doidice—e olhou para si, receioso de encontrar nodoas e immundicie por toda a sua pessoa.

E assim foi andando até as Docas, já esquecido do Ribas e já esquecido do velho Motta. Ao pé das Docas parou.

No chão, perto da porta, saccas de milho sobrepostas exhalavam cheiro de fermento; o caruncho, passando por entre os fios do canhamo, passeava ao sol.

Num banquinho de pau, e toda derreada sobre os joelhos, uma bahiana de hombros roliços e dentes sãos, vendia gergelim, mendobi, batata doce e tangerinas aos marinheiros chegados essa manhã do Norte. Pelo grande portão em arco, viam-se lá dentro das docas os caminhões seguirem pelos trilhos para o caes, e as galerias em cima, por cujas rampas as saccas, apenas impellidas, desciam vertiginosamente.

Dr. Gervasio olhava interessado para dentro, quando sentiu uns passos arrastados; voltou-se: o Ribas estava a seu lado, tranquillo mas amarfanhado, atando com mãos ligeiramente tremulas a gravata suja.

—O senhor já passou a rua Funda!

—Nesse caso voltaremos.

E voltaram, sem que o medico diminuisse de attenção, achando curioso um ou outro telhado colonial, de beiral estendido, uma ou outra sacada de rotulas, com janellas baixas, de caixilhos meúdos, muito velhinhas, suggerindo lembranças, provocando divagações... Então elle parava, erguendo o queixo bem barbeado, a olhar para aquillo. O Ribas não comprehendia, e ficava á espera, com ar estupido e os braços pendurados.

Passavam por um armarinho, quando o Ribas, não se contendo, disse com orgulho:

—Esta loja é de minha irmã ... ella está alli ... o senhor dá licença?...

—Pode ir.

Dr. Gervasio olhou. Em um balcão tôsco e estreito almoçavam um homem macilento e uma mulher moça, gravida, vestida de chita preta, sentada em um banco, com creanças núas agarradas á saia. O almoço parecia parco,—não havia toalha nem vinho; o medico surprehendeu de relance dous copos d'agua e qualquer coisa pallida dentro de um prato. Para não errar o caminho resolveu-se a esperar o guia, olhando entretanto para a meia duzia de objectos expostos, na vidraça modestissima da porta: linhas de rede de crochet e de costura, anzóes e agulhas, cigarros, objectas de pescaria e cartas de A B C.

O Ribas não se fez esperar; pareceu ao medico que o não tinham recebido bem...

Seguiram d'alli por deante silenciosos, até que o Ribas avisou:

—Ahi está a rua Funda.

Dr. Gervasio olhou e sorriu a uma observação que as reminiscencias de um quadro lhe suggeriam.

Aquella rua Funda, subindo estreita pela encosta do morro da Conceição, ladeada de casas de altura desegual, de onde em varaes espetados pendiam roupas brancas recentemente lavadas, desenhando-se negra no fundo muito azul do céu, lembrava-lhe uma viella de Napoles velha, onde o pittoresco não é por certo maior, e de que elle tinha uma aquarella em casa.

—É interessante, murmurou baixo, emquanto o Ribas, na frente, ia galgando a rua e batia á porta do Sr. Motta, um sobradinho amarello, de janellas de guilhotina e flores no peitoril, em latinhas de banha.

O velho Motta dormitava no canapé da salinha de visitas, com a perna extendida sob uma colcha de retalhos de chita. Ás palmas do medico a filha acudiu pressurosa, cuidando ter de receber a Deolinda do armarinho, que ficara de ir acompanhar o velho um bocado do dia; vendo o Dr. Gervasio, ella estacou interdicta, com os olhos arregalados e aconchegando com as mãos tontas a golla do paletot de chita.

—Quem procura?

Dr. Gervasio explicou-se.

—Faça o favor de entrar...

A filha do Motta caminhou na frente, com ar envergonhado, colhendo as mostras de desmazello da casa: aqui um pé de meia cahido da cesta de costura, acolá um panno de crivo roto, pendurado de um braço de cadeira.

O velho, despertado com sobresalto, mal atinava com o que dizer.

Sim, elle conhecia o medico, e agradecia o cuidado do patrão.

A filha fez sentar a visita e correu a fechar a porta de uma alcova em desordem. Era trintona, picada de bexigas, com as mãos desenvolvidas pelo uso da vassoura e da cozinha. O medico acompanhou-a com a vista, depois apressou-se em examinar o apparelho do doente, achando tudo em ordem, bem prevenido. Ainda bem; elle desacostumara-se dos seus trabalhos profissionaes. A clinica irritava-o, como se tivesse pelos homens um interesse mediocre.

Sentindo os dedos do medico percorrerem-lhe a perna, seu Motta descrevia, numa lenga-lenga, a sua queda e a sua falta de recursos. Suppunha fazer falta, cahira exactamente em uma occasião de grande movimento no armazem...

A filha trouxe café em chicaras de pó de pedra; Dr. Gervasio bebeu uns goles por gentileza e o velho sorriu, approvando-lhe a amabilidade.

O Motta pedia desculpas da casa ... não morava alli por gosto. Oh, se o Dr. Gervasio o tivesse conhecido em Pernambuco, quando a sua velha vivia! Com a morte d'ella tudo desandara...

O medico abreviou as lamurias, prognosticando cura rapida, e despediu-se, sem notar que a moça reapparecera na salinha, com outro casaco enfeitado a crochet.

Embaixo respirou de allivio e começou a descer a rua, por entre o palavreado guttural de papagaios suspensos ás janellas.

Sempre as mesmas cantigas, sempre as mesmas cantigas! Era preciso fugir d'aquelles abominaveis bichos; e elle apressou-se; mas logo na esquina pensou em andar por alli e fixar o bairro. Entretanto, desandava pelo mesmo caminho por que viera, quando viu uma rua cortada a pique na rocha e desejou saber que mundo haveria lá era cima. Subiu.

Creanças nuas, ainda mal firmes nas perninhas arqueadas, desciam sosinhas, ladeando precipicios.

No alto o Dr. Gervasio passou a outra rua, de grandes pedras engorduradas e denegridas, onde mulheres despenteadas fallavam alto e gatos magros se esgueiravam rente ás paredes.

Pareceu ao medico que a atmosphera alli era mais fria, de uma humidade penetrante, cheirando a velhice e a hortaliças esmagadas. Mal concebia que se pudesse dormir e amar naquelle canto sinistro da cidade, mais propicio ás minhocas do que á natureza humana, quando reparou para uma mulher moça, que, com uma lata de kerosene, aparava agua em uma bica. Era pallida e linda. Tambem ella olhava para elle com um olhar de velludo, sombrio e fixo, varado de tristeza.

Esses encontros fortuitos traziam ás vezes ao medico comparações singulares. Aquella mulher era uma invocação; o seu olhar revelava uma consciencia forte, a sua pelle, cor de luar, uma saudade infinita. Era a Agar da Biblia; uma açucena num canteiro de lodo...

Continuando o caminho, via de um lado e de outro casas desconfiadas, corredores soturnos, escadas escorregadias, que faziam lembrar o mysterio e o crime. Assaltou-o a idéa de andar por alli á noite, disfarçado de qualquer maneira. É quando o sol se esconde que o homem se mostra bem. Elle beberia com os marinheiros nas bodegas do bairro e penetraria em um d'aquelles albergues.

Aos seus instinctos repugnou logo esse mergulho na lama e rejeitou a lembrança, observando se a rosa da sua lapella ainda estaria fresca.

Nem por isso... Foi então obrigado a recuar de um salto; de uma alta trapeira atiravam agua de barrella á rua. A agua corria espumosa, em fios grossos, por entre os pedregulhos deseguaes.

—Bonito!

D'ahi em deante apressou o passo, sentindo que de todos os lados olhos se fixavam com estupefacção no seu chapéu alto. Tinha a impressão de atravessar por meio de ruinas; parecia-lhe que em toda aquella rua não haveria um unico caixilho com vidros, uma unica chave sem ferrugem, uma unica dobradiça perfeita.

Era o resto de uma cidade, tomada de assalto por gente expatriada, resignada a tudo: ao pão duro e á sombra de qualquer telha barata. Uma pobreza avarenta aquella, que formigava por toda a encosta de lagedos brutos, entre ratazanas e aguas servidas.

O Dr. Gervasio interrompeu o curso das suas idéas, ao vêr, attonito, D. Joanna sahir de uma casa.

Ella vinha cançada, com o largo rosto muito afogueado.

Trazia nas mãos curtas uma salva de prata, cheia de esmolas em cobre e em nickeis.

Ella não se mostrou menos espantada de o encontrar naquelles sitios e foram andando juntos até ao cimo do morro da Conceição, onde o ar livre varria toda a esplanada em frente ao palacio episcopal, e a luz de um céu muito anillado e puro cahia com todo o brilho.

Respondendo a uma pergunta do medico, que aspirava com força o ar do mar, como se quizesse lavar os pulmões do ambiente infecto por que passara, D. Joanna explicou que andava a pedir para a missa cantada. Palmilhava todo o Rio de Janeiro (parecia incrivel!) era sempre nessas ruas de gente meúda, miseravel mesmo, que ella colhia maior numero de esmolas. «A pobreza está mais perto de Deus», dizia ella no seu doce tom de devoção.

Depois, alli mesmo ao sol, sem resguardo, queixou-se da sobrinha. Camilla fora sempre uma desviada, nunca tivera propensão para a egreja. Um cego via melhor as coisas da terra do que os olhos d'aquella alma as coisas do céu!

Que reparasse para os nomes judaicos que ella puzera nas filhas; Ruth, Lia, Rachel, quando havia tantos nomes de santas no kalendario!

As creanças haviam de seguir no mesmo caminho perigoso; e era isso o que a maguava.

Precisava salvar as creanças.

Francisco Theodoro, sim, esse era bom catholico; gostava de o ver na Candelaria, com a sua opa de irmão. Um santo homem!

—Mas D. Milla vae á missa todos os domingos...

—Ora, a missa hoje em dia é mais um dever de sociedade que um preceito de religião. Camilla só vae á egreja para se mostrar. Basta ver como ella se enfeita. Eu queria-a mais simples... A Ruth esteve algum tempo no collegio das Irmãs: pois mal sabe o catechismo e ainda não cuidou da primeira communhão! Eu peço a Deus por elles, mas...

—Faz bem.

—O senhor é dos taes, que não querem crer.

—Isso não me impede de lhe dar uma esmola para a sua missa.

—Acceito; rezarei nella pela sua conversão. Olhe que bem precisa: o senhor está empurrando Camilla para o inferno...

—Eu?!

—Quem mais!

—Oh, minha senhora, que injustiça... bem pelo contrario...

—Sim, vá fallando e não me olhe com esses olhos de motejo. Pensa que eu não sei de tudo? O unico cego alli é o pobre do marido, que não merecia que lhe fizessem isso. Eu estou cá no meu canto, mas sei do que se passa, e toda a gente sabe, infelizmente... Não é por falta de eu pedir a Nossa Senhora do Rosario, minha madrinha ... mas os peccados vêem-se, saltam aos olhos até. Já me aconselhei com o padre Mendes, sem dizer de quem se tratava, está claro, e pedi-lhe que rezasse para que isso acabasse em bem... Elle é um sacerdote, deve ser attendido ... emquanto que eu, pobre peccadora...

—Mas a senhora está louca, D. Joanna? balbuciou o medico, mal disfarçando a sua ira; não a entendo!

Com medo de uma descarga de censuras, D. Joanna despediu-se. Ia ainda dar uma volta pela Pedra do Sal.

O Dr. Gervasio mal a cumprimentou; sentia-se collado de espanto áquelle chão poeirento. Os seus amores, que elle julgava bem occultos, tinham varado as sacristias e ido do Botafogo elegante até aos casebres do Castello e da Conceição! Quiz desmentir a velha; mas os seus olhos claros, de um castanho louro, não o deixaram fallar, cortando-lhe pela raiz qualquer protesto. Ella não fallara só pela bocca, que a tinha sincera; mas tambem pelos olhos, em cuja limpidez apparecera toda a verdade.

O medico viu-a, com odio, ir arrastando, na sua peregrinação de fé, as pernas inchadas, rebolando os quadris largos, bem fornidos e que ainda os franzidos da saia exaggeravam.

Apressou-se em voltar-lhe as costas, com medo que ella tornasse, para lhe dizer ainda alguma coisa do peccado.

O que lhe repugnava, sobretudo, era a solicitada intervenção do padre. Desde então deixou de reparar nas coisas, para pensar em si. E os seus sentimentos eram de especie confusa e tristonha.

Em outros tempos, de mais verdes annos, a divulgação de taes amores não o desgostaria, talvez... Ser amante de uma mulher bonita e cobiçada não é coisa que fique mal a um homem... Por ella, sim, devia ter cuidados e mysterio; mas esse mesmo dever de discreção absoluta não seria abafado pela voz do egoismo, sempre a mais imperiosa nos homens, e pela da vaidade, se outras circumstancias não lhe exigissem segredo? As almas fortes dos homens têm d'essas pequenices, e a d'elle, sabia-o bem, era como as dos outros, amigas, sem proposito, de causar inveja aos menos afortunados...

Cançado, nervoso, picado pelo sol, o Dr. Gervasio seguiu atôa, desceu o morro, andou pelas ruas, mal respondendo aos comprimentos dos conhecidos, que ia encontrando á proporção que se approximava do seu centro habitual. Já nada do que vira e o impressionara naquelle gyro, se lhe esboçava na lembrança. Aquellas riquezas, aquelle movimento, aquellas casas, aquelle rumor de população atarefada, baixa e mesclada, aquellas altas ruas despenhadas em escadarias immundas e barrancos, tudo se dissipava e se fundia numa impressão de mar e de lixo, de onde surgia a voz melada, unctuosa da tia Joanna, offerecendo promessas, confidenciando com extranhos sobre os seus amores e os seus adorados segredos.

Uma raiva surda roncava-lhe no peito, quando chegou á rua do Ouvidor.

Veio-lhe então em cheio o aroma das flores frescas, á venda na esquina; e a graça de uma mulher que passava com um chapéu atrevido e um vestido bem feito, distrahiram-n'o um pouco...




V

Noca foi ao quarto de Mario, avisal-o de que a mãe lhe queria fallar.

—Você sabe pr'a que é? perguntou-lhe o moço.

—Desconfio: ha de ser por causa da tal franceza... Parece que ainda foi outro dia que você nasceu, e já anda por ahi na extravagancia!

—Vae pregar a outra freguezia.

—Verdade, verdade, seu pae tem razão...

—Eu logo vi que o sermão havia de vir empurrado por papae; disse Mario com ironia, dando o ultimo retoque á toilette. Nisso abriram a porta, elle voltou-se; era a mãe.

Noca deu uma volta pelo quarto, puxou as cobertas da cama até os travesseiros, sacudiu com a toalha o estofo da poltrona, escancarou a janella e sahiu, deixando uma ponta de ordem no desalinho do quarto.

—Eu ia subir; Noca veio chamar-me agora mesmo.

—Achei melhor fallarmos aqui. Não seremos interrompidos.

—Como quizer. Sente-se, mamãe.

Camilla sentou-se e fixou no filho um olhar magoado. Elle, pegando-lhe nas mãos, perguntou-lhe com um sorriso contrafeito:

—Então?

—Estás nos dando serios desgostos, Mario.

—Eu?

—Sim; bem sabes de que se trata.

—Calculo; mas, francamente, não vejo razão para tamanho alvoroço...

—As tuas faltas são muito repetidas. Não te emendas!

—As minhas faltas são tributos da mocidade, faceis de perdoar.

—Enganas-te.

Mario largou as mãos da mãe e tornou-se muito serio.

—Então não comprehendo.

—Comprehendes. Fallo ... fallo d'essa mulher com quem andas agora ... dizem todos que ella arruinará a tua saúde e a nossa fortuna...

—Oh! mamãe...

—Não é creatura por quem um rapaz da tua edade se apaixone. Eu quando a encontro na rua nem sei onde ponho os pés.

Mario corou, e murmurou qualquer coisa que a mãe não ouviu.

—Receio sempre vêr-te apparecer a seu lado; porque eu sei que tens tido a coragem de te apresentar em publico com ella. Vê a que horror expões tua familia, já não digo teu pae, que é um santo, mas que emfim, é homem; mas a tua irmã e a mim. É feio da tua parte sujeitar-nos a uma decepção d'essa ordem...

Mario mordia os beiços, brancos de raiva.

—Mamãe...

—Não me interrompas; já agora direi tudo. É preciso acabar com a exploração d'aquella mulher. Deixa-a quanto antes, hoje mesmo, ouviste? Teu pae exige isso de ti, elle sabe que por causa d'ella tens commettido já indignidades. É uma vergonha, todos os dias são dividas e mais dividas!

Mario continha a custo a sua colera, apertando com as mãos, nervosamente, as costas de uma cadeira.

—Põe os olhos em teu pae. Segue-lhe o exemplo.

Mario sorriu com desdem.

—Meu pae está velho; já não se lembra do que fez na mocidade.

—Bem sabes que elle nunca teve mocidade; trabalhou sempre como um animal.

—Os portuguezes nasceram só para isso; eu tenho outros gostos e outras aspirações. Meu pae não me comprehende.

—Mas o dinheiro que esbanjas de quem é?!

—Ah, o dinheiro! Logo vi que havia de ser por causa do dinheiro! disse elle com redobrado escarneo.

—Por isso e por outras coisas; exclamou Camilla, espicaçada pela ironia do filho.

—Mas que outras coisas, mamãe!? retrucou elle, plantando-se deante d'ella, com raiva.

—Já te disse, já te disse! não te finjas de surdo! Por causa da tua saude, que é fraca, e da tua reputação.

—Reputação! ora, mamãe, e é a senhora quem me falla nisso!

Camilla estacou, sem atinar com uma resposta, comprehendendo o alcance das palavras do filho. A surpreza paralysou-lhe a lingua; o sangue arrefeceu-se-lhe nas veias; mas, de repente, a reacção sacudiu-a e então, num desatino, ferida no coração, ella achou para o Mario admoestações mais asperas. Percebia que a lingua dizia mais que a sua vontade; mas não podia contel-a. A dôr atirava-a para deante, contra aquelle filho, até então poupado.

Recebendo em cheio a colera materna, Mario julgou perceber nella insinuações de outrem. Havia de andar por alli a intervenção damnada do Dr. Gervasio. Quando Camilla acabou de fallar, elle começou, destacando as palavras, que sahiam pesadas:

—A senhora pode censurar-me em nome de meu pae, visto que elle não teve coragem para tanto; mas em seu nome, não!

—Mario!

—Em seu nome, não! Quem me lançou neste caminho e me fez ter os gostos que eu tenho?

—O excesso do meu amor por ti está bem castigado!... Mas não é isso agora que desespera teu pae...

—Meu pae é cego para as culpas dos outros; por que não será tambem cego para as do filho? A pessoa que tanto o indigna é menos nociva á familia que...

—Basta!

—Não basta; a senhora assim o quiz; conhece o meu genio, podia ter evitado esta explicação. Talvez seja melhor assim: afinal eu precisava dizer-lhe alguma coisa, eu tambem. É isto:—odeio o Dr. Gervasio, e dou-lhe a escolher entre mim e elle.

Camilla fixou no filho olhos de espanto. Houve um largo silencio. Depois elle repetiu, martellando as palavras:

—Ou elle ou eu.

A mãe, com uma lividez de morta, não voltava da sua estupefacção. Todo o corpo lhe tremia, e lagrimas vieram pouco a pouco borbulhando, grossas e pesadas, nos seus olhos extaticos. Tentou defender-se, chamar de calumnia áquella idéa; mas as palavras morreram-lhe na garganta, e ella encolheu-se na poltrona, cingindo os braços ao busto, como se tentasse esmagar o coração offendido.

Mario caminhou nervosamente pelo quarto; depois, voltando-se para a mãe, ia fallar ainda, mas viu-a de aspecto tão miseravel, que uma subita misericordia se apoderou d'elle.

Ella chorava, muito encolhida, fazendo-se pequenina, no desejo de desapparecer.

—Perdôe-me, mamãe; mas que queria que eu dissesse?!

Camilla levantou para o filho os olhos humilhados, e murmurou quasi imperceptivelmente:

—Nada...

Mario recomeçou a passear, com as mãos nos bolsos, a cabeça baixa. Camilla, ainda na poltrona, com as costas para a janella, os cotovellos fincados nos joelhos e o queixo nas mãos, procurava uma palavra com que pudesse convencer o filho da sua innocencia. Tudo lhe parecia preferivel áquella humilhação. Daria a luz dos seus olhos,—ah, antes ella fosse cega! para que Mario a julgasse pura, muito digna de todo o respeito das filhas, muito honesta, toda de seu marido e das suas creanças... Comprehendia bem que o sentimento e a imaginação nas mulheres só servem para a dôr. Colhem rosas as insensiveis, que vivem eternamente na doce paz; para as outras ha pedras, duras como aquellas palavras do seu filho adorado. Antes ella fora surda: não as teria ouvido!

Quantas vezes o marido teria beijado outras mulheres, amado outros corpos ... e ahi estava como d'elle só se dizia bem! Elle amara outras pela volupia, pelo peccado, pelo crime; ella só se desviara para um homem, depois de luctas redemptoras; e porque fôra arrastada nessa fascinação, e porque não sabia esconder a sua ventura, ahi estava a bocca do filho a dizer-lhe amarguras...

Lia e Rachel corriam no jardim, batendo por vezes na venezianna do quarto.

Mario aconselhou:

—Será bom apparecer; as meninas estão notando a sua ausencia...

—Antes eu tivesse morrido no dia em que nasci! pensou Camilla levantando-se.

Empurraram a porta. Era o Dionysio que vinha saber se o patrão precisaria do carro. Ouvira fallar na vespera em um almoço na Gavea.

Mario respondeu com impaciencia e sem abrir:

—Não preciso de nada! Depois voltou-se e foi direito á mãe; puxou-a para si, beijou-a na testa e, com carinho:

—Diga a meu pae que hoje mesmo me despedirei d'ella...


Quando Camilla sahiu do quarto, sentiu-se agarrada pelas filhas gemeas, que a puxavam para o jardim, gritando com enthusiasmo:

—Venha ver, mamãe!

—Que coisa linda, mamãe!

—O homem disse que foi papae que mandou!

—Adivinhe o que é!

—Diga; sabe o que é, mamãe?

A mãe não respondia; deixava-se levar sem curiosidade, toda tremula ainda, revendo no fundo da sua alma o rosto do filho ao dizer-lhe aquellas palavras terriveis. As creanças riam, e aquellas risadas eram como um clangor de sinos reboando em torno d'ella. Os sons avolumavam-se, repercutiam no seu cerebro dolorido. Elle sabia! Mario sabia! Quem lhe teria dito? que bocca immunda profanara aquelle segredo, em que ha tantos annos se encerrava? Seria a da Noca? E os outros da casa saberiam tambem?

—Veja, mamãe, que lindeza! gritou Lia apontando para um grande relvado do jardim onde tinham posto um grupo de bonecos pintados a côres, um menino e uma menina resguardados pelo mesmo chapéo de sol azul.

Rachel bateu palmas e deliberou que o menino se chamaria Joãosinho e a menina Maria.

—Maria, não! ha de se chamar Cecilia; protestou Lia.

—Ha de ser Maria, ha de ser Maria e ha de ser Maria!

—É verdade, mamãe, que a menina se ha de chamar Maria?

Camilla não respondeu; sentou-se em um banco, e, em vez de olhar para os bonecos, poz-se a olhar para as filhas, muito lindas, com os seus bibes brancos, e os cabellos soltos.

—Vocês gostam muito de mim? perguntou-lhes ella de repente, puxando-as para si.

—Eu gosto muito!

—Eu gosto mais!

—Mentira! quem gosta mais sou eu!

—Eu acho mamãe muito bonita!

—Eu tambem acho.

—E se eu fosse feia ... bem feia ... se ... por exemplo, eu tivesse bexigas e ficasse marcada, sem olhos, com a pelle repuxada ... ainda assim vocês gostariam de mim?