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A guerrilha de Frei Simão: romance historico cover

A guerrilha de Frei Simão: romance historico

Chapter 21: XIX A caça ao homem
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About This Book

The narrative reconstructs the life and struggles of a religious friar born into a provincial family whose sons follow military and monastic paths, tracing family background, wartime service, political divisions, and the friar's involvement in guerrilla action against the prevailing authorities. The author interleaves documentary research and eyewitness memory to depict episodes of imprisonment, escape, clandestine resistance, and the moral conflicts between loyalty to conscience and political allegiance, while evoking rural settings and the social networks that shape loyalties and tragedies.

Sofframos como homens, e seremos corôados como vencedores.

D. Frei Amador Arraes—«Dialogos».

Havia na casa do Outeiro um criado, que a familia de frei Simão distinguia entre todos os outros.

Chamava-se Francisco José Marques, mas era sempre tratado pelo appellido.

Natural da freguezia de Sanfins, comarca da Villa da Feira, entrára muito novo ao serviço de José Bernardo Pereira de Vasconcellos, e pelo seu genio alegre e humilde fizera-se estimar pelos amos, que o mandaram ensinar a ler e a escrever.

Ninguem tinha tido tanta paciencia como elle para trazer ao collo e adormecer nos braços a pequenina Anninhas durante os dias da primeira infancia.

Quando a menina chorava, o Marques acudia muito solicito e dedicado a distrail-a e acalental-a. Passeiava-a longo tempo, cantarolando:

Dorme, dorme,
Minha menina Rú-Rú.
Cantam os anjos
E dormes tu.

Era elle sempre o primeiro a desculpal-a nas suas perrices, e procurava entretel-a contando-lhe historias, que ella a principio ouvia com pouca attenção, depois com muito interesse. E quando os olhos da menina amorteciam na languidez do somno, o Marques, já cansado de contar historias, ia dizendo de vagar, espacejando lentamente as palavras, ás vezes até as syllabas:

Era uma vez
Uma menina chamada Victoria.
Morreu a menina...
Acabou-se a historia.

Anninhas já o não ouvia: tinha adormecido.

De todas as pessoas da casa a mais estimada pelo Marques era, pois, a sua menina, como elle dizia orgulhosamente. Mas toda a familia do Outeiro o considerava, pela sua dedicação á casa, como o primeiro dos criados,—mais um amigo do que um serviçal.

O genio alegre do Marques, a agudeza de espirito que revelava em muitas observações e muitas phrases de uma graça desaffectada, quasi ingenua, tornavam-n’o agradavel no trato domestico, as pessoas da casa riam-se de ouvil-o, chegavam a puxar-lhe pela lingua, quando estava de maré, o que quasi sempre acontecia.

Identificado com a familia do Outeiro, o Marques era liberal como os amos, sem comtudo saber muito bem no que consistia a liberdade constitucional, e quaes fossem as suas vantagens politicas sobre o absolutismo. Mas seguiria frei Simão para onde elle fosse, prompto a defender a causa que elle defendesse.

Depois que veio D. Miguel, o Marques disse uma vez a frei Simão:

—Papeis, nas mãos de ignorantes como eu, apenas costumam servir para embrulho; mas se fôr preciso, deixar-me-hei embrulhar por um certo papel.

Este papel era a Carta.

—O quê?! perguntou frei Simão. Eras capaz de assentar praça?

—Se Vossa Reverencia me dissesse—Marcha, eu faria logo: Um, dois, trez.

E fingia marchar, pondo ao hombro um cabo de vassoura, á laia de espingarda.

No dia 20 de março andava frei Simão regando as flores do seu pequeno jardim; o Marques trabalhava no pomar contiguo.

Anninhas estava debruçada no parapeito do pateo, que sobranceava o pomar.

Na casa do Outeiro, uma atmosphera de perigos e sobresaltos cerrava-se ameaçadora em torno da familia Vasconcellos. A vida era ali mais triste do que nunca.

Depois que D. Miguel chegára, e dissolvêra as côrtes, os absolutistas de Cezár tinham levado a sua ousadia até ao ponto de propositadamente irritar frei Simão. Se não iam mais longe, se não tinham chegado ainda á provocação directa, era porque temiam a valentia do frade. Elles bem sabiam que frei Simão fôra uma vez a Macieira de Cambra, terra de valentões, castigar por sua propria mão um homem, que acintosamente lhe havia enredado um pleito de familia. Fôra, castigára o homem, e voltára incolume a Cezár. Como esta façanha, contavam-se outras. De modo que os visinhos absolutistas, apesar de espicaçados por Ignacio da Fonseca, não tinham passado ainda da provocação indirecta.

Por exemplo. Uma tarde passava frei Simão á Fonte da Pipa, perto do matto de Algiboa, quando uma voz rompeu a cantar ironicamente:

É certo, e mais que certo
D. Miguel ser nosso rei.
É certo, e mais que certo,
Que assim é que manda a lei.

Pareceu a frei Simão que era a voz do Manel Zarôlho. Parou logo, procurando descobrir a pessoa que cantava. Mas a voz calou-se, e o frade seguiu pausadamente seu caminho.

Eram prenuncios de tempestade imminente, que a ninguem da familia do Outeiro passavam despercebidos. A todos se antolhava ameaçador o futuro. Era visivelmente chegada a vespera de graves acontecimentos.

Por isso tambem Francisco Marques parecia agora, mais do que nunca, empenhado em desviar os tristes presentimentos e vagos receios, que pesavam sobre o espirito da familia do Outeiro.

Vendo Anninhas debruçada no parapeito do pateo, disséra jovialmente o Marques:

—Olha a minha menina como está tristonha! Pois antes das vindimas ha de estar mais alegre. Ó sr. frei Simão, por que será que chamam cabra ao sino que em Coimbra manda os estudantes?

Anninhas sorriu levemente.

—Como sabes tu isso? perguntou frei Simão.

—Foi o sr. José Maximo que m’o disse uma vez. Mas eu fiquei a scismar n’aquelle nome. Será porque os cinco annos dos estudos teem tantos espinhos como as silvas, que as cabras costumam roer?

Frei Simão e Anninhas riram do jovial desconchavo.

—É porque o sino berra como uma cabra, disse alegremente o frade. Se não fôr isto, é porque está empoleirado na torre como as cabras no pinaculo dos rochedos.

—Ah! tornou o Marques, isso quadra-me. Mas pena é que não esteja tão alto, que se não possa vêr de Cezár!...

Tiniu agora mais crystallino o riso de Anninhas, a quem as facécias do Marques distraíam das vagas apprehensões com que ella pensava no futuro e sempre em Coimbra desde que José Maximo tornára a envolver-se nas questões politicas da academia.

Bateram á Porta vermelha. Anninhas retirou-se para dentro de casa.

—Vae vêr, ó Marques, disse frei Simão baixando a voz.

Mas como o criado se demorasse a conversar fôra da porta com a pessoa que tinha batido, frei Simão perguntou de rijo:

—Ó Marques! quem está ahi?

—É o Zé de Oliveira, por causa da réga.

—Diz-lhe que pode levar a agua amanhã.

O Zé de Oliveira era um visinho, um amigo, a quem frei Simão cedia, alguns dias na semana, a agua precisa para a réga.

Voltou o Marques, apparentemente tranquillo.

—Ora o diabo do homem! disse elle olhando para as janellas sobranceiras ao pomar, não esteve comigo ás voltas, que sim e mais que tambem, que ha ahi uma certa cachopa, que me quer fallar casamento?!

—Ainda ias a tempo! respondeu frei Simão.

Mas como reconhecesse que ninguem os estava ouvindo, o Marques disse a meia voz:

—Ó sr. frei Simão, faça favor de vir aqui vêr esta amendoeira como se vae a pôr bonita. Está aqui está toda coberta de flor.

—Tenho mais que fazer agora.

—Mas faça favor, que tem aqui uma cursidade (curiosidade).

Frei Simão foi, um pouco contrariado, por comprazer com o Marques.

—Então o que é? perguntou elle entrando no pomar.

—Faça favor de vir vêr ao perto.

E como frei Simão se aproximasse, disse-lhe baixinho:

—O Zé de Oliveira trouxe uma ruim noticia.

—O que foi?! perguntou frei Simão com interesse.

—Disse constar que os estudantes de Coimbra mataram ha dois dias em Condeixa uns lentes que iam para Lisboa.

—Ora essa! exclamou frei Simão. Será isso verdade?!

—Ha de ser, senhor, porque as ruins novas são sempre certas.

—E fallou-te no sr. José Maximo?

—Não, senhor. Disse que tinham sido os estudantes.

—Cala-te, e vae ouvir o que se diz por ahi.

Frei Simão ficou muito inquieto. O Marques sahiu, e voltou ao cabo de uma hora.

—Está tudo cheio do tal feito dos estudantes. Fallei com o Bréca (era um criado de Ignacio da Fonseca) que me contou que o amo, ao saber a noticia, tinha dito que o sobrinho ainda havia de passar grandes trabalhos por causa da politica. Longe vá o agouro!

—Mas fallou-te no sr. José Maximo?

—Não, senhor. Só me disse isto, e eu voltei-lhe as costas.

—Ó Marques, tem paciencia, vae a Coimbra saber o que se passa, disse frei Simão muito apprehensivo.

O Marques obedeceu como um cão; dir-se-hia que d’ali a Coimbra era um pequeno passeio, tanto á pressa o Marques se preparou para sahir.

As noticias que elle trouxe, vinte e oito horas depois, eram más. No dia 19 tinham chegado a Coimbra, presos, nove estudantes por terem assassinado dois lentes no Cartaxinho. Segundo ouviu, o povo, quando elles chegaram no meio da escolta, enchia a Ponte, e seguiu-os pela Couraça de Lisboa acima em tamanha quantidade, que não caberia um alfinete. Nenhum dos presos era o sr. José Maximo, mas elle não estava em Coimbra, diziam que tinha fugido.

—Mas está criminoso tambem?

O Marques respondeu com desalento:

—Dizem que sim, senhor.

—Que desgraça! que desgraça! exclamou frei Simão.

—Eu fallei até com a servente. Disse-me que o sr. José Maximo tinha sahido de casa no dia 17 á noite, e que ainda não tinha voltado, porque, segundo os estudantes contavam, andava a monte.

—Meu Deus! Olha, Marques, eu vou a Coimbra. Toma sentido. Aqui, na minha ausencia, não entra ninguem. É preciso que as senhoras não fallem com viv’alma.

—Vá Vossa Reverencia descansado, respondeu o Marques abafando de tristeza.

—Descansado! repetiu frei Simão.

O Marques não tivera coragem para dizer o mais, para contar tudo. Elle tinha ouvido em Coimbra que José Maximo e outro estudante, tambem do Fundão, foram os primeiros a assaltar as caléças em que os lentes iam.

Preferia ter morrido pelo caminho, arrebentado de tristesa, mas Deus não lhe fizera a vontade. Vêr assim desgraçada a sua querida menina, quando, d’ali a mezes, devia ter o seu noivo formado! Eram pragas, deviam por força ser pragas de Ignacio da Fonseca.

E cuspia trez vezes no chão.

—Ó Santa Virgem do ceu! pensava elle com os olhos afogados em lagrimas, pelas dores que atormentaram no Calvario o vosso sagrado coração, valei á minha pobre menina, levae-me d’este mundo se eu tenho de vêl-a infeliz.

E ficava encostado ao cabo da enxada a scismar n’aquella grande desgraça.

De uma vez Anninhas viu-o da janella, e disse-lhe:

—Ó Marques, estás a pensar na cachopa, que quer ser tua mulher?

—Ah! a menina ouviu? Pois é mesmo: estou a pensar na cachopita, que não pode ser mais infeliz.

—Porque?

O Marques corrigiu-se sorrindo e dizendo:

—Porque ella que se vira para um velho, é porque já nenhum moço a quer.

—Pois vê lá se te resolves, e casaremos no mesmo dia.

Frei Simão, chegando a Coimbra, foi hospedar-se na estalagem do Paço do Conde.

Principiou ahi mesmo a colher informações, que o aterraram. O estalajadeiro asseverou-lhe que Antonio Maria e José Maximo estavam implicados no crime. Contou, segundo a versão dos estudantes presos, que tinham sido aquelles dois os que primeiro atacaram as caléças. E accrescentou que, tendo José Maximo combatido, nos Divodignos, a proposta de Antonio Maria, para irem esperar os lentes ao caminho, muita gente se admirava de que elle se avantajasse aos outros, com Antonio Maria, na arremettida, se bem que alguns explicassem que o fizera para não ser alcunhado de cobarde.

—Deve ter sido assim, pensou frei Simão.

Proseguindo, o estalajadeiro disse mais:

—Que toda a indignação dos presos era contra Antonio Maria, que fôra quem os perdêra. Que era uma pena vêr tantos rapazes de boa familia desgraçados por a loucura d’um só; não só desgraçados, mas tambem infamados pelo roubo das bagagens.

—Duvido, observou convictamente frei Simão, que José Maximo se associasse a essa infamia. É preciso não o conhecer.

—Lá isso assim é, commentou um criado, o Agostinho, porque o doutor Neves veiu dizer que conheceu perfeitamente José Maximo pela voz, apesar de elle ter a cara tapada como os outros, quando gritou que não maltratassem os lentes, e diz que não sabe ao certo, pela atrapalhação em que estava, se José Maximo era um que o cobria com o corpo, mas que lhe parece que sim.

—Tudo isso são attenuantes. Melhor elle se tivesse apresentado á justiça.

—Qual! replicou o estalajadeiro. Fez muito bem em fugir, porque o castigo ha de ser severo para exemplo de todos. Dos estudantes que faziam parte da loja da rua do Loureiro já não está em Coimbra nem um unico. Fugiu tudo. Até fugiram os que não foram a Condeixa. O Moacho, que era o presidente, e estudava para capello, já desappareceu tambem.

N’isto entrou na casa do jantar, e pediu o seu candeeiro para recolher-se ao quarto, um sujeito de boa apparencia.

O estalajadeiro piscou o olho a frei Simão, como a recommendar-lhe silencio.

O criado Agostinho deu o candeeiro ao hospede, e o estalajadeiro, após alguma pausa, disse quasi ao ouvido de frei Simão:

—Este sujeito é de Lisboa, e dizem que veiu cá para vêr se salva um dos presos.

—Qual preso?

—Domingos Joaquim dos Reis, que é filho do capitão-mór de Cintra: muito rico. Veja Vossa Reverencia! uma creança de vinte annos! Mas parece que nem o dinheiro o salvará, porque consta que o ministro das justiças mandou ordem ao Cabaças para activar as averiguações. Isto é uma grande desgraça! Bem faço eu que me não metto em politica: em primeiro logar, porque tenho de viver com todos; em segundo logar, porque não quero desgraçar a minha familia.

Frei Simão estava fulminado pelas más noticias que lhe déra o estalajadeiro, e que foram confirmadas pela voz de todas as pessoas a quem poude ouvir sobre o assumpto.

Recolheu ao Outeiro mergulhado em profunda tristeza, mas resolvido a contrafazer-se para que nenhuma de suas irmãs soubesse o que se tinha passado.

Apenas se abriu com o Marques dizendo-lhe em segredo:

—Pobre rapaz! está perdido! É certo que fugiu. Mas occultaremos a verdade. Nem uma palavra, entendes? Nem uma palavra.

E nem Anninhas nem as outras irmãs de frei Simão tiveram noticia da tragedia do Cartaxinho.

Ahi por abril, frei Simão disse que ia a Coimbra visitar José Maximo. Receiava que D. Anna notasse a falta de cartas d’elle. Ausentou-se por trez dias: esteve em Oliveira de Azemeis. Quando voltou, deu boas noticias de José Maximo: que se havia desculpado de não ter escripto por se aproximar o fim do anno lectivo, e estar muito sobrecarregado de trabalho. Mas que gozava perfeita saude.

—O peior, pensava frei Simão, é quando o fim do anno lectivo chegar. Pobre Anninhas!

A 16 de maio rebentou no Porto a revolução contra o governo de D. Miguel. Frei Simão estava no segredo do movimento. Fôra prevenido por Frederico Pinto, que a junta revolucionaria nomeára commandante da companhia dos Matutos e officaes de tanoeiro de Villa Nova de Gaya.

A revolução alastrou desde o Porto até Coimbra.

Em Cezár, o frade, armado á frente dos seus criados, sahiu a proclamar a rebellião contra a auctoridade do regente. Ninguem ousou oppor-se-lhe. Todos os visinhos absolutistas trataram de esconder-se.

Foi porém ephemero esse movimento, que terminou tristemente, e que teve a Belfastada como vergonhoso epilogo.

Esmagada a revolução, os absolutistas de Cezár sahiram da tóca, mas o frade esperou-os resolutamente. Não fugiu. Acceitou a sua posição de vencido, e preparou-se para resistir aos odios que, contra elle, se desencadeáram então aberta e ostensivamente.

Preveniu-se andando de espingarda ao hombro e substituindo o habito por uma jaqueta, para não ser tão facilmente reconhecido de longe.

Uma vez, em Pedra-Mar, frei Simão encontrou um dos seus adversarios. Iam ambos armados. Instinctivamente metteram a espingarda á cara um do outro. Estava de per meio uma arvore, um pinheiro, que ambos queriam aproveitar como resguardo. O absolutista, a tão pequena distancia do frade, receiou-o. Frei Simão não queria disparar senão em legitima defesa. E assim andaram por algum tempo á volta da arvore, dizendo um ao outro «Dispara tu», «Dispara tu primeiro», sem que nenhum dos dois disparasse.

O frade não se acobardava, nem retraía. Ia aonde precisava ir. Tinha que fazer em S. João da Madeira, e foi. Demorou-se ali, no logar mais publico da povoação, conversando á porta do ferrador. Era na praça actual, agora modernisada pela construcção de um chafariz. S. João da Madeira faz muita differença do que então era. A egreja, por exemplo, tinha, n’esse tempo, voltada para o mar a porta, que actualmente olha para os montes escalvados de Macieira e Nogueira. Mas o alpendre do ferrador ainda lá se conserva, na praça.

Pois bem. O frade, depois de ter tratado os seus negocios, recolhêra a Cezár pela estrada solitaria.

No caminho, passou por uns trabalhadores, que andavam n’uma segada, e que se atreveram a resmonear, quando elle passava: «Frade fóra».

Frei Simão saltou da estrada para o campo, correu para os trabalhadores, parou deante d’elles. Calaram-se, assombrados de tamanha audacia e coragem.

Ignacio da Fonseca e os outros absolutistas de Cezár reconheceram-se pessoalmente impotentes para esmagar o frade. Recorreram, portanto, ao auxilio das auctoridades, sempre dispostas a perseguir os liberaes.

Ainda assim, as auctoridades não foram d’essa vez tão audaciosas, que investissem logo com o frade. Começaram por fazer um rodeio. José Bernardo de Vasconcellos estava então na casa do Outeiral em Arouca, em companhia do filho Antonio. Maria Henriqueta, a filha mais nova, havia entrado no mosteiro d’aquella villa, a titulo de educar-se. As freiras não ousaram oppôr-se á admissão da filha do fidalgo do Outeiral, seu proximo visinho, e Maria Henriqueta de preferencia escolheu aquelle mosteiro attraida ali pela presença da mulher, que o tio, Joaquim Maria, tinha amado até á morte.

Na tarde de 17 de setembro d’esse anno de 1828, José Bernardo de Vasconcellos foi procurado na quinta do Outeiral pelas justiças da comarca de Arouca.

Sahiu a recebel-as na sala nobre do edificio.

Disseram-lhe ao que iam: sequestrar os bens, que achassem pertencer a Frederico Pinto como implicado no mallogrado movimento do Porto, de 16 de maio.

Serenamente, José Bernardo contrapoz que era verdade ter elle doado aquella quinta, e outras, a seu filho Frederico, mas que por contrato tinha reservado os rendimentos d’essa propriedade como alimentos seus, dos dois filhos mais novos, e de uma sua irmã.

Para justificar o que dizia, apresentou o contrato assignado por Frederico Pinto.

O juiz, ouvidas as declarações de José Bernardo, mandou proceder a sequestro na propriedade, de que constituiu depositario o proprio José Bernardo, com reserva dos rendimentos.

Era o inicio das perseguições officiaes contra a familia Vasconcellos.


XIX
A caça ao homem