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A Illustre Casa de Ramires

Chapter 14: XI
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About This Book

An aging nobleman, Gonçalo Mendes Ramires, devotes himself to composing a historical novella and to an exhaustive genealogy that celebrates heroic ancestors while the present household decays. The narrative alternates vivid ancestral episodes with present-day scenes of dwindling fortunes, complacency and social decline, using irony and satirical observation to explore memory, pride, inherited honor and the gap between heroic legend and contemporary reality.




Durante toda essa macia semana dos fins de Setembro, Gonçalo trabalhou no Capitulo final da sua Novella.

Era emfim a madrugada vingadora em que os Cavalleiros de Santa Ireneia, reforçados pelas mais nobres lanças da mesnada dos Castros, surprehendiam, no bravio desfiladeiro marcado por Garcia Viegas, o Sabedor, o bando de Bayão, na sua açodada corrida sobre Coimbra... Briga curta e falsa, sem destro e brioso terçar d'armas, mais semelhante a montaria contra um lobo do que a arremettida contra um Filho-de-Algo. E assim a desejára Tructesindo, com ruidosa approvação de D. Pedro de Castro, por que não se cuidava de combater um inimigo, mas de colher um matador.

Antes do luzir d'alva, o Bastardo abalára do castello de Landim, em dura pressa e com tão descuidada segurança, que nem almogavar nem coudel lhe atalayavam os trilhos. As cotovias cantavam quando elle, em aspero trote, penetrou por essa brecha, entalada entre escarpas de penedia e urze, que chamam a Racha do Moiro, desde que Mafoma a fendeu para que escapassem as adagas christans de El-Rei Fernando, o Magno, o Alcaide moiro de Coimbra e a monja que elle arrebatára á garupa. E apenas pela esguia greta enfiára a derradeira lança da fila—eis que da outra embocadura do valle surde o cerrado troço dos cavalleiros de Santa Ireneia, que Tructesindo guia, com a viseira erguida, sem broquel, sacudindo apenas uma ascuma de monte como se folgadamente andasse em caçada. Da selva arredada que os encobria, rompem por traz as lanças dos Castros, ristadas e cerrando a brecha mais densamente que as puas d'uma levadiça. Do recosto dos cerros róla, como reprêsa solta, uma rude e escura peonagem! Colhido, perdido, o Bastardo terrivel! Ainda arranca furiosamente a espada, que redomoinhando o corôa de coriscos. Ainda com um fero grito arremette contra Tructesindo... Mas bruscamente, d'entre um escuro magote de fundeiros baleares, parte ondeando uma corda de canave, que o laça pela gargalheira, o arranca n'um brusco sacão da sela mourisca, o derriba, sobre pedregulhos em que a sua larga espada se entala e se parte rente ao punho dourado. E emquanto os cavalleiros de Bayão aguentam assombradamente o denso cerco de lanças, que os envolvera—um rôlo de peões, em dura grita, como mastins sobre um cerdo, arrastam o Bastardo para a lomba do outeiro, onde lhe arrancam broquel e adaga, lhe despedaçam o brial de lã rôxa, lhe quebram os fechos do elmo, para lhe cuspirem na face, nas barbas côr de ouro, tão bellas e de tanto orgulho!

Depois a mesma bruta matula o iça, amarrado, para sobre o dorso d'uma possante mula de carga, o estende entre dous esguios caixotes de virotões, como rez apanhada ao recolher da montaria. E servos da carriagem ficam guardando o Cavalleiro soberbo, o Claro-Sol que allumiava a casa de Bayão, agora entaipado entre dois caixotes de pau, com cordas nos pés, e cordas nas mãos, e n'ellas espetado um triste ramo de cardo—emblema da sua traição.

No emtanto os seus quinze Cavalleiros juncavam o chão, esmagados sob o furioso cerco de lanças que os investira—uns hirtos, como adormecidos, dentro das negras armaduras, outros torcidos, desfeitos, com as carnes retalhadas, pendendo horrendamente entre malhas rotas dos lorigaes. Os escudeiros, colhidos, empurrados a pontoada de chuço para a boca d'uma barroca, sem resgate ou mercê, como alcateia immunda de roubadores de gado, acabaram, decepados a macheta pelos barbudos estafeiros leonezes. Todo o valle cheirava a sangue como um pateo de magarefes. Para reconhecer os companheiros do Bastardo, uma turma de cavalleiros desafivelava os gorjaes, as viseiras, arrancando furtivamente as medalhas de prata, os bentos, saquinhos de reliquias, que todos traziam como bem-tementes. N'uma face, de fina barba negra, que uma espuma sangrenta manchava, Mendo de Briteiros reconheceu seu primo Sueiro de Lugilde com quem, pela fogueira de S. João, folgára tão docemente e bailára no castello de Unhello,—e vergado sobre a alta sella rezou, pela pobre alma sem confissão, uma devota Ave-Maria. Fuscas, tristonhas nuvens, abafavam a manhã d'Agosto. E afastados á entrada do valle, sob a ramagem d'um velho azinheiro, Tructesindo, D. Pedro de Castro, e Garcia Viegas, o Sabedor, decidiam que morte lenta, e bem dorida e viltosa, se daria ao Bastardo, villão de tão negra vilta.

Contando assim a sombria emboscada com o gemente esforço de quem empurra um arado por terra pedreira—gastára Gonçalo essa doce semana de Setembro. E no sabbado, cedo, na livraria, com os cabellos ainda molhados do banho de chuva, esfregava as mãos deante da banca—porque certamente com duas horas de attento trabalho, findaria antes d'almoço a sua Novella, a sua Obra! E todavia esse final, quasi o repellia, com o seu sujo horror. O tio Duarte no seu Poemeto apenas o esboçára, com esquiva indecisão, como nobre Lyrico que ante uma visão de bruta ferocidade solta um lamento, resguarda a Lyra, e desvia para sendas mais doces. E, ao tomar a penna, Gonçalo tambem, realmente lamentava que seu avô Tructesindo não matasse outr'ora o Bastardo, no fragor da briga, com uma d'essas cutiladas maravilhosas, e tão doces de celebrar, que racham o cavalleiro e depois racham o ginete, e para sempre retinem na Historia.

Mas não! Sob a folhagem do azinheiro, os tres cavalleiros combinavam com lentidão uma vingança terrifica. Tructesindo desejára logo recolher a Santa Ireneia, alçar uma forca deante das barbacans, no chão em que seu filho rolára morto, e n'ella enforcar, depois de bem açoitado, como villão, o villão que o matára. O velho D. Pedro de Castro, porém, aconselhava despacho mais curto, e tambem gostoso. Para que rodear por Santa-Ireneia, desbaratar esse dia d'Agosto na arrancada que os levava a Montemór, a soccorro das Infantas de Portugal? Que se estendesse o Bastardo amarrado sobre uma trave, aos pés de D. Tructesindo, como porco pelo Natal, e que um cavallariço lhe chamuscasse as barbas, e depois outro, com facalhão de ucharia, o sangrasse no pescoço, pachorrentamente.

—Que vos parece, Snr. D. Garcia?

O Sabedor desafivelára o casco de ferro, limpava nas rugas o suor e a poeira da lide:

—Senhores e amigos! Temos melhor, e perto tambem, sem delongas de cavalgada, logo adiante destes cerros, no Pego das Bichas... E nem torcemos caminho, que de lá, por Tordezello e Santa Maria da Varge, endireitamos a Montemór, tão direitos como vôa o corvo... Confiae em mim, Tructesindo! Confiae em mim, que eu arranjarei ao Bastardo tal morte e tão vil, que d'outra egual se não possa contar desde que Portugal foi condado.

—Mais vil que forca, para cavalleiro, meu velho Garcia?

—Lá vereis, senhores e amigos, lá vereis!

—Seja! Mandae dar ás bozinas.

Ao commando d'Affonso Gomes, o Alferes, as bozinas soaram. Um troço de besteiros e de estafeiros Leoneses rodearam a mula que carregava o Bastardo amarrado e entalado entre dois caixotes. E acaudilhada por D. Garcia, a curta hoste metteu para o Pego das Bichas, em desbando, com os senhores de lança espalhados, como em marcha de folgança e paz, (?) e todos n'uma rija fallada recordando, entre gabos e risos, as proezas da lide.

A duas leguas de Tordezello e do seu castello formoso, se escondia entre os cerros o Pego das Bichas. Era um lugar de eterno silencio e de eterna tristeza. Em esmerados versos lhe marcára o tio Duarte a desolada asperidão:

Nem trillo d'ave em balançado ramo!
Nem fresca flôr junto de fresco arroio!
Só rocha, mattagal, ribas soturnas,
E em meio o Pego, tenebroso e morto!...

E quando os primeiros cavalleiros, galgada a lomba d'um cerro, o avistaram, na melancholia da manhã nevoenta, emmudeceram da larga fallada, repucharam os freios, assustados ante tão aspero ermo, tão propicio a Bruxas, a Avantesmas e a Almas penadas. Deante do escalavrado barranco, por onde os ginetes escorregavam, ondulava uma ribanceira, aberta com charcos lamacentos, quasi chupados pela estiagem, luzindo pardamente, por entre grossos pedregulhos e o tojo rasteiro. Ao fundo, a meio tiro de bésta, negrejava o Pego, lagoa estreita, lisa, sem uma ruga n'agua, duramente negra, com manchas mais negras, como lamina d'estanho onde alastrasse a ferrugem do tempo e do abandono. Em torno subiam os cerros, eriçados de matto bravio e alto, sulcados por trilhos de saibro vermelho como por fios de sangue que escoresse, e rasgados no alto por penedias lustrosas, mais brancas que ossadas. Tão pesado era o silencio, tão pesada a soledade, que o velho D. Pedro de Castro, homem de tanta jornada, se espantou:

—Feia paragem! E voto a Christo, a Santa Maria, que nunca antes de nós, n'ella entrou homem remido pelo baptismo.

—Pois, Snr. D. Pedro de Castro! accudiu o Sabedor, já por aqui se moveu muita lança, e luzida, e ainda em tempos do Conde D. Sueiro, e de vosso rei D. Fernando, se erguia n'aquella beira d'agua, uma castellania famosa! Vêde além!—E mostrava na ponta do pego, fronteira ao barranco, dous rijos pilares de pedra, que emergiam da agua negra, e que chuva e vento polira como marmores finos. Um passadiço de traves, sobre estacas limosas e meio apodrecidas, atava a margem ao mais grosso dos pilares. E a meio d'esse rude esteio pendia uma argola de ferro.

No emtanto já o tropel da peonagem se espalhára pela ribanceira. D. Garcia Viegas desmontou, bradando por Pero Ermigues, o Coudel dos bésteiros de Santa Ireneia. E, ao lado do ginete de Tructesindo, risonho e gozando a surpreza, ordenou ao Coudel que seis dos seus rijos homens descessem o Bastardo da mula, o estirassem no chão, o despissem, todo nú, como sua mãe barregã o soltára á negra vida...

Tructesindo encarou o Sabedor, franzindo as sobrancelhas hirsutas:

—Por Deus, D. Garcia! que me ides simplesmente afogar o villão, e sujar essa agua innocente!...

E alguns Cavalleiros, em redor, murmuraram tambem contra morte tão quieta e sem malicia. Mas os miudos olhos de D. Garcia giravam, lampejavam de triumpho e gosto:

—Socegae, socegae! Velho estou certamente, mas ainda o senhor Deus me consente algumas traças. Não! Nem enforcado, nem degolado, nem afogado... Mas chupado, senhores! Chupado em vida, e de vagar, pelas grandes sanguesugas que enchem toda essa agua negra!

D. Pedro de Castro, maravilhado, bateu o guante nas solhas do coxote:

—Vida de Christo! Que ter n'uma hoste o Snr. D. Garcia, é ter juntamente, para marchas e conselho, enrolados n'um só, Annibal e Aristoteles!

Um rumor d'admiração correu pela hoste:

—Boa traça, boa traça!

E Tructesindo, radiante, bradava:

—Andar, andar, bésteiros! E vós, senhores, recuae para a lomba do cerro, como para palanque, que vae ser grande a vista! Já seis bésteiros descarregavam da mula o Bastardo amarrado. Outros cercavam, com mólhos de cordas. E, como magarefes para esfolar uma rez, toda a rude turma se abateu sobre o malfadado, arrancando por cordas que desatavam a cervilheira, o saio, as grevas, os sapatões de ferro, depois a grossa roupa de linho encardido. Agarrado pelos compridos cabellos, filado pelos pés, onde se cravavam agudas unhas no furor de o manter, com os braços esmagados sob outros grossos braços retêsos, o possante Bastardo ainda se estorcia, urrando, cuspindo contra as faces confusas da matulagem um cuspo avermelhado, que espumava!

Mas, por entre o escuro tropel que o cobria, o seu corpo, todo despido, branquejava, atado com cordas mais grossas. Lentamente o seu furioso urrar esmorecia, arquejado e rouquenho. E um após outro se erguiam os bésteiros, esfalfados, bufando, limpando o suor do esforço.

No emtanto os Cavalleiros d'Hespanha, de Santa Ireneia, desmontavam cravando o couto das lanças entre o tojo e as pedras. Todos os recostos dos outeiros se cubriam da mesnada espalhada, como palanques em tarde de justa. Sobre uma rocha mais lisa, que dous magros espinheiros toldavam de folha rala, um pagem estendera pelles d'ovelha para o Snr. D. Pedro de Castro, para o senhor de Santa Ireneia. Mas só o velho Castellão se accommodou, para uma repousada delonga, desafivelando o seu corselete de ferro tauxeado d'ouro.

Tructesindo permanecera erguido, mudo, com os guantes apoiados ao punho da sua alta espada, os olhos fundos ávidamente cravados na tenebrosa lagôa que, com morte tão fera e tão suja, vingaria seu filho... E pela borda do Pego, peões, e alguns cavalleiros d'Hespanha, remexiam com virotões, com os coutos das ascumas, a agua lodosa, na curiosidade das negras bichas escondidas, que o povoavam.

Subitamente a um brado de D. Garcia, que rondava, toda a chusma de peões amontoada em torno ao Bastardo se arredou:—e o forte corpo appareceu, nú e branco, sobre a terra negra, com um denso pello ruivo nos peitos, a sua virilidade afogada n'outra matta de pello ruivo, e todo ligado por cordas de canave que o inteiriçavam. N'aquella rigidez de fardo, nem as costellas arfavam—apenas os olhos refulgiam, ensanguentados, horrendamente esbugalhados pelo espanto e pelo furor. Alguns cavalleiros correram a mirar a aviltada nudez do homem famoso de Bayão. O senhor dos Paços d'Argelim mofou, com estrondo:

—Bem o sabia, por Deus! Corpo de manceba, sem costura de ferida!...

Leonel de Çamora raspou o sapato de ferro pelo hombro do malfadado:

—Vêde este Claro-Sol, tão claro, que se apaga agora, em agua tão negra!

O Bastardo cerrava duramente as palpebras,—d'onde duas grossas lagrimas escaparam, lentamente rolaram... Mas um agudo pregão resoou pela ribanceira:

—Justiça! Justiça!

Era o Adail de Santa Ireneia, que marchava, sacudia uma lança, atroava os cerros:

—Justiça! justiça que manda fazer o Senhor de Treixedo e de Santa Ireneia, n'um perro matador!... Justiça n'um perro, filho de perra, que matou vilmente, e assim morra vilmente por ella!...

Trez vezes pregoou por deante da hoste apinhada nos cerros. Depois quedou, saudou humildemente Tructesindo Ramires, o velho Castro,—como a julgadores no seu Estrado de julgamento.

—Aviae, aviae! bradava o Senhor de Santa Ireneia.

Immediatamente, a um commando do Sabedor, seis bésteiros, com as pernas embrulhadas em mantas da carga, ergueram o corpo do Bastardo como se ergue um morto enrolado no seu lençol, e com elle entraram na agua, até ao mais alto pilar de granito. Outros, arrastando molhos de cordas, correram pelo limoso passadiço de traves. Com um alarido d'aguenta! endireita! alça! n'um desesperado esforço o robusto corpo branco foi mergulhado n'agua até ás virilhas, arrimado ao mais alto pilar, depois n'elle atado com um longo calabre que, passando pela argola de ferro, o suspendia, sem escorregar, tão seguro e collado como um rôlo de vela que se amarra ao mastro. Rapidamente os bésteiros fugiram d'agoa, desentrapando logo as pernas, que palpavam, raspavam no horror das bichas sugadoras. Os outros recolheram pelo passadiço, n'uma fila que se empurrava. No Pego ficava Lopo de Bayão bem arranjado para a vistosa morte lenta, com a agoa que já o afogava até ás pernas, com cordas que o enroscavam até ao pescoço como a um escravo no poste; e uma espessa mecha dos cabellos louros laçada na argola de ferro, repuxando a face clara, para que todos n'ella gozassem largamente a humilhada agonia do Claro-Sol.

Então o attento da hoste, esperando espalhada pelos recostos dos cerros, mais entristeceu o enevoado silencio do ermo. A agoa jazia sem um arrepio, com as suas manchas, negras como uma lamina d'estanho enferrujado. Entre as cristas das rochas, archeiros postados pelo Sabedor, atalaiavam, para além, os descampados. Um alto vôo de gralha atrevessou grasnando. Depois um bafo lento agitou as flamulas das lanças cravadas no tojo denso.

Para despertar, aviar a lentidão das bichas, alguns peões atiravam pedras á agoa lodosa. Já alguns cavalleiros hespanhoes rosnavam impacientes com a delonga, n'aquella cova abafada. Outros, descendo agachados a borda da lagôa, para mostrar que falladas bichas nunca acudiriam, mergulhavam lentamente, n'agoa negra, as mãos descalçadas, que depois sacudiam, rindo, e mofando o Sabedor... Mas de repente um estremeção sacudiu o corpo do Bastardo; os seus rijos musculos, no furioso esforço de se desprenderem, inchavam entre as cordas, como cobras que se arqueiam; dos beiços arreganhados romperam, em rugidos, em grunhidos, ultrages e ameaças contra Tructesindo covarde, e contra toda a raça de Ramires, que elle emprasava, dentro do anno, para as labaredas do Inferno! Indignado, um Cavalleiro de Santa Ireneia agarrou uma bésta de garrunche, a que retesou a corda.

Mas D. Garcia deteve o arremesso:

—Por Deus, amigo! Não roubeis ás sanguesugas nem uma pinga d'aquelle sangue fresco!... Vêde como veem! vêde como veem!

Na agoa espessa, em torno ás coxas mergulhadas do Bastardo, um fremito corria, grossas bolhas empolavam,—e d'ellas, mollemente, uma bicha surdio, depois outra e outra, lusidias e negras, que ondulavam, se collavam á branca pelle do ventre, d'onde pendiam, chupando, logo engrossadas, mais lustrosas com o lento sangue que já escorria. O Bastardo emmudecera—e os seus dentes batiam estridentemente. Enojados, até rudes peões desviaram a face cuspindo para as urzes. Outros, porém, chasqueavam, assuavam as bichas, gritando—a elle, donzellas! a elle! E o gentil Çamora de Cendufe, clamava rindo contra tão ensossa morte! Por Deus! Uma apostura de bichas, como a enfermo d'almorreimas. Nem era sentença de Rico-Homem—mas receita d'herbanista moiro!

—Pois que mais quereis, meu Leonel? acudio alegremente o Sabedor, resplandecendo. Morte é esta para se contar em livros! E não tereis este inverno serão á lareira, por todos os solares de Minho a Douro, em que não volte a historia d'este Pego, e d'este feito! Olhae nosso primo Tructesindo Ramires! Formosos tratos presenceou de certo em tão longo lidar d'armas!... E como goza! tão attento! tão maravilhado!

Na encosta do outeiro, junto do seu balsão, que o Alferes cravára entre duas pedras, e como elle tão quêdo, o velho Ramires não despregava os olhos do corpo do Bastardo, com deleite bravio, n'um fulgor sombrio. Nunca elle esperára vingança tão magnifica! O homem que atára seu filho com cordas, o arrastára n'umas andas, o retalhára a punhal deante das barbacans da sua Honra—agora, vilmente nú, amarrado tambem como cerdo, pendurado d'um pilar, emergido n'uma agoa suja, e chupado por sanguesugas, deante de duas mesnadas, das melhores d'Hespanha, que miravam, que mofavam! Aquelle sangue, o sangue da raça detestada, não o bebia a terra revolta n'uma tarde de batalha, escorrendo de ferida honrada, atravez de rija armadura—mas, gota a gota, escuramente e mollemente se sumia, sorvido por nojentas bichas, que surdiam famintas do lodo e no lodo recahiam fartas, para sobre o lodo bolsar o orgulhoso sangue que as enfartára. N'um charco, onde elle o mergulhára, viscosas bichas bebiam socegadamente o cavalleiro de Bayão! Onde houvera homizio de solares fundado em desforra mais dôce?

E a fera alma do velho acompanhava, com inexoravel goso, as sanguesugas subindo, espalhadamente alastrando por aquelle corpo bem amarrado, como seguro rebanho pela encosta da collina onde pasta. O ventre já desapparecia sob uma camada viscosa e negra, que latejava, relusia na humidade morna do sangue. Uma fila sugava a cinta, encovada pela ancia, d'onde sangue se esfiava, n'uma franja lenta. O denso pello ruivo do peito, como a espessura d'uma selva, detivera muitas, que ondulavam, com um rasto de lodo. Um montão ennovelado sangrava um braço. As mais fartas, já inchadas, mais relusentes, despegavam, tombavam mollemente: mas logo outras, famintas, se aferravam. Das chagas abandonadas o sangue escorria delgado, represo nas cordas, d'onde pingava como uma chuva rala. Na escura agoa boiavam gordas postemas de sangue esperdiçado. E assim sorvido, ressumando sangue, o malfadado ainda rugia, atravez ultrages immundos, ameaças de mortes, de incendios, contra a raça dos Ramires! Depois, com um arquejar em que as cordas quasi estalavam, a bocca horrendamente escancarada e avida, rompia aos roucos urros, implorando agoa, agoa! No seu furor as unhas, que uma volta de amarras lhe collára contra as fortes côxas, esfarrapavam a carne, cravavam-se na fenda esfarrapada, ensopadas de sangue.

E o furioso tumulto esmorecia n'um longo gemer cançado—até que parecia adormecido nos grossos nós das cordas, as barbas relusindo sob o suor que as alagára como sob um grosso orvalho, e entre ellas a espantada lividez d'um sorriso delirado.

No emtanto já na hoste derramada pelos cerros, como por um palanque, se embotára a curiosidade bravia d'aquelle supplicio novo. E se acercava a hora da ração de meridiana. O Adail de Santa Ireneia, depois o Almocadem Hespanhol, mandaram soar os anafins. Então todo o áspero ermo se animou com uma faina d'arraial. O almazem das duas mesnadas parára por detraz dos morros, n'uma curta almargem d'herva, onde um regato claro se arrastava nos seixos, por entre as raizes de amieiros chorões. N'uma pressa esfaimada, saltando sobre as pedras, os peões corriam para a fila dos machos de carga, recebiam dos uchões e estafeiros a fatia de carne, a grossa metade d'um pão escuro: e, espalhados pela sombra do arvoredo, comiam com silenciosa lentidão, bebendo da agoa do regato pelas concas de pau. Depois preguiçavam, estirados na relva,—ou trepavam em bando pela outra encosta dos morros, através do matto, na esperança d'atravessar com um virote alguma caça erradia. Na ribanceira, deante da lagôa, os cavalleiros, sentados sobre grossas mantas, comiam tambem, em roda dos alforges abertos, cortando com os punhaes nacos de gordura nas grossas viandas de porco, empinando, em longos tragos, as bojudas cabaças de vinho.

Convidado por D. Pedro de Castro, o velho Sabedor descançava, partilhando d'uma larga escudella de barro, cheia de bolo papal, d'um bolo de mel e flôr de farinha, onde ambos enterravam lentamente os dedos, que depois limpavam ao forro dos morriões. Só o velho Tructesindo não comia, não repousava, hirto e mudo deante do seu pendão, entre os seus dous mastins, n'aquelle fero dever de acompanhar, sem que lhe escapasse um arrepio, um gemido, um fio de sangue, a agonia do Bastardo. Debalde o Castellão, estendendo para elle um pichel de prata, gabava o seu vinho de Tordesillas, fresco como nenhum d'Aquilat ou de Provins, para a sede de tão rija arrancada. O velho Rico-Homem nem attendera:—e D. Pedro de Castro, depois de atirar dous pães aos alões fieis, recomeçou discorrendo com Garcia Viegas sobre aquelle teimoso amor do Bastardo por Violante Ramires que arrastára a tantos homizios e furores.

—Ditosos nós, Snr. D. Garcia! Nós a quem a edade e o quebranto e a fartura já arredam d'essas tentações... Que a mulher, como m'ensinava certo Physico quando eu andava com os moiros, é vento que consola e cheira bem, mas tudo enrodilha e esbandalha. Vêde como os meus por ellas penaram! Só meu pae, com aquella desvairança de zelos, em que matou a cutello minha dôce madre Estevaninha. E ella tão santa, e filha do Imperador! A tudo, tudo leva, a tonta ardencia! Até a morrer, como este, sugado por bichas, deante d'uma hoste que merenda e mofa. E por Deus, quanto tarda em morrer, Snr. D. Garcia!

—Morrendo está, Snr. D. Pedro de Castro. E já com o demo ao lado para o levar!

O Bastardo morria. Entre os nós das cordas ensanguentadas todo elle era uma ascorosa aventesma escarlate e negra com as viscosas pastas de bichas que o cobriam, latejando com os lentos fios de sangue que de cada ferida escorriam, mais copiosos que os regos d'humidade por um muro denegrido.

O desesperado arquejar cessára, e a ancia contra as cordas, e todo o furor. Molle e inerte como um fardo, apenas a espaços esbogalhava horrendamente os olhos vagarosos, que revolvia em torno com enevoado pavor. Depois a face abatia, livida e flaccida, com o beiço pendurado, escancarando a bocca em cova negra, d'onde se escoava uma baba ensanguentada. E das palpebras novamente cerradas, entumecidas, um muco gotejava, tambem como de lagrimas engrossadas com sangue.

A peonagem, no emtanto, voltando da ração, reatulhava a ribanceira, pasmava, com rudes chufas para o corpo pavoroso que as bichas ainda sugavam. Já os pagens recolhiam manteis e alforges. D. Pedro de Castro descera do cabeço com o Sabedor até á borda da agoa lodosa, onde quasi mergulhava os sapatos de ferro, para contemplar, mais de cerca, o agonisante de tão rara agonia! E alguns senhores, estafados com a delonga, afivelando os gibanetes, murmuravam:—«Está morto! Está acabado!»

Então Garcia Viegas gritou ao Coudel dos Bésteiros:

—Ermigues, ide vêr se ainda resta alento n'aquella postema.

O Coudel correu pelo passadiço de traves, e arrepiado de nojo palpou a livida carne, acercou da bocca, toda aberta, a lamina clara da adaga que desembainhára.

—Morto! morto!—gritou.

Estava morto. Dentro das cordas que o arroxeavam o corpo escorregava, engilhado, chupado, esvasiado. O sangue já não manava, havia coalhado em postas escuras, onde algumas bichas teimavam latejando, relusindo. E outras ainda subiam, tardias. Duas, enormes, remexiam na orelha. Outra tapava um olho. O Claro-Sol não era mais que uma immundice que se decompunha. Só a madeixa dos cabellos louros, repuxada, presa na argola, relusia com um lampejo de chamma, como rastro deixado pela ardente alma que fugira.

Com a adaga ainda desembainhada, e que sacudia, o Coudel avançou para o Senhor de Santa Ireneia, bradou:

—Justiça está feita, que mandastes fazer no perro matador que morreu!

Então o velho Rico-Homem atirando o braço, o cabelludo punho, com possante ameaça, bradou, n'um rouco brado que rolou por penhascos e cerros:

—Morto está! E assim morra de morte infame quem traidoramente me affronte a mim e aos da minha raça!

Depois, cortando rigidamente pela encosta do cerro, atravez do matto, e com um largo aceno ao Alferes do Pendão:

—Affonso Gomes, mandae dar as bozinas. E a cavallo, se vos praz, Snr. D. Pedro de Castro, primo e amigo, que leal e bom me fostes!...

O Castellão ondeou risonhamente o guante:

—Por Santa Maria, primo e amigo! que gosto e honra os recebi de vós. A cavallo pois se vos praz! Que nos promette aqui o Snr. D. Garcia vêrmos ainda, com sol muito alto, os muros de Monte-mór.

Já a peonagem cerrava as quadrilhas, os donzeis d'armas puxavam para a ribanceira os ginetes folgados que a vasta agua escura assustava. E, com os dous balsões tendidos, o Açor negro, as Treze Arruellas, a fila da cavalgada atirou o trote pelo barranco empinado, d'onde as pedras soltas rolavam. No alto, alguns cavalleiros ainda se torciam nas sellas para silenciosamente remirarem o homem de Bayão, que lá ficava, amarrado ao pilar, na solidão do Pego, a apodrecer. Mas quando a ala dos bésteiros e fundibularios de Santa Ireneia desfilou, uma rija grita rompeu, com chufas, sujas injurias ao «perro matador». A meio da escarpa, um bésteiro, virando, retezou furiosamente a bésta. A comprida garruncha apenas varou a agua. Outra logo zinio, e uma bala de funda, e uma setta barbada,—que se espetou na ilharga do Bastardo, sobre um negro novello de bichas. O Coudel berrou: «cerra! anda!» A récua das azemolas de carga avançava, sob o estralar dos lategos: os moços da carriagem apanhavam grossos pedregulhos, apedrejavam o morto. Depois os servos carreteiros marcharam, nos seus curtos saios de couro crú, balançando um chuço curto:—e o capataz apanhou simplesmente esterco das bestas, que chapou na face do Bastardo sobre as finas barbas d'ouro.



XI



Quando Gonçalo, estafado e já todo o ardor bruxuleando, retocou este derradeiro traço da affronta—a sineta no corredor repicava para o almoço. Emfim! Deus louvado! eis finda essa eterna Torre de Ramires! Quatro mezes, quatro penosos mezes desde Junho, trabalhára na sombria resurreição dos seus avós barbaros. Com uma grossa e carregada lettra, traçou no fundo da tira Finis. E datou, com a hora, que era do meio-dia e quatorze minutos.

Mas agora, abandonada a banca onde tanto labutára, não sentia o contentamento esperado. Até esse supplicio do Bastardo lhe deixára uma aversão por aquelle remoto mundo Affonsino, tão bestial, tão deshumano! Se ao menos o consolasse a certeza de que reconstituira, com luminosa verdade, o ser moral d'esses avós bravios... Mas que! bem receava que sob desconcertadas armaduras, de pouca exactidão archeologica, apenas s'esfumassem incertas almas de nenhuma realidade historica!... Até duvidava que sanguesugas recobrissem, trepando d'um charco, o corpo d'um homem, e o sugassem das côxas ás barbas, em quanto uma hoste mastiga a ração!... Emfim, o Castanheiro louvára os primeiros Capitulos. A Multidão ama, nas Novellas, os grandes furores, o sangue pingando: e em breve os Annaes espalhariam, por todo o Portugal, a fama d'aquella Casa illustre, que armára mesnadas, arrasára castellos, saqueára comarcas por orgulho de pendão, e affrontára arrogantemente os Reis na curia e nos campos de lide. O seu verão, pois, fôra fecundo. E para o coroar, eis agora a Eleição, que o libertava das melancolias do seu buraco rural...

Para não retardar as visitas ainda devidas aos Influentes, e tambem para espairecer, logo depois d'almoco montou a cavallo—apezar do calor, que desde a vespera, e n'aquelle meado d'outubro, esmagava a aldeia com o refulgente peso d'uma canicula d'Agosto. Na volta da estrada, dos Bravaes um homem gordo, de calça branca enxovalhada, que s'apressava, bufando, sob o seu guarda-sol de panninho vermelho, deteve o Fidalgo com uma cortezia immensa. Era o Godinho, amanuense da Administração. Levava um officio urgente ao Regedor dos Bravaes, e agora corria á Torre de mandado do Snr. Administrador...

Gonçalo recuou a egoa para a sombra d'uma carvalha:

—Então que temos, amigo Godinho?

O Snr. Administrador annunciava a S. Ex.a que o maroto do Ernesto, o valentão de Nacejas, em tratamento no Hospital d'Oliveira, melhorára consideravelmente. Já lhe repegára a orelha, a bocca soldava... E, como se procedeu á querella, o patife passava da enfermaria para a cadeia...

Gonçalo protestou logo, com uma palmada no selim:

—Não senhor! Faça o obsequio de dizer ao Snr. João Gouveia que não quero que se prenda o homem! Foi atrevido, apanhou uma dóse tremenda, estamos quites.

—Mas Snr. Gonçalo Mendes...

—Pelo amor de Deus, amigo Godinho! Não quero, e não quero... Explique bem ao Snr. João Gouveia... Detesto vinganças. Não estão nos meus habitos, nem nos habitos da minha familia. Nunca houve um Ramires que se vingasse... Quero dizer, sim, houve, mas... Emfim explique bem ao Snr. João Gouveia. De resto eu logo o encontro, na Assembleia... Bem basta ao homem ficar desfeiado. Não consinto que o apoquentem mais!... Detesto ferocidades.

—Mas...

—Esta é a minha decisão, Godinho.

—Lá darei o recado de V. Ex.a

—Obrigado. E adeus!... Que calor, hein!

—De rachar, Snr. Gonçalo Mendes, de rachar!

Gonçalo seguiu, revoltado pela ideia de que o pobre valentão de Nacejas, ainda moído, com a orelha mal soldada, baixasse á sordida enxovia de Villa-Clara, para dormir sobre uma taboa. Pensou mesmo em galopar para Villa-Clara, reter o zelo legal do João Gouveia. Mas perto, adeante do lavadoiro, era a casa d'um Influente, o João Firmino, carpinteiro e seu compadre. E para lá trotou, apeando ao portal do quinteiro. O compadre Firmino largára cedo para a Arribada, onde trabalhava nas obras do lagar do Snr. Esteves. E foi a comadre Firmina que correu da cosinha, obesa e lusidia, com dous pequenos dependurados das saias e mais sujos que esfregões. O Fidalgo beijou ternamente as duas faces ramelosas:

—E que rico cheiro a pão fresco, oh comadre! Foi a fornada, hein? Pois então grande abraço ao Firmino. E que se não esqueça! A Eleição vem para o outro Domingo. Lá conto com o voto d'elle. E olhe que não é pelo voto, é pela amisade.

A comadre arreganhava os dentes magnificos n'um regalado e gordo riso:—«Ai o Fidalgo podia ficar seguro! Que o Firmino já jurára, até ao Snr. Regedor, que para o Fidalgo era todo o sitio a votar, e quem não fosse a amor ia a pau.» O Fidalgo apertou a mão da comadre—que do degrau do quinteiro, com os dous pequenos enrodilhados nas saias, e o gordo riso mais embevecido, seguiu a poeira da egoa como o sulco d'um Rei benefico.

E depois nas outras visitas, ao Cerejeira, ao Ventura da Chiche, encontrou o mesmo fervor, os mesmos sorrisos luzindo de gosto. «O que! para o Fidalgo! Isso tudo! E nem que fosse contra o Governo!»—Na tasca do Manoel da Adega, um rancho de trabalhadores bebia, já ruidoso, com as jaquetas atiradas para cima dos bancos: o Fidalgo bebeu com elles, galhofando, gosando sinceramente a pinga verde e o barulho. O mais velho, um avejão escuro, sem dentes, e a face mais engilhada que uma ameixa secca, esmurrou com euthusiasmo o balcão:—«Isto, rapazes, é fidalgo que, quando um pobre de Christo escalavra a perna, lhe empresta a egoa, e vae elle ao lado mais d'uma legua a pé, como foi com o Sôlha! Rapazes! isto é Fidalgo para a gente ter gosto!» As saudes atroaram a venda. E quando Gonçalo montou, todos o cercavam como vassallos ardentes, que a um aceno correriam a votar,—ou a matar!

Em casa do Thomaz Pedra, a avó Anna Pedra, uma velha entrevada, muito velha e tremula, rompeu a choramigar por o seu Thomaz andar para o Olival quando o Fidalgo o visitava. «Que aquillo era como visita de santo!»

—Ora essa, tia Pedra! Peccador, grande peccador!

Dobrada na cadeirinha baixa, com as farripas brancas descendo do lenço, pela face toda chupada de gelhas e pelluda, a tia Anna bateu no joelho agudo:

—Não senhor! não senhor! que quem mostrou aquella caridade pelo filho do Casco, merece estar em altar!

O Fidalgo ria, beijocava pequenadas encardidas, apertava mãos asperas e rugosas como raizes, accendia o cigarro á braza das lareiras, conversando, com intimidade, das molestias e dos derriços. Depois, no calor e pó da estrada, pensava:—«É curioso! parece haver amisade, n'esta gente!»

Ás quatro horas, derreado, decidiu cessar o giro, recolher á Torre pela estrada mais fresca da Bica Santa. E passára o logarejo do Cerdal, quando na volta aguda do Caminho, rente ao souto de azinheiros, quasi esbarrou com o Dr. Julio, tambem a cavallo, tambem no seu giro, de quinzena d'alpaca, alagado em suor, debaixo d'um guarda-sol de sêda verde. Ambos detiveram as egoas, se saudaram amavelmente.

—Muito gosto em o vêr, Snr. Dr. Julio...

—Egualmente, com muita honra, Snr. Gonçalo Ramires...

—Então tambem na tarefa?...

O Dr. Julio encolheu os hombros:

—Que quer V. Ex.a? Se me metteram n'esta! E sabe V. Ex.a como isto acaba?... Acaba em eu mesmo, no outro Domingo, votar em V. Ex.a.

O Fidalgo riu. Ambos se debruçaram, para se apertarem as mãos com alegria, com estima.

—Que calor este, Snr. Dr. Julio!

—Horroroso, Snr. Gonçalo Ramires... E que massada!

Assim o Fidalgo empregou essa semana nas visitas aos Eleitores—«os grandes e os miudos.» E dois dias antes da Eleição, n'uma sexta-feira á tarde, com um tempo já macio e fresco, partiu para Oliveira—onde chegára, na vespera, o André Cavalleiro, depois da sua tão longa, tão fallada demora em Lisboa.

Nos Cunhaes, apenas saltára da caleche, logo se enfureceu ao saber, pelo bom João da Porta—«que as Snr.as Louzadas estavam em cima, de visita, com a Snr.a D. Graça...»

—Ha muito?

—Já lá estão pegadas ha meia hora boa, meu senhor.

Gonçalo enfiou surrateiramente para o seu quarto, pensando:—«Que desavergonhadas! Chegou o André, veem logo cocar!» E já se lavára, mudára o fato cinzento,—quando o Barrôlo appareceu, esbaforido, desusadamente radiante, de sobrecasaca, de chapeu alto, com as bochechas accesas, alvoroçadamente radiantes:

—Eh, seu Barrôlo, que janota!

—Parece bruxedo! gritou o Barrôlo, depois d'um abraço, que repetiu, com desacostumado fervor. Estava agora mesmo para te mandar um telegramma, que viesses...

—Para quê?

O Barrôlo gaguejou, com um riso reprimido que o illuminava, o inchava:

—Para quê? P'ra nada... Quero dizer, para a Eleição! Pois a Eleição é além d'ámanhã, menino! O Cavalleiro chegou hontem. Agora volto eu do Governo Civil. Estive no Paço com o Snr. Bispo, depois passei pelo Governo Civil... Optimo, o André! Aparou o bigode, parece mais moço. E traz novidades... Traz grandes novidades!

E o Barrôlo esfregava as mãos, n'um tão faiscante alvoroço, com tanto riso escapando dos olhos e da face relusente, que o Fidalgo o encarou curioso, impressionado:

—Ouve lá, Barrolinho! Tu tens alguma cousa boa para me annunciar?

Barrôlo recuou, negou com estrondo, como quem bruscamente fecha uma porta. Elle? Não! Não sabia nada! Só a Eleição! Na Murtosa votação tremenda...

—Ah! pensei, murmurou Gonçalo. E a Gracinha?

—A Gracinha tambem não!

—Tambem não quê, homem? Como está? Simplesmente como está?

—Ah! está com as Louzadas. Ha mais de meia hora, aquellas bebedas!... Naturalmente por causa do Bazar do Asylo Novo... Esta massada dos Bazares... E ouve lá, Gonçalinho! Tu ficas até Domingo?

—Não, volto ámanhã para a Torre.

—Oh!...

—Pois dia d'Eleicão, homem! devo estar em casa, no meu centro, no meio das minhas freguezias...

—É pena, murmurou o Barrôlo. Logo se sabia juntamente com a Eleição... Eu dava um jantar tremendo...

—Logo se sabia, o quê?

O Barrôlo emmudeceu, com outro riso nas bochechas, que eram duas brazas gloriosas. Depois novamente gaguejou, gingando:

—Logo se sabia... Nada! O resultado, o apuramento. E grande brodio, grande foguetorio. Eu, na Murtosa, abro pipa de vinho.

Então Gonçalo risonhamente prendeu o Barrôlo pelos hombros:

—Dize lá, Barrolinho. Dize lá. Tu tens uma cousa boa para contar ao teu cunhado.

O outro escapou, protestando com alarido: Que teima, que tolice. Elle não sabia nada. O André não lhe contára nada!

—Bem, concluiu o Fidalgo, certo de um amavel mysterio, que pairava. Então descemos. E se essas carraças das Louzadas ainda estiverem lá pegadas, manda dizer pelo escudeiro á sala, bem alto, á Gracinha, que cheguei, que lhe desejo fallar immediatamente no meu quarto: com esses monstros não ha considerações.

O Barrôlo balbuciou, hesitando:

—O Snr. Bispo gosta d'ellas... Muito amavel commigo, ainda ha pouco, o Snr. Bispo.

Mas, logo nas escadas, sentiram o piano, Gracinha cantarolando. Já se libertára das Louzadas. Era uma antiga canção patriotica da Vendeia, que outr'ora na Torre, ella e Gonçalo entoavam com emoção, quando os inflammava o amor fidalgo e romantico dos Bourbons e dos Stuarts: