WeRead Powered by ReaderPub
A fallencia cover

A fallencia

Chapter 17: XI
Open in WeRead

About This Book

Ambientada no Rio de Janeiro, a narrativa acompanha o funcionamento e o colapso financeiro de uma casa de comércio vinculada ao comércio de café, alternando descrições vibrantes dos armazéns e do esforço físico dos carregadores com a rotina contida dos escritórios e das casas. Por meio de episódios sobre patrões, empregados e vizinhos, explora desigualdades sociais, ambição, moralidade perante a ruína e as consequências da crise sobre relações pessoais e destinos.

—Não é; mas que fosse; se não me consideras nem a tua mãe, devias ao menos respeitar o hospede.

—Mas se é o hospede que eu detesto! não posso vêr aquelle homem, papae, não posso vêr aquelle homem!

—Tu estás doido! porque?!

Mario calou-se, de repente, arrependido, de olhar esgazeado. O pãe insistia, furioso:

—Essas coisas não se dizem á tôa; responde: porque lhe tens essa raiva?

—Não sei ... desde creança que antipathiso com elle ... por instincto... Aborreço aquelle rosto pallido ... aquelle corpo esguio ... aquella voz desegual, aquelle sorrizinho de mófa, embirro com as suas mãos de mulher, com os seus ditos de pedante, com a sua assiduidade, com os seus sapatos, com a côr das suas roupas, com os vidros das suas lunetas, com as suas essencias, com elle e com tudo que é d'elle. Não me pergunte mais; não posso dizer mais nada; talvez lhe pareça pouco. É muito. Por hoje desculpe-me. Estou doente.

—Se estás doente, trata-te; só mesmo um delirio de febre explica o que disseste. Fica bom, que temos de ajustar contas! E que o caso não se repita, ouviste? que não se repita!... senão ... olha que eu não sou bom!

Francisco Theodoro sahiu ameaçador, mas foi dizer ao medico que effectivamente o Mario estava indisposto...

Nessa noite, como nas outras, o moço foi para a rua sem um—até logo!

Era preciso ir buscar a felicidade onde a encontrasse; a casa aborrecia-o.

A familia andava a passear pela chacara, na doce pasmaceira costumada, vendo regar as plantas e nascer as estrellas. Fazia um calor barbaro. Ruth voava agarrada ás cordas do balanço, cantando alto, e atirando flores de cajazeiro á mãe, cada vez que ella lhe passava por perto.

Camilla recebia-as com ambas as mãos e sorvia-lhes o aroma acido e leve, numa deliciosa sensação, afagada pela homenagem.

—Cuidado, minha filha!

—Ahi vae um beijo, mamãe!

O beijo voava com as flores, que se prendiam aos cabellos de Milla. E o passeio continuava, arrastado e feliz.

—Um dia esta menina leva um tombo!... Mas eu sei o que faço. Amanhã cedo mando cortar as cordas do balanço. Mais vale prevenir!

—Não, Theodoro, não! É o divertimento d'ella; e é tão innocente!

—Lá vens tu...

Ruth não os ouvia, voava no ar como uma pluma, cerrando os olhos á claridade que se diffundia nas côres gloriosas de um crepusculo ardente. De vez em quando, num impulso mais forte a sua cabeça roçava na rama florida do cajazeiro, e o sussurro das folhas tinha para os seus ouvidos um rumor divino e rythmado, de musica impeccavel. Toda a sua força se concentrava nas mãos, que a aspereza das cordas magoava, unica parte então sensivel do seu corpo, que ia e vinha na luz cambiante da tarde, como uma sombra movediça e impalpavel.

Na vertigem do vôo, ella não via, em cima e em roda, senão claridades estonteadoras, onde anjos azues abriam azas esgarçadas de nuvens fugidias, por entre barras de ouro e ennoveladas fogueiras rubras. Em baixo, na terra côr de ambar, o velludo verde das gramas e dos arbustos distendia-se num espreguiçamento voluptuoso e macio, á espera do somno.

Ia chegando a hora da consagração purissima da natureza: a hora das estrellas. Não tardou que o alaranjado poente se concentrasse num roxo escuro, bipartido em ilhotas negras, sobre um mar de prata. De repente, a penumbra.

O calor augmentava; houve roncar de trovoada ao longe.

—Quer Deus Nosso Senhor que eu me vá embora, disse o medico.

—Sim, é prudente, nós vamos ter chuva ... respondeu Theodoro, consultando o céu. E chuva de arrazar!

Camilla ordenou a Ruth que descesse e fosse dentro buscar o chapéu do medico. Despediram-se.

Quando Theodoro entrou em casa, perguntou á Noca:

Seu Mario?

Seu Mario sahiu...

—Hum ... eu já esperava isso mesmo... Mas elle paga...

Camilla e Nina entreolharam-se com ligeiro susto, seguiram caladas para a saleta, onde costumavam passar o serão. Mal se sentaram, Milla impacientou-se. Formigas de azas voltejavam em nuvem ao redor da luz, e perseguiam-n'a a ella tambem, batendo-lhe no rosto e entrando-lhe pela golla do vestido.

—Tudo se junta, quando a gente está aborrecida! disse ella zangada.

Nina sacudiu as formigas com o lenço.

Pelas dez horas, Francisco Theodoro chamou de novo a mulata.

Seu Mario?

—Elle ainda não voltou...

—Está direito. Você vá lá embaixo botar a tranca na porta. Quando elle vier, mesmo que bata, não abra. Percebeu?

—Percebi, sim, senhor.

—Agora chame o Dionysio.

E ao Dionysio, como a todos os criados, foi dada a mesma ordem.

Milla levantara os olhos do livro que estava lendo. Nina picava os dedos com a agulha, mal acertando com a costura.

Theodoro voltou-se para ellas:

—Nos tempos antigos não havia chaves de trinco. Os filhos deitavam-se á mesma hora que os paes...

—Sahiam pelas janellas ... murmurou Camilla.

—Pois sim!

—E se chover? A noite está tão feia...

—Que volte para traz. Não vem a pé.

—Mas como despede o tilbury ao portão, terá de voltar a pé, e debaixo d'agua...

—Pois que apanhe chuva, se chover, exclamou Theodoro fóra de si; ou raios, se cahirem raios. Senhora, isto então é vida?!

—É a mocidade...

—Já me tardava. Muito obrigado! Eu pude passar a minha dobrado em dois ao peso do trabalho, e o senhor meu filho só sabe gastar o que ajuntei com o suor do meu rosto!

—Elle não tem a mesma saúde; Mario é fraco.

—Mais uma razão.

—Qual razão!

—Basta; resolvi, acabou-se. D'aqui em deante, ou o rapaz me entra em casa a horas convenientes ou...

—Ou?...

—Ou que vá dormir para o diabo!

Camilla olhou com desprezo para o marido, ennojada d'aquella furia. Quiz replicar, mas veiu-lhe de repente um grande medo de que Francisco Theodoro a fizesse de novo intermediaria das suas ameaças, e fugiu da sala para não responder, batendo com a porta, num desespero.

—É por estas e por outras que o Mario está assim ... resmungou o negociante, percorrendo a sala com as mãos nos bolsos, a tilintar as chaves.

Fóra, a noite estava negra, abafadissima. Vinha da terra e dos vegetaes um cheiro intenso, morrinha de febre, que engrossava a atmosphera, corporisava-a, tornando-a irrespiravel.

Ainda não eram onze horas e já se recolhiam todos para os quartos, amodorrados, bambos.

Pouco depois levantou-se a primeira lufada, que veio roncando de longe, soturnamente.

Fecharam-se as janellas; a tempestade ahi estava. Quando rezava para dormir, Noca teve um estremecimento: uma coruja passou cantando rente ao beiral do telhado.

A mulata persignou-se duas vezes e ficou á escuta.

O que passou depois, foi o vento.

Ella deitou-se com um suspiro.

Quem não se deitou foi a Nina. Sózinha, no seu quarto estreito, abriu a janella e debruçou-se para o jardim, sondando a rua, através do arvoredo.

Os lampeões de gaz mal alumiavam as calçadas solitarias, envolvidos pelas nuvens de poeira, que vinham de longe, varridas pela ventania, lambendo tudo. De vez em quando, um bond passava, de oleados corridos, com tilintar de campainhas que vibravam timidamente no vozear medonho da noite.

Nina voltou para dentro, desabotoou o corpinho e atirou-o para uma cadeira; sentia-se oppressa. O tufão descançava: ella voltou á janella, curiosa, com anciedade, cosendo o peito nú ao peitoril largo. Não viu nada. A voz arrastada de um bebedo guinchava na esquina, em falsete, acompanhada por outra voz, que fallava na mesma toada. Uma nova lufada veiu forte, terrivel, abalando tudo.

A unica janella illuminada da visinhança fechou-se.

O bebedo foi arrastado para longe, perderam-se os seus queixumes á distancia, e só ficou o vento, cada vez mais forte, uivando, uivando.

Agora não parava; enchia tudo com o seu sopro formidavel.

Sentia-se o estalar crepitante das folhas estorricadas pelo sol e o aroma das verdes, que elle ia levando pelo ar em revoada louca. Na inutil resistencia da lucta, as arvores contorciam-se, estalavam; cahiam arbustos arrancados pelas raizes, e fructas verdes despenhavam-se sobre as telhas, com estrondo.

Nina expunha a cabeça núa ao açoite da tormenta, ennervada pela fixidez da sua ideia. Entretanto, sabia, o Mario não merecia aquillo, não a amaria nunca.

Havia uns quinze annos já que ella morava naquella casa, levada pelo pae, o Joca; era então muito enfezada, apezar dos seus dez annos. Entrara para alli como poderia ter entrado para um asylo qualquer: para ter cama e pão. Não ignorava isso, lembrava-se de tudo. Era obrigada mesmo a meditar no passado mais do que queria. Não conhecêra a mãe, e em frente á mudez da tréva pensava nella, como se a tivera visto. Não comprehendia por que rejeitavam o seu coração amoroso. Nem mãe na infancia, nem noivo na mocidade. Que triumpho!

Sabia pelos outros que a mãe fôra uma mulher da má vida e baixa classe; mais nada; e não era pouco.

Criara-a desde o primeiro anno a avó paterna, D. Emilia, sem muitos agasalhos, porque o dinheiro era escasso e a paciencia já não era nenhuma. Por causa d'isso aprendera depressa todos os serviços caseiros, era a copeira da familia, e aos nove annos já não se atrapalhava quando tinha de pôr uma panella de arroz ou de feijão no fogo. Lá teria ficado sempre em Sergipe, se o Joca não se tivesse casado com uma viuva carregada de filhos e que não podia vêr a enteada deante de si... Sempre as antipathias! Não era para tornar má uma creatura? Lembrava-se que não fôra tambem acolhida com enthusiasmo na casa de Francisco Theodoro.

Ao principio, amedontrada, Nina procurara a companhia dos criados, de preferencia á da familia, habituada aos serviços grosseiros e ás palavras brutas, com o seu ar de cãozinho batido. Toda a gente tomava isso como o mais claro indicio dos instinctos baixos; aquillo era o traço da lama que ella trazia da mãe e que arrastaria pela vida fóra.

Habilidosamente, Noca aproveitou-a para entreter Ruth, que dava então os seus primeiros passos. E nesse mister, a menina revelou a doçura do seu caracter e o engenho do seu espirito. Ruth em poucos dias preferia-a aos outros, atirando-lhe ao pescoço magrinho e pallido os seus dois bracinhos redondos. Aquella conquista foi uma gloria para Nina. O amor de alguem nascia para ella, como a luz para um cégo, e sentia nos beijos côr de rosa da creança gorda e bem tratada o aroma da vida, que até então ella só parecia ter espreitado de longe.

Mario era nesse tempo um rapazinho de cinco annos, alto e forte para a edade, muito lindo, arrojado e pouco amavel para ella. Abusando da sua força e da sua posição de preferido, trazia-a fascinada, prompta a ceder ás suas vontades absurdas.

De todas as pessoas, uma das mais indignadas contra a adopção da Nina em casa de Theodoro fora D. Joanna, para quem a menina cheirava a peccado e era uma blasphemia viva aos preceitos da moral religiosa. Para essa classe ha os asylos, affirmava ella; as plantas damninhas não são para os canteiros de violetas. A caridade faz hospicios, orphanatos, rodas, onde se apuram e aperfeiçoam os filhos da impureza e da vergonha; mas agazalhar no seio honesto um animal desconhecido, era exporem-se a um veneno de effeitos imprevistos.

Milla não repellia a ideia, cheia de indignação pela origem da sobrinha; entretanto, a coitada ia pouco a pouco conquistando as boas graças de todos, de vagar, pela sua docilidade e o seu prestimo.

Apezar de miuda e de pallida, ninguem a via doente; tinha os musculos flexiveis, como o genio. Aos doze annos conservava o seu ar estupido e humilde; não conhecia uma lettra; mas ensinava as criadas novas a varrerem a casa e a pôrem a mesa com perfeição. Como o Mario lhe batesse um dia com os arreios do seu cavallo de páo, Francisco Theodoro resolveu pôl-a em um collegio, de pensionista, recommendando uma instrucção pratica, nada ornamental. Bem orientado andou.

O collegio fôra o seu melhor tempo. Do pae não sabia senão de longe em longe, quando elle participava á irmã o nascimento de mais um filho, com umas lembranças murchas, para ella, no fim da carta.

Ao principio, a idéia d'aquelle irmão, que não veria talvez nunca, sensibilisava-a; depois deixou de pensar nisso... Para que?

Foi só depois de mulher que Nina começou a amar a mãe; amor ignorado por todos e que ella cultivava como um segredo caro. Sondae bem o coração mais puro, que lá no fundo achareis um mysterio, alguma coisa que existe e que se nega, ou porque faça corar ou porque faça soffrer.

Nina tinha vexame de perguntar pela mãe e ardia em desejos de saber d'ella. Onde estaria essa mulher repudiada?

Ninguem lh'o dizia; assim, ora a imaginava na sepultura, e era a idéia mais consoladora, ora regenerada, mas sozinha ... ora em um d'esses recantos negros da cidade, já velha e ainda atolada no vicio, batida, escarnecida, miseravel.

No meio da treva, que ella interrogava com ancia, pareceu-lhe sentir a alma impenetravel da mãe solicitando-a no agoniado suspiro do vento; então extendeu os braços, soluçando, no desejo da Morte, para o encontro definitivo das duas almas e a fusão de um beijo eterno, que redimisse uma e désse á outra a sua primeira alegria.

Reboaram os primeiros trovões, com enorme estampido; um zig-zag de ouro cortou o espaço negro, e á luz branca de um relampago a casaria muda bailou macabramente com o arvoredo escuro.

A convulsão passou, para voltar depressa; na phosphorescencia mobil e offuscante da luz, todas as coisas tomavam proporções extraordinarias, mas logo, nos intervallos, a treva da noite mais se condensava.

Applacou-se o vento, e então, só de um jacto, a chuva cahiu, pesada, brutal, ensurdecedora.

A agua borrifava a janella. Nina procurou um chale, envolveu-se e voltou. Era tempo: através das torrentes da chuva, viu tremeluzir indistincta no véo fosco das aguas, a lanterninha de um tilbury.

Debruçada, alongando a cabeça, a moça gritou:

—Mario! Mario!

Mas a sua voz fraca perdia-se no diluvio.

O primo abria o portão; ella tentou ainda dizer-lhe que voltasse, que o pae lhe trancara a porta; mas a lanterninha do carro movia-se já na sombra, ia-se embora.

Nina voltou para dentro, accendeu a vela e esgueirou-se para o corredor.

Com o coração aos saltos, foi resvalando pela alcatifa do passadiço, com a precaução de quem vae para o crime.

Quando chegou a baixo já o Mario sacudia a fechadura com impaciencia, praguejando raivoso.

Ella tacteou os ferrolhos e recommendou:

—Espere um bocadinho, Mario!

—Que estupidez!

—Não faça barulho ... já vae! sussurrava ella sem que elle a ouvisse de fóra.

Emfim, a porta abriu-se. Mario esperava cosido ao humbral.

—Que idéia foi esta de deixarem a chave...

E elle interrompeu a phrase e a cólera, ao ver a prima alli. Por que seria ella e não qualquer criado, quem lhe ia abrir a porta?

—Foi ordem do tio Francisco. Boa noite.

Nina quiz subir logo, mas uma lufada de vento obrigou-a a proteger a chamma da vela com a mão, e com o gesto desprendeu-se-lhe uma ponta do chale que a envolvia. Na meia escuridade do vestibulo, Mario percebeu-lhe a doçura do hombro nú, pequeno, redondo, um pouco de carne virginal guardada até ahi em um recato que nem o baile afugentara nunca. E já elle não viu senão a pureza d'aquelle hombro assetinado, sahindo do meio das lãs, como um desafio aos seus sentidos, num assalto impudico e voluptuoso.

Acudiu-lhe então a ideia perversa de haver um proposito malicioso naquella historia. Não lhe affirmara Noca tantas e tantas vezes que a prima o amava?

A filha da mulher de má vida ahi estava agora, como devia ser: livre de hypocrisias. Mario extendeu-lhe os braços.

Nina comprehendeu.

Uma onda de sangue subiu-lhe ao rosto; segurou o chale com força e subiu correndo.

A vela apagou-se, os degráos da escada pareciam multiplicar-se debaixo de seus pés. No alvoroço, pisava sem cautela ora no assoalho, ora no passadiço, sentindo as faces abrasadas de vergonha, feliz no seu desespero, suppondo-se ainda perseguida pelos braços do Mario, que se quedara estupefacto no mesmo ponto.

Um trovão estalou, como se uma bomba tivesse rebentado em casa. Nina sentiu os joelhos vergarem-se-lhe, mas continuou no seu galope tonto até ao patamar. No corredor, em cima, receou ainda errar de porta.

Com as mãos extendidas apalpava a escuridão, ouvindo só o estrondo da chuva, compacta, sempre egual. Temia que o primo a perseguisse e não se atrevia a voltar a cabeça, para não esbarrar com elle, alli mesmo, juncto aos seus calcanhares.

Os pés, habituados ao caminho, levaram-na direita ao fim; uma rajada assobiando pelas frinchas de uma porta, fêl-a reconhecer o quarto, de que deixara aberta a janella, e ella entrou arrebatada, forçando a porta, que resistia. Fechou-se logo á chave, collou o ouvido á fechadura. Ninguem; suspirou de allivio, estava só. Um relampago conduziu-a á janella, de que fechou os vidros, alagando-se toda. Despiu-se á pressa, ás escuras, deixando cahir toda a roupa molhada no chão.

E foi á luz branca de um outro relampago que ella se viu toda núa, muito pallida, no grande espelho do guarda-vestidos. Escondeu o rosto de repente, como se vira um phantasma, e saltou para a cama, enfiando a camisa de dormir, num movimento de louca, com medo da noite, com medo da sua propria imagem, que se lhe afigurava impressa para todo o sempre no vidro...

Envergonhada, prevendo grandes males, em uma angustia em que se fundia um prazer, adivinhando os pensamentos do primo, maldizendo-o e adorando-o, sentindo-se d'elle para a vida e para a morte, quasi que se arrependia de se não ter abandonado, soluçando por aquelles braços de que fugira...

Era tal a sua confusão e a vibração dos seus nervos, que não sentiu alguem andar pelo corredor de vela accesa e passos compassados.

Mario adormecia feliz, na melhor paz da vida; Francisco Theodoro voltava para o somno interrompido, tendo intimamente perdoado a quem abrira a porta ao seu rapaz, por tão feia noite de trovoada,—e ainda Nina, na estreiteza da sua cama, com os olhos pasmados para o tecto negro, soffria, soffria, soffria...

No outro dia, ás oito horas da manhã, quando Francisco Theodoro entrou na sala de jantar para o almoço, comido sempre cedo e á parte da familia, já lá encontrou a sobrinha, retocando os arranjos do copeiro para a sua mesa.

—Bons dias, Nina; você passou bem a noite? perguntou-lhe elle, fixando-lhe os olhos pisados.

—Eu passo sempre bem ... respondeu ella corando.

Elle teve pena; e mais baixo, para que o criado não o ouvisse:

—Você fez mal em abrir a porta a meu filho; elle não lhe merece esses sacrificios ... e ... e mesmo isso não lhe fica bem; a sua intenção foi boa; realmente a noite estava pavorosa ... comtudo espero ser esta a ultima vez que sou desobedecido.

Nina estava hirta, encostada ao espaldar de uma das cadeiras arrumadas junto á mesa. Um vento de desespero sacudiu-lhe as idéias, sem que ella atinasse com que palavra responder. Francisco Theodoro reclamou então d'ella, mesmo para a tirar do embaraço em que a via, que lhe partisse uma fatia do roast-beef frio e que lhe fosse depois buscar o Jornal, esquecido em cima, no quarto de toilette.

Aquella maneira polida e reservada não era a usada pelo negociante nos seus momentos de censura. Ao contrario, elle abusava dos termos violentos e atroava a casa com as suas mais altas vozes. E era uma d'essas crises que a Nina esperava e que viu mudada num tom em que a admoestação era misericordiosa, e por isso mesmo mais commovedora.

Ella não respondeu, e apressou-se em servir o tio.




X

Raras vezes as tias do Castello appareciam em Botafogo. D. Itelvina não se arredava de casa, espicaçando o serviço da Sancha, arreliada com os desperdicios e a beatice da irmã; esta é que, de longe em longe, ia sentar-se á mesa de Milla para uma palestra curta, no intervallo das suas devoções.

Nina, ainda atarantada pela advertencia do tio, punha no terraço a gaiola do cacatuá, quando viu D. Joanna atravessar o jardim com os seus passos vagarosos, de mulher gorda e cançada.

—Que milagre! a senhora por aqui!

A velha sorriu-lhe e só depois de sentada num banco do terraço é que fallou, com a blandicia costumada, desamarrando com as mãos papudinhas o nó da mantilha preta.

—Mal imagina você por onde tenho andado!

Olhe: ás cinco horas já eu estava em São Bento, ouvindo a missa de N. S. da Conceição; depois dei muitas voltas pela cidade, angariando esmolas.

—Tão cedo?

—Nos bairros pobres a vida começa de madrugada. Por fallar em esmolas, hontem estive em casa das Bragas, da rua dos Ourives. Conhece-as?

—Não, senhora.

—É pena; são umas almas muito tementes a Deus. Achei-as atrapalhadissimas, preparando doces para offerecerem ao vigario Alves, que faz annos hoje. Não imagina como ellas são...

—Desculpe, tia Joanna, interrompeu Nina; e voltando-se para dentro:

—Ó Dionysio, leve o café ao Sr. Mario, ouviu?

—Ainda estão dormindo?!

—Tio Francisco já sahiu.

—Triste peccado é a preguiça ... emfim, cá estou eu rezando por todos... Pois as Bragas entregaram-me dez cartões para um grande concerto que vae haver no Cassino, em beneficio da egreja do Monte Serrate... Para o fim que é, ninguem se póde negar; Camilla deve levar a Ruth a essas festas de musicos... Eu pago a minha cadeira, mas lá não vou, e as outras nove espero deixal-as aqui. Vocês vão a tantos espectaculos indecentes, que não fazem nada de mais indo a este, que é para bom fim. Canta uma tal ... Marcondes, ou ... não sei quê...

—A senhora falle com tia Milla. Seu João! chamou ella interrompendo outra vez a conversa, voltada para o jardineiro que passava: olhe! é preciso fazer um ramo novo para a sala de jantar; como não ha rosas, faça de folhagens... Já reparou para as palmeirinhas da entrada?

—A chuva escangalhou-as; desfolhou as flores, e abriu covas nos canteiros, que Deus nos acuda!

—Veja se remedeia isso hoje mesmo...

O jardineiro passou; D. Joanna disse:

—É pena que não haja rosas; eu gostaria de levar algumas ao vigario Alves. Hontem a mulher e as filhas do Dr. Mendes passaram lá o dia, pregando cortinas, tapetes, ajudando D. Maria a enfeitar o quarto do filho... Aquellas são tambem muito boas pessoas...

—Quer café, tia Joanna?

—Acceito... Você é das taes que nunca vão á missa ... ha de se arrepender...

—Não tenho tempo... Quer mais assucar?

—Quero... Qual não tem tempo!... pois olhe, você tem peccados atraz de si, que deve purgar, se quer merecer o nome de boa filha...

Nina franziu as sobrancelhas e, desviando a vista do rosto branco da tia, olhou para o jardim, ainda empapado d'agua, muito verde, juncado de folhas arremessadas pela ventania.

D. Joanna saboreava o café, sem reparar na moça, que continuava em pé, com o rosto contrahido por uma expressão de raiva e de melancholia.

Ruth encontrou-as assim. Ella vinha toda fresca do banho, com o seu cabello negro e ondeado solto sobre os hombros estreitos, e o vestido branco, de cinto largo, que lhe tornava a cintura grossa e lhe dava ao corpo um ar de anjo de cathedral.

—Como está crescida! exclamou D. Joanna ao vel-a.

Ruth mostrou os dentes alvos num sorriso alegre.

—Bons dias! Sabe, tia Joanna? ainda hontem pensei na senhora!

—Porque?...

—Porque ando com muita vontade de ir ao observatorio do Castello ver a lua e as estrellas.

—Que lembrança! pensei que fosse para a levar a alguma festa de egreja...

—Não; isso cança-me, e, depois, já tenho visto tantas! Naquella da Sé, outro dia, os musicos desafinaram que foi um horror! Se ao menos cantassem bem... Quem me lembrou a ida ao observatorio foi o capitão Rino. Ver bem a luz e a côr das estrellas é o que me preoccupa agora. Leve-me lá, titia, sim?

—É melhor que você pense em conhecer o céu por dentro.

—Seria querer demais. Você já leu hoje a Flor de Neve, Nina?

Nina meneou com a cabeça, que não.

—Que historia é essa de flor de neve? indagou D. Joanna.

—É um romance do Jornal, muito bonito. Estou morta por saber se a Magdalena morreu ... tambem se tiver morrido não tornarei a pegar no Jornal!

D. Joanna ia reprovar a leitura, quando Camilla appareceu no terraço, bonita, de peignoir côr de rosa, toda rescendente, dando as mãos ás duas filhas pequenas.

Nina tomou a bençam á tia e, para fugir á presença da velha, que naquelle momento se lhe tornara odiosa, entrou logo para a sala de jantar.

—Isto aqui está muito humido; porque não foi lá para dentro, tia Joanna?

—Este banco está enxuto. A Nina estava aqui...

Camilla, depois de cumprimentar a tia, tirou da gaiola o cacatuá e beijou-o no pennacho.

Depois, para a velha:

—O que a trouxe tão cedo?

D. Joanna voltou á historia das Bragas, da missa em S. Bento, e apresentou á sobrinha as dez cadeiras para o concerto em beneficio da capella do Monte Serrate.

—Como é para um motivo de religião, eu fico, do contrario não; porque exactamente no domingo tenho convite para uma festa.

—Hoje faz annos o vigario Alves; você não lhe manda um bilhete?

—Posso mandar.

—Acho bom. Elle reza muito por sua intenção. É um santo padre e um perfeito homem.

—Elle é bonito, e trata-se bem. Já tomou café, titia?

—Já... Porque é que você deixa Ruth ler jornaes? Ella fallou ahi num folhetim; isso são obras impuras; é preciso zelar pela alma de sua filha.

—O pae não se importa, que hei de fazer?

—Ainda não fez a primeira communhão?

—É cedo.

—Não é tal. Ella não quererá?

—Se quer! ainda que não fosse senão para pôr corôa e véu... Todas as meninas sonham com a primeira communhão. É um ensaio para o casamento.

—Heresias... E o Mario ... como vae o Mario?

—Está um moço bonito.

—E ... mais ajuizado?

Camilla corou levemente, roçou em um disfarce as faces pelas azas brancas do cacatuá, e respondeu com um sorriso:

—Como todos os rapazes de vinte annos...

Lia e Rachel tinham-se engalfinhado a um canto por causa de um pecego verde, derrubado pela chuva e que ambas disputavam. Milla chamou a Noca, que interviesse e levasse as contendoras para dentro. D. Joanna levantou-se com um gemido e foi sentar-se a um canto da sala de jantar.

Estava alquebrada, pezavam-lhe as pernas; soube-lhe bem a flacidez da poltrona, que a envolveu logo numa caricia de somno. Cochilou gostosamente, mal ouvindo as correrias e as gargalhadas das creanças, o tinir das louças que punham na mesa, e os passos da criadagem em movimento. Atravéz do somno tudo aquillo era subtil e bom como uma musica a distancia. Quando despertou, iam servir o almoço. Perto, em um vão de janella, o Dr. Gervasio, com roupa clara e flores na lapella, conversava baixo com a Camilla.

D. Joanna tossiu para prevenil-os da sua presença; não se queria aproveitar do momento para indiscreções. Por fortuna, Nina entrou na sala, vinda da cópa, carregando uma cestinha de uvas brancas.

Lá em cima Ruth atacava os graves e agudos do violino, com frenesi.

«Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo, parece o zurrar de um burro!» pensou comsigo a velha, espreguiçando-se disfarçadamente.

Á hora do almoço, o Dionysio trouxe uma bandeija para servir Mario no quarto, visto que este só comparecia á mesa da familia quando o Dr. Gervasio não estava.

Camilla mal encobria o seu desespero, velando aquella offensa com desculpas frouxas, só para que o medico não reparasse. E elle nem viu tal coisa; acceitou os pretextos sem desconfiança. Mario merecia-lhe pouca attenção.

Entretanto, Nina apartava para o primo o melhor bife, o pedacinho de pão mais fofo e os ovos mais perfeitos. D. Joanna notou aquillo muito calada, com medo de mexer em casa de maribondos, arrancando do peito suspiros curtos, que afogava em bordeaux...

Dr. Gervasio observava a Ruth, que os exercicios, que lhe ouvira não estavam no andamento justo. Deveria repassal-os, antes da lição; depois aconselhou a Camilla que chamasse uma aia ingleza ou allemã para as gemeas, que perdiam o tempo, pervertendo-se com a linguagem de criadas boçaes. Elle opinava pelas allemãs; são disciplinadoras, risonhas e mais accessiveis que as outras. Depois de dirigir uns dois gracejos a Nina, o medico fixou com attenção o rosto pallido e humilde da D. Joanna, muito calada ao lado de Ruth. Lembrou-se de relance do encontro que tivera com ella no alto da ladeira de João Homem, sobre as pedras gordurosas da calçada, entre magotes de moleques curiosos e paredes sujas de predios velhos.

Ficara-lhe no ouvido toda a censura d'ella, e houve então nelle um impeto de agarrar Milla e de beijal-a mesmo alli, deante dos olhos castos e pudibundos da velha.

Foi só depois do café, ao accender o charuto, que elle ouviu D. Joanna, com o seu tom assucarado, queixar-se á sobrinha:

—Porque é que você não ensina ao menos as suas filhas a se persignarem quando se sentam e se levantam da mesa? Dar graças a Deus pelos bens que recebem não é vergonha nenhuma... A sua consciencia, Milla, está muito perturbada por máus conselhos e exemplos de atheus sem caridade... Eu não queria fallar, mas tenho-lhes muita amisade para ficar impassivel; não lhe parece que está em tempo de ensinar estas meninas a respeitarem a nossa religião?

Dr. Gervasio sorriu; comprehendera o remoque; Milla protestou:

—Todos em casa eram religiosos, ninguem deixava de ouvir a sua missa ao domingo, excepto a Nina, que nunca tinha horas para coisa nenhuma, e uma ou outra criada mais sobrecarregada de serviço; á noite tambem ninguem adormecia sem ter rezado pelo menos um Padre Nosso. Ella não se esquecia dos seus deveres.

Isto foi dito em tom secco, que encrespou um tanto o genio manso da tia; para vingar-se do medico, de quem suppunha emanar toda a alteração d'essa familia tão sua, ella exclamou com ironia, voltando-se para elle:

—Aposto em como o doutor tambem reza todas as noites?

—Aos meus deuses, respondeu elle com toda a calma, porque não?

—Como se chamam os seus deuses?

—Camões, Dante, Shakespeare... Nunca adormeço sem ter lido algum poeta, e de alguns recito mentalmente versos divinos. É a razão por que me explico ter tão bellos sonhos, visto que este feio homem que aqui está, excellentissima, tem sonhos que perfumariam a existencia da mais formosa das mulheres. Hontem li Dante. Estive no inferno, D. Joanna, e que inferno bellissimo!

—Vá trazendo para cá essas ideias...

—Descance; esta religião não se ensina; é para os iniciados. A senhora já ouviu fallar em Byron?

—Algum inimigo da nossa Egreja, como o senhor?

—Mas eu não quero mal á sua Egreja! acho-a só muito triste, toda voltada para a morte... Não lhe quero mal, porque para sua glorificação ella tem creado cathedraes que são verdadeiras apotheoses da arte.

—Só por isso?

—É uma das razões, e a unica facil de explicar-lhe.

—Julga-me muito bronca.

—Ao contrario, estou-lhe fallando como a um litterato! Agora, se quer, discutamos religião e philosophia. Conhece Comte?

—Algum damnado.

—É o termo.

—Eu sei, adoram-no numa Capellinha da rua Benjamin Constant. Que peccado!

—Ah! já tem noticias... Estamos bem adeantados.

—O senhor é um dos taes que não perdem essas sessões?

—Eu nunca lá vou. Já lhe disse, detesto a philosophia. Para enfadar-me basta-me a medicina e para distrahir-me as minhas roseiras. A senhora conhece algum bom remedio para matar pulgões de roseira? Tenho uma Yellow Persian quasi perdida!

—A sua medicina nem para as plantas serve?

—Nem para as plantas, a miseravel!

—Tia Milla! disse Nina apressada, entre as portas do corredor.

—Que é?

—Estão ahi a baroneza da Lage e a irmã...

—Meu Deus! e eu de peignoir!

Dr. Gervasio voltou-se e disse:

—Pois está muito bem; quem procura uma senhora a estas horas, sujeita-se a ser recebido assim. Digo-lhe mais; para mim não ha vestido tão bonito.

—Então vou assim mesmo...

D. Joanna sorriu com magua; até nisso a opinião do diabo do homem era seguida!

—Bem, Milla, ficamos despedidas, disse ella, eu vou-me embora. O dinheiro dos bilhetes?

—É verdade! Nina! dá cem mil réis a tia Joanna pelas dez cadeiras. Até outra vez, tia Joanna. Lembranças.

—Adeus.

A moça sahiu.

—Jesus! exclamou logo a velha, já passa de uma hora e Milla esqueceu-se de dar-me o cartão para o vigario Alves!

O medico voltou-se rapidamente, com uma curiosidade transparecendo-lhe no rosto. Que desejaria Milla dizer por escripto ao padre Alves? A velha percebeu-lhe a extranheza do gesto e voltou-lhe as costas antes que elle lhe pedisse alguma explicação, afogando o rosto flacido na juba negra de Ruth, com muitos abraços, ternuras e lembranças ao Mario.

Quando Camilla entrou no seu salão, a baroneza da Lage, toda de setim preto, estava de pé, contemplando um quadro insignificante, ricamente emmoldurado.

A irmã, sentada perto do sofá, com um arzinho enfadado de loira anemica, distrahia-se brincando com os dedos enluvados nos berloques do seu cordão de ouro.

A dona da casa desculpou-se logo por se apresentar d'aquelle modo...

—Mas está em sua casa, está muito bem. Olha, Paquita, este peignoir é quasi egual áquelle que eu comprei hontem no Raunier, não é?

A Paquita meneou languidamente a cabeça, que sim.

—Adivinhe agora o motivo da minha visita! disse a baroneza atravéz de um bello sorriso.

—É facil. Vem participar-me o seu casamento!

—Casar-me, eu? qual!

—Porque não? É a viuvinha mais cobiçada d'este Rio de Janeiro.

—Infelizmente. Imagine: tenho agora em casa uma senhora, especie de dama de companhia, sabe? só encarregada de receber e despedir os meus pretendentes... Não se ria, saiba que é verdade. Não é verdade, Paquita?

Paquita meneou a cabeça, que sim.

—Bem vê. Mas onde ouviu dizer que eu estava noiva?

—Em um bond.

—Já me tardava. O bond é o eterno mexeriqueiro d'esta terra. Tambem vocês quando não querem comprometter os seus informantes, attribuem ao pobre bond todas as indiscreções... Por isso o abomino. Só saio de carro... Não! Eu não venho participar coisa nenhuma; venho pedir a sua Ruth para abrilhantar um concerto que nós, protectoras do Sagrado Coração, pretendemos dar no dia quinze. Se não fosse coisa de religião, eu não me metteria nisto. Já me têm pedido para organizar festas em beneficio de escolas e de hospitaes para pobres, como se na nossa America houvesse pobreza... Creia, minha amiga, no Brasil não ha miseraveis, ha atheus. Precisamos de regenerar o povo com exemplos de fé christã.

Camilla concordou; Paquita atreveu-se a dar uma sentença.

Houve uma pausa.

—Paquita deu-me um dia d'estes noticias de seu filho; diz que está muito bonito moço.

Paquita atirou á irmã um olhar de reprovação; mas as palavras já tinham sahido, e nenhum poder as faria voltar ao ponto de partida.

—Está ... mas um pouco vadio; não gosta de trabalhar...

—Oh! nem precisa d'isso! É muito distincto. Eu, no caso d'elle, faria o mesmo.

—Sim, mas o pae é que não se resigna a isso.

Paquita esboçou um sorriso que não foi notado. A baroneza continuou:

—Já recebeu convite para o nosso baile?

—Já...

—Esperamos que seja Mario quem nos marque o cotillon. Papae gosta muito do Mario.

O pae da baroneza e da Paquita era um velho portuguez, antigo cavouqueiro, que boas auras de fortuna tinham tornado capitalista. Toda a cidade conhecia as suas anecdotas e simplicidades. Demais, elle gabava-se dos seus principios rudes e pesados.

—Nós tambem preparamos um baile; somente a data é ainda incerta, disse Camilla.

—Já se falla nisso.

A baroneza conversava com volubilidade, mal tocando nos assumptos. Fallou muito e fallaria ainda mais se a Paquita não a interrompesse de repente com uma phrase secca:

—Vamo-nos embora.

—Sim, vamo-nos embora.

Quando ellas se despediram, com a promessa de que Ruth tocaria no concerto, Camilla ficou com as mãos cheias de bilhetes para a matinée.

A baroneza, no meio da vidrilhada do seu vestido de setim preto, caminhava como se levasse musica comsigo; tinha os passos cadenciados, o busto bem erguido, um calor doce nos seus formosos olhos acastanhados de morena.

Paquita seguia-a, com o seu modo vago, em que tudo parecia escapar á observação. Camilla notou, ao apertar-lhe a mão, a magreza do pulso, um pulso alvo, fino, de creança doente, entrevisto entre a luva e a manga.

Em baixo, no vestibulo, as moças esbarraram com o Dr. Gervasio, que sahia tambem, cançado de esperar por Camilla.

Houve então uma troca de olhares significativos entre a baroneza e a silenciosa Paquita, que fez ao medico um quasi imperceptivel signal de cabeça. A irmã, muito expansiva, reteve-o, fallou-lhe com alegria, achando geito de lhe encher os bolsos com os bilhetes do seu concerto de religião.

Nessa tarde o capitão appareceu em Botafogo. Começavam a notar-lhe a ausencia; Lia e Rachel, quando o viram, saltaram-lhe para os joelhos.

Ruth veio em alvoroço, chamando-o de ingrato, pedindo noticias do Neptuno. Nina acolhia-o sempre com sympathia, achando nelle um ar de bom amigo, a quem num lance de perigo ou de angustia o coração de uma mulher póde vasar uma confidencia e pedir um conforto; Francisco Theodoro abriu-lhe os braços: Porque não apparecia, havia tanto? Só Camilla sorriu com esforço e reserva, extendendo-lhe a ponta dos dedos frios.

E era por isso que elle fugia agora d'aquella casa, onde o seu pensamento vivia encurralado, como um animal teimoso. O seu amor por Camilla crescia á proporção que elle se abstinha de a procurar, ou que se via maltratado por ella. Não achava explicação para aquella mudança; não a recebera elle no seu navio como a uma princeza?

As creanças abraçavam-n'o com enthusiasmo.

—Meninas! que é isso? então! exclamava Francisco Theodoro, rindo, muito fraco pelas denguices das gemeas.

Camilla olhou e teve pena. O capitão Rino estava mais magro; toda a sua roupa, escura e desageitada, parecia dançar-lhe no corpo; havia uma tristeza resignada nos seus olhos garços. Ella levantou-se, pretextando dôr de cabeça e subiu para o seu quarto.

Rino pensou: «Ella foge-me ... talvez seja melhor assim.»

Ouvia-lhe desesperado o rumor dos passos pela escada acima e ninguem percebeu que elle estava com o ouvido á escuta e os labios franzidos por um sorriso amargo.

Lia e Rachel balançavam-lhe os braços rindo muito, comparando as suas grandes mãos ás d'ellas, tão mimosas...

—Capitão Rino, porque não nos traz nunca sua irmã? perguntou-lhe Ruth.

Com toda a calma, como se nenhum desgosto o abalasse, elle respondeu:

—Catharina é uma exquisita; ella sae todos os dias, mas para andar lá pelo morro colhendo plantas... Raras vezes vae á cidade ou faz visitas. Somos uns insociaveis, nós dois. Meu pae era maritimo, minha madrasta foi sempre muito doente, e está nisso, julgo eu, a origem do nosso mal ... ou do nosso bem, quem nos dirá?

Fazendo uma carinha comica, e apontando para o céu, Ruth respondeu com ar solemne:—Só Deus!




XI

Era a hora do café no armazem de Francisco Theodoro. O escriptorio estava cheio; o Innocencio, miudo e trefego, retorcendo com mão nervosa o bigodinho aloirado, com os olhos pequenos fulgurando-lhe no rosto pallido, dilatava as narinas, cheirando dinheiro, que lhe parecia andar esparso no ambiente de todo aquelle enorme casarão de S. Bento.

Percebia as coisas de relance, e apanhava no ar as que lhe convinham.

A seu lado o velho João Ferreira, espadaúdo trigueirão, largo de faces e de gestos, commentava com benevolencia os actos do governo, berrando ás vezes contra a opinião dos outros, que o atacavam por todos os lados em vivas represalias.

O Lemos sorria calado, muito estupido para entrar em questões de tal ordem. Que lhe fallassem do preço da carne secca, que importava em grosso, e dos jacás de toicinho, e a sua opinião figuraria logo com todo o peso da autoridade. O Negreiros em pé, com o seu enorme nariz de cavallete, que a mão distrahida acariciava de vez em quando, era o unico republicano naquelle ninho de velhos portuguezes afferrados ás instituições tradicionaes da sua patria e d'esta que o seu amor e o seu bem-estar escolheram.

João Ferreira desculpava a fraqueza dos homens; palrador, como todo o minhoto, discursava por gosto, abafando com o seu vozeirão as ironias do Innocencio, um ou outro aparte medroso do Lemos, e os protestos de Francisco Theodoro, que não comprehendia como um tão fiel monarchista pudesse achar desculpas para os desatinos d'esta «Republica de ingratos.»

Negreiros sorria com a serenidade de um confiante. Elle fôra sempre um republicano e um extremado e era por isso olhado por alguns dos seus compatriotas com extranheza e susto. Como João Ferreira no maior ardor de seu discurso esbarrasse com a expressão alegre do rosto de Negreiros, e lhe comprehendesse o contentamento de o ter de seu lado, tergiversou e, com maldade alegre, achou logo tambem motivos de aspera censura ao mesmo governo que tinha gabado havia pouco. Não, que elle já estava maduro para dar o seu braço a torcer!

Os outros triumpharam, era assim que o queriam; e chegou a vez de Negreiros entrar na discussão.

Foi nesse instante, no meio da balburdia de vozes, que o capitão Rino appareceu no limiar da porta, com o chapéu na mão, e uma expressão interrogativa no rosto.

A chegada subita d'aquelle extranho, para quem Francisco Theodoro fez logo um logar ao pé da sua secretária, abaixou o calor da conversa.

Dividiram-se os grupos; houve risos baixos, pancadinhas nos hombros, de reconciliação e amisade. Só os olhinhos do Innocencio Braga ardiam na mesma febre, e os seus dedos magros torciam com maior nervosismo as pontas do bigode delgado.

—Que novidade é esta, o senhor por aqui?!

—Não lhe roubarei o tempo; é por curtos instantes.

—Ora essa! tenho muito prazer com a sua visita ... dê-me licença de o apresentar aos meus amigos.

Feitas as apresentações, o Isidoro entrou com o café em uma grande bandeija e houve uns segundos de silencio. Depois, Francisco Theodoro perguntou baixo ao capitão se lhe quereria fallar reservadamente.

—Não, senhor; venho apenas despedir-me e rogar-lhe que apresente os meus cumprimentos á sua familia. Parto para o Pará.

—Porque não vae jantar comnosco? o senhor não imagina como é querido lá em casa. A minha gente não lhe perdoaria isso! Bem sabe que não fazemos cerimonias.

—Obrigado, mas a minha viagem d'esta vez é mais longa, obriga-me a preparativos que não me deixam tempo para nada. Na volta levarei os meus respeitos a todos.

O capitão corava dizendo estas coisas. Todo o seu sangue, agitadissimo, lhe bailava sob a pelle de loiro.

—Bem, bem! as obrigações não se deixam por coisa nenhuma ... dou-lhe razão; sou homem de negocios. Darei os seus recados á minha gente. Camilla vae ficar triste ... paciencia... Pois quando quizer lá estamos ás ordens como bons amigos; e Francisco Theodoro extendeu a mão larga ao capitão Rino, que a apertou confuso e alvoroçado.

Seu Joaquim appareceu no escriptorio e pousou um maço de papeis na secretária, pedindo a Theodoro que lhe désse prompto expediente.

Aquillo equivalia a uma despedida; havia urgencia de recomeçar-se a lida. Levantaram-se todos.

Innocencio Braga deixou-se para ultimo e e ao despedir-se do negociante pediu-lhe uma entrevista em sua casa, para negocio urgente, de alta importancia.

No olhar de Theodoro houve uma interrogação pasmada. O do Innocencio tinha lampejos de ouro. Seu Joaquim observava em silencio.

O capitão Rino, que desceu na frente, topou com o caixeiro Ribas no corredor, junto ás grades do armazem, de orelhas molles e hombros descahidos, ruminando odios em silencio contra o Joaquim, que o deprimia á vista de todos. O capitão levava os olhos cheios de outras imagens, para attentar nelle. O bafo quente da rua, cheia de povo e de sol, acordou-o do sonho. Na calçada, mesmo á porta do armazem, a velha Terentia varria á pressa as pedras com a vassourinha de piassava, e a cabecinha amarrada no lenço branco, pendente para o seu trabalho. Os carregadores iam e vinham, cruzando-se, serpeando entre os vehiculos repletos de café, numa gritaria medonha. O trabalho trombeteava a todos os ventos a sua força poderosissima.

O capitão Rino seguiu, abrindo passagem atravéz de grupos compactos e movediços.

Aquella multidão aturdia-o.

O mar limpo e vasto obrigara-o sempre a viver das suas proprias commoções, a ser um isolado e um melancholico, affeito a amar na natureza o que ella tem de maior e de mais simples.

A onda do povo rude com que esbarrava, era bem mais complexa do que a do oceano que elle cortava com a prôa firme do seu Neptuno.

Talvez tivesse escolhido mal a sua profissão. A vida do homem era aquillo que alli estava: a agitação perenne, o trabalho violento, o amor sem idealisações, o espectaculo renovado de tudo que a terra produz, mata e faz renascer para a fulguração do tempo, que é instantaneo e é eterno.

O proprio mar, que escolhera e a que se lançara na phantasia da adolescencia, não era á orla branca da Terra que vinha atirar a sua grande queixa, a sua furia formidavel ou a sua voluptuosidade infinita?

A terra pallida dos areaes, a terra côr de sangue das mattas, a terra negra do ouro, a terra rôxa dos cafeeiros, mãe da abundancia, ou a terra clara dos laranjaes, fonte de perfume, não é por ventura a parte do mundo consagrada ao homem, onde o seu suor, em cahindo, se transmuda em orvalho fecundo?

O capitão Rino olhava para toda aquella gente, marinheiros, soldados, vadios e trabalhadores braçaes, negros ou portuguezes, uma população de homens apressados, sem lhe fixar o desalinho do gesto ou a preoccupação das vistas abrasadas. Eram homens, passavam em repellões, pensando no ponto da chegada. Elle ouvia-lhes a respiração, a offegancia dos peitos cançados e a cadencia dos passos batendo dominadoramente as pedras duras do chão.

Aquelle ruido era sempre para elle uma musica de sonoridade nova.

Entrou na rua da Prainha, tomou depois a da Saude, sem notar o aspecto desegual da casaria, os negros trapiches tresandando a cebos de carnes e meladuras de assucar esparramadas no solo, onde moscas zumbiam desde a porta da rua até lá ao fundo do armazem, aberto para um quadro lampejante de mar.

Os trapiches succediam-se, repletos de barricas, de saccos, de fardos e de pranchões, enchendo o ar de um cheiro complexo, que a maresia levava de mistura, e de sons asperos dos guindastes, suspensos sobre balanças. Lanchas passavam perto em roncos e silvos entrecortados, e aquella confusão louca de vozes, que lhe era familiar, dava-lhe agora a impressão de que a terra se debatia num delirio de febre.

Elle ia ao morro da Conceição, dizer adeus a um antigo companheiro, agora padre. Para isso, enveredou por uma ladeira estreita, talhada sobre rocha branca. A rua serpeava em curvas contrafeitas, elevando-se aqui para se despenhar acolá, acotovellando-se em angulos de um lado para descer ao outro em escadarias toscas.

De casas velhas, abertas para a grande luz, sahiam mulheres para extender ao sol blusas de marinheiros, emquanto lá dentro vozes frescas de moças cantavam modinhas ternas.

Á beira dos precipicios, creanças, quasi núas, atiravam com os pés, d'entre montes de lixo, latas vazias, que rolavam, tinindo pelas ribanceiras, e velhas, sujas, agachadas em uma ou outra soleira, coziam trapos, entre gatos adormecidos e gallinhas soltas.

O dia estava azul, e o ar do mar vinha, em grandes lufadas, acariciar a face quente e robusta da terra.

Capitão Rino atravessava uma rua de marinheiros.

Ao ver alguns rostos tranquillos e braços grossos de mulheres, trabalhando ao ar livre, pareceu-lhe que o coração d'aquella gente era resignado e sabia esperar.

A grande virtude estava com ella, só os simples podem ser fortes.

Depois de varias voltas, por caminhos muito accidentados e sujos, elle viu-se na ladeira da Conceição, entre casas baixas, umas com as faces para as outras, mal abertas, de ar desconfiado.

Outra gente alli se movia nas ruas. Rolavam no cisco das calçadas velhos botões azinhavrados de fardas. Mulheres de soldados tagarellavam em lingua aspera, com visinhas de má compostura, e um fartum enchia a atmosphera da rua longa, até ás proximidades da velha fortaleza.

Em todo o comprimento do seu passeio, foi alli a primeira vez que o capitão Rino ouviu uma voz lamurienta, a pedir-lhe uma esmola.

Ahi estava uma coisa que elle não ouvia nunca sobre a onda inconstante...

Pouco depois bateu á porta do amigo, mas elle não estava em casa; só voltaria á noite. Rino continuou para cima até o pateo do forte e e ahi sentou-se um bocado na muralha, olhando para baixo.

Que via elle? a casaria desegual, feia, derramada, brilhando aqui na telhas novas de reconstrucções, mostrando acolá outras, negras ou esverdinhadas, sobre paredes encardidas? Reparava para o movimento continuo da rua embaixo, cortando com uma linha larga e branca os predios melancholicos? Não. Com os olhos fixos na agua crespa da bahia, coalhada de vapores negros, de navios brancos, de embarcações de todo o feitio, elle só pensava em Camilla, tão rigida para com elle quanto docil e amorosa para com o outro...

Fugia. Estava tudo acabado. Era o adeus á sua mocidade, áquelle sonho de amor, que elle dizia atravéz d'aquella infinidade de corações felizes, fortes, que esses telhados abrigavam por certo. Não haveria mais ninguem assim, tão desafortunado.

Como seria bom viver, mesmo naquelle immundo bairro de trabalho, com o coração tranquillo, com fé no amor!

Para elle, estava escripto: não tornaria a ver Camilla. A humilhação da ultima visita queimára-o como brasas. Ainda se ella o desprezasse, mas não amasse o outro!

E toda a causa da sua desventura estava naquella preferencia. Porque havia de ser o outro, e não elle?

O sino da Conceição badalou com força. Rino voltou-se; dois padres moços, de batina, atravessavam o largo, como dois pontos pretos de exclamação em um quadro vasto de sol. Nesse instante o moço maritimo teve a visão de que, ao encontro da sua, vinham duas almas eguaes, tristes na sua esterilidade. Ainda aquellas tinham o seu ideal, se guardavam intacto o oleo divino que todas as chagas suavisa e todas as miserias embelleza.

E elle? sem fé sem um fito qualquer que explicasse o motivo dos seus dias, com um amor renegado, cavalheiro sem dama e sem sonho, que valia neste mundo, onde o homem merece pelo que pensa, pelo que crêa, pelo que combate ou pelo que amplia?

Os padres passaram; elle quiz seguil-os, mas o corpo, cançado, amollecido, ficou ainda. E o pensamento recalcava: por que havia Milla de preferir o outro? parecia-lhe que todo o seu amor seria para sempre doce e platonico, se ella fosse para todos uma mulher austera, bem encerrada no circulo de seus deveres.

Esta idéia trouxe a lembrança da mãe, morta a facadas pelo pae, como adultera. A imagem d'ella encheu-lhe o coração; ergueu-se bruscamente e começou a descer a rua, apressado com a ideia de fugir para longe, salvar-se do perigo que o solicitava.

Era preciso não tornar a ver Milla; nunca mais! Para algo lhe serviria o seu orgulho de homem.

A vontade domaria o coração rebelde. Não tornaria a vel-a.

A idéa da mãe lembrou-lhe a irmã; tinha ainda tempo de ir jantar com ella naquella silenciosa casa das Laranjeiras. Só no dia seguinte iria para bordo aprestar o Neptuno.

Devia pensar noutras coisas; esforçava-se por isso. Desejar Milla, para que? não tornaria a vel-a...

Desceu o morro apressado, até á rua dos Ourives e seguiu por ella, sacudindo os hombros no movimento bamboleado do corpo, num andar de quem nada quer ver resoluto acalmado por um esforço em que entrara todo o poder da sua vontade.

Fugir de Camilla e para sempre, crear, talvez, lá longe, em terras do norte, uma familia honesta, era o que devia fazer, o que faria, inevitavelmente e bem depressa, como remedio para esquecer...

O capitão atravessou ruas, passou por amigos como se ninguem visse, e só ao desembocar na rua do Ouvidor parou de chôfre, com um batimento forte de coração. Deante d'elle, magestosa no seu vestido preto picado apenas no peito por uma rosa escarlate, Camilla sorriu-lhe, extendendo-lhe a mão enluvada. Era uma reconciliação e um appello; elle não atinou com que dissesse. Ao lado da mãe, Ruth fixava nelle aquelle brilhante par de esmeraldas que Deus lhe déra por olhos. Trocados os cumprimentos ellas não se detiveram, e o moço seguiu tambem o seu caminho, enfraquecido, todo embebido no aroma d'ella todo deslumbrado por aquelle ar de deusa inattingivel.

D'alli até á Carioca já os seus passos se collavam ás pedras, desejosos de parar para a seguirem depois, quando ella voltasse para o calor da sua casa; mas o capitão Rino obrigou-se a ter juizo e caminhou para um bond das Aguas Ferreas, que era justamente o assaltado nessa occasião.

Só depois de sentado reparou que estava juncto da D. Ignacia Gomes e das duas filhas, a Carlotinha e a Judith, ambas muito faceiras e risonhas nas suas toilettes claras.

D. Ignacia suspirava, cançada do esforço da tomada de logar, com as mãos carregadas de embrulhos, e o toucado já descahido sobre a orelha esquerda. Não a pilhariam tão cedo na cidade, affirmava.

Reconhecendo o capitão Rino, pediram-lhe logo noticias da familia Theodoro, como estava a boa Camilla?

Elle disse o que sabia, um pouco atrapalhado, corando.

A Carlotinha, sempre trefega, debruçava-se sobre o collo da mãe, dizendo-lhe com a sua voz maliciosa phrases em que entrava mais atrevimento do que espirito. Tinham-se mudado para as Larangeiras e offereciam-lhe a casa. D. Ignacia vinha espantada com os preços dos objectos adquiridos; se não fossem as moças, ella não viria á cidade; gostava do seu canto, da boa paz caseira.

—E o Sr. Gomes, como está? perguntou o capitão, menos por interesse do que para dizer alguma coisa.

—Coitado, como velho cheio de trabalho. O Sr. não imagina! meu marido sacrifica-se pelos outros e o resultado nós sabemos qual é. Este mundo é de ingratos...

—Sim, é de ingratos; confirmou o capitão.

Até as Larangeiras D. Ignacia teve tempo de despejar todas as lamentações da sua alma attribulada; fallou de tudo, até das cozinheiras e do máo serviço do açougue. O discurso, interminavel, numa lenga-lenga, ora lamurienta, ora resignada, tornava ao capitão insupportavel a longura da viagem.

Carlotinha perguntou pelo Dr. Gervasio. Que era feito d'elle, que ninguem o via, senão no palacete Theodoro?

Rino encolheu os hombros; não sabia. Judith debruçou-se por sua vez, e contemplou-o com curiosidade.

Tinham chegado ao termo da viagem e desceram com muitos offerecimentos, apontando o portão da sua residencia.

O capitão Rino correspondeu ás expansões com amabilidade discreta, admirado da exuberancia d'aquella gente. Que lhe importavam as denguices da Carlotinha, de olhar gaiato e tez de jambo, ou as da Judith, pallida e pequena, se todo o seu pensamento estava na outra, naquella Milla de formosura opulenta, de quem guardava ainda na palma a doçura da mão enluvada?

A fatalidade d'aquella paixão bem se revelava em tudo; elle furtava-se a vêl-a, saudoso e afflicto, mas forte na sua resolução, e eis que ella lhe apparecia em uma volta de rua, inesperadamente! O bond parara no ponto e o moço desceu, caminhando para deante até a chacara da madrasta; o portão estava aberto, entrou.

Nos largos canteiros touceiras de cannas da India erguiam os seus pennachos de flores vermelhas e amarellas; elle tomou á esquerda, por uma rua ladeada de gyrasóes e de magnolias côr de ouro velho. Era ao fundo d'essa rua que apparecia a casa, de feição antiga, solida e simples, com paredes brancas e largas janellas de guilhotina.

Sentindo gente, veio um cão enorme lá de dentro, aos saltos e latidos, e logo apóz appareceu Catharina no patamar de pedra, da escada em semicirculo.

Ella desceu ao encontro do irmão, muito risonha.

—Estás boa? perguntou-lhe elle, segurando-lhe no queixo forte e ligeiramente quadrado e fixando-lhe de perto os olhos claros.

—Estou, D. Mariquinhas é que está doente, com uma das lymphatites do costume.

—Chamaste medico?

—Chamei, e lá a deixei com a Hermengarda ao pé da cama.

—Que Hermengarda?

—Aquella enfermeira mulata, do nº 15, mãe do...

—Já sei.

—D. Mariquinhas gosta muito d'ella. Queres ir vel-a agora?

—Depois; fiquemos por aqui. Os teus gyrasóes estão muito lindos.

—Não parece um jardim japonez? Repara. Temos chrysanthemos que nem os dos biombos, cannas como as das ventarolas, lirios e gyrasóes... D. Mariquinhas acha detestaveis todas estas flores e falla em mandal-as arrancar... Esta nossa madrasta tem singularidades. Não comprehende o adorno e desconhece a graça das linhas. Só gosta das flores pelo cheiro.

—Que tens feito?

—Lido, cosido e jardinado; que mais hei de fazer? quem me acompanha se eu quizer sahir?

—Effectivamente estás muito só.

—Preciso casar-me.

—Casa-te.

—Tenho medo.

—Os homens assustam-te?

—Um pouco. São enganosos, e eu sou franca. Imagina o conflicto! Depois, a lembrança da nossa mãe faz-me odiar o casamento.

—Sê honesta.

—Quem pode saber hoje o que será amanhã?

—Tens razão. Fica solteira; serás mais feliz. Tens uma alma indomavel. Conserva-te aqui. Esta casa é tão propicia a uma vida de calma e de reflexão!

—Minha madrasta, bem sabes, vive em guerra aberta commigo. Chama-me com malicia—doutora. Todos os meus gostos são assumpto de mofa para ella, e todos os seus são para mim de aborrecimento. E ahi tens a calma d'esta casa. Fresca tranquillidade!

—Tem paciencia ou, então, dou o dito por não dito. Casa-te!

—Com quem?

—Commigo não pode ser.

—Nem tu quererias.

—Porque?

—Porque amas a Camilla Theodoro.

Tinham-se afastado de casa e seguido para as bandas do pomar. O jardineiro passou com o carro de mão cheio de folhas seccas, e cumprimentou o moço, que não lhe correspondeu á cortezia, tonto, pasmado para a irmã, que estacára tambem ao dizer as ultimas palavras.

—Nega, se és capaz; disse ella.

—Não nego.

Quedaram-se mudos, contemplando-se de face.

Pela mente de ambos passou, dolorosissimamente, a lembrança da mãe assassinada pelo marido. Comprehenderam-se atravéz do silencio. Catharina murmurou:

—Á proporção que envelheço, mais se vincula em mim a saudade d'ella e não consigo desvanecer o meu rancor por elle. Não lhe perdôo.

—Nem eu; mas a sociedade absolveu-o...

—Os homens. Ella era tão boa!

—Enganou-o.

—Que monstruoso castigo! E o resultado, lembras-te? O teu afastamento de casa e o meu odio. Em vão elle se fazia bom para agradar-me; era de uma humildade que commovia a todos, menos a mim. Não tornei a beijar-lhe a mão.

—Nem mesmo na hora da morte?!

—Nem mesmo na hora da morte. E eu quiz; curvei-me; mas quasi ao encostar a minha bocca á mão d'elle, ergui-me com terror. Elle percebeu tudo. Que morte!

—Foste cruel.

—Fui humana. Tu o amavas?

—Antes? muito!

—Depois?

—Não. Mas era nosso pae...

—E ella era nossa mãe!

—Tens razão. Para os filhos a mãe é sempre a melhor e a mais pura entre as mulheres.

Um sabiá cantou e elles ficaram a escutar, com os olhos rasos de agua.

—Foi no Neptuno que percebeste tudo, não foi? perguntou Rino mudando de tom.

—Onde havia de ser?

—E só aquella vez bastou?

—Só.

—Manda calar aquelle sabiá, Catharina!

—Deixa lá o passaro; chora.

—... Parto depois de amanhã. D'esta vez a viagem será longa... Entrego em Belém o commando do Neptuno a outro. Tenho substituto; está tudo combinado e resolvido. Bem resolvido. Devo fugir-lhe. Não era preciso que evocasses a lembrança do passado para me dissuadir...

—Não tive a intenção de te dissuadir; quer-me parecer que o amor não é figura de barro que se amolgue com os dedos. Sómente, como ella ama o Dr. Gervasio...

—Por quem soubeste isso?

—Por nossa madrasta, que sem sahir d'aqui sabe sempre de tudo, benza-a Deus!

—Mas quem lhe diria a ella semelhante coisa?!

—Talvez o medico ... talvez a cozinheira... talvez o vento. O vento traz-lhe aos ouvidos coisas que ninguem mais ouve. E é uma espada desembainhada para todas as faltas, aquella mulher!

—De mais a mais, é uma calumnia! Camilla é discreta; mesmo que isso assim fosse, quem poderia adivinhar?

—João, amores são como luzes atravéz de rendas: apparecem sempre.

—Não, não; é preciso convencel-a de que isso é falso. Milla não ama ninguem; não ama ninguem!

Catharina fechou os olhos por um segundo, depois recomeçaram a andar, um ao lado do outro, silenciosos, pisando o enorme tapete solferino que as flores dos jambeiros-rosa alastravam no chão. A tarde descia clara e calma, toda azul, com leves tons opalinos.

—Catharina?

—João?

—Precisava ter-te sempre a meu lado...

—Pois casa-te e chama-me para a tua companhia. Eu criarei os teus filhos. Procura amar outra mulher. Ha tantas no mundo, ha tantas!

—Ha uma só: a que amamos. Só quero aquella.

—Soffres muito?...

—Horrivelmente, horrivelmente! Este desabafo ha de fazer-me bem. Custa muito guardar um segredo d'estes! E eu guardo o meu ha tanto tempo!