Quando Gonçalo á tarde, enterrado na poltrona á varanda, releu este Capitulo de sangue e furor sobre que se esfalfára durante a semana, pensou «que o lance impressionaria.»
Sentiu então o appetite de recolher sem demora os louvores merecidos—e de mostrar a Gracinha e ao Padre Sueiro os tres Capitulos completos antes de remetter o manuscripto para os Annaes. E mesmo lhe convinha—porque a erudição archeologica do Padre Sueiro forneceria talvez algum traço novo, bem Affonsino, que mais avivasse aquella resurreição da Honra de Santa-Ireneia e dos seus senhores formidaveis. Immediatamente resolveu partir de manhã para Oliveira com o seu trabalho—que, depois de esmiuçado pelo Padre Sueiro, confiaria ao procurador de D. Arminda Viegas para elle o copiar n'aquella sua formosa lettra, tão celebrada em todo o Districto, e apenas egualada (nas maiusculas) pela do Escrivão da Camara Ecclesiastica.
Sacudia já da poeira uma antiga pasta de marroquim para transportar a Obra amada—quando o Bento empurrou a porta, ajoujado com uma cesta de vime que uma toalha de rendas cobria.
—Um presente.
—Um presente... De quem?
—Da Feitosa, das senhoras.
—Bravo!
—E com uma carta, que vem pregada na toalha.
Com que curiosidade Gonçalo despedaçou o sobrescripto! Mas, apezar de lacrado com um pomposo sello d'Armas, apenas continha linhas a lapis n'um bilhete de visita da prima Maria Mendonça:—«Hontem ao jantar contei quanto o primo Gonçalo gosta de pêcegos sobretudo aboborados em vinho, e a Annica toma por isso a liberdade de lhe mandar esse cestinho de pêcegos da Feitosa, que como sabe são fallados em todo o Portugal... Mil saudades.»—Gonçalo imaginou logo no fundo da cesta, debaixo dos pêcegos, docemente escondida, uma cartinha da D. Anna!
—Bem! São pêcegos... Deixa ahi sobre uma cadeira...
—Era melhor que os levasse já para a copa, Snr. Dr., para os arrumar na prateleira...
—Deixa sobre a cadeira!
Apenas o Bento cerrára a porta, estendeu no chão a toalha, entornou cuidadosamente por cima os pêcegos formosos que perfumavam a livraria. No fundo da cesta encontrou apenas folhas de parra. Levemente desconsolado, cheirou um pêcego. Depois considerou que os pêcegos, arranjados por ella, com parra que ella apanhára na latada, sob toalha que ella escolhera no armario, formavam na sua mudez cheirosa um recadinho sentimental. Ainda agachado na esteira, comeu o pêcego:—e recollocou os outros na cesta para os levar a Gracinha.
Mas, ao outro dia, ás duas horas, já com a parelha do Torto engatada á caleche, já com as luvas calçadas para a jornada d'Oliveira, recebeu uma inesperada visita—a visita do Snr. Visconde de Rio-Manso. Descalçando as luvas o Fidalgo pensava:—«O Rio-Manso! Que me quererá esse casmurro?»—Na sala, pousado á beira do canapé de velludo verde e esfregando os joelhos, o Visconde contou que de volta de Villa Clara e deante do portão da Torre vencera o seu teimoso acanhamento para apresentar os seus respeitos ao Snr. Gonçalo Ramires. E não só para esse gostoso dever—mas tambem (como soubera que S. Ex.a se propunha Deputado pelo Circulo) para lhe offerecer na freguezia de Canta-Pedra o seu prestimo e os seus votos...
Gonçalo, risonho e pasmado, saudava, torcia embaraçadamente o bigode. E o Visconde de Rio-Manso não estranhava aquelle pasmo por que de certo o Snr. Gonçalo Ramires o conhecêra sempre como ferrenho Regenerador... Mas então! Elle pertencia á geração, agora bem rareada, que antepunha aos deveres da Politica os deveres da gratidão:—e além da sympathia que lhe merecia o Snr. Gonçalo Ramires (pelo que constava em todo o Districto do seu talento, da sua affabilidade, da sua caridade) tambem conservava para com S. Ex.a uma divida de gratidão, ainda aberta, não por indifferença, mas por timidez...
—V. Ex.a não adivinha, Snr. Gonçalo Mendes Ramires?... Não se lembra?
—Não, realmente, Snr. Visconde, não me...
Pois uma tarde o Snr. Gonçalo Mendes Ramires passava a cavallo pela quinta da Varandinha, quando a sua neta, brincando no terraço (aquelle terraço gradeado d'onde se curva uma magnolia), deixou escapar uma péla para a estrada. O Snr. Gonçalo Mendes Ramires, rindo, apeou immediatamente, apanhou a péla, e, para a restituir á menina debruçada da grade, abeirou a egoa do muro depois de montar—e com que ligeiresa e garbo!...
—V. Ex.a não se lembrava?
—Sim, sim, agora...
Pois no ladrilho do terraço, rente da grade, pousava um jarro cheio de cravos. O Snr. Gonçalo Mendes, depois de gracejar com a menina (que, louvado Deus, não era acanhada!) pediu um cravo, que ella escolheu—e que lhe deu, toda séria, como uma senhora. E elle, que observára da janella do seu quarto, pensava:—«Ora ahi está! Este Fidalgo da Torre, um tão grande Fidalgo, que amavel!»—Oh S. Ex.a não tinha que rir e corar... A gentileza fôra grande—e a elle, avô, parecêra immensa! Mas não ficára sómente na péla apanhada...
—O Snr. Gonçalo Mendes Ramires não se recorda?...
—Sim, Snr. Visconde, com effeito, agora...
Pois, logo no outro dia, o Snr. Gonçalo Mendes Ramires mandára da Torre um precioso cesto de rosas, com o seu bilhete, e n'uma linha este gracejo:—«Em agradecimento d'um cravo, rosas á Snr.a D. Rosa.»
Gonçalo quasi pulou na cadeira, divertido:
—Sim, sim, Snr. Visconde, perfeitamente!.. Agora me recordo!
Pois desde essa tarde elle sempre almejára por uma opportunidade de mostrar ao Snr. Gonçalo Mendes Ramires o seu reconhecimento, a sua sympathia. Mas que! era timido, vivia muito retirado... N'essa manhã porém, em Villa Clara, soubera pelo Gouveia que S. Ex.a se apresentava deputado pelo Circulo. Apezar de ser eleição tão segura, já pela influencia do Snr. Ramires, já pela influencia do Governo, logo pensára—«Bem, ahi está a occasião!» E, agora offerecia a S. Ex.a, na freguezia de Canta-Pedra, o seu prestimo e os seus votos.
Gonçalo murmurou, enternecido:
—Realmente, Snr. Visconde, nada me podia sensibilisar mais do que uma offerta tão espontanea, tão...
—Sou eu que me sensibiliso por V. Ex.a acceitar. E agora não fallemos mais n'esse meu pobre prestimo e n'esses meus pobres votos... Pois V. Ex.a tem aqui uma veneravel vivenda.
E como o Visconde alludia ao desejo, já n'elle antigo, de admirar de perto a famosa torre, mais velha que Portugal—ambos desceram ao pomar. O Visconde, com o guarda-sol ao hombro, pasmou em silencio para a torre; reconheceu (apezar de liberal) o prestigio que resulta d'uma tão alta linhagem como a dos Ramires; e gabou sinceramente o laranjal. Depois, sabendo que o Pereira da Riosa arrendára a quinta, invejou ao Snr. Ramires tão cuidadoso e honrado rendeiro...—Deante do portão, o char-à-bancs do Visconde esperava, atrelado de duas mulas lustrosas e nedias. Gonçalo admirou as mulas. E, abrindo a portinhola, supplicou ao Snr. Visconde que beijasse por elle a mãosinha da Snr.a D. Rosa. Commovido, o Visconde confessou uma ousadia, uma esperança—e era que S. Ex.a um dia, á sua escolha, parasse em Canta-Pedra, jantasse na quinta, para conhecer mais intimamente a menina da péla e do cravo...
—Mas com immensa honra!... E desde já me proponho a ensinar á Snr.a D. Rosa, se ella o não sabe, o jogo da péla á antiga portugueza.
O Snr. Visconde saudou, banhado de gosto e riso, com a mão sobre o coração.
Gonçalo, trepando as escadas, murmurava:—«Oh senhores, que sympathico homem! E que generoso homem, que paga rosas com votos! Ora vejam como ás vezes, por uma pequenina attenção, se ganha um amigo! Com certeza, para a semana vou a Canta-Pedra jantar!... Homem encantador!»
E foi n'um ditoso estado d'alma que accommodou na caleche a pasta de marroquim com o manuscripto, o cesto sentimental dos pêcegos da D. Anna—e accendeu um charuto, e saltou á almofada, e tomou as redeas para lançar, n'um trote alegre até Oliveira, a parelha branca do Russo.
No largo d'El-Rey, antes d'apear, perguntou logo ao Joaquim da Porta noticias dos senhores. Os senhores todos muito bem, graças a Deus... O Snr. José Barrôlo partira de manhã a cavallo para a quinta do Snr. Barão das Marges, só recolhia á noite...
—E o Snr. Padre Sueiro?
—O Snr. Padre Sueiro, creio que está para casa da Snr.a D. Arminda...
—E a Snr.a D. Graça?
—A Snr.a D. Graça desceu ha um bocadinho grande para o Mirante, de chapeu... Naturalmente ia á Egreja das Monicas.
—Bem. Leva esse cesto de pêcegos e dize ao Joaquim da Copa que o ponha na mesa, assim mesmo no cesto, com as folhas... E que me subam ao quarto agoa quente.
O relogio de parede, na sala de espera, gemia preguiçosamente as cinco horas. O palacete repousava n'um claro silencio. E depois da poeira e dos solavancos da estrada, pareceu mais doce a Gonçalo a frescura do seu quarto com as quatro janellas abertas sobre o jardim regado e sobre a cerca das Monicas. Cuidadosamente, guardou logo n'uma gaveta da commoda a pasta preciosa de marroquim. Uma creada de olhos repolhudos entrára com o jarrão d'agua quente:—e o Fidalgo, como sempre, chasqueou a moça sobre os lindos sargentos de Cavallaria, cujo quartel tentador dominava o lavadouro da quinta, e retinha as raparigas da casa ensaboando todo o dia com paixão. Depois ainda se demorou, mudando o fato empoeirado, assobiando vagamente, encostado á varanda sobre a callada rua das Tecedeiras. O sino das Monicas lançou um lindo repique... E Gonçalo, enfastiado da sua solidão, decidiu descer pelo terraço do jardim, e surprehender Gracinha nas suas devoções, na Egrejinha.
Em baixo, no corredor, crusou o Joaquim da Copa:
—Então o Snr. Barrôlo hoje não janta?
—O Snr. Barrôlo foi jantar com o Snr. Barão das Marges, na quinta... São os annos da menina. Naturalmente só recolhe á noite.
Gonçalo, no jardim, ainda tardou por entre os alegretes, compondo para o casaco um ramo de flôres ligeiras. Depois rodeou a estufa, sorrindo da porta com que o Barrôlo a enriquecera, uma porta envidraçada, arqueada em ferradura, com um monogramma de côres rutilantes: e metteu pela rua que conduzia ao repuxo, coberta de silencio e penumbra pela rama enlaçada dos seus altos loureiros. Adiante, circumdado de bancos de pedra, d'arvores de aroma e flôr, cantava dormentemente o fino repuxo n'um tanque redondo, de borda larga, onde s'espaçavam grossos vasos de louça branca com o brazão ramalhudo dos Sás. Certamente na véspera ou de manhã se lavára o tanque, por que na agoa muito transparente, sobre as lages muito claras, nadavam com redobrada vivacidade, em lampejos rosados, os peixes que Gonçalo assustou mergulhando e agitando a bengala. E d'aquella borda do tanque já elle avistava ao fundo de outra rua, debruada de dhalias abertas, o Mirante—uma construcção do seculo XVIII, simulando um Templosinho grego, côr de rosa desbotada, com um gordo Cupido sobre a cupula, e janellinhas de rocalha entre o meio relevo das columnas canelladas por onde trepavam jasmineiros.
Gonçalo arrancou, como costumava, folhas d'um ramo de lucia-lima, para esmagar e perfumar as mãos: e continuou para o Mirante, vagarosamente, por entre as dhalias apinhadas. Na allea, novamente ensaibrada, os sapatos finos de verniz que calçára pousavam sem rumor no saibro molle. E assim, n'um silencio de sombra indolente, se acercou do Mirante—e d'uma das janellinhas que, mal cerrada, conservava corrida por dentro a persiana de taboinhas verdes. Rente d'essa janella era a escada de pedra, que, do elevado e comprido terraço sobre que se estendia o jardim, communicava com a encovada rua das Tecedeiras, quasi em frente á Capella das Monicas. E Gonçalo, sem pressa, descia—quando, atravez da persiana rala, sentiu dentro do Mirante um susurro, um cochichar perturbado. Sorrindo, pensou que alguma das creadas da casa se refugiára n'esse Templosinho de Amor com um dos sargentos terriveis de Cavallaria... Mas, não! impossivel! Pois se, momentos antes, Gracinha roçára aquella janella e pisára aquella escada, no seu caminho para as Monicas! E então outra idéa o varou como uma espada—e tão dolorosa que recuou com terror da beira do Mirante d'onde ella perversamente o assaltára. Já porém uma desesperada curiosidade a agarrára, o empurrava—e collou a face á persiana com a cautella d'um espião. O Mirante recahira em silencio—Gonçalo temia que o trahissem as pancadas do seu coração... Santo Deus! De novo o murmurio recomeçára, mais apressado, mais turbado. Alguem supplicava, balbuciava:—«Não, não, que loucura!»—Alguem urgia, impaciente e ardente:—«Sim, meu amor! sim, meu amor!» E a ambos os reconheceu—tão claramente como se a persiana se erguesse e por ella entrasse toda a vasta claridade do jardim. Era Gracinha! Era o Cavalleiro!
Colhido por uma immensa vergonha, no atarantado pavor de que o surprehendessem junto do Mirante e da torpeza escondida—enfiou pela rua das dhalias, encolhido, com os sapatos leves no saibro molle, costeou o repuxo por sob a ramaria dos arbustos, remergulhou na escuridão dos loureiros, deslisou surrateiramente por traz da estufa—penetrou no socego do Palacete. Mas o murmurio do Mirante ainda o envolvia, mais desfallecido, mais rendido—«Não, não, que loucura!... Sim, sim, meu amor!...»
Abalou atravez das salas desertas como uma sombra acossada; escorregou abafadamente pela escadaria de pedra, varou o portão n'uma carreira, espreitando, com medo do Joaquim da Porta. No Largo parou, deante da grade do relogio do sol. Mas o susuro do Mirante errava por todo o Largo como um vento enroscado, raspando as lages, batendo as barbas dos Santos sobre o portal da Egreja de S. Matheus, redemoinhando nos telhados musgosos da Cordoaria...—«Não, não, que loucura! Sim, sim! meu amor!» Então Gonçalo sentiu a anciedade desesperada d'escapar para longe, para immensamente longe do Largo, do Palacete, da cidade, de toda aquella vergonha que o trespassava. Mas uma carruagem?... Pensou na alquilaria do Maciel, a mais retirada, para além das ultimas casas, na estrada do Seminario. E cosido com os muros baixos d'essas ruas pobres, correu, mandou engatar uma caleche fechada.
Emquanto esperava á porta, n'um banco, passou pela estrada uma lenta carroça com moveis, panellas de cosinha, um grande colxão onde se alastrava uma nodoa. Bruscamente Gonçalo recordou o divan que guarnecia o Mirante. Era enorme, de mogno, todo coberto de riscadinho, com mollas lassas que rangiam. E de repente o murmurio recomeçou, cresceu, rolando com fragor de trovão por sobre os casebres visinhos, por sobre a cerca do Seminario, por sobre Oliveira espantada:—«Não, não, que loucura! Sim, sim, meu amor!»
Com um salto, Gonçalo gritou para dentro, para a cavallariça escura:
—Então, que inferno! não acaba, essa carroagem?
—Já a largar, meu Fidalgo.
No relogio da Piedade sete horas batiam—quando elle se atirou para a caleche, e fechou as stores pêrras, e se enterrou no fundo, bem sumido, esmagado, com a sensação que o Mundo tremera, e as mais fortes almas se abatiam, e a sua Torre, velha como o Reino, rachava, mostrando dentro um montão ignorado de lixo e de saias sujas.
IX
Á porta da cosinha, saccudindo um sobrescripto já amarrotado, Gonçalo ralhava com a Rosa cosinheira:
—Oh Rosa! pois tanto lhe recommendei que não escrevesse á mana Graça?... Que teimosa! Então não arranjavamos a pequena, sem essas lamurias para Oliveira? Graças a Deus, a Torre é larga bastante para mais uma creancinha!
É que morrera a Crispola—a desgraçada viuva, visinha da Torre, que com um rancho miudo de dous pequenos, tres raparigas, definhava no catre desde a Paschoa. E agora Gonçalo, que mantivera o casebre em fartura, andava accommodando as pobres creanças—já por cuidado d'elle muito aceadamente vestidas de luto. A rapariga mais velha (tambem Crispola), sempre encafuada na cosinha da Torre, passava regularmente a «ajudanta da Rosa», com soldada. Um dos rapazes, de doze annos, espigado e esperto, tambem Gonçalo o empregava na Torre como andarilho, para os recados, com fardeta de botões amarellos. O outro, molle e ranhoso, mas com o geito e o amor de carpinteirar, já Gonçalo, sob o patrocinio da tia Louredo, o collocára em Lisboa, na Officina de S. José. D'uma das outras raparigas se encarregava a mãe de Manoel Duarte, amoravel senhora que habitava uma quinta formosa junto a Treixedo, e adorava Gonçalo de quem se considerava «vassalla». Mas para a mais novinha e a mais fraquinha não se arranjava amparo solido. A Rosa lembrára então—«que certamente a Snr.a D. Maria da Graça recolheria a creaturinha...» Gonçalo rosnára com seccura:—«Oh! por uma côdea mais de pão não se necessita encommodar a cidade d'Oliveira!» Rosa, porém, enlevada na obra, desejando para pequerrucha tão franzina e loira o agasalho d'uma senhora, escrevera a Gracinha, pela esmerada lettra do Bento, uma verbosa carta com o pedido, e toda a historia lamentosa da Crispola, e louvores devotos á caridade do Snr. Doutor. E era a resposta de Gracinha, demorada mas enternecida, com a recommendação «de lhe mandarem logo a pobre creança»—que impacientava o Fidalgo.
Por que, desde a tarde abominavel do Mirante, estranhamente se apoderára d'elle uma repugnancia quasi pudica em communicar com os Cunhaes! Era como se esse Mirante e a torpeza abrigada dentro das suas paredes côr de rosa empestassem o jardim, o palacete, o Largo d'El-Rei, toda a cidade d'Oliveira, e elle agora, por aceio moral, recuasse ante essa região empestada onde o seu coração e o seu orgulho suffocavam... Logo depois da sua fuga recebera do bom Barrôlo uma carta espantada:—«Que têlha foi essa? Porque não esperaste? Eu, quando voltei á noite da quinta do Marges, até fiquei com cuidado. E não imaginas como a Gracinha anda nervosa! Soubemos da partida, por acaso, por um cocheiro do Maciel. Já hoje comemos os pêcegos, mas não comprehendemos!...»—Gonçalo respondeu seccamente n'um bilhete:—«Negocios». Depois recordou que deixára na gaveta do seu quarto o manuscripto da Novella: e mandou um moço da quinta, de madrugada, com um recado quasi secreto ao Padre Sueiro, «para que entregasse a pasta ao portador, bem embrulhada, sem contar aos senhores...» Entre a Torre e os Cunhaes só desejava separação e silencio.
E nos encerrados dias que passou na Torre (sem se arriscar a Villa-Clara, no terror de que a vergonha do seu nome já andasse rosnada pelo estanco do Simões ou pelo armazem do Ramos) não cessou de vibrar n'uma colera espalhada que a todos varava... Colera contra a irmã que, calcando pudor, altivez de raça, receio dos escarneos d'Oliveira, tão facil e estouvadamente como se calcam as flôres desbotadas d'um tapete, correra ao Mirante, ao macho da bigodeira, apenas elle lhe acenára com o lenço almiscarado! Colera contra o Barrôlo, o bochechudo bacôco, que empregava os seus bacôcos dias celebrando o Cavalleiro, arrastando o Cavalleiro para o Largo d'El-Rei, escolhendo na adega os vinhos mais finos para que o Cavalleiro aquecesse o sangue, ageitando as almofadas de todos os camapés para que o Cavalleiro saboreasse estiradamente o seu charuto e a graça presente de Gracinha! Emfim colera contra si, que, pela baixa cubiça de uma cadeira em S. Bento, abatera a unica muralha segura entre a irmã e o homem da marrafa lusente—que era a sua inimizade, aquella escarpada inimizade, sempre, desde Coimbra, tão rijamente reforçada e recaiada!... Ah! todos tres horrendamente culpados!
Depois uma tarde, enfastiado da solidão, ousou um passeio por Villa-Clara. E reconheceu que na Assembleia, no estanco do Simões, na loja do Ramos, os amores de Gracinha eram certamente tão ignorados como se passassem nas profundidades da Tartaria. Immediatamente a sua alma doce, agora socegada, se abandonou á doçura de tecer desculpas subtis para todos os culpados d'aquella queda triste... Gracinha, coitada, sem filhos, com tão mollengo e ensosso marido, alheia a todos os interesses da intelligencia, indolente mesmo para uma costura ou bordado—cedêra, que mulher não cederia? á credula e primitiva paixão que lhe brotára na alma, n'ella se enraizára, lhe déra as suas unicas alegrias do mundo e (influencia ainda mais poderosa!) lhe arrancára as suas unicas lagrimas! O Barrôlo, coitado, era o Bacôco—e como o «pilriteiro» da cantiga, incapaz de mais nobres fructos, só produzia os «pilritos» da sua Bacoquice. E elle, coitado d'elle, pobre, ignorado, irresistivelmente se rendera á fatal Lei d'Accrescentamento, que o levára, como a todos leva na ancia de fama e fortuna, a furar precipitadamente pela porta casual que se abre, sem reparar na estrumeira que atravanca os humbraes... Ah realmente todos bem pouco culpados deante de Deus que nos creou tão variaveis, tão frageis, tão dependentes de forças por nós ainda menos governadas do que o Vento ou do que o Sol!
Não, irremissivelmente culpado,—só o outro, o malandro da grenha ondeada! Esse, em toda a sua conducta com Gracinha, desde estudante, mostrára sempre um egoismo atrevido, só punivel como puniam os antigos Ramires, com a morte depois dos tormentos, e a carcassa posta aos corvos. Em quanto lhe agradou, na ociosidade dos longos estios, um namoro bocolico sob os arvoredos da Torre—namorára. Quando considerou que uma mulher e filhos lhe atravancariam a vida ligeira—trahira. Logo que a antiga bem amada pertenceu a outro homem—recomeçára o cerco languido para colher, sem os encargos da paternidade, as emoções do sentimento. E apenas esse marido lhe entreabre a sua porta—não se demora, fende brutamente sobre a preza! Ah como o avô Tructesindo trataria villão de tal villania! Certamente o assava n'uma rugidora fogueira deante das barbacans—ou, nas masmoras da Alcaçova, lhe entupia as guellas falsas com bom chumbo derretido...
Pois elle, neto de Tructesindo, nem sequer podia, quando encontrasse o Cavalleiro nas ruas d'Oliveira, carregar o chapeu sobre a testa e passar! A menor diminuição n'essa intimidade tão desastradamente reatada—seria como a revelação da torpeza ainda abafada nas paredes do Mirante! Toda Oliveira cochicharia, riria.—«Olha o Fidalgo da Torre! Mette o Cavalleiro nos Cunhaes com a irmã, e logo, passadas semanas, rompe de novo com o Cavalleiro! Houve escandalo, e gordo!»—Que delicia para as Lousadas! Não, ao contrario! agora devia ostentar pelo Cavalleiro uma fraternidade tão larga e tão ruidosa—que, pela sua largueza e o seu ruido, inteiramente tapasse e abafasse o sujo enredo que por traz latejava. Fingimento torturante—e imposto pela honra do nome! O sujo enredo bem guardado entre os mais densos arvoredos do jardim, na mais cerrada penumbra do Mirante!—e por fóra, ao sol, nas praças d'Oliveira elle sempre com o braço carinhosamente enlaçado no braço do Cavalleiro!
Os dias rolavam—e no espirito de Gonçalo não se estabelecia serenidade. E sobretudo o amargurava sentir que era forçado a essa intimidade vistosa com o Cavalleiro—tanto pelo cuidado do seu nome, como pela conveniencia da sua Eleição. Toda a sua altivez por vezes se revoltava:—«Que me importa a Eleição! Que valor tem uma encardida cadeira em S. Bento?...» Mas logo a secca Realidade o emmudecia. A Eleição era a unica fenda por onde elle lograria escapar do seu buraco rural; e, se rompesse com o Cavalleiro, esse villão, vezeiro a villanias, immediatamente, com o appoio da horda intrigante de Lisboa, improvisaria outro Candidato por Villa-Clara... Desgraçadamente elle era um d'esses seres vergados que dependem. E a triste dependencia d'onde provinha? Da pobreza—d'essa escassa renda de duas quintas, abastança para um simples, mas pobreza para elle, com a sua educação, os seus gostos, os seus deveres de fidalguia, o seu espirito de sociabilidade.
E estes pensamentos lenta e capciosamente o empurraram a outro pensamento—á D. Anna Lucena, aos seus duzentos contos... Até que uma manhã encarou corajosamente uma possibilidade perturbadora:—casar com a D. Anna!—Por que não? Ella claramente lhe mostrára inclinação, quasi consentimento... Por que não casaria com a D. Anna?
Sim! o pae carniceiro, o irmão assassino... Mas tambem elle, entre tantos avós até aos Suevos ferozes, descortinaria algum avô carniceiro; e a occupação dos Ramires, atravez dos seculos heroicos, consistira realmente em assassinar. De resto o carniceiro e o assassino, ambos mortos, sombras remotas, pertenciam a uma Lenda que se apagava. D. Anna, pelo casamento, subira da Populaça para a Burguesia. Elle não a encontrava no talho do pae, nem no velhacouto do irmão—mas na quinta da Feitosa, já Rica-Dona, com procurador, com capellão, com lacaios, como uma antiga Ramires. Ah! sinceramente, toda a hesitação era pueril—desde que esses duzentos contos, de dinheiro muito limpo, de bom dinheiro rural, os trazia com o seu corpo, mulher tão formosa e séria. Com esse puro ouro, e o seu nome, e o seu talento, não necessitaria para dominar na Politica a refalsada mão do Cavalleiro... E depois que vida nobre e completa! A sua velha Torre restituida ao esplendor sobrio d'outras eras; uma lavoura de luxo no historico torrão de Treixedo; as viagens fecundas ás terras que educam!... E a mulher que fornecia estes regalos não lhes amargava o goso, como em tantos casamentos ricos, com a sua fealdade, os seus agudos ossos, ou a sua pelle relentada... Não! Depois do brilho social do dia não o esperava na alcova um mostrengo—mas Venus.
E assim, lentamente trabalhado por estas tentações, mandou uma tarde um bilhete á prima Maria, á Feitosa, pedindo—«para se encontrarem, sós, n'algum passeio dos arredores, por que desejava ter com ella uma conversasinha séria e intima...» Mas tres immensos dias se arrastaram—e não appareceu a almejada carta da Feitosa. Gonçalo concluiu que a prima Maria, tão esperta, farejando a natureza da conversasinha e sem uma certeza para o alegrar, retardava, se recusava. Atravessou então uma desolada semana, remoendo a melancolia d'uma vida que sentia ôca e toda feita d'incertezas. O orgulho, um pudor complicado, não lhe consentiam voltar a Oliveira, ao quarto d'onde implacavelmente avistaria, por sobre o arvoredo, a cupula do Mirante com o seu gordo Cupido:—e quasi o arrepiava a idéa de beijar a irmã na face que o outro babujára! Sobre a Eleição descera um silencio de abobada—e outra repugnancia, mais acerba, lhe vedava escrever ao Cavalleiro. João Gouveia gozava as suas férias na Costa, de sapatos brancos, apanhando conchinhas na praia. E Villa-Clara não se tolerava n'esse meado ardente de Septembro—com o Titó no Alemtejo onde o levára uma doença do velho Morgado de Cidadelhe, o Manoel Duarte na quinta da mãe dirigindo as vindimas, e a Assembleia deserta e adormecida sob o innumeravel susurro das moscas...
Para se occupar e atulhar as horas, mais que por dever ou gosto d'Arte, retomou a sua Novella. Mas sem fervor, sem veia agil. Agora era a sanhuda arrancada de Tructesindo e dos seus cavalleiros, correndo sobre o Bastardo de Bayão. Lance difficultoso—reclamando fragor, um rebrilhante colorido Medieval. E elle tão molle e tão apagado!... Felizmente, no seu Poemeto, o Tio Duarte recheára esse violento trecho de bem apinceladas paisagens, d'interessantes rasgos de guerra.
Logo na Ribeira do Coice, Tructesindo encontrava cortada a machado a decrepita ponte, cujos rotos barrotes e taboões carcomidos entulhavam no fundo a corrente escassa. Na sua fuga o Bastardo acautelladamente a desmantelára para deter a cavalgada vingadora. Então a pesada hoste de Santa Ireneia avançou pela esguia ourela, ladeando os renques de choupos em demanda do vau do Espigal... Mas que tardança! Quando as derradeiras mulas de carga choutaram na terra d'além-ribeira já a tarde se adoçava, e nas poças d'agua, entre as poldras, o brilho esmorecia, umas ainda d'ouro pallido, outras apenas rosadas. Immediatamente Dom Garcia Viegas, o Sabedor, aconselhou que a mesnada se dividisse:—a peonagem e a carga avançando para Montemor, esgueirada e callada, para esquivar recontros; os senhores de lança e os besteiros de cavallo arrancando em dura carreira para colher o Bastardo. Todos louvaram o ardil do Sabedor: e a cavalgada, aligeirada das filas tardas de archeiros e fundibularios, largou, soltas as rédeas, atravez de terras ermas, depois por entre barrocaes, até aos Tres-Caminhos, desolada chan onde se ergue solitariamente aquelle carvalho velhissimo que outr'ora, antes d'exorcisado por S. Froalengo, abrigava no sabbado mais negro de Janeiro, ao clarão d'archotes enxofrados, a Grande Ronda de todas as bruchas de Portugal. Junto do carvalho Tructesindo sopeou a arrancada: e, alçado nos estribos, farejava as tres sendas que se trifurcam e se encovam entre asperos, lobregos cerros de bravio e de tojo. Passára ahi o Bastardo malvado?... Ah! por certo passára e toda a sua maldade—porque no respaldo d'uma fraga, junto a tres cabras magras retouçando o matto, jazia, com os braços abertos, um pobre pastorinho morto, varado por uma frecha! Para que o triste cabreiro não soprasse novas da gente de Bayão—uma bruta setta lhe atravessára o peito escarnado de fome, mal coberto de trapos. Mas por qual das sendas se embrenhára o malvado? Na terra solta, raspada pelo vento suão que rolava d'entre-montes, não appareciam pegadas revoltas de tropel fugindo. E, em tal solidão, nem choça ou palhoça d'onde villão ou velha alapada espreitassem a levada do bando... Então, ao mando do Alferes Affonso Gomes, tres almogavres despediram pelos tres caminhos á descoberta—em quanto os Cavalleiros, sem desmontar, desafivelavam os morriões para limpar nas faces barbudas o suor que os alagava, ou abeiravam os ginetes d'um sumido fio d'agua que á orla da chan se arrastava entre ralo caniçal. Tructesindo não se arredou de sob a ramada do carvalho de S. Froalengo, immovel sobre o murzello immovel, todo cerrado no ferro da sua negra armadura, as mãos juntas sobre a sella e o elmo pesadamente inclinado como em magua e oração. E ao lado, com as colleiras errissadas de prégos, as sangrentas linguas penduradas, arquejavam, estirados, os seus dous mastins.
Já no emtanto a espera se alongava, inquieta, enfadonha—quando o almogavre que mettera pela senda de Nascente reappareceu n'um rolo de poeira, atirando logo o alarde de longe, com a ascuma alta. A hora escassa de carreira avistára num cabeço uma hoste acampada, em arraial seguro, rodeado d'estaca e valla!...
—Que pendão?
—As treze arruellas.
—Deus louvado! gritou Tructesindo, que estremeceu como acordando. É D. Pedro de Castro, o Castellão, que entrou com os Leonezes e vem pelas senhoras Infantas!
Por esse caminho pois não se atrevera o Bastardo!... Mas já pela senda de Poente recolhia outro almogavre contando que entre-cerros, n'um pinhal, topára um bando de bufarinheiros genovezes, retardados desde alva, por que um d'elles esmorecera com mal de febres. E então?...—Então, pela borda do pinheiral apenas passára em todo o dia (no jurar dos genovezes) uma companhia de truões voltando da feira de Grajelos. Só restava pois o trilho do meio, pedregoso e esbarrancado como o leito enxuto d'uma torrente. E por elle, a um brado de Tructesindo, tropeou a cavalgada. Mas já o crepusculo tristissimo descia—e sempre o caminho se estirava, agreste, soturno, infindavel, entre os cerros de urze e rocha, sem uma cabana, um muro, uma sebe, rasto de rez ou homem. Ao longe, mais ao longe, emfim, enchergaram a campina arida, coberta de solidão e penumbra, dilatada na sua mudez até a um ceu remoto, onde já se apagava uma derradeira tira de poente côr de cobre e côr de sangue. Então Tructesindo deteve a abalada, rente d'espinheiros que se torciam nas lufadas mais rijas do suão:
—Por Deus, senhores, que corremos em pressa vã e sem esperança!... Que pensaes, Garcia Viegas?
Todo o bando se apinhára: e uma fumarada subia dos ginetes arquejantes sob as coberturas de malha. O Sabedor estendeu o braço:
—Senhores! O Bastardo, antes de nós, galgou d'escapada essa campina além, e metteu a Valle-Murtinho para pernoitar na Honra de Agredel, que é bem afortalezada e parenta de Bayão...
—E nós, pois, D. Garcia?
—Nós, senhores e amigos, só nos resta tambem pernoitar. Voltemos aos Tres-Caminhos. E de lá, em boa avença, ao arraial do Snr. D. Pedro de Castro, a pedir agasalho... A par de tamanho senhor encontraremos mais fartamente que nos nossos alforges o que todos, christãos e brutos, vamos necessitando, cevada, um naco de vianda, e de vinhos tres golpes rijos...
Todos bradaram com alvoroço:—«Bem traçado! bem traçado!...»—E de novo, pelo barranco pedregoso, a cavalgada trotou pezadamente para os Tres-Caminhos—onde já dous corvos se encarniçavam sobre o corpo do pastorinho morto.
Em breve, ao cabo do caminho do Nascente, no cabeço alto, alvejaram as tendas do arraial, ao clarão das fogueiras que por todo elle fumegavam. O Adail de Santa Ireneia arrancou da bosina tres sons lentos annunciando Filho-d'Algo. Logo de dentro da estacada outras businas soaram, claras e acolhedoras. Então o Adail galopou até ao vallado, a annunciar ás atalaias postadas nas barreiras, entre luzentes fogos d'almenara, a mesnada amiga dos Ramires. Tructesindo parára no corrego escuro, que o pinheiral cerrado mais escurecia movendo e gemendo no vento. Dous cavalleiros, de sobreveste negra e capuz, logo correram pelo pendor do outeiro—bradando que o Snr. D. Pedro de Castro esperava o nobre senhor de Santa Ireneia e muito se prazia para todo seu regalo e serviço! Silenciosamente Tructesindo desmontou; e com D. Garcia Viegas, e Leonel de Çamora e Mendo de Briteiros e outros parentes de solar, todos sem lança ou broquel, descalçados os guantes, galgaram o cabeço até á estacada, cujas cancellas se escancararam, mostrando na claridade incerta dos fogareus sombrios magotes de peões—onde, por entre os bassinetes de ferro, surdiam toucas amarellas de mancebas e gorros enguisalhados de jograes. Apenas o velho assomou aos barrotes dous infanções, sacudindo a espada, bradaram:
—Honra! honra! aos Ricos-Homens de Portugal!
As trompas misturavam o clangor rispido aos rufos lassos dos tambores. E por entre a turba, que calladamente recuára em alas lentas, avançou, precedido por quatro cavalleiros que erguiam archotes accesos, o velho D. Pedro de Castro, o Castellão, o homem das longas guerras e dos vastos senhorios. Um corselete d'anta com lavores de prata cinjia o seu peito já curvado, como consumido por tamanhas fadigas de pelejar e tamanhas cubiças de reinar. Sem elmo, sem armas, appoiava a mão cabelluda de rijas veias a um bastão de marfim. E os olhos encovados faiscavam, com affavel curiosidade, na requeimada magreza da face, de nariz mais recurvo que o bico d'um falcão, repuxada a um lado por um fundo gilvaz que se sumia na barba crespa, aguda e quasi branca.
Deante do senhor de Santa Ireneia alargou vagarosamente os braços. E com um grave riso que mais lhe recurvou, sobre a barba espetada, o nariz de rapina:
—Viva Deus! Grande é a noite que vos traz, primo e amigo! Que não a esperava eu de tanta honra, nem sequer de tanto gosto!...
Ao rematar este duro Capitulo, depois de tres manhãs de trabalho, Gonçalo arrojou a penna com um suspiro de cansaço. Ah! já lhe entrava a fartura d'essa interminavel Novella, desenrolada como um novello solto—sem que elle lhe podesse encurtar os fios, tão cerradamente os emmaranhára no seu denso Poema o Tio Duarte que elle seguia gemendo! E depois nem o consolava a certeza de construir obra forte. Esses Tructesindos, esses Bastardos, esses Castros, esses Sabedores, eram realmente varões Affonsinos, de solida substancia historica?... Talvez apenas oucos titeres, mal engonçados em erradas armaduras, povoando inveridicos arraiaes e castellos, sem um gesto ou dizer que datassem das velhas edades!
E ao outro dia não reuniu em todo o seu ser coragem para retomar aquella sofrega correria dos de Santa Ireneia sobre o bando escapadiço de Bayão. De resto já remettera tres Capitulos da Novella—já calmára as ancias do Castanheiro. Mas a ociosidade mais lhe pesou n'essa semana, arrastada pelos canapés ou por entre os buxos do jardim, fumando e tristemente sentindo que a Vida lhe fugia em fumo. Para o enervar accrescia um aborrecimento de dinheiro—uma lettra de seiscentos mil réis, do derradeiro anno de Coimbra, sempre reformada, sempre avolumada, e que agora o emprestador, um certo Leite, d'Oliveira, reclamava com dureza. O seu alfaiate de Lisboa tambem o importunava com uma conta pavorosa, atulhando duas laudas. Mas sobretudo o desolava a solidão da Torre. Todos os alegres amigos dispersos pela beira-mar ou nas quintas. A Eleição encalhada como uma barca no lodo. A irmã de certo com o outro no Mirante. Até a prima Maria desattendendo ingratamente o seu timido pedido d'uma «conversasinha.» E elle no seu quente casarão, sem energia, immobilisado n'uma inercia crescente, como se cordas o travassem, cada dia mais apertadas—e d'homem se volvesse em fardo.
Uma tarde no seu quarto, vagaroso e sombrio, sem mesmo parolar com o Bento, acabava de se vestir para montar a cavallo, espairecer n'um galope pelos caminhos de Valverde—quando o pequeno da Crispola (já estabelecido na Torre como pagem, de fardeta de botões amarellos) bateu esbaforidamente á porta.—Era uma senhora que parára ao portão, dentro d'uma carruagem, pedia ao Fidalgo para descer...
—Não disse o nome?
—Não, senhor. É uma senhora magra, puxada a dous cavallos, com redes...
A prima Maria! Com que alvoroço correu, agarrando no cabide do corredor um velho chapeu de palha! E em baixo foi como se contemplasse a Deusa da Fortuna na sua roda ligeira.
—Oh prima Maria, que surpreza!... Que felicidade!
Debruçada da portinhola da carruagem (a caleche azul da Feitosa), D. Maria Mendonça, com um chapeu novo enramalhetado de lilazes, desculpou atrapalhadamente e rindo o seu silencio. Recebera a carta do primo muito atrasada... Sempre o fatal carteiro, tropego e bebedo... Depois uns dias muito atarefados em Oliveira com a Annica, que preparava para o inverno a casa da rua das Vellas.
—E finalmente, como devia uma visita em Villa-Clara á pobre Venancia Rios, que tem estado doente, achei mais simples e mais completo parar na Torre... E então?
Gonçalo sorria, embaraçado:
—Então, nada de grave, mas... É que desejava conversar comsigo... Por que não entra?
Abrira a portinhola. Ella preferia passear na estrada. E ambos s'encaminharam para o velho banco de pedra que os alamos abrigavam em frente ao portão da Torre. Gonçalo sacudiu com o lenço a ponta do banco.
—Pois, prima Maria, eu desejava conversar... Mas é difficil, tão difficil!... Talvez o melhor seja atacar a questão brutalmente.
—Ataque.
—Então lá vae!... A prima acha que eu perco o meu tempo se me dedicar á sua amiga D. Anna?
Pousada de leve á borda do banco, enrolando attentamente a seda preta do guardasolinho, Maria Mendonça tardou, murmurou:
—Não, acho que o primo não perde o seu tempo...
—Ah! acha?
Ella considerava Gonçalo, gozando a sua perturbação e anciedade.
—Jesus, prima!... Diga alguma cousa mais!
—Mas que quer que lhe diga mais? Já lhe declarei em Oliveira. Ainda sou muito nova para andar com recadinhos de sentimento. Mas acho que a Annica é bonita, é rica, é viuva...
Gonçalo arrancou do banco, erguendo os braços, em desolação. E, como D. Maria tambem se erguera, ambos seguiram pela tira de relva que orla os alamos. Elle quasi gemia, desconsolado:
—Ora bonita, viuva, rica... Para conhecer esses grandes segredos não a incommodava eu, prima!... Que diabo! seja boa rapariga, seja franca! A prima sabe, de certo já ambas conversaram... Seja franca. Ella tem por mim alguma sympathia?
D. Maria parou, murmurou, riscando com a ponta do guardasolinho o trilho amarellado da relva:
—Pois está claro que tem...
—Bravo! Então, se d'aqui a um tempo, passados estes primeiros mezes de luto, eu me declarasse, me...
Ella dardejou a Gonçalo os espertos olhos:
—Santo Deus, como o primo por ahi vae, a galope... Então é uma paixão?
Gonçalo tirou o seu velho chapeu de palha, passou lentamente os dedos pelos cabellos. E n'um immenso e triste desabafo:
—Olhe, prima! É sobretudo a necessidade de me accommodar na vida! Pois não lhe parece?
—Tanto me parece que lhe indiquei o bom poizo... E agora adeus, passa das cinco horas. Não me quero demorar por causa dos creados.
Gonçalo protestou, supplicou:
—Mais um bocadinho!... É tão cedo! Só outra cousa, com franqueza. Ella é boa rapariga?
D. Maria voltára, ao cabo do renque d'alamos, recolhendo á caleche:
—Uma pontinha de genio, para animar a existencia. Mas muito boa rapariga... E uma dona de casa admiravel! O primo não imagina como anda a Feitosa. A ordem, o acceio, a regularidade, a disciplina... Ella olha por tudo, até pela adega, até pela cocheira!
Gonçalo esfregou radiantemente as mãos:
—Pois se d'aqui a um anno se realisar o grande acontecimento hei de gritar por toda a parte que foi a prima Maria que salvou a casa de Ramires!
—Por isso eu trabalho, para servir o brazão e o nome! exclamou ella, saltando ligeiramente para a caleche, como se fugisse, arremessada aquella clara confissão.
O trintanario trepára á almofada. E em quanto os cavallos folgados largavam, aos corcovos, D. Maria ainda gritou:
—Sabe quem encontrei em Villa Clara? O Titó!
—O Titó?...
—Chegou do Alemtejo, vem jantar comsigo. Eu não o trouxe na carruagem por decencia, para o não comprometter...
E a caleche rolou—entre os risos e os doces acenos com que ambos se afagavam, n'aquella nova concordancia mais calorosa d'uma conspiração sentimental.
Gonçalo largou logo alegremente para Villa-Clara, ao encontro do Titó. E já o alvoroçava a idéa de colher do Titó, intimo da Feitosa, informações sobre a D. Anna, o seu genio, os seus modos. A prima Maria, por amor dos Ramires (sobretudo, coitada, para proveito dos Mendonças!), idealisava a noiva. Mas o Titó, o homem mais veridico do Reino, amando a Verdade com a antiga devoção de Epaminondas, apresentaria D. Anna sem um enfeite nem um desenfeite. E o Titó... Ah! sob o seu vozeirão troante, a sua indolencia bovina, o Titó possuia um espirito muito attento, muito penetrante.
Logo á Portella os dous amigos s'encontraram. E, apesar de separação tão curta, o abraço foi estrondoso.
—Oh sô Gonçalão!...
—Oh Titósinho querido! tens feito cá uma falta enorme!... E teu irmão?
O mano melhor, mas arrasado. Muito cartapacio e muito fêmea para velho de sessenta annos. E elle lá o avisára:—«Mano João, mano João! olhe que assim sempre agarrado aos papeis velhos e ás cachopas novas, o mano rebenta!»
—E por cá? Essa eleição?
—A eleição agora para outubro, nos começos d'outubro... De resto, semsaboria universal. Gouveia na Costa, Manoel Duarte na vindima... Eu seccadote, murchote, sem veia, até sem appetite.
—Olha que eu venho jantar e convidei o Videirinha.
—Bem sei, já me disse a prima Maria, que parou um bocado na Torre... Ella está na Feitosa com a D. Anna.
Durante um momento repisou sobre a intimidade da prima Maria na Feitosa, com a tentação de desabafar, logo alli na estrada, sobre o inesperado romance que desabrochára. Mas não ousou! Era um angustiado acanhamento, como a vergonha de cubiçar assim todos os restos do pobre Lucena—o Circulo e a viuva.
Então, conversando do Alemtejo e do mano João (que contára muitas antigualhas massadoras sobre a genealogia dos Ramires), desceram da Portella á Torre, com tenção de estirar o passeio até aos Bravaes. Mas, na Torre, Gonçalo desejou avisar a Rosa dos dous convivas inesperados, senhores de tão poderoso garfo. Entraram pela porta do pomar onde um fio lento d'agoa s'atardava nos regueiros. Aos brados galhofeiros do Fidalgo a Rosa accudio, limpando as mãos ao avental. O que! dous convidados! Mesmo quatro, e mais valentes, que graças a Deus nosso Senhor o jantarinho sobrava! Ainda de tarde comprára a uma mulher da Costa um cesto de sardinhas, graudas e gordas que regalavam!... O Titó reclamou logo uma fritada tremenda de sardinha e ovos. E os dois amigos atravessavam o pateo—quando Gonçalo reparou no Bento, escarranchado no banco da latada, deante d'uma tigella, e areando com enthusiasmo um castão de prata lavrada, que emergia de dentro d'uma toalha enrolada como d'uma bainha.
—Que castão é esse, Bento? assim embrulhado?
O Bento lentamente saccou da toalha torcida um chicote, escuro e comprido, com tres arestas afiadas como as d'um florete.
—Nem o Snr. Dr. sabia! Estava no sotão. Agora de tarde andava lá a escarafunchar por causa d'uma ninhada de gatos, e detraz d'um bahu dou com umas esporas de prateleira e com este arrôcho...
Gonçalo estudou o macisso castão de prata, sacudio a fina vara que zinia:
—Explendido chicote... Oh Titó, hein?... Afiado como um cutello. E antigo, muito antigo, com as minhas armas... De que diabo é feito? baleia?
—De cavallo-marinho... Uma arma terrivel. Mata um homem... O mano João tem um, mas com castão de metal... Mata um homem!
—Bem, rematou Gonçalo. Limpa e põe no meu quarto, Bento! Passa a ser o meu chicote de guerra!
Á porta do pomar ainda encontraram o Pereira da Riosa, de quinzena de cutim deitada aos hombros. Em breve, no dia de S. Miguel, o Pereira tomava emfim a lavra da Torre. E Gonçalo gracejou, mostrando ao Titó o lavrador famoso. Eis o homem! eis o grande homem que se preparava a tornar a Torre uma fallada maravilha de ceára, vinha e horta! O Pereira coçava a barba rala:
—E tambem a enterrar bom dinheiro! Emfim um gosto sempre valeu mais que um vintem! E o Fidalgo, como patrão, merece terra em que os olhos se esqueçam de regalados!...
—Oh, Snr. Pereira! rebombou o Titó. Então não se esqueça de cuidar dos melões. É uma vergonha! Nunca na Torre se comeu um bom melão!
—Pois para o anno, assim Deus nos conserve, já V. Ex.a comerá na Torre um bom melão!
Gonçalo abraçou ainda o esperto lavrador—e apressou para a estrada, decidido a desenrolar toda a confidencia ao Titó, na solidão favoravel do arvoredo dos Bravaes. Mas, apenas recomeçaram a caminhada, o mesmo enleio o travou—quasi temendo agora as informações do Titó, homem tão sevéro, de Moral tão escarpada. E todo o demorado giro pelos Bravaes o findaram sem que Gonçalo desafogasse. O crepusculo descera, molle e quente, quando recolheram—conversando sobre a pesca do savel no Guadiana.
Defronte do portão da Torre Videirinha esperava, dedilhando o violão na penumbra dos alamos. Como a noite se conservava abafada, sem uma aragem, jantaram na varanda, com dous candieiros accesos. Logo ao desdobrar o guardanapo o Titó, vermelho e espraiado sobre a cadeira, declarou «que graças ao Senhor da Saude, a sede era boa!» Elle e Gonçalo praticaram as usadas façanhas de garfo e de copo. Quando o Bento servio o café uma immensa e lustrosa lua nova surgia, ao fundo da quinta escura, por traz dos outeiros de Valverde. Gonçalo, enterrado n'uma cadeira de vime, accendeu o charuto com beatitude. Todos os tedios e incertezas d'essas semanas se despegavam da sua alma como cinza apagada, brevemente varrida. E foi sentindo menos a doçura da noite, que um sabor melhor á vida desanuviada, que exclamou:
—Pois, senhores, agora, está uma delicia!...
Videirinha, depois d'um curto cigarro, retomára o violão. Atravez da quinta, pedaços de muros caiados, algum trilho de rua mais descoberto, a agua do Tanque-Grande, rebrilhavam ao luar que resvalava dos cerros; e a quietação do arvoredo, da claridade, da noite, penetravam n'alma com adormecedora caricia. Titó e Gonçalo saboreavam o famoso cognac de Moscatel, preciosa antigualha da Torre, silenciosamente enlevados no Videirinha—que recuára para o fundo da varanda, se envolvera em sombra. Nunca o bom cantador ferira as cordas com inspiração mais enternecida. Até os campos, o ceu inclinado, a lua cheia sobre as collinas, escutavam os queixumes do fado da Ariosa. E no escuro, sob a varanda, o pigarro da Rosa, os passos abafados dos creados, algum sumido riso de rapariga, o bater das orelhas d'um perdigueiro—eram como a presença d'um povo suavemente attrahido pelo descante formoso.
Assim a noite se alongou, a lua subio com solitario fulgor. Titó, pesado do brodio, adormecêra. E como sempre, para findar, Videirinha atacou ardentemente o Fado dos Ramires: