É ciume um fogo que ateado em qualquer leve occasião, levanta ardente chamma e tão espêsso fumo, que abrasa, e céga, a quem está perto d’elle. E não só arde o sêco, mas no verde é mais perigoso.
Rodrigues Lobo—«O desenganado».
José Maximo foi desde o inverno de 1820 até junho de 1823 empregado como amanuense supranumerario na secretaria municipal do Porto.
Ignacio da Fonseca repellira-o, logo que soube que elle fraternisara com frei Simão nas alegrias do triumpho constitucional de 1820, e mandára dizer para o Fundão, ao irmão e á cunhada, que o sobrinho, em vez de estudar em Coimbra, perdia o tempo em machinações politicas, que o desviavam do cumprimento dos seus deveres.
Causou horror ao pae de José Maximo a noticia de que o filho estava filiado na seita dos pedreiros-livres. Conchavado com o irmão, tratou de averiguar miudamente qual tinha sido a vida de José Maximo nos ultimos tempos.
Ignacio da Fonseca foi de proposito a Coimbra para colhêr informações, e veio a saber que o sobrinho abandonára as aulas do Collegio das Artes, ausentando-se sem dizer para onde.
Bastaram estas denuncias, aliás incompletas, para que Ignacio da Fonseca recolhesse indignado a Cezár, e participasse ao irmão que estava resolvido a renegar um sobrinho indigno da sua estima.
O pai de José Maximo afinou pela colera do irmão. A mãe chorou amargas lagrimas pela sorte do filho, cujo destino ignorava, mas não poude abrandar a indignação do marido e do cunhado.
Os criados de Ignacio da Fonseca espalharam em Cezár, para que chegasse ao conhecimento de frei Simão, que «tanto o tio como o pai do sr. José Maximo não queriam tornar a saber d’elle.»
Frei Simão mandou esta ruim nova a José Maximo, para o Porto, e dizia-lhe por essa occasião: «Parece que estou condemnado a não poder escrever a Vossa Mercê sem ter que lhe dar noticias desagradaveis. Não bastou communicar-lhe que os criados de seu tio o reconheceram quando Vossa Mercê veio a Cezár. Agora os mesmos criados espalham por aqui que seu pai conhece tão bem como seu tio o facto de Vossa Mercê haver abandonado Coimbra. Apenas me parece que a sua familia ignora o que Vossa Mercê tem passado depois que se retirou das aulas: se o soubessem, não teriam deixado de o dizer e commentar.
«Eu passo aos olhos do sr. Ignacio da Fonseca por ser o desencaminhador, o genio mau de Vossa Mercê, e o fallatorio que por aqui vai tem visivelmente por fim apontar-me á indignação das gentes como pervertor politico de moços incautos. Mas eu, que no caso sujeito estou bem com a minha consciencia—Deus o sabe e Vossa Mercê tambem—não me incommódo com as injustiças que contra mim partem de visinhos rancorosos.»
Esta carta de frei Simão entristeceu José Maximo: elle conhecia o animo rispido do pai, e calculava, por isso, quanto a mãe teria soffrido desde que no Fundão se soube que abandonára as aulas de Coimbra.
Sentiu remorsos de ter dado esse desgosto á santa creatura que o adorava, e que elle já nem sequer via ha tanto tempo, por isso que, como sabemos, costumava ir passar as ferias a Cezár.
Não lhe pesava a ideia de não poder esperar da familia quaesquer recursos pecuniarios. Incommodava-o pouco, isso. Estava habituado a soffrêr incommodos desde que tomára o disfarce de serviçal em casa do general Canavarro.
Depois da victoria constitucional do Porto, arrumaram-n’o na secretaria do senado com um crusado novo por dia. Trez moedas chegavam-lhe bem para viver. Mas aquella situação era por de mais obscura para satisfazer o seu animo; equivalia a um bêco sem sahida. Repugnava-lhe ter que passar a vida na passividade ingloria de humilde copista, elle, que tudo tinha arriscado para fazer vingar a conspiração liberal do Porto.
Em muitas horas melancolicas reconhecia que frei Simão acertadamente lhe havia dito que só pelas armas ou pelas lettras se podia conquistar renome e posição. E no fundo do seu coração sentia pena de ter abandonado as aulas de Coimbra, fechando sobre si a porta de um futuro brilhante.
Principiou a reflectir sobre a illusão dos triumphos politicos, em que os primeiros são os ultimos, e os ultimos os primeiros. Orgulhosamente recordava que fôra elle que em Lisboa livrára Fernandes Thomaz das garras da policia, e que se Fernandes Thomaz houvesse sido preso, a revolução do Porto teria abortado.
Pois, não obstante, atiraram-lhe com um magro osso, como a um rafeiro, e nunca mais se tornaram a lembrar d’elle.
Fazia-lhe falta um diploma litterario. Se o possuisse, poder-se-ia nivelar com os corypheus do constitucionalismo, haveria sido eleito deputado ás constituintes, teria conquistado no parlamento um logar distincto.
Mas já ninguem parecia lembrar-se da abnegação, com que, no disfarce de Fresca Ribeira, se havia sentado ao tinélo do general Canavarro, comendo entre os outros criados.
O amor de D. Anna de Vasconcellos era a unica amarra que o prendia a uma vida descontente, e a uma esperança duvidosa. Ella ficára no Porto, em companhia de Frederico Pinto, e ficára, certissimamente, por causa d’elle.
A principio, José Maximo ia aos domingos passar a noite a casa de Frederico Pinto, e velozes lhe corriam ahi doces horas, que lhe davam alento para ir esperando um futuro incerto.
Mas um dia soubéra por D. Anna de Vasconcellos que o irmão lhe tinha dito:
—Não admitte duvida que José Maximo te ama, e que tu o amas tambem. Mas devo fazer-te vêr que elle tem um caracter exaltado, um animo fogoso, ao qual uma esperança tranquilla não bastará a dar felicidade. É pois possivel que pense, n’alguma hora de impaciencia, em antecipar um casamento, que as condições da sua posição social não podem auctorisar por emquanto. Se elle te propozer um rapto, recusa-o, porque tens obrigação, como mulher digna que és, de não vexar a nossa familia e envergonhar a minha casa.
Anna de Vasconcellos teve a imprudencia de contar isto a José Maximo, que se indignou com a certeza de que Frederico Pinto suspeitava da sua lealdade de cavalheiro.
—Teu irmão não me conhece ainda! exclamou elle exaltadissimo.
E nunca mais voltou a passar os serões do domingo em casa de Frederico Pinto.
Não contente com isto, aconselhou Anna de Vasconcellos a que voltasse para a casa do Outeiro.
—Prefiro a tua ausencia, disse-lhe elle, a ter que supportar a idea de que por tua causa me não fazem inteira justiça.
A pobre Anninhas, muito arrependida da inconfidencia, procurava desculpar o irmão, e resistia, com lagrimas nos olhos, ao alvitre de voltar para a casa do Outeiro ficando José Maximo no Porto.
Á força de rogos carinhosos conseguiu ella que José Maximo não insistisse pelo regresso a Cezár, mas não poude obter d’elle que voltasse aos serões do Campo de Santo Ovidio.
José Maximo tornára-se sombrio, concentrado. A esperança abandonava-o. Escrevia a D. Anna de Vasconcellos longas cartas, cheias de desalento, que todas as noites ella içava por um cordão de retroz da rua para a janella. Elle considerava-se uma alma incomprehendida pelo commum das pessoas, habituadas a medir o espirito humano pela bitola da vulgaridade egoista. Mostrava-se desacoraçoado do futuro, que previa «fertil e estrondoso em desgraças.» Este era o diapasão constante da sua correspondencia amorosa. «Sinto remorsos, escrevia elle uma vez, de ter feito a infelicidade de duas mulheres que eu adoro: minha mãe, e tu. O meu amor tem o triste condão da lepra: é contagioso na desgraça. Perdoa-me, bella alma, pura como as estrellas e delicada como as flores, perdoa-me o ter-te infelicitado só porque o meu coração te escolheu para amar-te entre todas as mulheres.»
Anninhas lia estas desalentadas cartas, e chorava. Ella mesma, habituada á linguagem sombria de José Maximo, começava a tremer pelo futuro, receiava-o.
Assim decorreram dois annos n’uma tortura de amor, cujas angustias a imaginação ardente de José Maximo parecia comprazer-se dolorosamente em augmentar.
Quando á contra-revolução transmontana de 1823 succedeu a desgraça de Joaquim Maria, mais se exaltou ainda em negras visões e apprehensões sinistras a phantasia lugubre de José Maximo.
«Vai-se cerrando em torno de nós, escreveu elle a D. Anna de Vasconcellos, uma atmosphera caliginosa, que parece aviso da nossa perdição futura. A desgraça pelo amor entrou já na tua familia. Fui eu que a trouxe com a minha má sina? Não sei. Mas firmemente creio que não deixarei de exceder o cruel destino de teu irmão Joaquim, e que tu não terás que soffrer menos que Margarida Candida.»
No fim de maio d’aquelle anno o infante D. Miguel restabeleceu facilmente, com a jornada de Villa Franca, o poder absoluto, de que o rei D. João VI, bem aconselhado, conseguiu apossar-se.
Os deputados liberaes, os famosos implantadores do constitucionalismo de 1820, fugiram, emigraram.
José Maximo estava tão desanimado, que indifferentemente recebeu, no primeiro momento, a noticia da restauração.
—Tanto valem uns como os outros. Não merece a pena escolhêr entre liberaes e realistas, disse elle no segredo da sua alma.
Esperou durante alguns dias que o despedissem da secretaria municipal do Porto. Mas ninguem pensou n’isso. Os vencedores não o enxergavam na obscuridade do logar que desempenhava. José Maximo encarou principalmente a questão por este lado, e a sua tristesa augmentou. Todavia repugnou-lhe viver accommodaticiamente á sombra de um regimen de que era adversario intransigente, e foi elle proprio que abandonou o seu logar na secretaria da camara.
Conservava alguns recursos amealhados na estricta economia em que tinha vivido desde que, contrariado por todos os acontecimentos que o leitor conhece, fugia a distracções e passatempos.
Estava indeciso sobre o caminho que devia seguir, quando, por occasião da romaria do Senhor de Mattosinhos, D. Anna de Vasconcellos o avisara de que toda a familia de Frederico Pinto ia ali cumprir uma promessa que tinham feito durante a recente doença do pequeno Frederico, e que ella não podia deixar de os acompanhar.
Se bem que contrariado, José Maximo foi tambem a Mattosinhos. Uma romaria era para elle uma bacchanal do catholicismo; aborrecia-lhe. Mas o amor conseguiu vencer a sua repugnancia ás romarias.
Anninhas logo o enxergou mésclado entre a multidão que borborinhava no ádro da egreja. E comprehendeu o sacrificio que elle devia estar fazendo no meio de romeiros, que traziam no chapeu o registo do Senhor de Mattosinhos adornado com laços escarlates,—a côr symbolica da restauração.
Depois de cumprida a promessa, quando a familia de Frederico Pinto sahia do templo, foi demorada no ádro pelo encontro com um capitão de infanteria 18, em cuja companhia andava um rapaz flammantemente entrajado ao garrido.
Frederico Pinto parecia tratar com muitas attenções o pintalegrete, que o capitão lhe apresentára, e que elle por sua vez apresentára á mulher e á irmã.
José Maximo viu isto, e doeu-se. «De mim duvidam, pensou elle; áquelle, estimam-n’o.
Notou que, no momento em que a familia de Frederico Pinto se dirigia para o sitio onde a estava esperando o carroção, Anninhas era contrariada pela insistencia com que o taful estoiradinho lhe dirigia a palavra.
Justamente n’essa occasião um andador de capa de seda branca aproximou-se de José Maximo pedindo-lhe «esmola para Nosso Senhor de Mattosinhos.»
Mettendo a mão á algibeira, e deixando cahir um vintem na bandeja, José Maximo perguntou abruptamente ao andador, indicando-lhe o galan do arraial:
—Conhece aquelle rapaz?
O andador respondeu immediatamente:
—Se conheço?! É o filho do sr. Rodado, das Casas Novas.
—Rico?
—O sr. Rodado, que é este anno o juiz da nossa confraria, veio de Manáus pôdre de rico, e mandou fazer as maiores casas que ha em Mattosinhos.
—Huum! rugiu José Maximo n’uma colera surda. E o que faz elle, o filho?
O andador estava morrendo por taramelar.
—O sr. Manelsinho é estudante de Coimbra.
—É estudante de Coimbra e está agora aqui?!
—Veio de proposito á festa por o pae ser juiz, e vai-se embora amanhã. O sr. nunca ouviu dizer que quem tem dinheiro faz tudo o que quer?!
Esta resposta despertaria decerto alguma replica agreste, se a attenção de José Maximo não fosse subitamente attraída por um incidente inesperado, que augmentou a sua colera. A familia de Frederico Pinto entrára no carroção, e conjuntamente com ella o capitão de infanteria 18 e o estudante de Coimbra.
Subitamente, o coração de José Maximo pareceu querer saltar-lhe do peito n’uma furia leonina. Era o ciume que despertava;—o ciume, sentimento que José Maximo desconhecêra até então.
Ao mesmo tempo resurgiam no desalentado amanuense da secretaria municipal todos os seus fogosos instinctos de revolucionario, como se accordassem de um longo somno violentamente sacudidos por um braço de ferro.
Reapparecia n’elle o homem forte, prompto para a lucta, destemido até á audacia.
O carroção partira ao passo lento dos bois corpulentos e tardos, que o lavrador ia picando com o aguilhão como para regular-lhes a andadura no momento de arrancar.
O rosto de D. Anna de Vasconcellos denunciava-se constrangido, ao espreitar para o arraial, onde José Maximo ficára acompanhando com um olhar desvairado o rodar vagaroso do vehiculo.
Pensando n’esse inesperado adventicio, cuja apparição lhe fizera despertar uma subita tempestade na alma, José Maximo monologava apprehensivo:
—Se elle veio de Coimbra de proposito para assistir á romaria, e se deixa a romaria para ir para o Porto, é porque está namorado. E porque elle é rico, e porque segue a carreira das lettras, porque, n’uma palavra, representa «um bom partido», todo o mundo, a familia de Frederico Pinto principalmente, ha de aconselhar Anninhas a que me esqueça para poder ser esposa feliz nas Casas Novas do brazileiro de Mattosinhos, como co-herdeira dos seus mil crusados e dos seus palacetes.
E, meneiando a cabeça, sorria de desdem, de amargura, de raiva.
Era o ciume...