A HARPA DO CRENTE.
TENTATIVAS POETICAS
PELO
AUCTOR
DA
VOZ DO PROPHETA.
SEGUNDA SERIE.
LISBOA--1838
NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.
Rua direita do Arsenal--n.o 55.
A Arrabida.
A RODRIGO DA FONSECA MAGALHÃES,
ORNAMENTO DA TRIBUNA PORTUGUEZA,
Em testemunho da sincera amizade,
Offerece o Auctor.
A Arrabida.
[1830.]
I.
Salve, oh valle do sul, saudoso e bello!
Salve, oh terra de paz, deserto sancto,
Onde não chega o sussurrar das turbas!
Sólo sagrado a Deus, podesse o bardo
Ser um dos teus, e não voltar ao mundo!
II.
Suspira o vento no alamo frondoso;
As aves soltam matutino canto;
Late o lebreu na encosta, e o mar sussurra
Nos rochedos da concava bahia:
Eis o ruido de ermo!--Ao longe o negro,
Insondado oceano, e o ceu ceruleo
Se abraçam no horizonte: immensa imagem
Da eternidade e do infinito, salve!
III.
Oh, como surge magestosa e bella,
Com viço da creação, a naturesa,
No solitario valle!--E o leve insecto,
E a relva, e os matos, e a fragrancia pura
Das boninas da encosta estão contando
Mil saudades de Deus, que os ha lançado,
Com mão profusa, no regaço ameno
Da solidão, onde se esconda o justo.
E lá campeam no alto das montanhas
Os escalvados pincaros, severos,
Quaes guardadores de um logar que é sancto:
Atalaias que ao longe o mundo observam,
Cerrando até o mar o ultimo abrigo
Da crença viva, da oração piedosa,
Que se ergue a Deus de labios innocentes.
Sobre esta scena o sol verte em torrentes
Da manhan o clarão; a brisa esvae-se
Por esses matos de alecrim florído,
Embalsamando o ar de brando aroma:
O rocío da noite á rosa agreste
No seio derramou frescor suave,
E 'inda existencia lhe dará um dia!
Formoso ermo do sul, outra vez, salve!
IV.
Negro, esteril rochedo, que contrastas,
Na mudez tua, o placido sussurro
Das arvores do valle, que verdecem,
Ricas d'encantos, co'a estação propicia;
Suavissimo aroma, que manando
Das variegadas flores, derramadas
Na sinuosa encosta da montanha,
Do altar da solidão subindo aos ares,
És digno incenso ao Creador erguido;
Livres aves, vós filhas da espessura,
Que só teceis da natureza os hymnos;
O que crê, o cantor, que foi lançado,
Estranho ao mundo, no bulicio delle,
Vem saudar-vos, sentir um goso puro,
Dos homens esquecer paixões e opprobrio,
E vêr, sem ver-lhe a luz prestar a crimes,
O sol, e uma só vez pura saudar-lha.
Comvosco eu sou maior: mais longe a mente
Pelos seios dos céus se immerge livre,
E se desprende de mortaes memorias
Na solidão solemne, onde, incessante,
Em cada pedra, em cada flor se escuta
Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa
A dextra sua em multiforme quadro.
V.
Escalvado penedo, que repousas
Lá no cimo do monte, ameaçando
Ruina ás matas de alecrim e murta,
Que nesta encosta ondeam, meneadas
Pelo vento do sul, foste já lindo,
Já te cubriram cespedes virentes;
Mas o tempo voou, e nelle involta
A tua formosura: as grossas chuvas,
Despedidas das nuvens, se arrojaram
Sobre ti, oh rochedo, arrebatando
A terra e o viço, que te ornava o cimo.
Eis-te nú esqueleto!--o sol queimou-te:
Tua alvura passou: tão negro és hoje,
Quanto de mar erguido escuras vagas.
Cáveira da montanha, ossada immensa,
É tua campa o ceu: sepulchro o valle
Um dia te será. Quando sentires
Rugir com som medonho a terra ao longe,
Na expansão dos volcões, e o mar bramindo,
Lançar á praia vagalhões cruzados;
Tremer-te a larga base, e sacudir-te
Do vasto dorso, o fundo deste valle
Te váe servir de tumulo: e os carvalhos
Do mundo primogenitos, e os freixos,
Arrastados por ti lá da collina,
Comtigo hão-de jazer.--De novo a terra
Te cubrirá o dorso sinuoso:
Outra vez sobre ti nascendo os lyrios,
Do seu puro candor hão-de adornar-te:
E tu, ora medonho, e nú, e triste,
Ainda bello serás, vestido e alegre.
Mais que o homem feliz!--Quando eu no valle
Dos tumulos cair; quando uma pedra
Os ossos me esmagar, se me fôr dada,
Não mais reviverei: não mais meus olhos
Verão o pôr do sol, em dia estivo,
Se em turbilhões de purpura, que ondeam
Pelo extremo dos céus sobre o occidente,
Váe provar que um Deus ha a estranhos povos,
E alem das ondas tremulo sumir-se;
Nem, quando, lá do cimo das montanhas,
Com torrentes de luz inunda as veigas:
Nem mais verei o refulgir da lua
No irrequieto mar, na paz da noite,
Por horas em que véla o criminoso,
A quem íntima voz rouba o socego,
E em que o justo descança, ou, solitario,
Ergue ao Senhor um hiymno harmonioso.
VI.
Hontem, sentado n'um penhasco, e perto
Das aguas, então quêdas, do oceano,
Eu tambem o louvei, sem ser um justo:
E meditei--e a mente extasiada
Deixei correr pela amplidão das ondas.
Como abraço materno, era suave
A aragem fresca do caír das trévas,
Em quanto, involta em gloria, a clara lua
Sumia em seu fulgor milhões d'estrellas.
Tudo calado estava: o mar somente
As harmonias da creação soltava,
Em seu rugido; e o freixo do deserto
Se agitava, gemendo e murmurando,
Ante o sopro de oeste:--alli dos olhos
O pranto me correu, sem que o sentisse,
E aos pés de Deus se derramou minha alma.
VII.
Oh, que viesse o que não crê, comigo,
Á vecejante Arrabida, de noite,
E se assentasse aqui sobre estas fragas,
Escutando o sussurro incerto e triste
Das movediças ramas, que povoa
De saudade e de amor nocturna brisa;
Que visse a lua, o espaço oppresso de astros,
E ouvisse o mar soando:--elle chorára,
Qual eu chorei, as lagrymas do goso,
E adorando o Senhor detestaria
De uma sciencia van seu vão orgulho.
VIII.
É aqui neste valle, ao qual não chega
Humana voz e o tumultuar das turbas,
Onde o nada da vida sonda livre
O coração, que busca ir abrigar-se
No futuro, e debaixo do amplo manto
Da piedade de Deus: aqui serena
Vem a imagem da campa, como a imagem
Da patria ao desterrado: aqui, solemne,
Brada a montanha, memorando a morte.
Essas penhas, que, lá no alto da encosta,
Negras, despidas, dormem solitarias,
Parecem imitar da sepultura
O aspecto melancholico, e o repouso
Tão desejado do que em Deus confia.
Bem semelhante á paz, que se ha sentado
Por seculos, alli, nas serranias,
É o silencio do adro, onde reunem
Os cyprestes e a cruz o céu e a terra.
Como tu vens cercado de esperança,
Para o innocente, oh placido sepulchro!
Juncto das tuas bordas pavorosas
O perverso recúa horrorisado:
Após si volve os olhos; na existencia
Deserto árido só descobre ao longe,
Onde a virtude não deixou um trilho.
Mas o justo chegando á meta extrema,
Que separa de nós a eternidade,
Transpoem-a sem temor, e em Deus exulta.
O infeliz e o feliz lá dormem ambos,
Tranquillamente: e o trovador mesquinho,
Que peregrino vagueou na terra,
Sem encontrar um coração de fogo,
Que o entendesse, a patria de seus sonhos,
Ignota, por lá busca; e quando as eras
Vierem juncto ás cinzas collocar-lhe
Tardios louros, que escondêra a inveja,
Elle não erguerá a mão mirrada,
Para os cingir na regelada fronte.
Justiça, gloria, amor, saudade, tudo,
Ao pé da sepultura, é som perdido
De harpa eolia esquecida em brenha ou selva:
O despertar um pae, que saborea,
Entre os braços, da morte o extremo somno,
Já não é dado ao filial suspiro:
Em vão o amante, alli, da amada sua
De rosas sobre a c'roa debruçado,
Rega de amargo pranto as murchas flores
E a fria pedra: a pedra é sempre fria,
E para sempre as flores se murcharam,
IX.
Bello ermo! eu hei-de amar-te, em quanto est'alma,
Aspirando o futuro além da vida,
E um halito dos ceus, gemer, atada
Á columna do exilio, a que se chama,
Em lingua vil e mentirosa, o mundo.
Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filho
Dos sonhos meus. A imagem do deserto
Guarda-la-hei no coração, bem juncto
Com minha fé, meu unico thesouro.
Qual pomposo jardim de verme illustre,
Chamado rei ou nobre, ha-de comtigo
Comparar-se, oh deserto?--Aqui não cresce
Em vaso de alabastro a flor captiva,
Ou arvore educada, por mão do homem,
Que lhe diga: és escrava: e erga um ferro,
E lhe decepe os troncos. Como é livre
A vaga do oceano, é livre no ermo
A bonina rasteira, e o freixo altivo:
Não lhes diz: nasce aqui, ou lá não cresças:
Humana voz. Se baqueou o freixo,
Deus o mandou; se a flor pendida murcha,
É que o rocio não desceu de noite,
E da vida o Senhor lhe nega a vida.
Ceu livre, terra livre, e livre a mente,
Paz íntima, e saudade, mas saudade
Que não doe, que não mirra, e que consola
São as riquezas do ermo, onde sorriem
Das procellas do mundo os que o deixaram.
Ahi, na branda encosta, hontem de noite,
Alvejava por entre as azinheiras
Do solitario a habitação tranquilla:
E eu vagueei por lá: patente estava
O pobre alvergue do eremita humilde,
Onde jazia o filho da esperança,
Sob as azas de Deus, á luz dos astros,
Em leito, duro sim, não de remorsos,
Oh, com quanto socego o bom do velho
Dormia!--A leve aragem lhe ondeava
As raras cãas na fronte, onde se lia
A bella historia de passados annos.
De alto choupo atravez passava um raio
Da lua--astro de paz, astro que chama
Os olhos para o ceu, e a Deus a mente--
E em luz pallida as faces lhe banhava:
E talvez neste raio o Pae celeste
Da patria eterna lhe enviava a imagem,
Que o sorriso dos labios lhe fugia,
Como se um sonho de ventura e gloria
Na terra de antemão o consolasse.
E eu comparei o solitario obscuro
Ao inquieto filho das cidades;
Comparei o deserto silencioso
Ao perpétuo ruido que sussurra
Pelos palacios do abastado e nobre,
Pelos paços dos reis; e condoí-me
Do cortesão suberbo, que só cura
De honras, haveres, gloria, que se compram
Com maldicções e perennal remorso.
Gloria!--A sua qual é?--Pelas campinas,
Cubertas de cadaveres, regadas
De negro sangue, elle segou seus louros;
Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva,
Ao som do choro da viuva, e do orpham;
Ou, dos sustos senhor, em seu delirio,
Os homens--seus irmãos--flagella e opprime.
Lá o filho do pó se julga um nume,
Porque a terra o adorou: o desgraçado
Pensa, talvez, que o verme dos sepulchros
Nunca se ha-de chegar, para traga-lo,
Ao banquete da morte, imaginando
Que uma lagem de marmore, que esconde
O cadaver do grande, é mais duravel
Do que esse chão sem inscripção, sem nome,
Por onde o oppresso, o misero, procura
O repouso, e se atira aos pés do throno
Do Omnipotente, a demandar justiça
Contra os fortes do mundo--os seus tyrannos.
X.
Oh cidade, cidade, que trasbordas
De vicios, de paixões, e de amarguras!
Tu lá estás, na tua pompa involta,
Suberba prostituta, alardeando
Os theatros, e os paços, e o ruido
Das carroças dos nobres, recamadas
De ouro e prata, e os praseres de uma vida
Tempestuosa, e o tropear contínuo
Dos férvidos ginetes, que alevantam
O pó e o lodo cortesão das praças;
E as gerações corruptas de teus filhos
Lá se revolvem, qual montão de vermes
Sobre um cadaver putrido!--Cidade,
Branqueado sepulchro, que misturas
A opulencia, a miseria, a dôr e o goso,
Honra, infamia, pudor, e impudicicia,
Ceu e inferno, que és tu?--Escarneo ou gloria
Da humanidade?--O que o souber que o diga!
Bem negra avulta aqui, na paz do valle,
A imagem desse povo, que reflue
Das moradas á rua, á praça, ao templo,
Que a noite sorve, e que vomita o dia,
Que ri, e chora, e folga, e geme, e morre,
Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme;
Absurdo mixto de baixesa extrema
E de extrema ousadia; vulto enorme,
Ora aos pés de um vil despota estendido,
Ora surgindo, e arremessando ao nada
As memorias dos seculos que foram;
E depois sobre o nada adormecendo.
Vê-lo, rico de opprobrio, ir assentar-se
Em joelhos, nos atrios dos tyrannos,
Onde, entre o lampejar de armas de servos,
O servo popular adora um tigre?
Esse tigre é o idolo do povo!
Saudae-o; que elle o manda: abençoae-lhe
O ferreo sceptro: ide folgar em roda
De cadafalsos, povoados sempre
De victimas illustres, cujo arranco
Seja como harmonia, que adormente,
Em seus terrores, o senhor das turbas.
Passae depois. Se a mão da Providencia
Esmigalhou a fronte á tyrannia;
Se o déspota caíu, e está deitado
No lodaçal da sua infamia, a turba
Lá vai buscar o sceptro dos terrores,
E diz--é meu--; e assenta-se na praça;
E involta em roto manto, e julga e reina.
Se um ímpio, então, na affogueada boca
De volcão popular sacode um facho,
Eis o incendio que muge, e a lava sobe,
E referve, e trasborda, e se derrama
Pelas ruas além: clamor retumba
De anarchia impudente, e o brilho de armas
Pelo escuro transluz, como um presagio
De assolação; e se amontoam vagas
Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo;
Desse vulgo, que ao som de infernaes hymnos,
Cava fundo da Patria a sepultura,
Onde, abraçando a gloria do passado
E do futuro a ultima esperança,
As esmaga comsigo, e ri morrendo.
Tal és cidade, licenciosa ou serva!
Outros louvem teus paços sumptuosos,
Teu ouro, teu poder:--sentina impura
Da corrupção, eu não serei teu bardo!
XI.
Cantor da solidão, eu me hei sentado
Juncto do verde cespede do valle;
E a paz de Deus do mundo me consola.
Avulta aqui, e alveja, entre o arvoredo,
Um pobre conventinho. Homem piedoso
O alevantou ha seculos, passando,
Como orvalho do ceu, por este sitio,
De virtudes depois tão rico e fertil.
Como um pae de seus filhos rodeado,
Pelos matos do outeiro o vão cercando
Os tugurios de humildes eremitas,
Onde o cilicio e a compuncção apagam
Da lembrança de Deus passados erros
Do peccador, que reclinou a fronte
Penitente no pó. O sacerdote
Dos remorsos lhe ouviu as amarguras;
E perdoou-lhe, e consolou-o em nome
Do que espirando perdoava, o Justo
Que entre os humanos não achou piedade.
Religião! do misero conforto,
Abrigo extremo de alma, que ha mirrado
O longo agonisar de uma saudade,
Da deshonra, do exilio, ou da injustiça,
Tu consolas aquelle, que ouve o verbo,
Que renovou o corrompido mundo,
E que mil povos pouco a pouco ouviram.
Nobre, plebeu, dominador, ou servo,
O rico, o pobre, o valoroso, o fraco,
Da desgraça no dia ajoelharam
No limiar do solitario templo.
Ao pé desse portal, que veste o musgo,
Encontrou-os chorando o sacerdote,
Que da serra descia á meia-noite,
Pelo sino das preces convocado:
Ahi os viu ao despontar do dia,
Sob os raios do sol, ainda chorando.
Passados mezes, o burel grosseiro,
O leito de cortiça, e a fervorosa
E contínua oração foram cerrando
Nos corações dos miseros as chagas,
Que o mundo sabe abrir, mas que não cura.
Aqui, depois, qual halito suave
Da primavera, lhes correu a vida,
Até sumir-se no adro do convento,
Debaixo de uma lagem tosca e humilde,
Sem nome, nem palavra, que recorde
O que a terra abrigou no somno extremo.
Eremiterio antigo, oh se podesses
Dos annos que lá vão contar a historia;
Se ora, á voz do cantor, possivel fosse
Transsudar desse chão, gelado e mudo,
O mudo pranto, em noites dolorosas,
Por naufragos do mundo derramado
Sobre elle, e aos pés da cruz!... se vós podesseis,
Broncas pedras, fallar, o que dirieis!
Quantos nomes mimosos da ventura,
Convertidos em fabula das gentes,
Despertariam o eccho das montanhas,
Se aos negros troncos do sobreiro antigo
Mandasse o Eterno sussurrar a historia
Dos que vieram desnudar-lhe o cepo,
Para um leito formar, onde velassem
Da magoa, ou do remorso as longas noites!
Aqui veio talvez buscar asylo
Um poderoso, outr'ora anjo da terra,
Despenhado nas trévas do infortunio:
Aqui, talvez, gemeu o amor trahido,
Ou pela morte convertido em cancro
De infernal desespero: aqui soaram
Do arrependido os ultimos gemidos,
Depois da vida derramada em gosos,
Depois do goso convertido em tedio.
Mas quem foram?--Na terra, onde deixaram
Suas vestes mortaes, nenhum vestigio
Resta dos nomes seus.--E isso que importa,
Se Deus os viu; se as lagrymas dos tristes
Elle contou, para as pagar com gloria?
Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda,
Que dos montes além conduz ao valle,
Sobre o marco de pedra a cruz se eleva,
Como um pharol de vida, em mar de escolhos:
Ao christão infeliz acolhe no ermo,
E consolando-o, diz-lhe: a patria tua
É lá no ceu:--abraça-te comigo:
Juncto della esses homens, que passaram
Acurvados na dôr, as mãos ergueram
Para o Deus, que perdoa, e que é conforto
Dos que aos pés deste symbolo da esp'rança
Vem derramar seu coração afflicto:
É do deserto a historia a cruz e a campa;
E sobre tudo o mais pousa o silencio.
XII.
Feliz da terra, os monges não maldigas;
Do que em Deus confiou não escarneças!--
Folgando segue a trilha, que ha juncado,
Para teus pés, de flores a fortuna,
E sobre a morta crença, em paz descança.
Que mal te faz, que goso vae roubar-te
O que ensanguenta os pés nas bravas urzes,
E sobre a fria pedra encosta a fronte?
Que mal te faz uma oração erguida,
Nas solidões, por voz sumida e frouxa,
E que, subindo aos céus, só Deus escuta?
Oh, não insultes lagryimas alheias,
E deixa a fé ao que não tem mais nada!...
E se estes versos te contristam--rasga-os.
Teus menestreis te venderão seus hymnos,
Nos banquetes opiparos, em quanto
O negro pão repartirá comigo,
Seu trovador, o pobre anachoreta,
Que não te inveja as ditas, como aos bardos
Do prazer dissoluto eu não invejo
Essas crôas, que ás vezes cingem frontes,
Onde, por baixo, se escreveu--Infamia!--
A Voz.
A Voz.
É tão suave ess'hora,
Em que nos foge o dia,
E em que suscita a lua
Das ondas a ardentia;
Se em alcantís marinhos
Nas rochas assentado,
O trovador medita,
Em sonhos enleiado!
O mar azul se encrespa
Co' a vespertina brisa,
E no casal da serra
A luz já se divisa.
E tudo em roda cala,
Na praia sinuosa,
Salvo o som do remanso,
Quebrando em furna algosa.
Alli folga o poeta
Nos desvarios seus;
E nessa paz que o cerca
Bemdiz a mão de Deus.
Mas despregou seu grito
A alcyone gemente,
E nuvem pequenina
Ergueu-se no occidente;
E sóbe, e cresce, e immensa,
Nos ceus negra fluctua,
E o vento das procellas
Já varre a fraga nua.
Turba-se o vasto oceano,
Com horrido clamor:
Do vagalhão nas ribas
Expira o vão furor.
E do poeta a fronte
Cubriu véu de tristesa:
Partiu-se á luz do raio
Seu hymno á naturesa.
Feia alma lhe vagava
Um negro pensamento,
Da alcyone ao gemido,
Ao sibillar do vento.
Era blasphema idéa,
Que triumphava em fim:
Mas voz soou ignota,
Que lhe dizia assim:
"Cantor, esse queixume
Da nuncia das procellas,
E as nuvens, que te roubam
Myriadas de estrellas;
E o fremito dos euros,
E o estourar da vaga,
Na praia, que revolve,
Na rocha, onde se esmaga;
Onde espalhava a brisa
Sussurro harmonioso,
Em quanto do ether puro
Descia o sol radioso,
Typo da vida do homem,
É do universo a vida;
Depois do afan repouso,
Depois da paz a lida.
Se ergueste a Deus um hymno
Em dia de amargura;
Se te amostraste grato
Nos dias de ventura,
Seu nome não maldigas,
Quando se turba o mar:
No Deus, que é pae, confia,
Do raio ao scintilar.
Elle o mandou:--a causa
Disso o universo ignora--
E mudo está:--seu nume,
Como o universo, adora!"
Oh sim: torva blasphemia
Não manchará seu canto!
Brama procella embora;
Pese sobre elle o espanto;
Que de su' harpa os hymnos
Derramará o bardo,
Aos pés de Deus, qual oleo
De recendente nardo.
Leça da Palmeira 1835
A Victoria e a Piedade.
A Victoria e a Piedade.
Eu nunca fiz soar meu canto humilde
Nos paços dos senhores:
Eu jámais consagrei hymno mentido
Da terra aos oppressores.
Mal haja o trovador que vae sentar-se
Á porta do abastado,
O qual com ouro paga a alhêa infamia,
O cantico aviltado.
O filho das canções, da gloria o bardo
Não manchou o alaude;
O ingenho seu ha consagrado á Patria;
Seu canto é da virtude.
Ingenho!--dom dos ceus, consolo ao triste
Nos dias de afflicção,
Qual solto vento em areal deserto,
Livres teus cantos são.
No despontar da vida, do infortunio
Murchou-me o sopro ardente:
Pela terra natal, na flor dos dias,
Eu suspirei ausente.
O solo do desterro, ah, quanto ingrato
É para o foragido;
Ennevoado o ceu; arido o prado;
O rio adormecido!
Eu lá chorei, na idade da esperança,
Da patria a dura sorte:
Esta alma encaneceu;--e antes de tempo
Ergueu hymnos á morte.
E que infeliz ha hi, a quem não ria
Da sepultura a imagem?
Alli é que se afferra o porto amigo,
Depois de ardua viagem.
Mas, quando o pranto me queimava as faces,
O pranto da saudade,
Deus escutou dos profugos as preces,
Teve de nós piedade.
Armas!--bradaram do desterro os filhos:
Bem-disse-os o Senhor:
E vencer ou morrer juncto com elles
Jurou o trovador.
Pelas vagas do mar correndo affoutos,
Á gloria nos votámos;
E, nos campos nataes, pendão invicto
Os livres, nós, plantámos.
Fanatismo, ignorancia, odio fraterno;
De fogo céus toldados;
A fome, a peste, o mar avaro, as hostes
De innumeros soldados;
Um futuro sem raio de esperança;
Ouvir o vão lamento
De infante, a vida incerta conduzido
Por mão do soffrimento;
Comprar com sangue o pão, com sangue o fogo
Em regelado inverno;
Eis contra o que, por mezes de amargura,
Nos fez luctar o inferno.
Mas constancia e valor tudo ha vencido:
Ganhou-se eterna gloria;
E dos tyrannos apesar, colhemos
Os louros da victoria.
Teça-se, pois, o cantico subido
Aos fortes vencedores.
Livres somos!--Sumiram-se qual fumo
Da Patria os oppressores.
Sobre essa encosta, sobranceira aos campos,
De sangue ainda impuros,
Onde o canhão troou, por mais de um anno,
Contra invenciveis muros,
Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me;
Pedir inspirações
A amiga noite, o genio que me ensina
Suavissimas canções.
Reina em silencio a lua, o mar não brame,
Os ventos nem bafejam.....
Mas que ossadas são estas, que na encosta,
Aqui e alli, alvejam?
Esses?--São ossos vís, que não resguarda
O sussurrar da gloria;
Herdeiros só das maldicções das gentes,
Das maldicções da historia:
São os restos dos homens, que luctaram,
Valentes no seu crime,
Contra nós, contra a mão da Providencia,
Que os maus derruba e opprime.
Mas quem porá padrão que aos evos conte,
Seus feitos derradeiros!
Quem dirá--aqui dormem portuguezes;
Aqui dormem guerreiros--?
Quem virá na alta noite erguer por elles
Resas de salvação?
Quem ousará pedir para o vencido
Um ai de compaixão?
Virão, acaso, alevantar seus filhos
O pranto solitario,
Pelo que lhes legou de avós o nome
Involto em vil sudario?
Será a esposa, que lhes cubra as cinzas
Com oração piedosa?
Não!--nenhuma ousará dizer, chorando,
Eu fui do escravo esposa.
Será a amante?--Em tremedaes a pura
Rosa nascer não sabe:
A mais bella paixão não é de servos;
Vil goso só lhes cabe.
De mãe o amor tentára, unicamente,
Sobre os corpos gelados,
Vir chorar a esperança, em flor colhida,
De seus annos cansados:
Mas o espanto lh'o veda, e o rouco grito
Do rude velador;
Da noite os medos; de armas, já sem donos,
Nas trévas o esplendor.
Quem, pois, consolará gementes sombras,
Que ondeam juncto a mim?
Quem seu perdão da Patria implorar ousa,
Seu perdão de Elohim?
Eu:--o christão:--o trovador do exilio,
Contrario em guerra crua,
Mas que não sei cuspir o fel da affronta
Sobre uma ossada nua.
O misero pastor desceu dos montes,
Abandonando o gado,
Para as armas vestir, dos céus em nome,
Por phariseus chamado.
De um Deus de paz hypocritas ministros
Os tristes enganaram:
Foram elles, não nós, que estas caveiras
Aos vermes consagraram.
Maldicto sejas tu, monstro do inferno,
Que do Senhor no templo,
A virtude insultando, ao crime incitas,
Dás do furor o exemplo!
Sobre os restos da Patria, tu bem creste
Folgar de nosso mal,
E, sobre as cinzas de cidade illustre,
Soltar riso infernal.
Tu, no teu coração insipiente,
Disseste--Deus não ha!--
Elle existe, malvado!--e nós vencemos:
Treme.... que tempo é já.
Mas esses, cujos ossos espalhados
No campo da peleja
Jazem, exoram a piedade nossa;
Piedoso o livre seja!
Eu pedirei a paz dos inimigos,
Mortos como valentes,
Ao Deus nosso juiz, ao que distingue
Culpados de innocentes.
Perdoou, expirando, o Filho do Homem
Aos seus perseguidores:
Perdão, tambem, ás cinzas de infelizes!
Perdão--oh vencedores!
Não insulteis o morto. Elle ha comprado
Bem caro o esquecimento,
Vencido adormecendo em morte ignobil,
Sem dobre ou monumento.
Que resta aos desditosos?--Somno eterno,
Da Patria a maldicção,
A justiça de Deus, tremenda, ignota,
E a humana execração.
Mas nós, saibamos esquecer os odios
De guerra lamentavel;
É generoso o forte, e deixa ao fraco
O ser inexoravel.
Oh, perdão para aquelle, a quem a morte
No seio agasalhou!
Elle é mudo:--pedi-lo já não póde;
O da-lo a nós deixou.
Da lei a espada puna o criminoso,
Que vê a luz dos céus:
O que legou á terra o pó da terra,
Julga-lo cabe a Deus.
E vós, meus companheiros, que não vistes
Nossa inteira victoria,
Não precisaes do trovador o canto;
Vosso nome é da historia.
Eu do vencido consolei a sombra;
Eu perdoei por vós.
Filhos da infamia os desgraçados eram;
Ricos de gloria nós.
Porto--Agosto de 1833
NOTA.
Este fragmento, que segue, e que servirá para intelligencia
dos precedentes versos, pertence a um livro já
todo escripto no entendimento, mas de que só alguns
capitulos estão trasladados ao papel. A guerra da restauração
de 1832 a 1833 é o acontecimento mais espantoso
e mais poetico deste Seculo. Entre os soldados de
D. Pedro havia poetas: militava comnosco o Auctor de
D. Branca, do Camões, de João Minimo; o Sr. Lopes
de Lima, e outros: mas a politica engodou todos os ingenhos,
e levou-os comsigo. Os homens de bronze, os
sete mil de Mindello não tiveram um cantor; e apenas
eu, o mais obscuro de todos, salvei em minha humilde
prosa, uma diminuta porção de tanta riquesa poetica.
Oxalá que esse mesmo trabalho, ainda que de pouca
valia, não fique esmagado e sumido debaixo do Leviathan
da politica. Todos nós temos vendido a nossa
alma ao espirito immundo do Jornalismo. E o mais é
que poucos conhecem uma cousa: que polilica de poetas
vale, por via de regra, tanto como poesia de politicos.
Fragmento.
O combate da antevespera estava ainda vivo na minha
imaginação: eu cria vêr ainda os cadaveres dos
meus amigos e camaradas, espalhados ao redor do fatal
reducto, em que estava assentado: ainda me soavam
nos ouvidos o seu clamor de enthusiasmo ao accommette-lo,
o sibillar das ballas, o grito dos feridos, o som
das armas caindo-lhes das mãos, o gemido doloroso e
longo da sua agonia, o estertor de moribundos, e o
arranco final do morrer. Os dentes me rangeram de cólera,
e a lagryma envergonhada de soldado me escorregou
pelas faces. O Porto estava descercado; mas quantos
valentes cairam nesse dia! Eu ia amaldiçoar os cadaveres
dos vencidos, que ainda por ahi jaziam; porém
pareceu-me que elles se alevantavam e me diziam:--Lembra-te
de que tambem fomos soldados: lembra-te
de que fomos vencidos!--E eu bem sabia que inferno
lhes devia ter sido, no momento de expirarem, as idéas
de soldado e de vencimento, conglobadas n'uma só, como
tremenda e indelevel ignominia, estampada na fronte
do que ia transpor os umbraes do outro mundo. Então
oreí a Deus por elles: antes de irmão de armas
eu tinha sido christão; e Jesu-Christo perdoára, entre as
affrontas da Cruz, aos seus assassinos. A idéa de perdão
parecia me consolava da perda de tantos e tão valentes
amigos. Havia nessa idéa torrentes de poesia; e eu te
devi então, oh crença do Evangelho, talvez a melhor
das minhas pobres canções.
(Da Minha Mocidade--Poesia e Meditação Cap....)
A HARPA DO CRENTE.
TENTATIVAS POETICAS
PELO
AUCTOR
DA
VOZ DO PROPHETA.
TERCEIRA SERIE.
LISBOA--1838
NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.
Rua direita do Arsenal--n.o 55.
Deus.
Deus.
Nas horas do silencio--á meia-noite--
Eu louvarei o Eterno!
Ouçam-me a terra, e os mares rugidores,
E os abysmos do inferno.
Pela amplidão dos céus meus cantos soem,
E a lua prateada
Pare no gyro seu, em quanto pulso
Esta harpa, a Deus sagrada.
Antes de tempo haver, quando o infinito
Media a eternidade,
E só do vacuo as solidões enchia
De Deus a immensidade,
Elle existiu--em sua essencia involto;
E, fóra delle, o nada:
No seio do Creador a vida do homem
Estava ainda guardada:
Ainda então do mundo os fundamentos
Na mente se escondiam
Do Omnipotente, e os astros fulgurantes
Nos céus não se volviam.
Eis o Tempo, o Universo, o Movimento
Das mãos sáe do Senhor:
Surge o sol, banha a terra, e desabrocha
Uma primeira flor:
Sobre o invisivel eixo range o globo:
O vento o bosque ondêa:
Retumba ao longe o mar: da vida a força
A naturesa ancêa!
Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te,
Ou cantar teu poder?
Quem dirá de Teu braço as maravilhas,
Fonte de todo o ser,
No dia da creação; quando os thesouros
Da neve amontoaste;
Quando da terra nos mais fundos valles
As aguas encerraste?!
E eu onde estava, quando o Eterno os mundos,
Com dextra poderosa,
Fez, por lei immutavel, se librassem
Na mole ponderosa?
Onde existia então? No typo immenso
Das gerações futuras;
Na mente do meu Deus. Louvor a Elle
Na terra e nas alturas!
Oh, quanto é grande o Rei das tempestades,
Do raio, e do trovão!
Quão grande o Deus, que manda, em secco estio,
Da tarde a viração!
Por sua Providencia nunca, embalde,
Zumbiu minimo insecto;
Nem volveu o elephante, em campo esteril,
Os olhos, inquieto.
Não deu Elle á avezinha o grão da espiga,
Que ao ceifador esquece;
Do norte ao urso o sol da primavera,
Que o reanima e aquece?
Não deu Elle á gazella amplos desertos,
Ao cervo o bosque ameno,
Ao flamingo os paues, ao tigre um antro,
No prado ao touro o feno!
Não mandou Elle ao mundo, em lucto e trévas,
Consolação e luz?
Acaso, em vão, algum desventurado
Curvou-se aos pés da cruz?
A quem não ouve Deus? Sómente ao ímpio,
No dia da afflicção,
Quando pesa sobre elle, por seus crimes,
Do crime a punição.
Homem, ente immortal, que és tu perante
A face do Senhor?
És a junça do brejo, harpa quebrada
Nas mãos do trovador!
Olha o negro pinheiro, campeando
Dos Alpes entre a neve:
Quem arranca-lo de seu throno ousára,
Quem destruir-lhe a seve?
Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu dia
Extremo Deus mandou!
Lá correu o aquilão: fundas raizes
Aos ares lhe assoprou.
Suberbo, sem temor, saíu na margem
Do caudaloso Nilo,
O corpo monstruoso ao sol voltando,
Medonho crocodilo.
De seus dentes em roda o susto móra:
Vê-se a morte assentada
Dentro em sua garganta, se descerra
A boca affogueada.
Qual duro arnez de intrepido guerreiro
É seu dorso escamoso;
Como os ultimos ais de um moribundo
Seu grito lamentoso:
Fumo e fogo respira quando irado:--
Porém, se Deus mandou,
Qual do norte impellida a nuvem passa,
Assim elle passou!
Teu nome ousei cantar!--Perdoa, oh Nume;
Perdoa ao teu cantor!
Dignos de ti não são meus frouxos cantos;
Mas são cantos de amor.
Embora vís hypocritas te pintem
Qual barbaro tyranno;
Mentem, por dominar, com ferreo sceptro,
O vulgo cego e insano.
Quem os crê é um ímpio!--Arrecear-te
É maldizer-te, oh Deus:
É o throno dos despotas da terra
Ir collocar nos céus.
Eu, por mim, passarei entre os abrolhos
Dos males da existencia
Tranquillo, e sem terror, á sombra posto
Da tua Providencia.
Plymouth--Setembro de 1831.
A Tempestade.
A ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO.
Alma affinada pelas harpas de anjos;
Rei das canções--entenderás meu hymno!
O Auctor.
A Tempestade.
Sibilla o vento:--os torreões de nuvens
Pesam nos densos ares:
Ruge ao largo a procella, e encurva as ondas
Pela extensão dos mares:
A immensa vaga ao longe vem correndo,
Em seu terror involta;
E, d'entre as sombras, rapidas centelhas
A tompestade sólta.
Do sol, no occaso, um raio derradeiro,
Que, apenas fulge, morre,
Escapa á nuvem, que, appressada e espessa,
Para apaga-lo corre.
Tal nos affaga em sonhos a esperança,
Ao despontar do dia,
Mas, no acordar, lá vem a consciencia
Dizer que ella mentia.
As ondas negro-azues se conglobaram;
Serras tornadas são,
Contra as quaes outras serras, que se arqueam,
Bater, partir-se vão.
Oh tempestade!--eu te saudo! oh nume,
Da naturesa açoite!
Tu guias os bulcões, do mar princesa;
E é teu vestido a noite!
Quando no pinheiral, entre o granizo,
Ao sussurrar das ramas,
Vibrando sustos, pavorosa ruges,
E assolação derramas,
Quem porfiar comtigo, então, ousara
Da gloria e poderio;
Tu que fazes gemer pendido o cedro,
Turbar-se o claro rio?
Quem me dera ser tu, por balouçar-me
Das nuvens nos castellos,
E vêr dos ferros meus, em fim, quebrados
Os rebatidos élos!
Eu rodeára, então, o globo inteiro:
Eu sublevára as aguas:
Eu dos volcões, com raios accendêra
Amortecidas fráguas:
Do robusto carvalho e sobro antigo
Accurvaria as frontes;
Com furacões, os areaes da Lybia
Converteria em montes:
Pelo fulgor da lua, lá do norte
No polo me assentára,
E víra prolongar-se o gelo eterno,
Que o tempo amontoára.
Alli eu solitario, eu rei da morte,
Erguêra meu clamor,
E dissera: sou livre, e tenho imperio:
Aqui, sou eu senhor!
Quem se poderá erguer, como estas vagas,
Em turbilhões incertos;
E correr, e correr--troando ao longe--
Nos liquidos desertos!
Mas entre membros de lodoso barro
A mente presa está!....
Ergue-se em vão aos céus:--precipitada,
Rapido, em baixo dá.
Oh morte!--amiga morte!--é sobre as vagas,
Entre escarceus erguidos,
Que eu te invoco, pedindo-te feneçam
Meus dias aborridos:
Quebra duras prisões, que a naturesa
Lançou a esta alma ardente;
Que ella possa voar, por entre os orbes,
Aos pés do Omnipotente:
Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem
Desça, e estourando a esmague;
E a grossa proa, dos tufões ludibrio,
Solta, sem rumo vague!
Porém, não!--Dormir deixa os que me cercam
O somno do existir:
Deixa-os; vãos sonhadores de esperanças
Nas trévas do porvir.
Dôce mãe do repouso--extremo abrigo
De um coração oppresso--
Que ao ligeiro prazer, á dor cançada
Negas no seio accesso,
Não despertes--oh não--os que abominam
Teu amoroso aspeito;
Febricitantes, que se abraçam, loucos,
Com seu dorido leito!
Tu, que ao misero ris com rir tão meigo,
Calumniada morte;
Tu, que entre os braços teus lhe dás azilo
Contra o furor da sorte;
Tu que esperas ás portas dos senhores;
Do servo ao limiar;
E eterna corres, peregrina, a terra,
E as solidões do mar,
Deixa, deixa sonhar ventura os homens;
Já filhos teus nasceram:
Um dia acordarão desses delirios,
Que tão gratos lhes eram.
E eu, que vélo na vida,--e já não sonho,
Nem gloria, nem ventura;
Eu, que esgotei tão cedo, até as fezes,
O calis da amargura;
Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado
De quanto ha vil no mundo,
Morrer sentindo inspirações de bardo,
Do coração no fundo;
Sem achar sobre a terra uma harmonia
De alma, que a minha entenda;
Porque seguir, curvado ante a desgraça,
Esta espinhosa senda?
Torvo o oceano vae!--Qual dobre soa
Fragor da tempestade;
Psalmo de mortos, que retumba ao longe;
Grito da eternidade!....
Pensamento infernal!--Fugir cobarde
Ante o destino iroso?
Lançar-me, involto em maldicções celestes,
No abysmo tormentoso?
Nunca!--Deus poz-me aqui para apurar-me
Nas lagrymas da terra;
Guardarei minha estancia attribulada,
Com meu desejo em guerra.
O fiel guardador terá seu premio,
O seu repouso, em fim;
E atalaiar o sol de um dia extremo
Virá outro apoz mim.
Herdarei o morrer!--Como é suave
Benção de pae querido,
Será o despertar; vêr meu cadaver,
Vêr o grilhão partido.
Um consolo, entretanto, resta ainda
Ao pobre velador:
Deus lhe deixou, nas trévas da existencia,
Doce amisade e amor.
Tudo o mais é Sepulchro, branqueado
Por embusteira mão;
Tudo o mais vãos prazeres, que só trazem
Remorso ao coração.
Passarei minha noite a luz tão meiga,
Até o amanhecer;
Até que suba á patria do repouso,
Onde não ha morrer.
A bordo da Juno, na Bahia da Biscaya--Março de 1853.
O Soldado.
O Soldado.
I.
Veia tranquilla e pura
Do meu paterno rio:
Dos campos, que elle rega,
Mansissimo armentio:
Rocío matutino:
Prados tao deleitosos:
Valles, que assombram selvas
De sinceiraes frondosos:
Terra da minha infancia:
Tecto de meus maiores:
Meu breve jardimzinho:
Minhas pendidas flores:
Harmonioso e sancto
Sino do presbyterio:
Cruzeiro venerando
Do humilde cemiterio,
Onde os avós dormiram,
E dormirão os paes;
Onde eu talvez não durma,
Nem rese, talvez, mais:
Eu vos saúdo!--E o longo
Suspiro amargurado
Vos mando.--É quanto póde
Mandar pobre soldado.
Sobre as cavadas ondas
Dos mares procellosos,
Por vós já fiz soar
Meus cantos dolorosos.
Na proa resonante
Eu me assentava mudo,
E aspirava ancioso
O vento frio e agudo;
Porque em meu sangue ardia
A febre da saudade,
Febre que só minora
Sopro de tempestade;
Mas que se irrita, e cresce,
Quando é tranquillo o mar;
Quando da Patria o céu
Céu puro vem lembrar,
Quando, lá no occidente,
A nuvem vaporosa
A frouxa luz da tarde
Tinge de côr de rosa;
Quando, qual globo em brasa,
O sol vermelho crece,
E paira sobre as aguas,
E em fim desapparece;
Quando no mar se estende
Manto de negro dó;
Quando ao quebrar do vento,
Noite e silencio é só;
Quando sussurram meigas
Ondas que a nau separa,
E a rapida ardentia
Em torno a sombra aclara.
II.
Eu já ouvi, de noite,
No pinheiral fechado,
Um fremito soturno
Passando o vento irado:
Assim o murmurio
Do mar, fervendo á prôa,
Com o gemer do afflicto,
Sumido, accorde soa:
E o scintillar das aguas
Gera amargura e dôr,
Qual lampada, que pende
No templo do Senhor,
Lá pela madrugada,
Se o oleo lhe escacêa,
E a espaços expirando,
Affrouxa e bruxulêa.
III.
Bem abundante messe
De pranto, e de saudade,
O foragido errante
Colhe na soledade!
Para o que a patria perde
É o universo mudo;
Nada lhe ri na vida;
Móra o fastio em tudo;
No meio das procellas;
Na calma do oceano;
No sopro do galerno,
Que enfuna o largo panno;
E no entestar co'a terra
Por abrigado esteiro;
E no pousar á sombra
Do tecto do estrangeiro.
E essas memorias tristes
Minha alma laceraram;
E a senda da existencia
Bem agra me tornaram:
Porém nem sempre ferreo
Foi meu destino escuro;
Sulcou de luz um raio
As trévas do futuro:
Do meu paiz querido
A praia ainda beijei;
E o velho castanheiro
No valle ainda abracei!
Nesta alma regelada
Surgiu ainda o goso;
E um sonho lhe sorriu
Fugaz, mas amoroso.
Oh, foi sonho da infancia
Desse momento o sonho!
Paz e esperança vinham
Ao coração tristonho.
Mas o sonhar que monta
Se passa, e não conforta?
Minh'alma deu em terra,
Como se fosse morta,
Foi a esperança nuvem,
Que o vento some á tarde.
Facho de guerra acceso
Em labaredas arde!
Do fratricidio a luva
Irmão a irmão lançára;
E o grito: ai do vencido!
Nos montes retumbára.
As armas se hão cruzado:
O pó mordeu o forte:
Caiu: dorme tranquillo:
Deu-lhe repouso a morte.
Ao menos, nestes campos
Sepulchro conquistou;
E o adro do estrangeiro
Seus ossos não tragou.
Elle herdará, ao menos,
Aos seus honrado nome:
Paga de curta vida
Ser-lhe-ha largo renome.
IV.