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A fallencia

Chapter 24: XVIII
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About This Book

Ambientada no Rio de Janeiro, a narrativa acompanha o funcionamento e o colapso financeiro de uma casa de comércio vinculada ao comércio de café, alternando descrições vibrantes dos armazéns e do esforço físico dos carregadores com a rotina contida dos escritórios e das casas. Por meio de episódios sobre patrões, empregados e vizinhos, explora desigualdades sociais, ambição, moralidade perante a ruína e as consequências da crise sobre relações pessoais e destinos.

—Mas cada vez mais maliciosa...

Nina não respondeu; mandava o copeiro servir o café á sala. Lia e Rachel entraram arrastadas pela Noca, tentando morder-lhe as mãos, muito pirracentas.

—Já viram só estas meninas como estão! Bem, D. Nina! dê todos os sonhos a Ruth.

Nina elevou, sorrindo, o prato de sonhos em direcção a Ruth, que se balançava em silencio numa cadeira, e então as creanças avançaram para a mesa, á espera do café.

—Ora graças!

Engulido o café, Therezinha declarou:

—Tenho muito que fazer; adeus, vou-me embora!

As gemeas fugiram tambem, com as mãos cheias de sonhos, para o jardim; Nina e Ruth ficaram sós, muito caladas, ouvindo as moscas voejar sobre os restos assucarados dos pratos.

De repente, Nina:

—Em que é que você está pensando, Ruth?

—Na Sancha.

—Que ideia!

—É que ninguem sabe! fui eu que disse á Sancha que fugisse. Tive tanta pena d'ella! Tia Etelvina é má: batia na negrinha com vara. Eu vi. A Sancha nem parecia gente; suja, desconfiada ... que estupida! Não sei como ella podia aguentar aquella vida. Fui eu que lhe disse que fugisse; e depois que ella fugiu, tenho medo que morra por ahi átoa, que não ache emprego, que se embebede ou fique embaixo de um bond... Até sonho com a Sancha. Que coisa horrivel!

Nina consolou-a. A Noca já lhe contara que a pretinha quizera envenenar-se; era menos burra do que parecia.

—Você é muito nervosa; deixe lá a Sancha, pense em outra coisa. Tia Milla ainda está no terraço com a baroneza da Lage ... vamos lá?

—Para que?

—Para fallar nos figurinos... Eu ando um pouco desconfiada com tantas visitas d'aquella senhora ... você tem reparado como ella cochicha com Mario?

—Não...

—Pois repare... A lesma da Paquita tem bom advogado!

—Mario não gosta d'ella.

—Quem disse?

—Elle mesmo, bem alto, outro dia na mesa. Você não ouviu?

—Ouvi...

—Então?

—Então? Quem sabe o que estará para acontecer!

Nessa tarde Camilla participava em segredo ao marido que a baroneza da Lage viera declarar-lhe o amor da irmã por Mario, e lembrar-lhe que o baile seria uma bella occasião para a apresentação dos noivos.

O negociante olhou boquiaberto para a mulher.

Ella disse:

—Elles desejam abreviar essa historia, porque o velho quer ir para a Europa.

—Mas é incrivel!

—Porque?

—Porque! porque o Meirelles é um homem pratico; não ha de querer entregar a filha a um rapaz sem profissão! Isso não pode ser. A Lage está doida.

—Você é injusto... Mario não tem profissão, mas pode vir a tel-a.

—Lá vêm cantigas! Pois sim! Aqui para nós: o rapaz não vale nada. Quem não trabalha, que garantia pode dar á familia?

—Elle é rico, e a Paquita ainda o é mais...

—Por esse lado approvo. O dote d'ella é bom, e a familia excellente. Se o Mario soubesse ser o que sempre desejei, pouco me importaria que se casase com mulher pobre. São as melhores; trazem a experiencia da vida. A experiencia da vida é um grande dote.

—Você falla com Mario?

—Eu?! eu não. Não concorrerei com o meu conselho para semelhante asneira. Arranjem-se; Que diabo! elle ainda não tem vinte annos. Falla-lhe tu ... se quizeres.

Francisco Theodoro passeava pelo quarto, com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar as chaves.

—A Lage disse-me tambem que você entrou em uma grande negociata com o Innocencio...

—Como soube ella d'isso?!

—Não sei... Diz que a sua casa vae ser uma das mais fortes ahi...

—Tenho medo...

—Hein?

—Não é nada; está feito. Pois senhores, parece incrivel, elles querem mesmo o casamento?

—Então? Logo que Mario queira, será coisa para uns quinze dias. O Meirelles deseja levar os noivos comsigo. Bem pensado, Paquita teve bom gosto.

—Muito fresco! Olha: eu lavo d'ahi as minhas mãos.

—Logo vi... Mario já deve ter chegado; eu vou fallar com elle. Por emquanto é bom não dizer nada a ninguem.

—A quem o dizes...

Theodoro ficou só no quarto, mudando de casaco e de calçado, vagarosamente, com sentido no negocio que o preoccupava.

Como diabo teria a Lage sabido d'aquelle negocio com o Braga?

Abriu a janella e encostou-se.

De baixo, da sala de jantar e da cozinha subiam o cheiro de gorduras e a musica da crystallaria e da prata movidas pelo copeiro.

No grande lago do parque, de aguas renovadas, patos gordos desprezavam as migalhas de pão que a Rachel e a Lia, deitadas de bruços na relva sobre os bordados bem engommados dos vestidos, lhes atiravam ás mancheias. Sob a jaqueira enorme, carregada de fructas grandes como ubres tumidos, o cão de guarda preso á corrente, devorava uma enorme posta de carne em um alguidar. Todas as plantas, bem tratadas, rebentavam em grellos viçosos ou se expandiam em flores, e pela rua de palmeiras, que ia ter á horta, o jardineiro vinha carregado com uma cesta de fructas e frescos pés de alface.

A terra suava de farta; não lhe faltava nem o adubo que lhe dá força, nem o ornamento que lhe dá graça. Afigurou-se então a Theodoro, com clareza, que a vida é uma coisa bem boa para quem vence e faz cahir sobre o terreno que o circumda a chuva de ouro fecundante.

No seu orgulho de homem sahido do nada, aquelle goso material da riqueza enchia-lhe a alma de uma especie de heroismo.

Era como se elle tivesse feito tudo, desde as pedras dos fundos alicerces do seu palacio até as mais exquisitas fructas do seu pomar e as mais divinas flores das suas roseiras. Semente germinada á custa do seu dinheiro, era obra sua, envaidecia-o, como se a suprema perfeição da planta lhe tivesse sahido de entre os dedos poderosos.

Em todo esse sentimento de conquista havia, a bondosa ingenuidade de ter sabido crear para os seus uma felicidade perfeita.

Nunca os filhos saberiam o que era uma infancia como fôra a sua, desagasalhada, errante; nunca a mulher saberia o que era ter um desejo sem esperança de satisfação, e a todos envolveria sempre o luxo, a abundancia e a alegria.

As copas das palmeiras desenhavam-se em fila na atmosphera limpida.

Uns passos rangendo na areia chamaram-lhe a attenção para baixo da janella: Camilla e Mario sahiam de casa para o jardim. Ella; alta, bem desenhada no seu vestido claro, andava de vagar; elle, com o peito florido por um fresco bouquet de myosotis, as mãos nos bolsos, parecia ouvir a mãe com attenção a que não era afeito.

Seguiram ambos para o jardim da frente e deram volta á casa; quando os perdeu de vista, Francisco Theodoro desceu á sala de jantar; A mesa estava prompta; Nina, com o seu aventalzinho bordado sobre um vestido escuro, dava uns retoques á fructeira.

—O Dr. Gervasio almoçou cá? perguntou-lhe o tio.

—Como sempre.

—Virá jantar?

—Creio que não...

—É o diacho ... eu precisava fallar-lhe!

—O seu empregado está peior?

—Parece-me que sim ... coitado...

Nina suspirou, e da fructeira passou ás flores da jarra, pensando no velho Motta, que mal conhecia, entretanto. Depois de uma pausa:

—Quer que eu mande tocar a sineta?

—É bom esperar um pouco; tua tia está em conferencia com o Mario. De maneira que o Gervasio não voltará hoje por aqui?

Nina não respondeu, o coração batia-lhe com força. A ideia da Lage deu-lhe o presentimento da verdade. Seria certo, Deus do céo, que Mario se casaria com a outra? Conferencia com elle... para que?

Francisco Theodoro recostara-se em uma cadeira do terraço, lendo um jornal da tarde a que pouca attenção prestava. O que estaria a mulher a dizer ao filho? Julgava do seu dever não intervir naquella creançada; se o fizesse, seria para despersuadir a moça de tal casamento: conhecia a frivolidade do filho; o que o espantava era o consentimento do intransigente Meirelles: só explicava aquillo por caduquice; miolo molle.—O homem ensandeceu! Ora, ora! dar a filha ao Mario!—resmungava elle de vez em quando, com estupefacção, como se fizesse um commentario ao artigo acabado de ler.

Nina, que se agitava de um lado para o outro, indo de armario a armario, de janella a janella, veio para o terraço e encostou-se á balaustrada, muito abatida. De seus olhos pardos sahia uma luz branca, onde relampejavam fulgores frios.

Vira de relance a tia e o primo embaixo dos tamarineiros, e fugira depressa da janella da copa para o terraço, com medo de perceber-lhes nos gestos a expressão exacta das palavras que diziam. Adivinhava a verdade, mas temia ouvil-a, porque essa verdade não a magoaria só, offendel-a-ia tambem. Era como que um ultrage á sua mocidade outomniça, á sua pobreza e á sua fé no amor. Sentia-se predestinada a ser na vida uma espectadora da ventura alheia, e uma revolta de sentimentos dava-lhe desejos máos.

A tia, contra o dever, não amava, não era amada, não sacrificava tudo pelo perfume de uma palavra amorosa, pela loucura divina de um beijo? Aquelle livro de paixão, tão imprudentemente aberto deante dos seus olhos, não a fizera por tantas vezes estremecer de inveja e sonhar com as delicias do amor?

Até ahi respeitara aquella paixão, sentia-a sincera, fazia-se céga, apiedada d'aquellas almas felizes. Agora tinha impetos de se vingar, de arrancar das mãos do tio o jornal, de gritar-lhe com toda a força a historia d'aquelles amores que a humilhavam, porque entre ella e a tia, não era a outra, casada e mãe, mas sim ella, orphã e virgem, quem tinha direito áquella felicidade de amar e de ser amada...

Duas borboletas brancas passaram rente a ella, perseguindo-se.

Nina fechou os olhos, mas a visão da felicidade alheia lá estava dentro. Qual seria o interesse da tia em casar o Mario?

Lia e Rachel interromperam-n'a; vinham nas bicycletas a toda a força, reclamando o jantar aos brados. O pae sorriu, achando-as lindas, assim rosadas, com os cabellos ao vento.

Ellas, já combinadas, atiraram-se para elle, turbulentamente, pedindo-lhe ao mesmo tempo as mesmas coisas. Queriam um carrinho de verdade, puxado a poneys, com o cocheiro vestido de azul.

Nina aproveitou para mandar servir o jantar, morta por interromper a conferencia da tia.

E. quando Camilla e Mario entraram na sala ninguem lhes soube lêr nas physionomias uma sombra sequer da verdade; fallavam ambos do baile, como se de outra coisa não tivessem tractado.

Foi só á noite que Milla disse no quarto ao marido:

—O Mario acceita o casamento. Assim como assim, elle não tem mesmo gosto para o commercio...




XVI

Na sua salinha da rua Fundo, extendido no velho canapé empoeirado, seu Motta, emmagrecido, com a barba crescida, as faces chupadas, olhava para as moscas que zumbiam, negrejando na cal da parede encardida.

Lá dentro, a filha cortava o silencio de vez em quando com as suas passadas vagarosas, em que se sentia o cançaço.

Tinha razão: era só para tudo. O pae, apezar da impertinencia da molestia e das suas exigencias de homem amigo da limpeza, resignava-se quasi sem protestos áquella immundicie em que se ia encharcando. Certo, que isto de se dizer que uma mulher pode fazer todo o serviço sem se enxovalhar, é coisa de romance. A Emilia andava com as mangas e o avental sujos de carvão, tinha as unhas impregnadas do cheiro da cebola e do alho; e as mãos, avermelhadas pelo uso do sabão da terra com que esfregava a roupa, tinham perdido o geito para a caricia doce, macia, tão querida das creanças e dos doentes. A pobre andava escada abaixo e escada acima, do sótam para a cozinha e da cozinha para o sótam, com os hombros vergados ao peso da bacia cheia de roupas ensaboadas ou torcidas, para extender lá em cima no telhado, a um calor de rachar.

A paciencia exgottara-se-lhe, ella andava aos suspiros, cada vez mais côr de cidra.

Quando se mirava no espelhinho do seu quarto, ella mesma se achava feia. O seu rosto alongava-se, tomava uma expressão de animal.

O pae chamou-a:

—Emilia, olhe, veja se pode dar uns pontos nestas meias ... estão-me incommodando. O paletot está sem botões.

Ella não respondeu, foi dentro e voltou:

—Estão aqui outras meias.

—Tenha paciencia, minha filha, eu não posso dobrar a perna...

Emilia agachou-se e mudou as meias ao pae. Elle continuou:

—As minhas calças de brim estão muito encardidas, será bom alvejal-as emquanto eu estou em casa. Vão ser muito precisas. O meu terno de casimira está escovado?

Ella mal respondeu com um signal de cabeça. O pae, querendo poupal-a, com remorsos de lhe dar semelhante existencia, atrapalhava-a com exigencias; eram os lenços rotos, as ceroulas sem nastros, ou por que as cadeiras tinham um dedo de pó, ou por que as plantas das latinhas morriam nas janellas á mingua d'agua, torradas de sol.

Enfadada, Emilia fazia os reparos exigidos, em silencio, com ar rebarbativo. Então o velho voltava o rosto para a parede e fechava os olhos para reter as lagrimas.

Vinham-lhe á mente os seus bons tempos de Pernambuco e a alegria da sua defuncta, tão activa, tão pagodista e festeira.

Quem diria que de tal mãe...

Á hora do jantar, a filha ajudou-o a ir para a mesa, em um canto da cozinha, ao pé de uma janella com vista para telhados.

De enfastiado, elle ás vezes não se continha e suspirava:

—Que jantarzinho cangueiro...

Emilia não respondia; punha-lhe no prato o feijão e a carne secca, que elle engulia com esforço.

Nesse dia a tarde estava quente.

O papagaio da visinha arremedava as vozes e as gargalhadas das moradoras de baixo, reunidas no quintal.

Motta sentiu vontade de palrar um pouco tambem; mas a companheira voltou-lhe as costas para ir lavar as panellas e o cheiro das banhas frias tornou-se insuportavel.

Elle voltou resignado para o canapé da saleta, martellando com a bengala o chão roido pelo caruncho e pelos ratos.

O seu sonho era sahir, voltar ao escriptorio, tactear as folhas dos livros, pensar em negocios, deixar de vêr o rosto comprido da filha e de sentir a morrinha da casa suja.

Quem de vez em quando cortava aquella pasmaceira com um pouco de alegria, era a bahiana Bertholina que lhes levava um resto de quitanda recambiada, fatias de Mané-taiado, ou cocadas com abobora, sujeitas ao azedume. E então era só:

—Yoyô! Yayá! e gargalhadas frescas e: É preciso paciencia, atraz dos dias maus vêm os dias bons, não é meu Yoyô? Tenham fé em Deus... E adeus, minha Yayá, e adeus meu Yoyô!

Seu Motta sorria lambiscando as cocadas, feliz por vêr alguem rir.

Nessa tarde a Bertholina iria a proposito; mas quem appareceu foi o Ribas.

Seu Motta contava as moscas da parede, sem querer dar confiança ao rapaz, mas abria os ouvidos.

Elle estava mortinho por dizer o que sabia, e logo depois de uma meia duzia de palavras:

—Hontem houve um baile em casa de seu Theodoro. Diz que a rua estava cheia de carros. Só o vestido da D. Camilla custou dez contos...

—Quem acredita nisso...

—O Mario vae casar-se com uma moça que tem para cima de mil contos. Foi ao baile coberta de joias. Seu Guimarães, seu Castro, todos estes turunas do café foram lá.

—Como sabe você de tanta coisa?

—Foi o Isidoro quem me contou.

O Ribas, com os hombros descahidos e um sorriso nos labios molles, fallava em sumptuosidades, com a voz empapada em saliva.

O velho tossiu, fingiu querer dormir, negando confiança ao rapaz, sentindo-o abusivo. Vendo que o outro o não entendia, exclamou:

—Você não tem que fazer?

—Eu ainda não achei emprego...

—Veja lá, eu não quero que seu cunhado pense que o retenho em minha casa.

—Meu cunhado não me governa.

Seu Motta despediu o Ribas, mas logo que o viu descer a escada sentiu-lhe a falta. Ao menos aquillo era alguem, sempre trazia um echo de vida, um zum-zum de fóra.

O Ribas desceu, enfarado d'aquelle velho cainha, que não escorrera nem um tostãozinho para o café; se pensava que elle ia levar as novidades só pelo amor dos seus olhos! Burro! Elle ainda haveria de ensinar toda aquella canalha a temel-o e a chover-lhe dinheiro no bolsinho; era só fallar com o Pirueta da Pedra do Sal, que lhe ensinasse a capoeiragem...

Na rua da Saúde parou á porta do armarinho da irmã, a Deolinda, que esmiuçava a grenha hirsuta de um filho de tres annos, recostado sobre o seu ventre enorme.

Ribas fez-lhe signal da porta, perguntando se podia entrar e observando ao mesmo tempo se o cunhado estaria alli; ella disse-lhe que não entrasse e, sacudindo-se a custo, foi á porta e fallou-lhe em segredo.

—Você não tem vergonha? vá-se embora! Ubaldino tá hi...

—Queria que você me emprestasse quinhentos réis...

—Onde é que eu vou buscar dinheiro, gente!

—Na gaveta do balcão.

—Na gaveta! por você ter mexido na gaveta do balcão é que aconteceu o que aconteceu; vá-se embora!

—Não seja má, Deolinda.

—E o seu ordenado? Olhe: nós não fazemos negocio nenhum... Minha creança está para nascer e eu não tenho nem uma camizinha arranjada. Mal dá p'ra comer, sabe Deus como!

—Não seja sovina; depois eu pago.

—Ubaldino ahi vem ... vá-se embora.

—Ora...

E com arremesso o Ribas seguiu pela calçada até ás Docas; á porta encheu-se de batata roxa, cozida, que a Bertholina bahiana vendia, tagarellando com uns marinheiros do Lloyd. Depois das batatas o Ribas ainda teve uns tostões para tangerinas. Só bem repleto foi que bateu as solas rotas pelas calçadas, a caminho da rua de S. Bento.

Ahi chegado, quiz desafiar a paciencia de seu Joaquim, postando-se como um basbaque á porta do armazem, vendo os trabalhadores na sua faina entrarem e sahirem sem interrupção.

Em cima, no escriptorio, Francisco Theodoro, amollecido pela sua noitada de festa, narrava lealmente ao Meirelles, pae da Paquita, a inaptidão do filho para o trabalho.

O Meirelles sorria; que descançasse, elle encaminharia tudo,—e accrescentava:

—Paquita, com aquelle ar de songa-monga, é de uma energia de homem. Não é de brinquedos. Tem um juizo notavel. Eu agora levo-os para a Europa, faço o Mario observar o movimento das principaes praças e na volta você verá, Theodoro, como o seu filho ha de trabalhar! Será então tempo de você ceder-lhe o campo...

—E eu estou morto por isso...

—Então? Urge andar depressa, que eu não quero perder a viagem do Equateur.

Francisco Theodoro começava a comprehender que a Paquita, se era assim, seria a unica mulher capaz de modificar o caracter do filho. Mario seria um instrumento nas suas mãos energicas. Não a suppozera nem a cria ainda tal, tão fragil, tão esbranquiçada e inexpressiva a vira sempre na moldura dos seus cabellos louros.

Estava bem; Mario precisava de uma vontade firme, que o dominasse e dirigisse; nem com uma lanterna accesa encontraria coisa tão boa.

Paquita seria a salvação do seu filho, a garantia da sua casa commercial, que já não acabaria com elle.

Pensando assim, uma ternura desabrochava na sua alma para aquelle filho perdido, que tamanhas desillusões lhe semeara na vida. Começava a sentir que lhe não perdera o amor.

Elle continuaria aquella casa, com tanto trabalho nascida, que teria com elle a mesma firma, a mesma tradição... Seria sempre a Casa Theodoro, feita pela sua ambição, perpetuada na sua descendencia...




XVII

Nina tinha voltado do casamento de Mario e despia-se devagar no seu quarto, com os olhos fixos na luz branca do espelho.

Era o fim, e nem por estar tudo consummado se resignava. Para bem d'ella, os noivos iam nesse mesmo dia para Petropolis, e de lá só voltariam para bordo de um transatlantico. Como seria doce á Paquita cruzar os mares nos braços do seu amor...

Nina desprendeu do corpete as flores de laranjeira que a noiva lhe dera para casar depressa, e contemplou-as com ironia ... ia atiral-as ao chão, quando alguem bateu á porta. Abriu.

Era a Noca, que vinha toda alterada.

—Nossa Senhora! quebrou-se o espelho grande do salão!

—Quem foi que o quebrou? perguntou Nina, para dizer alguma coisa.

—Ninguem sabe. Veja só, que desgraça estará para acontecer! Espelho quebrado: morte ou ruina.

—Morte! se fosse a minha...

—Cala a bocca, menina, não diga asneiras. Quem é que ama uma vez só na vida?

—Muita gente ... eu.

—Não acredite, deixe fallar. A senhora é moça, verá. Mas venha ver o espelho; não presta a gente ficar calada quando está afflicta. Parece arte do diabo, cruzes! logo hoje!

—Vá andando, eu já vou.

Nina mudou de vestido á pressa e desceu.

Encontrou dois criados boquiabertos em frente ao espelho, prevendo desgraças, suggestionados pela influencia da Noca.

—Que pena! um espelho tão rico ... murmurou Nina machinalmente, pensando na Paquita.

—O caso não é o dinheiro. Eu cá não tenho pena, tenho medo.

—Agora que se ha de fazer? ter paciencia e esperar, disse Nina com um sorriso pallido.

—Esperar! Diz você muito bem. Foi uma vontade mais forte que fez aquillo, temos que esperar grandes coisas. Noca não falla á toa. Vocês verão. É melhor não dizer nada a nhá Milla.

—É melhor...

No dia seguinte, quando o Dr. Gervasio entrou no jardim de Camilla, encontrou-a no terraço, rescendente e fresca no seu peignoir marfim pontilhado de ouro.

—Como estás linda! murmurou elle pegando-lhe na mão, que ella deixou beijar á grande luz, como se a ausencia de Mario cegasse todos de casa.

E o casamento de Mario fôra um allivio para ambos. Estavam livres d'aquella testemunha importuna, que tinham de respeitar. Milla bemdizia aquelle casamento, que a libertava de uma humilhação constante, levando-lhe o filho para as terras do luxo e do prazer. Separando-se, elle ia ser feliz. Que mais poderia desejar um coração de mãe?

Foi nesse mesmo dia, á tarde, que Francisco Theodoro chegou sombrio a casa e, em vez de subir, como de costume, encerrou-se no escriptorio, em baixo. Camilla entrou da rua mais tarde, sacudindo-se á pressa pela escada acima.

Durante o jantar só ella fallava, muito risonha, rescendendo á essencia com que Gervasio a pulverisara pouco antes no chalésinho dá Lagoa, onde escondiam o seu amor. Aquelle perfume era como que a alma d'elle que ella trouxesse comsigo.

—Que linda tarde! olhem para o jardim, exclamou ella, apontando para fóra com a mão fulgurante de anneis.

Era um pôr-de-sol maravilhoso.

—Tudo côr de rosa! Parece-me que o jardim nunca teve tantas flores. Como isto é bonito! E ha quem falle mal da vida; e ha idiotas que se matam!

Francisco Theodoro cruzou o talher sem ter comido.

—O senhor está doente? perguntou-lhe Nina.

—Não tenho vontade de comer, mandem-me o café ao jardim.

Camilla contemplou-o com magua e explicou aos outros:

—Elle está impressionado com o casamento de Mario. Meninas, vocês procurem entreter e distrahir seu pae. Mande guardar um copo de leite para elle, Nina; seu tio não pode ficar assim. Deus queira que elle não me fique doente...

E um véu de tristeza passou pelos olhos, ha pouco risonhos, de Milla.

Mas nada houve nessa tarde que entretivesse Francisco Theodoro; elle repellia a companhia de toda a gente para ir passear sózinho lá para o fundo da chacara. Ruth tocou em vão as suas melhores musicas: o pae nem parecia ouvil-as...

Na sala de engommar, a Noca commentava a tristeza do patrão, como um facto annunciado pelo desastre do espelho... «A coisa está começando... Eu não dizia?»

Á noite, emquanto Francisco Theodoro folheava embaixo a papelada do Innocencio Braga, Milla despia-se em frente do seu psyché, namorando a propria imagem, milagre da juventude, sentindo em um fremito a delicia de bem merecer um grande amor.

Como a Sulamita, toda ella era formosa. O peito farto, o pescoço alvo e redondo, as mãos pequenas, os pulsos delicados, e uns olhos negros e pestanudos, de onde jorrava uma luz velludosa e doce que toda a vestia de graça.

Ao prender o cabello, lembrou-se de uma comparação de Gervasio; elle dissera uma vez, ao vêl-a pentear-se, que as suas mãos eram como duas aves luminosas esvoaçando na treva. Milla sorriu.

Foi só depois das orações, ao espreguiçar-se no seu largo leito, que se lembrou ter de levantar-se cedo no dia seguinte para ir a bordo despedir-se do filho.

Tudo era como um sonho. O Mario já casado! Parecia-lhe que ainda o estava a vêr pequenino e gorducho, engatinhando pela casa, aquelle sobrado da rua da Candelaria, onde a sua vida fôra tão differente. E foi com a visão d'aquelle filho em creança, d'aquella carne de rosas, d'aquella bocca innocente que a babava de beijos, que ella adormeceu, sentindo-lhe o peso amado do corpo nos braços saudosos.

Quando sôou meia-noite, em toda a casa só havia de pé Francisco Theodoro, que folheava ainda no escriptorio a papelada do Innocencio Braga.

Nessa manhã elle tivera o primeiro toque de alarma, num telegramma do Havre para o Jornal, que affirmava ter descido o preço do café nos principaes mercados.

Afflicto, com a percepção de um desastre imminente e enorme, abalou logo do armazem para o escriptorio do Braga, que o recebeu entre duas risadinhas fanhosas, repimpado na sua cadeira de couro.

—Que é isso! o senhor é assustadiço ... pois não percebe que isto tudo é jogo?

—Não comprehendo ... balbuciou Francisco Theodoro com um enleio, em que entrava com um amargo desapontamento a doçura de uma vaga esperança.

—Não comprehende, porque é um nervoso; não tem a calma dos grandes espiritos emprehendedores. Eu desejaria convencel-o da certeza dos seus lucros; mas na disposição de espirito em que está, vejo que isso é coisa difficil. Verá que amanhã não teremos noticia alguma.

Aquillo é feito aqui, homem, garanto-lhe que é feito aqui!...

—É impossivel!

—Acredite.

—Não póde ser. O Jornal, tão serio...

—Ora, não póde ser!... que ingenuidade! Se eu lhe affirmo, é porque sei. E se não fosse assim eu estaria calmo? Diga, seria posssivel que eu estivesse calmo?

—Penso de outro modo; tenho lá grande parte do meu capital!

—Ninguem diz o contrario ... sei ... é natural o seu cuidado; sómente, affirmo-lhe que é infundado. Amanhã, ou haverá silencio, ou ha desmentido. Tudo isto é geito. Olhe, o Gama Torres está satisfeitissimo; sahiu ha pouco d'aqui. Está contente; aquelle é um homem do tempo, ha de ir longe...

—Pois, eu, confesso-me arrependido.

—Ora, não diga tal! que barbaridade! O nosso triumpho é certo. E, já que se mostra assim apprehensivo, façamos uma coisa: telegraphemos ao Lacerda. Eu por mim não telegrapharia, conheço a alma d'estas machinações. Tudo é chimica. Digo-lhe mais: eu estou contente... Olhe, amanhã poderei provar-lhe com documentos irrefutaveis a veracidade das minhas affirmações. Venha cá ás duas horas.

Francisco Theodoro sahiu menos torturado; mas, á proporção que as horas avançavam, voltava-lhe a inquietação, a ponto de não poder trabalhar. Fugiu para casa e alli encontrou o mesmo desasocego.

Atirou-se aos papeis; leu-os, releu-os, tirou notas e cada vez sentia maior confusão naquelle embrulho de problemas, em que todo o seu bom senso naufragava.

Inquietava-se com presentimentos. Era muito d'isso. Afinal, um telegramma isolado, discordando de tudo o que se dizia, podia não ser verdadeiro. Affligiam-n'o certos zums-zums da cidade. Os boatos são como os corvos, apparecem no ar attrahidos pela podridão occulta.

Todavia, forcejava por acreditar nas boas previsões do Braga. O homem era honesto e tinha nas mãos habeis o fio da trama; logo, melhor seria esperar pelas taes provas irrefutaveis...

Eram seis horas da manhã quando Camilla o chamou para irem ao Equateur.

Foi um alvoroço em casa.

Noca era a mais curiosa; queria ir tambem despedir-se do Mario e vêr por dentro uma d'aquellas casas fluctuantes, onde não viajaria nem á mão de Deus Padre!

Apressou-se em vestir as gemeas, que se faziam de tolas, exigindo os vestidos novos e os chapéos côr de rosa.

—Não; ponderava ella, deixem os chapéos côr de rosa para passear na cidade ... levem os brancos.

—Eu quero levar o chapéo côr de rosa, gritou Lia; e logo Rachel:

—Eu tambem quero levar o chapéo côr de rosa.

—Que tolice, gente! um chapéo d'aquelles para o mar!

As meninas berraram, e Milla interveio:

—Pois que levem os chapéos côr de rosa; tambem vocês gostam de aborrecer as creanças.

Ás dez horas embarcaram numa lancha. Ruth lembrou-se do passeio ao Neptuno, e voltando-se para a mãe, perguntou:

—É verdade! nunca mais a gente soube do capitão Rino.

Camilla levantou os hombros.

—Quando elle voltar, hei de pedir-lhe que nos arranje outro passeio pela bahia.

—Por uma noite de luar ... disse Camilla. Ruth accrescentou, para bulir com a Noca, que se agarrava ás bordas da lancha:

—Ou mesmo por uma noite de tempestade, com muitos relampagos e trovões. Ainda ha de ser mais bonito.

—Uê, que maluquice! exclamou Noca; Nossa Senhora da Penha! eu com este sol todo estou com medo, quanto mais...

—É pena que Nina não tivesse vindo...

—Para quê? para vêr a outra?

Francisco Theodoro não ouvia nada; percorria com a vista anciosa todos os telegrammas dos jornaes. Nada; não vinha nada; e com isso elle não sabia se havia de achar motivo de allivio ou de maiores apprehensões.

Quando subiram ao tombadilho, já lá encontraram o Meirelles, mais o Mario e a Paquita. Ella, sempre com o seu arzinho enjoado, contando as palavras que dizia, tractando a familia do marido com cerimonias afastadoras. Mario ia e vinha, solicito, obedecendo com sorrisos ás ordens que ella lhe dava em phrases curtas:

—Que fosse ao camarote guardar-lhe a bolsa das joias... Que lhe fosse buscar a capa... Que verificasse quaes as malas que iam para o porão e que mandasse a vermelha para o beliche.

Mal elle se lhe approximava, logo ella o incumbia de qualquer coisa que o afastava:—Que contasse os volumes... Que entregasse a cesta das fructas ao maître d'hotel, recommendando-lhe que as mettesse na geleira... Que puzesse os seus cartões de visita nas costas das cadeiras, para evitar confusões... Mario girava sobre as solas de borracha dos sapatos claros e lá ia lépido cumprir as ordens. Camilla pasmava. Quem lhe diria que aquelle era o mesmo Mario indomavel, secco, tão imprestavel sempre aos favores pedidos pela mãe e as irmãs? Vendo aquillo, subia-lhe do coração aos olhos uma tristeza ciumenta, magua de alma ferida a que nenhuma razão abafa a queixa.

Paquita percebeu tudo e redobrou de frieza, mal respondendo ás perguntas da sogra.

Entretanto, Theodoro e o Meirelles passeavam a largas passadas da proa á ré.

O velho Meirelles era de opinião que o telegramma do Jornal inserido na vespera era coisa séria, de alarme. Francisco Theodoro engoliu em secco; não teve coragem para lhe dizer que grande parte do seu capital fôra atirado á voragem de uma especulação. Relatou, porém, as palavras do Braga e as suas affirmações.

—Não me falle nesse homem, interrompeu o outro com violencia; é um especulador sem escrupulos ... quer mais claro?—é um ladrão!

Veio de Portugal, ha coisa de seis annos, sem vintem, e sabe quanto já passou para Inglaterra em bom metal? mais de mil contos!

Vi a prova. O patife!

Aquillo é lá da minha freguezia ... conheci-lhe o pae, era outro marreco que tal! Homem—não se deixe levar pelas cantigas novas, nós antigos, verdadeiros pés de chumbo, caminhamos devagar e escolhendo terreno. Essas basofias e esses atrevimentos são bons para quem não tem nada a perder... Olhe, lá toca á retirada; avise sua senhora, para descerem sem precipitação...

Ao abraçarem Mario, Francisco Theodoro, com a voz estrangulada, recommendou-lhe:

—Juizo, meu rapaz!

Camilla, branca como marmore, apertou o filho com força ao coração; depois, sentindo-o frio no seu abraço, beijou-o no pescoço e na face e fixou nelle em uma queixa muda os seus grandes olhos maguados. Foi só na lancha, escondendo-se dos olhares da Paquita, que ella desatou em soluços que ninguem tentou reprimir.

Havia em todos egual resentimento. Noca chamava mentalmente a Paquita de lambisgoia, percebendo que ella roubava o Mario a toda a familia, absolutamente. Ruth reconhecia que as separações são as reveladoras do amor. Cuidára ella nunca por ventura que um abraço de despedida custasse tanta pena? Lia e Rachel abriam olhares curiosos para tantos rostos preoccupados, e só Francisco Theodoro acenou para o filho com um lenço, pondo naquelle adeus toda a sua ternura.

Quem lhe diria? Agora, na possibilidade de um desastre, a unica pessoa da familia que elle via salva era o Mario!

Chegando á terra, Camilla e as filhas foram de carro para casa, e Francisco Theodoro, depois de almoçar á pressa num restaurante, seguiu impaciente para o armazem.

Á porta d'elle a pretinha Terencia guinchava contra um italianinho que se lhe associara sem licença ao negocio, atirando-se á pilhagem do café da calçada.

—Ha alguma novidade? perguntou Theodoro ao gerente.

—Não, senhor. Ah! é verdade, o Motta parece que está moribundo.

—Pobre homem...

—A filha veio hoje procurar o senhor; vinha chorando.

—Ha de ser preciso mandar recursos a essa gente...

—Arreda d'alli aquelle sacco, João!

—Coitado do Motta...

O gerente já não o ouvia: determinava serviços.

Chegado ao escriptorio, Francisco Theodoro tractou de remetter dinheiro ao Motta e informar-se do seu estado. O portador voltou depressa. O velho tivéra uma syncope mas estava melhor.

—Coitado do Motta, murmurou Theodoro, consultando o relogio, morto pelas duas horas. E ás duas horas correu ao escriptorio do Innocencio.

Em cima um empregado informou-o de que o Sr. Innocencio partira nessa manhã para Petropolis, a negocio urgente. Deixara dito que na volta iria procural-o.

Francisco Theodoro não conteve um movimento de raiva, e sahiu tonto, sem cumprimentar ninguem.

O ruido, o trabalho, o movimento alegre da rua fizeram-n'o sentir mais o seu cançaço moral. Ia cabisbaixo, quando encontrou o Negreiros; deteve-lhe os passos e, quasi sem explicação, perguntou-lhe:

—Diga-me cá: que opinião faz você do Innocencio Braga?

O Negreiros sorriu, coçou o nariz enorme, e sibilou:

—Aquillo é um espertalhão; não é bom fiar, não é bom fiar.

—E que me diz você d'aquelle telegramma do Jornal de hontem, sobre a baixa do café?

—Que hei de dizer? que annuncia catastrophe para muita gente boa. Sabe o que me consola? É que os Estados Unidos ainda levarão um rombo maior do que nós. Não lhe parece?

Que importavam a Francisco Theodoro as fallencias dos americanos! elle só tremia pela d'elle, era na sua fortuna que estavam condensados todos os bens do universo.

Negreiros sentiu-lhe a mão fria, ao apertar-lh'a, e voltou-se de repente, fixando-o nos olhos:

—Homem, querem vêr que você...

O negociante não lhe respondeu; simulando pressa passou adeante.

Nessa tarde elle encontrou a casa cheia. D. Ignacia espalhava receitas de doces por todos os cantos onde encontrasse dois ouvidos pacientes. A Carlotinha, com o seu ar picante de morena desembaraçada, debicava as Bragas, que riam muito, alludindo aos namorados da Judith e da irmã, piscando para um estudante de medicina, o Oscar Pereira, que ellas apresentavam nesse dia á familia Theodoro, como um excellente recitador de monologos.

Mas na casa pouco se apreciavam os versos e ninguem lh'os pediu.

O Dr. Gervasio jogava com o Gomes e o Lelio, Camilla gyrava pela casa, esquecendo-se, no meio do ruido, da impressão de abandono d'essa manhã no Equateur.

Lá dentro, Nina mandava accrescentar mais uma taboa á mesa e descia á adega para determinar ao copeiro os vinhos a servir.

Assim, aquelle dia de semana parecia de festa.

Francisco Theodoro sentou-se ao pé do piano e olhou para todos como se olhasse para phantasmas. Que quereria dizer tanta alegria? Então toda aquella gente não teria mais que fazer, nem outras coisas em que pensar?

Não esteve muito tempo socegado. Lia e Rachel saltaram-lhe para os joelhos, e elle, cançado, deixou-as trepar, e fez de cavallinho durante alguns minutos...




XVIII

Todos os dias era aquillo: logo pela manhã Francisco Theodoro saltava da cama com sentido nos telegrammas do Jornal. D'esta vez, como das outras, soffreu o mesmo desapontamento. Lá vinha a noticia de que o café baixava de preço, pouco a pouco, invariavelmente.

Vestiu-se á pressa e desceu ao jardim, taciturno, como se os pezadellos da noite se prolongassem. E o sol estava lindo. As cigarras cantavam pelos tamarineiros.

Eram seis horas, e já Lia e Rachel andavam aos saltos, ainda de calções de dormir. Noca perseguia-as, chamando-as para o banho, com os enxugadores no braço e a saboneteira na mão.

—Então, creanças; que cacetes!

As pequenas, de queixinhos erguidos, sorriam para o pae, tomando-lhe o passo.

—Bons dias, papae!

—Bons dias, papae!

O pae nem sorriu, afastou-as com brandura e disse:

—Vão tomar o seu banho.

—Eu quero passear com o senhor.

—Eu tambem quero...

—Não façam esperar a Noca. Vão tomar o seu banho. Logo...

As creanças começaram então a desafiar a paciencia da mulata, em correrias e negaças. Francisco Theodoro seguiu sózinho para o fundo da chacara. E por alli andou calado, sem attender aos cumprimentos dos empregados que passavam por elle.

Sentia-se oppresso, como se carregasse nos hombros um fardo muito pesado. Era a primeira vez que attentava na pequena duração da mocidade: a falta da energia dos outros tempos doia-lhe na alma.

E as cigarras cantavam; felizes, as cigarras, que só teem vida para isso...

A Nina foi ter com elle.

—O senhor anda muito madrugador... Quer almoçar? Está tudo prompto.

Elle puxou pelo relogio.

—Sim, posso ir, são quasi nove horas...

Entraram. As pequenas puzeram-se aos lados do pae, que lhes mettia na bocca bocadinhos de pão com ovo.

—O senhor dá tudo ás meninas e não come nada! observou Nina.

—Não tenho fome.

—Depois fica doente ... porque não falla com o medico?

—Eu?! para quê?

—Aqui está o café.

Engulido o café, de um trago, Francisco Theodoro sahiu apressado.

Noca foi espial-o á janella e veio dizer á Nina que seu Theodoro parecia outro homem; até mudara de andar. Contemplaram-se as duas, e foi ainda a mulata quem murmurou:

—Quem sabe se alguem disse de nhá Milla, hein?

Ás onze horas, quando se sentaram á mesa do almoço, já a visão de Theodoro se desvanecera. Deveria ser um mal passageiro.

A mesa era farta, o sol brilhante punha na sala manchas vermelhas, através do toldo riscado das janellas; sobre a toalha havia os mesmos excellentes vinhos e o mesmo excellente aroma de manacá. Nas jardineiras, os tufos rendados das avencas davam, como em todos os dias, egual aspecto de frescura á sala; as creanças rebentavam de saude... Que mais seria preciso para que as horas voassem na vida como num sonho?

Entretanto, o Dr. Gervasio perguntou a Milla.

—Seu marido está melhor?

—Não sei; anda amofinado... Sentiu muito o casamento de Mario. Elle não quer que se diga que está doente. E effectivamente não está. Não sei o que é aquillo.

Gervasio calou-se, pensativo. As gemeas começaram a rir, uma da outra.

—Viu que bonito croton está no vaso da entrada, doutor? perguntou Ruth ao medico.

—Vi. O croton é bonito, o vaso é que é medonho. Tirem aquelle vaso de alabastro d'alli, ou eu não volto cá.

—Acha feio?

—Horrivel.

Nesse dia, Francisco Theodoro não achou um instante de allivio no trabalho.

Foi ao escriptorio do Innocencio e maçou-o com interrogações, percebendo que o achavam fastidioso, e que o evitavam disfarçadamente.

Já havia perto de tres mezes que os telegrammas annunciavam regularmente, numa proporção de acinte, a baixa do café no Havre.

E ainda o Innocencio conservava o seu risinho zombeteiro, de sentido esgarçado, fugitivo.

Francisco Theodoro, mais enfurecido nesse dia que nos outros, teve impetos de bater-lhe, tal foi a raiva de o ver sorrir; todavia, conteve-se, certo de que nada lucraria, e desceu a escada do outro com o protesto de ser a ultima vez.

Quando entrou no seu escriptorio, o guarda-livros extendeu-lhe um telegramma: A casa Mendes e Wilson, de Santos, declarava fallencia, arrastando na quéda grandes capitaes de Theodoro.

O negociante leu a communicação em silencio e em silencio se conservou por algum tempo, branco como a cal, suando em grossas camarinhas, de olhar parado e o papel aberto nas mãos tremulas.

Os empregados do escriptorio assistiam mudos e contrafeitos áquella scena. O Motta já lá estava, muito amarello, de olhos encovados, mal escovado, com a gravata torta num collarinho amarrotado, com o triste ar de pobreza relaxada; tambem elle percebeu que pairava alli uma grande desgraça, e sacudiu piedosamente a cabeça, fixando o rosto transtornado do patrão.

Ouviam-se as moscas no ar zumbir com força.

Quinze dias mais tarde annunciava-se o fim de tudo,—a grande casa Theodoro teve de declarar fallencia.

Na familia nada se sabia; o negociante readquirira nos ultimos tempos uma relativa serenidade. Tinha de se render á praça numa segunda-feira, e exactamente no domingo a sua mesa encheu-se.

A familia Gomes chegou cedo.

D. Ignacia mudara mais uma vez o feitio ao seu vestido de seda côr de pinhão; que seda aquella! parecia nova, com as rendas pretas do adorno.

—Então, como se passa por aqui? disse ella alegremente, repimpando-se na melhor cadeira da sala de jantar.

—Assim, assim ... tio Francisco não anda nada bom, está muito abatido, respondeu Nina.

—Isso é que é máo. E sua tia?

—Está lá em cima, já vem.

—Gostaram dos biscoitos que eu mandei?

—Muito, são muito bons.

—Eu trouxe a receita para Milla. Amanhã, se Deus quizer, hei de experimentar outros. Como a Ruth cresce! Aquelles são de polvilho. Perceberam?

—Percebemos.

—Com muitos ovos. Nas confeitarias não se fazem assim...

—Não...

Carlotinha tirava o chapéu em frente ao espelho da etagère, cantarolando: