La paralysie agitante n’est pas seulement une maladie des plus tristes en ce qu’elle prive le malade de l’usage de ses membres et qu’elle le réduit tôt ou tard à une inertie à peu près absolue: c’est encore une affection cruelle par suite des sensations pénibles qu’eprouve le malade.
Charcot—«Œuvres complètes», tome I.
Havia já quatorze mezes que frei Simão estava encarcerado na cadea da Villa da Feira.
Graças á sua robusta compleição podera resistir a morte, mas o braço esquerdo ficára leso, e o ouvido correspondente perdera a audição.
Não afrouxava, porem, com estes soffrimentos o valor do seu animo corajoso, e muito menos o incommodava a ideia das enormes despesas que tinha feito no carcere, onde, durante todo esse tempo, havia sido visitado, duas e trez vezes ao dia, pelo medico e cirurgião.
O frade reagia, como um forte, contra a oppressão da desgraça, que teimava em perseguil-o. Pensava na maneira de subtrair-se ás garras do absolutismo, de fugir, para correr a Cezár, a abraçar a pobre Anninhas, victima de um destino crudelissimo, e a justar contas com os seus adversarios politicos, para vingar as desgraças que elles haviam acarretado sobre toda a sua familia.
Arriscaria a vida? Pouco lhe importava isso. Em risco estava ella desde que o feriram e prenderam. Parecia até que uma extranha fatalidade o quizera salvar dos ferimentos que recebera, para lhe preparar um genero de morte mais affrontosa, na fôrca, ás mãos dos seus inimigos.
Mas não queria agora morrer sem primeiro ter ido a Cezár: ao menos isso, já que não podia ir tambem a Arouca, libertar Margarida Candida, visto que a acclamação de D. Miguel havia estrangulado todas as liberdades publicas em Portugal.
Entrou o frade de ponderar os meios que poderiam facilitar-lhe a evasão. Eram difficeis de encontrar, a não ser pela connivencia do carcereiro. Resolveu-se a preparar o terreno para subornal-o. Mas o carcereiro, sem repellir abertamente a proposta de uma transacção n’esse sentido, temia-se da severidade com que certamente seria castigado.
—Para evitar esse perigo, ha um remedio, disse-lhe frei Simão. Vossemecê foge tambem comigo.
O carcereiro pensou no caso, e acceitou o alvitre.
Resolveu-se a fuga, mas reconheceu-se que não poderia realisar-se pela porta do edificio, sob qualquer disfarce, porque as sentinellas tinham instrucções muito severas.
Foi frei Simão quem se lembrou de que a evasão só poderia effectuar-se pelo telhado, saltando os fugitivos para cima do predio contiguo. Esta operação seria facil, mas o abrir passagem pelo grosso tecto de castanho, seria difficil. Era precisa a intervenção de um carpinteiro.
Adoptou-se o expediente de requisitar os serviços de um carpinteiro de confiança, com o pretexto de que se tornava urgente construir um armario na cellula do frade.
O carcereiro, sob sua responsabilidade, chamou um carpinteiro de Milheirós da Feira[4], de quem era amigo intimo.
Em vez de se fazer o armario, fez-se uma abertura no tecto.
Frei Simão, cuja franqueza de caracter chegava ás vezes a ser imprudencia, foi visitado na cadeia, no dia destinado á evasão, por um visinho de Cezár, Manoel Francisco Relva, miguelista moderado, e excellente homem, muito respeitoso para com a familia do Outeiro.
Á despedida, o frade disse-lhe sacudidamente:
—Fujo hoje.
—É impossivel! respondeu assombrado o Relva.
—Vossemecê o saberá, replicou frei Simão.
Effectivamente, o frade e o carcereiro fugiram n’essa noite, subindo ao telhado da cadeia, e passando ao da casa visinha.
Privado do movimento do braço esquerdo, pode calcular-se que prodigios de equilibrio e de esforço não teria frei Simão operado para, n’essas condições, realisar a evasão.
De telhado em telhado, pela viella de Rolães, foram os dois fugitivos descer á Eira.
Ahi despediram-se um do outro.
Frei Simão dirigiu-se para casa do capitão Varella, de Espargo, onde pediu abrigo por algumas horas.
Contra o conselho d’este amigo, quiz mudar de escondrijo, e seguiu jornada, durante a noite, para S. João da Madeira, contando com a protecção de outro amigo não menos dedicado que o capitão Varella.
Em S. João da Madeira soube que os seus adversarios politicos reclamavam que se galardoasse com o laço da forca a provocadora zombaria da evasão. Era á conta de provocação irritante que elles lançavam mais esse acto de audaciosa coragem.
A casa do Outeiro fôra effectivamente cercada e revistada durante duas noites consecutivas.
—Que infamia! exclamou frei Simão quando o seu amigo de S. João da Madeira lhe deu noticia do facto. Nem sequer respeitam a desgraça, a doença de minha pobre irmã!
Ao cabo de quinze dias, constou-lhe que era no Porto que as justiças o procuravam; já haviam dado um assalto á casa de Frederico Pinto.
Então achou que seria menos perigosa a sua ida a Cezár. Tomou um disfarce, que as barbas crescidas durante o tempo da prisão completavam, e metteu-se de noite ao caminho.
Encontrou na estrada um homem, que, apesar da escuridão, fez reparo no frade. Era um vendilhão de peixe miudo, que costumava percorrer as povoações com grandes cargas de sardinha fresca de Espinho. Frei Simão conheceu-o, mas ficou duvidoso sobre se tambem teria sido reconhecido; notára apenas que o vendilhão o olhára com curiosidade. Tanto bastou, porém, para que pensasse em acautellar-se.
Como? e aonde? Quanto mais se aproximava da sua terra natal, mais devia temer a perseguição.
A noite ia alta, não tardaria a arraiar a primeira claridade da manhã. Não sabia a que porta podesse bater sem o perigo de uma denuncia, quando avistou as duas torres da egreja de Cezár. Lembrou-se então das palavras da Sagrada Escriptura: pulsate et aperietur vobis. O abbade era um absolutista moderado; mas frei Simão conhecia-lhe bem a alma incapaz de uma vingança politica; quanto ao padre Antonio Pinheiro, bastou recordar-se das doces palavras de charidade evangelica, que elle lhe havia dito quando o confessára.
Resolveu-se a ir pedir abrigo á abbadia. E foi.
Bateu á porta da Residencia na occasião em que o padre Pinheiro, na ausencia do abbade, estava fazendo as orações da manhã. Uma voz perguntou de dentro:
—Quem está ahi?
Frei Simão conheceu a voz de padre Antonio, e respondeu:
—Um desgraçado.
Sentiu dar volta á chave. A porta abrira-se.
Padre Antonio achou em frei Simão um homem desconhecido; não sabia quem fosse. O seu primeiro movimento denunciou talvez alguma inquietação.
Frei Simão disse-lhe, parado no limiar:
—Vejo que o sr. padre Antonio me não conhece. Pois eu sou um desgraçado. Chamo-me frei Simão de Vasconcellos.
—Ah! exclamou padre Antonio com o rosto subitamente illuminado de uma alegre tranquillidade. Seja bem vindo a esta casa. Se fosse um desgraçado, teria aqui o seu logar; mas não são desgraçados aquelles a quem não falta a misericordia de Deus. Porque a verdade é que, no meio das angustias que tem padecido, Vossa Reverencia recebeu do Todo Poderoso o favor da resignação ou da coragem, que jamais o desamparam.
Frei Simão explicou o seu desejo de ir ao Outeiro vêr a pobre paralytica, e o receio de poder ser denunciado pelo vendilhão que encontrára no caminho.
—Espreitaremos a occasião de realisar o seu justo desejo, respondeu-lhe padre Antonio. Vossa Reverencia deve considerar-se aqui em inteira segurança. Eu sou ministro de uma religião de misericordia: adoro o Deus do Calvario, que morreu perdoando. O sr. abbade, quando voltar do Porto, comprehenderá e desculpará o meu procedimento. Tambem não estão cá os criados, porque, segundo o costume, acompanharam seu amo. Minha tia é uma alma honesta e leal, incapaz de fazer aquillo que eu não desejar que ella faça. De modo que não deve Vossa Reverencia receiar da sinceridade dos hospedeiros, mas apenas desculpar-lhes a insufficiencia da hospedagem. Comtudo, quem está habituado a duros trabalhos não tem tamanhas exigencias de bem estar como aquelles que nasceram e teem vivido felizes.
—O que eu não queria era incommodar o sr. padre Antonio, e muito menos compromettel-o no caso de uma denuncia.
—Comprometter-me?! Pois acaso compromette-se um sacerdote quando exerce uma das obras de misericordia: dar pousada aos peregrinos? De mais a mais, toda a gente aqui suppõe que Vossa Reverencia, depois da sua fuga da Villa da Feira, tinha ido esconder-se no Porto.
—A minha fuga deve ter causado grande indignação. Mas o instincto da liberdade é innato no homem. Obedeci a elle.
—Assim é. As paixões politicas são por via de regra intransigentes; não poupam os adversarios. Era pois natural que a noticia da evasão causasse surpresa e até colera. Estamos n’uma epocha calamitosa, de sentimentos fogosos e cegos. Mas felizmente Vossa Reverencia dispõe de um animo forte para arrostar com todos os perigos. Agradeça-o a Deus. Se a historia da evasão, que aqui se conta, é exacta, o sr. frei Simão operou prodigios de perseverança na adversidade.
O frade descreveu minuciosamente todos os episodios da fuga. Havia nas suas palavras um vivo colorido, que padre Antonio admirava, e que o impressionava muito.
—Meu Deus! o que tem passado! exclamou padre Antonio quando frei Simão concluiu a narrativa.
—O que eu tenho passado! repetiu com profunda tristesa o frade. E a minha pobre irmã paralytica, perdida talvez para sempre! A minha pobre Anninhas! Deus perdôe a quem lhe fez saber a ruim noticia, que a reduziu á vida de estatua.
—Deus perdôe. Mas não façamos juizos temerarios. Deus tomará contas ao verdadeiro culpado.
N’isto sentiu-se levantar o fecho da porta da cosinha.
—É minha tia, que vem da horta, disse padre Antonio. Deixe-me Vossa Reverencia ir avisal-a do que tem de fazer. Entretanto, venha descançar ao meu quarto.
Frei Simão ficou só no quarto de padre Antonio, onde a mobilia contrastava, pela humildade, com as cadeiras, contadores e tamboretes, que opulentavam a sala de recepção do abbade Moreira Maia.
Parou um momento a olhar para um pequeno papel pregado na parede. Era uma tabella das missas que padre Antonio devia dizer n’aquella semana. Sob o titulo de Vivos e defuntos, frei Simão leu o seu proprio nome. Era o terceiro da lista, e coincidia com aquelle mesmo dia da semana.
Foi grande a commoção do frade.
—Que santa alma a d’este padre! disse mentalmente.
E, como padre Antonio se aproximasse, frei Simão de Vasconcellos, quando elle voltou, cahiu-lhe aos pés, de joelhos, beijando-lhe a mão.
Padre Antonio, muito surprehendido, abençoou-o, dizendo:
Não tem Vossa Reverencia que agradecer. Buscae e achareis, diz a Biblia. O que Vossa Reverencia aqui tem, é Deus que lh’o envia e concede.
Alludia á hospedagem; não suspeitando de que o frade houvesse lido a tabella das missas.
—Agora, continuou, são horas de eu ir para a egreja. Ó minha tia, disse levantando a voz, faça favor de picar o sino. Vão sendo horas.
E tornando a voltar-se para frei Simão:
—Vossa Reverencia não pode ir á egreja, mas pode acompanhar-me em espirito. Deus está em toda a parte.
—Ouvirei d’aqui, em joelhos, a missa que Vossa Senhoria vae celebrar. Estas paredes serão transparentes para a minha fé n’esta hora de gratidão fervorosa.
Padre Antonio não comprehendeu o duplo sentido d’estas palavras.
Quando o sino tangeu pela segunda vez, o coadjuctor de Cezár foi vêr á tabella a tenção da missa d’aquelle dia. Não denunciou no rosto o menor signal de surpresa pela coincidencia. Sahiu sem olhar para frei Simão, dizendo um affectuoso: Até já.
Passado um quarto de hora, frei Simão, que estava de joelhos rezando com as mãos postas, voltado para a egreja, sentiu bater de rijo á porta da cosinha.
Procurou concentrar-se na oração, quando ouviu fallar; não queria ser perturbado. Mas pareceu-lhe ouvir o seu nome, pronunciado por uma voz de mulher, e cedeu á tentação de escutar, apurando o ouvido direito, que restava illeso.
—Era elle, sr.ª Gertrudes, dizia a interlocutora da tia de padre Antonio. Disse-me o Elias peixeiro que era elle, com umas barbas grandes, que até parecia um salteador. Arrenego eu o homem!
—Não mettas a tua alma no inferno, mulher! respondia Gertrudes Magna. Trata de vender o teu pão fresco, e não andes a dar noticias que podem causar desgraças, e que tu não sabes se são verdadeiras. O Elias peixeiro pode ter-se enganado, e de certo se enganou.
—Elle disse que se não era o frade do Outeiro, o diabo o jurasse.
—Credo! mulher! que logo pela manhã começas a fallar no cão tinhoso! Tu encarregas a tua alma! O que consta é que o sr. frei Simão está escondido no Porto. Lá era elle tão pouco atilado que viesse metter-se na bôca do lobo! Olha que eu quero a minha sêmea mais leveira. Não sabes que já não tenho dentes?! Melhor tu olhasses mais pela vida!
N’este momento o sino dava o signal de—Levantar a Deus.
—Vai-te embora, mulher, disse a velha Gertrudes Magna. Deixa-me rezar um Bemdito entre a hostia e o calix, já que não posso ir á missa para ter o almoço prompto a meu sobrinho.
Frei Simão continuou acompanhando mentalmente o cánon da missa.
—Hoc est enim corpus meum, pensára elle, e conservava-se recolhido como se tivesse nas mãos a particula sagrada.
Na cosinha, Gertrudes Magna concluia em voz audivel a oração correspondente ao levantar da hostia.
—...tão real e perfeitamente como está nos altos ceus.
Augmentára, com o dialogo que tinha ouvido, a fé de frei Simão de Vasconcellos. Senão fôra o Passal, estaria, áquella hora, em perigo de perseguição. O peixeiro havia-o conhecido ou pelo menos suspeitava da sua chegada a Cezár. A faltar-lhe a protecção que encontrára na abbadia, o fugitivo seria recapturado e posto em maior segurança.
Quando padre Antonio voltou da egreja, frei Simão saudou-o dizendo:
—Foi, pode dizer-se, um Te-Deum laudamus rezado.
Padre Antonio illudiu a resposta observando:
—Sempre temos motivo para louvar o Senhor. Que Elle se digne continuar a proteger os que carecem da Sua protecção.
—E eu mais do que ninguem, replicou o frade contando ao coadjuctor o dialogo que tinha ouvido.
—Não importa, disse padre Antonio. Vossa Reverencia pode considerar-se, debaixo d’este tecto, ao abrigo de perseguições. Ninguem se lembrará de o vir aqui procurar. E, ouvindo esse dialogo, já teve occasião de experimentar a lealdade de minha tia. Deixemos passar o vento da desconfiança, acalmar-se o mar das suspeitas. O peior é de Vossa Reverencia, que terá de permanecer alguns dias aqui. Quando julgarmos opportuno, irá ao Outeiro vêr a sua familia, onde aliás não convém que se demore.
Aconselhado pelo coadjuctor, frei Simão de Vasconcellos cortou as barbas, que já tinham sido notificadas pelo vendilhão de peixe.
O boato da apparição do frade em Cezár corrêra durante um ou dois dias, mas padre Antonio, a quem Ignacio da Fonseca e outros visinhos fallaram no assumpto, foi de parecer que, depois das duas buscas dadas pela justiça á casa do Outeiro, frei Simão não iria metter-se por muito tempo na bôca do lobo. Ou não teria vindo ou já se teria retirado.
Ora o coadjuctor havia dito a frei Simão:
—Se me communicarem a suspeita da vinda de Vossa Reverencia a Cezár, responderei, sem encarregar a minha alma, com a subtileza do franciscano, que enfiou uma das mãos pela manga da outra e affirmou que por alli não tinha passado certo criminoso. O meu dever é servir a Deus, e Deus manda dar pousada aos perigrinos. Vossa Reverencia, na situação em que se acha, não é senão um perigrino.
Quando chegou a noite em que frei Simão tinha de ir a Cezár, padre Antonio disse-lhe com uma resolução que não estava muito nos seus costumes de malleavel brandura:
—Eu vou com Vossa Reverencia, sem o menor intento de prejudicar o recato das suas expansões. Mas como hospedeiro, quero correr a mesma sorte do hospede.
Frei Simão procurou demovêl-o do proposito; não conseguiu.
—Figuraremos, insistiu o coadjuctor, ir levar o viatico a um moribundo; quod Deus avertat. Vossa Reverencia veste uma das minhas batinas e cobre um dos meus capotes; são andainas velhas, mas que servem para de noute. Preveniremos assim o caso de algum mau encontro, o que aliás não é de esperar. Mas, de passagem, ninguem poderá averiguar se Vossa Reverencia é o nosso sachristão ou algum ecclesiastico, que accidentalmente seja hospede do sr. abbade.
E, receioso de que frei Simão podesse vêr n’estas involuntarias palavras alguma allusão pungente, accrescentou com promptidão:
—E não se enganarão n’este ultimo caso, porque Vossa Reverencia, se deixou o convento, não deixou a Deus. Eu o sei.
Frei Simão não conseguiu, mais uma vez, evitar que padre Antonio Pinheiro o acompanhasse.
Sahiram ambos da abbadia, alta noite, caminhando em silencio. A distancia é pequena: os dois edificios, o Passal e o Outeiro, avistam-se um ao outro.
A familia de frei Simão estava prevenida. Foi Francisco Marques quem veiu abrir, discretamente, a Porta Vermelha. E logo após elle correram pressurosas D. Maria Albina e D. Antonia[5]. As lagrimas d’estas duas senhoras diziam mais do que as palavras, n’aquelle lance solemne.
Padre Antonio assistia, como em extasi, a esse commovente drama intimo, em que uma familia estreitava, no infortunio, os seus laços de extremoso affecto. E mais uma vez, depois que conhecia de perto frei Simão, o coadjuctor de Cezár lastimava a cegueira das paixões politicas, que fazem com que os adversarios se apreciem uns aos outros com revoltante injustiça. Ali estava elle no meio de uma familia de malhados, e não poderia encontrar outra mais respeitavel, nem mais exemplar na resignação christã.
O frade encaminhou-se, seguido pelas irmãs, ao quarto de D. Anna.
Padre Antonio quedou-se no corredor com delicado proposito; mas frei Simão, voltando-se, e vendo-o parado, disse-lhe amoravelmente:
—Venha comigo, sr. padre Antonio. Todos somos familia.
Anninhas estava sentada n’um canapé: os braços ligeiramente desviados do tronco; as mãos tremulas—com os dedos muito juntos, o pollegar sobreposto ao index—apoiadas na cintura; os joelhos tendendo um para o outro n’um movimento de adducção; os pés mettidos para dentro; a cabeça pendida para deante.
Não viu frei Simão logo que elle entrou no quarto. Mas quando os seus olhos encontraram o vulto do frade, que, commovido, estacára deante do canapé, os labios da pobre senhora, ordinariamente cerrados e ás vezes franjados d’espuma, abriram-se n’uma indiscriptivel sensação de surpresa, e um grito, agudo, vibrante, como aquelle que se seguira á leitura da carta anonyma, eccoou no aposento, ouvindo-se em toda a casa.
Frei Simão, chorando effusivamente, avançou abrindo os braços para a irmã, que procurava levantar-se do canapé, e padre Antonio Pinheiro, cahindo de joelhos, disse em voz alta, uma voz repassada de uncção religiosa, este versiculo de David:
—Domine, labia mea aperies: et os meum annuntiabit laudem tuam.
Senhor, abrirás os meus labios: e a minha bôca annunciará o teu louvor.