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A guerrilha de Frei Simão: romance historico cover

A guerrilha de Frei Simão: romance historico

Chapter 26: XXIV A organisação da guerrilha
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About This Book

The narrative reconstructs the life and struggles of a religious friar born into a provincial family whose sons follow military and monastic paths, tracing family background, wartime service, political divisions, and the friar's involvement in guerrilla action against the prevailing authorities. The author interleaves documentary research and eyewitness memory to depict episodes of imprisonment, escape, clandestine resistance, and the moral conflicts between loyalty to conscience and political allegiance, while evoking rural settings and the social networks that shape loyalties and tragedies.

É um ensino efficaz o do infortunio.

Julio Diniz—«Uma familia ingleza».

Frei Simão, exultante de alegria, esquecera-se de si mesmo para só se lembrar da irmã, e dissera a padre Antonio Pinheiro:

—Aqui tem a rasão por que eu queria vir a Cezár. Dizia-me o coração que a pobre Anninhas, se me tornasse a vêr, recuperaria a voz. E assim aconteceu! Deus louvado! Louvado seja o Senhor!

—Louvado seja! respondeu padre Antonio Pinheiro.

Anninhas estava ainda convulsa, não podia andar, mas fallava, fallava menos do que chorava, abraçando o irmão e as irmãs.

—Foi um milagre! exclamava D. Maria Albina.

—Deus, respondeu padre Antonio, não falta nunca aos que se lembram de recorrer á Sua misericordia infinita. Mas não queiramos mais do que podêmos receber. Esta senhora—indicando D. Anna—está fatigada da commoção extraordinaria por que passou; precisa descançar. E o sr. frei Simão, que deve julgar-se contente com a felicidade obtida, não deve demorar-se n’esta casa. É prudente voltarmos ao Passal, que não vá alvoroçar-se a freguezia com a noticia de que alta noite se ouviu gritar alguem na casa do Outeiro,—o que significa algum acontecimento importante.

Frei Simão concordou e, abraçando as irmãs, despediu-se.

—Até quando, mano? perguntou D. Antonia.

—Eu sei lá?! respondeu frei Simão. Sou uma ave errante sem ninho certo.

O frade e padre Antonio recolheram ao Passal, e estiveram conversando largamente durante o resto da noite.

Frei Simão disse ao coadjuctor:

—Agora, meu amigo, visto que minha irmã está salva de maior desgraça, Deus louvado! resta pensar em mim. Refiro-me, sr. padre Antonio, á minha liberdade individual, a esta miseravel liberdade, cheia de duvidas e de incertesas, que eu mesmo, se a quiz possuir, tive de rehaver violentamente por meio de uma evasão,—como um salteador ou como um assassino. Mas o meu egoismo não pode ser tão exigente e tão cego, que procure acorrentar as pessoas, que eu mais estimo, aos perigos da minha aventurosa existencia. Uma d’essas pessoas é, alem da minha familia e de um desgraçado que devia fazer parte d’ella, Vossa Senhoria. Por isso, beijando as mãos ao meu generoso hospedeiro, e certificando-o de que lhe serei eternamente grato, vou-me por ahi fóra, não sei se como um peregrino sem norte ou como uma féra, que tem de emboscar-se por selvas e juncaes para não ser perseguida pelos homens.

O coadjuctor, com semblante mortificado, ficou-se a olhar para frei Simão.

Ao cabo de alguns momentos de doloroso silencio, disse elle:

—Pois que!? Vossa Reverencia, que obteve esta noute uma singular mercê, já descreu da misericordia divina!? Se os bens da terra não duram muito, porque a alma precisa purificar-se pelo soffrimento, os males não duram sempre. Sem esperança, a vida tornar-se-hia um fardo insupportavel. Mas a clemencia de Deus creou a esperança como lenitivo ás dores terrenas: é um raio de sol que adelgaça as trevas do soffrer humano. Todavia, para merecer as boas graças do Senhor, é preciso que o homem não desagradeça, por actos de desatino, os favores que a Providencia lhe quer dispensar. Sahir d’aqui, soffra Vossa Reverencia que eu o diga, é uma imprudencia sem justificação possivel. Para onde vai, para onde quer ir o sr. frei Simão? Está enfastiado da minha companhia? Tem razão. Mas o sr. abbade voltará do Porto ao cabo de alguns dias, e com elle poderá praticar e conviver com maior agrado. Entretanto, fique, eu lh’o peço, em nome da charidade christã, que sinceramente chorará se amanhã tiver noticia de que as paixões politicas fizeram mais uma victima...

—Oh! sr. padre Antonio! como eu lhe agradeço essa terna piedade para com um desgraçado! Vossa Senhoria tem-me amparado na dor como um pai carinhoso, cuja imagem eu conservarei eternamente no coração agradecido. Mas o dever de um fugitivo é... fugir. Para onde vou? Dir-lh’o-hei com o coração nas mãos. Procurarei um grande centro onde a tempestade das paixões humanas menos se sente por ter maior terreno para espraiar-se. Vou para o Porto, onde os visinhos incommodam menos, e onde ninguem me enxergará para alvejar-me com os golpes da vingança.

—E aqui? perguntou padre Antonio desconsoladamente.

—Aqui, respondeu frei Simão, a minha tranquillidade seria absoluta se apenas dependesse de Vossa Senhoria e do sr. abbade. Mas um acaso, o proprio faro da vindicta politica podia descobrir um dia o meu escondrijo, amanheceriamos com o Passal cercado por um cordão de soldados, que viriam levantar a lebre, e eu teria contribuido para acarretar trabalhos e perseguições sobre esta abençoada casa, onde a virtude mora.

—A virtude! repetiu com suave tristeza o coadjuctor. A virtude! A tão deshumana epocha chegamos, que já o não esquecer de todo a doutrina do evangelho parece virtude! Virtuoso, eu! Não, meu amigo (permitta-me que tambem lhe dê este nome) eu sou um conservador por amor da solidariedade das instituições sociaes, que são apenas o reflexo das instituições divinas, onde o principio da suprema auctoridade é a lei suprema de que depende a harmonia do universo. Não odeio a liberdade, mas temo-a, porque foi em nome d’ella que a republica romana se dilacerou e que a republica franceza se tornou sanguinaria. Se alguem me podesse asseverar que seria possivel a radicação de um regimen de liberdade moderada e sábia, tendo por base a egualdade christã, eu, sacerdote de Christo, abençoaria esse regimen como uma aurora de paz, que viria fazer a felicidade dos homens. Não defendo o rei porque é rei; o humilde Jesus nunca o foi, senão por irrisão na cruz do Calvario. Defendo, sim, a ordem, a obediencia indispensavel á manutenção das sociedades constituidas sobre o principio da auctoridade. Temo porem as demasias do povo, que, na sua cegueira, forçou a mão dos julgadores do proprio filho de Deus, e que não poderá ser mais clemente para com os filhos dos homens. A revolução franceza desacreditou-se pela loucura sanguinaria e impia, que não poupou o throno do Altissimo. Eu, indigno representante da Egreja Catholica, não posso pensar de outro modo, mas tambem, em nome da Egreja, não posso deixar de ser benigno para com os que, inspirados por um sentimento nobre, e até christão, o levam comtudo ás vezes aos ultimos excessos do fanatismo, condemnavel não só n’elles, mas em todos, vencidos ou vencedores... Vossa Reverencia desculpe. Eu precisava abrir-lhe a minha alma, porque ao hospede em quem se confia deve ser franqueado o coração e a casa, e eu não tinha honrado ainda inteiramente a sinceridade da hospedagem. Fil-o agora, porque a occasião ageitou a confidencia. E, porque peço a Deus que me não deixe cegar de todo o entendimento, nem endurecer o coração, aqui estou para continuar a offerecer a Vossa Reverencia, sob minha responsabilidade, a sombra d’este tecto, e a lealdade do meu peito.

Frei Simão, muito commovido, olhava amoravelmente no coadjuctor, e chorava, pela segunda vez na sua vida.

Dir-se-hia que as lagrimas, por tão longos annos represas, haviam tomado gosto a minorar os trabalhos de frei Simão.

Facilmente poderia o frade responder á sincera mas vulneravel argumentação do coadjuctor. Não o quiz fazer, para não correr o risco de parecer ingrato. Estivera ainda tentado a dizer-lhe que as grandes commoções sociaes são, como os grandes cataclismos da natureza, o prologo da paz e da ordem, que não se estabelecem nunca sem reacção; que Deus tirára o mundo do cahos, e que precisára tempo para agrupar harmonicamente os elementos e regular as leis por que se regem os astros na sua eterna gravitação; que a obra dos homens não podia ser mais rapida que a de Deus, mas que os primeiros desatinos de uma instituição social seriam indispensaveis para tornar apetecida a ordem e pacificação, que lhes haviam de succeder, como a bonança succede á tempestade.

O que frei Simão quiz ver, nas palavras do virtuoso coadjuctor de Cezár, não foi a sua sincera dialectica, mas principalmente a sua grande alma, santificada por nobres sentimentos, cheia de generosos impulsos;—alma ao mesmo tempo timida e forte, mas clara como o crystal.

Abraçou-o, sentiu consolação em pôr o coração de padre Antonio d’encontro ao seu coração reconhecido; mas insistiu na ideia de partir, procurando um destino, que, embora fosse desgraçado, o fosse apenas para elle.

Frei Simão deixou o presbyterio durante a noite seguinte.

Padre Antonio veio despedil-o fóra da porta, n’um anceio de commoção, que lhe roubava, por momentos, a luz dos olhos e lhe embargava a voz.

Gertrudes Magna, a respeitosa distancia do sobrinho, chorava limpando as lagrimas ao avental de sirguilha.

Dir-se-hia que se ausentava n’aquella hora uma pessoa de familia, o pupillo querido de duas almas virtuosas.

O coadjuctor, quando o vulto de frei Simão desappareceu por entre as arvores, disse com desalento á tia:

—Decerto o não torno a vêr...

—Cruzes! Longe vá o agouro! respondeu Gertrudes Magna, procurando reanimar o espirito do sobrinho.

—Não fallo por mim, minha tia; mas por elle. Eu vivo aqui em plena paz; elle vai sem saber para onde e para quê, e os perigos gostam de experimentar a coragem dos fortes. Aos fracos, que lhes não offereceriam resistencia, despresam.

Padre Antonio não poude pregar olho toda a noite. Revolvia-se, agitado, no leito; voltava-se de um lado para outro, inquieto.

Ao entre-luzir da manhã poz-se a pé. Ajoelhou deante do oratorio, e esteve rezando longo tempo.

Quando Gertrudes Magna veio perguntar se podia ir picar o sino, o coadjuctor, muito abstracto, disse-lhe:

—Olhe que me parece que o não torno a vêr...

—Deus ha de fazer tudo pelo melhor, respondeu Gertrudes Magna, porque elle ou não será pedreiro-livre ou não parece da laia dos outros.

—Pedreiro-livre! Ha-os, decerto, mas frei Simão não o é. Uma cabeça de fogo, sim. Não estivesse ausente o sr. abbade, e veriamos o que eu faria.

—E que havias tu de fazer, padre Antonio?!

—Iria com elle por ahi fóra; buscaria livral-o dos perigos a que o seu animo ardido decerto o exporá.

Gertrudes Magna largou a rir, a rir.

—Ora não querem lá vêr! O padre Antonio feito peregrino por montes e valles, como uma ovelha desgarrada, que se tresmalhou do rebanho!

E ria, ria. O sobrinho não a ouvia rir.

Cerca das nove horas da manhã, quando o coadjuctor tinha acabado o frugal almoço, bateram á porta.

Padre Antonio disse, com alvoroço, á tia:

—Faça favor de ir abrir.

Pensou de repente que frei Simão se teria arrependido, e voltado para traz.

Mas conheceu a voz de Ignacio da Fonseca.

—Que tolice! pensou então padre Antonio. Elle arriscava-se lá a voltar de dia, mesmo que resolvesse voltar!

E foi receber á sala Ignacio da Fonseca.

O tio de José Maximo vinha, disse elle, visitar o sr. abbade.

—O sr. abbade, respondeu padre Antonio, não está cá; mas eu tenho muito praser em receber a visita e qualquer ordem de Vossa Mercê.

Emquanto isto respondia, accentuava-se no espirito do coadjuctor uma justa extranhesa. Pois seria crivel que Ignacio da Fonseca não tivesse dado pela sahida do abbade, que, segundo o costume, partira com grande estrépito de cavallos, e cortejo de criados? Não era. Então havia qualquer motivo secreto n’esta inesperada visita.

A breve trecho, notou padre Antonio que Ignacio da Fonseca não só não fallava de politica, que era o seu thema predilecto, mas parecia preoccupado em observar o que quer que fosse.

—O sr. abbade, insistiu padre Antonio procurando esclarecer a suspeita que lhe assaltára o espirito, foi ao Porto visitar os seus parentes. Costuma sempre demorar-se alguns dias. Mas admira que Vossa Mercê não soubesse da sua ausencia...

—Não sabia...

—Vossa Mercê parece-me hoje muito distraido! Tem algum negocio grave, que lhe dê cuidado?

Ignacio da Fonseca mostrou-se contrariado com esta pergunta do coadjuctor.

—Eu!? Não tenho nada que me dê cuidado!

E, levantando-se de repente, fingiu dar grande attenção a um retrato, em gravura, que pendia da parede.

—De quem é este retrato?

—Do grande Bossuet, bispo de Meaux, gloria da Egreja Catholica.

—Ah! não sabia! Sempre o sr. abbade tem aqui cousas muito bonitas! Olhe que lindo contador! é o melhor que tenho visto!

—Vossa Mercê já o tem visto, decerto, muitas vezes. É que não fez reparo...

—E que lindas talhas da India! Sempre tenho ouvido dizer que o sr. abbade é quem, n’esta comarca, possue melhor serviço de louças finas. Nunca lh’as vi. Estão na sala do jantar?

—Estão. E como Vossa Mercê é amigo dedicado do sr. abbade, e pessoa de confiança na casa, nenhuma duvida tenho em mostrar-lh’as, se lhe apraz.

—Pois acceito, e estimo vel-as.

Já não restava duvida, no espirito do coadjuctor, de que Ignacio da Fonseca ia ali com segundas vistas, tão extraordinaria era a ignorancia, que simulava, sobre as loiças do Passal, que mais de uma vez devia de ter visto.

Quando se dirigiam para a sala do jantar, Ignacio da Fonseca, vendo entre-aberta a porta do quarto de padre Antonio, olhou, de passagem, para dentro do quarto.

Não passou isto despercebido ao coadjuctor.

O tio de José Maximo deu mediana attenção ás loiças da India, de que aliás nada entendia.

—E como vai por cá sua tia, a sr.ª Gertrudes Magna?

—Como velha, coitada! Ella ahi está na cosinha. Se Vossa Mercê quer vel-a, pode entrar.

Ignacio da Fonseca aproveitou logo o offerecimento, e enfiou pela cosinha dentro.

Mostrou-se jovial com a velha, dizendo-lhe:

—Ora viva! viva! Parece mesmo uma rapariga!

—Salvo o caruncho, que já não é pouco, respondeu a tia do coadjuctor.

—Qual caruncho?! Mas para que trabalha ainda vossemecê?

—Eu trabalho porque quero. Ahi está o sr. Ignacio com a mesma teima de meu sobrinho! A mim o que me pésa é que seja pouco o trabalho quando o sr. abbade cá está, porque então não falta por’qui criadage. Mas agora, que somos dois, faz-se todo o serviço com uma perna ás costas, e ainda sobeja tempo.

—O peior é se vem por ahi algum hospede, cuidando que o sr. abbade está em casa.

Padre Antonio ficou receioso da resposta que sua tia ia dar.

—Isso sim! respondeu ella. São cousas que logo se sabem, porque o sr. abbade não vai em segredo p’ra parte nenhuma.

Padre Antonio tranquillisou-se.

—Pois muito estimei vel-a, sr.ª Gertrudes, tão bem disposta como parece!

—Isso é dos bons olhos com que Vossa Mercê me vê...

E, no corredor, Ignacio da Fonseca, parando de subito á porta do quarto de padre Antonio, perguntou:

—Este é o seu quarto, sr. padre Antonio?

—Sim, senhor. Se Vossa Mercê quer entrar?

O tio de José Maximo entrou, e, n’um lance de olhos, viu tudo.

—O sr. padre Antonio, disse elle, parece, mettido n’este quarto, um frade do Bussaco!

—Porque?!

—Porque é o aposento mais pobre da casa!

—Cada um, replicou o coadjuctor, deve viver em conformidade com o seu nascimento. Eu nasci sobrinho da criada do sr. abbade, e assim quero viver para não vexar a minha propria familia. Que pensaria o sr. Ignacio da Fonseca a meu respeito, se eu me collocasse em affrontosa opposição com os habitos humildes de minha tia,—uma pobre criada do Passal?

—Sim... lá isso!

—O sr. abbade nasceu rico, e vive como nasceu, mas não tapa os ouvidos aos clamores da pobresa que generosamente soccorre. Eu nasci pobre, e pobre quero viver. Não invejo a felicidade dos outros, porque não sou, felizmente, cego do entendimento. A Deus o agradeço. Mas ha cegos, cegos do corpo, e tambem do espirito, que mettem a sua alma no inferno, aquelles porque se desesperam contra a miseria em que vivem; estes, porque não pensam senão em offender a Deus e em provocar a justiça divina.

Ignacio da Fonseca não gostou da severidade com que padre Antonio pronunciou estas ultimas palavras.

—Elle desconfiaria de alguma cousa? perguntava a si mesmo o tio de José Maximo quando sahia do Passal.

E padre Antonio, fechando a porta logo que elle sahiu, foi direito á cosinha, e disse a Gertrudes Magna:

—Que grande ousadia esta! Elle veio espionar-nos! Suspeitaria da estada de frei Simão aqui? Então é certo que eu sou um cego, um imprevidente, e que quem tinha razão era o nosso hospede. Está-me parecendo que os desgraçados são como as gaivotas, que presentem os temporaes. Bem fez frei Simão em voar para longe, em fugir para o Porto.

Ignacio da Fonseca, chegando irritadissimo a casa, disse ao Manel Zarôlho, um rapazote vêsgo, de má cára, que costumava comprehender e executar todos os planos secretos do amo:

—Tu és uma grande bêsta! Isso é que tu és! Vires dizer-me que «vistes» luz, fóra das horas do costume, por baixo da porta na sala da Residencia e que, escutando á fechadura, «ouvistes» a voz do coadjuctor e outra voz que era a de frei Simão! Logo me quiz parecer que tudo isso cheirava a asneira grossa! O padre Antonio recebia lá um pedreiro-livre, um’alma de chicharro, que tresanda a enxofre! E eu tão tôlo, que acabei por dar-te algum crédito, quando tu teimavas que uma das vozes era a do frade malhado! Eu já te devia conhecer, grande burro!

E o Manel Zarôlho resmungou por entre dentes:

—Quando me mandou ir pôr o papel na janella do Outeiro, com risco de lá deixar a vida, como já tinha deixado antes o chapeu, não me chamou elle grande burro! Deixa estar, meu patife, que eu, para outra vez, te mandarei bugiar.

N’esse momento, o Zarôlho nutria no coração uma surda cólera contra o amo, que acabava de o insultar, esquecendo os seus damnados serviços. Mas contentou-se apenas com resmonear, porque, como todos os cobardes, era capaz de morder na sombra, posto fosse absolutamente incapaz de, no ataque ou na defesa, affrontar a luz do sol.


XXIV
A organisação da guerrilha