Muito ordinario é mandar nos Deus trabalhos, para serem meio de o buscarmos: e tambem instrumento de nos fazer mercê.
Frei Luiz de Souza—«Historia de S. Domingos», liv. III, cap. XIV.
O valle de Arouca, fertilisado pela agua de dois ribeiros, o Marialva e o Silvares, que ahi se fundem no rio vulgarmente conhecido pelo nome de Arda, é fechado por cerros alterosos, de uma melancolia agreste, ao sul a Freita, de éste a noroéste a Mó e o Gamarão.
A villa ainda hoje conserva o tom geral de uma povoação serrana, em que choças primitivas, feitas de colmo e barro, se agrupavam ao capricho de bêcos tortuosos e immundos, onde, por entre um lastro de matto sêco, os cerdos fossavam, as gallinhas esgaravatavam no chão.
O mosteiro, talhado em grande, contrasta com a rusticidade ingenua da povoação, que lhe fica proxima.
É, na phrase de um estimavel cultor das lettras, uma como rútila joia engastada n’um áro de rocha viva, o granito das montanhas que circumscrevem o valle, e de basto arvoredo, em que a oliveira frondosa predomina.
Apenas as nuances da vegetação, desde a clara esmeralda do linho até ao verde cinzento do olivedo, suavisam, no valle, a impressão produzida pelo aspecto oppressivo das montanhas severas.
No topo da Mó alveja a capellinha da Senhora d’essa invocação, d’onde a vista abrange um horisonte amplissimo, recortado pelo contorno das serras distantes, que se esfumam ao longe n’um traço sinuoso de carvão azulado.
Passa, á distancia de duas a trez leguas apenas, caracterisando aquella região alpestre, o rio Paiva, confrangido entre negras penedias, espumando quando salta de fraga em fraga, represando charcos sombrios quando descansa um momento, e resoando, como um clamor subterraneo, surdo e rouco, na angustia do seu attribulado percurso até ao Douro.
Um trecho do Paiva, em Alvarenga, chega a ser medonho no perfil alcantilado, pardo e nú, das vertentes escabrosas, que se eriçam em blocos amontoados e revôltos, calcinados e bravios.
O Paiva recebe, em Paradinha, o curso do seu affluente Paivó, tambem ullulante e tôrvo, de margens desgrenhadas e duras.
Parece que, em toda essa região, a impressão da agua completa a da terra, e que um negro Cocyto foi intencionalmente conduzido por entre montanhas tartáricas, como uma integração adequada de um scenario sinistro.
Frei Simão, quando sahiu do páteo do mosteiro, e encarou o agro cariz d’aquellas asperas serras escalvadas, sentiu-se subitamente apprehensivo, abalado no seu animo forte e corajoso.
Uma vaga sensação de mal-estar, que pela primeira vez o assaltava, obrigou-o a sentar-se n’uma pedra e a deixar-se ficar meditando pensamentos fugidios e confusos, que molestamente se succediam e baralhavam.
Sobre as montanhas pairavam densas nuvens, laminadas de um azul-ferrete metallico, quentes de electricidade latente, o que aliás é vulgar n’aquella região. A atmosphera estava abafadiça, espêssa. De quando em quando cahiam grossos pingos d’agua, que a terra parecia sorver sôfregamente.
Assim esteve durante quasi meia hora, alheado n’um tumulto de idéas sombriamente incoerciveis, que ao mesmo passo o prendiam e sobresaltavam.
Por fim, querendo esclarecer a si proprio a surpresa d’aquella extranha preoccupação, attribuiu-a a um sentimento de justa repulsão por todo esse drama de tyrannia que se urdia na treva, no interior de um convento, em torno da sobrinha de André Pinto, o prepotente silveirista de Chaves.
Frei Simão, fanatico pela liberdade, idealisando eldorados de paz e de felicidade social sob a reconquista da democracia parlamentar, quanto elle se illudia! odiava aquelle carcere monastico onde uma fraca alma de mulher gemia oppressa e captiva, sem esperança de, como elle, poder emancipar-se da tutella da communidade e da escravidão do claustro.
Assim explicou frei Simão a si proprio esse desuzado torpor que por momentos lhe entibiou o espirito, rijo como o ferro em lances de maior tortura.
Relacionou mentalmente com o supplicio de Margarida Candida a desgraça de Joaquim Maria, degradado das suas dragonas de capitão, preso e enfermo, cahido n’um desalento que dia a dia se tornava maior e mais profundo.
E achando que a causa da sua indefinida preoccupação não podia ser outra, esforçou-se por combatel-a, readquirindo a habitual energia d’animo.
Um espirito menos forte haver-se-ia deixado enleiar pela apprehensão de que ha estados de alma, subitos e insistentes, que se devem attribuir a uma dupla vista, a uma lucida e inexplicavel previsão do futuro, que vulgarmente se traduz pela palavra presentimento.
Elle não. Elle não era homem que como José Maximo se deixasse avassalar por superstições e preconceitos. Envergonhado d’esse momento de cobardia, que o retivera ali, levantou-se, relanceou sobre o mosteiro um olhar de odio, que era uma nova ameaça mais eloquente talvez do que as palavras que a madre porteira lhe ouvira, e serenamente, a passos firmes, foi ao encontro do criado, que o esperava segurando a égua.
Frei Simão cavalgou com agilidade, e partiu sem tornar a pensar n’aquella meia hora de extranha indecisão doentia.
Chegando a Aveiro, encontrou o irmão no mesmo estado de torpor, que dia a dia o ia definhando.
Joaquim Maria passava a maior parte do tempo no catre, d’onde apenas sahia por instancias de frei Simão. Mas assim que o frade se ausentava, Joaquim Maria voltava para o catre.
O cirurgião da cadeia prescrevia-lhe uma therapeutica reanimadora. Vinham os remedios, e o doente emborcava-os da janella a baixo.
Mal tocava nos alimentos. Tinha um fastio mortal.
Durante o dia cahia por vezes n’um langor em que sonhava meio-accordado. Não dormia, e comtudo perdia o conhecimento de si proprio. Mas velava as noites n’uma insomnia tranquilla, muito lucido, pensando em Margarida, e crendo que lhe seria permittido encontral-a no ceu,—n’um mundo sydereo onde a Providencia devia compensar os tristes e affligidos.
Á volta de Arouca, frei Simão procurou, com a facilidade dos animos fortes, incutir alento ao irmão, insinuando a esperança de que a má noticia vinda de Chaves teria tido apenas em vista aggravar a sua tortura.
Um espirito menos corajoso que o de frei Simão haver-se-ia traído pelas lagrimas, pela sentimentalidade expansiva que involuntariamente vae até revelar uma verdade, que se desejava encobrir.
Mas nunca a esperança pareceu aquecer tão sinceramente o coração do frade como n’aquella hora em que elle era o primeiro desilludido. A cada mentira piedosa com que procurava galvanisar o doente, correspondia, sem que o semblante o denunciasse, o pungir de uma dor intima, e profunda.
Um mez depois, Joaquim Maria era um homem irremediavelmente perdido. O cirurgião disse-o a frei Simão de Vasconcellos, que sobejamente o sabia.
O proprio doente tinha a consciencia do seu estado, porque abruptamente pediu ao irmão que o ouvisse de confissão pela ultima vez.
Frei Simão não se mostrou abalado. Escutou impassivel. Joaquim Maria recordou serenamente todos os actos da sua vida, que revelavam a limpidez de uma alma honesta. Referindo-se á perseguição politica de que era victima, disse ao irmão:
—Tudo perdôo ao homem, que me reduziu a esta desgraça. Morro sem odios, e certo de que Deus terá compaixão da minha alma. Sorri-me até a ideia de, perseguido pelos homens, ir descançar na paz eterna da morte. Ao confessor não tenho mais que dizer, mas resta-me fazer ainda um pedido ao irmão e ao amigo.
—O que é? perguntou frei Simão, levantando-se com subita energia, como se adivinhasse o que Joaquim Maria lhe queria dizer.
—Não penses em vingar a minha morte, Simão, porque sou eu o primeiro a perdoal-a. Mas peço-te que procures arrancar a um infame supplicio a alma torturada de Margarida. Se algum dia a liberdade tornar a raiar n’este desgraçado reino, peço-te que te lembres de Margarida na hora do triumpho. Se a morte a não tiver libertado, liberta-a tu, corre ao mosteiro de Arouca, faze abrir de par em par as portas do carcere, e dize a Margarida: «Meu irmão morreu amargurado pela ideia de ter sacrificado o mais leal dos corações; cumpro a sua vontade vindo quebrar os grilhões que tão barbaramente escravisaram a martyr.» Para mim, Simão, não resta a menor duvida de que André Pinto obrigou Margarida a professar. Conheço de sobra a obcecação feroz dos absolutistas de Chaves, d’elle principalmente. E tenho a plena certeza de que Margarida não recuaria perante o sacrificio de toda a sua vida na hora em que a abandonasse a ultima esperança do seu dedicado amor. A noticia deve pois ser verdadeira.
Frei Simão tinha ouvido o irmão com essa attenção placida, mas absorvente, que é apanagio dos fortes. O seu olhar era vivamente incisivo, mas as linhas da physionomia não passavam pela menor crispação nervosa.
—Juro-te, disse elle com decisão, que se morreres primeiro do que eu, o que só a Deus pertence saber, hei de cumprir religiosamente o teu legado. A minha primeira homenagem á liberdade, se ella de novo felicitar este paiz, será a redempção da mulher que tão nobremente amaste. E agora, alma justa e boa, te absolvo, em nome de Deus, de tuas faltas veniaes. Eu, misero peccador, sinceramente rogo ao Todo Poderoso que me ensine a imitar o teu exemplo.
E crusando sobre a fronte pallida de Joaquim Maria a benção absolutoria, proferiu em voz baixa as palavras do ritual.
Depois despediu-se, e sahiu. Sentia-se oppresso, precisava respirar o ar puro que vinha da barra em brandas lufadas, as quaes passavam sobre a ria sem a fazer ondular.
Junto ao caes, um hiate de cabotagem parecia dormir immovel sobre a agua espelhante. E um barco de pesca deslisava suavemente, aproado ao oceano, esbatendo-se na claridade olympica da atmosphera maritima.
A quietação da paizagem e a luz gloriosa do ar contrastavam singularmente com a dolorosa concentração, que opprimia o coração de frei Simão de Vasconcellos n’uma treva de noite funda.
Chegado a Cezár, disse á irmã mais velha:
—Vou amanhã solicitar as devidas licenças para que seja permittido a um moribundo vir expirar nos braços da sua familia e em sua casa.
A irmã ouviu-o em lagrimas.
O cirurgião dos presos, ouvido sobre o requerimento de frei Simão, informou que Joaquim Maria estava irremediavelmente perdido, e poucos dias teria de vida.
Mas esta informação não conseguiu abalar o animo duro da justiça até o ponto de conceder que o capitão fosse transportado para sua propria casa. O mais que se concedeu foi que a familia de Cezár escolhesse habitação dentro da cidade de Aveiro ou perto d’ella, onde Joaquim Maria podesse ser recebido, sob fiança de uma familia conhecida.
Frei Simão obteve a annuencia da familia Rangel de Quadros, do Carmo, que se prestou a receber o preso, e a responsabilisar-se por elle.
Joaquim Maria sahiu da cadeia para a casa do Carmo nos primeiros dias de outubro d’esse anno de 1823.
Frei Simão e D. Maria Albina, a irmã mais velha, acompanharam-n’o.
O doente quiz que lhe fossem ministrados os ultimos sacramentos, e serenamente os recebeu.
O frade velava-lhe o leito, como enfermeiro dedicado. Ficou só, ao lado do irmão; fizera recolher a Cezár D. Maria Albina, e prohibira ás outras pessoas da familia que fossem alancear com a sua presença os ultimos momentos de um moribundo.
No dia 12 de outubro, que completava seis semanas de enfermidade, Joaquim Maria sentiu avisinhar-se a morte.
Apertou nas suas as mãos do frade e cravou n’elle um olhar insistente, que a agonia embaciava.
Frei Simão comprehendeu esse olhar, e disse ao moribundo:
—Não me esqueço do que prometti. Vae tranquillo.
E não podia ser mais tranquilla a morte de Joaquim Maria.
Foi o frade quem amortalhou o irmão e quem acompanhou o esquife á egreja do convento de Santo Antonio.
Quando frei Simão voltou á casa de Cezár, disse ás irmãs:
—Rezai por elle. Deus ha de premial-o, e a liberdade o vingará.