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A guerrilha de Frei Simão: romance historico cover

A guerrilha de Frei Simão: romance historico

Chapter 12: X Morte redemptora
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About This Book

The narrative reconstructs the life and struggles of a religious friar born into a provincial family whose sons follow military and monastic paths, tracing family background, wartime service, political divisions, and the friar's involvement in guerrilla action against the prevailing authorities. The author interleaves documentary research and eyewitness memory to depict episodes of imprisonment, escape, clandestine resistance, and the moral conflicts between loyalty to conscience and political allegiance, while evoking rural settings and the social networks that shape loyalties and tragedies.

Maravilhas do Amor quem as entende?
Os segredos do Amor quem os alcança?
Uns corações em vivo fogo accende,
A outros nega de si toda esperança.
Pedro de Andrade Caminha—«Poesias».

Ignorava Margarida Candida que o rei havia ordenado que ella professasse, e que o prelado, enviando para Arouca uma copia do aviso regio, implicitamente auctorisava a dispensa das formalidades reguladas pelo concilio Tridentino e pela constituição do bispado.

Pois fazia-se isso, quando não se simulava o cumprimento d’aquellas formalidades substituindo a noviça por outra qualquer pessoa do seu sexo.

D’esta vez, a unica prescripção respeitada foi a de que entre o primeiro dia de convento e a profissão devia medeiar «um anno perfeito e acabado.»

Preenchido um anno completo, Margarida Candida foi chamada ao templo, e ahi recebeu aviso para immediatamente professar.

Reagiu energicamente, rompeu em lastimosos clamores, protestando contra a violencia de que era victima, pois que nem tinha requerido, nem a sua vontade havia sido explorada pelo interrogatorio de um commissario.

—Olha a doutora! exclamou uma freira. Como seria que a outra teve artes de lhe ensinar tudo isto!

Mas como a resistencia de Margarida Candida não afrouxasse, outra freira, simulando-se muito compadecida de sua desgraça, disse-lhe ao ouvido:

—Se a menina amava sinceramente aquelle homem, não terá decerto duvida em professar, porque elle morreu.

—Morreu! repetiu Margarida Candida num grito estridente, que reboou no templo.

E cahiu sem accôrdo contra o peito d’essa e outras freiras, que acudiram a amparal-a.

Ao cabo de poucos minutos, Margarida tornou a si, n’um abatimento de corpo e de espirito, que fazia d’ella um authomato.

Cortaram-lhe a trança de cabello, que era farta e bella; impozeram-lhe o veu da ordem, que ella recebeu sem reluctancia.

E, n’esse momento, o sino do mosteiro dobrou n’uma resonancia funebre, que parecia gemer nas quebradas das serras imitando os arrancos plangentes de uma voz humana.

Ernestina de Carvalho, que estava na sua cella, sahiu ao corredor quando ouviu dobrar o sino.

Viu o corredor deserto. Esperou que passasse alguem. Algum tempo depois assomou ao longe uma criada, que era ajudanta da sachristã. Quando a criada se aproximou, Ernestina de Carvalho perguntou-lhe cheia d’um tão vivo interesse, que se poderia dizer presentimento:

—Quem morreu, sr.ª Carmo?

—Não morreu ninguem, respondeu a criada com accentuada ironia; foi a sr.ª D. Margarida Candida que professou hoje. Já pertence ao numero das esposas do Senhor.

—Desgraçada menina! exclamou Ernestina fechando a porta da cella com um movimento de odiosa repulsão.

E a criada, arrastando os passos ao longo do corredor, foi resmoneando indignada:

—Que figados de pedreiro-livre que tem esta rapariga! Nem santa Mafalda lhe vale! Ha de ir direita para o inferno com o marido que lhe destinam, e que é tão bom como ella! Cruzes, canhoto! Até parece que cheira aqui a enxofre!

Sóror Maria das Cinco Chagas escreveu para Chaves informando o seu parente André Pinto dos bons serviços que lhe havia prestado justamente no momento em que Margarida Candida oppunha mais escandalosa resistencia á profissão.

«Para a desarmar e quebrar-lhe as forças—dizia a freira—tive a feliz idéa de lhe mandar dizer que o tal capitão de dragões havia morrido. Ora foi como se se deitasse agua no fogo! E depois tudo se consummou sem maior escandalo.»

Sóror Maria das Cinco Chagas orgulhava-se da sua imaginosa invenção, que cortou o nó gordio, valendo a espada de Alexandre.

André Pinto vangloriou-se de vêr realizada, com tão feliz exito, a sua obra de tyrannia, e espalhou em Chaves a noticia da profissão da sobrinha, como se se tratasse de um triumpho obtido por elle proprio.

Houve quem escrevesse a Joaquim Maria para Aveiro informando-o, com damnado proposito, da profissão de Margarida Candida. Fôra André Pinto, que ditára a participação a um amanuense, para esse fim convidado e assalariado. Era o golpe de misericordia da sua vingança contra o capitão de dragões.

Joaquim Maria recebeu na cadeia de Aveiro, onde estava com outros presos politicos, a terrivel noticia, que desde logo acreditou porque a esperava.

Elle conhecia bem André Pinto, e sabia que a sua perseguição iria até ao ultimo extremo da perversidade.

Desde esse momento a vida tornou-se-lhe um fardo inutil. Tudo estava acabado para todo o sempre.

No dia seguinte, quiz levantar-se do catre e não poude. Faltaram-lhe as forças.

Foram dizer-lhe que, para aproveitar os «beneficos effeitos da amnistia», podia justificar o seu procedimento perante a Commissão de rehabilitação que o governo absoluto havia creado em Lamego.

—Não quero justificar-me, respondeu Joaquim Maria. A minha consciencia está tranquilla.

Frei Simão de Vasconcellos, vendo o irmão profundamente desalentado, e cada dia mais doente, lembrou-se de ir a Arouca averiguar pessoalmente se a noticia da profissão de Margarida Candida era verdadeira.

N’uma das suas frequentes visitas á cadeia de Aveiro, resolveu proceder a essa averiguação, sem dizer nada a Joaquim Maria. E, em vez de recolher á casa do Outeiro, seguiu jornada para Arouca, tomando em Macieira de Cambra um ligeiro disfarce.

Entre-sorria-lhe a vaga esperança de que a informação fosse falsa, e de poder vir dizer ao irmão: «Resurge de ti mesmo, porque a tua felicidade não está ainda completamente perdida.»

Mas, a espaços, tambem elle proprio desanimava, porque as vinganças politicas, especialmente na provincia, attingiam os maiores excessos. Até por experiencia propria o sabia. Em Cezár, a casa do Outeiro estava rodeada pelo odio dos visinhos, e se não fosse o terror que lhes inspirava a valentia de frei Simão, o odio absolutista teria já explodido brutalmente.

Um dos mais encarniçados inimigos de ao pé da porta era Ignacio da Fonseca, depois que teve a certeza, pela denuncia dos criados, de que José Maximo viera furtivamente á casa do Outeiro entender-se com frei Simão para algum fim politico, suppunha elle.

Logo os criados de Ignacio da Fonseca fizeram correr em toda a freguezia a noticia de que o patrão nunca mais daria a benção ao sobrinho, nem o queria tornar a vêr, noticia que frei Simão se apressou a transmittir para o Porto a José Maximo.

E como por essa mesma occasião apparecessem derrubadas algumas arvores na quinta do Outeiro, e incendiadas algumas mêdas de palha, frei Simão tratou de conter em respeito os seus inimigos, que deviam ser principalmente os criados de Ignacio da Fonseca, rondando por horas mortas, de clavina aperrada, as immediações da casa.

Uma noite pareceu a frei Simão que dois vultos de homem procuravam encobrir-se com o tronco das arvores. Metteu a clavina á cara, e disparou. Sentiu depois rumorejar a folhagem como agitada pelo rapido movimento de alguem que fugia.

No dia seguinte appareceu junto a um castanheiro, em cujo tronco a bala de frei Simão fôra cravar-se, um chapeu de palha, velho, sem fita. Esse chapeu fôra reconhecido como sendo o de Manel Zarôlho, criado de Ignacio da Fonseca.

Frei Simão mandou hastear o chapeu no topo do castanheiro, como ousada provocação a novas investidas. Mas os assaltantes não voltaram, receiosos da clavina de frei Simão e dos seus mortiferos zagalotes. Tomaram ainda maior medo ao frade.

Chegando a Arouca, frei Simão entrou no pateo do mosteiro, e dirigiu-se á porteira perguntando-lhe se podia fallar á sr.ª D. Margarida Candida, de Chaves, que lhe constava estar ali recolhida.

Bem sabia elle que a resposta seria negativa. Mas fizera a pergunta unicamente com o fim de poder colhêr alguma vaga informação.

—Sóror Margarida do Amor Divino, respondeu a porteira, não recebe, nem falla a ninguem.

—Sóror Margarida!? repetiu com fingida surpreza frei Simão.

—Sim, porque professou ha coisa de mez e meio.

Frei Simão deitou conta ao tempo decorrido desde que a noticia chegára ao conhecimento de Joaquim Maria, e disse mentalmente: «É isso. Ha mez e meio.»

—Então é absolutamente prohibido fallar-lhe?

—São ordens superiores, que nos cumpre respeitar.

—Está pois em carcere privado?!

—Está na observancia dos deveres que lhe foram impostos, respondeu a porteira, com rispidez, fechando rapidamente o ralo da portaria.

Mas não o fez tão rapidamente, que não ouvisse ainda dizer ao desconhecido:

—Tempo virá em que justemos contas.

O desejo do frade seria ir procurar um machado, com que fendesse a golpes herculeos a grossa porta do mosteiro, para arrancar da clausura Margarida Candida.

Mas essa loucura, a realisar-se, daria apenas um resultado ephémero, que custaria certamente a liberdade de frei Simão, se lhe não custasse tambem a vida.

A ideia de que deixaria exposta a grandes perigos a sua familia de Cezár, especialmente suas irmãs, caso fosse preso, conteve-o.

A phrase do desconhecido, ouvida pela porteira, e transmittida á madre abbadeça, causára enorme alvoroto no mosteiro.

Aquelle homem, apesar do seu disfarce, era um padre, era decerto frei Simão, o frade apóstata, como os absolutistas lhe chamavam; era um inimigo perigoso por audaz.

A abbadeça ordenou logo que Margarida Candida fosse internada na casa-forte do mosteiro, defendida por grossas portas de castanho, chapeadas de ferro, e expediu aviso ás auctoridades da comarca para que sem demora mandassem vigiar e guardar o edificio, ameaçado de um assalto.

D’ali em deante uma força de milicias occupava militarmente o pateo do mosteiro, postando sentinellas em torno d’elle.

E as freiras, quando se lembravam de frei Simão, estremeciam de horror, soffriam hysterismos de medo, como se estivessem ameaçadas da visita de Satanaz em pessoa.


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