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A guerrilha de Frei Simão: romance historico cover

A guerrilha de Frei Simão: romance historico

Chapter 24: XXII A paralytica
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About This Book

The narrative reconstructs the life and struggles of a religious friar born into a provincial family whose sons follow military and monastic paths, tracing family background, wartime service, political divisions, and the friar's involvement in guerrilla action against the prevailing authorities. The author interleaves documentary research and eyewitness memory to depict episodes of imprisonment, escape, clandestine resistance, and the moral conflicts between loyalty to conscience and political allegiance, while evoking rural settings and the social networks that shape loyalties and tragedies.

Perdi a minha Nize, a gloria minha,
A minha liberdade:
Remotos estes bens, que bem me resta?
Bocage—«Ode á Fortuna».

José Maximo, entrando em Hespanha, passou uma vida miseravel até chegar a Ciudad-Rodrigo.

A ferramenta de caldeireiro apenas lhe servia para disfarce, pois que elle ignorava completamente o officio. Pensava em aprendel-o, acceitando a indicação do acaso. Mas faltavam-lhe recursos, que aliás podia ter, para os primeiros dias de jornada. Logo explicaremos este caso. Viu-se, pois, na necessidade de ir mendigando, pedindo pelo amor de Deus um bocado de pão.

Seguira em direcção a Ciudad-Rodrigo por lhe parecer que a sua presença n’uma cidade daria menos nas vistas do que em qualquer das pequenas povoações fronteiriças, como Zarza ou Perales. Obedecendo a esta consideração, não queria comtudo affastar-se muito da raia portugueza. O coração—a saudade e o amor—prendia-o a Portugal. Receiava saber o que teria acontecido a sua mãe e a Anninhas, mas desejava sabel-o. Pobre mãe! teria talvez morrido de afflicção ao vel-o tão desgraçado. E Anninhas? Quem o podia saber! A fronteira de Portugal levantava-se agora entre o passado e o presente, impenetravel como a muralha da China.

Chegando a Ciudad-Rodrigo, viveu na maior miseria os primeiros dois dias. Esmolava por portas. Foi, no terceiro dia, bater a uma, em cujo páteo uma creança bem vestida, e sentada ao sol, estava estudando em voz alta. Era um menino de doze para treze annos de idade.

Quando o pequeno estudante deu com os olhos em José Maximo, teve um movimento de repulsão. Aquelle caldeireiro fez-lhe medo, tão feio era depois que queimara e retalhara o rosto.

José Maximo comprehendeu a impressão que produzira, e disse ao menino, em correcta prosodia hespanhola:

—Não tenha medo de mim, que não faço mal a ninguem. Sou um desgraçado caldeireiro, que, por falta de trabalho, se vê obrigado a pedir esmola.

O menino deteve-se indeciso, e o caldeireiro disse ainda para captar-lhe a sympathia:

—Vi que estava estudando latim. Custa-lhe a decorar as declinações?

O pequeno ficou admirado da pergunta, achando, sem medir todo o alcance, que não fazia sentido a profissão d’esse homem com o facto de conhecer a existencia das declinações latinas.

José Maximo, vendo a surpreza que causára, arrependeu-se do que dissera. Podia ter-se denunciado n’aquella hora. Mas conheceu tambem que, na alma do seu interlocutor, succedera á surpresa do primeiro momento um tal ou qual respeito pelo mendigo que parecia saber mais do que elle.

Perguntou-lhe o menino se sabia latim.

José Maximo, não querendo contradizer-se flagrantemente, disse-lhe que alguma coisa tinha aprendido em pequeno, mas que a sua má cabeça o levára a abandonar os estudos, pelo que se vira na necessidade de procurar um officio. Que pozesse o menino os olhos n’elle, e na sua desgraça, para estimular-se a estudar por amor do futuro.

A mãe do menino, andando na sua lide domestica, ouviu estas ultimas palavras, e veiu vêr quem era a pessoa que tão acertado conselho estava dando a seu filho.

Ficou tambem surprehendida ao vêr o miseravel caldeireiro, pouco menos de hediondo. A sua surpreza subiu de ponto, quando a creança noticiou á mãe que aquelle homem sabia latim.

Mas, após um momento de reflexão, talvez de desconfiança, disse a hespanhola ao filho:

—Que tonto que tu és! Elle sabe lá latim!

José Maximo offendeu-se com estas palavras, e repetiu a breve narração que tinha feito momentos antes, quando estava só com o menino.

E, rapidamente, declinou os nomes latinos que lhe occorreram, sem emperrar n’um unico caso.

Mãe e filho começaram a interessar-se pelo mysterioso caldeireiro. A hespanhola disse-lhe que, se tinha fome, lhe daria de comer, a troco d’elle ensinar a lição ao filho.

José Maximo confessou a verdade: tinha realmente fome. E, agradecendo á Providencia este soccorro inesperado, sentou-se no páteo a ensinar o menino. A breve trecho assaltou-o a ideia de que por aquelle caminho chamaria sobre si justificadas suspeitas. Mas logo se acalmou dizendo de si para si:

—Se tal acontecer, foi Deus que me deparou esta creança para me punir.

O caldeireiro, a pedido do menino, voltou no dia seguinte para tornar a ensinar-lhe a lição. A hespanhola queria que o seu filho soubesse muito bem latim, porque o destinava para clerigo. O pae do menino quiz d’ahi a dias vêr o caldeireiro. Fallou-lhe, observou-o, e disse á mulher:

—Este homem teve educação. Aqui anda grande mysterio.

José Maximo mostrava-se muito grato áquella familia, que lhe matava a fome, e que todos os dias lhe proporcionava occasião, durante algumas horas, de esquecer os seus dolorosos pensamentos.

Estabelecida uma corrente de sympathia entre os hespanhoes e o caldeireiro, José Maximo julgou dever responder com lealdade ás repetidas perguntas que, com insistente curiosidade, lhe fazia o pae do menino.

Contou a sua vida, as suas aventuras politicas, os seus infelizes amores, e a parte que tomara involuntariamente no assassinio dos lentes de Coimbra.

A hespanhola chorava de o ouvir, e o marido mostrava-se muito interessado pela sincera narrativa.

José Maximo revelou tambem o desejo de saber noticias de sua mãe e de Anninhas, bem como de conhecer o epilogo da tragedia do Cartaxinho. Explicou as razões por que não queria escrever a frei Simão de Vasconcellos: era, principalmente, a vergonha da sua propria infamia, e, secundariamente, a probabilidade de que a carta fosse interceptada e a justiça de Portugal viesse a conhecer assim o seu paradeiro. Por este motivo não queria tambem escrever a um amigo, residente em Evora, e ahi estabelecido como lettrado, porque receiava compromettel-o e comprometter-se.

O hespanhol, que era negociante, prometteu a José Maximo valer-se das relações commerciaes que tinha em Portugal, na cidade da Guarda, para saber o que elle tanto desejava.

Passaram-se mezes sem que viesse resposta. O hespanhol insistiu nas perguntas. O correspondente da Guarda respondeu que os estudantes presos pelo crime de Condeixa haviam sido enforcados em Lisboa no mez de junho. A isto poderia ter respondido já, mas esperava, para o fazer, pelas noticias que pedira para o Fundão e Oliveira de Azemeis, as quaes não haviam chegado ainda. Tornaria, porem, a escrever. Admirava-se, sobretudo, de que do Fundão, por ficar a menor distancia, lhe não tivessem respondido logo.

—Enforcados! exclamou José Maximo ao ouvir a noticia. A morte com infamia, de baraço e pregão, talvez com a cabeça decepada e as mãos cortadas. Oh! é horrivel! é horrivel!

Trez semanas depois, chegava a Ciudad-Rodrigo nova carta do negociante da Guarda.

O seu correspondente do Fundão pedia desculpa de não ter respondido immediatamente por se haver esquecido da pergunta na azáfama dos negocios.

Dizia que a senhora, de quem lhe pediam noticias, se apaixonára a tal ponto pela desgraça do filho, que morrêra um mez depois do assassinato dos lentes, justamente no mesmo dia e á mesma hora em que o crime havia sido commettido. Era uma coincidencia notavel, que tinha impressionado muito os habitantes do Fundão, os quaes se lastimavam de que dois patricios houvessem tomado parte n’aquelle horrendo crime. Dos dois, um, o filho d’aquella senhora, havia fugido para Hespanha, segundo constava; o outro, Neves Carneiro, fugira, acompanhado pelo pai, tambem para Hespanha, e a justiça por pouco que o não tinha apanhado no Fundão.

José Maximo ficou profundamente impressionado com a morte da mãe, cuja responsabilidade a si proprio imputava, e com a extranha coincidencia, que a elle, mais do que a ninguem, por ser extremamente supersticioso, se affigurava acontecimento sobrenatural.

A sua tristesa augmentou. Leccionando o menino, alheiava-se a espaços, muito abstracto, perdendo o seguimento das idéas.

—Que estavamos nós dizendo? perguntava elle quando despertava das suas atormentadas abstracções.

Sentia um recondito desejo de fugir para mais longe de Portugal, de ir procurar a morte em terra onde não fosse facil encontrar quem lhe podesse avivar memorias do passado.

Mas prendia-o ainda á patria a agridoce curiosidade de saber noticias do Outeiro: queria averiguar se tambem ali seria despresado, ou esquecido.

Essas noticias chegaram tardiamente, posto que pouco minuciosas, em junho de 1829: Uma das meninas da casa, que namorava um dos estudantes homisiados, havia sido atacada de paralysia ao ter conhecimento do crime do Cartaxinho. Perdêra, com grande surpresa dos medicos, o uzo da voz. Frei Simão havia sido preso, e estava na cadeia da Villa da Feira, sem que se podesse aventar que destino viria a ter: talvez a forca.

Fulminado por este novo golpe, despenhado n’um inferno de remorsos, de angustias sobre angustias, dilacerados os ultimos laços que o prendiam a Portugal, resolveu abandonar a Hespanha, como se, affastando-se da fronteira portugueza, quizesse fugir ás chammas que esbrazeavam o inferno da sua tortura.

Ia perder o auxilio que tão compassivamente lhe prestava aquella familia hespanhola. Mas entendia que merecia esse castigo a si proprio imposto: devia morrer na desgraça quem só desgraças havia semeado em torno de si.

Procuraram os hespanhoes demovel-o d’esta resolução, que foi exposta com firmesa. José Maximo resistiu, e acabou por dizer:

—Eu trago comigo o contagio do infortunio, e não quero que elle alcance uma familia, de quem tantas mercês tenho recebido. Se eu ficasse, isso viria a acontecer fatalmente, não sei como, mas aconteceria de certo.

Esta consideração fez maior impressão á hespanhola do que ao marido.

Quando José Maximo se despediu, toda aquella familia chorou, principalmente o menino.

O hespanhol quiz entregar ao infeliz portuguez uma bolsa com dinheiro.

José Maximo recusou-a, agradecendo.

Toda a familia insistiu vivamente para que acceitasse.

José Maximo quedou-se pensativo alguns momentos, e disse por fim:

—Acceitarei, com uma condição.

—Qual? perguntou o hespanhol.

—Que usted acceitará em troca, e como testemunho da minha gratidão, este napoleão de ouro, que me deu um dia frei Simão de Vasconcellos, e que eu sempre procurei conservar não obstante ter padecido fome.

O hespanhol ficou a olhar para o portuguez, muito commovido.

José Maximo pediu uma tesoura, descoseu o forro do casaco velho que vestia, tirou o napoleão que trazia escondido, beijou-o, com os olhos razos de lagrimas, e offereceu-o ao hespanhol, cuja mão beijou tambem. Depois acceitou a bolsa.

Passado um anno, em 1830, quando constou em Ciudad-Rodrigo que um dos estudantes portuguezes, Neves Carneiro, havia sido preso em Zarza, e entregue ao cordão dos soldados de D. Miguel que o esperavam na fronteira, disse o hespanhol á mulher:

—Isso mesmo aconteceria ao pobre Maximo, se não tivesse fugido. Coitado! O que será feito d’elle agora?


XXII
A paralytica