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A guerrilha de Frei Simão: romance historico cover

A guerrilha de Frei Simão: romance historico

Chapter 13: XI Borrasca de ciume
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About This Book

The narrative reconstructs the life and struggles of a religious friar born into a provincial family whose sons follow military and monastic paths, tracing family background, wartime service, political divisions, and the friar's involvement in guerrilla action against the prevailing authorities. The author interleaves documentary research and eyewitness memory to depict episodes of imprisonment, escape, clandestine resistance, and the moral conflicts between loyalty to conscience and political allegiance, while evoking rural settings and the social networks that shape loyalties and tragedies.

Muito ordinario é mandar nos Deus trabalhos, para serem meio de o buscarmos: e tambem instrumento de nos fazer mercê.

Frei Luiz de Souza—«Historia de S. Domingos», liv. III, cap. XIV.

O valle de Arouca, fertilisado pela agua de dois ribeiros, o Marialva e o Silvares, que ahi se fundem no rio vulgarmente conhecido pelo nome de Arda, é fechado por cerros alterosos, de uma melancolia agreste, ao sul a Freita, de éste a noroéste a Mó e o Gamarão.

A villa ainda hoje conserva o tom geral de uma povoação serrana, em que choças primitivas, feitas de colmo e barro, se agrupavam ao capricho de bêcos tortuosos e immundos, onde, por entre um lastro de matto sêco, os cerdos fossavam, as gallinhas esgaravatavam no chão.

O mosteiro, talhado em grande, contrasta com a rusticidade ingenua da povoação, que lhe fica proxima.

É, na phrase de um estimavel cultor das lettras, uma como rútila joia engastada n’um áro de rocha viva, o granito das montanhas que circumscrevem o valle, e de basto arvoredo, em que a oliveira frondosa predomina.

Apenas as nuances da vegetação, desde a clara esmeralda do linho até ao verde cinzento do olivedo, suavisam, no valle, a impressão produzida pelo aspecto oppressivo das montanhas severas.

No topo da Mó alveja a capellinha da Senhora d’essa invocação, d’onde a vista abrange um horisonte amplissimo, recortado pelo contorno das serras distantes, que se esfumam ao longe n’um traço sinuoso de carvão azulado.

Passa, á distancia de duas a trez leguas apenas, caracterisando aquella região alpestre, o rio Paiva, confrangido entre negras penedias, espumando quando salta de fraga em fraga, represando charcos sombrios quando descansa um momento, e resoando, como um clamor subterraneo, surdo e rouco, na angustia do seu attribulado percurso até ao Douro.

Um trecho do Paiva, em Alvarenga, chega a ser medonho no perfil alcantilado, pardo e nú, das vertentes escabrosas, que se eriçam em blocos amontoados e revôltos, calcinados e bravios.

O Paiva recebe, em Paradinha, o curso do seu affluente Paivó, tambem ullulante e tôrvo, de margens desgrenhadas e duras.

Parece que, em toda essa região, a impressão da agua completa a da terra, e que um negro Cocyto foi intencionalmente conduzido por entre montanhas tartáricas, como uma integração adequada de um scenario sinistro.

Frei Simão, quando sahiu do páteo do mosteiro, e encarou o agro cariz d’aquellas asperas serras escalvadas, sentiu-se subitamente apprehensivo, abalado no seu animo forte e corajoso.

Uma vaga sensação de mal-estar, que pela primeira vez o assaltava, obrigou-o a sentar-se n’uma pedra e a deixar-se ficar meditando pensamentos fugidios e confusos, que molestamente se succediam e baralhavam.

Sobre as montanhas pairavam densas nuvens, laminadas de um azul-ferrete metallico, quentes de electricidade latente, o que aliás é vulgar n’aquella região. A atmosphera estava abafadiça, espêssa. De quando em quando cahiam grossos pingos d’agua, que a terra parecia sorver sôfregamente.

Assim esteve durante quasi meia hora, alheado n’um tumulto de idéas sombriamente incoerciveis, que ao mesmo passo o prendiam e sobresaltavam.

Por fim, querendo esclarecer a si proprio a surpresa d’aquella extranha preoccupação, attribuiu-a a um sentimento de justa repulsão por todo esse drama de tyrannia que se urdia na treva, no interior de um convento, em torno da sobrinha de André Pinto, o prepotente silveirista de Chaves.

Frei Simão, fanatico pela liberdade, idealisando eldorados de paz e de felicidade social sob a reconquista da democracia parlamentar, quanto elle se illudia! odiava aquelle carcere monastico onde uma fraca alma de mulher gemia oppressa e captiva, sem esperança de, como elle, poder emancipar-se da tutella da communidade e da escravidão do claustro.

Assim explicou frei Simão a si proprio esse desuzado torpor que por momentos lhe entibiou o espirito, rijo como o ferro em lances de maior tortura.

Relacionou mentalmente com o supplicio de Margarida Candida a desgraça de Joaquim Maria, degradado das suas dragonas de capitão, preso e enfermo, cahido n’um desalento que dia a dia se tornava maior e mais profundo.

E achando que a causa da sua indefinida preoccupação não podia ser outra, esforçou-se por combatel-a, readquirindo a habitual energia d’animo.

Um espirito menos forte haver-se-ia deixado enleiar pela apprehensão de que ha estados de alma, subitos e insistentes, que se devem attribuir a uma dupla vista, a uma lucida e inexplicavel previsão do futuro, que vulgarmente se traduz pela palavra presentimento.

Elle não. Elle não era homem que como José Maximo se deixasse avassalar por superstições e preconceitos. Envergonhado d’esse momento de cobardia, que o retivera ali, levantou-se, relanceou sobre o mosteiro um olhar de odio, que era uma nova ameaça mais eloquente talvez do que as palavras que a madre porteira lhe ouvira, e serenamente, a passos firmes, foi ao encontro do criado, que o esperava segurando a égua.

Frei Simão cavalgou com agilidade, e partiu sem tornar a pensar n’aquella meia hora de extranha indecisão doentia.

Chegando a Aveiro, encontrou o irmão no mesmo estado de torpor, que dia a dia o ia definhando.

Joaquim Maria passava a maior parte do tempo no catre, d’onde apenas sahia por instancias de frei Simão. Mas assim que o frade se ausentava, Joaquim Maria voltava para o catre.

O cirurgião da cadeia prescrevia-lhe uma therapeutica reanimadora. Vinham os remedios, e o doente emborcava-os da janella a baixo.

Mal tocava nos alimentos. Tinha um fastio mortal.

Durante o dia cahia por vezes n’um langor em que sonhava meio-accordado. Não dormia, e comtudo perdia o conhecimento de si proprio. Mas velava as noites n’uma insomnia tranquilla, muito lucido, pensando em Margarida, e crendo que lhe seria permittido encontral-a no ceu,—n’um mundo sydereo onde a Providencia devia compensar os tristes e affligidos.

Á volta de Arouca, frei Simão procurou, com a facilidade dos animos fortes, incutir alento ao irmão, insinuando a esperança de que a má noticia vinda de Chaves teria tido apenas em vista aggravar a sua tortura.

Um espirito menos corajoso que o de frei Simão haver-se-ia traído pelas lagrimas, pela sentimentalidade expansiva que involuntariamente vae até revelar uma verdade, que se desejava encobrir.

Mas nunca a esperança pareceu aquecer tão sinceramente o coração do frade como n’aquella hora em que elle era o primeiro desilludido. A cada mentira piedosa com que procurava galvanisar o doente, correspondia, sem que o semblante o denunciasse, o pungir de uma dor intima, e profunda.

Um mez depois, Joaquim Maria era um homem irremediavelmente perdido. O cirurgião disse-o a frei Simão de Vasconcellos, que sobejamente o sabia.

O proprio doente tinha a consciencia do seu estado, porque abruptamente pediu ao irmão que o ouvisse de confissão pela ultima vez.

Frei Simão não se mostrou abalado. Escutou impassivel. Joaquim Maria recordou serenamente todos os actos da sua vida, que revelavam a limpidez de uma alma honesta. Referindo-se á perseguição politica de que era victima, disse ao irmão:

—Tudo perdôo ao homem, que me reduziu a esta desgraça. Morro sem odios, e certo de que Deus terá compaixão da minha alma. Sorri-me até a ideia de, perseguido pelos homens, ir descançar na paz eterna da morte. Ao confessor não tenho mais que dizer, mas resta-me fazer ainda um pedido ao irmão e ao amigo.

—O que é? perguntou frei Simão, levantando-se com subita energia, como se adivinhasse o que Joaquim Maria lhe queria dizer.

—Não penses em vingar a minha morte, Simão, porque sou eu o primeiro a perdoal-a. Mas peço-te que procures arrancar a um infame supplicio a alma torturada de Margarida. Se algum dia a liberdade tornar a raiar n’este desgraçado reino, peço-te que te lembres de Margarida na hora do triumpho. Se a morte a não tiver libertado, liberta-a tu, corre ao mosteiro de Arouca, faze abrir de par em par as portas do carcere, e dize a Margarida: «Meu irmão morreu amargurado pela ideia de ter sacrificado o mais leal dos corações; cumpro a sua vontade vindo quebrar os grilhões que tão barbaramente escravisaram a martyr.» Para mim, Simão, não resta a menor duvida de que André Pinto obrigou Margarida a professar. Conheço de sobra a obcecação feroz dos absolutistas de Chaves, d’elle principalmente. E tenho a plena certeza de que Margarida não recuaria perante o sacrificio de toda a sua vida na hora em que a abandonasse a ultima esperança do seu dedicado amor. A noticia deve pois ser verdadeira.

Frei Simão tinha ouvido o irmão com essa attenção placida, mas absorvente, que é apanagio dos fortes. O seu olhar era vivamente incisivo, mas as linhas da physionomia não passavam pela menor crispação nervosa.

—Juro-te, disse elle com decisão, que se morreres primeiro do que eu, o que só a Deus pertence saber, hei de cumprir religiosamente o teu legado. A minha primeira homenagem á liberdade, se ella de novo felicitar este paiz, será a redempção da mulher que tão nobremente amaste. E agora, alma justa e boa, te absolvo, em nome de Deus, de tuas faltas veniaes. Eu, misero peccador, sinceramente rogo ao Todo Poderoso que me ensine a imitar o teu exemplo.

E crusando sobre a fronte pallida de Joaquim Maria a benção absolutoria, proferiu em voz baixa as palavras do ritual.

Depois despediu-se, e sahiu. Sentia-se oppresso, precisava respirar o ar puro que vinha da barra em brandas lufadas, as quaes passavam sobre a ria sem a fazer ondular.

Junto ao caes, um hiate de cabotagem parecia dormir immovel sobre a agua espelhante. E um barco de pesca deslisava suavemente, aproado ao oceano, esbatendo-se na claridade olympica da atmosphera maritima.

A quietação da paizagem e a luz gloriosa do ar contrastavam singularmente com a dolorosa concentração, que opprimia o coração de frei Simão de Vasconcellos n’uma treva de noite funda.

Chegado a Cezár, disse á irmã mais velha:

—Vou amanhã solicitar as devidas licenças para que seja permittido a um moribundo vir expirar nos braços da sua familia e em sua casa.

A irmã ouviu-o em lagrimas.

O cirurgião dos presos, ouvido sobre o requerimento de frei Simão, informou que Joaquim Maria estava irremediavelmente perdido, e poucos dias teria de vida.

Mas esta informação não conseguiu abalar o animo duro da justiça até o ponto de conceder que o capitão fosse transportado para sua propria casa. O mais que se concedeu foi que a familia de Cezár escolhesse habitação dentro da cidade de Aveiro ou perto d’ella, onde Joaquim Maria podesse ser recebido, sob fiança de uma familia conhecida.

Frei Simão obteve a annuencia da familia Rangel de Quadros, do Carmo, que se prestou a receber o preso, e a responsabilisar-se por elle.

Joaquim Maria sahiu da cadeia para a casa do Carmo nos primeiros dias de outubro d’esse anno de 1823.

Frei Simão e D. Maria Albina, a irmã mais velha, acompanharam-n’o.

O doente quiz que lhe fossem ministrados os ultimos sacramentos, e serenamente os recebeu.

O frade velava-lhe o leito, como enfermeiro dedicado. Ficou só, ao lado do irmão; fizera recolher a Cezár D. Maria Albina, e prohibira ás outras pessoas da familia que fossem alancear com a sua presença os ultimos momentos de um moribundo.

No dia 12 de outubro, que completava seis semanas de enfermidade, Joaquim Maria sentiu avisinhar-se a morte.

Apertou nas suas as mãos do frade e cravou n’elle um olhar insistente, que a agonia embaciava.

Frei Simão comprehendeu esse olhar, e disse ao moribundo:

—Não me esqueço do que prometti. Vae tranquillo.

E não podia ser mais tranquilla a morte de Joaquim Maria.

Foi o frade quem amortalhou o irmão e quem acompanhou o esquife á egreja do convento de Santo Antonio.

Quando frei Simão voltou á casa de Cezár, disse ás irmãs:

—Rezai por elle. Deus ha de premial-o, e a liberdade o vingará.


XI
Borrasca de ciume