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A fallencia

Chapter 27: XXI
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About This Book

Ambientada no Rio de Janeiro, a narrativa acompanha o funcionamento e o colapso financeiro de uma casa de comércio vinculada ao comércio de café, alternando descrições vibrantes dos armazéns e do esforço físico dos carregadores com a rotina contida dos escritórios e das casas. Por meio de episódios sobre patrões, empregados e vizinhos, explora desigualdades sociais, ambição, moralidade perante a ruína e as consequências da crise sobre relações pessoais e destinos.

«No Brasil é doce d'ovos,
Chiquita!
Um beijo dado em você.»
«Um beijo...»

e chilreou um beijo no ar, cumprimentando Ruth, que sorria para ella.

Judith, com o seu andarzinho saltado de mulher baixa, rabeou pela sala, sacudiu os braços numa tilintação de pulseiras e roubou Nina á mãe, puxando-a para o terraço:

—Você sabe d'uma coisa? Fui pedida em casamento. Ah, como é bom! como eu estou contente!

—Foi o Samuel?

—Então, quem havia de ser?

—Seu pae não queria...

—Que remedio teve elle... Custou, hein? Elle ha de passar por aqui... Você vem commigo para o jardim?

Pouco depois chegaram as Bragas com o estudante dos monologos O Dr. Gervasio mesmo, que não costumava apparecer aos domingos, lá foi para o joguinno com o Lelio e o Gomes.

Francisco Theodoro mandou abrir cerveja. A creançada da visinhança tagarelava pelos corredores. Fazia um sol!

—Gostou dos biscoitinhos que eu lhe mandei, Sr. Theodoro?

—Muito bons ... a Sra. D. Ignacia é emerita. Sabemos.

—São de polvilho... Eu trouxe...

Camilla appareceu na sala. Vinha bonita, toda de azul. D. Ignacia remexeu-se nas sedas e levantou-se interrompendo a phrase. Disse outra:

—Como ella vem! É um céo!

De vez em quando Noca apparecia na porta do corredor, percorria com a vista toda a sala e voltava risonha para dentro, contando aos outros criados, em arremedos alambicados, as pieguices enjoadas da Therezinha Braga com o estudante dos monologos, pelos vãos das janellas.

—Credo, um mocinho tão aquelle...

Ás dez horas da noite começou a debandada. As primeiras a sahir foram as Bragas, com muitos adeuzinhos e risadas. O Dr. Gervasio carregou com o Lelio, dando-lhe hospedagem com a condição de lhe ouvir Chopin. As Gomes foram as vitimas. As moças sahiram carregadas de flores e mudas de plantas, e D. Ignacia com o braço vergado ao peso da bolsa cheia de pecegos inchados, bons para doce.

Com o pretexto da doçaria, ella passava sempre revista ao pomar de Camilla. O marido dava-lhe o braço, com a cabeça erguida, para que não lhe cahisse do nariz o pesado de tartaruga.

—Foi um dia bem passado! disse depois Milla á sua gente.

Os outros concordaram.

Recolheram-se. Quando viu toda a casa silenciosa e fechada, Francisco Theodoro entrou no quarto das creanças.

Do gaz em lamparina descia uma luz doce, attenuada por um globo de porcellana.

Em duas caminhas eguaes, de ferro branco com varaes dourados, e separadas apenas por um intervallo de um metro, as duas meninas dormiam profundamente, com os lençóes revoltos, as pernas nuas, os cabellos espalhados sobre as almofadas. Por acaso estavam ambas de papinho para o ar e labios entreabertos.

Era a primeira vez que as achava semelhantes. Lia, batida de luz, parecia mais clara, tinha um joelho erguido, amparado pela aba da cama; a outra velava-se em uma meia sombra, com as mãos espalmadas no peitinho gordo.

Que dormir tão bonito. Quasi que lhes lia os sonhos, atravéz das palpebras mimosas...

Francisco Theodoro esteve longo tempo a olhar, ora para uma filha, ora para outra. Como eram bons aquelles leitos, como era espaçoso aquelle quarto, como eram finos aquelles sapatinhos que descançavam vazios sobre o tapete, e como cheiravam bem aquellas saiinhas bordadas e aquelles vestidos brancos que estavam alli atirados para as costas de uma cadeira! E não poderiam crescer assim as suas filhas, com aquelle conforto de luxo! Dias depois sahiriam do seu palacete, e iriam ... para onde? que os esperaria a todos?

Francisco Theodoro curvava-se para beijar Rachel, quando sentiu passos; voltou-se assustado. Era Noca que entrava com um copo de leite. A mulata, que vinha deitar-se, recuou espantada. O negociante explicou:

—Pareceu-me ouvir gemer: vim ver o que era.

—Tão sonhando ... ás vezes basta mudar de posição e ficam logo quietas...

—Sim, estarão sonhando ... queira Deus que os sonhos sejam bons...

—Ellas não teem nada! Tão frescas ... apalpe só, p'ra vê...

—Sim, deixe-as dormir ... olhe por ellas ... olhe por ellas!

Francisco Theodoro sahiu do quarto com um nó na garganta. Como seriam educadas aquellas creanças? As pobres ainda não sabiam nada, nem uma lettra ... nem uma! Em vez de subir para o seu quarto, onde Camilla adormecia, elle accendeu uma vela, apagou o gaz da saleta e desceu para o seu escriptorio, no rez do chão.

Á uma hora da madrugada, Theodoro escrevia ainda. Do lampeão de bronze descia uma luz calma, fixa, propicia á escripta. A mobilia de canella e de couro lavrado, núa, bem arrumada, tomava uma feição de espanto naquella claridade muda.

Sobre o contador, o cavalheiro de capa e espada desenhava na parede côr de avelã a sombra da sua attitude arrogante e viva...

Na mesa, ao lado do codigo de Orlando, o tinteiro de prata tinha reflexos brancos; e só das quatro molduras douradas dos quadros saltavam lampejos luminosos que animavam a sala.

Francisco Theodoro escrevia cartas: acabada uma, começava outra. Dir-se-ia que as palavras eram em todas eguaes. A penna corria dando as mesmas voltas e rangendo com força, como se fosse calcada por uns dedos de ferro. Terminada a ultima, collocou-as em um maço sobre a pasta e encostou-se na larga cadeira, offegante, com os olhos no vacuo. Esteve largo tempo assim, immovel. Depois, sem que um unico musculo do rosto se lhe contrahisse, abriu uma gaveta da secretária, tirou d'ella um revólver e examinou-o com attenção. Era uma arma nova, reluzindo ainda ás ultimas fricções da camurça; o negociante revirou-a entre os dedos, moveu o gatilho, carregou-a e tornou a guardal-a na mesma gaveta, que fechou á chave.

Estava alli dentro o descanço, a eterna paz.

Tinha ao alcance da mão o esquecimento de tudo...

No dia seguinte, depois de uma terrivel noite de insomnia, Theodoro desceu á hora do costume para a sala de jantar, reluzente de crystaes e prataria, e sentou-se á mesa, em frente ao terraço que todo se via pelas largas portas abertas. Ao centro, uns degráos amplos desciam para o parque de relvas bem tratadas; junto ao ponto terminal dos balaustres irrompiam, de entre tufos de avenca, dous esplendidos pés de manacá em flor. Francisco Theodoro olhava para elles sem os vêr, absorvido no seu desgosto, quando a afilhada o interrompeu:

—Bons dias, titio!

—Adeus, Nina.

—Estava gostando de vêr os manacás?

—Sim ... estão bonitos...

—Lindos! Sabe? tia Milla vae ter hoje um desgosto!

—Hein?! perguntou Francisco Theodoro sobresaltado.

—Amanheceu hoje morto o cacatuá, e ninguem sabe porque. Noca já está dizendo que é signal de desastre em uma casa...

—Ah! ella disse isso?

—Disse. Nós não nos importamos; mas o senhor sabe como tia Milla é impressionavel!

—Não lhe digam nada. Quem foi que deu o cacatuá?

—O capitão Rino... Quer que eu lhe sirva um pouco de fiambre?

—Não... Dê-me uma chicara de chá...

—Mas o bife e os ovos ahi vêm...

—Não quero nada. Só chá.

—Coma então d'estas bolachinhas. Estão muito bem feitas.

Nina foi ao armario, de onde retirou a biscoiteira de crystal. Emquanto o tio comia, ella sentou-se a seu lado e pediu-lhe lapis para escrever uma nota, nas costas de um cartão de visita. Ao mesmo tempo ia dizendo:

—Deus queira que eu não me esqueça de nada do que tia Milla recommendou...

Depois leu alto:

—Para o senhor fazer o favor de dizer a Mme. Guimarães que mande trazer hoje os dois vestidos de seda e amostras de velludo turqueza.

Dizer ao Bastos que faça, pela medida que tem lá, mais um par de sapatos de setim preto... Ha mais: um kilo de bonbons e...

—Não diga mais; hoje não posso fazer nada d'isso.

—Então tia Milla irá á cidade... É melhor.

—Não! que não vá, atalhou elle nervosamente. Dize-lhe que voltarei cedo. Eu farei tudo ... mandarei vir os vestidos de seda, os sapatos de setim, os doces... Ah! a Noca tinha razão! Sabes tu, Nina?

—Eu? murmurou a moça espantada: Eu? repetia ella, com assombro, eu não sei nada!

—Tens razão ... cala-te e espera. Expliquem a minha mulher o significado da morte do cacatuá. Não faz mal. Adeus, tenho pressa...

Nina ficou pensando:

—Tio Francisco estará doido?


Um lindo dia, quente e luminoso. Nas copas floridas dos flamboyants, as cigarras cantavam estridulamente. Os bonds vinham cheios, e bandos de creanças passavam nas calçadas a caminho do collegio.

Francisco Theodoro é que não caminhava bem: tinha um grande peso derrubando-lhe os hombros, e sentia as pernas amollecidas. Tomou o bond já na praia. Adeante d'elle, no banco da frente, ia um portuguezinho recem-chegado, de jaqueta, chapéo de feltro de abas encebadas e grossos sapatos enlameados. O pequeno volvia para tudo um olhar pasmado, entreabrindo os labios seccos e gretados numa expressão admirativa. Francisco Theodoro não podia desprender a vista d'aquella creança rustica. Veio-lhe á memoria o seu desembarque, a sua pobreza, a crosta da terra patria que trazia presa ás solas brutas dos seus sapatos, e o espanto com que elle, tambem, nos seus primeiros dias, olhava para este céo, e estas arvores, e estas montanhas, em uma interrogação de esperança e de medo; e da saudade que tivera da brôa, da aldeia, das aguas claras d'aquelle rio em que se banhava nas tardes de verão, d'aquellas charnecas onde ia á caça dos grilos, d'aquelles campos de trigos doirados: ao sol, das cerejeiras onde trepava, dos ralhos da mãe, das caminhadas pelas brancas estradas atráz dos burricos do moleiro...

E, em um assomo, teve vontade de dizer ao ouvido do rapazinho: «Volta para a tua aldeia, contenta-te com o pão duro, com a sardinha assada, e a agua do bom Deus!

«Onde ha uma arvore ha sombra onde um homem se deite. Não queiras a riqueza, que ella engana e mente. Mais vale ser pobre toda a vida! Volve; acostuma tua mulher ao trabalho e os teus filhos a rolarem nús pela terra que um dia os ha de comer... Se bem os vestires a todos ... verás: pesarão ouro e valerão pó...»

Eram dez horas quando o negociante entrou no armazem. Seu Joaquim andava azedo e mal humorado, e até mesmo para o patrão tinha um modo rebarbativo e secco. Depois, o trabalho estacionara; não havia nenhum caminhão á porta e os caixeiros pasmavam-se para as rumas de saccos é para as aranhas do tecto.

Francisco Theodoro chegou-se á mesa que estava á esquerda da porta de entrada, apanhou ahi a sua correspondencia e girando sobre os calcanhares entrou no corredor ao lado e subiu ao escriptorio.

Em cima estavam só o guarda-livros, que escrevia de pé, e o velho Motta, todo embebido no trabalho. Trocaram-se os bons dias.

—O Leite Mendes mandou cá?

—Não senhor...

—Está tudo direito, não?

—Tudo.

—Escrevi eu mesmo as cartas ... veja se estão em ordem...

O guarda-livros fez um gesto de recusa.

—Não; já estou desacostumado d'essas coisas ... veja. Depois será bom mandal-as entregar, insistiu Theodoro.

—Julgo melhor esperarmos pela resposta do Sidney, de Santos.

—Para que?

—Adiaremos ao menos a ... a catastrophe.

—Ora! o Sidney! ha de dizer o mesmo que os outros! Olhe, tenho aqui justamente uma carta d'elle, que ainda não abri. Vou lel-a agora.

Francisco Theodoro sentou-se, muito pallido, e rasgou o sobrescripto com mão tremula. O guarda-livros desviou a vista. Houve depois da leitura uma grande pausa, em que o silencio pesava; ao fim de alguns minutos o negociante ergueu-se e começou a passear nervosamente de um lado para o outro. De vez em quando lançava uma pergunta pueril ou distrahida:

—Que dia é mesmo hoje?

—29...

—Ah!... sim ... 29 ... é isso ... 29 ... 29 ... repetia elle baixo.

Os outros calavam-se.

O sol entrava com força pela sacada aberta; Francisco Theodoro poz as folhas da janella em fresta e voltando-se atravessou vagarosamente e em diagonal o escriptorio até o canto da talha, cujo barro começou a raspar com a unha.

Da rua vinha uma bulha ensurdecedora: rolavam conjunctamente carroças e vozes praguejantes; os chicotes estalavam no ar e, em grossas nuvens de pó, o cheiro do café crú subia na atmosphera quente.

Subito, Francisco Theodoro voltou-se para o guarda-livros e disse com voz segura:

—Mande as cartas. E entrou para o seu gabinete.

O empregado releu os sobrescriptos e chegando-se á janella do fundo, que deitava para o interior do armazem, gritou para baixo:

Seu Augusto!

Ninguem lhe respondeu, e como elle repetisse o chamado com mais força, o gerente voltou-se para cima com ar ameaçador e um outro caixeiro gritou:

Seu Augusto ainda não voltou da rua!

Fechado o gabinete, Francisco Theodoro escreveu longamente ao Meirelles e ao Mario, relatando-lhes o desastre, sem lamentações.

Fechada a carta, lembrou-se que poderia talvez ter recorrido á Lage, mas levantou logo os hombros; era uma mulher, que podia entender de negocios? De mais, as coisas iriam em declive rapido, e um novo emprestimo seria um compromisso irremissivel ... melhor fôra não se ter lembrado d'ella. E as tias do Castello? a essas pediria apoio para a familia; elle já nada queria para si; poucos dias teria de vida: o golpe era muito forte para deixal-o de pé. Mas a mulher?... e as filhas? E, afinal, acreditava elle na fortuna das velhas? onde a escondiam ellas que ninguem a via? Riquezas, riquezas, vá a gente desencantal-as em cofres avaros!

As cartas expedidas tinham marcado para o dia seguinte ao meio-dia a reunião dos credores no armazem, para verificação do estado da casa. Francisco Theodoro tinha algumas horas deante de si para avisar a familia, mas faltava-lhe a coragem.

Sahiu do escriptorio mais tarde, fugindo do encontro habitual de um ou outro amigo. Logo no primeiro quarteirão teve um sobresalto; á porta da casa Torres estava um dos seus credores, o Serra; mal lhe adivinhou o corpanzil mettido em alvejantes brins, com um frak preto fugindo para trás e grossa corrente de ouro do Porto arqueando-se-lhe sobre o abdomen arredondado. Francisco Theodoro corou, teve desejos de ser engulido pela terra; e tocando com os dedos tremulos na aba do chapéo, esboçou um sorriso e foi andando.

Já mal podia caminhar: um peso horrivel nas pernas fazia-o retardar os passos, exactamente quando os queria accelerar; arrimava-se com força ao seu chapéo de chuva e remexia os beiços como se fosse a fallar sózinho; era a seccura, tinha um aperto na garganta, parecia-lhe ter engolido todo o pó das ruas.

Já não via ninguem, pouco se importava que o cumprimentassem; ia pensando em tomar o bond na esquina; mas como não o visse alli em toda a extensão da rua, subiu pela calçada, rente aos trilhos. Tinha andado alguns metros quando esbarrou com o Negreiros.

—Então? Todos bons? perguntou-lhe o outro com o ar constrangido de quem já fôra informado do desastre e não quizesse alludir a elle.

—Todos bons ... estou á espera do bond.

—Isso ás vezes demora... Eu não tenho paciencia!

—Han ... é aborrecido.

Pararam ambos, e chegando-se para a parede olharam para um coupé particular que roçou na calçada; dentro ia o Innocencio, que os viu e os cumprimentou com um adeuzinho de mão.

Francisco Theodoro nem tocou no chapéo, e murmurou com odio:

—Cão!

—Vae para a Europa ... segue directamente para Londres, num paquete da Nova Zelandia, amanhã.

—Com o meu dinheiro...

Negreiros enguliu uma palavra qualquer, afagou o nariz e depois, corando um pouco, approximou-se mais de Theodoro e murmurou:

—Se precisar de mim ... os amigos são para as occasiões...

Francisco Theodoro estremeceu e apertou-lhe a mão com força; houve nos olhos de ambos como que o brilho passageiro e eloquente de uma lagrima. Vinha um bond; o negociante tornou a sacudir em silencio a mão de Negreiros e partiu.

No largo da Carioca, ao esperar outro bond que o levasse á casa, Francisco Theodoro topou com a baroneza da Lage, farfalhante nas suas sedas e vidrilhos; quiz evital-a, não pôde; a moça extendia-lhe a mão enluvada, sorrindo-lhe através do véosinho.

—Sabe? Papae escreveu-me. Paquita parece outra, tem engordado muito. Mario está deslumbrado; comprou bellos cavallos de raça em Londres; se não fosse a mulher, diz papae que elle poria em poucos dias todo o dinheiro fóra...

—Ah...

—Eu tenciono tambem partir em breve; vou ter com elles a Paris... Irei abraçar a nossa Camilla qualquer dia d'estes. Mario escreveu-lhes?

—Não...

—É noivo ... tem desculpa ... lá está o seu bond.

—E a senhora?

—Eu vou de carro. Saudades a todos.

Ella afastou-se ligeira, no frou-frou das saias de seda, e o negociante tomou logar no bond, repetindo mentalmente a phrase da Lage, acerca de Mario: «Se não fosse mulher, elle poria em poucos dias todo o dinheiro fóra.»

Nunca a viagem da cidade á rua dos Voluntarios lhe parecera tão curta.

Francisco Theodoro tinha medo de chegar a casa, medo dos beijos das suas gemeas, á espera d'elle no jardim, ambas de branco, risonhas e saltitantes, e de Ruth, no patamar, com os seus olhos de esmeralda, que lhe faziam lembrar os olhos da mãe em uma vaga reminiscencia saudosa; e, em cima, de Camilla, em frente ao espelho, nos ultimos retoques da toilette da tarde, com os braços arqueados e os dedos carregados de anneis, unidos nas ondas negras do penteado...

Que lhes diria elle? que lhes diria?!

Lembrou-se então do Dr. Gervasio: seria esse amigo quem se encarregasse de dizer tudo a Milla, no dia seguinte, á hora em que elle estivesse com os credores no armazem ... no fim, absolutamente no fim!

Essa ideia animou-o.

Iria á noite procurar o medico á sua residencia e confessar-lhe-ia tudo. Ao abrir o portão da chacara, viu as suas gemeas voando nas bicycletas pelas ruas do jardim e ouviu os sons do violino de Ruth em uma sonatina fresca.

Nina fazia um ramo e Camilla, já prompta, formosa no seu vestido cor de milho maduro, lia no terraço, com o cotovello pousado no jarrão das gardenias.




XIX

Com um avental atado sobre as rendas do peignoir, Camilla executava, com a Noca, uma receita de doce dada por D. Ignacia.

Era um pudim, um famoso pudim de nozes, muito apreciado e indefectivel nos jantares de anniversario das Gomes.

A mulata pisava as nozes no almofariz. Milla acabava de observar a calda e voltava a consultar o papel, em que a calligraphia desleixada da Judith confundia os a a com os o o, quando a Nina appareceu dizendo:

—Dr. Gervasio está ahi. Entrou para a saleta. Quer fallar com a senhora.

—A estas horas!... Elle não disse porque não veio almoçar?... perguntou ella alvoroçada; e continuou logo: Bem! Desamarrem-me o avental. Escuta, Noca, quando a calda estiver em ponto de espelho, despeja-lhe dentro as nozes ... depois d'estas bem cosidas retira o tacho do fogo e mistura ao doce doze gemmas de ovo ... torna a pôr tudo ao lume... Anda, Nina! desamarra este avental, de uma vez!

—Deu nó; tia Milla! Tenha paciencia...

—Depois? inquiriu, Noca, emquanto Milla, para não perder tempo, lavava os dedos melosos mesmo na bica da pia da cozinha.

—Depois? Espera, deixa-me ver a receita... Ah, depois da massa estar bem cozida, põe-se no forno, em uma fôrma untada com manteiga. Manteiga fresca, ouviu? lembre-se que o Dr. Gervasio não gosta de manteiga salgada... Prompto este avental? Até que emfim! Fica em meu logar, Nina.

Nina ficou, e Camilla, tendo enxugado as mãos ao avental, que atirou ao chão, dirigiu-se para a saleta, pondo em ordem as rendas da golla, que as mãos ageis ageitavam mesmo sem espelho.

Sentindo-lhe os passos, Gervasio foi-lhe ao encontro, mas com ar tão grave e desusado que ella logo o extranhou.

—Está doente?!

—Eu, não ... porque?

—Você está differente. Que modo!

—É que eu tenho uma coisa muito grave para te dizer.

—A mim?!

—Sim.

—Que é?

Elle não respondeu immediatamente; contemplava-a em silencio, segurando-lhe nas mãos como se a estudasse, a ver se lhe podia despedir o golpe em cheio. Milla impacientou-se.

—Que será, meu Deus! E logo lhe occorreu a ideia de que succedera algum desastre ao filho, um naufragio. Atterrorisada por aquelle pensamento, balbuciou apenas:—Mario?

—Não se trata do Mario. É isto: vocês estão pobres... Theodoro falliu.

Camilla tornou-se livida. Houve um longo silencio cortado só pelo zumbir de uma vespa no rezedá da janella. Ella não ouvia a vespa, não ouvia nada.

O seu rosto, que havia pouco reflectia o fulgor das brasas, estava tão desbotado agora, que o medico, inquieto, com receio de uma syncope, amparou-a, dizendo:

—Comprehendo a estupefacção, mas agora, que a verdade está sabida, é preciso coragem... Camilla!

Como ella continuasse immovel, elle abalou-a brandamente, repetindo-lhe o nome: Camilla ... Camilla!... julgava-te mais forte, muito mais forte! Olha para mim. Percebe o sentido das minhas palavras—fallir não é morrer. Teu marido não morreu,—falliu.

—É impossivel! murmurou ella por fim, com uma voz de somnambula.

—Impossivel porque? a quanta gente tem acontecido o mesmo? Vocês mulheres não entendem d'estas coisas. Só conhecem a vida pela superficie, por isso é que teem surprezas com factos naturalissimos. Hoje a fallencia é de Theodoro, amanhã será de outro e depois de outro... A série ha de ser longa.

—Que me importam os outros!

—Importa como explicação: é uma consequencia do tempo. Mas senta-te, estás muito fria ... queres uma capa?

—Não quero nada. E, como elle quizesse retel-a, ella desprendeu-se-lhe bruscamente dos braços.

—Descança...

—Não posso.

Gervasio calou-se, á espera; ella começou a andar com passadas irregulares, como se buscasse uma coisa, uma palavra, uma ideia. A vida, ha pouco suspensa, voltava agora com impeto. A reacção escaldava-lhe o corpo. Ella ia fallando, estraçalhando phrases:

—Que horror! como havemos de apparecer deante de toda esta gente... Que insensatez, naquella edade! deixar-se fallir! não comprehendo! Que vergonha, que vergonha! E as creanças?!... Não póde ser! não póde ser.

Subitamente parou, com um relampago de esperança.

—Se fosse mentira?!

—Eu seria um miseravel.

—Podiam ter-te enganado. Quem te disse?

—Elle.

—Burro!

Camilla deu um puxão á golla, como se o vestido a suffocasse e recomeçou logo no seu gyro tonto.

O medico tentou acalmal-a:

—Escuta, Milla, tenho hoje, como direi ... pudor em alludir á nossa felicidade; comtudo é em nome d'ella que te peço que não faças a teu marido recriminações insensatas. Lembra-te que elle é o mais desgraçado.

Camilla sentiu as pernas vergarem-se-lhe e murmurou ainda:

—A culpa é d'elle...

—A culpa é de todos.

—Isto não podia ter acontecido de repente, e elle não me disse nada! Os homens pensam que nós não nos interessamos pela sua vida. Teem-nos só para o seu prazer! Só, só, só!

—Theodoro está muito acabrunhado...

—Quando foi que elle te disse?

—Hontem á noite, em minha casa. Chorou.

—Chorou? Foi a primeira vez; eu nunca o vi chorar!

—A dôr é forte.

—Já perdeu uma filha...

—Uma creança apenas nascida... Agora perde a sua honra de negociante, que elle préza acima de tudo.

—A sua honra! mas Theodoro não roubou nada!

—Não, mas empregou capitaes em emprezas de azar. A lei tem severidades. É preciso estar preparada para tudo.

—Quer dizer que elle póde ser preso?

—Quem sabe, não é provavel, mas...

Os olhos de Camilla, até então enxutos, encheram-se de lagrimas e ella disse, com os beiços tremulos:

—Não! elle não sahirá de ao pé de mim. Vá buscal-o.

—Tu o amas, Camilla!

Ella fez que sim com a cabeça e foi sentar-se juncto ao medico, olhando-o de face.

Por algum tempo foi só o zumbir da abelha no rezedá o unico rumor que se ouviu na sala. Gervasio desviou os olhos.

Camilla vergava-se agora toda para os joelhos e chorava, com o rosto escondido nas mãos.

A crise foi longa. Através da porta fechada sentiam-se passinhos indiscretos pelo corredor.

Gervasio consultou o relogio. Eram quatro horas. Que se teria passado em S. Bento? Desejava apressar a situação, acabar com aquillo; sentia-se oppresso, levantou-se, foi á janella olhar para o azul macio do céo chamalotado de nuvenzinhas brancas.

Um bello dia perdido!

Camilla soluçava. Elle voltou-se sem saber como cortar aquella agonia. Nunca o coração d'aquella mulher lhe parecera tão impenetravel, nunca a sua psychologia tão obscura. Esperava vel-a raivosa, assustada pela perspectiva da ruina, reagindo com furia contra aquella decepção tremenda. Era evidente que ella se tinha casado por interesse não seria extraordinario que se julgasse agora roubada... Entretanto, só nos primeiros instantes Camilla tinha pensado em si, no egoismo a que a vida a acostumara; mas a dôr da compaixão viera depressa e manifestava-se mais abundante.

Um pouco irritado, sem poder esconder um movimento de ciume, Dr. Gervasio perguntou baixo a Camilla, fixando-lhe o rosto inundado:

—Mas sempre o amaste assim?!

—Não ... eu comecei a amal-o depois que o enganei... É amisade, é uma amisade muito grande!

O medico não respondeu; olhava para ella pensativo, e depois de um largo silencio:

—Enxuga os olhos. É tempo de chamar o resto da familia.

Ruth e as creanças entraram acompanhadas por Nina e pela Noca, que o Dr. Gervasio quiz associar á familia. E sobre todos elles a porta foi fechada com precauções, para que os creados não percebessem do que se tractava.

Dr. Gervasio expoz o facto em poucas palavras, ferindo o assumpto sem rodeios. Lia e Rachel não o entendiam, embasbacadas para a mãe. As palavras para ellas só tinham som, mas não sentido.

Ruth ouviu tudo sem pestanejar, depois beijou a mãe, e disse:

—Não chore, que isso augmentará a afflicção de papae.

O medico olhou para a menina com assombro; e depois voltando-se para Nina:

—E você, que diz?

—Nada; espero.

—E sei que ha de esperar com firmeza. Muito bem.


Eram cinco horas da tarde, e ainda Francisco Theodoro expunha com voz tremula os negocios da casa aos credores, reunidos no seu escriptorio.

Ouviam-no todos silenciosos, mal se atrevendo, de longe em longe, a uma ou outra pergunta, que a delicada compaixão do momento tornava timida. O proprio Serra, afamado pela sua gordura e pela sua bruteza, fazia-se de leve quando andava, para que o assoalho não gemesse e tinha artes de transformar, para um brando sussurro, o seu vozeirão de trovoada.

Em baixo, o armazem parecia outro. Seu Joaquim permanecia sentado ao pé da mesa, emquanto os caixeiros pasmavam, inactivos, para as rumas das saccas e para as aranhas negras do tecto, que se suspendiam de viga para viga em grandes bambinellas de fumo luctuoso. No chão nem um grão de café; tudo varrido como se fôra um dia santificado. Só na rua havia ainda a bulha das ultimas carroças e o ronco de alguns armazens que fechavam cedo e que parecia arrotarem de fartos.

Do seu ponto, seu Joaquim não perdia de vista a casa do Gama Torres, agora a mais afortunada da rua.

Logo que recebeu o ultimo aperto de mão dos seus credores, Francisco Theodoro refugiou-se no seu gabinete, para que o não vissem chorar; mas as lagrimas que o enchiam não chegaram aos olhos, o coração absorvia-lh'as todas. Envelhecido, exhausto, encostou-se á sua velha secretária, companheira de tantos annos de trabalho, e alli ficou, como um viuvo ao pé da eça em que a amada dorme o ultimo somno.

Já os credores estavam longe quando elle, tomando vagarosamente o chapéo, entrou outra vez no escriptorio.

O Motta chorava, com os cotovellos fincados na escrivaninha. O guarda-livros levantou-se e disse:

—Eu esperava-o para despedir-me. Tenciono partir em breve para o Norte. Vou tentar outra vida...

—Faz mal, não devia cortar a sua carreira ... seja feliz! abraçaram-se.

Motta approximou-se.

—E o senhor? perguntou-lhe Theodoro.

O velho fez um gesto de ignorancia; depois suspirou.

—Fico p'ra ahi, atôa...

—Recommendal-o-ei ao Negreiros.

—Será favor...

Os outros empregados não estavam; Francisco Theodoro agradeceu áquelles o seu concurso e desceu, olhando para os degráos carcomidos com saudade infinita de todas as vezes que por elles pisara, num longo periodo de trinta annos...

No armazem, apertou a mão dos caixeiros, desde o mais infimo, e deteve-se a fallar com o Joaquim.

—O senhor que tenciona fazer agora?

—Sr. Theodoro, eu fui já ha dias convidado para a casa Gama Torres... Devo entrar para lá amanhã...

—Muito bem ... muito bem!... balbuciou em tom frouxo o negociante. E, relanceando o olhar triste pelo armazem, em um ultimo adeus saudosissimo, sahiu para a rua.

Na porta visinha a velha Terencia, com a carapinha occulta no lenço branco, e os bracinhos delgados extendidos para deante, sacudia os ultimos grãos de café, peneirando-os na bacia de folha furada a prego. Já a sombra se extendia pelas calçadas, e só lá em cima o sol encarapuçava de ouro as platibandas dos predios.




XX

Á hora em que Francisco Theodoro entrou em casa, já havia estrellas no céo. O Dr. Gervasio e as meninas esperavam-n'o no portão. Logo no jardim elle sentiu-se abraçado pelas filhas e a Nina com demorada ternura. Desprendendo-se de todos, olhou á roda, procurando alguem.

—D. Camilla adormeceu ha pouco, acudiu o medico—Noca está ao pé d'ella.

Francisco Theodoro não respondeu; sentou-se em um banco, com ar de extenuado, com a cabeça pendida para o peito; e, depois de uma longa pausa:

—Está desesperada, muito contra mim?

—Não; respondeu o medico, está resignada. São todos fortes, acredite.

—Coitadas...

—Não diga assim, papae! exclamou Ruth, não se afflija! Neste mundo então só ha logar para os ricos?

—Bom, só...

—Qual! havemos de ser muito felizes, descance.

—Como recebeu ella a noticia? tornou o negociante, voltando-se para o medico.

—Naturalmente, teve um abalo ... não esperava semelhante coisa, mas venceu-se com admiravel coragem. Em todo caso, dei-lhe um calmante para obrigal-a a dormir e repousar os nervos...

—Fez bem; obrigado.

—Tio Francisco, o senhor deve estar muito fraco; venha tomar sopa, ao menos...

—Estou cançado...

—Por isso mesmo, tome um caldo e vá-se deitar.

Entraram. Na grande sala de jantar havia um certo ar de abandono. Nina esquecera-se de enfeitar a mesa com as flores do costume, e a gaiola vazia do cacatuá punha a um canto uma nota de tristeza e de morte. Francisco Theodoro acceitou a sopa, tomou-a em silencio, e logo depois, deixando todos á mesa, pediu licença para subir. O medico, receioso, acompanhou-o com a vista. Que se iria passar lá em cima? como receberia Camilla o marido?

Parecera-lhe ter sentido passos; deveriam ser d'ella, que já estivesse acordada e andasse nervosamente pela casa...

Lia e Rachel, tão turbulentas, encolhiam-se uma na outra, observando tudo pasmadamente.

Imperturbavel, Nina servia a todos.

—Que edade teem mesmo estas meninas? perguntou o medico de repente, apontando para as gemeas.

—Seis annos, respondeu Ruth.

—É cedo para entrarem para o collegio, balbuciou elle, completando alto um pensamento qualquer.

Tinham acabado de jantar, quando Francisco Theodoro desceu.

—D. Camilla?

—Quando eu subi dormia ainda; mas soluçava de vez em quando. Depois acordou e fez-se de forte para tranquillisar-me. Talvez que ella não tivesse comprehendido todo o alcance da desgraça...

—Comprehendeu, mas resignou-se.

—Obrigado por todos os seus cuidados, doutor; tenho ainda um favor a pedir-lhe: venha cá amanhã, cedo, ás sete horas da manhã. Será possivel?

—Virei.

—Obrigado.

O medico sahiu, recommendando á Noca mil cuidados com Milla. Duas horas depois, a casa estava em silencio; as creanças dormiam, e Nina, não vendo Ruth nas salas, julgou-a recolhida e desceu devagar ao escriptorio do tio, que achou escrevendo na sua larga secretária.

—Dá licença, tio Francisco?

O negociante encobriu depressa com o braço o papel em que escrevia, e respondeu:

—Póde entrar.

E Nina entrou, embaraçada, percebendo o movimento do tio.

—Que quer você?

—Quero pedir-lhe um favor...

—Eu ainda os poderei prestar?!

—Oh! tio Francisco!

—Diga lá.

—Tenho vergonha ... eu...

—Diga, diga.

Nina sentiu impaciencia na voz do tio, e resolveu-se:

—Quero pôr em nome de suas filhas a casa que o senhor me deu. Ella é pequena, mas caberemos todos lá, se...

Nina corou; o tio contemplou-a em silencio, depois, sentindo que as lagrimas lhe corriam em fio pelo rosto, disse:

—Fez você muito bem em dizer-me isso; eu precisava de chorar. Bem vejo que não ha só ingratos no mundo; você é um anjo. Acceito o seu agasalho; olhe por minhas filhas.

As gemeas são muito pequenas, não teem educação ... é o que mais me pesa! Ruth, essa tem talento e um recurso. Tenha tambem paciencia com sua tia, é quem vae soffrer mais...

—O senhor ha de lhe dar o exemplo de resignação.

—Sim. Você que entende d'isso? Vá dormir.

—Mas...

—Vá dormir.

Nina murmurou, muito embaraçada:

—Boa noite.

—Adeus, minha filha. Que Deus a faça feliz.

Ella sahiu sem comprehender bem os gestos desencontrados nem o sentido das palavras do tio.

Elle queria estar só. A dôr fazia-o desconfiado, temia que o amor da familia não subsistisse á catastrophe.

Em que fizera elle até então consistir a felicidade e o seu merecimento aos olhos d'ella? No dinheiro, só no dinheiro. Elle era bom porque sabia cavar a fortuna, encher a casa de joias, de fartura e de conforto. Elle era bom, porque, tendo partido de coisa nenhuma, chegara a tudo, visto que o dinheiro é o dominador do mundo e elle tinha dinheiro.

Ainda não comprehendia como tendo trabalhado tanto, junctado com tão tremendo esforço em tão largo periodo de sacrificios, deixara agora ir tudo por agua abaixo, em tão curtos dias. Desfazer é facil!

Revoltado contra si, Francisco Theodoro cravou as unhas na calva, chamando-se de leviano e de miseravel. Como toda a gente se riria da sua falta de senso. A culpa era d'elle. Deixar-se levar por cantigas com a sua edade e a sua experiencia! Sentia ferver-lhe o odio por todos os amigos que o tinham inebriado com palavras perigosas e futeis. Então todos chamavam o Innocencio Braga de honrado, perspicaz e arguto. Agora, depois de tudo feito e perdido, é que o diziam um especulador sem consciencia. Mas agora era tarde; estava tudo perdido.

Recomeçar a vida? como? Já nem o proprio exemplo da coragem antiga lhe valia de nada.

A energia gastara-se-lhe. Nem o corpo nem o espirito resistiriam á lucta tremenda de recomeçar.

Pela primeira vez Francisco Theodoro percebeu que ha na vida uma coisa melhor do que o dinheiro—a mocidade. Com o corpo vergado, o espirito amortecido, elle era o homem extincto, o phantasma do outro, que ficava boiando no passado, desconhecido por todos, só amado pela sua lembrança.

«Velho ... estou velho! pensava elle, já não sirvo para nada. E agora? Para onde ha de ir esta gente, que eu mesmo habituei a grandezas? Para o sobradinho da rua da Candelaria? Nem isso... Camilla naquelle tempo contentava-se ... agora já se afez a outra coisa. Camilla! Camilla sem sedas? não, não se pode comprehender Camilla sem sedas. Onde tinha eu a cabeça? Miseravel! Eu sou um ladrão, roubei a meus filhos. Eu sou um ladrão!»

Como se quizesse fugir das proprias ideias, começou a andar pelo escriptorio, com ar desvairado. Vingava-o a sensação de que tudo agonisava com elle.

A especulação, a fraude, a ganancia, a traição e a mentira, iriam roendo e corrompendo fortunas e caracteres. Enganados e enganadores seriam todos engulidos conjunctamente pela outra fallencia, de que a sua era uma das precursoras.

No fim, havia de apparecer a justiça punindo as ambições e as vaidades d'estes tempos e d'estes homens doidos, quando, depois de tudo consummado não houvesse nada a refazer, mas tudo a crear.

A pulsação do seu sangue alvoroçado dava-lhe a percepção phantastica de que o Brasil seria arrastado vertiginosamente pela maldade de uns, a ignorancia de outros e a ambição de todos, em voragens abertas pela politica amaldiçoada.

Já não culpava o patricio, o Innocencio Braga, como causa directa da sua ruina. A responsabilidade da sua perda cahia em cheio sobre a Republica, que elle invectivava de criminosa, na allucinação do desespero.

Toda a sua vida de trabalho rotineiro, material, sem ideaes, mas cançativa na sua brutalidade mesmo, parecia-lhe agora como um rio caudaloso que tivesse vencido a nado e de que, só depois de transposto, percebesse o volume e os perigos.

Entretanto, talvez não tivesse sido difficil percorrer aquillo de outra maneira e melhor... Não fosse elle um ignorante e não se teria deixado enfeitiçar por palavras!

Era pois tambem certo que a intelligencia e a instrucção valiam alguma coisa...

Resumindo os seus pensamentos de vencido, Francisco Theodoro disse alto, num suspiro:

—Trabalhei, trabalhei, trabalhei, e aqui estou como Job!

Mas o som da sua propria voz assustou-o. Espreitou a vêr se o viam. Foi á porta; não havia ninguem. Lembrou-se depois dos seus projectos de viagem: idas á Europa, regalados descanços.

Era de justiça, diziam todos, e a justiça fizera-a elle por suas mãos; o homem nasceu para o trabalho, elle devia voltar para o trabalho.

E as forças? Onde estavam ellas, que as não sentia? Ah! corpo miseravel! corpo miseravel.

Affogueado, como se tivesse brasas na cabeça, Theodoro procurou a frescura do ar livre e foi encostar-se ao humbral da janella.

Fôra numa noite assim, de lua clara, que o avô se enforcara numa amendoeira, fugindo, no seu delirio de perseguição, a um inimigo que lhe ia no encalço. Era um camponez rude, o avô; havia muitos mezes antes d'esse acto que elle andava taciturno, agitado; depois, que tranquillidade!

Francisco Theodoro olhou para a noite:

O luar estava lindo, boiava no ar morno o aroma das esponjas e dos manacás, que a luz cobria de uma brancura sedosa e doce.

O aroma das plantas avivou-lhe tambem a sensação dos seus triumphos de outr'ora. Aquella essencia divina nascia da fertilidade das suas terras, trabalhadas por homens pagos por elle.

A criadagem! Como os seus creados, menos feliz do que elles, precisava tambem agora do salario de um patrão, com que matasse a fome á mulher e aos filhos...

—Como Job! repetiu elle furioso, arrancando as barbas e unhando as faces. Não lhe bastava o arrependimento, a dor moral, queria o castigo physico, a maceração da carne, para completa punição da sua inepcia.

Não saber guardar a felicidade, depois de ter sabido adquiril-a, é signal de loucura. Elle era um doido? Sim, elle era um doido. Tal qual o avô! Riu alto; elle era um doido!

Foi então que do fundo do jardim vieram os sons de um violino tocado em surdina.

Francisco Theodoro estremeceu, as pernas vergaram-se-lhe, olhou pasmado para o grande céo tranquillo, onde as estrellas palpitavam, Comprehendeu; Ruth não quizera perturbar a tristeza da familia e fugira com a sua musica para fóra! Aquella era uma forte, amava o seu idéal mais do que tudo, mais do que a vida! Que reservaria Deus áquella alma de extase e de sonho?

Os gemidos da musica vagavam na noite clara como queixas de anjos invisiveis. Não pareciam vibradas por mãos humanas aquellas notas suavissimas e repassadas de doçura. Tremulo, vencido pela commoção, Francisco Theodoro ajoelhou-se e chorou copiosamente. O ultimo beneficio era-lhe ministrado pela filha, como um sacramento. Nem elle soube quanto tempo durou aquella crise de pranto que o suffocava. Quando Ruth acabou a sua musica e elle lhe sentiu os passos leves e apressados na areia, teve impetos de chamal-a e cobril-a de beijos.

Mais forte, porém, do que o seu amor e a sua ternura, foi o medo de enfraquecer. Elle fugiu para dentro; tinha tomado a sua resolução.

Cada homem é creado para um fim. O d'elle tinha sido o de ganhar dinheiro; ganhara-o, cumprira o seu destino. Não podendo recomeçar, inutilisado para a acção, devia acabar de uma vez. Toda a energia da sua vida se concentraria num movimento unico e decisivo.

Ruth subia a escada. Elle foi collar o ouvido á porta para escutar-lhe os passos. Beijaria o logar em que ella punha os pés... Esteve assim longo tempo, depois voltou-se e foi sentar-se a um canto, esperando...

Pouco a pouco a casa adormecia, até que se encheu toda do pesado silencio do somno.

Á uma hora Francisco Theodoro levantou-se muito pallido, persignou-se e rezou, alli mesmo, entre o lampejar das molduras e o ar atrevido do cavalheiro de bronze. Finda a oração, caminhou resolutamente para a sua secretária. A bulha dos seus passos firmes abafou um sussurro leve de saias que deslisavam pela escada abaixo.

Francisco Theodoro tirou da gaveta o seu revólver, olhou-o um instante e encostava-o no ouvido quando a mulher appareceu na porta, muda de terror, extendendo-lhe as mãos. Elle cerrou logo os olhos á tentação da vida e apressou o tiro.

E toda a casa acordou aos gritos de Camilla, que, com os braços no ar, clamava por soccorro.




XXI

A morte de Francisco Theodoro fez sensação.

Amigos e conhecidos acudiram pressurosos á casa da familia.

Negreiros levou a carteira cheia, pensando em fazer o enterro; a baroneza da Lage offereceu-se para educar as gemeas. Chamado de madrugada pelo jardineiro, Dr. Gervasio determinara tudo: o enterro seria conforme disposições do finado, a expensas da sua Irmandade.

Toda a familia soluçava á roda do cadaver. Camilla tinha no olhar uma fixidez de loucura. A scena da morte reproduzia-se deante d'ella, como se uma infinita successão de espelhos a reflectisse consecutivamente.

Culpava-se de ter chegado tarde. Esperara o marido em cima por mais de duas horas, cuidosa, com medo que elle fizesse uma loucura, morta por encostar-lhe a cabeça aturdida ao seu peito de mulher enternecida, sentindo que o amava na sua dôr, mais do que o tinha amado na sua felicidade. Entretanto, porque só obedecera ao desejo de o ver e só viera procural-o no momento justo e inevitavel da morte? Se ella tivesse adivinhado! E a sua obrigação não era ter adivinhado? Por que não tinha ella obedecido logo ao primeiro impulso de suspeita?

O descuido do presentimento é uma falta que a consciencia não perdoa. Sentia-o; revolvia-se em um grande remorso. Oh, se tivesse descido uma hora antes! Um minuto antes!

E agora, como caminharia na vida sem aquelle companheiro de tantos annos? Que fariam todos alli, sem elle?

Seus olhos eram duas nascentes de agonia, choravam sem cessar.

No meio de tanta gente, só o Dr. Gervasio a comprehendia. Os outros mal acreditavam na sua sinceridade.

As maiores condolencias voltavam-se para os filhos, e só por etiqueta e dever de apparencia cumprimentavam a viuva.

As Bragas tinham sido as primeiras, como visinhas, a invadir a casa, e tomaram conta d'ella, affectando grandes intimidades, dispondo, ordenando, mostrando aos extranhos a sua interferencia.

D. Ignacia Gomes foi tambem, muito chorosa, pelo braço do seu velho. Repetia a todos que a Judith ficara em casa com ataques; Carlotinha tambem tivera uma syncope. Eram muito amigas... Pudera não!

Era só gente e mais gente a entrar e a sahir, pessoas curiosas da visinhança, que aproveitavam o ensejo para varar os jardins d'aquella casa de luxo, onde nunca tinham entrado; ondas negras de povo, cruzando-se nas portas, escoando-se pelos corredores, num sussurro de passos e de vozes abafadas...

D. Joanna conseguira, pelos seus merecimentos, um padre para a encommendação do suicida. Com o rosario nas mãos tremulas, os olhos inundados, ella não sahia de ao pé do cadaver, defendendo-o do inferno na fé ardente e pura da sua prece.

Quem lhe diria! um homem tão temente a Deus ... tão digno do Paraizo!

E toda se debulhava em prantos por aquella alma perdida.

Por seu lado, sentada num canto, com as grandes mãos pousadas na seda russa do seu vestido preto, D. Itelvina considerava na fragilidade humana. Porque morrera aquelle homem? Por não ter sabido guardar.

O instincto da vida é o egoismo. Julgara-o mais precavido e mais forte; afinal era um bôbo. Se tivesse o seu dinheiro aferrolhado, acontecer-lhe-ia aquillo? não. Morreria de velho, deixando testamento.

Sempre pensara que elle havia de deixar testamento; seria então uma cerimonia completa e bonita, bem certo é que o dinheiro dá prestigio a tudo.

Empobrecer ... suicidar-se, quem diria? Um portuguez, um homem conservador e acostumado ao trabalho! Ainda o maior crime não estava em suicidar-se, estava em empobrecer, em deixar a familia na miseria.

Na sociedade ha só uma coisa ridicula: a pobreza. Vejam se os jornaes inscrevem o nome dos miseraveis que vão para a valla.

Pois sim! Dizem que o dinheiro não vale nada, mas só dão noticia dos mendigos que deixam moedas de ouro entre as palhas podres do colchão...

D. Itelvina relanceou os olhos pela sala e considerou-lhe o luxo, com asco. A seu lado cahiam as dobras fartas de um reposteiro de velludo lavrado; ella apalpou-o, sentindo com um arrepio o pello do setim do forro agarrar-se-lhe á pelle aspera dos dedos.

—Foi por estas e por outras! murmurou ella de si para si.

Que fará agora esta gente toda? Talvez conte commigo...

Ah, mas eu não posso ... eu não posso. Que trabalhem! para isso Deus lhes deu cinco dedos em cada mão.

No meio d'essas considerações acudia-lhe de vez em quando á lembrança o que estaria fazendo em casa a criada ... não fosse ella dar entrada a alguem!

Ruth soluçou alto; D. Itelvina não se mexeu, mas disse comsigo:

—Coitadinha...

E comsigo ficou no canto da sala, recebendo em cheio a onda dos soluços, que ora decrescia pelo extenuamento, ora redobrava pela violencia da commoção. O cheiro da cêra, a chamma tremula das tochas, faziam-lhe mal á cabeça. Desculpou-se com isso, de não ajudar ninguem; parecia-lhe que a hora do enterro tardava; mas devia chegar, e emfim chegou.

Paravam carros á porta, a sala encheu-se de gente. O Lemos e o Negreiros choravam. Cresceu o sussurro de vozes e de passos, era preciso fechar o caixão. Ruth desmaiou; as gemeas bradaram pelo pae, Nina acudiu a todos, com os olhos em sangue, e Camilla, tirando o lenço da face do morto, beijou-o tres vezes.

De volta do cemiterio, Dr. Gervasio entrou no palacete Theodoro. O gaz da sala de jantar estava em lamparina, elle mal distinguiu uns vultos a um canto; approximou-se. Era Camilla sentada no divan, entre as gemeas adormecidas. Ella, muito pallida, com uma brancura que sahia do negror das roupas, num polimento de marmore, interrogou-o com o olhar.

Calado, o medico entregou-lhe a chave do esquife. Evitaram o contacto das mãos: ella encolheu-se, elle recuou e foi sentar-se ao pé da mesa.

Era a primeira vez que se repelliam. Milla sentia na palma da mão a friagem d'aquella chave pequenina e pesada, sem saber onde guardal-a, com medo de a pôr no seio, achando irreverente guardal-a no bolso.

Gervasio considerava na dolorosa delicadeza d'aquella situação, que o obrigara a elle a trazer do cemiterio a chave da prisão perpetua do outro. Apoquentou-o a ideia de o terem escolhido por ironia, e, olhando para a Milla, pareceu-lhe que nunca mais poderia beijar sem arrepios aquella bocca, que tão repetidos beijos dera num cadaver...

A unica voz na sala era a do relogio; mal se ouvia a respiração das creanças bem accommodadas.

Gervasio quiz fallar, dar alguns conselhos a Camilla; sabia-a muito inexperiente, mas conteve-se, sem atinar como tractal-a. A lingua negava-lhe o tu, a que o seu amor o acostumara. Ella suspirava baixinho, de queixo cahido para o peito.

Uns passos e um roçar de saias pela escada fizeram-a voltar a cabeça. Era a Noca. Vinha buscar as meninas. Tomou Lia nos braços.

—Como está Ruth? perguntou Milla.

—Tá com febre... D. Nina ficou perto d'ella... Camilla voltou-se para o medico:

—Vá vel-a ... sim?

Elle fez um gesto de assentimento e acompanhou a mulata.




XXII

Só no fim de um mez foi que a familia Theodoro tractou de mudar-se.

Nina despediu os criados, montou a casa nova com mobilias baratas, leitos de ferro, louças brancas, sem douraduras. Pensava em tudo, traçava planos, sacudia o torpor e a apathia dos que a rodeavam, indagava preços e discutia o valor dos objectos que adquiria.

—Você dá á propria dor uma fórma de felicidade, disse-lhe um dia o medico; é a mulher mais compenetrada dos seus deveres de mulher que eu tenho conhecido.

—De que serve?!...

—Para fazer os outros felizes. A sua influencia e a sua actividade teem realizado prodigios. E eu que já não acreditava em prodigios!

—Bem vê que fazia mal...

—Bem vejo. Nina sorriu; e depois continuou:

—Fallando serio: tenho medo da responsabilidade que vou assumindo, sem saber como.

Tia Milla não está era edade de acceitar habitos novos sem grande sacrificio; Ruth só ha de querer saber do seu violino; para tudo mais foi sempre...

—Preguiçosa.

—Sim... As outras são tão pequenas!

—Eu estarei a seu lado.

Nina corou, e não respondeu.

Dias depois Noca foi ao quarto da ama avisal-a de que iriam almoçar já na outra casa.

Milla apertou as palpebras.

—A senhora torna a adormecer! Eu vou abrir a janella ... abro?

Camilla não respondeu; sentiu o corpo pesar-lhe na cama e espalmou as mãos no seu largo colchão de clina. Como era bom!

O ocio tinha-lhe infiltrado no sangue a voluptuosidade, que embellezava a sua carne de pecego maduro, colhido ao sol de outomno. O seu corpo redondo e roseo tinha o aroma expansivo da flor aberta, e a maciez da fructa polpuda e delicada que não pode soffrer nem grandes baques, nem grandes ventanias.

Noca insistiu:

—Abro a janella?

Camilla calou-se ainda, procurando gosar mais um minuto o conforto do seu quarto cheiroso. Tinha creado fundas raizes no luxo, não se podia desprender por si, seria preciso que a arrancassem.

A culpa não fôra sua... Seria a ultima vez, essa, que se extendia sob um docel assim de rendas e de setins? Só agora comprehendia o valor das minimas coisas na harmonia do conjuncto.

Alli tudo era bom. A ideia da necessidade, do tacão acalcanhado, do chapéu feito em casa, do vestido forrado de algodão, irritavam-n'a até á doença. A pobreza tem morrinha; é suja.

Quiz lembrar-se do seu quarto de solteira, buscando na humilhação do passado a resignação do futuro; dormira na mesma alcova que a irmã Sophia. Mal pôde reconstruir na memoria o mobiliario barato d'esse aposento, em que havia roupas pelas paredes...

Noca andava pelo quarto; Camilla olhou:

Era em frente áquelles grandes espelhos que o marido a encontrava quando voltava do trabalho, satisfeito dos seus negocios, pisando e fallando alto, com as mãos carregadas de embrulhos de guloseimas e de jornaes da tarde.

E não era para elle que ella picava nos seus vestidos claros uma flor, ou uma joia discreta. Era para o Gervasio que adoçava a sua belleza e se agarrava tanto á mocidade. A mocidade!

Vendo-a abstracta, com os olhos humidos, cheios de tristeza, Noca avisou, já impaciente:

—Olhe, nhá Milla, a gente não deve ir tarde; o carro d'aqui a pouco está ahi.

—Ajuda-me a vestir...

—E as meninas, lá embaixo? Lia e Rachel agora é que vão tomar banho...

—Você tem razão ... eu estou mal acostumada... Vá, eu me arranjarei sozinha. Tambem, para este vestuario... Que saudade, Noca!

—Que se ha de fazer?! Agora é ter coragem!

Duas horas depois Nina passava a ultima revista á casa, abria as gavetas verificando se todos os moveis estavam vazios e limpos, e percorria tudo, do salão á cozinha, da cozinha ao fundo do quintal; Noca ajudava-a na inquirição, remexendo as prateleiras e fechando as janellas e as portas.

No escriptorio, por mais que tivessem lavado, lá ficava indelevel, em uma sombra, no assoalho, a mancha do sangue de Francisco Theodoro. Nina ia passar por cima d'ella, quando Noca deu um grito. A moça recuou, olhando atterrorisada para o chão:

—Pisei?!

—Quasi...

—Meu Deus!

Contemplaram-se as duas por entre lagrimas.

—Foi uma grande desgraça, Noca!

—Se foi! Ainda me parece mentira...

—A mim tambem. Ás vezes julgo mesmo que elle vem da cidade e que vou vêl-o abrir o portão... Pobre tio Francisco!

Pela primeira vez, pareceu-lhes que aquella mobilia impassivel lhes extendia os braços numa supplica.

Na secretaria, ao lado do codigo de Orlando, o tinteiro de prata já vazio e em que a canneta sem penna pesava num abandono de corpo morto, havia scintillações frias.

Nas paredes, chispavam as molduras dos quadros, e desenhava-se a figura atrevida do cavalheiro de bronze, de chapéo emplumado na mão, em um aceno arrogante de adeus.

Disseram-lhe o ultimo, e fecharam a porta.

Na limpeza da casa, Nina encontrara em um caixote, no porão, entre um sem numero de objectos mutilados e antiquissimos, o chicotinho com que Mario a zurzia nos dias de colera, quando, pequena e magra, ella fazia reboar pelos corredores a sua tosse de cão, que elle abafava gritando-lhe:

—Cala a bocca! cala a bocca!

Calar a bocca tinha sido todo o seu trabalho na vida. Com um triste sorriso desbotado, Nina separou de todos os objectos destinados para a fogueira, aquelle chicotinho revelador e prophetico, e guardou-o como reliquia.

Para que nascera ella, senão para ser batida?

Depois de toda a casa fechada, foram para o jardim. Camilla e as duas gemeas esperavam-nas sentadas no banco, em baixo da mangueira. Atraz d'ellas, muito magrinha e pallida, Ruth mal sustentava a caixa do seu violino, pasmando para as arvores amadas um olhar dolorido e longo.

Um minuto depois accommodavam-se no carro. Noca fechava o portão do jardim, entregava as chaves ao criado do Dr. Gervasio, que esperava alli, na rua, para ir leval-as ao patrão. Subiu por ultimo para a caleça. Ao primeiro arranco do carro, de todos os peitos sahiu um suspiro e todos os olhares se voltaram para a casa.

Ruth chorou; parecia-lhe que deixava alli o pae, o seu querido papae... Só Lia e Rachel gorgearam uma risadinha.—Emfim, iam para a casa nova!

Durante a viagem ninguem mais fallou.

Para que? Diriam todas a mesma coisa. Abafavam gemidos, disfarçavam lagrimas, e iam assim, de negro, começar vida nova.

Eram dez horas quando o carro parou em frente á casa de Nina.

Na visinhança, tocavam exercicios num piano desafinado. O sol irradiava com força no cascalho branco do chão.

A casa era pequena, em um trecho socegado da rua de D. Luiza, disfarçada por um jardinzinho mal cultivado. Dentro sentiram-se todos oppressos; habituados á largueza de um palacio, parecia-lhes que aquelles tectos e que aquellas paredes se apertariam de repente, esmagando-os a todos.

O melhor quarto fôra arranjado para Milla e as gemeas; Ruth e Nina dormiriam na mesma alcova, Noca num quarto ao fundo.

A sala de jantar, forrada de novo com ventarolas e japonezes no papel, abria para uma nesga de quintal por um patamarzinho de ladrilho que a desafogava. Tinham-n'a alegrado com um par de cortinas de cretone claro e uns vasos de flores na janella.

Nina explicava á tia como determinara as coisas, sujeitando-se a mudal-as, se lhe não agradasse a posição d'ellas.

Suppuzera melhor supprimir a sala de visitas, e fazer d'ella, que era ampla e clara, a sala de trabalho. Em vez do sofá, do dunkerke inutil, de uma ou outra cadeira preguiçosa, estavam alli a machina de costura, cadeiras fortes, uma estante para musicas, um armario, uma mesa e uma taboa de engommar.

—Aquella taboa faz tão máu effeito aqui ... murmurou Milla numa censura leve, sentando-se, muito abatida.

A sobrinha explicou:

—A saleta lá dentro é muito pequenina, ficou vazia, para as creanças brincarem nos dias de chuva. Se a senhora quer, põe-se lá a taboa.

—Depois...

Quando acabaram de percorrer tudo, Lia e Rachel pediram para ver o resto.

Onde estava a sala do piano? e o escriptorio? Onde guardariam as suas bicyclettes? A cosinha então era aquelle cochicholo?

A mãe anediava-lhes os cabellos, sem responder, com os olhos parados.

Tinham arranjado para cosinheira uma preta velha, de trinta mil réis mensaes. Milla achou-a repugnante e disse a Nina que lhe puzesse ao menos um avental. E á hora do almoço não comeu; olhava para as gemeas que iam devorando os bifes e o arroz da cosinheira nova.

Nina offereceu Collares á tia, que bebeu pouco, sem nem ao menos indagar a proveniencia d'aquelle vinho, tambem, soube-lhe mal, bebido por um copo de vidro, e lembrou-se com pena das suas garrafas de crystal lapidado que atiravam sobre a toalha bouquets iriados e tremeluzentes. Eram como violetas e botões de ouro que nascessem da luz e se espalhassem sobre o adamascado do linho.

O vinho viera da adega do Dr. Gervasio; ninguem mais o bebeu. Lia pediu repetição do bife, Rachel exigiu batatas, e Nina, diminuindo a sua ração, encheu os pratos das primas.

O sol entrava pela janella numa larga toalha de ouro, rebrilhando no verniz novo dos moveis e nas roupas vermelhas dos japonezes retorcidos do papel.

A preta velha trouxe o café numa bandeijinha, mal arrumada, que pousou brutalmente em um canto da mesa.

Camilla fechou os olhos para não ver; quando os abriu, a sobrinha extendia-lhe uma canequinha delicada, do ultimo apparelho do palacete.

Mexendo o café, vagarosamente, a tia perguntou-lhe:

—Só veio esta canequinha?

—E uma chicara de chá; nós bebemos bem nas outras. Veio tambem um copo de crystal. Esqueci-me de o pôr na mesa... Quer mais assucar?

—Não quero differenças para mim.

Depois:—Realmente, custa muito a beber num vidro grosso!...

—Eu não acho...

—Ah, você!

Nina sorriu e foi abrir a porta ao criado do Dr. Gervasio, que entrou trazendo a correspondencia, jornaes e uma carta para Francisco Theodoro, que o carteiro levara ainda á rua dos Voluntarios da Patria.

—Você esteve lá em casa outra vez?! perguntou Milla admirada.

—Sim, senhora. Fui lá com seu doutor, um homem gordo, seu Serra e mais o leiloeiro.

—Já! Andaram depressa!... Olhe, é bom avisar o carteiro.

—Seu doutor já avisou.

—Bem; póde ir...

A carta era de Sergipe. O pae de Camilla queixava-se de doenças e de atrazos; estava muito velho, pedia recursos ao genro. D. Emilia andava ameaçada de congestão; o Joca internara-se com a familia para o interior, por mingua de empregos, a Sophia fôra pedir-lhe agazalho por ter brigado com o marido e as outras duas filhas iam indo.

Desde a primeira até a ultima palavra arrastava-se um suspiro lamentoso de pobreza e de inercia.

Quando Camilla acabou de lêr a carta, deixou-a cahir aberta sobre os joelhos e calou-se muito pallida. Ruth soluçava com a cabeça deitada na mesa. Ouvira as supplicas, mas o que a alterava não eram os cuidados do avô, era o destino d'aquelle sobrescripto que ella tinha deante dos olhos, com o nome do pae, que, na illusão da vida, viera de longe, impellido por varias mãos desconhecidas e que, chegando ao final, não encontrava ninguem!

Releram a carta; vinha atrazada. Já por lá deviam estar fartos de saber a verdade. Como teriam recebido a noticia? Camilla cerrou as palpebras; viu a mãe, tal qual era na primeira visita de Theodoro ao Castello: falladora, animada, com aquelles grandes olhos trefegos sempre reluzindo de esperança ... deveriam estar bem amortecidos agora, aquelles olhos, bem cançados de chorar... E, como nunca, Milla sentiu saudades do carinho e do consolo materno. Estava tudo acabado! Que ventura, se pudesse voltar a ser pequenina, innocente e adormecer no collo da mãe! Seria tão dôce... tão dôce...

Os rigores do lucto trariam a todos reclusos se a estreiteza da casa e o bom senso de Nina não reagissem contra as praxes. Depois, não bastava a economia, era preciso trabalhar, fazer pela vida.

Conheceram-se, pela primeira vez na familia, as agruras do calculo, o dever das restricções.