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A Filha do Cabinda

Chapter 6: II
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About This Book

A narrativa acompanha a intensa ligação entre um escravo cabindense e a menina branca que ele chama de filha, mostrando a dor da separação familiar causada pelo tráfico, a dedicação do homem ao cuidado da criança e a morte da mãe que aproxima ainda mais a dupla ao seu senhor. Ao crescer, a jovem atravessa estados de sonho, medo e esperança, enquanto sentimentos amorosos e tensões de condição social emergem em relação a um homem chamado Luiz. O texto explora afeto, perda e as contradições de laços familiares e sociais num contexto de desigualdade.

The Project Gutenberg eBook of A Filha do Cabinda

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Title: A Filha do Cabinda

Author: Alfredo Campos

Release date: June 29, 2007 [eBook #21961]
Most recently updated: January 2, 2021

Language: Portuguese

Original publication: Porto: Editores -- Peixoto & Pinto Junior 119, Rua do Almada, 123 Imprensa Portugueza, Bomjardim, 181, 1873

Credits: Produced by Pedro Saborano. (produced from scanned images
of public domain material from Google Book Search)

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A FILHA DO CABINDA ***

A filha do cabinda

PORTO--IMPRENSA PORTUGUEZA, BOMJARDIM, 181.


ALFREDO CAMPOS

A FILHA DO CABIDA

ROMANCE ORIGINAL

PORTO
EDITORES--PEIXOTO & PINTO JUNIOR
119, Rua do Almada, 123
1873

A SEUS

ILLUSTRISSIMOS E EXCELLENTISSIMOS TIOS

JOSÉ D'ALMEIDA CAMPOS

ANTÓNIO D'ALMEIDA CAMPOS E SILVA

e

JOAQUIM D'ALMEIDA CAMPOS

OFFERECE

O auctor.



Ex.mos Tios e amigos.

A «filha do cabinda» é uma recordação singellissima de muitas, que conservo, de alguns annos passados, na formosa capital do vasto Imperio do Brazil.

Transcrevi-a do livro da minha memoria, para este que aqui vai, singello, despretencioso, sem flores e sem perfumes, unicamente no intuito de matar horas d'enfado e dias de melancholia.

Resolvido agora, e quem sabe se imprudentemente, a fazel-a correr mundo, nas azas da publicidade, lembrou-me collocar os seus nomes na primeira pagina, como pequenissima significação da muita estima e da muita gratidão, que devo a cada um.

Bem sei que muito fica da divida por saldar, mas quero, ao menos, mostrar-lhes, d'este modo, que não esqueço o muito que teem a haver dos sentimentos do meu coração.

Acceitem, pois, a offerta, que é singella, e avaliem-na pela intenção e não pelo que é.

Sempre

Sobrinho amigo e agradecido

Alfredo Campos.

A FILHA DO CABINDA

A FILHA DO CABINDA

I

A filha do cabinda é formosa como a visão d'um sonho celeste; meiga como o canto do sabiá, poisado nos galhos do cajueiro, e ingenua como a virgem da innocencia.

O cabinda é negro, e negro de raça fina, mas é branca a sua filha, e filha, porque o velho escravo quer muito á senhora moça, que elle beijava e embalava no seu collo, quando era pequenina.

Revê-se n'ella, e n'ella se mira doido d'affeição o pobre negro, e tanto a gravou na ideia, tanto a traz no coração, que chega até a esquecer-se do trabalho, sujeitando-se ás reprehensões do seu senhor, para, insensivelmente, se entregar a scismar n'ella, que é tão bondosa, tão meiga e tão carinhosa para elle; n'ella, que, por uma destas illusões, d'estas miragens, d'estas doidices, d'um grande affecto e d'uma viva sympathia, chega a julgar realmente sua filha.

E filha do cabinda lhe chama elle.

O negro vivia na sua terra, alegre e feliz; lá tinha seus paes, a sua companheira, os filhos e a sua familia.

Um dia, não sabe como, achou-se com todos elles dentro d'um navio, que começou a affastal-o, cada vez mais, da sua patria. Passou assim algum tempo, entre as duas immensidões, o mar e o céo, sem sentir saudades da sua terra, porque levava ainda ao seu lado aquelles que lhe davam alegria. Depois, pozeram-o de novo em terra, levaram-o a elle e aos seus companheiros para uma grande casa, onde os brancos começaram a disputar o preço por que haviam de compral-os.

O cabinda foi vendido e quizeram leval-o.

Leval-o? E a sua companheira? e os filhos? e seus paes?

Esses, foram vendidos tambem, e cada um a seu senhor.

Tristissimo era o negocio da escravidão!

Reagiu o negro, quando o quizeram separar dos seus, e quando tambem os separavam d'elle.

Teve, então, saudades da sua patria, terriveis, sem duvida, porque eram, ao mesmo tempo, saudades da sua liberdade.

Fizeram-lhe, porém, estancar as lagrimas angustiosas as ameaças d'um açoite, e o Cabinda lá partiu, sem esperanças de tornar a vêr os filhos queridos, que nem sequer beijara na despedida, a esposa, que elle adorava com um culto rude, mas sincero, e os paes, que elle respeitava com a sua veneração selvagem.

Partiu, mas ainda assim, boa estrella o guiava, porque, cortando-lhe as affeições mais caras da sua vida, ao menos o levaram para onde tinha de ser estimado, quasi como pessoa de familia, e não como escravo e negro que era.

Em casa do seu senhor foi elle encontrar uma creancinha de dois annos, que tinha uns olhos lindos, os cabellos como os olhos, negros da côr do abysmo, e um rosto como o dos anjos d'um sonho de poeta, como o das fadas boas das visões nocturnas das mattas virgens.

A convivencia foi-o affeiçoando áquella creancinha, que lhe sorria tão innocentemente; que lhe estendia, alegre, os bracinhos mimosos, e, brincando, o abraçava carinhosamente pelas pernas.

O negro, quando via a pequenina Magdalena, sentia não sei que doçuras n'alma, não sei que effluvios no coração, mas que deviam ser gratissimos, porque os olhos desannuviavam-se-lhe logo das sombras de tristeza, que os velavam sempre, e os labios desatavam-se-lhe n'um sorriso de sincero e intimo jubilo.

E tomava-a no collo, sentava-se com ella á sombra das copadas tamarindeiras ou das laranjeiras em flor, cobria-a de beijos e affagos, entretecia-lhe corôas de jasmins e martyrios, e olhava-a, assim n'uma especie de adoração sublime e concentrada, talvez com a recordação nos filhinhos, que perdera, e que eram tambem pequeninos como a mimosa Magdalena.

Tinha dez annos a filha do cabinda, quando perdeu sua mãe.

Ficavam-lhe os affagos d'um pae estremoso e os carinhos do negro affeiçoado; mas que valia tudo isso? que valia a gotta d'agua para tão grande sêde? o atomo em face da immensidade desfeita?

O negro, que era dedicado á sua senhora, tanto como á pequenina Magdalena, esqueceu-se da sua condição de escravo, e arrojou-se, em um impeto de dôr e d'affecto, a entrar no quarto da moribunda, poucos momentos antes d'ella despedir o derradeiro alento.

Estava junto ao leito Jorge de Macedo, que era o seu senhor, embebendo em beijos lacrymosos o rosto da innocente, que ia em breve ser o seu unico encanto n'este mundo.

Os dois, pae e filha, assistiam angustiados ao desabamento d'aquelle edificio da sua ventura.

O cabinda entrou como perdido, olhou para Jorge com receio, com amor para Magdalena e foi ajoelhar-se, de mãos postas, junto ao leito da enferma, chorando como creança.

--Anda cá, cabinda, disse a moribunda, com voz amortecida, ao vêl-o de joelhos, alli, ao pé d'ella. Anda cá; vem vêr como se vai para o céo!...

--Que fazes, atrevido! exclamou Jorge a meia voz.

--Ah! meu senhor! a mãe do escravo é um anjo, e o negro quer despedir-se da sua senhora!

--Sahe, cabinda!

--Oh! não! não! supplicou este. O negro é escravo, mas o negro tem coração!

E abraçava a roupa do leito para abraçar a moribunda, chorava como doido, soluçando em desespero e supplicando com ardor:

--A mãe do cabinda ha-de deixar a sua filhinha e o seu parceiro, a chorarem saudades como o bemtevi do matto? Não, não nos deixes, mãe senhora!

--Papae, atalhou Magdalena, affagando as faces de Jorge, humedecidas pelas lagrimas; o cabinda chora, não trates mal o cabinda, que é nosso amigo.

--Oh! sim, sim! acudiu o preto. O cabinda quer muito á sua filhinha, quer muito á sua senhora e muito ao seu senhor! O negro tem alma e não tem familia a quem a dar. É, como a palmeira do morro, que não tem coqueiro ao lado.

--O negro é bom, meu Jorge, disse a doente a custo. E se te peço muito que fiques sendo a mãe da nossa Magdalena, não te esqueças tambem de que o cabinda a trouxe ao collo muitas vezes, quando era mais pequenina.

--Não esqueço, minha Beatriz! soluçou Jorge.

--E elle não ha-de ser mais nosso escravo, não, papae?

--Não, minha filha.

--Mas o cabinda, atalhou o negro, não quer deixar a casa do seu senhor, não quer viver longe da sua filha.

--Não, não nos has-de deixar, que nós somos todos teus amigos, acudiu a creança, affagando o escravo, emquanto Jorge dizia comsigo, no intimo da consciencia:

--O negro tem a côr do urubú, mas tem alma de pomba rola!

Horas depois, Beatriz, a esposa de Jorge, tinha entregado a alma ao Creador.

Jorge chorava, para um lado, profundamente ferido no coração, as dôres da sua viuvez. O negro e Magdalena soluçavam, abraçados, a perda da bondade da que tanto era mãe d'uma como anjo do outro.

Jorge conheceu, então, até onde ia a dedicação do seu escravo, a grandeza da alma do negro, e começou a olhal-o, a tratal-o e a querer-lhe, muito mais como a um membro da sua familia, do que como a um ente, geralmente visto com desdem, com indifferença e até com desprezo.

O cabinda perdera a sua familia, de que tão barbaramente o separaram, mas havia ganho muito pela sua dedicação.

Bastavam as festas e os sorrisos de Magdalena, de quem elle dizia sempre:

--Agora não tem mãe, é filha do cabinda!

II

O Botafogo é, sem duvida, o mais formoso dos formosos arrabaldes do Rio de Janeiro.

As aguas do vasto Guanabára, que, levemente onduladas, beijam constantemente a fimbria da purpura real da grande cidade, formam, n'aquelle retiro, um como lago de sufficiente superficie, que é orlado, em grande parte da circumferencia, de chacaras magestosas, com vistosos e immensos jardins, vegetação opulenta e luxuriante, e explendidos e poeticos panoramas.

Em 1859, Jorge de Macedo, negociante de café em grande escala, e, ao mesmo tempo, abastado capitalista, vivia no Botafogo, em um formoso palacete, circumdado de lindissimos jardins.

Magdalena, a filha do cabinda, n'esta epocha, em que principia a nossa narrativa, tinha desenove annos, e era a fada d'aquelle arrabalde do Rio de Janeiro.

O cabinda estava já entrado em edade, mas vigoroso ainda, e sempre dedicado.

Occupava-se o negro da limpeza das parasitas, que tentavam envadir as aleas dos jardins, e em algum serviço de Magdalena, sendo, de resto, tractado com toda a estima e amisade.

Magdalena exercia a profissão da caridade, não cuidando senão de dispensar a seu pae os carinhos e os affagos, que havia perdido na sua adorada Beatriz, e em dispensar, dos meios, que lhe abundavam, esmolas aos desgraçados e pobres.

Jorge dedicava-se aos seus negocios e á felicidade de sua filha, que elle adorava muito, fanaticamente até.

A chacara de Jorge de Macedo era um ninho de delicioso conforto, d'uma belleza invejavel, aonde não entrava nunca a sombra d'um desgosto, nem uma nuvem de desharmonia, pequenina que fosse.

Alli, senhores e escravos, brancos e negros, todos viviam em perfeita alegria.

Dos ultimos, porém, o mais querido, o mais estimado, o mais predilecto, sobre tudo de Magdalena, era inquestionavelmente o cabinda.

O negro tambem não abusava, e, diga-se a verdade, bem merecia elle de todos, mas de ninguem tanto, como da que elle chamava, e queria, e estimava como filha.

Era por uma tarde de maio, formosa e explendida. O sol doura, ainda, com os seus raios ardentes, os cumes do Pão d'Assucar, da Tijuca, do Corcovado, e a cupula de folhagem variada das arvores gigantes, que vestem os montes em volta do Rio de Janeiro.

Uma brisa, suave, mas tepida, empregnada de perfumes de flôres e de fructos, perpassa, branda, para o norte, agitando as palmas dos coqueiros e as largas, compridas e pendidas folhas das bananeiras e das palmeiras.

O sabiá trina ainda os seus modilhos deliciosissimos entre a ramagem mimosa d'uma jaboticábeira carregada de fructos, e o beija-flôr pequenino anda na sua peregrinação, voluvel sempre, e sempre rapido, deixando beijos nas flôres brancas do jasmineiro odorifero, ou nas flôres symbolicas do maracujá, que veste as paredes e os caramancheis dos jardins.

O céo está sereno e limpido.

Ao fundo da chacara de Jorge de Macedo ha um pequeno, mas formoso lago, coberto d'agua, que cáe, em monotono murmurio, da bocca d'um tritão de marmore fino.

Por traz, encostado ao muro, e voltado ao lago, ha um vasto caramanchel formado de tranças de cipós e de maracujás, carregadas de flôres e fructos.

Tem no meio uma meza de granito branco, e em volta assentos inglezes de madeira e ferro, talhados de modo que dêem ao corpo toda a possivel commodidade.

A atmosphera tem a côr avermelhada dos raios do sol, que desce a esconder-se no mar, e faz brilhar, com côres phantasticas, as azas, meio diaphanas, das borboletas iriadas, que volitam dos cafezeiros para as goiabeiras, e d'estas para os ramos dos pés d'araçás.

Magdalena, a formosa filha do cabinda, jantou e desceu aos jardins; andou só, pensativa, ora alegre, ora rapida, ora vagarosa, de canteiro em canteiro, colhendo pequeninas flôres, que ia juntando entre as paginas d'um livro, mimosamente encadernado.

Depois, lançou, atravez da gradaria de ferro, um olhar ao vapor da carreira, que passava em frente, atravessando o mar para o Rio, volveu-se passado um instante, e seguiu por uma alea, orlada de grandes jambeiros e pés de grumixama, em direcção ao lago, que jazia no fundo da chacara.

Magdalena era formosa, d'esta formosura, que desperta um culto sincero, uma adoração em que não entra um atomo de sentimentos menos dignos, d'esta formosura, em que se espelha e revela a elevação do espirito, a bondade d'alma e a magnanimidade do coração.

Aquelles olhos negros, scintillantes, orlados d'uma tenue sombra, e aquelle rosto, tão expressivamente angelico, estavam mostrando as flôres de ventura, em que se desataria o seu coração e a sua alma, para aquelle que um dia tivesse o supremo goso de a possuir.

Era magestosa no andar, elegante de fórmas, e simples no vestir, mas d'esta simplicidade, que dá realce, que encanta, attráe e enleva.

Como lhe fica bem aquelle vestido alvissimo, de fina cambraia, liso, desguarnecido, apertado apenas na cintura delicada por um grande laço de sêda azul clara!

Que belleza no modesto penteado dos seus negros cabellos, fartos e setinosos, formando apenas duas compridas tranças, que, cahindo-lhe pelas costas, se prendem, pela extremidade, uma á outra, ainda por um laço azul pequenino!

As pombas rolas, que andam aos pares, fallando amores na sua linguagem mysteriosa, levantam vôo com a approximação de Magdalena, que as segue depois com a vista, até as perder de todo; mas as borboletas de côres variadissimas, seguem-a contentes, como se já a conhecessem de ha muito, e andam inquietas, em volta d'ella, ora subindo, ora descendo, como que desejando beijal-a, mas temendo fazel-o, receiando maculal-a.

E ella lá vae vagarosa e muda, lançando, de quando em quando, um olhar ás flôres, que leva prêsas nas folhas do livro, talvez bem querido!

Chegou assim ao lago, debruçou-se n'elle como procurando vêr os peixinhos dourados, que o habitavam, e foi sentar-se encostada á meza de pedra, n'um dos bancos do caramanchel.

Era expressivo o seu rosto, porque estava desenhando os desejos que sentia dentro de si, e que ella mesma não podia comprehender.

Desejos vagos, mysteriosos, indefiniveis.

Conservou-se absorta durante dois minutos, mas como que acordando, depois, d'um sonho que a prendia, tirou as flôres d'entre as folhas do livro, collocou-as a um lado e pôz-se a lêr alto, com a sua voz meiga, seductora e angelical.

Era um livro de versos, era um livro d'amor, o que ella lia!

E tão prêsa estava com as phrases, que ia repetindo, tão scismadoramente como se em verdade as sentisse; tão distrahida estava de tudo, de todos e de quanto a cercava, que nem ouvia os gorgeios compassados d'um bemtevi, que a sua voz harmoniosa havia desafiado, occulto entre as folhas do ramo d'uma grande mangueira, que quasi se debruçava sobre o lago.

Chegou a um ponto da leitura e deteve-se suspirando. Depois repetiu ainda a quadra que acabára de recitar, e que dizia assim:

Suspiras, alma, n'um anceio languido? Ninguem te affaga, perfumada flôr? Ao sol as rosas da manhã desdobram-se, E a brisa affaga-as com carinho e amor!

E fechou o livro e ficou a scismar, com os olhos negros e formosos, cravados, vagamente, n'um ponto do horisonte.

Passados instantes, encostou a face á mão, como que cedendo ao pêso d'um somno voluptuoso, e por fim deixou cahir o braço sobre a meza e o rosto sobre o braço, n'uma especie de somnolencia, sonhando, talvez, com as phrases do livro, que havia acabado de lêr, e que, sem duvida, a impressionaram ou lhe fallarám á alma.

As borboletas d'azas douradas, lá andavam em volta d'ella, como que embalando-a nos sonhos, que deviam esmaltar-lhe a somnolencia.

O sol havia-se já escondido o bastante para deixar a terra envolta nas sombras do crepusculo.

E a não serem os murmurios da brisa e os queixumes da agua, cahindo no lago pela bocca do tritão, nada mais se ouvia n'aquella hora da tarde, no retiro aonde repousava Magdalena.

De subito começou a fazer-se sentir um leve ruido. Eram as folhas seccas do chão, gemendo debaixo dos pés d'alguem, que se aproximava.

Quem seria?

As aves receiosas deixavam os seus asylos, architectados nos ramos das arvores frondosas, ante a passagem do ser que se aproximava.

Um minuto depois, um negro surgia junto ao lago.

Era o cabinda.

O preto deu com os olhos em Magdalena, parou e susteve a respiração, com mêdo de a acordar, mas nos olhos e nos labios brilhou-lhe logo um sorriso de verdadeira alegria.

--Oh! exclamou elle baixinho, é ella, a filha do cabinda!

E foi, pé ante pé, collocar-se de joelhos, junto á meza de pedra, em posição d'onde melhor podia contemplar a sua filha, e assim ficou sem despregar os olhos d'ella.

Era uma loucura aquella affeição do negro!

III

O cabinda permanecia alli, como o verdadeiro crente, em face do altar do Christo crucificado.

Magdalena prendia-lhe os sentidos, absorvia-o completamente.

A cada respiração, a cada ondulação do seio da virgem, extremecia elle e abria mais os seus grandes olhos, n'uma expressão alternativamente de receio e de esperança, que ella acordasse.

Por fim, Magdalena estremeceu e levantou de subito o rosto formosissimo. O seu olhar meigo e deslumbrante foi encontrar o negro ajoelhado, com os olhos pregados n'ella.

--Ah! és tu cabinda?

--O negro, senhora moça!

--E que fazias ahi de joelhos?

--Olhava para a minha filha, que dormia...

--E que sonhava tambem, cabinda. Tu nunca sonhas, quando dormes?

--Sonhar? repetiu o cabinda. Á noite, quando o negro se deita, e faz escuro em volta d'elle, o cabinda vê a sua senhora, que foi para a terra do Pai dos brancos; vê a senhora moça muito contente, com a cabeça cheia de rosas lindas, e o senhor a dar muitos beijos n'ella. E o cabinda lembra-se, tambem, dos seus filhos e da sua companheira, e chora de noite lagrimas no escuro.

--Coitado!

--Oh! mas o cabinda é alegre, como o jacaiol da floresta, quando a sua filha ri e falla ao negro!

--Pois olha, meu amigo, estou agora muito triste... muito!...

E Magdalena ficou como que embebida n'uma ideia que a dominava, com o rosto em visivel expressão de melancholia.

--E que tem a senhora moça? perguntou o negro com anciedade e receio. O cabinda não a quer triste; as arapongas que chorem, quando o caçador as ferir.

--Nem eu sei o que tenho. Vamos andando que eu conto-t'o.

E tornando a prender as flôres entre as folhas do livro, seguiu, acompanhada pelo negro, uma das aleas oppostas áquella por onde tinha chegado ao lago.

Magdalena ia vagarosa e pensativa; o negro, ao lado d'ella, caminhava abstracto de tudo, sem vêr mais nada.

Que magestoso quadro aquelle!

Magdalena era o anjo meigo e deslumbrante, da mocidade cheia d'explendores, a que sorriem todas as esperanças, e para o qual todos os horisontes são vastos, largos e floridos!

O cabinda era o velho escravo, fiel e dedicado, capaz de tudo para salvar a vida dos seus senhores, saltando de contente com dois affagos e humilhando-se submisso á menor reprehensão.

Os dois caminhavam a par.

Era n'essa hora mysteriosa dos esponsaes do dia com a noite.

Por sobre as suas cabeças arqueava-se, verdejante, o docel das jaqueiras, d'um lado, e dos ramos frondosos das mangueiras, do outro. As aves já se haviam retirado aos gratos asylos.

--Tu sabes o que são saudades, cabinda? perguntou Magdalena ao negro.

--Saudades? repetiu elle, scismando na resposta.

--Sim.

--Sei, senhora moça. É ter o negro a alma a doer muito, como á pomba rola, quando lhe tiram os filhos, ou o parceiro do ninho do matto.

--É isso. Pois olha, eu tenho saudades, e não sei de quê. Sinto a alma a pedir-me uma coisa, que eu não comprehendo, e arde-me o coração em desejos loucos, mas desconhecidos. Quero, e não sei o que quero; desejo, e pergunto o que desejo. Não me falta nada, porque, graças a Deus, sou rica; não ha vontade nem capricho que o papae me não satisfaça, e, olha, apesar de tudo, não vivo contente. De tarde, sempre que chega esta hora, sinto um peso na alma, que eu não sei de onde vem, nem para quê. De noite, então de noite, sonho muito e tenho saudades d'esses sonhos quando acordo. Vejo ao meu lado um rosto que me sorri, uns labios que me dizem coisas que ninguem ainda me disse, coisas bonitas, doces e encantadoras; umas mãos que me fazem festas, que me alisam os cabellos e m'os enfeitam de flores, e uns olhos que me olham muito, e que penetram até dentro do meu coração. Mas depois acordo, desapparece o sonho, vejo-me só, e tenho saudades, cabinda...

O negro, se bem que nada comprehendera de tudo quanto lhe dissera Magdalena, é certo que o havia adivinhado, porque acudiu rapidamente, apenas ella acabou:

--É a alma do branco que vem fallar á alma da senhora moça.

--Do branco? perguntou Magdalena, com ar de quem não comprehendia.

--Do branco, sim. A onça do cannavial e o jabirú das lagôas teem o seu parceiro, como tinha o cabinda, quando veio da sua terra. E a senhora moça, vê o branco nos sonhos, como o cabinda vê a sua parceira e os filhos, mas o branco não apparece.

--Não te entendo, cabinda, acudiu Magdalena, scismando no que o negro lhe dizia.

--O mal da senhora moça é aqui, disse o cabinda, indicando no peito o logar do coração. O branco que a minha filha vê á noite, quando dorme, é que ha de vir cural-a.

--Como?

--Não sei.

--Quando?

--Elle virá. O negro tambem tinha isso, lá, na sua terra. No matto, no cannavial, quando o negro andava á caça, e no rio, quando dormia dentro da sua canôa, o cabinda não tinha a sua parceira, mas o negro via-a sempre. E um dia a parceira do cabinda appareceu, e o negro não soffreu mais, nem tornou a chorar.

Magdalena continuou vagarosa ao lado do negro, mas visivelmente melancholica e pensativa, talvez com o que elle acabava de dizer-lhe.

Estava ella na idade em que o coração começa a desabrochar as primeiras flôres e a sentir os primeiros desejos. Tinha algumas vezes ouvido fallar d'amor ás suas amigas; vira umas alegres, tristes outras, umas cheias de enthusiasmo e ventura, outras soffredoras e melancholicas, e ella sempre indifferente a tudo, sempre sem lhes ligar outra importancia mais do que a que nascia da sua amisade. Nunca um homem lhe rendera uma fineza, nunca um homem lhe dardejára um olhar expressivo; e se algum o fizera, Magdalena ou não o viu ou não o comprehendeu.

Agora, sim. Agora, as saudades de que fallava; os sonhos que lhe floriam ás noites, ou lhe esmaltavam o repouso, eram os traços claros dos desejos, que tinha na alma e no coração, de amar e ser tambem amada, de gozar os dulcissimos effluvios do sentimento, que lhe irrompia no peito.

Tinham chegado assim ao terreiro, que havia na rectaguarda do palacete, para o qual se descia por uma escadaria de pedra, no extremo de uma vasta varanda.

Jorge de Macedo estava de pé, no topo das escadas, fumando um charuto, e n'uma attitude de quem esperava alguem.

Magdalena, apenas o viu, desatou a correr e exclamou:

--Ah! o papae!

O negro ficou só, e Jorge sorriu-se, dizendo:

--Olha que te canças, doidinha!

A filha do cabinda transpoz rapida o espaço que a separava de Jorge, e apenas se achou junto d'elle, fez dos braços um collar, com que lhe prendeu o pescoço, e começou a cobril-o de beijos carinhosissimos, a que elle correspondia em visivel expressão de jubilo e de ventura.

Eram os beijos da flor ao tronco onde nascera! eram os affectos gerados pelos laços mysteriosos do sangue!

Que beijos aquelles! que affecto se não desdobrava alli!

--Mausinho, que me deixou hoje jantar só, queixou-se ella com fingido agastamento.

--Tive muito que fazer, filha. Mas déste o teu passeio até ao lago, não?

--Dei, papae, acompanhou-me o cabinda.

O negro chegava n'este momento, diringindo-se a Jorge:

--A sua benção, meu senhor!

--Adeus, cabinda.

--E amanhã?... perguntou Magdalena, sorrindo com intenção.

--Amanhã...

--É dia de festa; faz o papae annos e havemos de jantar muito alegres! atalhou ella.

--Muito. E vais ter hospedes.

--Hospedes? interrogou com curiosidade.

--Sim. Convidei o guarda livros, e os caixeiros; vem toda a gente do armazem.

--Oh! que alegria vai ser a nossa, não é verdade, papae.

--Grande, minha filha, porque é de ti que ella vem.

E deu-lhe um beijo, onde ia impressa a sua alma e o seu amor de pae extremosissimo.

Magdalena foi, porém, a pouco e pouco, perdendo aquella alegria com que havia acariciado Jorge, e tornando-se pensativa, absorta, e como que esquecida de onde estava e com quem estava.

O negro, do extremo opposto da varanda, tinha os olhos fitos n'ella com a avidez de quem parecia estar estudando-a.

Que nuvens, embora tenues, eram as que assombravam melancholicamente aquelle rosto tão formoso d'aquella mulher anjo?

Que pensamentos lhe agitavam a mente, para que soffresse aquella passagem suave do alegre para o triste?

O cabinda havia-lhe dito que o branco a curaria, e ella pensava n'isso, lembrando-se dos hospedes que ia ter ao jantar, no dia seguinte.

Eram as alvoradas do coração; eram os pressentimentos do que ha de vir!

E scismando n'isso, ia esquecendo-se de tudo, quando Jorge a accordou:

--Esqueces o piano, Magdalena?

--Não, papae; esperava por si.

--Vamos, então.

--Vamos.

E tomou a mão a Jorge, e recolheram-se ambos alegres e contentes.

Pouco depois, o piano gemia, debaixo dos formosos dedos da filha do cabinda, uma reverie de deliciosissimas harmonias, d'estas que levam presas, nas suas azas, o espirito até ao céo.

Jorge ouvia-a n'um extase.

Sentado nas commodas almofadas d'uma cadeira estofada, tinha os olhos pregados no rosto da filha mimosa, da filha, que era o seu anjo, o seu encanto, a sua vida, a sua felicidade mais completa, mas alava o espirito ás regiões celestes, nas ondas d'aquella musica, onde, n'uma especie de mystificação, estava vendo a sua adorada Beatriz, a esposa queridissima, que a morte desapiedada lhe arrebatára tão cedo dos braços!

O cabinda, no entanto, jazia no extremo da varanda, que deitava sobre o terreiro, dizendo comsigo a meia voz:

--Os brancos veem amanhã; o mulato virá tambem. Cabinda, a senhora moça é tua filha!

IV

Vai em meio o jantar, no dia seguinte.

A animação é completa, e viva, sincera e espontanea a alegria, que referve em cada conviva.

É que alli não ha superiores nem inferiores, não ha grandes nem subordinados; ha uma familia festejando os annos do seu chefe estimado e querido, que só como pessoas de familia, olha Jorge para as que tem sentadas em volta da sua meza.

Magdalena preside á festa, como o anjo bondoso e meigo d'aquelle lar, onde só ella é sol, que tudo aquece e vivifica, cuidando pouquissimo de si e tudo dos outros.

Está esplendida de formosura! deslumbrante de encantos!

Tem nos olhos a vivacidade de alegria intima, e os esplendores da belleza d'alma; no rosto a sympathia que fascina, e nos modos a doçura que captiva.

Veste um vestido de sêda côr de flôr d'alecrim, simples, mas elegantemente enfeitado, honesta e delicadamente aberto no seio, onde vem cahir, pendente d'um formoso collar de pequeninas perolas, uma medalha cravejada de brilhantes. Os cabellos, aquelles cabellos negros, tão feiticeiros, pendem setinosos em lindissimos cachos, ornados apenas d'uma perfumada rosa branca.

Jorge cedeu as honras da festa á filha querida, que occupa a cabeceira da meza, occupando elle o primeiro lugar na face direita, á direita de Magdalena.

Segue-se-lhe o guarda-livros, rapaz de 25 annos, portuguez, sympathico, elegantemente trajado, meigo no fallar e polido nas maneiras.

Do outro lado, em face d'estes, estão o primeiro caixeiro, mulato brazileiro, de rosto duvidoso, olhar que pouco lhe favorece o caracter, e modos apparentemente delicados, e os outros empregados do armazem, que não merecem menção especial.

Falla-se alegremente; discute-se com placidez.

Magdalena, a todos attende e não esquece nenhum. De si é que ella cuida pouco.

Entre os serventes nota-se o cabinda. O negro anda entalado nas dobras d'uma gravata branca, cujo laço fôra feito pela sua filha, e veste uma roupa nova de pano preto fino. Anda doido d'alegria, ebrio com a alegria da sua filha.

O negro lança todavia, de quando em quando, uns olhares de expressivo despreso ao mulato que janta, e volve-os depois para Magdalena, como que dizendo-lhe:

--Foge d'elle!

O guarda-livros, que se chama Luiz de Mello, e o mulato caixeiro, de nome Americo de Abreu, olham tambem a seu turno para Magdalena e depois um para o outro.

Ella, porém, a formosa filha do cabinda, parece prestar mais attenção a Luiz, sem que por isso deixe de ser delicada com todos os outros.

Os pratos teem-se succedido, os copos esvasiado algumas vezes, e tanto se tem comido como fallado.

A alegria assentou-se com os convivas á meza d'aquelle festim.

Começam as sobremezas e vão principiar os brindes.

Magdalena é a primeira. Está porém, um pouco acanhada em presença dos seus hospedes porque tomando o calix, vieram colorir-lhe o rosto duas rosas de purissimo rubor.

--Quero ser a primeira, disse ella, porque sou filha. Brindo aos seus annos, papae.

E levou o calix aos labios, mas mal provou o vinho.

--Acompanho a V. Ex.a, acudiu Luiz, desejando com ardor que d'aqui a muitos annos os possa brindar e festejar, tão alegre e tão feliz como hoje.

--Do mesmo modo, repetiram os outros.

--Obrigados, meus amigos. Agradecido, filha.

E Jorge levou a seu turno o calix á bôcca, continuando depois:

--Agora, Magdalena, á saude dos nossos hospedes...

--E, ajuntou Luiz, á felicidade da filha de V. Ex.a, fazendo, todos nós, sinceros e ardentes votos, para que um bom anjo a proteja sempre, a ella, que nos recebe aqui como irmã nossa, e irmã muito affectuosa.

Magdalena tornou a ruborisar-se, olhando para Luiz com olhos de reconhecimento, e respondendo-lhe:

--Obrigada, meus amigos. Faço o que devo e menos do que merecem.

--Á felicidade de V. Ex.a, brindaram todos.

--Obrigado, agradeceu Jorge pela filha.

E o jantar seguiu, e os brindes continuaram.

Luiz olhava cada vez mais para Magdalena, e é certo que encontrava sempre os olhos d'ella pregados nos seus.

Americo analysava aquillo, e o cabinda analysava o mulato.

No entanto, a alegria ia ganhando de intensidade, porque os convivas d'aquelle festim intimo e familiar de Jorge e sua filha, iam perdendo, sem sahirem dos limites do respeito, um resto de acanhamento que a franqueza do capitalista e a bondade da filha do cabinda não poderam de todo dissipar.

Os negros e serventes, tinham por sua vez festa no aposento destinado á sua refeição.

O cabinda, porém, lá chegava, de quando em quando, para, com a sua prudencia, e digamos mesmo, bom senso, impedir excessos e pôr obstaculos a abusos.

Estava a terminar o jantar. Já se fallava muito e nada se comia.

Jorge levantou-se então, e, tomando uma garrafa de finissimo vinho do Porto, dirigiu-se aos seus convidados:

--Vamos ao ultimo brinde.

E encheram-se os copos.

--Bebo, não só á saude e á prosperidade d'aquelles que chamei hoje a minha casa, como pessoas a quem estimo e considero, mas bebo tambem á saude das suas familias ausentes.

--Agradecidos, senhor, accudiram todos.

--A sua mãe, senhor Luiz, brindou Magdalena.

--Mil vezes grato, minha senhora, respondeu elle, vivamente impressionado.

--Agora, para de todo terminarmos esta festa, proseguiu Jorge, e d'ella ficar uma lembrança aos amigos, que aqui tenho em volta de mim, lembrança tão grata, quão grande foi a alegria que me porporcionaram, declaro ao senhor Luiz de Mello e ao senhor Americo d'Abreu que deixam, desde este dia, de ser, um, meu guarda-livros, e meu caixeiro o outro, para se considerarem meus socios nas transacções da minha casa. Não esqueço os outros, que trabalham para a minha prosperidade, e fica desde já o meu socio e amigo Luiz de Mello, encarregado de lhes augmentar os ordenados. Minha filha festejou-me os annos, collocando-os em volta d'esta meza, eu commemoro-os d'este modo, esperando que recolherão assim mais contentes.

--Como é bom, papae! murmurou Magdalena.

Houve então uma verdadeira chuva de agradecimentos, que é desnecessario pintar, e da alegria passou-se ao enthusiasmo, quasi ao delirio.

Luiz levantou-se pallido e tremulo de commoção, mas extremamente sympáthico, e dirigiu-se a Jorge:

--Se V. Ex.a me confunde com a grandissima distincção, com que acaba de honrar-me, chamando-me seu socio, por muitos titulos me honra mais, e mais me confunde ainda, dando-me o nome de amigo, para a conservação e engrandecimento do qual, não deixarei nunca de empregar todos os meus esforços.

--Obrigado, respondeu Jorge, apertando-lhe a mão.

E dispunha-se a deixar a meza.

N'este momento, porém, entrava o cabinda, trazendo pela mão uma negrinha de 10 annos, que o negro foi apresentar-lhe.

--Que é isso, cabinda?

--A Belmira traz ao seu senhor as flôres dos negros, porque o cabinda e os seus parceiros tambem festejam os annos do pae da senhora moça, respondeu o negro, em quanto a pretinha offerecia a Jorge um lindissimo ramo de mimosas flôres.

--Obrigado, Belmira, obrigado, cabinda, disse o capitalista, affagando a creança. E tu, Magdalena, ficas encarregada de ir agradecer a todos, em quanto vamos para o jardim esperar o café.

--Como és nosso amigo, cabinda! disse Magdalena.

E foi assim que terminou o jantar.

Jorge e os convivas desceram para o jardim.

Magdalena foi agradecer em nome de seu pae a lembrança dos escravos.

O cabinda seguia-a com os olhos, a faiscarem alegria, gritando como doido:

--O branco veiu, senhora moça; o branco é bom e gosta da minha filha!

Americo, descendo para o jardim, approveitava um momento, em que só Luiz podia ouvil-o, para lhe dizer, com certo ar de cynismo;

--Temos ambos igual quinhão no negocio: agora veremos quem leva a filha!

V

Pouco depois era servido o café.

Jorge e Americo, tomavam-o, conversando sentados em duas pittorescas cadeiras de bambús, á entrada de um formoso caramanchel de trepadeiras floridas.

Os caixeiros mais novos passeiavam pelo jardim e pela chacara, gosando a liberdade, que lhes era concedida, desforrando-se da prisão quotidiana, e do serviço quasi aturado do armazem.

Magdalena, a formosa filha do cabinda, andava de canteiro em canteiro, mostrando a Luiz de Mello as suas flôres; apontando, deslumbrante de candidez, as particularidades de cada uma, a idade e a procedencia, com a convicção de quem conhecia alguma coisa de botanica, e um tanto orgulhosa dos cuidados, que empregava com as predilectas suas irmãs.

Luiz segui-a e ouvia-a como fascinado, parecendo-lhe mais que estava passando por um d'estes magicos sonhos de delicioso encanto, que tantas vezes embalam a imaginação juvenil, do que assistindo á realidade de vêr e ouvir ao seu lado um anjo, esplendoroso d'encantos, e suavissimo d'harmonia nas fallas.

--Olhe, dizia Magdalena alegre, radiante e sempre formosa; olhe este pé de suspiros. Não é tão, bonito?

--Formoso, minha senhora.

--E estas saudades, não são tão lindas?

--Muitissimo. Saudades... as flôres symbolicas dos que soffrem; dos que, como eu, longe da patria, aonde deixaram a familia, vivem na esperança de lá voltar, sem terem, comtudo, n'ausencia d'ella, um affago, que lhes adoce a aridez do trabalho; um carinho, que lhes lisongeie o sentimento, um consolo n'este correr da existencia, isolado, monotono e, por muitas vezes, triste.

--O senhor Luiz tem muitas saudades da sua terra, tem?

--Se tenho!...

--Tambem eu as sinto! disse Magdalena com ar melancholico.

--Saudades, minha senhora?! perguntou Luiz admiradissimo.

--Sim, admira-se?

--E com razão. Pois V. Ex.a, cercada de todas as commodidades da vida, dos extremos e affagos d'um pae, que é mais que muito carinhoso; nova, formosa, permitta-me V. Ex.a esta verdade; vendo realisados todos os desejos, satisfeitas todas as vontades; V. Ex.a, que é, que deve realmente ser muito e muito ditosa aos olhos de toda a gente, e aos olhos proprios, confessa que sente saudades, e não ha de querer que eu, exilado, sem familia, sem estes nadas da vida, que a dulcificam e embellezam, me admire e espante d'essa confissão?

--Que quer? Tenho-as, sim, mas tambem não sei de que, para lhe fallar a verdade.

--Comprehendo. N'esse caso melhor será que V. Ex.a diga antes que tem desejos... E emfim, quem sabe? Na idade de V. Ex.a, na idade florida dos amores, dos enthusiasmos, das alegrias, das expansões e dos sonhos formosissimos, ha sempre, póde pelo menos haver, muita vez, algumas d'essas melancholicas florinhas, que são, então, como pequeninas nuvens no azul d'um céo estrellado e deslumbrante.

--Não é isso, disse Magdalena levemente contrariada. Não é isso, porque eu nunca amei.

--Ah! V. Ex.a nunca amou?

--Nunca, pelo menos que eu saiba, respondeu ella ingenuamente.

--Mais um motivo para eu crêr que o que V. Ex.a tem, são desejos de amar e ser tambem amada.

--Talvez, accudiu Magdalena córando, e pregando em Luiz os seus negros, grandes e formosos olhos.

--E acreditaria V. Ex.a no amor do primeiro homem, que ousasse render-lhe um culto, confessando-lhe esse sentimento?

--Conforme. O coração é que havia de decidir.

--E o coração de V. Ex.a não lhe diz nada? não lhe lembrou ainda um nome? um homem, a quem tenha de dar as perolas valiosissimas do seu affecto?

--Já.

Luiz estava pallido e tremulo de commoção.

--Oh! se fosse eu!... murmurou elle.

--Que tinha! era muito feliz, era?

--Se era, minha senhora! muito! muito!

--E amava-me? perguntou Magdalena anciosa, e um tanto agitada.

--Oh! com delirio até!

--Pois então não dê a mais ninguem o seu amor, porque... eu tambem o amo muito!

E a formosa filha do cabinda olhou para todos os lados como receiando que alguem a ouvisse.

Creança!

Que commoções a não abalaram n'aquelle momento! que agitação n'aquelle seio tão estreito, agora, para as ondulações do coração, que tantas flôres estava desabrochando!

Era a primeira vez que lhe fallavam d'amor! era a primeira vez que um homem a impressionava.

O que ella viu, o que ella sentiu, era o Paraiso com as bellezas deslumbrantissimas dos seus vastos e perfumados jardins! era o céo com todas as harmonias das suas orchestras, afinadas pelos dedos dos anjos!

Luiz esqueceu-se da patria, da familia, das saudades, que tinha por uma e outra, e começou, n'uma como visão phantastica, a vêr diante de si um horisonte illimitado de felicidades sem fim!

Que dia aquelle! que dia tão venturoso! D'um lado os beijos carinhosos da fortuna, do outro, as flôres magicas do amor d'um seio de virgem!

Eram tão violentas as commoções que o abalavam que apegas poude murmurar:

--Juro-lhe que a hei de amar eternamente! mas supplico-lhe que não me engane nunca!

--Nunca! prometto-lh'o pela memoria sagrada de minha mãe!..

E embebidos nas doçuras, nos enthusiasmos d'este colloquio, que jámais devia ser esquecido Luis e Magdalena tinham-se affastado um pouco para um dos angulos do jardim.

Sentaram-se como que machinalmente.

Magdalena voltava e revoltava entre as suas mãos mimosas e pequeninas um viçoso suspiro; Luiz aspirava o fumo d'um delicioso charuto bahiano, e arrojava depois ao espaço as ondas azuladas, as nuvens pequeninas do fumo aspirado.

Os pés dos jasmineiros floridos impregnavam a atmosphera de perfumes que inebriavam.

E o pôr do sol, o cahir das primeiras sombras do crepusculo da tarde, começavam a pesar na alma d'aquelles dois namorados, estremosos como duas juritys.

--Parto d'aqui a pouco, minha senhora, disse Luis olhando com saudade para Magdalena.

--Mas ha de vir ver-me sempre que poder; sim?

--Sempre que não haja quebra de conveniencias.

--Conveniencias? interrogou Magdalena.

--Sim, minha senhora. Bem vê V. Ex.a que a minha presença muito frequente n'esta casa, póde despertar suspeitas, e eu não desejo, nem devo desgostar o senhor Jorge de Macedo, que apesar de estimar-me muito, talvez não approve esta affeição, que começa a prender-nos hoje.

--Ha de approval-a, basta que eu lhe diga que o amo.

--Em todo o caso não a descubra V. Ex.a por ora, não?

--Não.

---E se um outro homem, um homem qualquer se dirigir a V. Ex.a, ou se mesmo seu pae lhe apontar algum, como digno de partilhar do nome da sua familia?

--Despedil-o-ei.

--Agradecido, minha senhora.

--E olhe, quando não possa vir vêr-me, dê-me ao menos noticias suas, sim? Fico com tantas saudades e com tantas lembranças d'este dia!

--Tambem eu as levo. Mas por quem lhe heide dar as minhas noticias?

--Pelo cabinda. O negro quer-me muito; bem sabe que sou a filha d'elle.

--Muito bem. Agora retiro-me que são horas. Levo-a a V. Ex.a gravada nos olhos, e no coração.

--Faça-me ainda uma coisa, faz?

--Tudo, minha senhora.

--Deixe as excellencias com que me trata e mostre-me mais confiança.

--Seja. Era essa a minha vontade. Adeus... Magdalena.

--Até breve... Luiz!

E apertaram-se as mãos n'uma effusão de grandissimo sentimento, e separaram-se depois, saudosos ambos, ambos melancholicos e impressionados.

Americo e os outros empregados do armazem partiram tambem.

Jorge deixou depois a filha e sahiu.

Magdalena ficou só.

Nas salas havia aquella meia escuridão da hora melancholica da transição do dia para a noite. No céo já brilhavam, formosas, algumas estrellas.

Magdalena foi sentar-se ao piano. Não ia tocar, ia fazer mais, porque ia gemer saudades com aquelle amigo.

As harmonias que encheram a sala eram suaves e melancholicas; casavam-se em tudo com o que ella estava sentindo, e transportavam-a a mundos onde nunca tinha subido.

As mãos formosas e delicadas premiam suavemente as teclas de marfim, mas o seu espirito só via uma imagem, aquella musica só lhe repetia um nome:

--Luiz.

E tão embebida estava, tão embrenhada jazia n'aquelle sonho que a dominava, que nem sequer deu pelo cabinda, que surgiu cautelloso a uma das portas.

O negro parou n'uma contemplação, que era a maior prova do seu culto por Magdalena. Mas ao vel-a assim tão preoccupada, ao parecer-lhe triste, approximou-se carinhoso e disse, com toda a sua affeição a transparecer-lhe na voz:

--Ainda está triste a minha filha?

Magdalena como que accordando d'um sonho respondeu:

--Não, cabinda. Agora penso na felicidade.

--E o branco?

--Tenho-o aqui, respondeu, indicando o coração.

--Mas a senhora moça é ainda a filha do cabinda!

--Sou, sim; tu és meu amigo, e elle... elle amo-o muito!

VI

Vai um pouco adiantada a noite.

A lua dardeja os seus raios de prata nos morros da Tijuca, do Pão d'Assucar e Corcovado, e côa a sua luz pallida pelos intresticios da vegetação luxuriante dos arrabaldes do Rio de Janeiro.

Que noite formosa!

Prendem-se as estrellas umas ás outras pelas suas palhetas luminosas, e bordam, como brilhantes de subido valor, o manto azul da vasta abóbada do céo.

Dormem as aves ao som do murmurio suave das auras, que perpassam entre a ramaria das arvores alentadas e fórtes. A atmosphera impregnou-se durante o dia, dos perfumes das flôres e dos fructos, que o sol fecundante fez amadurecer e desabrochar.

O ananáz e o jasmin, o cajú e as acacias brancas, a pitanga e as rosas de Alexandria, as flôres todas, e todos os pômos das arvores fructiferas, casam, umas com as outras, os seus aromas deliciosos, do conjunto dos quaes, se fórma uma essencia, que embriaga, que é doce, e suave, e agradavel.

O Botafogo dorme, velado pelo manto das suas bellezas, no centro d'um silencio, apenas quebrado pelo cicio das agoas da sua poetica enseada.

No meio de tudo isto, de todas estas bellezas, ha um ente que ainda não repousa, enlevado em sonhos de fascinadora poesia.

É Magdalena, a filha do cabinda.

A formosa virgem encostou-se ao peitoril da sua janella, e, silenciosa, firmou os olhos pensativos, n'um ponto, onde a imaginação e o espirito, estão fazendo passar, desenrolando-se rapidos, uns variadissimos panoramas, umas paisagens de infinitas bellezas!

Está como que sonhando.

Sonha, jurity mimosa e meiga, que os sonhos das alvoradas do amor são formosos e bellos! Abre o sacrario virgem do teu coração, que começa a fecundar as primeiras flôres, aos perfumes que a aragem da noite transporta nas suas azas!

Faz as tuas confidencias á lua; conta os teus segredos ás estrellas; porque uma e outras virão, em cada noite, reflectir da altura, onde andam suspensas, a imagem que te povoa a alma, o coração e a soledade! Scisma; prende pelo espirito, por esse élo mysterioso, que aniquila as distancias, o pensamento ao pensamento, que vem, de longe fundir-se com o teu, em um só! Deixa que o coração se dilate, que a alma se expanda, e se aqueça ao calor do sentimento que a anima!

Oh! mas cahem-te dos olhos, que reflectem o céo, como se a proprio céo elles fossem, duas perolas mimosas!

Porque choras, criança? Que pêso poderão ter na balança do teu destino essas duas lagrimas, que ninguem vê, mas que alguem beberia soffrego, embora occultassem a morte? São o baptismo do teu amor? ou o preço da tua felicidade?

E Magdalena com o seu rosto formoso, mas nublado de melancholia, tinha duas lagrimas a marejarem-lhe os olhos fascinadores.

Aquellas duas gotas crystallinas eram as flôres das primeiras saudades d'amor, saudades pelo primeiro homem, que lhe tocára o coração com a varinha magica do condão do infinito sentimento.

Magdalena pensava em Luiz, estava-o vendo n'aquella hora, como o vira em sonhos tantas vezes, nas noites em que o seu coração sentia o mal estar d'um vacuo incomprehensivel. Meigo e bondoso, affavel e doce, lá lhe estava sorrindo, lá lhe estava fallando com a sua voz attrahente!

E ella tinha saudades d'elle, saudades do dia que havia passado, e saudades d'aquelle passeio pelo jardim, ao seu lado!

Quizera-o alli sempre, quizera-o junto a si eternamente!

Oh! que alternativa não estava passando o seu viçosissimo coração!

D'um lado as claridades magicas do amor nascente, as promessas de Luiz, o preenchimento do vacuo, dos desejos ardentes que ella não comprehendia!

Do outro, a ausencia, a distancia, o atear d'aquelle fogo sublime, a sêde d'aquellas flôres, que haviam brotado na sua alma, a noite d'aquelle dia tão repleto de encantos, a soledade, emfim!

Ó mocidade! como és formosa com as tuas esperanças, com os teus receios, com as tuas alegrias, com as tuas lagrimas, com todos esses contrastes, que te agitam o seio, onde tudo é vida, onde tudo é enthusiasmo e delirio! Sonhas de dia acordada, e velas de noite repousando! Nas paginas do teu livro, se ha cantos melancholicos, ha tambem poemas d'infinita ventura, por que o amor, que te doura as flôres e os dias, é a fonte, onde, com uma lagrima, brotam muitos gosos.

E Magdalena continuava a scismar.

Era a primeira noite d'amor; o somno cedeu o logar aos receios e ás esperanças. Dentro de sua alma e do seu coração havia um murmurio de harmonias, constante, como o murmurio das cachoeiras da floresta.

Ella tinha diante de si uma imagem e nos labios um nome--a imagem e o nome de Luiz.

Este velava tambem.

Scismava em Magdalena, e estava-a vendo com os olhos do seu amor, perpassando diante dos olhos do corpo, airosa, gentil e meiga, como a vira n'aquelle jantar, que nunca mais poderá esquecer, e como a ouvira n'aquelle jardim, de que ella era a flor mais candida e mais formosa.

Luiz habitava na rua dos Pescadores, no Rio de Janeiro, o terceiro andar da casa do armazem de Jorge de Macedo.

Era confortavel o seu aposento, que elle andava percorrendo, visivelmente preoccupado, d'um a outro extremo.

É pequeno agora o ambito do seu coração para conter tudo quanto está sentindo. Um mundo, vastissimo d'esperanças, se está desenvolvendo diante dos seus olhos, no meio do qual avulta, radiante, o anjo de Magdalena.

Encheu-lhe o amor o seio.

Elle, que vivia tão descuidado, entregue ás saudades da patria e da familia, e ao desempenho das suas obrigações, esquece-se de tudo isso, agora, esquece mesmo a imagem, duplamente santa, de sua mãe, para só se lembrar de Magdalena, que lhe era uma pessoa estranha, uma pessoa indifferente.

Oh! o primeiro amor!...

Eram fortissimas as inspirações que o dominavam e tanto mais quanto menos as esperava.

Magdalena deslumbrara-o, não só com a sua belleza, mas muito mais ainda com a sua ingenuidade, com os seus modos despertenciosos, e com a sua franqueza.

Foi um anjo que lhe surgiu do céo, a elle, que andava na terra com a aridez no coração.

Todavia um vago pressentimento d'uma fatalidade o vinha acabrunhar por vezes.

Aquellas palavras d'Americo, quando, depois do jantar, desciam ambos para o jardim, soavam-lhe ainda aos ouvidos e eram-lhe desagradaveis.

Deram-lhe a conhecer que o mulato pertendia tambem Magdalena, e o mulato era capaz até d'uma infamia para a conseguir.

Luiz conhecia-o bem, estava ha muito tempo em contacto com elle, e tinha-o mesmo estudado.

Americo tinha os maus instinctos e a indole dos da sua raça, embora apparentemente adoçados por uma educação rasoavel, e pela convivencia d'aquelles com quem as suas obrigações o levavam a tratar.

O jantar tinha sido n'aquelle dia, e desde que elle findara, ou antes, desde que em casa de Jorge, os dois se separaram, ainda não tinham trocado uma palavra, porque ainda se não tinham encontrado.

Luiz tinha, porém, a certeza de que o mulato não guardaria silencio, e dispunha-se a combater a todo o transe, se tanto fosse preciso...

Que importavam a Luiz as pretenções d'Americo, se Magdalena jurára amal-o, invocando a sacratissima memoria de sua mãe?

Que lhe importava que o mulato, ferido no seu amor proprio, no seu orgulho e nas suas ambições, pelo despreso ou pela indifferença de Magdalena, o tentasse desthronar por meios ardilosos, por infamias até?

Não tinha Luiz a sua consciencia limpa?

Não lhe dizia ella que elle havia de vencer?

Dizia.

No entanto, é certo que o drama ia começar, que a lucta ia travar-se, mas não face a face, e a peito descoberto.

E em quanto Luiz pensava n'isto e na sua Magdalena, lá ia a lua caminhando pelos páramos do azul sem fim, namorando a formosa filha do cabinda, que a olhava melancholica nas saudades do primeiro amor, e reflectindo as suas mil agulhas de prata reluzentes nas aguas murmuradoras das cachoeiras da floresta, e no espelho do vasto Guanabára.

Ó noite! que de pensamentos não desabrocham, no meio do teu silencio, nos corações que viçam amores á luz do teu astro argenteo!

VII

Eram oito horas da manhã do dia immediato, quando Luiz desceu para o escriptorio.

Americo já andava dando as suas ordens para o embarque de uma porção de saccas de café.

Os dois comprimentaram-se amigavelmente na apparencia, porém, com certa reserva e um pouco de frieza, o que não era costume.

Luiz trazia no rosto a pallidez impressa pela vigilia d'uma noite inteira; Americo os traços de quem tinha uma ideia a dominal-o.

E os dois socios de Jorge de Macedo dirigiram-se ambos ao escriptorio, situado no fundo do armazem.

Luiz sentou-se a escrever; Americo começou a examinar a correspondencia do dia anterior.

Os negros e os outros caixeiros andavam na labutação de pesar e ensacar o café.

--Nao sei onde te meteste hontem, desde que nos separamos no Botafogo, principiou Americo, passando a vista de umas para outras cartas.

--Eu é que te não tornei a vêr; respondeu Luiz placidamente, sem volver os olhos dos livros, que tinha diante de si.

--Fui ao theatro.

--E eu vim para casa.

--Ah! exclamou Americo com certo ar intencional.

--Nao sei de que te admiras.

--Eu? de nada.

--Esse ah! solto assim...

--Foi natural.

--Talvez, mas nao creio. Parece-me que queria dizer alguma coisa.

--Não. Já tiveste noticias de Magdalena!

--Noticias de Magdalena?! perguntou Luiz com certo ar d'altiva admiração.

--Sim; ou não deixaste ainda as coisas n'essa altura?

--Gracejas de certo, Americo.

--Não gracejo, não. Então has-de negar que a não desfitaste um momento, durante o jantar de hontem, e que lhe fizeste uma confissão d'amor, em quanto passeiavas com ella pelo jardim?

---Não nego, nem affirmo.

--Calas; quem cala consente.

--Não sei. Mas d'um ou d'outro modo o que me parece é que nada deves ter com isso.

--Outro tanto não digo eu.

--Não sei porque.

--Porque tambem sou pretendente.

--Ah! sim!

--Tu começaste; veremos agora qual dos dois acabará.

--Veremos.

--Mas porque não has-de ser franco comigo?

--Franco em que? e para que? És homem como eu; tens o campo aberto, propões a lucta, acceito-a. Se tiver a franqueza de confessar-te que amo Magdalena, retiras? Não. Ella é que escolhe; se algum de nós lhe convier, o outro já sabe o que tem a fazer.

--E se eu fôr o escolhido?

--Paciencia. E se não fores tu?

--Hei-de empregar todos os meios.

--Todos?

--Todos, sim. Os da minha raça bem sabes que não recuam nunca, e se o ignoras fica-o sabendo agora.

--Em todo o caso diz-me: Queres a mulher pelo dinheiro, ou queres a mulher porque a amas.

--Quero-a por ambas as causas... principalmente.

--Comprehendo.

--Julgas, talvez, que na balança da conquista, o prato pende mais para o teu lado? Enganas-te. Nós, os brazileiros, e sobre tudo os que, como eu, teem na face a côr bronzeada do cruzamento das raças, estamos fartos de vêr que os pobretões dos portuguezes nos venham, de tão longe, roubar as mulheres e o dinheiro.

Luiz córou e pôz-se d'um pulo em pé.

--Insultas-me! exclamou elle.

--Não; digo a verdade.

--Dizes a verdade! bradou Luis com ironia. Havia de fazer engulir-te a phrase se não conhecesse que fallas despeitado. Fallas dos pobretões dos portuguezes! Que seria de ti e dos teus se não fossem elles! Morriam todos de fome, haviam de ser uns miseraveis! Nós é que trabalhamos, nós é que vos sustentamos, pódes ter a certeza d'isto. Se vos levamos o dinheiro, levamos apenas uma parte do fructo do nosso suor, ficando tu e todos os teus com a outra, com a maior, sem o minimo esforço de corpo e de espirito; se nos ligamos com as vossas filhas é por que as merecemos, é porque somos verdadeiramente dignos d'ellas, para não dizer que mais honra lhes vai com estas allianças, do que a nós. Repito; eu queria vêr o que seria de vós se não fossem os pobretões dos portuguezes; de vós, que apenas nascesteis para vos bamboleardes na rêde, indolentes, occiosos, tomando o vosso café e fumando o vosso cachimbo.

--Seja como fôr; não discuto nobrezas de nacionalidade. O que te digo é que hei-de empregar todos os meios para conseguir Magdalena.

--E eu affirmo-te que nem um só vingará.

--Veremos.

--Veremos. Declaras-te meu inimigo, atiras-me a luva, levanto-a. Conheço agora que has-de usar de todas as armas, desde a hypocrisia, desde o ardil apurado até á infamia, até ao crime refinado. Pouco importa. Hei-de bater-te com a verdade, só com ella te hei-de derrotar. Todavia, recommendo-te prudencia, porque se o meu braço se envergonhar de castigar-te, talvez haja quem o faça sem que o esperes.

--Ameaças-me?

--Não; previno-te.

--Pois bem; eu me defenderei.

--Mas de modo que não vás ferir aquelle que ainda hontem, além de nos sentar á sua meza como amigos, nos elevou á dignidade de partilharmos da sua fortuna. A lucta é comigo, e só comigo, e se me encontras disposto a combater-te, não me encontrarás disposto a tolerar-te a minima coisa que possa, mesmo de leve, ferir Jorge de Macedo, que é hoje meu socio, meu protector e meu amigo, finalmente. Mais ainda, Americo, e isto vale uma ameaça. Magdalena é uma pessoa sagrada para mim, e exijo que o seja para ti. A menor falta de respeito da tua parte, a menor insolencia que lhe dirijas, pagal-a, bem paga, fica certo d'isso. A contenda é comigo e só comigo, ainda uma e ultima vez t'o digo.

--Pouco me importam as tuas ameaças, e respondo a ellas com uma gargalhada.

--Bem sei que vai até ahi o teu cynismo e a tua cobardia.

--Luiz!...

--Cobardia, sim! affirmou Luiz perfilando-se destemido em face de Americo.

Este ia, n'um impeto de raiva, a lançar-se ao guarda livros, mas ao vêl-o tão resoluto, ao vêr-lhe nos olhos a chamma da valentia e a coragem com que o esperava, recuou, deteve-se, e volveu-se, saindo a dizer:

--Ia-me zangando! A occasião não era propria, e nem mesmo valia a pena. Tenho tempo de desforrar-me.

--Ou de levares uma licção que te aproveite, canalha! respondeu Luiz.

Dois minutos depois, já Americo andava ordenando e vigiando o trabalho dos negros e mais caixeiros do armazem, e Luiz continuava escrevendo, como se nada lembrasse a cada um d'elles d'aquella scena que o mulato havia provocado.

No entanto Luiz estava livido, d'esta lividez produzida pela raiva sopeada, e Americo, no meio da labutação dos seus subordinados, trazia nos olhos espelhado claramente, o pensamento, o desejo de vingança, que lhe avultava no seio.

A imagem, formosa sempre, e sempre sympathica de Magdalena, lá estava, apesar de tudo, interposta entre os dous, a separal-os, a affastal-os, a lançal-os, sem mesmo ella o pensar, em uma lucta tremenda, que devia necessariamente terminar muito mal para um d'elles, pelo menos.

Luiz via-a com os olhos do seu amor, do seu affecto, da sua virtude; Americo com os olhos dos seus desejos desenfreados de vingança, com os olhos da sua ambição e do seu calculo.

Magdalena era o centro d'uma linha nos extremos da qual se agitavam convulsivamente sentimentos inteiramente oppostos.

Teriam ambos a mesma força?

Qual d'elles tinha de attrahil-a?

É facil prevel-o. A imagem de Luiz já lhe enchia o seio, já lhe havia povoado os sonhos da primeira noite d'amor, aquelles sonhos porque ella passára accordada, solitaria na sua janella, com os olhos cravados na lua, e a alma a sentir o gosto amargo d'uma saudade indefinida.