O outro processo «pode parecer, nesta hora de sonhos e desastre, de extremos de esperança e desilusão, um trilho longo e enfadonho. E a velha estrada larga da civilisação, não os atalhos através dos campos. Espera resultados duradouros, não da cooperação mecânica dos govêrnos, mas do crescimento de um direito civil orgânico, pela educação das próprias nações no sentimento do dever e da vida comum. Espera, não o estabelecimento definido do Estado do mundo em nossos dias, mas sómente uma refutação definida da perniciosa teoria da incompatibilidade mútua das nações. Espera a expressão do govêrno do mundo na ordem externa, daquilo que podemos chamar o princípio da República, do grande princípio de lord Acton, do estado composto de nações livres, do estado como um corpo vivo, que vive pela união orgânica e livre actividade dos seus diversos membros. E encontra o seu imediato campo de acção no alargamento da profundeza e extensão das obrigações civis entre os povos das grandes, livres, justas, supranacionais repúblicas, cujo patriotismo foi edificado, não por preceito e doutrina, mas sôbre o firme fundamento das mais antigas lealdades».
«Os problemas derivados do contacto das raças e das nações nunca podem ser resolvidos nem pela acção prudente dos indivíduos nem por conflito e guerra; só têem solução em uma política deliberada e recta no seio de cada estado, no reconhecimento por ambas as partes de exigências mais altas do que os seus interesses seccionais—as exigências de direitos civis comuns e do interêsse da civilisação. Nisto, na união e colaboração das diversas raças e dos diversos povos, é que o princípio da República encontra o seu campo peculiar de operação. Sem êste princípio... o mundo será o caos que hoje é»7.
Eis aí a lei suprema da história—a preponderância da actividade interior e inconsciente dos povos sobrepondo-se às lucubrações, aos decretos, às legiões, à vontade e à vaidade e inanidade dos capitães e dos imperadores, e preterindo-os inexoravelmente em todos os grandes movimentos da humanidade. Roma e a constituição jurídica e moral do mundo latino que dela nasceu e é seu espelho, foi apenas o maior exemplo da inflexibilidade dessa lei do desenvolvimento das raças, duas vezes repetido naquele lugar, primeiro criando a unidade política da civilisação, e depois refazendo-a, quando, decrépita, carecia de ser renovada pela unidade religiosa. A face das cousas parece mudar mas sómente a sua face muda; em sua essência permanecem sujeitas à mesma lei, idêntica e constante nos grandes feitos como nos mais pequenos, de fronteiras a dentro das nações como em toda a largueza dos continentes.
Se o cristianismo tem de prevalecer e redimir das suas misérias o mundo, será únicamente por «êsses esfôrços de milhões de homens inconscientes do resultado final», por «êsse trabalho interior, invisível, de que ninguêm tem consciência», por efeito dessa misteriosa disseminação. Quando as leis escritas a definirem e reconhecerem, será porque de facto a sua vitória a isso as obrigou. Não serão elas que lhe hão-de dar ou roubar o seu domínio.
Quarenta anos de materialismo brutal, inflamado por um mesquinho e desvairado orgulho scientífico, terminam hoje na guerra a sua obscurecida fama e glória, aquela por demais terrena que ao seu espírito correspondia e que era a única a que a sua fascinação podia conduzir. Esse materialismo cái pela fragilidade das suas edificações, porque só produzia dôres onde prometia alegrias, só acumulava ruinas onde ostentára traiçoeiras prosperidades. Mas, antes que um cataclismo inaudito lhe demonstrasse a estreiteza e inconsistência, um trabalho subtil lhe minára os fundamentos: aniquilivam-no aquêles mesmos que o haviam gerado e nutrido, os apóstolos e os seus fiéis, os filósofos e os pensadores, a inspiração dos poetas, as academias, e sobretudo as multidões que os ouviam, sentiam e interpretavam, fatigadas de errores e de desprendimento religioso e moral; e, verificando pela experiência de agudos instintos os benefícios e os males das doutrinas e das crenças, conforme a verdade e felicidade que lhes trazem ou lhes roubam, assim as amaldiçôam ou engrandecem. São êsses poderes invisíveis e imponderáveis, que habitam no coração das multidões anónimas, que nos dirigem e dão a vida e a morte, nos indivíduos como nas sociedades. Só êsses poderão libertar-nos da guerra ou eternisar a sua danação; e as igrejas valerão então o que valer a sua obediência ao princípio cristão, e os estados serão um flagelo, se em acção o negarem, ou uma fortuna, se o respeitarem e traduzirem nas cousas da terra e nas relações entre as nações.
Da arte de gastar e suas responsabilidades
«Uma crise grave ilumina e descobre perigos que se não suspeitavam; hábitos que anteriormente nos pareciam tão inocentes e naturais que nenhum mal encerravam, mostram-se com uma dupla face nos seus efeitos. Parece que se torna necessaria mais reflexão; e, posto que nos seja impossível achar remédio simples para ruins efeitos, sabemos que, começando a pensar honestamente, teremos probabilidades de achar o caminho de melhores hábitos.
«Será esperar muito que entre outras cousas boas que podem resultar desta negra crise, venha a nascer um certo acordar, da nossa parte, quanto à futilidade, assim como quanto ao perigo, de muitas das nossas despesas? Não é bem para uma nação que uma quarta parte dos seus rendimentos se gaste de um modo inconstante. Não é bem para uma nação que a quarta parte da sua capacidade de trabalho se especialise a produzir cousas que se vêem e sentem destituídas de valor, mal uma crise o vem pôr em prova. De resto, os ricos não são os únicos que no seu gastar estão em falta; tambêm os pobres teem os seus poucos luxos inuteis. Mas são os ricos, e não os pobres, que individualmente teem maior responsabilidade na errada direcção do trabalho, emquanto são êles que individualmente possuem maior poder de gastar e são, por conseguinte, os que gozam de maior liberdade para escolherem o modo por que hão-de usar êsse poder.»
A isto vem, em suas conclusões finais, o opúsculo precioso que, sob o titulo de Spending in War Time, o professor E. J. Urwick publicou, em Oxford, na colecção de Papers for War Time, dirigida por W. Temple.
Inspirada na convicção de que «esta guerra é o resultado e a revelação dos princípios anti-cristãos que dominaram a vida da cristandade do ocidente, e dos quais tanto as igrejas como as nações carecem de se arrepender», essa colecção é uma crítica penetrante e serena de muitas angustias em que a indigência e a perversão religiosa nos lançaram, e é simultâneamente um estudo magnifico de diversos problemas que a ansiedade de melhores dias definiu e pôz, não sem esperança de soluções por igual próprias a satisfazer as investigações da consciência moral e as necessidades da vida prática. Os que seguem a Cristo, estão unidos entre si em uma comunhão superior a todas as divisões de nacionalidade e de raça; «os deveres cristãos e de amor e de perdão prendem-nos tanto em tempo de guerra como em tempo de paz». E os cristãos teem de reconhecer «a insuficiência da mera compulsão para vencer o mal, e de guardar a confiança suprema nas fôrças espirituais, particularmente no poder e no método da Cruz». Disso depende, no conceito dos que se associaram à missão de que os opusculos daquela colecção são inteligente testemunho e instrumento eficaz, disso depende uma paz duradoura.
Para o conseguirmos, torna-se necessario um novo esfôrço com o fim de aplicarmos em todas as relações da vida a aspiração de comunhão e fraternidade; e neste pensamento cada um, examinando os seus recursos, virá a considerar o que faz e o que deve fazer dos meios económicos que o destino lhe facultou, como serve ou contraría os princípios cristãos e o seu reino na terra, e especialmente como favorece ou embaraça a solução dos conflitos económicos que a guerra exacerbou e revelou com uma dolorosissima evidência.
O problema será de minguado alcance para todos aqueles a quem a exiguidade de meios determina e restringe imperiosamente a natureza e extensão das despesas. Esses gastam o que não podem deixar de gastar para se sustentarem, quando freqùêntemente, e por desgraça, não são reduzidos ao extremo de não gastarem sequer aquilo de que careciam para o seu parco sustento, porque de todo lhes faltam os meios indispensáveis. Mas não acontece assim com outros, ainda numerosos, de facto representando uma fôrça poderosa na actividade das sociedades; e êstes, tendo mais do que o necessário para o sustento, ficam por isso com uma larga margem para a livre distribuição de grande parte dos seus haveres pelas despesas que lhe aprouverem, e paralelamente estão sujeitos às responsabilidades que a sua abundancia e liberdade implica.
E êstes o que fazem, sobretudo o que devem fazer na crise presente? Continuam as suas despesas de luxo e a sua prodigalidade de futilidades em prejuizo de despesas de necessidade social urgente, continuam em seus regalos, ignorando a indigência dos oprimidos e famintos? Ou, para acudirem aos necessitados, derivam das suas dissipações habituais as somas que nelas empregavam, e para isso criam novas legiões de indigentes, condenando à miséria, pela cessação do trabalho, aquêles que lhes serviam as dissipações, provendo-lhes o luxo e as futilidades, disso auferindo o pão de cada dia e para isso tendo sido educados por longos anos de prática e especialisação, que não raro os tornaram inaptos para outras profissões?
A situação é de uma agudeza extrema. Para qualquer lado que se movam os que teem disponibilidades a empregar, ou persistam nos antigos hábitos ou tomem por caminho novo, já não fugirão a semeiar privações, alongando-as a uns porque não lhes dão o pão que deveriam dar-lhes, e causando-as a outros se, para acudirem aos primeiros, se apartam dos ultimos, negando-lhes o que até aí lhes davam e em certo modo prometiam dar-lhes, pela invariabilidade do que lhes pediam.
A conjuntura é opressiva, e fômos nós, por nossa vontade, que lhe demos causa, por nossa pobreza de senso moral, por um deplorável abandono a toda a casta de apetites. Organisamos e distribuímos as nossas despesas sem cuidarmos das responsabilidades económicas que elas importam, constantemente de profundo alcance e agora cruelmente postas a nú pela perturbação em que a guerra desfez muita ficção e muita ilusão. Seriam as nossas despesas como essas doenças latentes, graves, fatais, que se escondem em aparências de saúde e artes de bem trajar, e que uma febre acidental revela aos que em sua negligência não as tinham previsto nem sentido, aterrando-os então pela iminência de perigos mortais e pela presença de própria miséria. Por uma incúria que é o indício da lastimosa leveza de consciência moral e religiosa de que nos deixamos possuir, viemos a regular ordináriamente as despesas e toda a distribuição dos nossos bens segundo o volume dos meios de que dispomos e segundo os apetites que nos incitavam e cuja legitimidade nem de longe discutiamos. Desprendemos-nos da consideração das conseqùências ulteriores da aplicação dos nossos haveres; jámais ponderamos, como obrigação e dever, que género de trabalho êles criavam, quantos trabalhadores alimentavam e em que condição os mantinham, que influência social exerciamos por êsse modo, que bem-estar ou que miséria dependia de nós, que instabilidade e perigos conseqùêntes eram os companheiros obrigados das nossas obras e tendências. Vamos em uma leviana e traiçoeira certeza de que gastando, seja como fôr, beneficiamos o comércio e acrescentamos a riqueza e o tráfego, unicamente porque demos emprego a muitos braços.
Na verdade, assim acontece; o nosso luxo e a nossa dissipação significam o sustento de muita gente. Sómente esquecemos, e o mais das vezes ignoramos inteiramente, porque, à falta de vigor moral bastante, isso escapa à nossa atenção e nem de longe nos toca, e muito menos preocupa a consciência, sómente não perguntamos que especialização de trabalho e de capital os nossos hábitos determinam, que espécie de constituição económica criam e sustentam, e de que enfermidades ela padece e faz padecer os homens que lhe estão sujeitos. Pois é evidente que será, por exemplo, muito diversa em seus riscos a situação de costureiras empregadas a fazer vestidos de baile, para êsse trabalho amestradas, e a situação dessas mesmas costureiras empregadas a coserem blusas de trabalhadores. Ao mais pequeno alvoroço mercantil ou qualquer outro, cessam os bailes, as costureiras ficam sem trabalho e anula-se o capital que lhes era destinado, desaparece; emquanto só em ultima miséria e na maior calamidade deixam de ser necessarias as blusas dos trabalhores, e cessa de se aproveitar o capital de que o seu fabrico carece, e se suspende ou interrompe o pagamento do trabalho que reclamam. São infinitamente e manifestamente menos numerosas as contigências de retribuição do cavador do que do ourives; entre êles há toda a distancia que vai das necessidades essênciais da existência aos caprichos acidentais de adorno e de prazer. E dada a dificuldade, e em muitos casos a impossibilidade de mudar de profissão ao sabor dos mercados, porque o desenvolvimento de certas aptidões implica, em geral, o afrouxamento, e em breve a atrofia completa, de outras capacidades, compreender-se-á quanto importa para a fortuna dos trabalhadores o género de trabalho que lhes reclamamos e o género de mercadoria que lhes pedimos e, porque lho pedimos, os convidamos e na realidade obrigamos a produzir.
Nós, os da gente fina e boa gente, «lisongeamos-nos», diz o sr. Urwick, «crendo que, só pelo simples acto de gastarmos dinheiro, prestamos um assinalado serviço à indústria, beneficiando o comércio e dando emprego. Isto, como todo o economista sabe, é realmente um sofisma. Mas é o mais plausivel dos sofismas e muito popular; e a sua plausibilidade reside no facto de conter uma semi-verdade. É essa semi-verdade que agora temos a considerar; o sofisma apreciá-lo hemos dentro em breve. É indubitavelmente verdadeiro que todo o dispendio de dinheiro significa a inclinação da indústria para certa via. Quem gasta uma libra em sapatos, estimula por isso os patrões e os operários a fazerem sapatos e a proseguir no fabrico dos sapatos, em vez de produzirem qualquer outra cousa. Não sustenta ou mantém a indústria dos sapatos no sentido rigoroso da palavra; mas faz que o trabalho e o capital se consagrem espontaneamente ao fabrico dos sapatos de preferência a fazerem sacos. No momento presente vemos isto operando em larga escala; uma soma enorme de dinheiro se está gastando em panos de khaki, resultando daí que correspondentemente uma larga quantidade de trabalho e capital (incluindo a de alguns antigos fabricantes de calçado) é dirigida para a produção dos uniformes de khaki. Ora esta direcção do trabalho e do capital involve alguma cousa mais do que puramente se lhes dar ordem para fazerem isto em vez daquilo. Usualmente significa que dá causa a que os trabalhadores e o capital dos patrões se tornem altamente especialisados para o trabalho particular que lhes pedem; tornam-se, por conseguinte, aptos para este trabalho e para nenhum outro. Isto ainda é mais verdadeiro na direcção do trabalho devido às despezas da gente rica; em geral, requer-se por exemplo maior especialização da parte dos fabricantes de vestidos ou de sapatos muito caros do que da parte dos fabricantes de vestidos ou sapatos mais baratos. Ora a dificuldade com todos os trabalhadores de uma alta especialisação (e com o capital altamente especialisado e a habilidade de dar emprego que com êles operam) é que não podem facilmente adaptar-se a fazer qualquer outro trabalho. O costureiro hábil não pode mudar e coser khaki; o ourives hábil não servirá de muito para fabricante de espingardas ou para construtor de cabanas. É por isso que hoje os grupos de pacientes mais dignos de dó são justamente aqueles trabalhadores que durante anos dependeram da freguezia da gente fina. Na realidade, dependeram e dependem literalmente de nós, neste sentido—fômos nós que os convidamos a abrirem lojas e a exercerem um comércio próprio para satisfazer as nossas necessidades, e a ganharem a sua vida por este modo e só por este modo. São, por conseguinte, os nossos trabalhadores, os nossos dependentes, tão literalmente como se fôssem os nossos criados; e no momento em que cessamos ou alterámos os nossos hábitos de gastar, estão arruinados».
De modo que, chegados a uma conjuntura como a presente, é muito bom dizer:—«Reduzam-se as despezas ao essencial; suprimam-se todas as despezas supérfluas». Mas logo surgem duvidas e perguntam:—«E os trabalhadores que criamos para satisfazerem as nossas despezas supérfluas de que hão-de viver?...»
«A dificuldade vem de habitos de gastar que se baseiam em um sofisma perigoso». Os embaraços economicos presentes são a derivação lógica de uma errada constituição económica anterior. Talvez pelas condições do indústrialismo moderno, que apartou em um desligamento profundo os trabalhadores e quem êles servem e os emprega, talvez por essa mecânica de uma absurda divisão do trabalho, que fez que de ordinario não saibamos onde se criou o pão que comemos, nem quem o fabricou, nem quem fiou e teceu o linho e a lã que nos cobrem, o certo é que absolutamente se obliterou o sentimento da responsabilidade na arte de gastar, e de todo deixamos que prevaleçam nesta materia tendências, principios e processos que resultam não só em desamor dos que de nós dependem imediatamente, mas até na instabilidade e muita dissipação da própria riqueza. «Imaginamos que «sustentamos» os trabalhadores gastando dinheiro com as cousas que êles fazem. Ora nenhum gasto de dinheiro ou consumo de fazenda fornecida em troca de dinheiro gasto sustenta alguem, a não ser a pessoa que adquire a fazenda e a consome. Trabalhadores e indústria são em geral sustentados só por um modo—pela criação actual de riqueza real para êles usarem e viverem dela. Se cavamos um campo e criamos trigo, acrescentamos realmente o sustento de todos os trabalhadores. Se meramente compramos o trigo e o comemos, só a nós nos sustentamos, à custa de quem criou o pão, seja êle quem fôr. E isto aplica-se a toda a compra ou gasto. Muita gente tem dificuldade em o conceber; mas a materia é bastante simples. Os dois processos de fazer riqueza, em a nossa capacidade de produtores ou trabalhadores, e de a consumir, em a nossa capacidade de gastadores de dinheiro, são exactamente análogos aos dois processos de cosinhar os alimentos e de os comer depois de cosinhados. Se o nosso cosinheiro nos prepara um jantar, a seqùência natural dos acontecimentos é que nós ou outros o havemos de comer. Mas comer o jantar não habilita, de modo algum, o cosinheiro a preparar outra refeição, e não o sustenta, a êle, nem à sua cosinha. Isso só se consegue fornecendo-lhe novos materiais para cosinhar. Ou podemos comparar a despeza á explosão de uma arma. A explosão é a conseqùência natural da carga, e foi para isso que a arma foi carregada; mas a explosão não concorre para carregar de novo a arma, isso só se obtem produzindo novas munições. Se a explosão tem algum valor, pertence êle a um resultado totalmente diferente, que por sua vez está inteiramente dependente do seu fim ou direcção. Assim com os nossos gastos. Podem ter efeitos benéficos, se são bem dirigidos, isto é, na proporção em que procuram satisfazer as necessidades reaes de gente realmente necessitada. Mas, só pelo facto de gastar, não contribuem no quer que seja para sustentar a gente cujas mercadorias compramos. Se pretendemos sustenta-la, então toda a nossa pretensão deve assentar no facto de que previamente ganhamos por um trabalho util o dinheiro que gastamos e por êsse trabalho acrescentámos realmente os recursos dos outros trabalhadores. Gastando o dinheiro ganho, não acrescentaremos o quer que seja a êsse bom resultado.
«Assim, não ha virtude alguma em a nossa acção como gastadores... Muitas vezes, pelo contrário, haverá um resultado definitivamente pernicioso onde fôr excessiva a soma do que se comprou e consumiu. Porque os trabalhadores ou os fabricantes de riqueza são em numero limitado, e, com todo o seu duro trabalho, a soma de cousas que podem fabricar, ou a soma de serviços que podem prestar em um ano, é severamente limitada, mesmo que possa crescer gradualmente à medida que os anos vão correndo. E em uma terra que de modo algum anda inundada de mel e de leite, nenhum individuo e nenhuma classe pode tirar com muita largueza da provisão total produzida sem deixar algures uma falta. Isto é por tal forma verdadeiro e obvio que podemos ir até afirmar que por cada cem libras que gastamos, além das primeiras quinhentas ou seiscentas libras dos nossos rendimentos, ha necessariamente algures alguma familia da nossa comunidade coagida a viver com menos de duas libras por semana, muitas vezes com menos de trinta ou de vinte e cinco shillings. Ora nos tempos bons, quando o clamor dos indigentes não é muito alto, nem de longe atentamos nisto, e por conseguinte gastamos de coração leve os rendimentos. Mas vem uma crise e reflectimos; vagamente sentimos a relação entre a nossa abundancia e a indigência dos outros, suficientemente para nos inclinar a não dispender o nosso dinheiro como antigamente».
Nestas lucidas asserções, que são afinal versiculos capitais de um breve e fecundo evangelho moral e económico, com tão elevado talento definido por um espírito e por um caracter manifestamente superiores, não quer o seu autor que se lhe atribua a «afirmação de que os nossos habitos de gastar são egoistas, ou indignos, ou extravagantes, ou maus, salvo no caso unico em que êles involvem realmente um perigo grande para o sistema actual da indústria. E que êles na verdade são nêste sentido habitos maus, está provado pelo facto—e êsse é o sinal de todo o habito máu—de que presentemente involvem todo o sistema em dificuldades, mal sofreram um choque. Por êste modo, pelo perigo da instabilidade que lhes é inerente, êsses habitos de gastar da gente fina parecem ser elemento e parte daquele arriscado processo em que se procura equilibrar a pirâmide da indústria no vertice dos desejos e necessidades de uma pequena classe, em vez de a assentar na larga base das necessidades universais».
Não são «cousa simples» as obrigações de caridade com os nossos dependentes, e muito menos o são o conhecimento e arte de a exercer pela nossa acção em criar a riqueza onde um proceder leviano apenas se imagina autorizado a dispendê-la, na boa fé de que para isso tem moralmente inteira liberdade, isenta de grave responsabilidade pessoal. Mas, se houve beneficios na guerra e nos transes por que nos faz passar, a seu activo teremos de lançar as profundas lições sociais que nos deixa e o poder, senão o terror, com que nos obriga a escutá-las. Porque, no dizer de um jornalista inglês, «a guerra ensinou a certa gente, pela primeira vez, exactamente o que significa viver em uma sociedade. Mostrou que a nossa sociedade, em lugar de estar bem organizada, está mal organizada e frouxissimamente unida, e quanto as pretensões individuais estão em conflito com os interesses de todo o povo. Daí vem que a guerra está desenvolvendo uma agudissima série de problemas sociais» e, ousarei acrescentar, daí vem conjuntamente que, sendo a maior das calamidades, poderá resultar em uma fecunda angústia, se por sua instigação houver o bom senso e coragem de dar a êsses problemas as soluções evidentes que êles reclamam, e que de resto continuamente conhecemos e entrevemos pela voz de interpretes eloquentes.
Viu o nosso tempo uma terrivel desgraça que não pôde evitar e o tortura; mas viu tambêm uma geração que, esclarecida como nenhuma outra igual que a história nos mostrasse, sabe julgar conscienciosamente as suas dôres e delas tirar ensinamento para emendar os seus êrros e para acautelar a justiça e a paz das gerações futuras. Honesta e delicadamente se apressa a aproveitar e meditar as lições de uma experiência cruel. É isso a sua honra e o seu dever, e é afinal o interesse imediato do seu contentamento e felicidade.
O Cavador e o Profeta
Algum tempo meu criado, hoje apenas um companheiro da minha morada, porque a edade e as enfermidades o isentaram de toda a obrigação de assiduidade e serviço efectivo, o velho que vive comigo é um caracter irreductivel em seus moldes. Feito à lei da natureza, do que ela deu e do que o destino quiz, em uma liberdade intransigente, por uma rebeldia infinita constituido fóra de toda a pressão da vontade e intenções de estranhos, não há nada que o vergue, nem há contingência que o amedronte, nem mesmo força que facilmente o modere. O seu braço e a consciência são a sua fortuna, e isso lhe basta. Um secreto orgulho o domina e conduz. Tem a sua aspiração, sua crença, regra e necessidade, a sua linha, como o modernismo usa dizer, e dela não se afasta. Não há insinuação alheia que lhe modifique a opinião ou que lhe abrande a teimosia; e o vigor da afirmação é tanto mais seguro quanto é pura e estreme a ingenuidade. Não conhece duvidas, como por certo as ignoram as raizes que alimentam os lirios e as sarças que se cobrem de espinhos.
Cavador e servo por condição e nascimento, desde a infância até à velhice adeantada e insubmissa em que vae arrastando os anos, é uma destas creaturas que nasceram para tirar da terra o pão com o suor do rosto, comendo as migalhas e abandonando o principal aos seus senhores, e que, por sua grandeza e nobreza, não maldizem semelhante estado e nem sequer o evitam. Toda a metralha filantrópica e seus condimentos e acessorios sociológicos e socialistas, que se traduzem em bibliotecas infindas e em odios, guerra e sangue, toda essa ambiciosa disputa e repartição da riqueza, e seus venenos, astucias, e engenhosas e subtis ilusões, tudo isso se teria afigurado futil e vão a êsse velho pobre, se êle fôsse capaz de definir em teses, discursos e combates o que lhe vai no íntimo. Subjugado, provavelmente, por aquele mesmo principio que não permite que as rolas discutam o motivo pelo qual umas andam magras e outras gordas e uns ninhos estão altos e outros baixos, uns em logar seguro e outros em risco, por êsse motivo se julgaria impedido de se atormentar estudando as desgraças do mundo e a sua redenção. Para o meu cavador, a servidão seria uma cousa que «acontece», como o crepúsculo, a aurora, a chuva e o vento. Umas vezes seria doce e outras penosa, umas vezes seria a fartura e outras a fome, e invariavelmente seria lógica e aceitável, porque nessa natureza com que lida de perto, não encontra injustiças, nem resignações, nem sofismas, e apenas há uma ordem eterna e intransgressivel que só a natureza determina e conhece. Um fatalismo vago será talvez um dos bordões da humildade.
E talvez fosse por isso que o velho tomou tanto amor à sua condição. A melhor condição seria a primeira e a mais proxima para que o destino o lançára. Porque se deixou induzir na tentação de descobrir onde mora a riqueza e onde se nos entrega, foi duas vezes a Lisboa, a pé, por êsses caminhos fóra, vendo terras e homens, transpondo descuidadamente as sessenta leguas que tinha a calcar da aldeia até à cidade. Mas em nenhuma dessas aventuras encontrou cousa que o prendesse, deleite que o seduzisse, luxo que o deslumbrasse ou salario que o convencesse. E depressa voltou à enxada e à escravidão do amo a quem cavava as terras, e que em troca lhe dava o pão. A experiência do mundo, quando o via de perto, inflamava-lhe logo um obstinado desejo e contentamento da pobreza.
Maior aventura que as duas jornadas a Lisboa foi o casamento. Porque tambêm se casou; tambêm um dia foi à egreja «maila a sua açucena», como diz, rememorando com uma pitoresca ironia e sorridente indulgência êsses malfadados passos.
Deu-se mal. Era de prevêr. Não sei o que seria a mulher; não creio muito que primasse pela doçura. E, como êle pelo seu lado não personificava a brandura nem a flexibilidade, o conflicto era certo e o apartamento a sua conseqùência.
Pesava-lhe pouco êsse apartamento em que rehavia a independência, dando-a tambêm à mulher e aos filhos. Porque, como sôbre os bens não havia questão, como, prescindindo dos poucos que possuia, se conformava maravilhosamente com as suas propensões, o divórcio tornava-se, e de facto se tornou, em extremo simples. Não precisava de juiz nem escrivão. Era deixar à mulher e aos filhos a casa, o lar, o campo, e mais toda a poesia, graças e confortos que lá não encontrou, e mais todas as inquietações que lá o mortificaram, e ir-se êle embora, a cavar nas terras de alguem que lhe desse o pão e o socêgo. E foi o que êle fez, serenamente, tranquilamente, em uma tranquilidade de vencedor. Deixou-lhes tudo, sem mesmo reservar algumas moedas que herdára de um fidalgo a quem serviu por muitos anos e que, consciente da sua condição e da bondade a que ela obriga, contemplou no testamento todos os seus criados e servidores.
Separou-se da mulher e mais dos haveres o cavador rebelde. A felicidade e a paz, pagava-as com a isenção; não as pressentia nas cobiças, por elas não se afreimava.
Cavar e servir, eis a suprema felicidade à qual obedecia. Não se detinha a verificá-lo, nem o confessava, nem o apregoava, nem talvez o pensava claramente. Mas demonstrava-o em seu sangue e exemplo, o que seria a mais penetrante arte de persuadir.
Cavar, servir... e tambêm amar. Servir com um tão arrebatado desprendimento já significaria muito amor, mas êsse amôr, que lhe andava no ânimo, tinha traducção ampla e ardente em um outro modo. Morria pelos animais. Afagava-os, beijava-os, cuidava-os carinhosamente, com um zêlo terrivel. Por êles se afligia, irritava-se e praguejava, se o pasto era escasso ou se a avareza do amo ou do feitor não alargava as rações até onde era mister para uma ostentosa prosperidade do estábulo. Algum anjo ou demónio lhe mandaria guardar para aqueles seres mudos e pacíficos a afeição e a dedicação que os homens pagavam mal; advinhava-lhes superioridades na inconsciência, e com ternura as reconhecia.
Entretanto, acrescentava em seu espírito e lembrança o compêndio dos ensinamentos da vida, e, pobre de bens porque os outros lhos tinham levado, não era indigente de opiniões. Tinha a sua filosofia, consistente, sólida, de largos e singelos alicerces, e de resto rematadamente singular. Assim, entre as lições que lhe ouvi, aprendi que no casamento a questão de idade só importa ao homem. A mulher a todo o tempo póde casar; o homem é que precisa de ser novo.
—«Porque?»
—«Porque?!... Ora essa! Porque o homem é que tem de o ganhar, precisa de ter fôrças para isso. A mulher é só para o governar e gastar».
E trabalhava, trabalhava continuamente, e sempre que póde ainda trabalha, com uma tenacidade indomável. Não é para se enriquecer nem para enriquecer o amo; as riquezas e o amo confunde-os na mesma indiferença. É por trabalhar; é o trabalho pelo trabalho, impulso essencial, significação única da vida, única razão de ser da existência na terra. Cria como as rosas florescem. E no seu sistema moral e económico trabalhar é usar dos braços para criar o pão. Não concebe outra cousa.
Austeridade, ascetismo, de todo os ignora, como ignora ou despreza a poupança e a previdência. Onde é que êle viu isso nas plantas que semeia e nos animais que estremece? Não póde, evidentemente, caber na sua lógica o que não coube na lógica da natureza. Por isso a dissipação da taberna e do alcool, exaltando-lhe os nervos e extasiando-o, lhe parecerão um facto tão natural e legítimo como as correrias dos potros na pastagem.
Quanto tem é para beber, e a sua mágua é que eu lhe dê muito pouco para êsse fim. Se lhe dizem que é um vicio e a causa da sua miséria, recebe com um desdem altivo a advertência. No seu conceito, a embriaguez é apenas uma alegria, abençoada como todas as alegrias.
Quem sabe?!... Talvez na rudeza da sua ingenuidade, inflamada pelas provações do mundo, tivesse fechado a abóbada de uma grande filosofia. A vida seria uma obrigação e uma orgia, uma disciplina e uma liberdade, uma sujeição de toda a nossa actividade ao esfôrço de criar o pão e uma independência de todos os instinctos na suma vibração das suas energias—uma religião em que o mesmo amor, e por igual, servia a Deus e aos homens, à terra e aos céus, porque a terra e os céus eram as duas grandes verdades iniciais, duas emanações sublimes de um só espírito misterioso.
Ora eu gosto de ouvir êsse homem. Sendo maior do que eu, tendo feito aquilo que eu não fui capaz de fazer, tendo vivido na intensidade de vida que eu não fui capaz de atingir, indubitávelmente há-de saber o que eu não sou capaz de saber.
Perguntei-lhe pela guerra. Que me dizia desta loucura de matar que cobre de sangue o mundo?
—«A guerra», respondeu-me, «é por causa dos que querem comer sem trabalhar. Olhe, quando eu vou à cidade e vejo por lá os soldados, bem agasalhados, bem mantidos, bem engraixados, escovados e a luzir, digo comigo que é essa gente que faz a guerra. Porque quer andar assim, de costa direita, quer comer sem trabalhar».
Ai está uma opinião! Opinião de um cavador, que o é, honestamente, há mais de sessenta anos; mas, sem embargo, uma opinião. E como tem seus apóstolos, como há-de ser prégada na taberna, entre os cavadores, caveant consules! tomem nota os generais e os seus imperadores, andam-lhes inimigos na fortaleza.
Disse-me Tolstoi, quando o visitei, que da Russia emigram familias inteiras, e em uma simples carroça levam todos os seus bens, e vão muito longe, à Sibéria, quasi à China, a fazerem as colheitas. Depois por lá ficam, por lá engenham suas cabanas, criam uma lavoura nos desertos incultos, e «são felizes até que os governos as descobrem para lhes pedir impostos e os filhos para a guerra».
Dar-se hia o caso que o cavador, em toda a sua obscura ingenuidade, e o génio, em todo o seu resplendor de glória, soletrassem ambos as mesmas palavras nas mesmas acções? Foi o cavador que falou pela bôca do profeta ou foi o profeta que incarnou no cavador? E, se se juntaram e identificaram, que mundo novo prometem a sua conformidade e consubstanciação em uma única visão?!...
Aparições
Mazzini
É condição ingénita dos homens sofrer para conhecer. A experiência e o que ela ensina não passa sem máguas. A dôr ilumina e revela o caminho da salvação. Porventura tanto nos elevamos e robustecemos, no entendimento e no caracter, pelos desenganos dos erros e pelas atribulações que eles importam como nos cegamos, desvairamos e enfraquecemos pelos bafejos de uma fortuna fácil e prolongada.
Se benefícios teve a guerra, o mais alto seria acordar, até às suas mais remotas profundezas, a consciência dos povos, o sentimento do seu destino e responsabilidades na vida. Perdidos nas mais pungentes incertezas, em labirintos de ruinas inundadas de sangue e habitadas pela morte, pela fome e pela desgraça, perguntam entre agonias se na terra haverá refúgio de tão agudas penas e calamidades; anciosos, interrogam os céus e a imensidade, rogando que lhes mandem uma voz que seja o pregão do resgate, um alento onde respirem a fortaleza e paz. Profetas que a embriaguez das paixões votára à mudez dos seus tumulos e a quem o seu tempo desconhecêra ou apenas suspeitára a grandeza, erguem-se das cinzas aureolados de poderes divinos. Á confusão tenebrosa do tumulto em que os homens se despenham nos abismos que a própria loucura cavou, sucedem aparições que os guiam na estrada da redenção. São remorso e esperança, remorso da infidelidade em que as esquecemos e que pagamos cara, e esperança da glória a que nos conduzem.
Poucos dias apóz a declaração da guerra, encontrei em uma folha inglesa o nome de Mazzini.
Como o mais inculto, mal conhecia essa sombra quasi apagada pela obsessão do realismo e pela torrente de realidades que haviam dominado os espíritos e edificado os impérios do nosso tempo, alvoroçando o assombro da nossa imaginação e inflamando-nos traiçoeiras vaidades. Revolucionário, poeta e sonhador, incarnação de idealismos que haviam ganhado fama de estéreis e perigosos, e a negação daquela espécie de homem prático em que a sordidez se converteu em suprema virtude, Mazzini jazia no manso olvido e proscrição a que uma época toda enlevada e confiada na ordem, na sciência, na razão e no positivismo havia votado a legião inquieta dos descontentes, crentes e videntes, pensadores rebeldes e apóstolos intemeratos, à qual êle pertencera e dera todo o fulgor do seu génio. Ia na onda que varrera da nossa presença e da nossa fé as visões romanticas que um entendimento prático até aos aviltamentos da brutalidade usava acoimar de ridículas e vãs.
Era surpreza que alguém desse bando exilado voltasse, e exactamente na hora em que menos deveria poder, quando a violência estava senhora do mundo e nêle corria solta, em momento sem dúvida nada favorável à contemplação de visões que o ferro e fogo não fôsse capaz de desfazer.
Mas por isso mesmo que a surpreza me incitava, por isso mais depressa e atentamente corri a ouvir os clamores da aparição.
Que dizia?8 Em que arrebatamentos se exaltava e nos induzia?!...
Não compreendia Mazzini a subsistência do mundo e da razão só por si, independentes de um princípio superior a que se subordinassem. O universo pertência a Deus. «A terra era apenas um degrau para os céus, uma linha no poema imenso do universo, uma nota na harmonia da ideia divina. Da conformidade das nossas obras com essa harmonia dependia» o triunfo final, toda a paz, toda a ventura, toda a dignidade e grandeza das sociedade humanas. Sendo um sonho, uma aspiração, uma essência impalpável, era isso a sumula, regra, condição da vida de todas as realidades em que a nossa vontade podia influir, o fundamento, único consistente, de todas as edificações que tentassemos construir.
Quando o profeta cuidou de traduzir a fé na solução dos problemas do seu tempo e do seu país, no ardor de mártir a que consagrára a vida, sentiu que duas doenças corrompiam as classes que preponderavam no govêrno dos estados—«o maquiavelismo e o materialismo. A primeira, mesquinho disfarce de um homem grande mas infeliz, leva-nos para longe do amor e de uma franca, corajosa e leal adoração da verdade; a segunda, através do culto do interêsse próprio, precipita-nos no egoismo e na anarquia». Eram essas as doenças sociais e políticas que ameaçavam e embaraçavam uma renovação política da Itália, e que hoje, é tristemente manifesto, de todo perturbaram a fortuna da Europa.
Por completo nos desprendemos da lei, e «não há vida sem uma lei. Onde a vida existir, existe em certo modo, conforme certas condições, sob uma certa lei. Uma lei de agregação governa os minerais; uma lei de crescimento governa as plantas; uma lei de movimento governa as estrelas; uma lei nos governa, a nós e à nossa vida, lei mais nobre e mais elevada do que aqueloutras, por isso que nós estamos superiores a todas as outras cousas criadas na terra. Desenvolver-nos, proceder, viver conforme a nossa lei, é êsse o nosso primeiro, e até mesmo o nosso único dever».
A ordem do progresso é clara e evidente. Revela-se-nos pela história como pela consciência. Mostra-se na grande distância entre a crença do presente e a fé que foi a base da moralidade das gerações que nos precederam. «Os primeiros homens sentiram Deus, mas sem o compreenderem, sem mesmo procurarem compreendê-lo na sua lei; sentiram-no no seu poder, não no seu amor; tiveram uma vaga concepção de certa relação entre Deus e o homem, mas nada mais». Foi longa, durou dilatados séculos a insinuação do espírito que nos havia de levar a compreender que há um só Deus e todos os homens são filhos de Deus. Foi a promulgação destas duas grandes verdades que mudou o aspecto do mundo, e «só então o homem soube que onde encontrar um companheiro está um irmão, dotado de uma alma imortal como a sua, destinada a erguer-se ao seu criador, um irmão a quem deve amor, participação na sua fé, e auxilio de conselho e acção quando o carecer. Só então se ouviram nos lábios dos apóstolos palavras sublimes, proféticas de outras verdades contidas em germen no cristianismo, palavras ininteligiveis para a antiguidade e mal compreendidas ou desprezadas pelos sucessores dos apóstolos. Porque da maneira que em um corpo temos muitos membros, mas não teem todos uma mesma funcção, assim, ainda que muitos, somos um só corpo em Cristo, e cada um de nós membros uns dos outros. (S. Paulo, Ep. aos Romanos, c. XII, vv. 4, 5). E haverá um só rebanho e um só pastor (Evangelho de S. João, c. X, ver. 16)».
A política era a traducção dessa lei suprema no govêrno das nações, em toda a extensão dos princípios que daí se deduzem. Seria uma acção religiosa e moral, e jámais era lícito degradá-la em uma disputa de egoismos ou em uma convenção de interêsses. «O govêrno do pais tem de ser baseiado pelo nosso trabalho sôbre o culto dos princípios, não sôbre o culto idólatra dos interêsses e da oportunidade. Há países na Europa onde a liberdade é sagrada no intimo, mas sistematicamente violada externamente; povos que dizem que a verdade é uma cousa e a utilidade uma outra cousa, que a teoria é uma cousa e outra a prática. Êsses países teem necessariamente de expiar a sua culpa em longo isolamento, opressão e anarquia».
A educação, que é a insinuação da lei e a integração das gerações na sua substância, assume, nesse sistêma, uma missão e poderes capitais.
«O indivíduo é um renovo da humanidade, e alimenta e refaz a sua própria fôrça na fôrça da humanidade. Êste trabalho de alimentação e renovação opera-se pela educação, que directa ou indirectamente transmite ao indivíduo os resultados do progresso de toda a raça humana. Por conseguinte, não só porque é uma necessidade da nossa vida, mas tambêm porque é uma espécie de santa comunhão com todos os nossos companheiros e com todas as gerações que viveram, isto é, que pensaram e trabalharam antes de nós, por isso carecemos de nos educar, o mais possível, em uma educação moral e intelectual que compreenda e cultive todas as faculdades que Deus nos deu, como semente para produzir fruto, e forme e mantenha um laço entre a nossa vida individual e a vida colectiva da humanidade. E para que êsse trabalho de educação se realise o mais rapidamente, e para que a nossa vida individual se ligue mais segura e intimamente com a vida colectiva de todos, com a vida da humanidade, por isso Deus nos fez essencialmente seres sociais. Toda a espécie de ser inferior póde viver por si, sem outra comunhão além da que tivér com a natureza, com os elementos do mundo físico. Nós não. A cada passo temos necessidade dos nossos irmãos; e não podemos satisfazer as necessidades mais simples da vida sem nos socorrermos do seu trabalho.»
Infelizmente, estávamos e estamos longe de atribuir à educação o seu valôr religioso. Vai desvairada e em erro, semeiando muitos males e produzindo escassissimos e contaminados bens. «Hoje, na Europa, a instrucção, desacompanhada de um gráu correspondente de educação, é um grave mal; mantem a desigualdade entre as diversas classes de um mesmo povo e inclina o espírito ao calculo, ao egoismo, a compromissos entre a justiça e a injustiça, e a toda a falsa doutrina».
Comunhão «é uma palavra santa. Ensinou aos homens que eles eram uma família única de irmãos em Deus, e uniu o senhor e o escravo no mesmo pensamento de salvação, na mesma esperança e no mesmo amor do céu». Símbolo da igualdade entre os homens, cumpre à humanidade desenvolver toda a verdade que nela se encerra.
«A egreja não o fez e não póde fazê-lo. Tímida e incerta no seu começo, mais tarde aliada com os príncipes e com o poder temporal, embebida no próprio interêsse, com uma tendência aristocrática alheia ao espírito do Fundador, vagueou na estrada direita e retrogradou até diminuir o valor da comunhão, limitando-a para os seculares só ao pão, e reservando para os sacerdotes a comunhão nos dois géneros».
«Não era materialista. Os moços de inteligência estreita e educação superficial, mas excessivamente inflamados e irritados contra um passado morto que ainda quer dominar o presente; cuja vaidade é lisongeada pela ideia da ousadia intelectual; que carecem de capacidade para descobrir naquilo que foi a lei daquilo que ha-de ser, são levados a confundir a negação de uma forma gasta da religião com a negação daquela religião eterna que é inata na alma humana. Neles o materialismo assume o aspecto de uma rebelião generosa, e muitas vezes é acompanhado pelo poder de sacrifício e pelo respeito sincero da liberdade. Difundido, porêm, entre os povos, o materialismo, pelo culto exclusivo do bem-estar material, tenta mais infalivelmente, extingue o fogo de um pensamento alto e nobre, assim como toda a scentelha de vida livre, prostrando-os finalmente perante a violência triunfante, perante o despotismo do fait accompli». Fôra êle que «em Roma extinguira toda a virtude republicana».
Porque não era materialista, só acusava a egreja onde a julgava infiel à sua missão espiritual e divina; não porque ela se fundasse em uma missão que havia deixado de ser a aspiração da humanidade, a sua religião. Pois «a vida era uma missão, e a existência aquela parte dessa missão que nós temos a cumprir na terra. Descobrir, compreender e intelectualmente dominar aquele fragmento da lei divina que é acessivel às faculdades humanas, transmudá-lo em acção (até onde as forças humanas o permitem) aqui, onde Deus nos pôz, é o nosso fim, o nosso dever. Cada um de nós e todos nós estamos sujeitos ao esforço de incarnar na humanidade aquela porção de verdade eterna que nos foi dado perceber, de converter em uma realidade terrena tão grande parte do «reino dos céus», da concepção divina que repassa a vida, quanto nos foi dado compreender».
Não era ingrato à egreja, «nem irreverente perante as suas grandes ruinas». Não esquecia «que lhe deviamos não só a ideia da unidade da família humana, da igualdade e emancipação das almas, mas tambêm a salvação das relíquias da nossa anterior civilisação latina».
«A salvação do cristianismo e por êle a salvação da civilisação europeia, pela unidade da hierarquia durante um período de anarquia e trevas; o espírito de amor com os pobres e os párias aflictos da sociedade que inspirou os primeiros bispos e papas; a luta severa sustentada por êles em nome da lei moral contra o poder arbitrário e a ferocidade dos senhores feudais e dos reis conquistadores; a grande missão (desconhecida em nosso tempo por aqueles que nada sabem ou compreendem da história) cumprida por êsse gigante da inteligência e da vontade, Gregorio VII, e a fecunda vitória que êle ganhou em auxilio do govêrno do espírito sôbre as armas reais, do elemento italiano sôbre o elemento germanico; a missão da conquista civilisadora entre povos semi-bárbaros levada a cabo pela egreja; o impulso dado à agricultura pelos monjes durante os tres primeiros séculos, a conservação da linguagem de nossos pais, a época esplendida de arte inspirada no dogma, as obras eruditas dos beneditinos, o começo da educação gratuita, a fundação de instituições de benevolência, nossas irmãs de misericórdia»—tudo isso Mazzini lembrava e respeitava na vida da egreja.
Mas acusava a egreja da «insania de pretender que um facho, aceso há desoito séculos para lhe iluminar a jornada atravez de uma única época, estava destinado a ser uma única luz no caminho do infinito». Acusava-a de «desconhecer a santidade da alma de Jesus, superior a toda a outra em inspiração e amor fraterno, transformando-o, a despeito dos seus mais sublimes pressentimentos, em um vulgar e eterno tirano das almas». Uma religião expirava, se perdia o poder de sacrifício. E o catolicismo «podia ainda, com o auxílio dos enganos dos seus ministros e da pompa dos seus ritos, juntar em volta de si o concurso numeroso de fieis, aparentemente dedicados, e assim continuar fazendo, emquanto a única escolha dêsses fieis está entre as recordações de uma fé, outrora grande e fecunda em bens, e as negações áridas de um materialismo embrutecedor. Mas pedissem a esses fieis para morrerem pela egreja e pela fé que ela representava, e não se encontraria entre eles um só mártir».
«Não se enganasse a egreja! Em volta dela a fé agonisava. Como scentelhas derradeiras de um fogo que se apaga, a fé, em nossos dias, desfalecendo encontra expressão nas orações murmuradas perante os nossos altares, por força do hábito, em momentos breves e determinados. Evapora-se à porta da egreja, e não mais governa ou guia a vida quotidiana dos homens. Dão uma hora para os céus e o dia para a terra, para os seus cálculos e interêsses materiais, ou para estudos e ideias estranhos a toda a concepção religiosa».
A fé em Deus determinava uma economia, uma constituição e uma repartição da riqueza, assim como determinava uma regra de liberdade e amor nas relações civís e políticas. Fôra ela que lentamente fizera crescer «no espírito dos homens o sentimento do dever social com as classes trabalhadoras», que se tornára preponderante na política do nosso tempo e fizera da liberdade de concorrência um espectro de crueldade. «Para aqueles que nada possuem, para aqueles que são incapazes de poupar o quer que seja no salário quotidiano e não teem, por conseguinte, cousa alguma para começarem qualquer empreza comercial, a liberdade de concorrência era uma mentira, como a liberdade política era uma mentira para aqueles que por falta de educação, instrução, oportunidade e tempo não podem exercer os seus direitos».
O progresso seria essencialmente um estado de consciência. «Realiza-se passo a passo, por virtude de leis que nenhum poder humano pode dominar, por desenvolvimento, pela modificação perpétua dos elementos que manifestam a actividade da vida. Muitas vezes os homens, em certas épocas, em certos países e sob a influência de certos erros e prejuízos, deram o nome de elementos, de condições da vida social, a cousas que não teem a sua raiz em a natureza, mas sómente nas convenções e costumes de uma sociedade iludida, e que desaparecem fora dessa época particular ou além dos limites próprios dêsses países. Mas podemos descobrir quais são os verdadeiros elementos inseparáveis da natureza humana, interrogando os instinctos das nossas almas e verificando em face das tradições de todos os tempos e de todos os países se êsses instinctos nossos são como sempre fôram os instinctos da humanidade».
E, evidentemente, desde que o progresso é êsse «desenvolvimento», sujeito a leis fóra do alcance do poder humano, o remédio para a deplorável condição presente não podia encontrar-se em qualquer organização geral arbitrária, feita segundo o plano de certo espírito e estabelecida por decretos. Tudo isso resultava em ilusões por diversos modos destinadas a naufragarem e a dissiparem-se. O remédio tinha de ser qualquer outra cousa que não significasse a criação de uma humanidade nova, mas que continuasse a humanidade nas suas tendências essenciais e indestructiveis. «Algum dia fomos escravos, depois servos, depois assalariados; não tardará que sejamos, se o quizermos ser, livres produtores e irmãos na associação—associação livre e voluntária, por nós mesmos organizada em certas bases, entre homens que mutuamente se conhecem, amam e estimam, não a associação obrigada, imposta pela autoridade que governa e ordenada sem respeito pelos laços e afeições individuais, tratando os homens mais como máquinas de produzir do que como seres de livre e espontânea vontade».
Só pela renovação moral dos homens se alcançará a renovação das sociedades. Essa é a condição de toda a reforma social. O progresso só é eficaz e duradouro se o fundou a capacidade de progredir. «A sorte de um homem não se altera renovando e embelezando a casa em que êle vive. Onde só respira o corpo de um escravo e não a alma de um homem, todas as reformas são inuteis; a morada limpa, luxuosamente mobilada, é um sepulcro branco, nada mais». «Só os princípios edificam». «Onde quizermos realizar um dos grandes feitos chamados revoluções, temos sempre de ir ao conhecimento e à pregação dos princípios. O verdadeiro instrumento do progresso dos povos tem de se procurar no factor moral». Não suprimiremos o factor económico nem é possível suprimí-lo, mas subordinámo-lo ao factor moral, «porque fora do govêrno da sua influência, desligado dos princípios e abandonado às teorias do individualismo que hoje o governam, resultará em egoismo bruto, na luta perpétua entre homens que devem ser irmãos, na expressão dos apetites da espécie humana». A cada estado do progresso devia corresponder «uma melhoria positiva da condição material do povo»; mas sustentava que «os interêsses materiais não podem desenvolver-se sósinhos, dependem dos princípios, não podem ser a mira e o fim da sociedade. Porque sabiamos que semelhante teoria destrói a dignidade humana, porque nos lembramos que, quando o factor material começou a apossar-se de Roma, e o dever com o povo se reduziu a dar-lhe pão e jogos, Roma e o seu povo apressaram-se na própria destruição; porque viamos hoje em França, na Espanha, em todos os países, a liberdade calcada aos pés ou atraiçoada, precisamente em nome dos interêsses comerciais e daquela doutrina servil que separa dos princípios o bem-estar material».
São «as ideias que governam o mundo e os seus acontecimentos. Uma revolução é a passagem de uma ideia da teoria à prática. Digam os homens o que disseram, os interêsses materiais nunca causaram e nunca causarão uma revolução. A pobreza extrema, a ruina financeira, a tributação opressiva e desigual, podem provocar levantamentos que são mais ou menos ameaçadores e violentos, mas nada mais. As revoluções teem a sua origem no espírito, nas próprias raizes da vida; não no corpo, no organismo material. Na base de toda a revolução há uma religião e uma filosofia. É uma verdade que pode provar-se por toda a tradição histórica da humanidade».
Acreditassem os seus camaradas revolucionarios da Italia «nas palavras de um homem que, durante trinta anos, estudou o curso dos acontecimentos na Europa e na hora do triunfo viu perdidas pela imoralidade dos homens as emprezas mais santas e uteis. Não venceriam senão tornando-se, êles mesmos, melhores; não conquistariam o exercício dos seus direitos senão merecendo-os pelo sacrifício, pelo engenho e pelo amor. Se os procurassem em nome de um dever cumprido ou para ser cumprido, alcançá-los hiam; mas, se os procurassem em nome do bem-estar que os materialistas lhes tinham ensinado, apenas alcançariam triunfos momentaneos, seguidos de desilusões tremendas. Atraiçoavam-nos aqueles que lhes falavam em nome do bem-estar, da felicidade material. Tambêm êsses procuravam o seu bem-estar e para o obterem queriam unir-se com eles, como um elemento de fôrça, emquanto tinham obstáculos a vencer; mas, logo que com o seu auxílio tivessem obtido o bem estar, abandoná-los hiam para que tranquilamente podessem gozar a conquista. Era essa a história do último meio século e o nome dêsse meio século era materialismo».
As sociedades nunca poderiam renovar-se pelo conhecimento, estudo e organização dos interêsses económicos. «As classes abastadas, no conforto da sua prosperidade, nunca experimentam privação ou sofrimento. Por vezes, vêem a miséria do pobre, mas facilmente se habituam a considerá-la uma triste necessidade, e deixam às gerações futuras o cuidado de lhe encontrar remédio. A indiferença e o esquecimento são doces para o homem que se sente no santuário da sua família, cercado de faces sorridentes, emquanto lá fóra sopram as rajadas do inverno e a neve, ligeira e bela, lhe bate nas vidraças da janella dupla. Esperareis erguer da sua apatia estes favorecidos do mundo pela simples expressão da situação económica e do que deva substituí-la em uma sociedade bem organizada? Esperareis arrancá-los do seu repouso egoista meramente pela análise do que acontece em uma esfera na qual eles nunca penetraram? Talvez em teoria aprovem as vossas doutrinas utilitárias; não lhes peçam, porêm, que promovam a sua aplicação. Porquê? Falam-lhes em nome de interêsses. Não é o gozo o primeiro dos interêsses? E êles gozam».
A nacionalidade e o patriotismo que a sustenta, serve e fortalece, será tambêm um facto de consciência moral e religiosa e nunca, por mais habilmente desfigurada que ela seja, pode fundar-se e manter-se pela delimitação do território, pelo agregado e conjugação das fôrças económicas e por qualquer combinação de actividades políticas. «A nacionalidade é a crença em uma origem e um fim comum. Se hoje fôr fundada em um interêsse, pode ser derrubada amanhã por outro interêsse mais ousado e mais poderoso». «Só quando o evangelho da fraternidade de todos os homens de uma nação fez da alma santuário de virtude e amor, quando a grande concepção da nacionalidade deixou de se encontrar reduzida a proporções mesquinhas, quando procura para base dos seus direitos alguma cousa mais que o interêsse material, interêsse que sempre tem o seu rival... só então teremos uma nação como nunca será possível tê-la dos sofistas que podem achar uma nacionalidade sem Deus».
O progresso é um acto de fé. «A cada passo no pensamento religioso correspondia um progresso na vida civil». «Deus assim o quer» seria o grito eterno de todo o movimento que tem «por fundamento o sacrifício, por instrumento os povos, e por fim a humanidade». «O pensamento religioso é o alento da vida da humanidade, a um tempo a sua vida e alma, o seu espírito e o sinal externo. A humanidade só existe na consciência da sua própria origem e no pressentimento dos seus próprios destinos». Fora do trabalho da reforma moral «toda a organização política é estéril», e é ilusão esperar triunfos se «do nosso trabalho banirmos a ideia religiosa». «Só a consciência liberta os povos». «O elemento religioso é universal e imortal. Em toda a grande revolução está marcado o seu sinal, revela-o na sua origem e fim».
Acreditava «em um Deus, autor de quanto existe, o pensamento absoluto vivo, de que o nosso mundo é um raio e o universo a incarnação». Acreditava em «uma lei, geral e imutável, que constitue o nosso modo de existir, que compreende toda a série possivel de fenómenos e exerce uma influência continua sôbre o universo e sôbre tudo aquilo que êle contêm, no seu aspecto físico como no seu aspecto moral». E a lei da vida, para Mazzini, era por igual essencial e simples.
«Cristo disse:—«Amae primeiro a Deus e amae-vos uns aos outros com afeição fraterna». E disse tambêm:—«Entre vós será o primeiro aquêle que fôr o servo de todos». Toda a essência do cristianismo se compreende nestas palavras. Unidade de fé, mútuo amor, fraternidade humana, actividade nas boas obras, a doutrina do sacrifício, a afirmação da doutrina da igualdade, a abolição de toda a aristocracia, o esforço de perfeição no indivíduo e a liberdade, sem a qual nem o amor nem a perfeição podem existir—tudo assim se resume naqueles dois preceitos».
«Toda a revolução social é essencialmente religiosa. Toda a época tem a sua crença. Sem unidade de fé, a associação é impossivel; prégar a humanidade, a pátria, o povo, essas grandes fórmulas da associação que superiormente dominam o nosso tempo, emquanto negamos ou despresamos o sentimento religioso, é desconhecer a significação dessas palavras, querer o fim sem os meios, a obra sem os instrumentos necessários. Como fôrem as nossas crenças, assim elas nos hão-de dar a regra de acção». Em seu coração «amava a visão de uma fé, não de uma escola».
Os direitos em que a Revolução Francesa se fundou, involviam a mais traiçoeira das aspirações de uma sociedade. Foi glória do Profeta, talvez a mais alta das muitas que o coroaram, a intuição e o ardor com que opôz o dever ao direito, em um momento em que apaixonadamente se combatia e morria pelo fetichismo do direito, sem que das hecatombes que provocou podesse resultar nem a fortuna nem a tranquilidade dos homens, arrastados de escravidão em escravidão, de miséria em miséria, de tormento em tormento, de incerteza em incerteza. Um erro inicial os transviava e perdia; ignoravam que «o unico padrão da vida é a ideia do dever, santa, inexorável, dominante».
«Fazer da política uma arte e apartá-la da moralidade, como os estadistas e diplomatas reais desejavam, era um pecado perante Deus e uma destruição perante os povos. O fim da política era a aplicação da lei moral à constituição civil de uma nação na sua dupla actividade, doméstica e estranha. O fim da economia era a aplicação da mesma lei à organização do trabalho no seu duplo aspecto de produção e distribuição».
«Não pregassem, não trabalhassem em nome de direitos que apenas representavam o indivíduo, mas em nome do dever que representava o fim de todos. Não havia direitos alguns, salvo os que eram conseqùência dos deveres cumpridos; podiam resumir-se em um só direito—que os outros cumpram comnosco o dever que nós cumprimos com êles. Não dissessem que a soberania está em nós. A soberania está em Deus. A vontade do povo só é sagrada quando interpreta e aplica a lei moral. Quando dela se afasta, é impotente ou nula e não representa outra cousa senão tirania.» «A sociedade de Rousseau, como a de Montesquieu, é apenas uma sociedade de seguros mútuos». Partindo da filosofia da liberdade individual, destituiu de fecundidade êste princípio baseando-o, não sôbre um dever comum a todos, não sôbre a definição do homem como uma criatura social por essência, não sôbre a concepção de uma autoridade divina e de um designio providencial, não sôbre o laço que une o indivíduo à humanidade do qual êle é um factor, mas sob a simples convenção, confessada ou subentendida».
«Carecemos de ensinar não o direito, mas o dever, acordar para melhores cousas a natureza degenerada, a alma semi-exausta, o entusiasmo decrescente; carecemos de possuir a consciência do valor humano e da missão dos homens na terra, e por aí erguer a fôrça de proceder, que até agora está esmagada pela indiferença. E isso obra de princípios, de crença, de pensamento religioso, de fé. Foi a obra de Jesus. Não procurou êle salvar pela crítica um mundo moribundo. Não falou de interêsses a homens cujas almas estavam envenenadas pelo culto dos interêsses. Prégou no santo nome de Deus certas verdades até então desconhecidas. Estas poucas verdades que agora, desoito séculos depois da sua passagem, procuramos esforçadamente realizar, mudaram a face da terra».
«Três cousas eram sagradas—tradição, progresso, associação».
A tradição histórica tinha de ser considerada, «não com a ignorância presunçosa dos materialistas modernos, mas com a atenção reverente devida a uma representação da nossa vida colectiva, único padrão onde podemos deduzir e verificar a concepção da lei que a governa». A verdade encontrar-se hia no «estudo severo da tradição universal que é a manifestação da vida na humanidade». A humanidade, dizia, invocando e desenvolvendo o pensamento de Pascal, «é um homem que aprende continuamente. Os indivíduos morrem; mas a verdade que pensaram e o bem que produziram, não se perdem com eles. A humanidade junta-o, e os homens que passam sôbre as suas sepulturas aproveitam-no. Cada um de nós nasce hoje em uma atmosfera de ideias e crenças que são a obra de toda a humanidade antes de nós; cada um de nós traz inconscientemente algum elemento, mais ou menos valioso, para a vida da humanidade que se lhe segue. A educação da humanidade cresce como aquelas piramides orientais a que cada viandante junta a sua pedra. Passamos, viajantes de um dia, chamados a completar a nossa educação individual em outro lugar; a educação da humanidade brilha por scentelhas em cada um de nós mas o seu inteiro resplendor descobre-o lentamente, progressivamente, continuamente, na humanidade. De uma a outra tarefa, de uma a outra fé, passo a passo, a humanidade conquista uma visão mais clara da sua vida, da sua missão, de Deus e da sua lei». Onde a tradição e a intuição se completam e consubstanciam, «onde encontramos a voz permanente da humanidade harmonisando-se com a voz da nossa consciência, aí teremos ao nosso alcance alguma cousa com absoluta verdade».
O homem não é, porêm, apenas o investigador da verdade. «É pensamento e acção. As teorias podem modificar o primeiro; não podem criar o ultimo». E, fielmente obedecendo ao próprio espírito, em Mazzini confundiram-se o profeta e o homem da acção, o apostolado e a visão, o poeta e o revolucionário. Desde a adolescência selando com o sangue os juramentos da sua fé, conspirador e camarada certo em todas as inumeráveis e prolongadas revoluções que sonharam e fundaram a Itália unificada, muitas vezes o seu chefe audacioso e nobre, a sua alma, inspiração, e o seu braço executor, não houve risco a que se esquivasse, não houve penas que não experimentasse, desde o aturado exílio que em condições de pobreza, às vezes extrema, o apartou da família, da pátria e dos amigos, até à condemnação à morte e porventura à tentativa de assassinato que o perseguiram como milhafres. Não houve contrariedade ou ameaça que lhe vencessem o desprendimento e o ardor, uma vaga sêde de martírio. «Particularmente aborrecia o egoismo, tão popular com a gente de hoje. Não gastava o seu tempo cantando, orando e clamando a Deus que lhe salvasse a alma. Nem se entregava ao estudo e à cultura para lhe salvar o espírito. Sempre cuidava do espírito e da alma, mas era sempre do espírito e da alma dos outros». E «foi conspirador porque era muito fiel a Deus e ao Povo para que consentisse em os vêr atraiçoados, muito honesto para que vivesse submetido ao mal, muito bravo para que aceitasse a paz sem honra»9.
Nem por isso lhe faltaram inimigos. Não podiam faltar a quem, na lógica inevitável dos princípios que se deduziam da sua fé, viu «classes perigosas nos eclesiásticos ociosos, de que há muitos mil, e nos ricos que com o seu dinheiro não faziam bem». Um instinto seguro os advertia de que quem tudo confiava do povo era naturalmente o adversário perigoso dos apanágios e privilégios que ensoberbeciam as aristocracias políticas e eclesiásticas. Cavour e Luiz Napoleão Bonaparte eram irmãos nos sentimentos com que detestavam Mazzini, e nem outra cousa se compadecia com o conflito de ideais que o amor do apóstolo e a ambição do aristocrata e do imperador em confronto necessariamente inflamavam. O profeta era apenas o éco da voz do cristianismo, e o cristianismo é a negação radical e a ruina de quantas aristocracias, hierarquias, divisões de classes e servidões o egoismo e a perversão dos homens teem inventado para contentar e engrandecer a paixão de mandar e as suas cobiças. Todos êsses sistemas de dependências morais, políticas e económicas partilharam daquela decadência das divindades pagãs que o monoteismo cristão confundiu e afugentou. Foram, na verdade, a tradução, em diferentes modos da vida social, de uma concepção moral e religiosa que caducou; foram deuses adorados por multidões submissas e inumeráveis, tiveram o seu culto, e absorvente, nos homens e nas cousas, no coração e nos bens da terra; mas, lentamente, outra e mais alta religião os destituiu do seu poder e prestigio, inspirando-nos e mostrando-nos uma outra razão da vida, adjudicando toda a nossa actividade intima e externa a um outro espírito. Não faz sentido ter e invocar como princípio de acção e dedicação o meu senhor», ou êle seja rei, ou sacerdote, ou fidalgo ou capitão de industria, quando senhores e vassalos de toda a casta e ordem e categoria todos teem de invocar e seguir o «seu Deus», aquêle perante o qual são irmãos igualmente humildes e sujeitos, dêle recebendo igualmente uma só e única lei de comunhão e coadjuvação. A obediência comum nivelou, e de facto destruiu só porque as nivelou, todas as gradações e distâncias em que as comunidades bárbaras se ordenaram e estratificaram, todos os despotismos e dogmatismos, mais ou menos benignos e fecundos, em que primitivamente se fundaram e viveram, tomando por eternidade a conveniência política ou religiosa de uma hora. Se em nossos dias essa ordem se mantém ainda por muitos modos e em diversos lugares, se persistem e são uma fôrça espiritual efectiva aquêles sentimentos de fidelidade, lealdade, dedicação e sujeição que eram seus vínculos e instrumentos, se essa ordem e todo o seu cortejo mental e espiritual sobrevivem quando já terminou a religiosidade íntima que era a sua essência e alma, é sómente porque, convertida em tradições políticas, estéticas, morais e eclesiásticas, senhora de altos monumentos e fortalezas que edificou, póde representar, e em muitos casos representa, uma utilidade prática, um sistema de conjunção e organização oportuno e cómodo, o remanescente de hábitos tardos em mudar e fiadores de uma estabilidade que é a primeira das condições de um desenvolvimento seguro. Mas, sem embargo, o império de Deus arruinou virtualmente o império dos cesares, desde os que são coroados em tronos magnificos até aos que teem seus escudos nos cofres à prova de fogo; e aquela simples virtualidade de um princípio é de efeitos práticos incomensuráveis e invencíveis. A consciência de uma escravidão eterna que a todos nos involve e subjuga, obliterou e perdeu aquela outra consciência de escravidões mortais, condicionadas, contingentes e transitórias, por longos séculos decisivas e supremas. Mazzini, que por ser fiel à primeira e lhe sujeitar a política denunciou as ultimas e as combateu e teve por calamitosas, não podia merecer-lhes senão anatemas.