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A Harpa do Crente / Tentativas poeticas pelo auctor da Voz do Propheta

Chapter 46: V.
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About This Book

A series of devotional poems maps moments of Holy Week and solitary worship, pairing vivid church and natural imagery with meditations on mortality, divine power, and human conscience. The voice moves through evening services, monastic psalms, and interior visions that confront hypocrisy, remorse, and hope, invoking angels and the grandeur of God while contrasting genuine piety with worldly vanity. Formal religious language, dramatic scene painting, and moral reflection blend to explore faith's consolation, the terror of judgment, and the persistence of spiritual aspiration.

A HARPA DO CRENTE.

TENTATIVAS POETICAS

PELO

AUCTOR

DA

VOZ DO PROPHETA.



SEGUNDA SERIE.



LISBOA--1838
NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.
Rua direita do Arsenal--n.o 55.

A Arrabida.



A RODRIGO DA FONSECA MAGALHÃES,

ORNAMENTO DA TRIBUNA PORTUGUEZA,



Em testemunho da sincera amizade,




Offerece o Auctor.

A Arrabida.

[1830.]

I.

Salve, oh valle do sul, saudoso e bello! Salve, oh terra de paz, deserto sancto, Onde não chega o sussurrar das turbas! Sólo sagrado a Deus, podesse o bardo Ser um dos teus, e não voltar ao mundo!

II.

Suspira o vento no alamo frondoso; As aves soltam matutino canto; Late o lebreu na encosta, e o mar sussurra Nos rochedos da concava bahia: Eis o ruido de ermo!--Ao longe o negro, Insondado oceano, e o ceu ceruleo Se abraçam no horizonte: immensa imagem Da eternidade e do infinito, salve!

III.

Oh, como surge magestosa e bella, Com viço da creação, a naturesa, No solitario valle!--E o leve insecto, E a relva, e os matos, e a fragrancia pura Das boninas da encosta estão contando Mil saudades de Deus, que os ha lançado, Com mão profusa, no regaço ameno Da solidão, onde se esconda o justo. E lá campeam no alto das montanhas Os escalvados pincaros, severos, Quaes guardadores de um logar que é sancto: Atalaias que ao longe o mundo observam, Cerrando até o mar o ultimo abrigo Da crença viva, da oração piedosa, Que se ergue a Deus de labios innocentes. Sobre esta scena o sol verte em torrentes Da manhan o clarão; a brisa esvae-se Por esses matos de alecrim florído, Embalsamando o ar de brando aroma: O rocío da noite á rosa agreste No seio derramou frescor suave, E 'inda existencia lhe dará um dia! Formoso ermo do sul, outra vez, salve!

IV.

Negro, esteril rochedo, que contrastas, Na mudez tua, o placido sussurro Das arvores do valle, que verdecem, Ricas d'encantos, co'a estação propicia; Suavissimo aroma, que manando Das variegadas flores, derramadas Na sinuosa encosta da montanha, Do altar da solidão subindo aos ares, És digno incenso ao Creador erguido; Livres aves, vós filhas da espessura, Que só teceis da natureza os hymnos; O que crê, o cantor, que foi lançado, Estranho ao mundo, no bulicio delle, Vem saudar-vos, sentir um goso puro, Dos homens esquecer paixões e opprobrio, E vêr, sem ver-lhe a luz prestar a crimes, O sol, e uma só vez pura saudar-lha. Comvosco eu sou maior: mais longe a mente Pelos seios dos céus se immerge livre, E se desprende de mortaes memorias Na solidão solemne, onde, incessante, Em cada pedra, em cada flor se escuta Do Sempiterno a voz, e vê-se impressa A dextra sua em multiforme quadro.

V.

Escalvado penedo, que repousas Lá no cimo do monte, ameaçando Ruina ás matas de alecrim e murta, Que nesta encosta ondeam, meneadas Pelo vento do sul, foste já lindo, Já te cubriram cespedes virentes; Mas o tempo voou, e nelle involta A tua formosura: as grossas chuvas, Despedidas das nuvens, se arrojaram Sobre ti, oh rochedo, arrebatando A terra e o viço, que te ornava o cimo. Eis-te nú esqueleto!--o sol queimou-te: Tua alvura passou: tão negro és hoje, Quanto de mar erguido escuras vagas. Cáveira da montanha, ossada immensa, É tua campa o ceu: sepulchro o valle Um dia te será. Quando sentires Rugir com som medonho a terra ao longe, Na expansão dos volcões, e o mar bramindo, Lançar á praia vagalhões cruzados; Tremer-te a larga base, e sacudir-te Do vasto dorso, o fundo deste valle Te váe servir de tumulo: e os carvalhos Do mundo primogenitos, e os freixos, Arrastados por ti lá da collina, Comtigo hão-de jazer.--De novo a terra Te cubrirá o dorso sinuoso: Outra vez sobre ti nascendo os lyrios, Do seu puro candor hão-de adornar-te: E tu, ora medonho, e nú, e triste, Ainda bello serás, vestido e alegre. Mais que o homem feliz!--Quando eu no valle Dos tumulos cair; quando uma pedra Os ossos me esmagar, se me fôr dada, Não mais reviverei: não mais meus olhos Verão o pôr do sol, em dia estivo, Se em turbilhões de purpura, que ondeam Pelo extremo dos céus sobre o occidente, Váe provar que um Deus ha a estranhos povos, E alem das ondas tremulo sumir-se; Nem, quando, lá do cimo das montanhas, Com torrentes de luz inunda as veigas: Nem mais verei o refulgir da lua No irrequieto mar, na paz da noite, Por horas em que véla o criminoso, A quem íntima voz rouba o socego, E em que o justo descança, ou, solitario, Ergue ao Senhor um hiymno harmonioso.

VI.

Hontem, sentado n'um penhasco, e perto Das aguas, então quêdas, do oceano, Eu tambem o louvei, sem ser um justo: E meditei--e a mente extasiada Deixei correr pela amplidão das ondas. Como abraço materno, era suave A aragem fresca do caír das trévas, Em quanto, involta em gloria, a clara lua Sumia em seu fulgor milhões d'estrellas. Tudo calado estava: o mar somente As harmonias da creação soltava, Em seu rugido; e o freixo do deserto Se agitava, gemendo e murmurando, Ante o sopro de oeste:--alli dos olhos O pranto me correu, sem que o sentisse, E aos pés de Deus se derramou minha alma.

VII.

Oh, que viesse o que não crê, comigo, Á vecejante Arrabida, de noite, E se assentasse aqui sobre estas fragas, Escutando o sussurro incerto e triste Das movediças ramas, que povoa De saudade e de amor nocturna brisa; Que visse a lua, o espaço oppresso de astros, E ouvisse o mar soando:--elle chorára, Qual eu chorei, as lagrymas do goso, E adorando o Senhor detestaria De uma sciencia van seu vão orgulho.

VIII.

É aqui neste valle, ao qual não chega Humana voz e o tumultuar das turbas, Onde o nada da vida sonda livre O coração, que busca ir abrigar-se No futuro, e debaixo do amplo manto Da piedade de Deus: aqui serena Vem a imagem da campa, como a imagem Da patria ao desterrado: aqui, solemne, Brada a montanha, memorando a morte. Essas penhas, que, lá no alto da encosta, Negras, despidas, dormem solitarias, Parecem imitar da sepultura O aspecto melancholico, e o repouso Tão desejado do que em Deus confia. Bem semelhante á paz, que se ha sentado Por seculos, alli, nas serranias, É o silencio do adro, onde reunem Os cyprestes e a cruz o céu e a terra. Como tu vens cercado de esperança, Para o innocente, oh placido sepulchro! Juncto das tuas bordas pavorosas O perverso recúa horrorisado: Após si volve os olhos; na existencia Deserto árido só descobre ao longe, Onde a virtude não deixou um trilho. Mas o justo chegando á meta extrema, Que separa de nós a eternidade, Transpoem-a sem temor, e em Deus exulta. O infeliz e o feliz lá dormem ambos, Tranquillamente: e o trovador mesquinho, Que peregrino vagueou na terra, Sem encontrar um coração de fogo, Que o entendesse, a patria de seus sonhos, Ignota, por lá busca; e quando as eras Vierem juncto ás cinzas collocar-lhe Tardios louros, que escondêra a inveja, Elle não erguerá a mão mirrada, Para os cingir na regelada fronte. Justiça, gloria, amor, saudade, tudo, Ao pé da sepultura, é som perdido De harpa eolia esquecida em brenha ou selva: O despertar um pae, que saborea, Entre os braços, da morte o extremo somno, Já não é dado ao filial suspiro: Em vão o amante, alli, da amada sua De rosas sobre a c'roa debruçado, Rega de amargo pranto as murchas flores E a fria pedra: a pedra é sempre fria, E para sempre as flores se murcharam,

IX.

Bello ermo! eu hei-de amar-te, em quanto est'alma, Aspirando o futuro além da vida, E um halito dos ceus, gemer, atada Á columna do exilio, a que se chama, Em lingua vil e mentirosa, o mundo. Eu hei-de amar-te, oh valle, como um filho Dos sonhos meus. A imagem do deserto Guarda-la-hei no coração, bem juncto Com minha fé, meu unico thesouro. Qual pomposo jardim de verme illustre, Chamado rei ou nobre, ha-de comtigo Comparar-se, oh deserto?--Aqui não cresce Em vaso de alabastro a flor captiva, Ou arvore educada, por mão do homem, Que lhe diga: és escrava: e erga um ferro, E lhe decepe os troncos. Como é livre A vaga do oceano, é livre no ermo A bonina rasteira, e o freixo altivo: Não lhes diz: nasce aqui, ou lá não cresças: Humana voz. Se baqueou o freixo, Deus o mandou; se a flor pendida murcha, É que o rocio não desceu de noite, E da vida o Senhor lhe nega a vida. Ceu livre, terra livre, e livre a mente, Paz íntima, e saudade, mas saudade Que não doe, que não mirra, e que consola São as riquezas do ermo, onde sorriem Das procellas do mundo os que o deixaram. Ahi, na branda encosta, hontem de noite, Alvejava por entre as azinheiras Do solitario a habitação tranquilla: E eu vagueei por lá: patente estava O pobre alvergue do eremita humilde, Onde jazia o filho da esperança, Sob as azas de Deus, á luz dos astros, Em leito, duro sim, não de remorsos, Oh, com quanto socego o bom do velho Dormia!--A leve aragem lhe ondeava As raras cãas na fronte, onde se lia A bella historia de passados annos. De alto choupo atravez passava um raio Da lua--astro de paz, astro que chama Os olhos para o ceu, e a Deus a mente-- E em luz pallida as faces lhe banhava: E talvez neste raio o Pae celeste Da patria eterna lhe enviava a imagem, Que o sorriso dos labios lhe fugia, Como se um sonho de ventura e gloria Na terra de antemão o consolasse. E eu comparei o solitario obscuro Ao inquieto filho das cidades; Comparei o deserto silencioso Ao perpétuo ruido que sussurra Pelos palacios do abastado e nobre, Pelos paços dos reis; e condoí-me Do cortesão suberbo, que só cura De honras, haveres, gloria, que se compram Com maldicções e perennal remorso. Gloria!--A sua qual é?--Pelas campinas, Cubertas de cadaveres, regadas De negro sangue, elle segou seus louros; Louros que vão cingir-lhe a fronte altiva, Ao som do choro da viuva, e do orpham; Ou, dos sustos senhor, em seu delirio, Os homens--seus irmãos--flagella e opprime. Lá o filho do pó se julga um nume, Porque a terra o adorou: o desgraçado Pensa, talvez, que o verme dos sepulchros Nunca se ha-de chegar, para traga-lo, Ao banquete da morte, imaginando Que uma lagem de marmore, que esconde O cadaver do grande, é mais duravel Do que esse chão sem inscripção, sem nome, Por onde o oppresso, o misero, procura O repouso, e se atira aos pés do throno Do Omnipotente, a demandar justiça Contra os fortes do mundo--os seus tyrannos.

X.

Oh cidade, cidade, que trasbordas De vicios, de paixões, e de amarguras! Tu lá estás, na tua pompa involta, Suberba prostituta, alardeando Os theatros, e os paços, e o ruido Das carroças dos nobres, recamadas De ouro e prata, e os praseres de uma vida Tempestuosa, e o tropear contínuo Dos férvidos ginetes, que alevantam O pó e o lodo cortesão das praças; E as gerações corruptas de teus filhos Lá se revolvem, qual montão de vermes Sobre um cadaver putrido!--Cidade, Branqueado sepulchro, que misturas A opulencia, a miseria, a dôr e o goso, Honra, infamia, pudor, e impudicicia, Ceu e inferno, que és tu?--Escarneo ou gloria Da humanidade?--O que o souber que o diga! Bem negra avulta aqui, na paz do valle, A imagem desse povo, que reflue Das moradas á rua, á praça, ao templo, Que a noite sorve, e que vomita o dia, Que ri, e chora, e folga, e geme, e morre, Que adora Deus, e que o pragueja, e o teme; Absurdo mixto de baixesa extrema E de extrema ousadia; vulto enorme, Ora aos pés de um vil despota estendido, Ora surgindo, e arremessando ao nada As memorias dos seculos que foram; E depois sobre o nada adormecendo. Vê-lo, rico de opprobrio, ir assentar-se Em joelhos, nos atrios dos tyrannos, Onde, entre o lampejar de armas de servos, O servo popular adora um tigre? Esse tigre é o idolo do povo! Saudae-o; que elle o manda: abençoae-lhe O ferreo sceptro: ide folgar em roda De cadafalsos, povoados sempre De victimas illustres, cujo arranco Seja como harmonia, que adormente, Em seus terrores, o senhor das turbas. Passae depois. Se a mão da Providencia Esmigalhou a fronte á tyrannia; Se o déspota caíu, e está deitado No lodaçal da sua infamia, a turba Lá vai buscar o sceptro dos terrores, E diz--é meu--; e assenta-se na praça; E involta em roto manto, e julga e reina. Se um ímpio, então, na affogueada boca De volcão popular sacode um facho, Eis o incendio que muge, e a lava sobe, E referve, e trasborda, e se derrama Pelas ruas além: clamor retumba De anarchia impudente, e o brilho de armas Pelo escuro transluz, como um presagio De assolação; e se amontoam vagas Desse mar d'abjecção, chamado o vulgo; Desse vulgo, que ao som de infernaes hymnos, Cava fundo da Patria a sepultura, Onde, abraçando a gloria do passado E do futuro a ultima esperança, As esmaga comsigo, e ri morrendo. Tal és cidade, licenciosa ou serva! Outros louvem teus paços sumptuosos, Teu ouro, teu poder:--sentina impura Da corrupção, eu não serei teu bardo!

XI.

Cantor da solidão, eu me hei sentado Juncto do verde cespede do valle; E a paz de Deus do mundo me consola. Avulta aqui, e alveja, entre o arvoredo, Um pobre conventinho. Homem piedoso O alevantou ha seculos, passando, Como orvalho do ceu, por este sitio, De virtudes depois tão rico e fertil. Como um pae de seus filhos rodeado, Pelos matos do outeiro o vão cercando Os tugurios de humildes eremitas, Onde o cilicio e a compuncção apagam Da lembrança de Deus passados erros Do peccador, que reclinou a fronte Penitente no pó. O sacerdote Dos remorsos lhe ouviu as amarguras; E perdoou-lhe, e consolou-o em nome Do que espirando perdoava, o Justo Que entre os humanos não achou piedade. Religião! do misero conforto, Abrigo extremo de alma, que ha mirrado O longo agonisar de uma saudade, Da deshonra, do exilio, ou da injustiça, Tu consolas aquelle, que ouve o verbo, Que renovou o corrompido mundo, E que mil povos pouco a pouco ouviram. Nobre, plebeu, dominador, ou servo, O rico, o pobre, o valoroso, o fraco, Da desgraça no dia ajoelharam No limiar do solitario templo. Ao pé desse portal, que veste o musgo, Encontrou-os chorando o sacerdote, Que da serra descia á meia-noite, Pelo sino das preces convocado: Ahi os viu ao despontar do dia, Sob os raios do sol, ainda chorando. Passados mezes, o burel grosseiro, O leito de cortiça, e a fervorosa E contínua oração foram cerrando Nos corações dos miseros as chagas, Que o mundo sabe abrir, mas que não cura. Aqui, depois, qual halito suave Da primavera, lhes correu a vida, Até sumir-se no adro do convento, Debaixo de uma lagem tosca e humilde, Sem nome, nem palavra, que recorde O que a terra abrigou no somno extremo. Eremiterio antigo, oh se podesses Dos annos que lá vão contar a historia; Se ora, á voz do cantor, possivel fosse Transsudar desse chão, gelado e mudo, O mudo pranto, em noites dolorosas, Por naufragos do mundo derramado Sobre elle, e aos pés da cruz!... se vós podesseis, Broncas pedras, fallar, o que dirieis! Quantos nomes mimosos da ventura, Convertidos em fabula das gentes, Despertariam o eccho das montanhas, Se aos negros troncos do sobreiro antigo Mandasse o Eterno sussurrar a historia Dos que vieram desnudar-lhe o cepo, Para um leito formar, onde velassem Da magoa, ou do remorso as longas noites! Aqui veio talvez buscar asylo Um poderoso, outr'ora anjo da terra, Despenhado nas trévas do infortunio: Aqui, talvez, gemeu o amor trahido, Ou pela morte convertido em cancro De infernal desespero: aqui soaram Do arrependido os ultimos gemidos, Depois da vida derramada em gosos, Depois do goso convertido em tedio. Mas quem foram?--Na terra, onde deixaram Suas vestes mortaes, nenhum vestigio Resta dos nomes seus.--E isso que importa, Se Deus os viu; se as lagrymas dos tristes Elle contou, para as pagar com gloria? Ainda em curvo outeiro, ao fim da senda, Que dos montes além conduz ao valle, Sobre o marco de pedra a cruz se eleva, Como um pharol de vida, em mar de escolhos: Ao christão infeliz acolhe no ermo, E consolando-o, diz-lhe: a patria tua É lá no ceu:--abraça-te comigo: Juncto della esses homens, que passaram Acurvados na dôr, as mãos ergueram Para o Deus, que perdoa, e que é conforto Dos que aos pés deste symbolo da esp'rança Vem derramar seu coração afflicto: É do deserto a historia a cruz e a campa; E sobre tudo o mais pousa o silencio.

XII.

Feliz da terra, os monges não maldigas; Do que em Deus confiou não escarneças!-- Folgando segue a trilha, que ha juncado, Para teus pés, de flores a fortuna, E sobre a morta crença, em paz descança. Que mal te faz, que goso vae roubar-te O que ensanguenta os pés nas bravas urzes, E sobre a fria pedra encosta a fronte? Que mal te faz uma oração erguida, Nas solidões, por voz sumida e frouxa, E que, subindo aos céus, só Deus escuta? Oh, não insultes lagryimas alheias, E deixa a fé ao que não tem mais nada!... E se estes versos te contristam--rasga-os. Teus menestreis te venderão seus hymnos, Nos banquetes opiparos, em quanto O negro pão repartirá comigo, Seu trovador, o pobre anachoreta, Que não te inveja as ditas, como aos bardos Do prazer dissoluto eu não invejo Essas crôas, que ás vezes cingem frontes, Onde, por baixo, se escreveu--Infamia!--

A Voz.

A Voz.

É tão suave ess'hora, Em que nos foge o dia, E em que suscita a lua Das ondas a ardentia; Se em alcantís marinhos Nas rochas assentado, O trovador medita, Em sonhos enleiado! O mar azul se encrespa Co' a vespertina brisa, E no casal da serra A luz já se divisa. E tudo em roda cala, Na praia sinuosa, Salvo o som do remanso, Quebrando em furna algosa. Alli folga o poeta Nos desvarios seus; E nessa paz que o cerca Bemdiz a mão de Deus. Mas despregou seu grito A alcyone gemente, E nuvem pequenina Ergueu-se no occidente; E sóbe, e cresce, e immensa, Nos ceus negra fluctua, E o vento das procellas Já varre a fraga nua. Turba-se o vasto oceano, Com horrido clamor: Do vagalhão nas ribas Expira o vão furor. E do poeta a fronte Cubriu véu de tristesa: Partiu-se á luz do raio Seu hymno á naturesa. Feia alma lhe vagava Um negro pensamento, Da alcyone ao gemido, Ao sibillar do vento. Era blasphema idéa, Que triumphava em fim: Mas voz soou ignota, Que lhe dizia assim: "Cantor, esse queixume Da nuncia das procellas, E as nuvens, que te roubam Myriadas de estrellas; E o fremito dos euros, E o estourar da vaga, Na praia, que revolve, Na rocha, onde se esmaga; Onde espalhava a brisa Sussurro harmonioso, Em quanto do ether puro Descia o sol radioso, Typo da vida do homem, É do universo a vida; Depois do afan repouso, Depois da paz a lida. Se ergueste a Deus um hymno Em dia de amargura; Se te amostraste grato Nos dias de ventura, Seu nome não maldigas, Quando se turba o mar: No Deus, que é pae, confia, Do raio ao scintilar. Elle o mandou:--a causa Disso o universo ignora-- E mudo está:--seu nume, Como o universo, adora!"


Oh sim: torva blasphemia Não manchará seu canto! Brama procella embora; Pese sobre elle o espanto; Que de su' harpa os hymnos Derramará o bardo, Aos pés de Deus, qual oleo De recendente nardo.

Leça da Palmeira 1835

A Victoria e a Piedade.

A Victoria e a Piedade.

Eu nunca fiz soar meu canto humilde Nos paços dos senhores: Eu jámais consagrei hymno mentido Da terra aos oppressores. Mal haja o trovador que vae sentar-se Á porta do abastado, O qual com ouro paga a alhêa infamia, O cantico aviltado. O filho das canções, da gloria o bardo Não manchou o alaude; O ingenho seu ha consagrado á Patria; Seu canto é da virtude. Ingenho!--dom dos ceus, consolo ao triste Nos dias de afflicção, Qual solto vento em areal deserto, Livres teus cantos são. No despontar da vida, do infortunio Murchou-me o sopro ardente: Pela terra natal, na flor dos dias, Eu suspirei ausente. O solo do desterro, ah, quanto ingrato É para o foragido; Ennevoado o ceu; arido o prado; O rio adormecido! Eu lá chorei, na idade da esperança, Da patria a dura sorte: Esta alma encaneceu;--e antes de tempo Ergueu hymnos á morte. E que infeliz ha hi, a quem não ria Da sepultura a imagem? Alli é que se afferra o porto amigo, Depois de ardua viagem. Mas, quando o pranto me queimava as faces, O pranto da saudade, Deus escutou dos profugos as preces, Teve de nós piedade. Armas!--bradaram do desterro os filhos: Bem-disse-os o Senhor: E vencer ou morrer juncto com elles Jurou o trovador. Pelas vagas do mar correndo affoutos, Á gloria nos votámos; E, nos campos nataes, pendão invicto Os livres, nós, plantámos. Fanatismo, ignorancia, odio fraterno; De fogo céus toldados; A fome, a peste, o mar avaro, as hostes De innumeros soldados; Um futuro sem raio de esperança; Ouvir o vão lamento De infante, a vida incerta conduzido Por mão do soffrimento; Comprar com sangue o pão, com sangue o fogo Em regelado inverno; Eis contra o que, por mezes de amargura, Nos fez luctar o inferno. Mas constancia e valor tudo ha vencido: Ganhou-se eterna gloria; E dos tyrannos apesar, colhemos Os louros da victoria. Teça-se, pois, o cantico subido Aos fortes vencedores. Livres somos!--Sumiram-se qual fumo Da Patria os oppressores. Sobre essa encosta, sobranceira aos campos, De sangue ainda impuros, Onde o canhão troou, por mais de um anno, Contra invenciveis muros, Eu, tomando o alaúde, irei sentar-me; Pedir inspirações A amiga noite, o genio que me ensina Suavissimas canções. Reina em silencio a lua, o mar não brame, Os ventos nem bafejam..... Mas que ossadas são estas, que na encosta, Aqui e alli, alvejam? Esses?--São ossos vís, que não resguarda O sussurrar da gloria; Herdeiros só das maldicções das gentes, Das maldicções da historia: São os restos dos homens, que luctaram, Valentes no seu crime, Contra nós, contra a mão da Providencia, Que os maus derruba e opprime. Mas quem porá padrão que aos evos conte, Seus feitos derradeiros! Quem dirá--aqui dormem portuguezes; Aqui dormem guerreiros--? Quem virá na alta noite erguer por elles Resas de salvação? Quem ousará pedir para o vencido Um ai de compaixão? Virão, acaso, alevantar seus filhos O pranto solitario, Pelo que lhes legou de avós o nome Involto em vil sudario? Será a esposa, que lhes cubra as cinzas Com oração piedosa? Não!--nenhuma ousará dizer, chorando, Eu fui do escravo esposa. Será a amante?--Em tremedaes a pura Rosa nascer não sabe: A mais bella paixão não é de servos; Vil goso só lhes cabe. De mãe o amor tentára, unicamente, Sobre os corpos gelados, Vir chorar a esperança, em flor colhida, De seus annos cansados: Mas o espanto lh'o veda, e o rouco grito Do rude velador; Da noite os medos; de armas, já sem donos, Nas trévas o esplendor. Quem, pois, consolará gementes sombras, Que ondeam juncto a mim? Quem seu perdão da Patria implorar ousa, Seu perdão de Elohim? Eu:--o christão:--o trovador do exilio, Contrario em guerra crua, Mas que não sei cuspir o fel da affronta Sobre uma ossada nua. O misero pastor desceu dos montes, Abandonando o gado, Para as armas vestir, dos céus em nome, Por phariseus chamado. De um Deus de paz hypocritas ministros Os tristes enganaram: Foram elles, não nós, que estas caveiras Aos vermes consagraram. Maldicto sejas tu, monstro do inferno, Que do Senhor no templo, A virtude insultando, ao crime incitas, Dás do furor o exemplo! Sobre os restos da Patria, tu bem creste Folgar de nosso mal, E, sobre as cinzas de cidade illustre, Soltar riso infernal. Tu, no teu coração insipiente, Disseste--Deus não ha!-- Elle existe, malvado!--e nós vencemos: Treme.... que tempo é já. Mas esses, cujos ossos espalhados No campo da peleja Jazem, exoram a piedade nossa; Piedoso o livre seja! Eu pedirei a paz dos inimigos, Mortos como valentes, Ao Deus nosso juiz, ao que distingue Culpados de innocentes. Perdoou, expirando, o Filho do Homem Aos seus perseguidores: Perdão, tambem, ás cinzas de infelizes! Perdão--oh vencedores! Não insulteis o morto. Elle ha comprado Bem caro o esquecimento, Vencido adormecendo em morte ignobil, Sem dobre ou monumento. Que resta aos desditosos?--Somno eterno, Da Patria a maldicção, A justiça de Deus, tremenda, ignota, E a humana execração. Mas nós, saibamos esquecer os odios De guerra lamentavel; É generoso o forte, e deixa ao fraco O ser inexoravel. Oh, perdão para aquelle, a quem a morte No seio agasalhou! Elle é mudo:--pedi-lo já não póde; O da-lo a nós deixou. Da lei a espada puna o criminoso, Que vê a luz dos céus: O que legou á terra o pó da terra, Julga-lo cabe a Deus. E vós, meus companheiros, que não vistes Nossa inteira victoria, Não precisaes do trovador o canto; Vosso nome é da historia. Eu do vencido consolei a sombra; Eu perdoei por vós. Filhos da infamia os desgraçados eram; Ricos de gloria nós.

Porto--Agosto de 1833

NOTA.

Este fragmento, que segue, e que servirá para intelligencia dos precedentes versos, pertence a um livro já todo escripto no entendimento, mas de que só alguns capitulos estão trasladados ao papel. A guerra da restauração de 1832 a 1833 é o acontecimento mais espantoso e mais poetico deste Seculo. Entre os soldados de D. Pedro havia poetas: militava comnosco o Auctor de D. Branca, do Camões, de João Minimo; o Sr. Lopes de Lima, e outros: mas a politica engodou todos os ingenhos, e levou-os comsigo. Os homens de bronze, os sete mil de Mindello não tiveram um cantor; e apenas eu, o mais obscuro de todos, salvei em minha humilde prosa, uma diminuta porção de tanta riquesa poetica. Oxalá que esse mesmo trabalho, ainda que de pouca valia, não fique esmagado e sumido debaixo do Leviathan da politica. Todos nós temos vendido a nossa alma ao espirito immundo do Jornalismo. E o mais é que poucos conhecem uma cousa: que polilica de poetas vale, por via de regra, tanto como poesia de politicos.

Fragmento.

O combate da antevespera estava ainda vivo na minha imaginação: eu cria vêr ainda os cadaveres dos meus amigos e camaradas, espalhados ao redor do fatal reducto, em que estava assentado: ainda me soavam nos ouvidos o seu clamor de enthusiasmo ao accommette-lo, o sibillar das ballas, o grito dos feridos, o som das armas caindo-lhes das mãos, o gemido doloroso e longo da sua agonia, o estertor de moribundos, e o arranco final do morrer. Os dentes me rangeram de cólera, e a lagryma envergonhada de soldado me escorregou pelas faces. O Porto estava descercado; mas quantos valentes cairam nesse dia! Eu ia amaldiçoar os cadaveres dos vencidos, que ainda por ahi jaziam; porém pareceu-me que elles se alevantavam e me diziam:--Lembra-te de que tambem fomos soldados: lembra-te de que fomos vencidos!--E eu bem sabia que inferno lhes devia ter sido, no momento de expirarem, as idéas de soldado e de vencimento, conglobadas n'uma só, como tremenda e indelevel ignominia, estampada na fronte do que ia transpor os umbraes do outro mundo. Então oreí a Deus por elles: antes de irmão de armas eu tinha sido christão; e Jesu-Christo perdoára, entre as affrontas da Cruz, aos seus assassinos. A idéa de perdão parecia me consolava da perda de tantos e tão valentes amigos. Havia nessa idéa torrentes de poesia; e eu te devi então, oh crença do Evangelho, talvez a melhor das minhas pobres canções.

(Da Minha Mocidade--Poesia e Meditação Cap....)

A HARPA DO CRENTE.

TENTATIVAS POETICAS

PELO

AUCTOR

DA

VOZ DO PROPHETA.



TERCEIRA SERIE.



LISBOA--1838
NA TYP. DA SOCIEDADE PROPAGADORA DOS CONHECIMENTOS UTEIS.
Rua direita do Arsenal--n.o 55.

Deus.

Deus.

Nas horas do silencio--á meia-noite-- Eu louvarei o Eterno! Ouçam-me a terra, e os mares rugidores, E os abysmos do inferno. Pela amplidão dos céus meus cantos soem, E a lua prateada Pare no gyro seu, em quanto pulso Esta harpa, a Deus sagrada. Antes de tempo haver, quando o infinito Media a eternidade, E só do vacuo as solidões enchia De Deus a immensidade, Elle existiu--em sua essencia involto; E, fóra delle, o nada: No seio do Creador a vida do homem Estava ainda guardada: Ainda então do mundo os fundamentos Na mente se escondiam Do Omnipotente, e os astros fulgurantes Nos céus não se volviam. Eis o Tempo, o Universo, o Movimento Das mãos sáe do Senhor: Surge o sol, banha a terra, e desabrocha Uma primeira flor: Sobre o invisivel eixo range o globo: O vento o bosque ondêa: Retumba ao longe o mar: da vida a força A naturesa ancêa! Quem, dignamente, oh Deus, ha-de louvar-te, Ou cantar teu poder? Quem dirá de Teu braço as maravilhas, Fonte de todo o ser, No dia da creação; quando os thesouros Da neve amontoaste; Quando da terra nos mais fundos valles As aguas encerraste?! E eu onde estava, quando o Eterno os mundos, Com dextra poderosa, Fez, por lei immutavel, se librassem Na mole ponderosa? Onde existia então? No typo immenso Das gerações futuras; Na mente do meu Deus. Louvor a Elle Na terra e nas alturas! Oh, quanto é grande o Rei das tempestades, Do raio, e do trovão! Quão grande o Deus, que manda, em secco estio, Da tarde a viração! Por sua Providencia nunca, embalde, Zumbiu minimo insecto; Nem volveu o elephante, em campo esteril, Os olhos, inquieto. Não deu Elle á avezinha o grão da espiga, Que ao ceifador esquece; Do norte ao urso o sol da primavera, Que o reanima e aquece? Não deu Elle á gazella amplos desertos, Ao cervo o bosque ameno, Ao flamingo os paues, ao tigre um antro, No prado ao touro o feno! Não mandou Elle ao mundo, em lucto e trévas, Consolação e luz? Acaso, em vão, algum desventurado Curvou-se aos pés da cruz? A quem não ouve Deus? Sómente ao ímpio, No dia da afflicção, Quando pesa sobre elle, por seus crimes, Do crime a punição. Homem, ente immortal, que és tu perante A face do Senhor? És a junça do brejo, harpa quebrada Nas mãos do trovador! Olha o negro pinheiro, campeando Dos Alpes entre a neve: Quem arranca-lo de seu throno ousára, Quem destruir-lhe a seve? Ninguem! Mas ai do abeto, se o seu dia Extremo Deus mandou! Lá correu o aquilão: fundas raizes Aos ares lhe assoprou. Suberbo, sem temor, saíu na margem Do caudaloso Nilo, O corpo monstruoso ao sol voltando, Medonho crocodilo. De seus dentes em roda o susto móra: Vê-se a morte assentada Dentro em sua garganta, se descerra A boca affogueada. Qual duro arnez de intrepido guerreiro É seu dorso escamoso; Como os ultimos ais de um moribundo Seu grito lamentoso: Fumo e fogo respira quando irado:-- Porém, se Deus mandou, Qual do norte impellida a nuvem passa, Assim elle passou! Teu nome ousei cantar!--Perdoa, oh Nume; Perdoa ao teu cantor! Dignos de ti não são meus frouxos cantos; Mas são cantos de amor. Embora vís hypocritas te pintem Qual barbaro tyranno; Mentem, por dominar, com ferreo sceptro, O vulgo cego e insano. Quem os crê é um ímpio!--Arrecear-te É maldizer-te, oh Deus: É o throno dos despotas da terra Ir collocar nos céus. Eu, por mim, passarei entre os abrolhos Dos males da existencia Tranquillo, e sem terror, á sombra posto Da tua Providencia.

Plymouth--Setembro de 1831.

A Tempestade.

A ANTÓNIO FELICIANO DE CASTILHO.




Alma affinada pelas harpas de anjos; Rei das canções--entenderás meu hymno!



O Auctor.

A Tempestade.

Sibilla o vento:--os torreões de nuvens Pesam nos densos ares: Ruge ao largo a procella, e encurva as ondas Pela extensão dos mares: A immensa vaga ao longe vem correndo, Em seu terror involta; E, d'entre as sombras, rapidas centelhas A tompestade sólta. Do sol, no occaso, um raio derradeiro, Que, apenas fulge, morre, Escapa á nuvem, que, appressada e espessa, Para apaga-lo corre. Tal nos affaga em sonhos a esperança, Ao despontar do dia, Mas, no acordar, lá vem a consciencia Dizer que ella mentia. As ondas negro-azues se conglobaram; Serras tornadas são, Contra as quaes outras serras, que se arqueam, Bater, partir-se vão. Oh tempestade!--eu te saudo! oh nume, Da naturesa açoite! Tu guias os bulcões, do mar princesa; E é teu vestido a noite! Quando no pinheiral, entre o granizo, Ao sussurrar das ramas, Vibrando sustos, pavorosa ruges, E assolação derramas, Quem porfiar comtigo, então, ousara Da gloria e poderio; Tu que fazes gemer pendido o cedro, Turbar-se o claro rio? Quem me dera ser tu, por balouçar-me Das nuvens nos castellos, E vêr dos ferros meus, em fim, quebrados Os rebatidos élos! Eu rodeára, então, o globo inteiro: Eu sublevára as aguas: Eu dos volcões, com raios accendêra Amortecidas fráguas: Do robusto carvalho e sobro antigo Accurvaria as frontes; Com furacões, os areaes da Lybia Converteria em montes: Pelo fulgor da lua, lá do norte No polo me assentára, E víra prolongar-se o gelo eterno, Que o tempo amontoára. Alli eu solitario, eu rei da morte, Erguêra meu clamor, E dissera: sou livre, e tenho imperio: Aqui, sou eu senhor! Quem se poderá erguer, como estas vagas, Em turbilhões incertos; E correr, e correr--troando ao longe-- Nos liquidos desertos! Mas entre membros de lodoso barro A mente presa está!.... Ergue-se em vão aos céus:--precipitada, Rapido, em baixo dá. Oh morte!--amiga morte!--é sobre as vagas, Entre escarceus erguidos, Que eu te invoco, pedindo-te feneçam Meus dias aborridos: Quebra duras prisões, que a naturesa Lançou a esta alma ardente; Que ella possa voar, por entre os orbes, Aos pés do Omnipotente: Sobre a nau, que me estreita, a prenhe nuvem Desça, e estourando a esmague; E a grossa proa, dos tufões ludibrio, Solta, sem rumo vague! Porém, não!--Dormir deixa os que me cercam O somno do existir: Deixa-os; vãos sonhadores de esperanças Nas trévas do porvir. Dôce mãe do repouso--extremo abrigo De um coração oppresso-- Que ao ligeiro prazer, á dor cançada Negas no seio accesso, Não despertes--oh não--os que abominam Teu amoroso aspeito; Febricitantes, que se abraçam, loucos, Com seu dorido leito! Tu, que ao misero ris com rir tão meigo, Calumniada morte; Tu, que entre os braços teus lhe dás azilo Contra o furor da sorte; Tu que esperas ás portas dos senhores; Do servo ao limiar; E eterna corres, peregrina, a terra, E as solidões do mar, Deixa, deixa sonhar ventura os homens; Já filhos teus nasceram: Um dia acordarão desses delirios, Que tão gratos lhes eram. E eu, que vélo na vida,--e já não sonho, Nem gloria, nem ventura; Eu, que esgotei tão cedo, até as fezes, O calis da amargura; Eu, vagabundo e pobre, e aos pés calcado De quanto ha vil no mundo, Morrer sentindo inspirações de bardo, Do coração no fundo; Sem achar sobre a terra uma harmonia De alma, que a minha entenda; Porque seguir, curvado ante a desgraça, Esta espinhosa senda? Torvo o oceano vae!--Qual dobre soa Fragor da tempestade; Psalmo de mortos, que retumba ao longe; Grito da eternidade!.... Pensamento infernal!--Fugir cobarde Ante o destino iroso? Lançar-me, involto em maldicções celestes, No abysmo tormentoso? Nunca!--Deus poz-me aqui para apurar-me Nas lagrymas da terra; Guardarei minha estancia attribulada, Com meu desejo em guerra. O fiel guardador terá seu premio, O seu repouso, em fim; E atalaiar o sol de um dia extremo Virá outro apoz mim. Herdarei o morrer!--Como é suave Benção de pae querido, Será o despertar; vêr meu cadaver, Vêr o grilhão partido. Um consolo, entretanto, resta ainda Ao pobre velador: Deus lhe deixou, nas trévas da existencia, Doce amisade e amor. Tudo o mais é Sepulchro, branqueado Por embusteira mão; Tudo o mais vãos prazeres, que só trazem Remorso ao coração. Passarei minha noite a luz tão meiga, Até o amanhecer; Até que suba á patria do repouso, Onde não ha morrer.

A bordo da Juno, na Bahia da Biscaya--Março de 1853.

O Soldado.

O Soldado.

I.

Veia tranquilla e pura Do meu paterno rio: Dos campos, que elle rega, Mansissimo armentio: Rocío matutino: Prados tao deleitosos: Valles, que assombram selvas De sinceiraes frondosos: Terra da minha infancia: Tecto de meus maiores: Meu breve jardimzinho: Minhas pendidas flores: Harmonioso e sancto Sino do presbyterio: Cruzeiro venerando Do humilde cemiterio, Onde os avós dormiram, E dormirão os paes; Onde eu talvez não durma, Nem rese, talvez, mais: Eu vos saúdo!--E o longo Suspiro amargurado Vos mando.--É quanto póde Mandar pobre soldado. Sobre as cavadas ondas Dos mares procellosos, Por vós já fiz soar Meus cantos dolorosos. Na proa resonante Eu me assentava mudo, E aspirava ancioso O vento frio e agudo; Porque em meu sangue ardia A febre da saudade, Febre que só minora Sopro de tempestade; Mas que se irrita, e cresce, Quando é tranquillo o mar; Quando da Patria o céu Céu puro vem lembrar, Quando, lá no occidente, A nuvem vaporosa A frouxa luz da tarde Tinge de côr de rosa; Quando, qual globo em brasa, O sol vermelho crece, E paira sobre as aguas, E em fim desapparece; Quando no mar se estende Manto de negro dó; Quando ao quebrar do vento, Noite e silencio é só; Quando sussurram meigas Ondas que a nau separa, E a rapida ardentia Em torno a sombra aclara.

II.

Eu já ouvi, de noite, No pinheiral fechado, Um fremito soturno Passando o vento irado: Assim o murmurio Do mar, fervendo á prôa, Com o gemer do afflicto, Sumido, accorde soa: E o scintillar das aguas Gera amargura e dôr, Qual lampada, que pende No templo do Senhor, Lá pela madrugada, Se o oleo lhe escacêa, E a espaços expirando, Affrouxa e bruxulêa.

III.

Bem abundante messe De pranto, e de saudade, O foragido errante Colhe na soledade! Para o que a patria perde É o universo mudo; Nada lhe ri na vida; Móra o fastio em tudo; No meio das procellas; Na calma do oceano; No sopro do galerno, Que enfuna o largo panno; E no entestar co'a terra Por abrigado esteiro; E no pousar á sombra Do tecto do estrangeiro. E essas memorias tristes Minha alma laceraram; E a senda da existencia Bem agra me tornaram: Porém nem sempre ferreo Foi meu destino escuro; Sulcou de luz um raio As trévas do futuro: Do meu paiz querido A praia ainda beijei; E o velho castanheiro No valle ainda abracei! Nesta alma regelada Surgiu ainda o goso; E um sonho lhe sorriu Fugaz, mas amoroso. Oh, foi sonho da infancia Desse momento o sonho! Paz e esperança vinham Ao coração tristonho. Mas o sonhar que monta Se passa, e não conforta? Minh'alma deu em terra, Como se fosse morta, Foi a esperança nuvem, Que o vento some á tarde. Facho de guerra acceso Em labaredas arde! Do fratricidio a luva Irmão a irmão lançára; E o grito: ai do vencido! Nos montes retumbára. As armas se hão cruzado: O pó mordeu o forte: Caiu: dorme tranquillo: Deu-lhe repouso a morte. Ao menos, nestes campos Sepulchro conquistou; E o adro do estrangeiro Seus ossos não tragou. Elle herdará, ao menos, Aos seus honrado nome: Paga de curta vida Ser-lhe-ha largo renome.

IV.