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A fallencia

Chapter 19: XIII
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About This Book

Ambientada no Rio de Janeiro, a narrativa acompanha o funcionamento e o colapso financeiro de uma casa de comércio vinculada ao comércio de café, alternando descrições vibrantes dos armazéns e do esforço físico dos carregadores com a rotina contida dos escritórios e das casas. Por meio de episódios sobre patrões, empregados e vizinhos, explora desigualdades sociais, ambição, moralidade perante a ruína e as consequências da crise sobre relações pessoais e destinos.

—Parecia-te. Bem viste que eu já o tinha commigo.

Sorriram ambos, com tristeza.

Como tivessem dado volta ao pomar, passaram pelo recanto onde Catharina tinha o viveiro das rosas, mas não se detiveram. Tornaram a cruzar-se com o jardineiro e, tomando a larga rua dos gyrasóes, entraram em casa.

Antes de se sentarem á mesa, os dois irmãos foram ao quarto da madrasta, uma senhora muito gorda, que se alastrava pela cama, com um lenço amarrado na cabeça e o rosto polvilhado de amido. A Hermengarda tinha cerrado as janellas e vigiava a doente, na penumbra. Sobre a mesa muitos vidros de remedios, e um cheiro de camphora espalhado em tudo.

O leito rangeu, ao movimento do corpo enorme, que se voltava a custo, e a enferma, fazendo uma voz debil, queixou-se de muitas dores e de muito frio.

Os enteados disseram-lhe meia duzia de phrases animadoras, recommendaram-lhe paciencia e, sentindo que a importunavam, sahiram em bicos de pés.

Antes de se sentarem á mesa, Catharina confessou ao irmão sentir-se alliviada com a ausencia da madrasta. Teriam assim um jantar mais intimo.

Elle perguntou:

—Afinal, tu a aborreces só por ella ser tua madrasta?

—Só. Se a morte de minha mãe tivesse sido natural, eu acceitaria depois a madrasta, senão com ternura, ao menos com respeito. Assim, quero-lhe mal, porque, escolhendo meu pae, ella offendeu minha mãe. Mas o mal está feito e é irremediavel, não fallemos nelle. Suppõe que eu sou uma exquisita, que ella é outra, e não penses mais nisso.

Ao jantar fallaram-se baixo para não incommodar a doente, cujo quarto era na visinhança.

Quando á noite o capitão Rino se despediu da irmã no jardim, sentiu, ao abraçal-a, que ella chorava. Era a primeira vez, entre tantas de separação, que isso acontecia. Elle beijou-a consolado, certo de que em toda a terra havia um coração que o amava com firmeza, com sinceridade—o d'ella.




XII

Havia no palacete Theodoro um compartimento que raras vezes se abria: era uma sala, destinada naturalmente na sua origem a bibliotheca, e de que o negociante fizera o seu escriptorio.

Ficava embaixo, no rez do chão, ao fundo do vestibulo, toda voltada para o silencio do jardim, que formava perto das suas janellas grupos de plantas sem aroma, dentro de grandes relvados, onde a bulha dos pés morria.

Como o negociante não usasse de livros, o seu escriptorio não tinha estantes. A mobilia, de canella e de couro, guardava alli, na sua attitude impassivel, um cunho de austeridade que não desdizia do aposento, vasto e sobrio.

Aquellas cadeiras e aquelle sofá de braços extendidos, tinham o ar das coisas a que a intimidade dos seres não deu ainda uma alma.

A melhor parede para uma armação era occupada por dous quadros industriaes, de ricas molduras lampejantes, e por um contador veneziano. Sobre esse movel, erguia-se, com ar de desafio, a estatueta de um cavalheiro de capa e espada e grande pluma ao vento.

Do lampeão de bronze com abat-jour, cahia uma luz bem dirigida, espalhando-se sobre a secretária em um largo circulo tranquillo.

Foi para juncto d'essa mesa que Francisco Theodoro levou o amigo, o Innocencio Braga, offerecendo-lhe uma cadeira ao pé da sua.

A figura trefega d'aquelle homem miudo, que com os seus quarenta annos não parecia ter mais de vinte e cinco, o brilho movediço dos seus olhinhos, perspicazes e mergulhadores, a sua pallidez baça, os seus movimentos rápidos e incisivos, a febre dos seus gestos, a clareza da sua exposição, punham em evidencia a pacata attitude do dono da casa, a calma dos seus modos, de satisfeito, de burguez que já da vida alcançou tudo, e que se compraz em ver o mundo do alto do seu fastigio.

Com as mãos apoiadas na mesa, onde, a par de um vistoso tinteiro de prata massiça, só havia o Codigo Commercial de Orlando, Francisco Theodoro abria os ouvidos ás palavras do outro, em quem presentia o desejo arrojado de grandes vôos. Sabia-o tão intelligente quanto experto, de uma actividade febril e fecunda. Esperava que aquella entrevista fosse para lhe pedir o nome e o capital para qualquer empreza.

Tinha-se apparelhado já com algumas evasivas e preparado para uma certa condescendencia, que o valor do homem o obrigava a ter. O seu capital, avolumado, podia com lucro tomar diversas derivações, fertilisando zonas e expandindo a sua força; tudo estava no credito de quem lh'o pedisse, e nas vantagens que lhe offerecessem.

E era só em negocio que Francisco Theodoro fazia caso do dinheiro. No mesmo dia em que assignava vinte ou trinta contos para um hospital ou uma egreja, numa pennada rija e franca, recusava emprestar a qualquer pobre diabo cinco ou dez contos para um começo de vida.

O seu dinheiro, adquirido com esforço, gostava de mostrar-se em borbotões sonoros, que lampejassem aos olhos de toda a gente.

Queria tudo á larga. Era uma casa a sua em que as roupas, as comidas e as bebidas atafulhavam os armarios e a despensa até a brutalidade. Dizia-se que no palacete Theodoro os cozinheiros enriqueciam e que a vigilancia trabalhosa da Nina não conseguia attenuar a impetuosidade do desperdicio. As proprias dividas do Mario faziam vociferar o negociante, não pelo consumo do dinheiro, mas por a perdição d'aquelle filho, que elle não conseguia dirigir a seu modo.

Gastar comsigo, com a sua gente, era sempre um motivo de vaidade e de goso; mas gastar mal em negocio, arriscar em commercio problematico, é que lhe parecia uma ignominia.

Agora, com este Innocencio Braga, as coisas mudavam. A superioridade do homem obrigava-o a transigir um pouco...

Por isso elle fez entrar o Innocencio para o escriptorio, onde mal chegava o echo das correrias das pequenas.

Sem preambulos, o outro atacou o assumpto com a altivez de quem não pede, mas offerece favores.

Com o seu timbre de voz nazalada como se toda ella só lhe sahisse da cabeça, começou:

—Lembrei-me de organizarmos aqui no Rio um grande syndicato de café. O Gama Torres, que, aqui entre nós, deve aos meus conselhos a sua prosperidade, está prompto a entrar com grande parte do capital. Foi elle que me disse que o consultasse tambem.

Francisco Theodoro sentiu um arrepio, mas não pestanejou. Os olhos do Braga scintillavam na sombra.

Com elogios moderados, mas de infallivel alcance, á argucia e bom criterio do negociante, Innocencio expoz o seu plano, estudando-o, revirando-o por todos os lados, mostrando calculos, em cuja elaboração perdêra noites de somno, assoprando-o de vagar, com eloquencia, fortificando-o com argumentos persuasivos.

Tudo aquillo apparecia como a irrefragavel verdade, singelamente. Nenhum artificio de palavras. Termos limpidos como agua da fonte.

Francisco Theodoro, empolgado, reclamava repetições. Innocencio prestava-se.

Todos os pontos obscuros eram esclarecidos, repetidos, como os compassos difficeis de uma musica, até que se passasse por elles sem tropeço. O tino commercial do Innocencio Braga confirmava-se.

Entretanto, Francisco Theodoro hesitava. A sua escola fôra outra, mais rude.

O assalto assustava-o.

Sentindo-o escorregar medrosamente d'entre os seus dedos nervosos, Innocencio sorria e, com habilidade, sem querer constranger resoluções, retomava o fio d'ouro da sua proposta, e extendia-a seductoramente.

Não havia zona caféeira, em Africa, na America ou na Asia, de que elle não fallasse com a autoridade de bom conhecedor.

Dir-se-ia que podia contar os grãos de cada arvore. Em algumas colonias o sol mirrava o fructo; noutras, chuvaradas tinham levado colheitas; em certos paizes de café, o café faltava, e só no Brasil, terra da promissão, os cafesaes vergavam ao peso da cereja rubra. Tudo isto era documentado com trechos de jornaes extrangeiros, collados num caderno, annotado nas margens, com lettra miuda.

Em toda a exposição não havia calculo sem base, idéas sem argumentos. Tudo era saber aproveitar a occasião propicia, esta incomparavel epocha de negocios, para lançar a rêde...

Francisco Theodoro resistia ainda, ou antes, queria resistir, por instincto; mas a verdade é que abria os ouvidos ás palavras do outro, e não achava termos com que defendesse a sua reluctancia.

O prestigio de saber traduzir um artigo para jornal vale alguma coisa. Innocencio leu um artigo traduzido por elle do inglez, sobre a propaganda e o futuro do café, obra solida, que Francisco Theodoro approvou.

Reconhecia nos inglezes grande capacidade.

—Justamente, grande capacidade, atalhou o outro; e sabe o senhor porque?

—Superioridade de raça... Sim, é o que dizem.

—Não creia o senhor nessas balelas. Qual superioridade de raça! de educação, só de educação. Individualmente, o inglez não é mais forte do que nós, com toda a sua gymnastica, com todas as pipas de oleo de figado que tenha ingerido em pequeno.

A vantagem d'elles é outra: vêem melhor e fazem a tempo as suas especulações. Podem ter medo de phantasmas, mas não teem medo de negocios. Especular com intelligencia, ganhar boladas gordas, encher as mãos, que para isso as teem grandes, de libras esterlinas, eis para o que o inglez nasce e se desenvolve.

Por isso o commercio d'elles é tão forte.

Como os inglezes se ririam de nós, meu amigo, se quizessem perder tempo estudando as timidas especulações do nosso commercio de analphabetos!

Não percamos tambem nós o nosso tempo; estudemos este assumpto.

Curvaram-se outra vez para a secretária coberta de artigos, tabellas, estatisticas...

Francisco Theodoro não se atrevia a uma resposta. Innocencio disse, sem tirar os olhos dos papeis:

—Aqui só vejo um homem capaz de entrar nisto sem medo:—o Gama Torres.

—É rapaz novo...

—E atiladissimo.

—Os negocios precisam ser feitos com vagar...

—Á moda antiga.

—De todos os tempos.

—Não. Quando ha febre é preciso saber aproveital-a na subida do thermometro.

As occasiões fogem e não se repetem; o senhor reflectirá; esperaremos alguns dias, poucos, bem vê que não devemos adiar isso para outra épocha. Esta é a melhor.—É a unica.

Deixo-lhe aqui a minha papelada: consulte-a. Aqui estão coisas melhores e mais convincentes do que palavras:—cifras.

Francisco Theodoro, acavallou no nariz a sua luneta de vista cançada e seguiu com o olhar os caracteres cerrados que os dedos do outro apontavam e percorriam rapidamente.

Como o rumor da enchente que se approxima e vem até a inundação, assim aquelle amontoado de parcellas ia crescendo e ameaçando de desabar em blocos de ouro.

Quando via uma abertazinha, Francisco Theodoro aproveitava-a para uma objecção, que Innocencio repellia sem esforço, com mostras de quem já vinha prevenido para tudo.

Á meia-noite ergueu-se, dizendo:

—Amanhã é domingo; o senhor fique com estes papeis e leia-os outra vez, com o seu socego. Segunda-feira eu irei procural-os no armazem, das duas para as tres horas. Estude e resolva. Boa noite.

Francisco Theodoro acompanhou a visita até o portão do jardim. Em cima, a casa estava toda fechada; a familia dormia. O jardineiro, na soleira, esperava que a visita sahisse para soltar os cães.

—Que linda noite, Sr. Theodoro, e como o seu jardim cheira bem!

—Sim. Camilla gosta muito de flores. Deve ser das violetas.

—É dos jasmins do Cabo, asseverou o jardineiro.

—Ou dos jasmins do Cabo. Pois muito boas noites!

Nessa noite Francisco Theodoro mal pôde dormir. O seu pensamento gyrava, gyrava. Como os tempos eram outros! Percebia a razão do Innocencio: o commercio do Rio já não tolerava o cançaço das obras lentas. A finura e a astucia valiam mais do que os processos rudes e morosos do systema antigo. Ah! se elle tivesse tido instrucção...

Quando no dia seguinte abriu o Jornal, na frescura da varanda, percebeu que não supportaria a leitura. Os olhos teimaram, e ficaram-se presos ao papel; mas o pensamento, insubmisso, embarafustou por outros caminhos; foi preciso fazer a vontade ao pensamento. Francisco Theodoro desceu ao escriptorio e engolphou-se na papelada do Innocencio Braga.

E lia ainda, meio tonto, quando Ruth entrou, com ar amuado.

—Sabe uma coisa, papaezinho?

—Não ... não sei nada. Que temos?

—Uma desgraça.

Francisco Theodoro levantou os olhos, assustado.

—Que dizes?!

—Digo que a Nina faz annos hoje e que ninguem tem um presente para lhe dar. Demais a mais é domingo: está tudo fechado...

—Então a desgraça é essa?

—Sim, senhor. Ella não se esquece de ninguem, não é justo que os outros, que podem mais, se esqueçam d'ella...

—Ora, não lhe falta nada.

—A mim parece-me que lhe falta tudo. Quando qualquer de nós faz annos, o senhor dá uma festa e mamãe arranja surprezas... Ella é como se fosse outra filha. Quando Rachel esteve doente, eu ia dormir para a minha cama e era Nina que fazia de irmã, velando ao pé da doente... Entretanto...

Francisco Theodoro contemplou a filha com attenção.

—Acaba.

—Quando Rachel ficou boa, toda a gente se congratulava com papae, com mamãe, commigo, mesmo com a Noca, e ninguem se lembrou dos sacrificios de Nina. O senhor diz: não lhe falta nada. É o que parece. Basta dizer que se quizer fazer a esmola de um vintem precisa de pedil-o ao senhor ou a mamãe.

Foi uma maçada eu não ter-me lembrado hontem! Ella não tem chapéu...

—Quem te lembrou isso hoje?

—Lembrei-me eu mesma, quando tirei a folhinha...

—Bom; promette-lhe o chapéu.

—Só?

—Parece-te que temos sido ingratos para com ella?

—Parece-me que além do chapéu ella precisa de outra coisa...

—Que coisa?

—Outro dia, quando fomos á cidade, ella gostou muito de uma gravata que viu numa vitrine. Eu perguntei-lhe:—mas porque é que você não compra esta gravata? E ella sorriu. Depois, passámos numa confeitaria e ella manifestou vontade de tomar um sorvete. Eu estava com tosse, não podia tomar gelo, mas perguntei:—porque é que você não toma um sorvete? E ella foi andando. No bond, quando voltámos, o conductor vendo que ella era mais velha pediu-lhe as passagens. Nina ficou que nem uma pitanga e indicou-me com um gesto... Foi então que eu percebi que desde que uma pessoa põe vestido comprido, precisa de usar uma carteirinha no bolso...

—Queres então dar-lhe uma carteira?

—Não. Eu dou o chapéu; a carteira deve ser dada ou por papae ou por mamãe.

—Está dito. Vamos a ver agora se nos dão almoço.

Já toda a familia os esperava na sala de jantar. O Dr. Gervasio faltara, por isso o Mario se dignara de apparecer.

Foi logo no principio do almoço que Francisco Theodoro, voltando-se para a sobrinha, declarou:

—Nina, como eu não entendo de modas, o presente que escolhi hoje para você foi uma casa. Com os alugueis você poderá escolher todos os mezes um vestido a seu gosto.

A moça, que fazia nesse momento os pratos de Rachel e de Lia, estacou com os olhos esbugalhados. Riram-se do seu espanto e fizeram-lhe a saude. Ella começou a chorar.

—Homem, não foi para a ver chorar que eu disse o que disse. De maneiras que você...

Mas, Francisco Theodoro tinha tambem os olhos luminosos. Camilla applaudiu a ideia e tocaram os copos, commovidos.

Depois, o negociante disse que levaria a sobrinha no dia seguinte ao tabellião, para a transferencia da propriedade, e accrescentou:

—A casa não é grande, mas é nova e bonitinha.

—É verdade, Mario, interrompeu Camilla, a baroneza tornou a escrever, insistindo para que você não falte ao baile do pae.

Parece que a Paquita está apaixonada!

Mario teve um sorriso de desdem; Nina deixou cahir o talher com que recomeçara a partir o beef das primas.

—Então convidaram só o Mario?! inquiriu o negociante, espantado.

—Não, a todos; vamos todos. Eu já mandei fazer os vestidos, mas do Mario é que fazem questão ... uma insistencia exquisita! Eu só attribuo a querel-o o Meirelles para genro.

—Fresco genro, um frangote sem profissão ... deixa-te de asneiras! O Meirelles não é nenhum parvo.

Mario fixou o pae com ar atrevido, e disse:

—Pois fique o senhor sabendo que mamãe acertou. A Paquita gosta de mim, e já disse ao velho que não se casará com outro. Eu é que não quero.

Nina tremia.

Francisco Theodoro riu alto.

—Ora! a pequena, não duvido ... agora o pae! Ha de casal-a como casou a outra, com um homem de peso...

—Pois sim!...

—Verás. Bom casamento é ella, lá isso é... Quantas filhas são?

—Cinco, parece-me que cinco.

—Mesmo assim. O Meirelles está podre de rico. Podre de rico! Tambem nunca vi homem tão agarrado; tinha até a alcunha do Chora vintens... D'antes eram muito frequentes as alcunhas ... ahi, no commercio... Alcunhas e bofetões. Hoje está tudo mudado...

—Assim mesmo ainda ha muita brutalidade! disse Camilla com um arzinho de nojo.

—Que queres? Nem todos nascem para doutores.

Não havia allusão. Francisco Theodoro tinha na mulher a fé mais cega; todavia, ella corou e não se atreveu a voltar o rosto para o lado do filho.

Findo o almoço, a Noca cercou a Nina na copa para lhe perguntar:

—Que foi que eu lhe disse hoje?

A moça, aturdida, não se lembrava; a mulata explicou:

—Menina, pois eu não lhe disse que ver borboleta azul é signal de boa nova?

—Borboleta azul?...

—Gente! já se esqueceu que hoje de manhãzinha viu uma borboleta azul? Pois olhe: ella veio lhe avisar que você havia de receber este bonito dote... E ainda ha quem não acredite!

—Sim, é verdade, você me disse...

E a moça sorriu; mas havia no seu sorriso uma mescla de ironia e de doçura.

Na segunda-feira, ás duas horas da tarde o Innocencio Braga apresentou-se á Francisco Theodoro no seu escriptorio da rua de S. Bento para buscar a papelada; mas o negociante esquecera-se d'ella em casa, mostrando-se indeciso, e renovando com disfarce perguntas em que transparecia a mais viva curiosidade.

O outro, percebendo tudo, muito correcto, explicou com detalhes todos os pontos, sem insistir com Theodoro para que accedesse. O que tinha de dizer estava dito. Que passasse muito bem. Coube então a Theodoro prometter que iria elle pessoalmente levar os papeis á sua residencia, na rua do Riachuelo, e conversar de novo sobre o assumpto.

Nessa tarde o Ribas, balançando os braços molles, entregava ao patrão uma carta manchada pelos seus dedos suados. Era do velho Motta; a perna não o deixava ainda ir ao serviço; pedia desculpas com humildade, tresuando miseria. Era o dia do vencimento do ordenado.

Francisco Theodoro deixou cahir a carta na cesta dos papeis rasgados e, cofiando a barba, cogitou na melhor maneira de responder ao Innocencio...




XIII

O palacete Theodoro preparava-se para o baile.

Desde manhã até á tarde era uma invasão de operarios pelas salas e corredores, um continuo martellar nas paredes, bulhas abominaveis de escadas arrastadas, de utensilios atirados ao chão, de laminas raspando parquets e de moveis deslocados.

Arrancadas todas as cortinas e reposteiros e atirados em monte para o despreso do porão, o sol e o vento entravam pelas janellas escancaradas, com inteiro desassombro.

Varado de ar e de luz, repleto de gente extranha, o interior da casa perdera o aspecto de intimidade e de conforto, que torna o lar amoravel e discreto.

Ruth sentia a impressão de estar numa praça publica. O baile não a interessava, e aquelles preparativos irritavam-n'a. Tinha uma salvação: fugir para o fundo da chacara, com o seu violino ou um romance qualquer. A musica inebriava-a; o livro abria-lhe scismas, e não raro ella adormecia estirada no banco do caramanchão, numa das suas longas estiadas de preguiça, entre o violino e o livro abandonados.

Os outros da familia preoccupavam-se com a festa.

Camilla ideava o esplendor do baile pensando muito em si. Reclamara da modista um vestido com bordaduras luminosas, flores e azas espalmadas sobre tules, que dessem ao seu corpo o fulgor de um astro.

O bulicio produzia-lhe febre, anceio de chegar ao fim, de ver as suas salas repletas de vestidos de baile e de casacas voejando no redemoinho das dansas.

Outras preoccupações iam-se desvanecendo, substituindo, escorregando para o esquecimento. Que valia já a tal mulher de lucto? Gervasio não provava com a sua assiduidade ser só d'ella? Talvez tivesse visto mal, quem sabe? a gente illude-se tantas vezes!

E repellia da lembrança as palavras, a meia confissão do medico, que tornavam o facto positivo e doloroso. A visão esgarçava-se. Gervasio não a deixava tomar corpo.

Elle agora demorava-se no palacete dias inteiros. Fora elle quem determinara a transformação de duas alcovas inuteis em uma sala de musica, em que essa applicação fosse indicada por pinturas a fresco; foi elle quem contractou artistas, quem escolheu mobilias novas e harmonisou o conjuncto em todas as peças. Tudo que sahia das suas mãos parecia a Camilla perfeito.

Nem a Noca, nem a Nina sobrava tempo para descanço. Vigiavam tudo. As gemeas, atiçadas pela balburdia, contentes com a novidade, atiravam-se por entre os utensilios dos enceradores e dos estofadores, rindo-se da desordem que provocavam.

Mesmo Francisco Theodoro parecia mais satisfeito.

Depois de um exame meditado, elle tinha resolvido: acceitaria a proposta do Innocencio, d'aquelle trefego Innocencio, tão perspicaz.

Livre de uma preoccupação que o enervava, tornou-se mais leve e mais risonho. Já tinha determinado as coisas: um mez depois do baile a familia partiria para Petropolis, para o novo palacete que alli estava construindo, e que, como costumava dizer: engulia dinheiro que nem um avestruz.

Um bello dia, Ruth atravessava a sala de musica para a escada, afflicta por se ver ao ar livre, quando, relanceando o olhar pelas paredes, estacou surprehendida.

De um fundo nebuloso, de brancura opaca, surgiam roseos anjinhos nús, soprando em longos flautins de ouro.

A maneira por que nascia da tinta aquella carnação tenra e doce, porque a leveza do pincel chamava á tona aquelle bando de creanças, que vinham de longe, as primeiras ainda mal entrevistas nos vapores da atmosphera densa, as ultimas já batidas de sol, na irradiação limpida da luz, fizeram-na estremecer. Era uma arte que se revelava aos seus olhos, como que um mysterio que se esclarecia ao seu entendimento.

Nunca pensara nisso. Os quadros que havia em casa, vinham de fabricas. A machina não produz almas, e só a alma impressiona e acorda instinctos.

Em pé, com o violino mal seguro nas mãos, Ruth concebia agora como se podia pintar um quadro. Maravilhava-a, que de uma parede compacta e bruta, o artista fizesse o ether, onde nuvens se baloiçavam e azinhas de filó batiam tremulas.

Aquella surpresa dava-lhe a ideia de ter posto os pés em paiz novo, um paiz de sonho.

Já não pensava em se arredar d'alli. Cada vez mais curiosa, punha a vista sofrega nas mãos do pintor, tão grandes e tão leves, e nas tintas da paleta, que se desmanchavam noutras tintas mais suaves, ou em flechas de sol.

Tão embevecida ficou, que, meia hora depois, quando o Dr. Gervasio entrou e lhe bateu no hombro, ella respondeu, sem desviar a vista da parede:

—Estou gostando de vêr...

«A quem diabo teria sahido esta pequena?!» pensou comsigo o medico, ao mesmo tempo que examinava com vista curiosa o trabalho do pintor. E não lhe agradou completamente o trabalho; torceu os labios, descontente.

Mais tarde, quando Ruth lhe pediu a significação d'aquelle gesto, elle respondeu:

—Não tive talvez razão; a minha exigencia torna-me incontentavel e injusto. Eu já sabia que o artista não é genial; portanto, não podia esperar d'elle uma obra perfeita. Que importa que um dos anjos tenha uma perna mais comprida que a outra, e todos tenham o mesmo nariz? Não digamos isso aos outros, que os outros nada verão. A côr é bonita, o effeito é gracioso, basta. Já é uma felicidade haver alguma coisa...

—Eu, como não entendo, acho bonito. Estou até com vontade de pedir a mamãe que me mande ensinar pintura...

—Não se abstraia do seu violino; mesmo servindo a uma arte só, é raro haver quem a sirva dignamente. Estude só musica, só musica e não pense em mais nada...

Passados dias dava-se por finda a decoração da sala e Ruth voltou a não encontrar geito de estar dentro de casa, no meio da balburdia dos trabalhadores. Passava agora outra vez o dia no balanço, ou no caramanchão das rosas amarellas, fazendo do parque o seu salão de musica e de leitura. Ensinava as gemeas a trepar ás arvores ou coroava-as de flores e punha-lhes palmas nas costas, á guiza de azas.

Um dia, porém, a confusão chegou ao proprio parque. Abriam um novo lago e alteravam o desenho dos relvados para os effeitos da illuminação. Homens em mangas de camisa iam e vinham por entre os canteiros, fallando alto, gesticulando afanosos e zangados.

Não tendo já para onde fugir, Ruth pediu á mãe que a mandasse com a Noca para o Castello. Passaria dois dias com as tias velhas. A tia Joanna promettera-lhe historias de santos e leval-a ás egrejas e ao Observatorio para vêr a lua e as estrellas.

Era a occasião.

Quando Ruth entrou em casa das tias Rodrigues, D. Itelvina contava, no oratorio, os nickeis arrecadados pela irmã, em esmolas para uma missa rezada.

D. Joanna tinha ido á novena do Rosario, nos Capuchinhos, e entoava a essa hora o—ora pro nobis em côro com o povo e os frades.

Ruth sentiu frio naquelle casarão do Castello, de largas salas encebadas, sem cortinas, quasi sem mobilia, com papeis sujos nas paredes desguarnecidas; mas a ideia de ir ao observatorio tentava-a, e valia todos os sacrificios. Ficaria.

Quem lhe abriu a porta foi a Sancha, sempre de olhos inchados e a roupa em frangalhos. Mal deu com os olhos em Noca, a negrinha sorriu, perguntando pela sua encommenda.

—Que encommenda, gente?

—A senhora já se esqueceu, tornou a preta a meia voz, o arsenico que eu pedi...

—Uê! você está maluca! eu já nem me lembrava d'isso! Tome o seu dinheiro; não foi quinhentos réis que você me deu?

—Foi; mas eu não quero o dinheiro, quero a outra coisa...

—P'ra quê? ora veja só! olhe que eu conto a D. Itelvina, hein?

A negrinha poz as mãos, em um gesto supplice.

—Não diga nada...

—Você é tola!...

A negrinha suspirou baixo e murmurou uma phrase que não pôde ser ouvida, porque D. Itelvina apparecera, de olhar desconfiado e narinas dilatadas farejando mysterios.

D'ahi a instantes, no canapé da sala, Ruth respondia ao longo questionario da tia, que lhe apalpava a lã do vestido, achando desperdicio que fosse forrado de seda, censurando-lhe o luxo de um annel de perolas, e a consistencia das fitas de setim do seu chapéu de palha. Das presentes passou ás coisas ausentes, em perguntas miudinhas e torpes:

—O Dr. Gervasio ainda vae lá todos os dias?

—Vae, sim, senhora.

—Hum... Diga-me uma coisa: Mario continua a fazer dividas?

—Não sei...

—Camilla sae sozinha?

—Ás vezes sae.

—Porque é que você não vae sempre com ella, hein?

—Eu tenho que estudar.

—Não fica bem uma senhora sahir só...

Ruth contemplou-a, estupefacta.

—As más linguas fallam. O palacio de Petropolis está prompto?

—Está quasi prompto. Nós vamos para lá este anno.

—Em quantos contos está?

—Não sei, não, senhora...

—O Dr. Gervasio vae tambem?

—Acho que não.

—Hum... Quando se casa a Nina? ainda não haverá por lá alguem de olho?

—P'ra Nina? não, senhora.

—Seu pae não ha de gastar pouco, agora, para este baile, hein! Diz que estão reformando tudo! é verdade?

Innocentemente, Ruth contou o que se passava em casa; a intervenção do medico na escolha dos apparatos, as cores do toldo de setim do terraço, as pinturas da sala de musica, os lavores dos jarrões para o vestibulo...

D. Itelvina ouvia, sem interromper a narração de Ruth, que ella animava a proseguir com um gesto de interesse avido. No fim, concluiu com um sorriso torto:

—Teem dinheiro, fazem muito bem em gastar.

Nisto bateram á porta. Sancha moveu-se lá dentro e veio pelo corredor. Sentindo-a, D. Itelvina correu para a alcova proxima e accendeu a lamparina do Senhor Santo Christo, que assoprava sempre que a irmã voltava costas. Ruth seguia-lhe os movimentos e foi com espanto que a viu mergulhar os dedos magros no prato das esmolas e sumir, quasi que por encanto, uma meia duzia de moedas no bolso do avental. A velha julgou que a sobrinha nada tivesse percebido, tão rápido e adunco fôra o seu gesto, e voltou dizendo que o vento apagara a lamparina, e que embebida na prosa ella se esquecera de a reaccender...

Ruth baixou o rosto, muito corada, arrependida de ter ficado. Noca rodara sobre os calcanhares; se bem andara, onde estaria ella!

D. Joanna entrou, gemendo de cançaço.

—Olha, maninha, quem está aqui! disse-lhe a irmã.

—Que milagre! exclamou D. Joanna, abrindo os braços para Ruth, que se precipitou nelles, morta por se ver livre da seccura aspera da outra tia.

—Quem foi que trouxe você?

—Noca... ella vem-me buscar depois de amanhã bem cedo ... mamãe não queria dar licença, tinha medo que eu incommodasse; mas tanto pedi, tanto pedi...

—Esta casa é muito triste. A alegria passou por aqui ha mais de trinta annos, mas não deixou signal. Sancha! tira as minhas botinas. É muito triste esta casa ... filha... Estamos tão velhas...

Sancha ajoelhou-se. D. Joanna extendeu dois pés inchados, calçados a duraque, e quando a negrinha lhe puxou e tirou as botinas, ella gemeu: primeiro de dor, depois de allivio.

—Vae buscar as chinellas... Pois você fez muito bem em vir... Amanhã poderá ir commigo á missa, á tarde á novena e...

—E á noite ao Observatorio. Foi por causa do Observatorio que eu vim. Dr. Gervasio escreveu ao director, apresentando-nos... Estou com uma curiosidade!

—Mas...

—Não temos mas, nem pêra mas, titia; faça a vontade á sua sobrinha, sim?

Pouco depois, como estivesse escuro, Sancha trouxe um lampeão de kerozene com um fetido horrivel. D. Itelvina sahiu da alcova, atravessou a sala, e sumiu-se na guella negra do corredor.

Ruth sentia-se mal naquelle canapé alto, de assento afundado. Foi á janella, voltou; a tia rezava; quando a viu persignar-se, pediu-lhe historias de santos e sentou-se a seu lado. Tia Joanna não se fez de rogada.

As mesmas palavras que na alegria da sua casa risonha lhe enfeitiçavam a imaginação, arrepiavam agora Ruth, naquella meia sombra, num ambiente tão diverso do que lhe era habitual.

Os cilicios, as caldeiras fumegantes, as fragoas accesas do inferno, a nudez das virgens martyres, as cruzadas para a Terra Santa, lanças flechando o ar abrasado, exercitos comidos pela peste ou esmagando judeus, os grandes votos solemnes, os ritos crueis, as perseguições injustas, os gritos de misericordia, todas as agonias e todos os extasis, que a velha relatava, para a victoria da Fé christã, assombravam Ruth, que toda se cosia á tia, olhando desconfiada para a vastidão sombria do aposento mudo.

Na parede do fundo, o bruxolear da luz fraca parecia desenhar formas indecisas de animaes phantasticos; seriam talvez os porcos babosos das lendas satanicas, os dragões flammiferos, ou os magros cães de focinho erguido a uivar...

—Tia Joanna, tia Joanna!

—Que é isso, minha filha?!

—Eu estou com medo ... conte outra historia mais suave...

—Não se espante, menina! São as grandes dores, o sangue e a morte que ensinam a Fé. Quem não soffre não comprehende o céo, Ruth! Ainda hontem monsenhor Cordeiro disse estas palavras verdadeiras.

—Mas, o céo assim é feio, tia Joanna...

—Cale a bocca!... espere ... quero vêr se me lembro de uma lenda muito antiga, que já tem corrido mundo, mas que é bem verdadeira e bem simples.

—Em que não haja nem fogueiras nem sangue; sim?

—Nem sangue, nem fogueiras:—Foi um dia...




XIV

«Foi um dia uma freira pallida, muito moça, muito linda, temente a Deus e devotada á Virgem. Vivia na Normandia, em um convento velho, de rigidas penitencias, isolado em cima de um rochedo.

Da frecha gradeada da sua cella, a freira só via: em baixo, a pedraria negra, e além charnecas brancacentas a perder de vista.

Uma tristeza.

No claustro, para onde deitava a sua cella, mesmo no angulo perto da portaria, havia uma imagem de marmore representando Nossa Senhora, tão doce, tão humana, que mais parecia creatura viva. Sempre que soror Pallida deslisava pelo claustro, fazia á Virgem uma reverencia profunda e murmurava:

—Ave!

E a Virgem sorria-lhe, dentro do seu nicho azul.

Uma noite, soror Pallida, depois de rezar o Bemdicto, desabotoava o seu habito branco para dormir um somninho innocente, quando lhe pareceu ouvir o seu nome na janellinha. «Ha de ser o vento...» pensou ella, tirando a cruz e o véu.

Não era o vento; a mesma voz, mais distincta agora, repetiu-lhe o nome. Soror Pallida quiz resistir, com medo, mas nunca o seu nome lhe parecera tão doce, nem tão suspirado; assim, levada por curiosidade, ou não sei porquê, foi-se approximando, foi-se approximando...

Tão depressa chegou, Jesus! que havia de vêr?

Suspenso nos varões de ferro, o capellão do convento olhava para ella, com dois olhos que nem duas estrellas.

—Senhor capellão, porque estaes ahi? perguntou ella afflicta, pondo as mãos tremulas.

—Senhora freira, porque vos amo! respondeu-lhe elle.

E logo de mil modos começou a tental-a.

Taes coisas disse, taes coisas fez, que a pobre o escutava embevecida. Chamou-a linda, meiga, angelica, e por fim (vê a perfidia!) pediu-lhe que o beijasse, que o beijasse na bocca ou que elle se despenharia no abysmo...

A freira debatia-se: que não!... mas, para não o vêr morrer despedaçado no rochedo, vá lá, condescendeu em beijal-o. Louca! que fizeste? foi a tua perdição! Elle sumiu-se, e ella ficou de joelhos, muito tremula, muito alvoroçada.

Em vão coseu cilicios ás suas carnes, em vão se rojou pedindo a Deus que lhe apagasse da memoria aquelle peccado doce e horrendo; em vão! O beijo alli estava sempre nos seus labios, sentia-o quente, perfumado, embriagador.

Soror Pallida já não era a mesma; perdia o sentido das rezas, tinha deliquios, abstracções.

O moço capellão voltou, mais uma noite, mais outra, induzindo-a a que fugisse: iriam viver bem longe, numa casinha branca, entre pomares cheirosos e aguas crystallinas.

Ella recuava, com temor de tamanho crime; mas elle extendia-lhe os labios e convencia-a de que o amor vale mais que o céo, mais que a perpetua bemaventurança, mais que tudo!

E tornava a supplicar-lhe que fugisse: elle a esperaria juncto á portaria, com os cavallos promptos, mais rapidos que o vento.

Sabe-se como essas coisas são: máo é dar-se ouvidos a primeira vez. A freira já não pensava senão em varar aquellas charnecas longuissimas ao galope de um cavallo ardego, sentindo palpitar o coração do seu cavalleiro enamorado. Mas, sempre que, altas horas da noite, subtil e tremula, deslisava para a portaria com a tenção de fugir, esbarrava com a Virgem, fazia-lhe a sua reverencia profunda, murmurando contrictamente:—Ave!—e passava; mas, oh! surpreza! a grande porta do convento desapparecera, e na portaria, como em todo o claustro, só havia grossas paredes impenetraveis.

Soror Pallida voltava attonita, e a Virgem sorria-lhe do seu nicho azul.

Por serem sempre as flores presentes de namorados, o moço capellão levava todas as noites rosas á sua eleita. No outro dia toda a communidade entoava:

—Milagre! milagre! a Irmã da Virgem recebe rosas do céo. Os anjos trazem-lhe flores do Paraiso, como a Santa Dorothéa!

Assim acreditavam, visto que só cardos e espinheiros bravos nasciam em redor, por aquellas penedias.

E entoavam hymnos.

Cançado de esperar, por uma noite trevosa e triste, o moço capellão aconselhou a freira a que passasse de olhos fechados pela Virgem, rosto voltado para a outra banda.

Assim fez a louquinha, mas de coração apertado em muita agonia. D'essa vez achou a porta do convento mal fechada: dir-se-ia que ferrolhos e trancas, (e que taes eram ellas! ) se abriam de per si. Foi por isso que a freira fugiu para a noite negra, com o seu habito branco...

Depois...

Só no fim de um anno, quando elle se cançara de a amar, foi que a misera percebeu que o seu cavalleiro não era o capellão—mas o diabo em pessoa! Arripiada, transida de medo, fugiu por montes e valles, de cruz alçada, balbuciando preces, com o fito no convento e em redimir-se com arduas disciplinas. Andou assim, noites e dias, leguas e leguas, por mattaria espessa, mal se sustendo nas pernas fracas e nos pés ensanguentados, até que á luz frouxa de uma madrugada viu um dia os penhascos abruptos do convento, e cahiu de joelhos, persignando-se.

Finda a oração, ergueu-se. Passava então pela estrada um velho muito velho, de bordão e saccola, e ella perguntou-lhe se não ouvira fallar em uma religiosa fugida do convento um anno antes?

—Nenhuma freira fugiu nunca d'aquelle convento, respondeu elle; são todas umas santinhas, louvado seja o Senhor!

Amen! Entretanto ... ouvi dizer que uma das irmãs, que recebia rosas...

—A do milagre!? ah! essa! É a mais pura... Ide vêl-a, Ide vêl-a se soffreis. Essa até dá vista aos cegos e faz andar os paralyticos.

Com vivo espanto, a freira galgou a encosta pedregosa e, toda a tremer, com o coração aos pulos, bateu á porta do convento.

—Quem é? perguntou de dentro uma voz dulcissima.

—Uma peccadora arrependida, para a penitencia—sussurrou soror Pallida, lavada em pranto. E confessou logo alli os seus desatinos...

A porta abriu-se sem fazer barulho: dir-se-ia que os grossos gonzos enferrujados estavam de velludo,—e a rodeira mostrou se com um sorriso á freira apoquentada.

Oh! aquelle sorriso, bem o conheceu a religiosa que, vergando os joelhos, na profunda reverencia antiga, murmurou com immensa compuncção e infinita doçura:

—Ave!

A Irmã rodeira era a Virgem Maria, que, desde a noite da fuga, tomara a fórma da freira e cumpria todos os deveres da regra que lhe competiam: badalando os sinos, varrendo os claustros, accendendo as velas dos altares e arrumando os gavetões da sacristia.

—Toma o teu habito, disse-lhe Nossa Senhora, e vae para a tua cella... Descança, que ninguem soube do teu opprobrio, ninguem!...

Soror Pallida prostrou-se e uniu humildemente a face á lage fria; depois, erguendo o rosto inundado de lagrimas, perguntou soluçando:

—E Vós, Mãe Santissima?!

—Eu? Perdoo, respondeu-lhe a Virgem sorrindo, já dentro do seu nicho azul...»


Eram nove horas; Sancha veio chamar para a ceia, e levou para a mesa o lampeão fumarento. D. Itelvina só usava mate, que sempre era de maior economia. Sentaram-se. Ruth mal enguliu a sua chicara. Pensava em soror Pallida.

Nessa noite teve de sujeitar-se a dormir com a tia Joanna. Lembrando-se das pernas inchadas da velha, teve um arrepio e saudades do seu leito branco coberto de filós delicados. A tia mexia-se, benzia todo o quarto, rezava a meia voz, sacudia a roupa que toda cheirava a incenso, e com a vigilia da velhice perturbava o somno da menina. Foi no meio do silencio da casa, que irromperam de repente, lá do fundo, uns gritos lancinantes.

Ruth sentou-se na cama, com os olhos arregalados.

—Que é isto, tia Joanna?!

—Não é nada ... ha de ser a maninha batendo na Sancha...

—Meu Deus!

—Não é nada, dorme, minha filha!

—Oh!... tia Joanna, vá lá dentro ... peça a titia p'ra não dar na coitada!

—Eu?! não ... a negrinha merece ... maninha não gosta de intervenções... Sancha faz espalhafato á tôa.

—Vou eu.

Ruth, em fraldas de camisa, de pernas núas, saltou para o chão, com um movimento de colera, e sahiu para a sala de jantar; já não havia luz; guiada por uma claridade frouxa, do fim do corredor, correu para a cozinha, onde a D. Itelvina surrava a pequena com uma vara de marmelleiro.

A negrinha mal se livrava com os braços, tapando o rosto e abaixando a cabeça. Ruth saltou para o meio do grupo e segurou a vara que ia descahindo sobre a carapinha da outra.

—Isso não se faz, tia Itelvina! isso não se faz! gritou ella com impeto, crescendo para a tia, que estacara boquiaberta.

—Você não tem nada com o que eu faço. Este diabo botou de proposito gordura na agua do meu banho ... eu sei porque dou. Ella merece. Ruth, vá dormir.

—Não vou; mande a Sancha deitar-se primeiro. A senhora não tem coração?!

—Ora vá-se ninar! Sancha, p'r'aqui!

A negrinha tinha-se refugiado a um canto, perto do fogão, e exaggerava as dôres, torcendo-se toda, amparada pela compaixão da Ruth.

D. Itelvina avançou os dedos magros, e, agarrando-a por um braço, puxou-a para si; a sobrinha então abraçou-se á negrinha, unindo a sua carne alva, quasi núa, ao corpo preto e abjecto da Sancha.

—Bata agora! tia Itelvina, bata agora! gritava ella, em um desafio nervoso, sacudindo a cabelleira sobre os hombros estreitos.

D. Itelvina atirou fóra a vara e disse para a negra:

—Vae-te deitar, diabo! foi o que te valeu... Mas nós havemos de ajustar contas...

Sancha esgueirou-se para um quarto escuro, onde os ratos faziam bulha, e Ruth, arrepiada, tremula, voltou silenciosa para o quarto da tia Joanna.

A velha amarrava um lenço na cabeça. A sobrinha interrogou-a:

—É sempre assim?

—Não ... uma vez ou outra.

—Mas como podem viver neste inferno?!

—Ora, você não sabe. A Sancha provoca. Maninha anda desconfiada que ella lhe deita vidro moido na agua, e na panella ... é uma coisa ruim. E ladra, ih! Você sabe o meu genio, não sei guardar chaves... Pois é raro o dia em que a Sancha não me fique com alguns tostões das missas... Maninha corrige-a para bem d'ella. É um sacrifício... Eu não teria paciencia para a aturar.

—A Sancha vae amanhã commigo para casa.

—Está doida, menina! e quem nos ha de fazer o serviço?

—Aluguem uma mulher.

—Ruth ... você é muito creança ... não pense na Sancha. Ella faz tudo quanto pode para excitar maninha... Eu se digo, é porque sei. Ainda hontem queimou-lhe de proposito os chinellos novos, com o pretexto de os ir seccar ao fogo. A minha roupa, lava ella; a da maninha deixa-a apodrecer na beirada do tanque. É uma coisa ruim!... não pense mais nella. Durma...

Mas Ruth não podia dormir; e quando de madrugada a tia Joanna se levantou para ir á missa das Almas, ella saltou da cama, para ir tambem.

Antes de sahirem, foram á cozinha procurar café, e lá encontraram a Sancha a accender o fogo, assoprando com força. Foi então que Ruth se chegou para ella e, pousando-lhe a mão no hombro, disse alto, sem medo que a tia Joanna a ouvisse:

—Sancha, porque é que você não foge?

A negrinha ergueu o busto e fixou a mocinha com pasmo.

—Nhá?!

—Fuja!

A tia Joanna, entretida a partir o pão da vespera, não percebera nada. Uma esperança vaga tremeluziu no rosto estupido da preta.

—E depois? perguntou ella, assustada.

—Vá lá para minha casa; eu fallarei a mamãe.

—De que serve! me mandarão outra vez para cá...

—Não. Titia póde alugar outra criada... papae fallará com ella...

A tia Joanna acabara de partir o pão e chamava á sobrinha para o café da vespera, requentado.

Quando sahiram era já dia, mas as nevoas da manhã poisavam ainda nos telhados, e nada se via da cidade, em baixo.

Pelo caminho do convento cabras saltavam, seguidas dos cabritos de pello espesso e novo, e na grama molhada faziam correrias uns cachorros vadios. Tocou a matinas e a tia Joanna benzeu-se. Ruth, pouco afeita a madrugadas, achava um prazer divino em ir assim rompendo as nevoas com a pelle refrescada pela humidade da atmosphera e os olhos cheios d'aquella luz branca, suave, que subia e se ia extendendo pelo céo todo.

Na egreja, a tia fez reverencia a todos os altares, com uma oraçãozinha na ponta da lingua para cada um; Ruth seguiu até o altar-mór e ao ajoelhar-se sentiu como nunca que havia na sua alma uma supplica, um appello para a misericordia de Deus. Entre o altar, onde um ramo de flores esquecidas se ia desfolhando, e os seus olhos sonhadores, foi-se esboçando pouco a pouco a figura angulosa e tosca da Sancha. De mãos postas, Ruth pediu á Virgem uma bençam para a negra, um pouco de piedade, um refugio, uma consolação. Até alli que sabia das miserias do mundo? nada. Aquella noite do Castello, tão simples, tão monotona, fora uma revelação! Era bem certo que a lagrima existia, que irrompiam soluços de peitos opprimidos, que para alguem os dias não tinham côr nem a noite tinha estrellas! Ella, criada entre beijos, no aroma dos seus jardins, com as vontades satisfeitas, o leito fofo, a mesa delicada, sentira sempre no coração um desejo sem nome, um desejo ou uma saudade absurda, a saudade do céo, como dizia o Dr. Gervasio, e que não era mais que a doida aspiração da artista incipiente, que germinava no seu peito fraco.

E aquella mesma magua parecia-lhe agora doce e embaladora, comparando-se á outra, a Sancha, da sua edade, negra, feia, suja, levada a ponta-pés, dormindo sem lençóes em uma esteira, comendo em pé, apressada, os restos parcos e frios de duas velhas, vestida de algodões rotos, curvada para um trabalho sem descanço nem paga!

Porque? Que direito teriam uns a todas as primicias e regalos da vida, se havia outros que nem por uma nesga viam a felicidade?

Sabia a historia da Sancha: uma negrinha vinda aos sete annos da roça para a casa das tias, com sentido no pão e no ensino. Era dos ultimos rebentões d'essa raça que vae desapparecendo, como um bando de animaes perseguidos.

E tudo d'ella repugnava a Ruth: a estupidez, a humildade, a côr, a fórma, o cheiro; mas percebera que tambem alli havia uma alma e soffrimento, e então, com lagrimas nos olhos, perguntava a Deus, ao grande Pae misericordioso, porque a criara, a ella, tão branca e tão bonita, e fizera com o mesmo sopro aquella carne de trevas, aquelle corpo feio da Sancha immunda? Que reparasse aquella injustiça tremenda e alegrasse em felicidade perfeita o coração da negra.

—Sim, o coração d'ella deve ser da mesma côr que o meu, scismava Ruth, confusa, com os olhos no altar.

Quando acabou a missa, tia Joanna quiz fazer a sua penitencia, umas corôas de rosario que ella disse a meia voz, de olhos cerrados.

Ao sahirem do convento, dois frades retiveram a velha juncto á pia de agua benta, interessados pela sua saude, cobrindo-a de bençams e de boas palavras. Fóra, já o sol irrompêra victorioso, estraçalhando os ultimos farrapos de neblina.

A velha lembrou a Ruth que ainda teriam tempo de ir morro abaixo até a egreja do Carmo.

Ruth não respondeu; deixou-se levar. Mais valia andar de egreja em egreja do que voltar para o triste casarão da tia Itelvina.

—Você conhece a egreja do Carmo?

—Não, senhora. Ouço sempre missa na capella do collegio. Não gósto das egrejas grandes.

—Porque?!

—Não sei...

—Ora essa!

—Tia Joanna, ha muita coisa que eu sinto e que não sei explicar. Á senhora não acontece o mesmo?

—A mim? não; nem a mim nem a ninguem. Quando a gente diz que gosta ou não gosta de uma coisa, sabe sempre o motivo por que o diz.

—A senhora reza da mesma maneira em uma egreja grande, sombria e fria, que em uma egrejinha clara e enfeitada de flores?

—Certamente. Deus tanto está nas grandes como nas pequenas egrejas. Elle está em toda a parte.

—Mas se Deus está em toda a parte, porque abandona certas pessoas?

D. Joanna estacou.

—Não diga heresias, menina! Deus não desampara ninguem.

—E a Sancha?

—Hein?

—A Sancha.

—Lá vem você com a negrinha!

—Negra ou branca, é creatura.

—Não digo que não. Mas que falta á Sancha?

—Oh, tia Joanna! pergunte antes o que lhe sobra...

—Você é muito impressionavel. Creia que a pequena não é infeliz. Que seria d'ella, se não estivesse lá em casa... Uma desgraçada, d'essas da rua. Talvez que bebesse, ou que já estivesse com um filho nos braços.

—Estar com um filho nos braços! mas isso seria uma fortuna, tia Joanna. Tomara eu.

—Menina, que é que você está dizendo!

—Gosto tanto de creanças! Olhe, tia Joanna, o meu desejo é ter vinte filhos, vinte!

A velha corou.

—Perdôo essas palavras, porque você é innocente; mas não torne a repetil-as, ouviu?

Ruth scismava em que constituiria peccado o ter vinte filhos, quando D. Joanna exclamou, apontando para duas creanças, carregadas uma com uma harpa, outra com uma rabeca:

—Olha, Ruth; aquellas, sim, é que são infelizes: andam ao sol e á chuva, e se não levam dinheiro para casa, ainda apanham por cima.

—Não as compare á outra, tia Joanna. Eu preferiria andar sempre ao ar livre, apanhando soes e chuvas, tocando no meu violino, dormindo em qualquer soleira de pedra, do que viver no borralho como a Sancha. Ao menos estes teem a musica.

D. Joanna riu-se.

—É verdade; quando você toca esquece tudo.

Chegaram á egreja; a missa tinha começado. Ruth deixou-se ficar sentada no banco, sem attender aos puxões que a velha lhe dava, para que se ajoelhasse. Para que, se tinha exgottado o ardor da sua alma na primeira missa do convento? Sentia-se agora cançada, apertavam-lhe as saudades da mãe e da alegria da sua casa. Como lhe pareceu interminavel aquella missa, que a velha ouvia toda de joelhos, num extase!

Findo o sacrificio, D. Joanna quiz levar esmolas a todas as caixas da egreja.

Ruth apressava-a, morta por se ver na rua, mas a tia nem parecia ouvil-a. No adro lembrou ainda:

—Já que estamos cá embaixo, vamos a Santa Rita saber noticias do padre Euclydes, que está doente.

Ruth objectou:

—Mas titia, eu estou com fome...

—Tem razão, filhinha; mas é um momento só. O sacristão nos dará informações e seguiremos logo para casa.

Em Santa Rita, rezava-se uma missa de setimo dia. Gente de preto cobria as naves como um bando de urubus. O sacristão procurado ajudava á missa, e não havia ninguem na sacristia que soubesse do padre Euclydes. D. Joanna deliberou esperar e empurrou a sobrinha para o corpo da egreja, dizendo:

—Rezemos por alma d'este morto, filha.

—Mas nós nem o conhecemos, titia!

—Não faz mal; foi um peccador, precisamos salval-o.

Tia Joanna ajoelhou-se e ergueu o rosto gordo e pallido para o altar. Era tal a fé, a doce piedade que a sua expressão diffundia, que Ruth deixou-se cahir de joelhos e pediu a Deus perdão para a alma d'aquelle desconhecido, por quem tantas mulheres choravam...

Que Deus lhe desse abrigo e eternos gosos!

Emfim, o sacristão affirmou á senhora do Castello, como muita gente a chamava, que o padre Euclydes entrara em convalescença, e diria no domingo a sua missa.

—Bem, titia, chegou a minha vez de lhe pedir tambem uma coisa; disse Ruth.

—Peça, filhinha.

—Já que estamos tão perto, deixe-me ir tomar a bençam a papae. A estas horas elle está farto de estar no armazem.

D. Joanna hesitou:

—Olhe que não é tão perto assim...

—Parece-me que já estou ha tanto tempo fóra de casa...

—Vamos lá... Que pieguice!

Tinham andado meia duzia de metros quando esbarraram com Francisco Theodoro, que vinha reçumando saúde e alegria pelas faces coradas, empertigado nos seus linhos e brins brancos, bem engommados, de que um paletot preto fazia resaltar a alvura.

Nos seus olhinhos pardos, muito claros, faiscavam lampejos; elle extendeu as mãos á filha, com uma exclamação de alegria:

—Senhora fujona, que faz por aqui?!

—Já enguli tres missas, papae; mas ainda estou com fome! Iamos agora procural-o ao armazem; eu queria tomar-lhe a bençam, para depois irmos almoçar...

Se papae nos levasse a um hotel?...

—Não posso. Tenho muito que fazer. Vou agora mesmo procurar o Innocencio Braga, que já deve estar á minha espera... Adeus.

E, abreviando, elle metteu na mão da filha uma nota de vinte mil réis, aconselhando ás duas que comessem qualquer coisa em um restaurante. E despediu-se á pressa, mal ouvindo os innumeros recados que a Ruth mandava á mãe.

D. Joanna lembrou-se que estavam perto da casa do Dr. Maia, e que mais valeria irem lá papar-lhe o almoço do que entrarem sozinhas em um restaurante. Ruth sorriu-se do escrupulo da velha, já contagiada pelas economias sordidas da irmã.

—Tanto me faz, tia Joanna; leve-me onde haja bifes, e eu ficarei contente; respondeu-lhe a menina.

Ardiam-lhe os pés; uma fadiga enorme amollecia-lhe o corpo; e entregava-se, inerte, á vontade da velha. Por fortuna, a casa do Dr. Maia era perto do largo, na rua dos Ourives, um sobrado antigo, de rasgados salões arejados, onde velhas mobilias bem espanadas attestavam o escrupulo dos moradores.

O Dr. Maia foi o primeiro a recebel-as, no corredor; muito velhinho, arrastando os chinellos bordados pela neta, com a gorra de velludo cobrindo-lhe a calva, e um bom sorriso hospitaleiro illuminando-lhe o rostinho claro e murcho, onde os olhos azues se iam velando da neblina da velhice.

D. Joanna era intima da casa, recebida sem cerimonia; e como a Ruth tivesse ar de menina, elle foi empurrando a ambas para a sala de jantar.

Só estava em casa a velha, a D. Elisa; a filharada debandara depois do almoço, uns para o emprego, outras para o dentista e as compras. Mas no fundo das cassarolas ainda havia restos de arroz e de ensopado; D. Elisa recommendou que estralassem uns ovos, e em poucos minutos D. Joanna e Ruth almoçavam, ao som de um discurso do Dr. Maia, que ia descrevendo com surprehendente enthusiasmo o seu invento de um balão dirigivel.

Elle não pensava em outra coisa; vivia em perpetuo vôo, entre altas camadas de atmosphera. Desde alguns annos se fixara nesses estudos e para elles fazia convergir todos os seus cuidados.

A mulher sorria-se com resignação imposta pelos mil desvarios que se acostumara a conhecer no esposo. Desde rapaz que elle fôra assim, mettido a emprezas oppostas á sua competencia. Tinha estudado para medico, e abandonara a clinica para defender réos desamparados, escrever para jornaes e desperdiçar forças e tempo na elaboração de grandes emprehendimentos que não levava a termo. Agora era o balão.

Aquelle velho de quasi oitenta annos, achacado de asthma, perdia horas de somno, curvado sobre a mesa, a desenhar, a escrever, a dar forma á sua ideia, em uma palpitação assombrosa de vida.

Havia em casa uma certa piedade pelas suas manias, um respeito pela innocencia d'aquelles ideaes. D. Elisa dizia ás vezes que se a alma, no seu ultimo vôo, tomasse fórma visivel, veriam, os que assistissem á morte do marido, que a d'elle lhe voaria do peito como uma borboleta. E toda azul! accrescentava ella, com o seu sorriso sympathico.

D. Joanna mal entendia as descripções do Dr. Maia, mastigando com difficuldade a carne um pouco dura, batida á pressa. Ruth abria os ouvidos e via esgarçar-se a neblina que a edade punha nos olhos do medico e ir-lhe apparecendo nas pupillas azues um brando fulgor de primavera. Ella percebia alguma coisa, via já o balão scindindo as nuvens, leve, airoso, vestido de côres luminosas. Como seria bom subir tão alto, tão alto!

—O meu balão será de aluminium, um metal levissimo, explicava elle, e todo redondo, gyrará em grandes circulos, como se dansasse uma valsa; percebem?

D. Joanna fez que sim com a cabeça, e espetou uma batata. Ruth murmurou:

—Assim branco e redondo, será como a lua ... que bonito!

Felizmente, uma nova visita veio interromper a exposição do velho, que se despediu das senhoras e lá se foi para a sala pigarreando pelo corredor.

D. Elisa desabafou depois com a amiga as suas queixas domesticas. O marido exgottava os minguados recursos em livros e revistas. O que lhe valia era o filho mais velho, o José... A neta andava na Escola Normal e ganhava para os seus alfinetes; as duas filhas solteiras, já trintonas, coitadas, cosiam para fóra... Ahi estava a vida. E é assim, por ahi; toda a gente trabalha; accrescentou ella com um suspiro.

Quando D. Joanna e a sobrinha voltaram para o Castello, quem lhes abriu a porta de casa foi a Sancha. Ruth recuou espantada. Que! pois a idiota da negrinha não ouvira o seu conselho?

Ao jantar, uma tristeza. D. Itelvina alludia com escarneo mal contido ás grandezas do palacete Theodoro, e lamentava-se de só poder abastecer-se de generos baratos, espremendo-se em lamurias. D. Joanna benzeu o pão, rezou de mãos postas, e sentou-se á mesa com a sua consciencia feliz, e uma doce expressão de conforto. Para ella tudo era bom, estava tudo sempre muito bem.

Foi nessa noite que Ruth subiu com ella as escadas do Observatorio, para vêr as estrellas; e quando as viu, a sua commoção foi tamanha e tantas as suas exclamações, que a tia observou:

—Você é muito exaggerada, Ruth!

Ruth nem a ouviu; olhava embevecida. No céo, de um azul fechado, aquelles pontos de ouro tomavam formas e dimensões excepcionaes. Esta estrella era verde, aquella azul, aquella outra violeta, e uma como um bouquet de variados matizes, e outra pallida, e outra affogueada, e outra diamantina, e todas immensas e luminosissimas. Oh! as estrellas, que belleza de céo! Sobretudo as do Cruzeiro eram formosas, limpidas como o clarão da fé. Depois, aquelles chuveiros de ouro e prata, aquelle fervilhamento multicor da via-lactea, raios de fogo dançando, cruzando-se, chispando em fagulhas de uma pyrotechnia phantastica... Depois a lua...

—Nossa Senhora, que immensidade!... Como é bonito! Oh! tia Joanna, como é bonito!

—Bom, bom; divirta-se...

Ruth não respondia; com o olho collado á lente, esmagada pela poesia d'aquelles esplendores, ficava embevecida, como se dos astros chovessem sobre ella aromas que a embriagassem.

—Filhinha, vamo-nos embora...

—Mais um bocadinho só ... oh! tia Joanna!

Nessa noite, deitada ao lado da tia na alcova mal allumiada e que tresandava a azeite de lamparina, Ruth via na imaginação impressionada as estrellas, globos enormes de crystal cheios de luz e cheios de flores, fulgurando e espargindo aromas. Já ella adormecia e ainda a tia lhe ouviu em um murmurio entrecortado:

—Como é bonito!

No dia seguinte, quando acordou, era tarde. Tia Joanna sahira sozinha para as devoções; nem a presentira. Tia Itelvina andava aos berros pela casa.

Ruth saltou da cama assustada e foi entreabrir a porta:

—Que é?

A tia respondeu-lhe com mau modo, em uma rebentina:

—A Sancha fugiu!

Um tremor de febre percorreu o corpo de Ruth.

Atirou-se para a cama, puxou os lençóes até a cabeça. Para onde teria ido a pobre, sózinha, sem conhecer ninguem? De quem seria a culpa se lhe acontecesse uma desgraça?... De quem, senão d'ella?... Ora! sempre seria mais feliz lá fora...

Quando nesse dia Noca appareceu no Castello, Ruth lançou-lhe os braços ao pescoço. Era a sua libertação.

D. Itelvina rabeava pelas salas e corredores, culpando a irmã, que se levantava fora de horas para a carolice e deixava a casa escancarada, provocando a negrinha para o assanhamento da rua.

Foi ao fragor d'essas invectivas que Ruth se despediu da velha, deixando-a sozinha no seu casarão, onde as catingas do rato e do mofo vagavam conjunctamente.




XV

Creanças, venham lanchar! gritava Nina para o jardim, ás gemeas, quando viu entrar a Therezinha Braga.

—Você chegou a boa hora, Therezinha, nós vamos tomar café. Entre.

—Estou com muita pressa; quero ver se vocês me emprestam o ultimo figurino.

—Mas nós não temos d'isso. Tia Milla manda fazer tudo fora...

—Manda a Noca pedir alli á casa do Dr. Nuno!

Nina vacillava, com vontade de servir a amiga; mas a mulata, que ouvira tudo da janella da copa, interveio com ar peremptorio:

—Seu Theodoro não quer que se peça nada á visinhança.

—Elle não precisa saber ... insistiu a Therezinha, ainda no jardim.

—Oh, xente! Porque é que a senhora não manda pedir os figurinos em seu nome?

—Porque estamos mal com o Dr. Nuno ... ora, você bem sabe!

—Eu não. Eu só sei que temos ordem de não incommodar a visinhança. Seu Theodoro não é para brincadeiras; quando põe a bocca no mundo vae tudo raso! Creanças! olhe só onde ellas estão!

—Vae buscal-as, Noca, que o café arrefece. Entra, Therezinha, talvez se possa arranjar alguma coisa...

—Esta D. Nina, não tem emenda! murmurou por entre dentes a mulata.

Servindo o café, Nina explicou á Therezinha:

—A baroneza da Lage está lá dentro; eu vou pedir-lhe que me mande logo os seus figurinos.

—É para o meu vestido de baile.

—Você mesma é que o vae fazer?

—Que remedio! Sabe de que côr são os das Gomes?

—Não...

—Amarellos! A Carlotinha pediu á modista que lhe decotasse bem o vestido atraz, para mostrar o signal preto da espadua ... é levada, a Carlotinha! Ninguem dirá, ás vezes, que é uma moça de familia: parece outra coisa...

—Está muito bonita, agora, depois que engordou.