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A fallencia

Chapter 13: VII
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About This Book

Ambientada no Rio de Janeiro, a narrativa acompanha o funcionamento e o colapso financeiro de uma casa de comércio vinculada ao comércio de café, alternando descrições vibrantes dos armazéns e do esforço físico dos carregadores com a rotina contida dos escritórios e das casas. Por meio de episódios sobre patrões, empregados e vizinhos, explora desigualdades sociais, ambição, moralidade perante a ruína e as consequências da crise sobre relações pessoais e destinos.

—Muito, muito!

—Se Deus me désse uma doença repugnante ... como aquella doença do Raymundo, sabem? a morphéa, e que todos fugissem de mim com nojo e com medo ... que fariam vocês?

—Eu havia de estar sempre ao pé de mamãe! Havia de lhe metter a comida na bocca; mudar-lhe roupa e contar-lhe historias...

—E eu havia de dormir na mesma cama que mamãe...

—Por que é que a senhora diz isso?! Não chore, mamãe!

Camilla beijou as filhas com transporte, e uma grande serenidade cahiu sobre o seu rosto pallido. Poderia contar com alguma coisa, as filhas defendel-a-iam dos maus tratos do mundo.

A campainha do almoço repicava no primeiro toque; Ruth fechava o seu violino e Nina descia ao jardim com a Noca, para admirarem tambem o grupo do lago, mandado da cidade por Francisco Theodoro.

Nina vinha na frente, com o seu modo tranquillo de ménagère, bem penteada, com um vestido escuro, alegrado pela nota branca de um aventalzinho circumdado de rendas. Atraz d'ella, Noca bamboleava o seu corpo cheio, sem collete, vestida de chita clara, rindo alto de uma anecdota do copeiro.

Camilla teve um sobresalto.

Tambem aquella, a Nina, saberia tudo? Teve impetos de lhe ir ao encontro e perguntar-lho; mas abaixou os olhos para os cabellos negros da Rachel e da Lia, que se cosiam ás suas saias, e passou-lhes as mãos na cabeça, de vagar, numa caricia muda, grata ao seu amor e á sua innocencia.

—Que engraçadinho! não acha, tia Milla, que ha de fazer bonita vista depois de collocado no meio do lago?

—Acho...

—É de muito gosto!

Noca tinha pena. Coitadinhas das creanças! haviam de ir assim tão núas para o sereno das noites? Muito chic!

Uns admiravam a belleza da menina, outros a do menino, e afinal concordavam que o conjuncto é que valia tudo. Ruth veio por ultimo; queixava-se de fome. A campainha vibrava pela segunda vez. Pediram, a opinião d'ella; não era tão bonito, aquillo?

—Nunca apreciei bonecos; vocês bem sabem...

—Isto é o mesmo que ver gente! exclamou Noca, indignada, isto não é boneco! Você é enjoada! É verdade! Mario ainda não viu... Oh! Dionysio! chama ahi seu Mario!

Nina voltou-se, vermelha, para a janella do primo; elle não appareceu, e Ruth, instando pelo almoço:

—Que milagre! Dr. Gervasio hoje não appareceu! exclamou sem intenção, colhendo uma Marechal Neel para o peito.

Camilla estremeceu e olhou para a filha com curiosidade e mal disfarçado susto. Porque teria ella dito aquillo?

Noca abaixou-se na orla do canteiro, procurando com mãos apressadas um trevo de quatro folhas, para dar á pobre da Nina. Oh! se ella encontrasse o trevo, a moça seria correspondida pelo ingrato do primo, e assim o diabo da franceza iria bater a outra porta... Deus fizesse com que ella achasse um trevo de quatro folhas!

Meia hora depois estavam todos á mesa, e ainda a mulata procurava com ancia a folhinha fatidica.

Mario atravessou o jardim; ella sentiu-lhe os passos e voltando-se chamou-o.

—Uê! porque não foi almoçar?!

—Preciso ir já para a cidade. Diga isso mesmo a mamãe...

—Não foi se despedir d'ella?

—Não ... já nos fallámos ... diga isso mesmo.

—Hum! ... você hoje não tem boa cara!... Lá dentro não está ninguem de fóra: póde ir. É sua mãe...

—Cantigas. Adeus.

—Não. Olhe, Mario, lembre-se do que lhe diz esta mulata:—Sua felicidade está aqui... As extrangeiras só gostam de dinheiro...

—Adeusinho!

—Adeus, meu filho...

A mulata foi até o gradil, para olhar ainda para o moço que ella ajudara a criar desde o primeiro dia.

Como elle é bonito! pensava ella: as mulheres têm razão de o preferir a todos!... D. Nina não merece aquillo; mas, emfim, antes ella do que a tal sanguesuga... Este mundo é assim mesmo, a gente gosta de quem não deve... Elle morre pela outra e é esta quem morre por elle!... Verdade, verdade, elle é a flor da familia ... em questão de boniteza, garanto que não ha outra pessoa que se eguale a Mario... Eu bem dizia que elle poria as irmãs num chinello! Porque não teria vindo o Dr. Gervasio?... o diabo do feiticeiro deu bruxaria a nhá Milla... Se seu Theodoro sabe da historia!... que estrallada! Mas quem ha de dizer? Bocca, fecha-te! bocca, fecha-te! que não seja por minha culpa... Bem! Mario tomou o bond ... lá vae elle almoçar com a outra... Ora! se isso lhe dá gosto, que aproveite!

Com um gesto decidido, ella rematou o seu pensamento egoista e caminhou para a copa, á procura de almoço.




VI

Numa manhã limpida, côr de saphira, Camilla e Ruth entraram com Theodoro e o Dr. Gervasio na lancha—Aurora—em demanda do Neptuno.

O sol cobria com uma rêde de ouro movediça a superficie das aguas; fazia calor.

As senhoras ageitaram os folhos das suas saias de linon no banco da ré, e abriram as sombrinhas claras.

—Sempre gostaria que me provassem a serventia d'esses chapéos de sol. Não resguardam nada. São objectos inuteis. Eu se fosse mulher nunca me sujeitaria a modas, disse Theodoro.

—Faria mal. Quanto aos chapéos, acho-os bonitos; são muito decorativos. Veja como a côr de rosa da sombrinha de Ruth, e a crême de D. Milla se harmonisam neste fundo azul. Digam o que quizerem; para mim a intuição da arte está na mulher, retrucou Gervasio.

—Póde ser. Eu só gosto do que é positivo e pratico. Emfim, nas senhoras ainda eu perdou o certas niquices...

Sabia Theodoro que o espirito e a posição de um homem se espelham nas suas roupas; por isso as d'elle eram sempre graves.

Para tudo que não fosse o trabalho, envergava a sobrecasaca, bem abotoada sobre o estomago arredondado.

A sua cartola luzidia, bem tratada, affirmava ás turbas que ia alli alguem de cortezia e respeito; era como se o seu titulo de commendador tremeluzisse no setim d'aquelle pello. Não sahia de casa sem carregar o guarda-sol de excellente seda portugueza e castão de ouro, traste que o protegeria em um amplo circulo, se acaso chuvas cahissem inesperadamente. Previa tudo; com habilidade, harmonisara á maneira do traje a dos seus discursos, sempre entrecortados de: taes como, de maneiras que, porém, tal e coisas...

Já a lancha singrava as ondas mansas, quando elle contou ao Dr. Gervasio que ahi uns collegas seus amigos queriam arranjar-lhe um titulo de Portugal; elle fizera constar que não acceitaria a distincção, mas, se a coisa viesse, que havia de fazer?

O medico respondeu com um gesto vago, em que perpassou a sombra de um sorriso.

—Outros usarão d'esses titulos com menos direito, continuou o negociante, não digo que não; em todo o caso...

Milla lembrou que, para justificar essa honraria, bastariam as grandes sommas com que elle entrava nas subscripções.

Elle riu-se.

—Estou vendo que você quer ser viscondessa, hein?

Ella encolheu os hombros. Em verdade, nunca pensara nisso. Gostava de viver bem, á larga, com muito dinheiro. Esse tinha-o, bastava-lhe.

Iam todos calados, quando Ruth suspirou:

—Tenho pena de não ter trazido o violino!

—Que tolice! havia de ter graça!

—Mamãe, quando eu me commovo, gósto de tocar. Entendo-me tão bem com a musica!

Os paes riram-se da asneira e o Dr. Gervasio fixou o rosto pallido da mocinha. Esse não riu.

A lancha Aurora, muito faceira, reluzente nos seus metaes, cortava as aguas com rapidez, soltando silvos que assustavam as senhoras.

—Este passeio está-me abrindo o appetite para uma viagem... Se as coisas continuarem como até aqui, é facto assentado que levarei a minha gente ainda este anno á Europa, disse Francisco Theodoro.

Camilla e o medico trocaram um olhar de susto.

Vendo o lindo rosto, sempre tão fresco e tão moço, de Milla, os seus cabellos negros, o seu collo cheio, os seus olhos de velludo, provocantes e apaixonados, toda aquella figura de mulher amorosa, quente e grave, que elle não se cançava de estreitar nos braços, a idéa de uma separação afigurou-se-lhe impossivel e monstruosa.

Parecia-lhe que a amava ainda mais nesse dia do que em todos os passados; a doçura da sua convivencia enternecia-o, como se a entrevisse já através da saudade.

Ella assegurou-lhe em um sorriso que não partiria. Não haveria forças capazes de a arrancarem do seu amor.

Francisco Theodoro mostrava agora á filha o casco branco de um navio de guerra, onde roupas lavadas de marinheiros enfestoavam de azul o castello de proa. No cimo de um mastro, um homem que desatava cordames, tinha, na altura, proporções de boneco.

Gaivotas tontas voavam em bandos circulares, pondo grinaldas de azas fugitivas no azul immaculado. Longe, a casaria da cidade, com as suas torres, esfumava-se em uma neblina rosea, esbatida em diaphana violeta.

—Como é bonito! exclamou Ruth fulgurante, bebendo o ar que vinha em cheio da barra. Está-me parecendo que, se eu fosse rapaz, seria marinheiro.

—Outra tolice.

—Mamãe, o azul é uma côr tão bonita!

—Se fosses rapaz ... se fosses rapaz ... realmente antes fosses tu o rapaz e Mario a rapariga ... resmungou Theodoro.

—Pobre do Mario ... já tardava ... disse Milla.

—Isto não é fallar mal; é a verdade.

—Não é fallar mal dizer que elle não tem aptidões, que é insignificante?

—Eu não disse tal.

—Mas deu a entender. Eu nem sei até como elle é tão bom, ouvindo tantas insinuações. Se fosse outro, sabe Deus o que teria acontecido! É porque tem mesmo muito bom coração. Os erros que commette são naturaes da edade...

—Senhora! não o defenda. Bem sabe porque é que eu digo as coisas. Não fallo atôa.

Não, ella não sabia; o que via era uma grande injustiça, pesando continuamente sobre a cabeça do filho. Que mais queriam que o pobre fizesse? Elle não nascera para os trabalhos brutos, do commercio, era um delicado. Certamente que não tinha edade para se divertir a jogar a bisca em familia; os seus dezenove annos tinham outras exigencias. Reparassem todos que era naturalissimo...

—Qual naturalissimo, qual nada! Indecente, sim, é que aquillo era. Um bilontrinha, o tal seu Mario. Ainda na vespera soubera de novas proezas. Elle deixara a franceza, sim, senhores; parecia cederão conselho da mãe; mas para que? Para andar em publico de braço dado com outras, talvez peiores, e entrar em casas de jogo, que a policia ataca!

Camilla mostrou Ruth ao marido, com um olhar afflicto, para que moderasse os furores da sua linguagem.

Contente por cortar o dialogo, o medico apontou um vapor, que já se via de perto.

—O Neptuno ... é bonitinho, reparem.

—Não é feio, não ... resmungou Theodoro, já desviado dos seus pensamentos; mas ... esperem! lá no convéz parece estar uma mulher. Que diacho! o capitão Rino será casado?

—Se é possivel! se elle fosse casado nós estariamos fartos de o saber. Você diz cada tolice...

—Ora tolices! que mal fazia que o homem fosse casado, hein?

—A mim? nenhum certamente. Que me importa!... e Milla riu-se, querendo subjugar á força a raiva que lhe ficára da discussão com o marido.

O medico tornou-se sombrio. Que mal faria que o outro fosse casado? nenhum!... certamente. E se dissessem d'elle a mesma cousa a Milla, que responderia ella! a mesma cousa? com o mesmo levantar de hombros, com o mesmo desdem? Teve impetos de lh'o perguntar; mas como? Alli era impossivel... Ficava para depois.

A lancha atracou ao Neptuno, e do portaló desceu o capitão Rino, vestido de flanella branca, com uma bella rosa vermelha na lapella.

Extranharam-lhe o porte, acharam-no muito mais elegante; parecia outro. Tinha descido para ajudar as senhoras. Ruth sahiu da lancha num salto, mostrando as pernas finas, contente por aquella novidade, aquelle mar circumdado de montanhas azues, aquellas velas brancas e aquelles cascos alcatroados, fluctuantes, com que se cruzara no caminho. O capitão Rino mal olhou para ella; suspendeu-a, com pulso forte, até o primeiro degrau da escada e voltou-se logo para Camilla, com olhar ancioso, extendendo-lhe os braços. Ella cahiu-lhe em cheio sobre o peito largo e riu-se, pedindo desculpas. Era tão pesada! Elle corou, tonto, tremulo, sem achar uma palavra com que lhe respondesse.

Francisco Theodoro, cuidadoso da cartola e das abas da sua ampla sobrecasaca, não prescindiu da mão auxiliadora do capitão; o Dr. Gervasio veiu por fim, tirando num cumprimento o seu chapeu molle.

Em cima, no tombadilho, marinheiros passavam vagarosos, indifferentes pelos visitantes. Junto ao portaló, estava uma senhora, a mesma, evidentemente, que elles tinham avistado da lancha.

Era uma mulher delgada, branca e loira, com um par de olhos semelhantes aos do capitão Rino, de um azul de faiança, e uma physionomia vaga, de anjo decorativo. Contrastando com o typo, trazia uma toilette escarlate, que lhe dava valor á pelle cor de lirio pallido, e parecia uma offensa ao seu corpo virginal. O capitão apresentou-a logo a todos com duas palavras:

—Minha irmã.

Foi depois, aos poucos, durante a visita do Neptuno, que viram desde o tombadilho até ao porão, que souberam que essa irmã, até alli ignorada, se chamava Catharina, e vivia em companhia da madrasta, senhora viuva, em uma frondosa chacara do Cosme Velho.

Catharina ajudava o irmão a mostrar o Neptuno, e por vezes as suas explicações tinham maior clareza que as d'elle. Se elle parava, ella tomava-lhe a palavra cortada, completava-a e seguia para deante com todo o desembaraço.

Depois de percorrerem o navio, o capitão Rino, convidou todos para um vermouth gelado, na sua camara.

O espaço não era grande, Camilla, Ruth e Catharina apertaram-se no mesmo divan, de marroquim cor de azeitona, encaixilhado em cedro; Francisco Theodoro recostou-se em uma poltrona ao pé da mesa, emquanto o medico se arranjava ao lado de uma estante esguia, abarrotada de livros, e o capitão, em pé, narrava ao negociante vários episodios das suas viagens ao norte.

—Que paiz! que maravilhoso paiz este nosso! completava elle.

—É pena não ter povo. Sentenciou Theodoro.

—Não é pena. Todas essas terras, ainda hoje virgens, serão num dia melhor a gloria do mundo, quando elle, exgotado pela exploração das outras, voltar para ellas olhos de amor. Guardam a sua fecundidade para uma outra raça de grandes ideaes, que ainda ha de vir. Tão formosas promessas não se fazem ao vento...

—Outra raça ... outra raça ... vinda de onde?! nascida de quem?!

—Da nossa, talvez; e das outras. As gerações que definham nos paizes velhos aperfeiçoam-se e revigoram-se nos novos. O futuro do mundo é nosso, e será a coroação das nossas bondades e virtudes, visto que o povo brasileiro é bom.

Francisco Theodoro não concordava em absoluto; não podia perdoar a Republica. Aquella revolução fôra uma revelação. Sentia-se engasgado com o exilio do imperador. Torceu assim a conversa para novo assumpto.

Dr. Gervasio conhecia as ideias politicas de Francisco Theodoro; ouvia-lhe sempre os mesmos commentarios. Estava inteirado; quanto ás do outro, não lhe parecia que devesse lucrar muito em ouvil-as. Voltou-lhe as costas e poz-se a ler as lombadas dos livros da estante:

Virgilio ... Homero ... Dante ... Camões ... Gonçalves Dias ... Shakspeare ... bravo!

Que especie de homem seria então esse capitão Rino? Leria elle effectivamente aquelles poetas?! O medico abriu ao acaso o primeiro livro ao alcance da mão, e observou logo que elle estava annotado, a lapis, com signaes firmes, de uma vontade bem dirigida, perfeitamente consciente do seu claro juizo. Era o Cid. Á primeira pagina onde o olhar do Dr. Gervasio cahiu, havia este verso marcado com uma linha gorda:

L'amour n'est qu'un plaisir, l'honneur est un devoir.

Fallava D. Diogo. O medico releu o verso com um sorriso de sarcasmo.

L'amour n'est qu'un plaisir...

Pois sim! bem esquecido estaria o velho pae de D. Rodrigo, ou não chegara na sua juventude a amar com amor!

Depois d'aquillo o Dr. Gervasio folheou outros livros litterarios, por curiosidade, desprezando os technicos, e em todos achou vestigios de uma leitura intelligente. Bastava; começava a comprehender o homem. Illudira-se até então, julgando o Rino como um mediocre e um simples. Um simples seria, mas um mediocre, não. Não o temera nunca como rival, apezar de o ver apaixonado por Milla; julgara-o fraco, inferior, sem recursos, falto de elegancia, que é sempre o que seduz as mulheres, physica e intellectualmente; não passara nunca aos seus olhos de um marinheiro rude, ingenuo, sem a graça da palavra a tempo, nem a linha da distincção pessoal.

Que conservaria o capitão Rino no cerebro de tanta leitura inquietadora e extraordinaria? Que nervos eram aquelles, tão perfeitos, que apóz tantas torturas e delicias pareciam intactos de commoções artisticas?

D'ahi—quem sabe?—toda aquella livralhada que elle marcara com o seu nome, no dominio da posse, viria de algum leilão, de alguma herança, não representando naquelle gabinete mais que um mero adorno. Era o mais certo. Era mesmo a unica hypothese verosimil; não admittia que o capitão Rino fosse amigo de intellectualidades. Aquelle bruto! Fixou-o com attenção.

Não! não eram aquelles olhos limpidos, nem aquellas passadas que faziam tremer os rijos assoalhos, que revelariam a ninguem investigações da velha arte, turbadora como a febre ou como um vinho raro. Ninguem acreditaria que aquelle homem grande, de carnes duras, faces rosadas como as de um menino são e modos bonachões, fosse capaz de entender Shakspeare!

Ler livros taes, annotal-os, amal-os, deleitar-se na sua convivencia, era obra para outra especie de creaturas. Aquillo era um escarneo, não era outra coisa. Permittia-lhe a leitura de um ou outro classico portuguez de mais calmo estudo e pulsação regular; lembrava-se mesmo agora de lhe ter sorprehendido algumas palavras de sabor antigo e que lhe tinham feito, aos ouvidos delicados, um certo prurido de extranheza. A sensação avivava-se, a reminiscencia induzia-o a estudar o homem. Voltou de novo o olhar para elle e resumiu ainda em um traço o seu juizo:

—Um bello animal!

A irmã do capitão servia vermouth, mostrando em um sorriso amavel os seus dentinhos bicudos e deseguaes. Ao dirigir-se ao medico, ella obrigou-o a desviar-se da sua observação; e elle, descuidado, reflectindo na phrase uma ideia que lhe atravessava o espirito, agradeceu-lhe em inglez.

—Acha-me com ar de miss, não é assim? Talvez tenha razão; não é a primeira pessoa que me dá a entender isso mesmo...

—Se lhe desagrada...

—Absolutamente nada; por que? Houve na nossa familia qualquer antepassado extrangeiro, uma bisavó dinamarqueza, creio eu ... entretanto, affirmo-lhe, somos bem brasileiros, mesmo um pouco nativistas... Já me disseram, a proposito d'isto, que são os descendentes de extrangeiros exactamente os patriotas mais exaltados. Mas não quer gelo?

—Obrigado...

Ella passou adeante, e o doutor tomou o seu primeiro gole de vermouth.

«Uma avó dinamarqueza, creio eu...» Extraordinario, esse desprendimento pela sua origem! Bem lhe certificava esse dito, que aquella gente não era de indagações nem de perder tempo com objectos sem utilidade immediata.

A boa pratica era essa: olhar para deante, que é onde se póde encontrar tropeços. Caminho andado, caminho perdido. Adeusinho!

Da cadeira de braços, Francisco Theodoro atirava a sua ultima bomba contra a Republica, lamentando este grande paiz, tão digno de melhor sorte...

Rino levantou-se; elle tinha outras opiniões e uma fé sincera nos destinos da patria. A alma nova da America só podia agasalhar sentimentos de liberdade. A monarchia era a poeira da tradição accumulada com o correr dos seculos, em velhas terras da Europa. Lá teria a sua razão de ser, talvez; mas não aqui! Concluiu elle.

Farfalharam as saias das senhoras, que se punham de pé, já cançadas da discussão, abominando a politica...

Fóra, no tombadilho, o sol extendia a sua luz clara, feita de ouro. Seguiram então para debaixo do toldo.

Que maravilha!

Ruth lançou-se á amurada, agitando o lenço. Passava uma barca de Nitheroy, repleta de passageiros, branca, ligeira, com a sua cauda de espumarada. Toda a superficie do mar, paletada de luzes, tremia como a pelle moça a um afago voluptuoso. Ao longe, a Serra dos Orgãos desenhava no céu os seus contornos de um azul de ardosia. Para os lados da barra havia montes de prata fosca em que o sol, scintillando nas pedras, escorria laivos de prata polida, e rochedos cor de violeta espelhavam-se n'agua, entre montanhas de um verdor intensissimo.

Houve uns instantes de pasmo e de concentração, e foi nesse silencio que o medico percebeu um olhar de Camilla para o capitão do Neptuno.

Aquelle simples movimento bastou para atear no peito do medico o fogaréo da ciumada. Estava feito; o outro venceria; soubera esperar e revelava-se a tempo. Era a primeira vez que sentia zelos da amante, sempre tão sua, tão submissa ás arbitrariedades do seu genio desegual de homem nervoso. Quem pode confiar na lealdade de uma mulher? ninguem, e a justiça era que ella o enganasse e o trahisse, como por elle trahia e enganava o esposo...

Percebia bem que o capitão Rino era mais bello, mais moço, e essas duas qualidades só por si bastavam, a seu vêr, para fazer preferido um homem aos olhos de uma mulher de quarenta annos...

—O senhor hoje está nos seus dias de spleen, doutor? perguntou-lhe de repente Ruth, com o seu modo sacudido e imprudente.

Elle deu-lhe o braço e explicou-lhe que não; queria estar calado para ver melhor. Depois perguntou-lhe, sem rodeios, se não achava o capitão Rino muito differente do que lhes parecera sempre, em Botafogo.

—Eu já disse isso mesmo a elle, e descobri o motivo; é porque anda sempre de escuro, e hoje está de branco!

—E com uma flor ao peito!

—É verdade.

—Ainda ha outra razão; é que elle está contente. Ruth, a influencia das côres é grande nas creaturas, mas a das impressões ainda é maior. A alegria força a ser-se bonito. O capitão tem hoje a alma vestida de branco e perfumada como a sua rosa vermelha da lapella... Uma bonita flôr!... Não creia que baste um alfaiate para dar a uma cara de páu a expressão que a d'elle hoje tem; a grande influencia do alfaiate pára no pescoço. A cabeça é...

—Do cabelleireiro?

—Da paixão. Não creio que as mais frivolas mulheres sejam tão frivolas que se contentem com o cheiro de uma pomada, ou o bom corte de um frak...

—Mas quem fallou em mulheres!?

—Tem razão, ninguem! Veja como aquelle barco de pesca vae bonito... Você gosta d'estas coisas; faz bem. O amor da natureza e o amor da arte são os unicos salvadores e dignos das almas puras. Os outros, pff!

A mancha escarlate do vestido de Catharina appareceu deante d'elles; a irmã do capitão convidou-os para o almoço; repararam então que os outros já tinham entrado e logo o medico previu que Milla tivesse ido pelo braço de Rino...

E fôra; e lá estavam ambos em pé a um angulo da mesa, em frente a Francisco Theodoro, que gesticulava, no calor de uma discussão ainda politica.

Á mesa, sentaram-se ao acaso, á excepção de Camilla e do marido, a quem o capitão designou logares. O medico escolheu assento entre Catharina e Ruth.

Havia apettite; os primeiros pratos foram bem acolhidos. Catharina, julgando-se um pouco em sua casa, ajudava o irmão; foi ella quem temperou a salada de camarões e quem polvilhou os morangos de assucar e de gelo; as suas mãos muito brancas mostravam-se bem atiladas no habito de servir.

O creado ia e vinha do buffete para a mesa, com a seriedade sobranceira de um ente necessário.

Na sala, longa e estreita, elles occupavam uma das mesas compridas, a da esquerda, a mesma occupada sempre em viagem pelo capitão; a outra, vazia e sem toalha, mostrando o verniz negro do oleado, dava um aspecto tristonho ao compartimento. Fallou-se, a proposito de viagens, de quando naquella mesma sala não havia um só logar vazio, e que ao rumor das vozes se juntava o tilintar das loiças e dos talheres... Só nos dias de tempestade, em que o vapor era sacudido pelo furor das ondas, diminuia a affluencia e appareciam, disseminados e tristonhos, só os passageiros fortes, de bom estomago...

Francisco Theodoro relembrou os episodios banaes da sua unica viagem, de Portugal para aqui, e olhavam quasi todos para o capitão com certo interesse, como para um heróe. Em casa, nas confortaveis salas de Botafogo, tão ricas e tão burguezas, nunca a sua profissão lhes parecera sympathica; agora comprehendiam-lhe os perigos e observavam-no com respeito. O mar é tão perfido! Qual era o ponto da viagem que mais lhe agradava? perguntou Milla.

A entrada no Amazonas, respondeu Rino; e descreveu, commovido, o aspecto formidavel do rio, a grossa corrente das suas aguas profundas, o seu ruido sonoro, de rythmos novos, que nenhuma lingua exprime e nenhum som musical imita; e os cambiantes deslumbrantissimos dos poentes, derramando na agua infinitas ramagens multicores, onde estrellejavam tons nunca d'antes vistos, que appareciam para se apagar, e apagavam-se para reapparecer em outros pontos, egualmente luminosos e fugitivos.

—Que esplendor de poentes!

Depois as ilhas verdejantes, verdadeiros jardins, trechos de bosques emergindo da agua profunda e reflectindo-se nella. Sinto alli, repetia ainda, um mundo novo, guardando virgindades e mysterios para uma raça de gigantes, ainda não nascida... Ah, as terras ardentes do Norte são um deslumbramento!

Havia outro ponto da viagem que lhe fazia ainda maior commoção; era quando, já de volta, entrava na bahia do Rio de Janeiro. A ampla poesia d'esse espectaculo adoçava-lhe o humor estragado pela monotonia do mar alto...

Dr. Gervasio punha afinal o dedo na alma do capitão. Era assim mesmo; os livros da estante pertenciam-lhe: havia alli um homem. O embarcadiço mercenario tirava o seu trage de piloto e apparecia cavalheiro e poeta. Porque se havia enganado tanto tempo? A explicação teve-a pouco depois, quando Rino affirmava que apezar das suas queixas, elle só estava bem no Neptuno; tanto se afastara da sociedade que se sentia bisonho nella, e que acreditava deixar sempre no seu navio um bocado da sua alma, quando ia para a terra.

—Só em terra, disse elle, comprehendo o amor que tenho ao meu barco, aos meus livros, ao meu cachimbo e á minha rêde, a que a solidão e o habito deram foros de amigos; entretanto no mar, tenho saudades de terra, da familia, das distracções, de tudo que conjunctamente a torna deliciosa...

Francisco Theodoro, a proposito do Norte, fallou na prosperidade do Pará, no commercio da borracha e discutiu as suas rendas e os seus costumes. Alli, sim, havia gente reflectida, de bons exemplos. Aquillo é que é povo: patriotismo, criterio, boas intenções. Fallem-me d'isso.

Concordaram. Houve uma pausa, em que se levaram á bocca os copos cheios.

Veio o perú á brasileira provocar elogios ao cozinheiro do Neptuno. Magnifico!

Francisco Theodoro affirmou logo que aquelle prato parecia feito, de saboroso que estava, por uma mulher. A brasileira tem um geitinho especial para temperar panellas, dizia elle; e verdade, verdade, assim como ella não devia ser chamada para os cargos exercidos por homens, tambem os homens não lhes deviam usurpar os seus. A cozinha devia ser trancada ao sexo feio.

Elle dizia isto como pilhéria, por alegria.

Catharina, fazendo estalar uma côdea de pão entre os dedos magros, perguntou sorrindo, com ar de curiosidade maldosa:

—O senhor é contra a emancipação da mulher, está claro.

—Minha senhora, eu sou da opinião de que a mulher nasceu para mãe de familia. Crie os seus filhos, seja fiel ao seu marido, dirija bem a sua casa, e terá cumprido a sua missão. Este foi sempre o meu juizo, e não me dei mal com elle; não quiz casar com mulher sabichona. É nas mediocres que se encontram as Esposas.

O Dr. Gervasio e o capitão Rino trocaram um olhar, de relance.

—E que são as outras? Mulheres que um homem honrado não deve consentir perto das suas filhas.

Camilla fez um signal affirmativo. Ella era da mesma opinião.

—Não são sérias, concluiu.

—Lá por isso, replicou Catharina, de quantas mulheres se falla na sociedade e que mal sabem ler?

—De poucas...

—De muitas. Sr. Theodoro, faz favor de me dar o vinho?

—Ora, as senhoras não conhecem o mundo! exclamou Theodoro, passando a garrafa ao medico, que encheu o copo de Catharina e disse rindo:

—Ellas não conhecerão o mundo e nós, meu amigo, não as conhecemos a ellas! A mulher mais doce e mais honesta, dizem que dissimula e engana com uma arte capaz de endoidecer o proprio Mephistopheles...

—Homem, que ideia faz você da honestidade das mulheres!

—Faço ideia de que deve ser bem mais difficil de manter do que a nossa.

—Bom; eu quando disse honestidade das mulheres, não foi com o pensamento de que houvesse duas honestidades.

—Pois se tivesse tido tal pensamento, tel-o-ia com muito acerto. Ha duas.

—Temos outra! Se está de maré, explique-nos a differença.

—Não estou de maré, mas explicarei: é pequena. Materialisemos as comparações, para as tornarmos bem claras. Supponhamos, por exemplo, que a nossa honestidade é um casaco preto e que a das senhoras é um vestido branco. Tudo é roupa, teem ambos o mesmo destino, mas que aspectos e que responsabilidades differentes!

Assim, o nosso casaco, ora o vestimos de um lado, ora de outro, disfarçando as nodoazinhas. O panno é grosso, com uma escovadella vôa para longe toda a poeira da immundicie; e ficamos decentes. A honestidade das senhoras é um vestido de setim branco, sem forro. Um pouco de suor, se faz calor, macula-o; o simples roçar por uma parede, á procura da sombra amavel, macula-o; uma picadella de alfinete, que só teve a intenção de segurar uma violeta cheirosa, toma naquella vasta candidez proporções desagradaveis... Realmente, deve ser bem difficil saber defender um vestido de setim branco que nunca se tire do corpo. Eu não sei como ellas fazem, e, francamente, não me parece que a vida mereça tamanho luxo.

—Você é o homem das divagações; tratava-se de uma questão positiva. Dizia eu que as mulheres vulgares são mais sérias do que as outras ... pelo menos parecem...

—Porque não lhes esquadrinhamos as nodoas do setim... Passam despercebidas...

—Adeus!

—Agora é sério; vou repetir-lhe o que disse ha pouco á sua filha, a quem alliás o senhor educa para a arte. Foi mais ou menos isto:

Não cabem na alma humana muitas paixões, e as melhores são as que nos desviam dos nossos semelhantes, sempre enganadores. Só os ideaes de arte não pervertem, antes purificam e ensinam o bem. As mulheres devem cultival-os com especial carinho. Acompanho, pois, as opiniões de D. Catharina e bebo á sua saude, Minha Senhora!

Emquanto elle bebia, Camilla observou-o com pasmo; sabia que elle não tinha aquellas ideias. Sempre lhe ouvira que a mulher devia conservar-se no seu logar de submissão.

—Então, a senhora lamenta não ser eleitora? perguntou Francisco Theodoro á irmã do Rino, com um sorrizinho de mofa.

—Eu? Deus me livre! Tomara que me deixem em paz no meu cantinho, com as minhas roseiras e os meus animaes. Nunca fallo por mim, sr. Theodoro. Eu nasci para mulher.

—Então, pelas outras?

—Pelas outras que tenham actividade e coragem.

—E a casa, minha senhora? e os filhos? A este argumento é que ninguem responde!

—É velho.

—Mas é bom, prova que a mulher nasce com o fim de criar filhos e amar com obediencia e fidelidade a um só homem, o marido. Que diz tambem a isto o nosso doutor?

—Que ella talvez tivesse nascido com essas intenções, como o senhor disse, mas que as torceu depois de certa edade. Não seria sem causa que Francisco I disse:

Souvent femme varie.

Francisco Theodoro não entendeu, mas sorriu.

O medico dizia aquillo para Camilla, que lhe evitava o olhar agudo, percebendo-lhe a perfidia.

—Isto é que se chama fallar para não dizer nada... observou alguem.

Catharina serviu o café; quando passava a ultima canequinha, disse:

—As mulheres são mal comprehendidas. Vejam aquella gravura. Está alli um homem desafiando o perigo, avançando na treva com a espada em punho, e a mulher mal o allumia com a luz da vela, cosendo-se amedrontada ás suas costas!

—O que prova que a mulher é medrosa! exclamou Theodoro com modo triumphante.

—Mas, não é verdade; pelo menos no Brasil. Nós não nos escondemos atraz do homem que procura defender-nos. Se elle avança para o inimigo, sentimos não ter azas, e é sempre com impeto que nos lançamos na carreira querendo ajudal-o a vencer ou evitar-lhe a derrota. Este é que é o nosso caracter; que me desminta quem puder!

O dr. Gervasio observou Catharina com attenção.

Ella estava de pé, com as narinas arfantes, as faces abrasadas.

Sim; agora era o sangue caboclo que lhe saltava nas veias: era uma brasileira. A tal avó dinamarqueza dava todo o logar á outra avó indigena, descendente de alguma tribu selvagem.

Duas horas depois, os visitantes deixavam o Neptuno; o capitão Rino e a irmã conduziram-os até o caes, onde se separaram. Foi então um grande allivio para o dr. Gervasio, a quem a presença do outro irritava terrivelmente.

Francisco Theodoro não se cançava de elogiar a ordem e o asseio em que encontrara tudo; começava a venerar o capitão Rino: achava-o eloquente, superior ... lembrava detalhes insignificantes, muito agradecido ás cortezias do moço. Catharina desagradara-lhe, com os seus modos independentes. Achara-a feia. Mulher quer-se com carne,—bons volumes, dizia elle, olhando de esguelha para o vulto redondo da esposa.

Á rua 1º de Março despediu-se do grupo. Aproveitava a occasião para visitar um collega doente; e encarregou o doutor de acompanhar a familia.

Foram então os tres, Ruth adeante, com o seu modo distrahido, de queixo erguido e passos firmes; Camilla ao lado do medico, atravéz as ruas quasi desertas, de domingo. Ao principio nada se disseram. Camilla adivinhava tempestade proxima, sem lhe atinar com a causa. Extranhara as phrases do Gervasio á mesa; sentia ainda a dôr dos remoques que elle lhe atirara disfarçadamente. Faltava-lhe coragem para uma pergunta; mais por submissão do que por indolencia, ella esperava sempre que elle fôsse o primeiro a fallar e a agir, naquella torturante passividade de escrava, a que o seu amor a lançara.

Elle fallou. Disse ter surprehendido a doçura de um amor nascente; que não se espantava da victoria do Rino. Achava que se devia despedir; que a via bem entregue...

Camilla comprehendeu tudo, de relance; as lagrimas subiram-lhe aos olhos, sem que ella pudesse responder á brutalidade da offensa. O rosto tingiu-se-lhe de vermelho, numa onda de vergonha que a suffocava; vendo-a calada, elle insistiu baixinho, teimosamente, irritantemente, espaçando as palavras, extravasando todo o ciume contido durante as horas de bordo.

Ella murmurou então, vexada, por entre dentes:

—Eu não gosto do Rino ... eu não gosto...

E para que fallar assim, na rua? É uma imprudencia...

—Não tive tempo de escolher logar. Isso é bom para os calmos. Depois, vendo-me ameaçado de abandono, apresso-me em despedir-me. Isto tinha de ser já.

—Como os homens são orgulhosos e injustos!

—Serão. E as mulheres? voluveis!

—Quasi sempre a mulher ainda ama e já é considerada pelo homem como uma importuna!... Está ahi a nossa volubilidade...

Calaram-se; passava gente. Depois de uma longa pausa, foi ella quem disse primeiro:

—Que me importa a mim o Rino! estou prompta a desfeiteal-o, se com isso...

O medico interrompeu-a baixo, mas com vivacidade:

—Agora sou eu que lhe lembro que estamos na rua...

Ruth, sempre adeantada no caminho e sempre distrahida, não percebia nada; os dois seguiam-na automaticamente. Foi ella que, de repente, vendo uma confeitaria ainda aberta, se lembrou de levar doces á Nina e ás creanças, e parou á porta, á espera do medico e da mãe. No momento em que elles chegavam, saiu da confeitaria uma mulher ainda moça, toda de lucto.

Ao vel-a, o medico recuou bruscamente e ella, mal o viu, corou até a raiz dos cabellos e vacillou tambem. O choque foi rude e rapido. Elle ficou firme na calçada, muito pallido, com contracções nas faces, e ella passou séria, numa rigidez contrafeita e torturada.

Camilla sentiu roçar pelo seu vestido claro o vestido de lã da outra; aspirou com força o seu aroma violento de uma essencia desconhecida; viu-lhe a alvura da pelle avelludada entre a golla de crepe e a parte da face onde terminava o véozinho do chapéo; apanhou, naquelle gesto de surpresa de ambos, um mysterio qualquer, uma traição, uma infidelidade, uma ignominiosa mentira á sinceridade da sua paixão.

—Quem é? ... quem é?! Perguntou ella com avidez phrenetica, puxando imprudentemente pela manga do medico.

O Dr. Gervasio, ainda no mesmo logar, olhava para a mulher de lucto que seguia numa pressa de quem foge; á voz de Camilla, voltou-se atarantado, sorriu com esforço evidente e depois, baixo, muito baixo, mas com modo sacudido e nervoso, disse:

—Não faças caso: uma mulher que amei e que morreu.

Uma nuvem negra toldou a vista de Camilla e o coração apressou a sua marcha num batimento louco.

Ruth, com toda a pachorra, escolhia os doces que um caixeiro ia separando para um prato de papelão.

O dr. Gervasio pediu á Camilla que serenasse o seu espirito. Elle lhe contaria tudo mais tarde. Descançasse, que aquillo era uma coisa passada, perfeitamente extincta.

Ella fingiu acceitar a promessa; no fundo duvidou d'ella; mas para que tentar uma recriminação, se a sua lingua fraca não lhe sabia traduzir os sentimentos fortes? Ficaria no seu papel de mulher: esperaria calada...




VII

O commercio de café nadava em ouro. Casas pequenas galgavam de assalto posições culminantes; havia por todo o bairro cafezista um perenne rumor de dinheiro. E a maré do ouro subia ainda com a magna abundancia das enchentes que ameaçam inundação.

O preço do café chegara a uma altura a que antes nunca tinha attingido. Era um delirio de trabalho por todos aquelles armazens de S. Bento.

No de Francisco Theodoro o movimento era enorme.

Seu Joaquim não parava um minuto, num vae-vem incessante, realizando milagres de actividade, observando, colhendo, dirigindo, mandando, rapido no expediente, segurissimo nas suas previsões e nas suas ordens. Elle sabia de tudo, adivinhava tudo, sem que ninguem o visse arrancar uma confidencia ou uma denuncia dos seus amigos ou dos seus subordinados. Era nelle que parecia incarnada a alma d'aquelle casarão da rua de S. Bento, por que era o nome d'elle que andava de bocca em bocca, no ar, desde o caminhão, na porta da rua, até o fundo, o pateo dos ensaccadores, onde as pás do café, cahindo em rythmo, davam ao trabalho um acompanhamento de musica.

Seu Joaquim, pequeno, com o seu ar atrevido, podia, de um momento para o outro, fazer cessar todo aquelle gyro vertiginoso, armar grèves, paralysar a vida, fechar a porta ao dinheiro que quizesse entrar.

Era d'elle todo o prestigio á vista dos trabalhadores boçaes, das formigas do armazem que negrejavam por alli num movimento incessante.

Francisco Theodoro descançava nelle, deixava-o agir, «conhecia-lhe o pulso», dizia; não fizera elle o mesmo no principio da sua carreira? Agora, bem assente na vida, aristocratisava-se, dava-se ares de grande personagem.

Havia uma hora em que o gerente subia ao escriptorio do patrão para alguns esclarecimentos, e nesses curtos minutos, roubados á actividade de baixo, Seu Joaquim achava geito de expôr a situação do dia, dar as notas pedidas e ainda fallar do movimento das grandes casas proximas, fazendo de relance, num quadro comparativo, o realce do armazem de Francisco Theodoro.

E, nesses dizeres simples, havia entre os dois homens como que uma chammazinha, brilhando tonta, faisca de ambição assanhada pelos successos proprios e alheios.

Ambos amavam a casa, ambos a queriam ver no plano mais alto.

Seu Joaquim, lá comsigo, attribuia a prosperidade do negocio ao tino da sua gerencia, experta e positiva. A seu vêr, a gente do escriptorio era inepta e não contribuia em nada para o exito do negocio.

Julgava-se figura predominante, indispensavel, e usava por isso de impertinencias, que Theodoro tolerava, em desconto do serviço.

Quando o gerente descia a escada do escriptorio e voltava para o armazem, Francisco Theodoro reclinava-se na sua cadeira e ficava pensativo. Na sala proxima as pennas dos empregados rangiam nos livros e o rumor das folhas que viravam era ás vezes o unico que se ouvia.

Naquella grande paz da fortuna conquistada, Francisco Theodoro sonhava então com viagens demoradas, largos periodos de abstracção.

Vinha-lhe o cançaço.

Todavia, se reflectia nisso, recuava, com a certeza de que lhe seriam inaturaveis os dias sem aquella confusão de trabalho, longe d'aquella atmosphera carregada e das tantissimas preoccupações do seu commercio. A esse desejo indeciso, que com tanta justiça o seu corpo e o seu espirito fatigado reclamavam, mesclava-se agora uma febrinha nascente, que o incitava a novas emprezas e que elle combatia com animo e juizo.

Oh! se o Mario fosse um homem, se tivesse geito e coragem para aquella vida ... com que satisfação elle o sentaria no seu logar e lhe mostraria o caminho já feito, facil de percorrer!

Fôra bem castigado o seu desejo de ter um filho, não pelo filho, mas pelo orgulho da continuação d'aquella casa, que levaria o seu nome a outras gerações. Viera o filho e voltava as costas á fortuna.

A casa passaria a mãos extranhas, ou teria de morrer com elle...

Era o que lhe custava, deixar a melhor obra da sua vida, em que tinha concentrado tamanhos sacrificios, sonhada nos seus tempos de tropeções pelas ruas, e executada depois aos bocadinhos, no esforço de uma vontade energica, a gente que a pagasse, como uma coisa qualquer, e lhe mudasse o nome.

Como era bemsoante aquelle—Casa Theodoro—um rythmo de ouro!

Naquella rua, de casas ricas, ella seria a mais rica, se o Gama Torres não se tivesse posto adeante, ajudado pela mão do diabo, que a de Deus só auxilia os homens de longos trabalhos e bellos exemplos.

O que dera fortuna ao Torres? O jogo. Sabia-se agora, por toda a cidade, que elle jogava na Bolsa como um doido. O resultado ahi estava—magnifico; mas não poderia ter sido pessimo?

Certamente, concluia elle comsigo,—não é a isso que se chama ser bom negociante; obra do acaso, nem mais nem menos...

Chegara a hora do café. O primeiro a entrar nesse dia foi o Lemos. As carnes pesavam-lhe; sentou-se logo.

—Então como vae isso, Seu Theodoro, han?

—Bem... Muito trabalho.

—É o que se quer. Eu tambem não paro. Mas quer saber quem vae mesmo de vento em pôpa? O Innocencio; O ladrão tem mão certeira; não erra o tiro! Vi-o hoje fazer grandes transacções com a maior fleugma. O dinheiro não lhe escalda as mãos. Elle vem ahi; deixei-o lá embaixo a conversar com um sujeito. É um finorio de marca.

—É experto, é.

Minutos depois o Innocencio Braga entrou, trefego e alegre, em companhia do Negreiros, que subira para tratar de um negocio, e, emquanto este se entretinha com Theodoro, o Innocencio dizia, voltando-se para o Lemos:

—Hoje é para mim um dos dias mais felizes da minha vida! Imagine que recebi carta do meu procurador, dizendo já ser minha uma quinta lá da minha aldeia, e que eu ambicionava desde rapazinho...

—Terras de trigo?

—Não é por isso. A propriedade só dará despezas. Comprei-a por vingança. O dono era um fidalgo d'esses velhos, de raros exemplares. Por uma questão estupida maltratou meu pae. Eu era pequeno, mas não me esqueci da offensa. Os dias passaram; o fidalgo arruinou-se, e o filho do meu velho ganhou o bastante para fazel-o assignar, ainda que de cruz, as escripturas que lhe dão direito á posse da sua quinta. Meu pae já se installou no palacio; o diacho é que, pelos modos, elle não se acostuma á ociosidade e vae para o campo mondar o linho com os empregados ... não faz mal, é o dono.

—Realmente, foi um acto de amor filial, muito digno ... murmurou o Lemos, assoando-se com estrondo.

Isidoro entrou com o café e a conversa generalisou-se.

—Então, senhor Theodoro, é verdade que o Joaquim é seu interessado?

—É...

—Inda bem. Você não parecia portuguez, homem; você parecia inglez!

—Porque?

—Por não querer socios. Um casão d'estes póde enriquecer muita gente. Olhe que é um erro isto de querer tudo para si.

Sim, pensou Francisco Theodoro, a vida é curta, e uma fonte cavada com tanto esforço é justo que dê agua com abundancia para muitas sêdes...

Já o Isidoro recolhia as chicaras quando entrou o João Ramos, a bufar de calor. Pediu noticias da saude de todos e mesmo antes de ouvir as respostas vasou quanto sabia acerca dos negocios. Vinha da casa do Lessa, que auferira lucros extraordinarios de uma especulação de café. Elle tambem se mettera em grandes emprezas; sacou papelada que lhe enchia os bolsos e representava muitos contos de réis.

Innocencio Braga citava nomes de pobretões tornados em millionarios, com a alta, quando João Ramos o interrompeu, consultando os amigos se deveria acceitar a presidencia de um banco. Elle hesitava...

Innocencio aconselhou-o a que accedesse. O cargo era de prestigio. Depois, o tempo effervescente do jogo tinha passado. As transacções agora faziam-se com mais segurança. Tambem elle tinha em formação um grande projecto...

Theodoro suffocava; não ouvia fallar noutra coisa. O seu visinho da esquerda e o seu visinho da direita passavam, quantidades fabulosas de libras para a Europa, ganhas no azar do momento. E elle?

As suas reflexões tomaram um curso tristonho. Trabalhara tanto, para afinal alcançar o que os outros adquiriam com um gesto!

A pouco e pouco os seus amigos mais circumspectos iam-se atirando á voragem da Bolsa. Afortunados, como se mão invisivel os guiasse, ganhavam quasi sempre. Só elle resistira, firme nos seus principios de moral e de economia. Mas o contagio da febre manifestava-se já nos primeiros arrepios da tentação.

Francisco Theodoro reflectia...

Quando os amigos sahiram, elle caminhou machinalmente para a janella.

Olhou: embaixo a pretinha velha varria pressurosa a calçada, ajuntando o café da rua. Carregadores sahiam-lhe da porta, vergados ao peso das saccas. Os carroções passavam cheissimos, com estardalhaço, chocalhando ferragens, e um rumor compacto de vozes levantava-se no ar espesso, engrossado de pó.

Era o trabalho, que passava, ardente e esbaforido.

D'aquelle esforço surgiria a redempção do povo. É com suor e lagrimas que se fertilisam os melhores campos.

Da enxada, que fatiga o braço e rasga o seio do barro, é que deriva o bem da humanidade, a agua que mata a sêde e a arvore que dá sombra e se desmancha em flores.

Abençoados os que não fraqueiam e podem ao fim da existencia erguer bem alto a cabeça sem respingos de vicio. Esses não terão patinhado na enxurrada enganadora, esses dirão aos filhos:

—Olhem para a minha vida e façam como eu fiz.

Era o que pensava Francisco Theodoro, querendo agarrar-se á sua fé antiga, que temia cahisse agora, abalada pela ventania d'aquelles dias de loucura.




VIII

Na saleta de engommar, Noca, com o ferro na mão, sabia do que se passava em toda a casa. Nesse dia ella trouxera uma braçada de roupas para cima de uma cadeira junto da taboa. Lia e Rachel interromperam-n'a depressa.

—Noca, você corta um vestido para a minha boneca? pediu Lia.

—E outro para a minha, Noca?

—Vão-se embora. Hoje não tenho tempo para conversas.

—Um só, Noca, sim?

—Não faço nada! Amanhã seu pae está ahi gritando que não tem roupa!

Mas as meninas ficaram, trouxeram a rastos uma esteira, sentaram-se nella e a Noca não teve remedio senão cortar os vestidos das bonecas e ainda dar-lhes agulhas, linhas e retalhos. Distribuido o serviço, levantou-se. Nina passava a caminho da despensa e sorriu-lhe; mas a mulata mal correspondeu ao cumprimento, enjoada pela bondade d'aquella creatura.

A culpa era do sangue, da sua raça, que menos estima os superiores quanto mais estes a afagam. Por isso ella morria de amores por Mario, um rapazinho atrevido, de genio authoritario e palavras duras.

Começava a alisar a primeira camisa do patrão, quando o Dionysio se acercou da taboa.

—Agora é que você está chegando, Dionysio?!

—É Fui levar um recado de seu Mario... A senhora já sabe que elle deixou a franceza? Esta agora é mais bonita; é uma carioca de se lhe tirar o chapéo!

—Ora veja só, como Dionysio está tolo... Ella apontou as creanças, que poderiam ir mexericar lá para dentro. E depois:

—É loura ou é morena?

—Morena, altinha, muito chic.

—Bem. Vá arrumar o quarto de Mario, ande.

Mal sahiu o Dionysio entrou a criada Orminda, uma caboclinha de olhar sonso.

—Olhe aqui, D. Noca, o que eu achei em baixo do travesseiro de D. Nina.

—Que é? perguntou a mulata, sem levantar a vista do trabalho.

Um retrato.

Noca olhou; era um retrato de Mario. Guardou-o, sem dizer nada. Orminda continuou:

—Minha ama está escrevendo uma carta, lá no quarto...

—É para Sergipe.

A cabocla sorriu.

—O professor de musica está ahi...

—Já sei... Vae pedir ao jardineiro um pouco de hortelã, anda, para eu botar de infusão.

Noca tinha ascendencia sobre a criadagem, que a tratava por dona. Mesmo entre os brancos a palavra da sua experiencia era ouvida com acatamento. Ella era a mulher desembaraçada, a doceira dos grandes dias de festa, a unica das engommadeiras capaz de satisfazer as impertinencias do dono da casa; ninguem sabia como a Noca preparar um remedio, um suadouro, nem dar um escalda-pés synapisado, nem tão bem escolher o peixe, preparar um pudim ou vestir uma creança.

Alegre, forte, falladora e arrogante, com o genio picado e a lingua prompta para a réplica, não admittia admoestações nem conhecia economias. As suas roupas, muito asseadas, cheiravam bem; andava de côres claras e fitas alegres, pizando com todo o peso do seu corpo volumoso e encarando as creaturas de frente, num bom ar de sinceridade.

Eximia na traducção e interpretação dos sonhos, era de uma imaginação lentejolada de pequeninas idéas extravagantes e concepções originaes. Para o mais insignificante facto, tinha uma explicação mysteriosa, embrulhada em nevoas e superstições curiosissimas, que sahiam da sua bocca como lemmas fataes, de uma verdade indiscutivel.

E aquella influencia extendera-se pela familia toda. Camilla consultava-a; Nina contava-lhe os seus sonhos, pedindo-lhe explicações; Ruth ouvia-a com enorme interesse, de alma aberta para tudo que tivesse ares de phantasia; e a criadagem pedia conselhos, rezas, remedios, palpites de jogo e consolações de desgostos...

Noca acudia com promptidão a todos, gabando-se, sem hypocrisia, de gostar de ser util e servir de muito a muita gente...

Ella andava agora desconfiada com a tristeza mal disfarçada de Milla. Desde aquelle passeio ao Neptuno deveria haver por alli grande novidade... O Dr. Gervasio, entretanto, desfazia-se em cuidados ... e o pobre do capitão Rino era recebido com certa seccura, que o estupido parecia não comprehender!

A Nina, coitada, emmagrecia como um arenque, e só Ruth passava sem ver nada, como se a musica a levasse por outros caminhos... O patrão ... esse tambem ruminava qualquer coisa...

Quem provocava confidencias indiscretas da mulata era Nina, que, com o pretexto de passar uma gravata ou alisar uma fita, ia á saleta do engommado logo que d'ella via sahir o Dionisyo.

A mulata percebia tudo e não tinha escrupulos em repetir a verdade. Ora, aquillo talvez curasse a moça, pensava comsigo. Se os amores não passassem, que seria da gente? O coração quer-se á larga. Soffrer por causa de um homem? Não vê!

Nina, com os olhos humidos, as mãos curtas, de dedos ligeiramente achatados, espalmados na taboa ainda quente do ferro, escutava tudo muito caladinha e, quando a ultima palavra cahia dos beiços grossos da Noca e que a mulata começava a assoprar as brasas, ella voltava para dentro, sentava-se a coser, achando-se mesquinha, feia e muito desgraçada. Todos os esforços que fazia por agradar eram inuteis; Mario nem parecia vêl-a e mal parava em casa... A outra era bonita; morena e altinha. Era pouco o que sabia, mas o bastante para a fazer soffrer.

Emquanto, no bulicio da casa, todos se agitavam no trabalho activo, Camilla conservava-se no seu quarto, muda, encolhida em uma poltrona, com as mãos inuteis, o olhar febril.

A visão d'aquella mulher de lucto, da manhã do Neptuno, não a deixava nunca; sentia-lhe, como um castigo, a formosura, o perfume, e aquelle ar discreto de honestidade e de elegancia. O que a punha doente, e que a atormentava ainda mais, era a obstinação de Gervasio em negar-lhe uma explicação qualquer. Que haveria entre ambos?

No seu ciume e resentimento, Camilla esquivava-se agora ao medico; era em vão que elle a chamava para as suas doces e crueis entrevistas. Mas toda a sua força em resistir ia afrouxando, e ella sentia bem que, apezar de tudo, chegaria um dia em que os seus pés a levariam para elle.

Foi ainda naquelle canto do quarto que Francisco Theodoro a encontrou, ao voltar da cidade.

—Estás doente? Olha que eu trouxe um camarote para a Aïda. O Negreiros disse-me que vae muito bem por esta companhia...

—Que entende o Negreiros de musica!

—Elle tem excellente ouvido. Acho bom desceres. O Gervasio está lá em baixo...

Milla desceu, e, ao sahir para o terraço, parou entre portas, escutando o que dizia o Dr. Gervasio. Elle estava sentado, de costas para ella. Em frente d'elle, em pé, Ruth ouvia-o attentamente, com a corda de pular enrolada no braço, e o rosto ainda vermelho pelo exercicio interrompido.

—«Você disse que a irmã da Lage é uma moça bem educada, querendo dizer que ella é uma moça instruida. Ha dififerença: educação e instrucção não se confundem. Repare: porque considera você essa moça como bem educada? Porque falla francez, inglez, toca e desenha; não é assim? Pois essas prendas, ainda que adquiridas com esforço, compram-se aos mestres; as outras dão-se ou nascem da boa convivencia. Uma pessoa instruida não será de exterioridade agradavel se não fôr educada. A instrucção nem sempre transparece e nem sempre concorre para a felicidade. A educação prepara-nos para a tolerancia e revela-se em tudo, na maneira por que fazemos um cumprimento, por que andamos na rua, porque nos ajoelhamos em uma egreja, por que comemos a uma mesa, por que fallamos ou por que ouvimos fallar, por que em discussões tonalisamos as nossas opiniões com as opiniões contrarias; por mil effeitos, emfim, que, sendo imperceptiveis, realçam o individuo, porque o pulem e o tornam digno da boa sociedade. A instrucção é a força com que apparelhamos o nosso espirito para a vida, lança e escudo para ataque e defesa; a educação é o perfume que os paes intelligentes derramam na alma dos filhos e que por tal geito se infiltra nelles, que nunca mais se evapora, seja qual fôr o ambiente em que vivam depois.

É bom não confundir as duas palavras, Ruth, porque essas confusões, á vista grossa dos indifferentes, não tem importancia; mas alteram a verdade e não escapam aos ouvidos delicados.»

—Não tornarei a trocar o sentido d'essas duas palavras...

—O Lelio disse-me hontem que lhe tinha trazido uma valsa de Chopin. Ora, você pode tocar, mas não pode interpretar bem semelhante auctor.

—Porque?

—Porque ainda não tem edade para comprehendel-o.

Chopin é um musico perigoso, minha filha; é um torturador, um excitador de almas. Contente-se com os seus classicos, mais sadios e mais frescos. A musica como a leitura, deve ser ministrada com prudencia. Fallarei ao Lelio. Sua mãe já desceu?

—Está ahi, atraz do senhor.

—Ah...

Milla soccorreu-se da filha para não ficar só com o medico, que a via muito esquiva. A pallidez e a tristeza adoçavam-lhe a physionomia, dando-lhe um encanto novo. O Gervasio observava-a calado, indeciso, com medo de resolver de chofre a situação, com uma palavra só...


Todos os annos Francisco Theodoro celebrava os anniversarios d'elle, da mulher e dos filhos com banquetes de tres e quatro mesas, vinhos a rôdo e danças até a madrugada.

Nesses dias o medico fazia apenas o seu cumprimento, offerecia-as violetas e o brinde do estylo, e retirava-se cedo para a casa silenciosa, lá para os lados do Jardim Botanico, onde ia fazer as suas leituras, commodamente reclinado na sua cadeira de balanço dentro do robe-de-chambre que lhe agazalhava o corpo magro.

Camilla conhecia as suas antipathias por essas festas e não se lamentava por isso da ausencia.

A immensa casa era então pequena para o numero de amigos. Nos jardins illuminados a balões e a copinhos, nas salas, nos corredores, nos terraços, no buffete, nos quartos, em toda a parte havia povo, rumor de vozes e cheiro abafado de plantas pisadas, flores amornadas por luzes, essencias diversas reunidas ao odor dos molhos e das carnes servidas no banquete. As camas sumiam-se ao peso de capas, mantilhas, chapéus e sobretudos. Os convidados varavam todos os aposentos, como quem anda por sua casa. Nina, as criadas e Noca atiravam para dentro de um quarto, o unico fechado, tudo o que não devia estar embaraçando o caminho: tapetes retirados á pressa para as danças; mesas de centro, almofadões do sofá, que tomavam espaço; floreiras, etc. As creanças corriam pela casa, espalhando passas e migalhas de doces; e um pianista pago dedilhava no Pleyel do salão as polkas e as valsas do seu repertorio.

A essas festas iam sempre os collegas e os conhecidos de Francisco Theodoro, o pessoal da sua casa de commercio, gente da visinhança, alguns doutores, um senador do imperio, a quem era dirigida a melhor das attenções, e amigas de Camilla, do tempo do collegio, mulheres de posição e bem apresentáveis, que só com as ricas ella topara depois, na balburdia da vida.

Nos intervallos da dança havia sempre quem tocasse difficuldades ao piano, ou cantasse algum romance italiano.

Francisco Theodoro, jubiloso e amavel, instava para que comessem, para que bebessem. Não se esquecia de ninguem, punha mancheias de balas nos regaços das creanças, ordenava que se abrisse champagne, conduzia as senhoras edosas ao buffet, recommendando á Noca que distribuisse pela criadagem vinhos e doces.

Eram festas pantagruelicas, em que o riso se communicava mais pelo barulho que pela intenção.

Camilla dançava, roçando os seus maravilhosos braços nús pelas mangas dos commendadores ou dos empregados do marido.

Á mesa os brindes succediam-se atropelladamente. Para o fim, havia sempre uma voz alta, pausada, que se erguia á victoria do trabalho honrado e puro, e essa voz lembrava os máos dias de Francisco Theodoro, a sua pobreza, a sua energia e o seu triumpho.

O dono da casa respondia com palavras tremulas e olhos humedecidos. Tilintavam as taças e a musica vibrava com força na sala. Voltavam para as danças. Como Ruth não dançasse, o pae chamava-a de—minha estudiosa—gabando-a aos convidados, que olhavam um pouco espantados para ella. Ruth esquivava-se áquella curiosidade e fugia para fora. Iam encontral-a depois no balanço, sósinha, voando á claridade das estrellas...

Só no dia seguinte ao do festim é que o Dr. Gervasio ia ao palacete Theodoro saborear o perú quebrado do almoço e os fios de ovos, na quietação cançada da familia.

Então eram por toda a parte vestigios da barafunda. Nina contava os talheres, que espalhados entre a loiçaria e os crystaes punham ondas de luz pallida na mesa do jantar; Noca varria as salas, criados lavavam os marmores da escada e do vestibulo e o jardineiro guardava os copinhos e as lanternas disseminadas pelo jardim.

Era uma d'essas festas que Francisco Theodoro desejava agora offerecer aos seus amigos. Desceu a consultar a mulher e o medico. Encontrou-os ainda no terraço, ao lado de Ruth, que as mãos da mãe prendiam nervosamente.

Milla acolheu á ideia com frieza; o marido insistiu:

—Você está molle, anda differente. Reaja, tome remedios. Que diabo! eu tenho obrigação de obsequiar os homens. Elles vêm ahi em nome da colonia. Não quero fazer figura triste.

—Alguma manifestação? perguntou Gervasio.

—Sim. Uma tolice. Ideias do Braga, do Lemos e de outros. Avisou-me hoje d'isso o Negreiros. Foram até ao ministro, e não sei mais o que! Emfim, já disse, o que eu não quero é fazer figura triste. O engraçado é que minha mulher fallava em dar um grande baile, e agora, que se apresenta a occasião, faz cara feia!

Dr. Gervasio acudiu. Achava magnifica a ideia e procuraria auxilial-a na execução. De si para si pensava que esse pretexto traria Milla ao movimento da sua vida habitual; arrancal-a-ia d'aquella obstinação de pensamento, d'aquella apathia physica que o atormentava.

Pela primeira vez o viram interessado por uma festa. Francisco Theodoro pediu-lhe que a dirigisse. D'esse dia em deante o medico punha e dispunha do palacete, como senhor absoluto. Determinava como as coisas se fizessem. A ceia seria no terraço, ao fundo, sob una toldo de seda, entre bosquetes de avencas e camelias brancas; desenhava ornamentos, encommendava flores, substituia estofos, harmonisava cores, dava estylo e graça ao que só tinha peso e luxo; idealisava a matéria, arrancava uma alma delicada áquellas salas carregadas e mudas.

Milla assistia a tudo silenciosa, abatida pelas suas suspeitas; mas, pouco a pouco, Gervasio convencia-a de que a sua ciumada era uma doidice. Não tivera elle tambem ciumes do capitão Rino? E ahi estava: já nem pensava nisso!

Como o coração de Milla não comportasse rigores, affeito á felicidade, ella foi esquecendo.




IX

Uma tarde, Mario entrava na sala de jantar, quando viu o Dr. Gervasio á mesa; então tornou a sahir, sem dizer uma palavra.

Milla sentiu o coração parar-lhe no peito. Theodoro não ligou importancia ao caso; para elle o filho voltara a buscar algum objecto esquecido, e, tão enthusiasmado estava a fallar em negocios, que só para a sobremesa disse espantado:

—É verdade, e o Mario? então o Mario não voltou?

Nina murmurou, desculpando-o:

—Acho que está incommodado...

—Vou ver isso.

Theodoro levantou-se.

Calaram-se todos, como se o mesmo fio de desconfiança os ligasse entre si. Camilla tremeu. Que diria o filho? como o ouviria o pae? No seu amor, de tamanhos supplicios, nenhum egualara nunca ao d'esse instante.

Tinha chegado a hora do marido saber tudo, e pelo Mario!

Dr. Gervasio comprehendeu-a e tentava socegal-a de longe, com um olhar firme, de confiança, certo de que nada vale antecipar tristezas, que nem por isso as coisas deixam de vir, pelos seus pés ou pelas suas azas, quando têm de vir. Mas tudo o fazia esperar que não viesse a que ella temia...

E para afastar preoccupações, fallou de alegrias: annunciavam-se festas; abria-se uma exposição de pintura, excellente; e commentavam-se os brios de um tenor novo para o Lyrico...

Elle sentia que a sua voz soava falso; ninguem o ouvia, nem elle mesmo, que apezar da calma apparente dizia aquellas palavras pensando em escutar outras, que viessem de fóra, como raios, fulminando tudo.

Milla encostou-se ao espaldar da cadeira, muito pallida, com uma expressão interrogativa no olhar assombrado. Dr. Gervasio fallava, fallava...

Entretanto, Theodoro rompeu pelo quarto do filho.

—Então, seu Mario? isso faz-se! Entra-se em uma sala para jantar é volta-se para traz sem satisfações, de mais a mais deante de visitas?!

—Visitas?... que visitas? o Dr. Gervasio?... Esse é de casa.