Monsieur de Charette a dit
à
ceux d'Ancenes
"Mes Amis!...
Monsieur de Charette a dit...
Gonçalo franziu vagarosamente o reposteiro da sala, rematando a estrophe, com o braço erguido como uma bandeira:
"Mes amis!
Le Roy va rammener les Fleurs de Lys!"
Gracinha saltou do mocho, n'uma surpresa.
—Não te esperavamos! imaginei que passavas a Eleição na Torre... E por lá?
—Na Torre, tudo bem, com a ajuda de Deus... Mas eu com trabalho immenso. Acabei o meu romance; depois visitas aos Eleitores.
Barrôlo, que não socegava pela sala, rompeu para elles, com o mesmo riso suffocado:
—Queres tu saber, Gracinha? Tem estado este homem, desde que chegou, n'uma curiosidade, a ferver. Imagina que eu tenho uma boa nova, uma grande nova para lhe contar... Eu não sei nada, a não ser a Eleição! Pois não é verdade, Gracinha?
Gonçalo, muito serio, prendeu o queixo da irmã:
—Sabes tu, dize lá.
Ella sorriu, córada... Não, não sabia nada, só a Eleição.
—Dize lá!
—Não sei... São tolices do José.
Mas então, ante aquelle sorriso fraco, rendido, que confessava—o Barrôlo não se conteve, desafogou como um morteiro estoira.—Pois bem! sim! com effeito!—Grande novidade! Mas o André, que a trouxera de Lisboa, fresquinha a saltar, queria elle, só elle, causar a surpresa a Gonçalo...
—De modo que eu não posso! Jurei ao André. A Gracinha sabe, que eu já lhe contei hontem... Mas tambem não póde, tambem jurou. Só o André. Elle vem logo tomar chá, e rebenta a bomba... Que é uma bomba! e graúda!
Gonçalo, roído de curiosidade, murmurou simplesmente, encolhendo os hombros:
—Bem, já sei, é uma herança! Tens quinze tostões d'alviçaras, Barrôlo.
Mas durante o jantar e depois na sala tomando café, emquanto Gracinha recomeçára as velhas canções patrioticas, agora as jacobitas, em louvor dos Stuarts—Gonçalo anciou pela apparição do Cavalleiro. Nem receava que a esse encontro se misturasse amargura, despeito suffocado. Todo o seu furor contra o Cavalleiro, acceso na dolorosa tarde do Mirante, revolvido na Torre durante torturados dias, logo se dissipára lentamente depois da sua tocante conversa com a irmã, na manhã historica da briga da Grainha. Gracinha então, com grandes lagrimas de pureza e de verdade, jurára reserva, retrahimento. Gonçalo, abandonando Oliveira, mostrava tambem uma resistencia louvavel contra o sentimento ou a vaidade que o transviára. Demais elle não podia romper novamente com o Cavalleiro, andando ainda nos mexericos e espantos d'Oliveira aquella reconciliação ruidosa que chamára o Cavalleiro á intimidade dos Cunhaes. E por fim de que valiam furores ou magoas? Nenhum rugir ou gemer seu annullariam o mal que se consummára no Mirante—se porventura se consummára. E assim toda a cólera contra o André se dissipára n'aquella sua leve e doce alma, onde os sentimentos, sobretudo os mais escuros, os mais carregados, sempre facilmente se desfaziam como nuvens em ceu de estio...
Mas quando, perto das nove horas, o Cavalleiro penetrou na sala, vagaroso e magnifico, com o bigode encurtado mas mais retorcido, uma gravata vermelha entufando estridentemente no largo peito que entufava, Gonçalo sentiu uma renovada aversão por toda aquella petulancia recheada de falsidade—e apenas poude bater mollemente, desenxabidamente, nas costas do velho amigo, que o apertava n'um abraço d'apparatosa ternura. E em quanto André, torcendo as luvas claras, languidamente enterrado na poltrona que o Barrôlo lhe achegou com carinho, contava de Lisboa e de Cascaes, tão alegre, e partidas de bridge e da Parada e d'El-Rei—Gonçalo revivia a tarde do Mirante, o seu pobre coração a bater contra a persiana mal fechada, a bruta supplica murmurada atravez d'aquelles bigodes atrevidos, e emmudecera, como empedernido, esmigalhando nervosamente entre os dentes o charuto apagado. Mas Gracinha conservava uma serenidade attenta, sem nenhum dos seus chammejantes rubores, dos seus desgraçados enleios de modo e gesto, apenas levemente secca, d'uma seccura preparada e posta. Depois André alludira muito desprendidamente ao seu regresso a Lisboa, depois da Eleição, «porque o tio Reis Gomes, o José Ernesto, esses crueis amigos, lhe andavam atirando para os hombros todo o trabalho da Nova Reforma Administrativa.»
Entre elle e Gracinha, separados por um curto tapete, parecia cavada uma funda legua de fosso, onde rolára, se afundára todo aquelle romance do verão, sem que na face d'ambos restasse um afogueado vestigio do seu ardor. E Gonçalo, insensivelmente contente pela apparencia, terminou por abandonar a cadeira onde se impedernira, accendeu o charuto na vela do piano, perguntou pelos amigos de Lisboa. Todos (segundo o Cavalleiro) anciavam pela chegada de Gonçalo.
—Lá encontrei tambem o Castanheiro... Enthusiasmado com o teu Romance. Parece que nem no Herculano, nem no Rebello existe nada tão forte, como reconstrucção historica. O Castanheiro prefere mesmo o teu realismo epico ao do Flaubert, na Salammbô. Emfim, enthusiasmado! E nós, está claro, ardendo por que appareça a sublime obra.
O Fidalgo córou profundamente, murmurando—«Que tolice!» Depois roçou pela poltrona em que se enterrava o André, afagou suavemente o largo hombro do André:
—Pois, tens feito cá muita falta, meu velho! Ha dias passei em Corinde, tive saudades...
Então o Barrôlo, que não socegava, vermelho, a estoirar rebolando pela sala, espiando ora o Cavalleiro, ora o Gonçalo, com um riso mudo e avido, não se conteve mais, gritou:
—Bem, basta de prologos... Vamos lá agora á grande surpresa, André! Eu tenho estado toda a tarde a rebentar... Mas emfim, jurei e calei! Agora não posso... Vamos lá. E tu, Gonçalinho, vae preparando os quinze tostões.
Gonçalo, com a curiosidade de novo refervendo, apenas sorria, desprendidamente:
—Com effeito! Parece que tens uma bella novidade.
O Cavalleiro alargou lentamente os braços, sempre enterrado na vasta poltrona, sem pressa:
—Oh! é a cousa mais simples, mais natural... A Snr.a D. Graça já sabe, não é verdade?... Não ha motivo para surpresa... Tão legitima, tão natural!
Gonçalo exclamou, já impaciente:
—Mas emfim, venha lá, dize.
O Cavalleiro insistia, indolente. Todo o espanto era que só agora se pensasse em a realisar, cousa tão devida, tão adequada. Pois não lhe parecia á Snr.a D. Graça?
Gonçalo, n'uma braza, berrou:
—Mas quê? que diabo?
O Cavalleiro, que se despegára vagarosamente da poltrona, puxou os punhos, e deante de Gonçalo, no silencio attento, alteando o peito, grave, quasi official, começou:
—Meu tio Reis Gomes, e o José Ernesto, tiveram uma ideia muito natural, que communicaram a El-Rei, e que El-Rei approvou... Que approvou mesmo ao ponto de a appetecer, de se assenhorear d'ella, de desejar que fosse só sua. E hoje é só d'El-Rei. El-Rei pois pensou, como nós pensamos, que um dos primeiros fidalgos de Portugal, decerto mesmo o primeiro, devia ter um titulo que consagrasse bem a antiguidade illustre da Casa, e consagrasse tambem o merito superior de quem hoje a representa... Por isso, meu querido Gonçalo, já te posso annunciar, e quasi em nome d'El-Rei, que vaes ser Marquez de Treixedo.
—Bravo! bravo! bramou o Barrôlo, com palmas delirantes. Saltem para cá os quinze tostões, Snr. Marquez de Treixedo!
Uma onda de sangue cobria a fina face de Gonçalo. N'um relance sentiu que o Titulo era um dom do Cavalleiro, não ao chefe da casa de Ramires, mas ao irmão complacente de Gracinha Ramires... E sobre tudo sentia a incoherencia de que, ao chefe d'uma Casa dez vezes secular, mãe de Dynastias, edificadora do Reino, com mais de trinta dos seus varões mortos sob a armadura, se atirasse agora um ouco titulo, atravez do Diario do Governo, como a um tendeiro enriquecido que subsidiou eleições. Todavia saudou o Cavalleiro, que esperava a effusão, os abraços.—Oh! Marquez de Treixedo! certamente muito elegante, muito amavel... Depois, esfregando as mãos, com um sorriso de graça e d'espanto... Mas, meu caro André, com que auctoridade me faz El-Rei Marquez de Treixedo?
O Cavalleiro levantou vivamente a cabeça n'uma offendida surpresa:
—Com que auctoridade? Simplesmente com a auctoridade que tem sobre nós todos, como Rei de Portugal que ainda é, Deus louvado!
E Gonçalo, muito simplesmente, sem fumaça ou pompa, com o mesmo sorriso de suave gracejo:
—Perdão, Andrésinho. Ainda não havia Reis de Portugal, nem sequer Portugal, e já meus avós Ramires tinham solar em Treixedo! Eu approvo os grandes dons entre os grandes fidalgos; mas cumpre aos mais antigos começarem. El-Rei tem uma quinta ao pé de Beja, creio eu, o Roncão. Pois dize tu a El-Rei, que eu tenho immenso gosto em o fazer, a elle, Marquez do Roncão.
O Barrôlo embasbacára, sem comprehender, com as bochechas descahidas e murchas. Da beira do canapé, Gracinha, toda córada, faiscava de gosto, por aquelle lindo orgulho que tão bem condizia com o seu, mais lhe fundia a alma com a alma do irmão amado. E André Cavalleiro, furioso, mas vergando os hombros com ironica submissão, apenas murmurou:—«Bem, perfeitamente!... Cada um se entende a seu modo...»
O escudeiro entrava com a bandeja do chá.
E no Domingo foi a Eleição.
Ainda com uma desconfiança, uma reserva supersticiosa, o Fidalgo desejou atravessar esse dia muito solitariamente, quasi escondido, e no sabbado, em quanto todos os amigos de Villa-Clara, mesmo os d'Oliveira, o consideravam estabelecido nos Cunhaes, e em communicação azafamada com o Governo Civil, montou a cavallo ao escurecer, e trotou surrateiramente para Santa Ireneia.
Mas o Barrôlo (ainda abalado com «aquelle despauterio do Gonçalo, que era uma offensa para o Cavalleiro! até para El-Rei!») ficára com a missão de telegraphar para a Torre as noticias successivas das assembleias, á maneira que ellas acudissem ao Governo Civil. E, com ruidoso zelo, logo depois da missa, estabeleceu entre os Cunhaes e o velho Convento de S. Domingos um serviço de creados formigando sem repouso. Gracinha, na sala de jantar, ajudada por Padre Sueiro, copiava com amor, n'uma lettra muito redonda, os telegrammas mandados pelo Cavalleiro, que ajuntava a lapis alguma nota amavel—«Tudo optimamente!»—Victoria cresce.—Parabens a V. Ex.as.
Pela estrada de Villa-Clara á Torre, incessantemente, o moço do Telegrapho se esbaforia sobre a perna manca. O Bento rompia pela livraria, berrando: «outro telegramma, Snr. Doutor». Gonçalo, nervoso, com um immenso bule de chá sobre a banca, a bandeja já alastrada de cigarros meio fumados, lia o telegramma ao Bento. O Bento, com vivas pelo corredor, corria a bramar o telegramma á Rosa.
E assim, quando cerca das oito horas, o Fidalgo consentiu em jantar—já conhecia o seu triumpho explendido. E o que o impressionava, relendo os telegrammas, era o enthusiasmo carinhoso d'aquelles influentes, povos que elle mal rogava, e que convertiam o acto da Eleição quasi n'um acto d'Amor. Toda a freguezia dos Bravaes marchára para a Egreja, cerrada como uma hoste, com o José Casco na frente erguendo uma enorme bandeira, entre dous tambores que estouravam. O Visconde de Rio-Manso entrára no adro da Egreja de Ramilde na sua victoria, com a neta toda vestida de branco, seguido por uma vistosa fila de char-à-bancs, onde se apinhavam eleitores sob toldos de verdura. Na Finta todos os casaes se esvasiavam, as mulheres carregadas d'ouro, os rapazes de flôr na orelha, correndo á Eleição do Fidalgo entre o repenicar das violas, como á romaria d'um Santo. E deante da taberna do Pintainho, em face á Egreja, a gente da Velleda, da Riosa, do Cercal, erguera um arco de buxo, com distico vermelho, sobre panninho:—«Viva o nosso Ramires, flôr dos homens!»
Depois, em quanto jantava, um moço da quinta voltou de Villa-Clara, alvoroçado, contando o delirio, as philarmonicas pelas ruas, a Assembleia toda embandeirada, e na casa da Camara, sobre a porta, um transparente com o retrato de Gonçalo, que uma multidão acclamava.
Gonçalo apressou o café. Por timidez, receoso dos vivorios, não ousava correr a Villa-Clara—a espreitar. Mas accendeu o charuto, passou á varanda, para respirar a doce noite de festa, que andava tão cheia de clarões e rumores em seu louvor. E ao abrir a porta envidraçada quasi recuou, com outro espanto. A Torre illuminára! Das suas fundas frestas, atravez das negras rexas de ferro, sahia um clarão; e muito alta, sobre as velhas ameias, refulgia uma serena corôa de lumes! Era uma surpresa, preparada, com delicioso mysterio, pelo Bento, pela Rosa, pelos moços da quinta,—que agora, todos, no escuro, por baixo da varanda, contemplavam a sua obra, allumiando o ceu sereno. Gonçalo percebeu os passos abafados, o pigarro da Rosa. Gritou alegremente da borda da varanda:
—Oh, Bento! Oh, Rosa!... Está ahi alguem?
Um risinho esfusiou. A jaqueta branca do Bento surdio da sombra.
—O Snr. Doutor queria alguma cousa?
—Não, homem! Queria agradecer... Foram vocês, hein? Está linda a illuminacão! Mas linda. Obrigado, Bento. Obrigado, Rosa! Obrigado, rapazes! De longe deve fazer um effeito soberbo.
Mas o Bento ainda se não contentava com aquellas lamparinas frouxas. A Torre, para sobresahir, necessitava chammas fortes de gaz. O Snr. Doutor nem imaginava a altura, depois em cima, a immensidão do eirado.
Então, de repente, Gonçalo sentiu um desejo de subir a esse immenso eirado da Torre. Não entrára na Torre desde estudante—e sempre ella lhe desagradára por dentro, tão escura, de tão duro granito, com a sua nudez, silencio e frialdade de jazigo, e logo no pavimento terreo os negros alçapões chapeados de ferro que levavam ás masmorras. Mas agora as luzes nas frestas aqueciam, reviviam aquella derradeira ossada, Honra de Ordonho Mendes. E de entre as suas ameias, mais alto que da varanda, lhe parecia interessante respirar aquella rumorosa sympathia esparsa, que em torno, pelas freguezias rolava, subindo para elle, atravez da noite, como um incenso. Enfiou um paletot, desceu á cosinha. O Bento, o Joaquim da horta, divertidos, agarraram grandes lanternas. E com elles atravessou o pomar, penetrou pela atarracada poterna, de funda hombreira, começou a trepar a esguia escadaria de pedra, que tanta sola de ferro polira e poira.
Já desde seculos se perdera a memoria do logar que occupava aquella torre nas complicadas fortificações da Honra e Senhorio de Santa Ireneia. Não era de certo (segundo padre Sueiro) a nobre torre albarran, nem a de Alcaçova, onde se guardava o thesouro, o cartorio, os sacos tão preciosos das especiarias do Oriente—e talvez, obscura e sem nome, apenas defendesse algum angulo de muralha, para os lados em que o Castello enfrontava com as terras semeadas e os olmedos da Ribeira. Mas, sobrevivente ás outras mais altivas, comprehendida nas construcções do Paço formoso que se erguera d'entre o sombrio Castello Affonsino, e que dominava Santa Ireneia durante a dynastia d'Aviz, ligada ainda por claras arcarias d'um terraço ao Palacio de gosto italiano, em que Vicente Ramires converteu o Paço manuelino depois da sua campanha de Castella: isolada no pomar, mas sobranceando o casarão que lentamente se edificára depois do incendio do Palacio em tempo d'El-Rei D. José, e a derradeira certamente onde retiniram armas e circularam os homens do Terço dos Ramires—ella ligava as edades e como que mantinha, nas suas pedras eternas, a unidade da longa linhagem. Por isso o povo lhe chamára vagamente a «Torre de D. Ramires». E Gonçalo, ainda sob a impressão dos avós e dos tempos que resuscitára na sua Novella, admirou com um respeito novo a sua vastidão, a sua força, os seus empinados escalões, os seus muros tão espessos, que as frestas esguias na espessura se alongavam como corredores, escassamente allumiadas pelas tigelinhas d'azeite, com que o Bento as despertára. Em cada um dos trez sobrados parou, penetrando curiosamente, quasi com uma intimidade, nas salas núas e sonoras, de vasto lagedo, de tenebrosa abobada, com os assentos de pedra, estranho buraco ao meio, redondo como o d'um poço e ainda pelas paredes riscadas de sulcos de fumos, os anneis dos tocheiros. Depois em cima, no immenso eirado que a fieira de lamparinas, cingindo as ameias, enchia de claridade, Gonçalo, erguendo a gola do paletot na aragem mais fina, teve a dilatada sensação de dominar toda a Provincia, e de possuir sobre ella uma supremacia paternal, só pela soberana altura e velhice da sua torre, mais que a Provincia e que o Reino. Lentamente caminhou em roda das ameias, até ao miradouro, a que um candieiro de petroleo, sobre uma cadeira de palhinha posta em frente á fresta, estragava o entono feudal. No céo macio, mas levemente enevoado, raras estrellas luziam, sem brilho. Por baixo a quinta, toda a largueza dos campos, a espessura dos arvoredos se fundiam em escuridão. Mas na sombra e silencio, por vezes além, para o lado dos Bravaes, lampejavam foguetes remotos. Um clarão amarellado e fumarento, caminhando mais longe, entestando para a Finta, era de certo um rancho com archotes festivos. Na alta Egreja da Velleda tremeluzia uma illuminação vaga, rala. Outras luzes, incertas através do arvoredo, riscavam o velho arco do Mosteiro, em Santa Maria de Craquêde. Da terra escura subia, por vezes, um errante som de tambores. E lumes, fachos, abafados rufos, eram dez freguezias celebrando amoravelmente o Fidalgo da Torre, que lhes recebia o amor e o preito no eirado da sua torre, envolto em silencio e sombra.
O Bento descera, com o Joaquim, para reforçar as lamparinas nas frestas dos muros, onde ellas esmoreciam na espessura. E Gonçalo sósinho, acabando o charuto, recomeçou a rolda, lento, em torno ás ameias, perdido n'um pensamento que já o agitára estranhamente, atravez d'aquelle sobresaltado Domingo... Era pois popular! Por todas essas aldeias, estendidas á sombra longa da Torre, o Fidalgo da Torre era pois popular! E esta certeza não o penetrava d'alegria, nem de orgulho,—antes o enchia agora, n'aquella serenidade da noite, de confusão, d'arrependimento! Ah! se adivinhasse—se elle adivinhasse!... Como caminharia, com a cabeça bem levantada, com os braços bem estendidos, sósinho, em confiança risonha para todas essas sympathias que o esperavam, tão certas, tão dadas. Mas não! Sempre se julgára cercado da indifferença d'aquellas aldeias, onde elle, apesar do antiquissimo nome, era o costumado moço, que volta de Coimbra e vive silenciosamente da sua renda, passeando na sua egoa. A essas indifferenças tão naturaes nunca elle imaginára arrancar o punhado de votos, o punhado de papelinhos que necessitava para entrar na Politica, onde elle conquistaria pela destreza o que os velhos Ramires recebiam por herança—fortuna e poder. Por isso se agarrára tão avidamente á mão do Cavalleiro, á mão do Snr. Governador Civil—para que S. Ex.a, o bom amigo, o mostrasse, o impozesse como o homem necessario, o querido do Governo, o melhor entre os bons, a quem as freguezias deviam offerecer n'um Domingo o punhado de votos.
E na impaciencia d'esse favor abafára a memoria de amargos aggravos; deante d'Oliveira pasmada abraçára o homem detestado desde annos, que andava chasqueando e demolindo, por praças e jornaes: facilitára a resurreição de sentimentos que para sempre deviam jazer enterrados; e envolvera o ser que mais amava, a sua pobre e fraca irmãsinha, em confusão e miseria moral... Torpezas e damnos—e para quê? Para surripiar um punhado de votos que dez freguezias lhe trariam correndo, gratuitamente, effusivamente, entre vivas e foguetes, se elle acenasse e lh'os pedissse...
Ah! eis ahi... Fôra a desconfiança, essa encolhida desconfiança de si mesmo,—que desde o collegio, atravez da vida, lhe estragára a vida. Era a mesma desgraçada desconfiança, que ainda semanas antes, deante de uma sombra, um pau erguido, uma risada n'uma taberna, o forçava a abalar, a fugir, arripiado e praguejando contra a sua fraqueza. Por fim, um dia, n'uma volta d'estrada, avança, ergue o chicote—e descobre a sua força! E agora, penetra por entre o povo, agarrado timidamente á mão poderosa, por se imaginar impopular—e descobre a sua popularidade immensa. Que vida enganada, e tanto a sujára—por não saber!
O Bento não apparecia, ainda azafamado em illuminar condignamente as rexas da Torre. Gonçalo atirou a ponta do charuto, e com as mãos nas algibeiras do paletot, parou junto do miradouro, olhou vagamente para as estrellas. A nevoa adelgaçára quasi sumida,—lumes mais vivos palpitavam no ceu mais profundo. De lumes e ceus descia essa sensação de infinidade, d'eternidade, que penetra, como uma surpresa, nas almas desacostumadas da sua contemplação. Na alma de Gonçalo passou, muito fugidiamente, o espanto d'essas eternas immensidades sob que se agita, tão vaidosa da sua agitação, a rasteira, a sombria poeira humana. Longe, algum derradeiro foguete ainda lampejava, logo apagado na escuridão serena. As luzinhas sobre a capella de Velleda, sobre o arco de Santa Maria de Craquêde, esmoreciam, já ralas. Todo o remoto rumor de musicatas se perdera, na mudez mais funda dos campos adormecidos. O dia de triumpho findava, breve como os luminares e os foguetes.—E Gonçalo, parado, rente do miradouro, considerava agora o valor d'esse triumpho por que tanto almejára, porque tanto sabujára. Deputado! Deputado por Villa-Clara, como o Sanches Lucena. E ante esse resultado, tão miudo, tão trivial,—todo o seu esforço tão desesperado, tão sem escrupulos, lhe parecia ainda menos immoral que risivel. Deputado! Para quê? Para almoçar no Bragança, galgar de tipoia a ladeira de S. Bento, e dentro do sujo convento escrevinhar na carteira do Estado alguma carta ao seu alfaiate, bocejar com a inanidade ambiente dos homens e das ideias, e distrahidamente acompanhar, em silencio ou balando, o rebanho do S. Fulgencio, por ter desertado o rebanho identico do Braz Victorino. Sim, talvez um dia, com rasteiras intrigas e sabujices a um chefe e á senhora do chefe, e promessas e risos atravez de Redacções, e algum Discurso esbrazeadamente berrado—lograsse ser Ministro. E então? Seria ainda a tipoia pela calçada de S. Bento, com o correio atraz na pileca branca, e a farda mal-feita, nas tardes d'assignatura, e os recurvados sorrisos d'amanuenses pelos escuros corredores da Secretaria, e a lama escorrendo sobre elle de cada gazeta d'opposição... Ah! que pêca, desinteressante vida, em comparação d'outras cheias e soberbas vidas, que tão magnificamente palpitavam sob o tremeluzir d'essas mesmas estrellas! Em quanto elle se encolhia no seu paletot, deputado por Villa-Clara, e no triumpho d'essa miseria—Pensadores completavam a explicação do Universo; Artistas realisavam obras de belleza eterna; Reformadores aperfeiçoavam a harmonia social; Santos melhoravam santamente as almas; Physiologistas diminuiam o velho soffrer humano; Inventores alargavam a riqueza das raças; Aventureiros magnificos arrancavam mundos de sua esterilidade e mudez... Ah! esses eram os verdadeiramente homens, os que viviam deliciosas plenitudes de vida, modelando com as suas mãos incançadas fórmas sempre mais bellas ou mais justas da humanidade. Quem fôra como elles, que são os sobre-humanos! E tal acção tão suprema requeria o Genio, o dom que, como a antiga chamma, desce de Deus sobre um eleito? Não! Apenas o claro entendimento das realidades humanas—e depois o forte querer.
E o Fidalgo da Torre, immovel no eirado da Torre, entre o ceu todo estrellado, e a terra toda escura, longamente revolveu pensamentos de Vida superior—até que enlevado, e como se a energia da longa raça, que pela Torre passára, refluisse ao seu coração, imaginou a sua propria encaminhada emfim para uma acção vasta e fecunda, em que soberbamente gozasse o goso de verdadeiro viver, e em torno de si creasse vida, e accrescentasse um lustre novo ao velho lustre de seu nome, e riquezas puras o dourassem e a sua terra inteira o bem-louvasse por que elle inteiro e n'um esforço pleno bem servira a sua terra...
O Bento surdiu da portinha baixa do eirado, com a lanterna:
—O Snr. Doutor ainda se demora?
—Não. A festa acabou, Bento.
Nos começos de Dezembro, com o primeiro numero dos Annaes, appareceu a Torre de D. Ramires. E todos os jornaes, mesmo os da opposição, louvaram «esse estudo magistral (como affirmou a Tarde) que, revelando um erudito e um artista, continuava, com uma arte mais moderna e colorida, a obra de Herculano e de Rebello, a reconstituição moral e social do velho Portugal heroico.» Depois das festas de Natal, que elle passou alegremente nos Cunhaes, ajudando Gracinha a cosinhar bolos de bacalhau por uma receita sublime do padre José Vicente, da Finta, os amigos d'Oliveira, os rapazes do Club e da Arcada offereceram ao Deputado por Villa-Clara, na sala da Camara, adornada de buxos e bandeiras, um banquete, a que assistia o Cavalleiro, de gran-cruz, e em que o Barão das Marges (que presidia) saudou «o prestigioso moço que, talvez em breve, nas cadeiras do Poder levantasse do marasmo este brioso paiz, com a pujança, a valentia, que são proprias da sua raça nobilissima!»
No meado de Janeiro, por uma agreste noite de chuva, Gonçalo partiu para Lisboa; e atravez do inverno, em Lisboa, andou sempre nos Carnet-Mondain e High-Life dos jornaes, nas noticias de jantares, do raouts, de tiros aos pombos, de Caçadas d'El-Rei, tão notado nos movimentos mais simples da sua elegancia, que os Barrôlos assignaram o Diario Illustrado para saber quando elle passeava na Avenida. Em Villa-Clara, na Assembleia, o José Gouveia já encolhia os hombros, rosnando:—«Desandou em janota!»—Mas nos fins d'Abril uma noticia de repente alvoroçou Villa-Clara, espantou na quieta Oliveira os rapazes do Club e da Arcada, perturbou tão inesperadamente Gracinha, então em Amarante com o Barrôlo, que n'essa noite ambos abalaram para Lisboa—e na Torre atirou a Rosa para um banco de pedra da cosinha, lavada em lagrimas, sem comprehender, gemendo:
—Ai o meu rico menino, o meu rico menino, que o não torno mais a vêr!
Gonçalo Mendes Ramires, silenciosamente, quasi mysteriosamente, arranjára a concessão d'um vasto praso de Macheque, na Zambezia, hypothecára a sua quinta historica de Treixedo, e embarcava em começos de Junho no paquete Portugal, com o Bento, para a Africa.
XII
Quatro annos passaram ligeiros e leves sobre a velha Torre, como vôos d'ave.
N'uma doce tarde dos fins de Septembro, Gracinha, que chegára na vespera de Oliveira acompanhada pelo bom Padre Sueiro, descansava na varanda da sala de jantar, estendida sobre o canapé de palhinha, ainda com um grande avental branco, tapando o vestido até ao pescoço, um velho avental do Bento. Todo o dia, d'avental, atravez do casarão, ajudada pela Rosa e pela filha da Crispola, s'esfalfára, arrumando e limpando, com tanto gosto e fervor no trabalho, que ella mesma sacudira o pó a todos os livros da livraria, o seu socegado pó de quatro annos. O Barrôlo tambem se occupára, dando sentenças nas obras da cavallariça, que a valente egoa da briga da Grainha em breve partilharia com uma egoa ingleza, de meio sangue, comprada em Londres. Tambem Padre Sueiro remexera, pelo Archivo, zelosamente, com um espanejador. E até o Pereira da Riosa, o bom rendeiro, apressava desde madrugada dois moços na final limpeza da horta, agora muito cuidada, já com meloal, já com morangal, e duas novas ruas, ambas bordadas de roseiras e recobertas de latada que a parra densa já recobria.
Com efeito a Torre, entre a alvoroçada alegria de todos, enfeitava a sua velhice—por que no Domingo, depois dos seus quatro annos d'Africa, Gonçalo regressava á Torre.
E Gracinha, estendida no canapé com o seu velho avental branco, sorrindo pensativamente para a quinta silenciosa, para o ceu todo córado sobre Valverde, recordava esses quatro annos, desde a manhã em que abraçára Gonçalo, suffocada e a tremer, no beliche do Portugal... Quatro annos! Assim passados, e nada mudára no mundo, no seu curto mundo d'entre os Cunhaes e a Torre, e a vida rolára, e tão sem historia como rola um rio lento n'uma solidão:—Gonçalo na Africa, na vaga Africa, mandando raras cartas, mas alegres, e com um enthusiasmo de fundador de Imperio; ella nos Cunhaes, e o seu Barrôlo, n'um tão quieto e costumado viver, que eram quasi d'agitação os jantares em que reuniam os Mendonças, os Marges, o coronel do 7, outros amigos, e á noite na sala se abriam duas mezas de panno verde para o voltarete e para o boston.
E n'este manso correr de vida se desfizera mansamente, quasi insensivelmente, a sombria tormenta do seu coração. Nem ella agora comprehendia como um sentimento, que atravez das suas anciedades ella justificava, quasi secretamente santificava por o saber unico, e o desejar eterno, assim se sumira, insensivelmente, sem dilacerações, deixára apenas um leve arrependimento, alguma esfumada saudade, tambem estranheza e confusão, restos de tanto que ardera, formando uma cinza fina... A successão das cousas rolára, como o vento ás lufadas n'um campo, e ella rolára, levada com a inercia d'uma folha secca.
Logo depois do derradeiro Natal passado com Gonçalo, André, que ainda os acompanhára á Missa do Gallo e consoára nos Cunhaes, voltou para Lisboa, para essa «Reforma», de que se lastimava... No silencio que entre ambos então se alargou, corria já uma frialdade d'abandono... E quando André recolheu a Oliveira, ao seu Governo Civil, partia ella para Amarante, onde a santa mãe do Barrôlo adoecera, com uma vagarosa doença d'anemia e velhice, que em Maio a levou para o Senhor.
Em Junho fôra o commovido embarque de Gonçalo para a Africa,—e no tombadilho do paquete, entre o barulho e as bagagens, um encontro com André, que chegara d'Oliveira, dias antes, e contou muito alegremente do casamento da Mariquinhas Marges. Todo esse verão, como o Barrôlo decidira fazer obras consideraveis no velho palacete do Largo d'El-Rei, o passaram na quinta da Murtosa, que ella escolhera por causa da linda matta, dos altos muros de convento. A essa solidão attribuiu logo o Barrôlo a sua melancolia, a sua magreza, aquelle cansado scismar a que se abandonava, pelos bancos musgosos da matta, com um romance esquecido no regaço. Para que ella se distrahisse, se fortificasse com banhos do mar, alugou em Setembro, na Costa, o vistoso chalet do commendador Barros. Ella não tomou banhos, nem apparecia na praia, á fresca hora das barracas, entre as senhoras sentadas em cadeirinhas baixas:—e só á tarde passeava pelo comprido areal rente á vaga, acompanhada por dous enormes galgos que lhe dera Manoel Duarte. Uma manhã, ao almoço, ao abrir as Novidades, Barrôlo pulou, com um berro, um espanto. Era a queda inesperada do Ministerio do S. Fulgencio! André Cavalleiro apresentava logo a sua demissão pelo telegrapho. E ainda pelas Novidades souberam na Costa que S. Ex.a partira para uma «longa e pittoresca viagem», a viagem a Constantinopla, á Asia Menor, que elle annunciára ao jantar nos Cunhaes. Ella abrira um Atlas: com o dedo lento caminhou desde Oliveira até á Syria, por sobre fronteiras e montes: já André lhe parecia desvanecido, n'esses horisontes mais luminosos; fechou o Atlas, pensando simplesmente «como a gente muda!»
Em Novembro voltaram a Oliveira, n'um sabbado de chuva, e ella na carruagem sentia toda a melancolia e a frialdade do ceu penetrar no seu coração. Mas no Domingo acordou com um lindo sol nas vidraças. Para a missa das onze na Sé, ella estreou um chapéo novo; depois, no caminho para casa da tia Arminda, levantou os olhos para o casarão do Governo Civil: agora habitava lá outro Governador Civil, o Snr. Santos Maldonado, um moço louro que tocava piano.
Na outra primavera o Barrôlo, agora escravisado pela paixão d'obras, imaginou demolir o Mirante para construir outra estufa, mais vasta, com um repuxo entre palmeiras, que formaria «um jardim d'inverno catita.»
Os trabalhadores começaram por esvasiar o Mirante da velha mobilia que o guarnecia desde o tempo do tio Melchior: o immenso divan jazeu dois dias no jardim, encalhado contra uma sebe de buxo, e o Barrôlo, impaciente, com aquelle desusado traste, de molas quebradas, nem o consentiu nas arrecadações do sotão, mandou que o queimassem com outras cadeiras partidas, n'uma fogueira de festa, na noute dos annos de Gracinha. E ella andou em torno da fogueira. O estofo poído flammejou, depois o mogno pesado mais lentamente, com um leve fumo, até que uma braza ficou latejando, e a braza escureceu em cinza.
Logo n'essa semana as Lousadas, mais agudas, mais escuras, invadiram uma tarde os Cunhaes—e apenas espetadas no sophá, logo lhe contaram, com um riso feroz nos olhinhos furantes, do grande escandalo, o Cavalleiro! em Lisboa! sem rebuço! com a mulher do Conde de S. Romão! um fazendeiro de Cabo Verde!
N'essa noite, ella escreveu a Gonçalo uma carta muito longa que começava:—«Por cá estamos todos bem, e n'este rame-ram costumado...» E com effeito a vida recomeçára, no seu rame-ram, simples, contínua, e sem historia, como corre um rio claro n'uma solidão.
Á porta envidraçada da varanda o filho da Crispola espreitou—o filho da Crispola, que ficára sempre na Torre, como «andarilho», mas crescera muito para fóra da sua antiga jaqueta de botões amarellos, usava agora jaquetões velhos do Snr. Doutor, e já repuxava o buço:
—É que está lá em baixo o Snr. Antonio Villalobos, com o Snr. Gouveia e outro senhor, o Videirinha, e perguntam se podem fallar á senhora...
—O Snr. Villalobos! Sim! que subam, que entrem para aqui, para a varanda!
Ao atravessar a sala, onde dous esteireiros d'Oliveira pregavam uma esteira nova, o vozeirão do Titó já ribombava, notando os «preparativos da festa...» E quando entrou na varanda a sua face mais barbuda, mais requeimada, rebrilhava com a alegria d'encontrar emfim a Torre despertando d'aquella modorra, em que tudo dentro parecia tristemente apagado, até o lume das caçarolas:
—Peço desculpa da invasão, prima Graça. Mas passamos, de volta d'um passeio dos Bravaes, soubemos que a prima viera com o Barrôlo...
—Oh! gosto immenso, primo Antonio. Eu é que peço desculpa d'esta figura, assim despenteada, de grande avental... Mas todo o dia em arranjos, a preparar a casa... E o Snr. Gouveia, como tem passado? Não o vejo desde a Paschoa.
O administrador, que não mudára n'esses quatro annos, escuro, secco, como feito de madeira, sempre esticado na sobrecasaca preta, apenas com o bigode mais amarellado do cigarro, agradeceu á Snr.a D. Graça... E passára menos mal, desde a Paschoa. A não ser a desavergonhada da garganta...
—E então o nosso grande homem? quando chega? quando chega?
—No Domingo. Estamos todos em alvoroço... Então não se senta, Snr. Videira? Olhe, puxe aquella cadeira de vime. A varanda por ora não está arranjada.
Videirinha, logo depois da Eleição, recebera de Gonçalo o logar promettido, facil e com vagares, para não esquecer o violão. Era amanuense na Administração do Concelho de Villa-Clara. Mas convivia ainda na intimidade do seu chefe, que o utilisava para todos os serviços, mesmo de enfermeiro, e o mandava sempre com uma auctoridade secca, mesmo ceando ambos no Gago.
Timidamente arrastou a cadeira de vime, que collocou, com respeito, atraz da cadeira do seu Chefe. E depois de tirar as luvas pretas, que agora sempre trazia para realçar a sua posição, lembrou que o comboio chegava ao apeadeiro de Craquêde ás dez e quarenta, não trazendo atrazo. Mas talvez o Snr. Doutor apeasse em Corinde, por causa das bagagens...
—Duvido, murmurou Gracinha. Em todo o caso o José está com tenção de partir de madrugada, para o encontrar na bifurcação, em Lamello.
—Nós não! acudiu o Titó, que se sentára familiarmente no rebordo da varanda. Cá o nosso rancho vae simplesmente a Craquêde. Já é terra da familia, e sitio mais socegado para o vivorio... Mas então esse homem não se demorou em Lisboa, prima Graça?
—Desde Domingo, primo Antonio. Chegou no Domingo, de Paris, pelo Sud-Express. E teve uma chegada brilhante... Oh! muito brilhante! Hontem recebi eu uma carta da Maria Mendonça, uma grande carta em que conta...
—O que? A prima Maria Mendonça está em Lisboa?
—Sim, desde os fins d'Agosto, n'uma visita a D. Anna Lucena...
Vivamente, João Gouveia puxou a cadeira, n'uma curiosidade que de certo o remoera:
—É verdade, Snr.a D. Graça!—Então parece que a D. Anna Lucena comprou uma casa em Lisboa. anda em arranjos de mobilia?... V. Ex.a ouviu, Snr.a D. Graça?
Não, Gracinha não sabia. Mas era natural, agora que tanto se demorava em Lisboa, pouco se aproveitava da Feitosa, tão linda quinta...
—Então casa! exclamou o Gouveia, com immensa convicção. Se anda em arranjos de mobilia, então casa. É natural, quer posição. Depois, já lá vão quatro annos de viuvez, e...
Gracinha sorriu. Mas o Titó, que coçava lentamente a barba, voltou á carta da prima Maria Mendonça, contando a chegada.
—Sim! acudiu Gracinha, conta, esteve na Estação, no Rocio. Parece que o Gonçalo optimo, mais forte... Olhe, primo Antonio, leia a carta. Leia alto! Não tem segredos. É toda sobre o Gonçalo...
Tirára do bolso um pesado enveloppe, com sinete d'armas no lacre. Mas a prima Maria escrevia sempre depressa, n'uma lettra atabalhoada, com as linhas crusadas. Talvez o primo Antonio não comprehendesse...—E com effeito, deante das quatro folhas de papel erriçadas de negras linhas, parecendo uma sebe espinhosa, o Titó recuou, aterrado. Mas o João Gouveia immediatamente se offereceu, com a sua pericia em decifrar officios de regedores... Não havendo segredos.
—Não, não ha segredos, afiançou Gracinha, rindo. É unicamente sobre o Gonçalo, como n'um jornal.
O administrador folheou a immensa carta, passou os dedos sobre o bigode, com certa solemnidade:
«Minha querida Graça... A costureira do Silva diz que o vestido...»
—Não! acudiu Gracinha. É na outra pagina, no alto. Volte a pagina.
Mas o Administrador gracejou, ruidosamente. Oh! está claro, carta de senhora, logo os trapos... E a Snr.a D. Graça a assegurar que era toda sobre Gonçalo. Pois já veriam se pelo meio se não fallava ainda em vestidos... Ah! estas senhoras, com os trapos!...—Depois recomeçou, na outra pagina, com lentidão e gravidade:
«...Deves agora estar anciosa por saber da grande chegada do primo Gonçalo. Foi realmente brilhante, e parecia uma recepção de pessoa real. Eramos mais de trinta amigos. Está claro, appareceu toda a roda da nossa parentella; e se rebentasse de repente n'essa manhã uma revolução, os Republicanos apanhavam alli junta, na estação do Rocio, toda a flôr da nobresa de Portugal, da velha, da boa. De senhoras, era a prima Chellas, a tia Louredo, as duas Esposendes (com o tio Esposende, que apesar do rheumatismo e da vindima, veiu expressamente da quinta de Torres), e eu. Homens, todos. E como estava o Conde de Arega, que é secretario d'El-Rei e o primo Olhalvo, que é o seu Mordomo-Mór, e o Ministro da Marinha e o Ministro das Obras Publicas, ambos condiscipulos e intimos de Gonçalo, as pessoas na estação deviam imaginar que chegava El-Rei. O Sud-Express trouxe quarenta minutos de demora. De modo que parecia um salão, com toda aquella gente da sociedade, muito alegre, e o primo Arega, sempre tão amavel e engraçado, e fazendo já convites para um jantar (que depois deu) ao primo Gonçalo. Lá fui a esse jantar com o meu vestido verde, novo, que ficou bem...»
Gouveia gritou triumphando:
—Hein? que disse eu?! cá está vestido. Vestido verde!
—Lê para deante, homem! bramou o Titó.
E o Administrador, realmente interessado, recomeçou, com entono:
«...com o meu vestido verde novo, excepto a saia, um pouco pesadota. Creio que fui eu a primeira que avistou o primo Gonçalo, na plataforma do Sud-Express. Não imaginas como vem... optimo! Até mais bonito, e sobretudo mais homem. A Africa nem de leve lhe tostou a pelle. Sempre a mesma brancura. E d'uma elegancia, d'um apuro! Prova de como se adeanta a civilisação d'Africa! dizia o primo Arega, este é estylo novo de tangas em Macheque!... Como imaginas, muito abraço, muita beijoca. A tia Louredo choramigou. Ah, já esquecia! Estava tambem o Visconde de Rio-Manso, com a filha, a Rosinha. Muito linda ella, com um vestido do Redfern, fez sensação. Todos me perguntavam quem era, e o conde d'Arega, está claro, logo com appetite de ser apresentado. O Rio-Manso tambem choramigou ao abraçar o primo Gonçalo. E ali viemos todos, em nobre sequito, pela estação fóra, entre o pasmo dos povos. Mas immediatamente uma scena. De repente, no meio de toda aquella nata de brazões, o primo Gonçalo rompe e cahe nos braços do homemzinho de bonet agaloado que recebia á porta os bilhetes. Sempre o mesmo Gonçalo! Parece que o conheceu ao chegar a Lourenço Marques, onde o homem tratava de se estabelecer como photographo. Mas já esquecia o melhor—o Bento! Não imaginas o Bento... Magnifico! Deixou crescer um bocado de suissa. É um modelo, vestido em Londres, de grande casaco de viagem de panno claro, até aos pés, luvas amarelladas, gravidade immensa. Gostou de me vêr na estação—perguntou logo, com o olho humido, pela Snr.a D. Graça, e pela Rosa. Á noite, o José e eu jantamos em familia, com o primo Gonçalo, no Bragança, para conversar da Torre e dos Cunhaes. Elle contou muitas cousas interessantes d'Africa. Traz notas para um livro, e parece que o praso prospera. N'estes poucos annos plantou dois mil coqueiros. Tem tambem muito cacau, muita borracha. Gallinhas são aos milhares. É verdade que uma gallinha gorda em Macheque vale um pataco. Que inveja! Aqui em Lisboa custa seis tostões, só com ossos—por que tendo tambem alguma carne no peito, salta para cá dez tostões, e agradece! No praso já se construiu uma grande casa, proximo do rio, com vinte janellas e pintada de azul. E o primo Gonçalo declara que já não vende o praso nem por oitenta contos. Para felicidade completa até achou um excellente administrador. Eu todavia duvido que elle volte para a Africa. Tenho agora cá a minha linda ideia sobre o futuro do primo Gonçalo. Talvez te rias. E não adivinhas... com effeito, eu mesma só n'essa noite em que jantamos no Bragança, recebi de repente a inspiração. O Rio-Manso está tambem no Bragança. Quando desciamos para o jantar, para um gabinete, encontramos no corredor o velho com a pequena. O homem tornou logo a abraçar Gonçalo, com uma ternura de pae. E a Rosinha tão vermelha se fez, que até Gonçalo, apesar de excitado e distrahido, notou e córou de leve. Parece que já ha entre elles um conhecimento antigo, por causa d'um cesto de rosas, e que, desde annos, o Destino os anda surrateiramente chegando. Ella é realmente uma belleza. E tão sympathica, tão bem educada!... Differença d'edade, apenas onze annos; e o dote tremendo. Fallam em quinhentos contos. Ha apenas a questão de sangue e o d'ella, coitadinha... Emfim, como se diz em heraldica,—«o Rei faz a pastora Rainha.» E os Ramires, não só vem dos Reis, mas os Reis vem dos Ramires.—E agora passando a assumpto menos interessante...»
Discretamente João Gouveia dobrou a carta, que entregou a Gracinha, louvando a Snr.a D. Maria Mendonça como um «reporter» precioso. Depois, com um cumprimento:
—E, minha senhora, se as previsões d'ella se realisam...
Mas não! Gracinha não acreditava! Ora! imaginações da Maria Mendonça.
—O primo Antonio bem a conhece, sabe como ella é casamenteira...
—Pois se até a mim me quiz casar, ribombou o Titó saltando do rebordo da varanda. Imagine a prima... Até a mim! Com a viuva Pinho, da loja de pannos.
—Credo!
Mas o Gouveia insistia, com superioridade, um sentimento verdadeiro da vida positiva:
—Olhe, Snr.a D. Graça, acredite V. Ex.a, sempre era melhor arranjo para o Gonçalo que a Africa... Eu não acredito n'esses prazos... Nem na Africa. Tenho horror á Africa. Só serve para nos dar desgostos. Boa para vender, minha senhora! A Africa é como essas quintarolas, meio a monte, que a gente herda d'uma tia velha, n'uma terra muito bruta, muito distante, onde não se conhece ninguem, onde não se encontra sequer um estanco; só habitada por cabreiros, e com sezões todo o anno. Boa para vender.
Gracinha enrolava lentamente nos dedos a fita do avental:
—O quê! vender o que tanto custou a ganhar, com tantos trabalhos no mar, tanta perda de vida e fazenda?!
O Administrador protestou logo, com calor, já enristado para a controversia:
—Quaes trabalhos, minha senhora? Era desembarcar alli na areia, plantar umas cruzes de pau, atirar uns safanões aos pretos... Essas glorias d'Africa são balelas. Está claro, V. Ex.a falla como fidalga, neta de fidalgos. Mas eu como economista. E digo mais...
O seu dedo agudo ameaçava argumentos agudos.
Titó acudiu, salvou Gracinha:
—Oh Gouveia, nós estamos a tirar o tempo á prima Graça, que anda nos seus arranjos. Essas questões d'Africa são para depois, com o Gonçalo, á sobremeza... E então, minha querida prima, até Domingo, em Craquêde. Lá comparece o rancho todo. E quem atira os foguetes sou eu!
Mas Gouveia, cofiando o côco com a manga, ainda esperava converter a Snr.a D. Graça ás ideias sãs, sobre Politica Colonial.
—Era vender, minha senhora, era vender! Ella sorria, já consentia—tomando a mão do Videirinha, que hesitava, com os dedos espetados:
—E então, Snr. Videira, tem agora algumas quadras novas para o Fado?
Córando, Videirinha balbuciou que «arranjára uma coisita, tambem n'um fado, para a volta do Snr. Doutor.» Gracinha prometteu decorar, para cantar ao piano.
—Muito agradecido a V. Ex.a... Creado de V. Ex.a...
—Então até Domingo, primo Antonio... Está uma tarde linda.
—Até Domingo, em Craquêde, prima.
Mas á porta envidraçada, João Gouveia parou mais teso, bateu na testa:
—Já me esquecia, desculpe V. Ex.a! Recebi uma carta do André Cavalleiro, da Figueira da Foz. Manda muitas saudades ao Barrôlo. E quer saber se o Barrôlo lhe poderia ceder d'aquelle vinho verde de Vidainhos. É tambem para um africanista, para o conde de S. Romão... Parece que a Snr.a condessa se péla por vinho verde!
E os tres amigos, em fila, atravessaram a sala de jantar, onde o vozeirão do Titó ainda ribombou, louvando a esteira nova de côres. No corredor, Videirinha espreitou para a Livraria, notou o molho de penas de pato espetado no velho tinteiro de latão, que esperava, rebrilhando solitariamente sobre a mesa nua sem papeis nem livros. Depois a Rosa appareceu á porta do quarto de Gonçalo, ajoujada de roupa, com um riso em cada ruga da sua face redonda e côr de tijolo, que o farto lenço de cambraia, muito branco, circumdava como um nimbo. O Titó affagou carinhosamente o hombro da boa cosinheira:
—Então, tia Rosa, agora recomeçam essas grandes petisqueiras, hein?
—Louvado seja Deus, Snr. D. Antonio! Que imaginei que não tornava a vêr o meu rico senhor. Tambem já tinha decidido... Se me enterrassem o corpo aqui em Santa Ireneia, antes de eu vêr o menino, a alma com certesa ia á Africa para lhe fazer uma visita.
Os seus miudos olhos piscaram, lagrimejando de gosto—e seguiu pelo corredor, tesa e decidida, com a sua trouxa que rescendia a maçã camoeza. O Gouveia murmurára com uma careta:—«Safa!» E os tres amigos desceram ao pateo onde, por curiosidade do Titó, visitaram as obras da cavallariça.
—Veja você! exclamou elle para o Gouveia, que accendia o charuto. Você a negar!... Mobilias, obras, egoa ingleza... Tudo já dinheiro d'Africa.
O Administrador encolheu os hombros:
—Veremos depois como elle traz o figado...
Deante do portão o Titó ainda parou a colher, na roseira costumada, uma rosinha para florir o jaquetão de velludilho. E juntamente entrava o Padre Sueiro, recolhendo d'uma volta pelos Bravaes, com o seu grande guarda-sol de panninho e o seu breviario. Todos acolheram com carinho o santo e douto velho, tão raro agora na Torre.
—E então no Domingo, cá temos o nosso homem, Padre Sueiro!
O capellão achatou sobre o peito a mão gorda, com reverencia, com gratidão...
—Deus ainda me quiz conceder, na minha velhice, mais esse grande favor... Pois mal o esperava. Terras tão asperas, e elle tão delicado...
E para conversar de Gonçalo, da espera em Craquêde, acompanhou aquelles senhores até á ponte da Portella. João Gouveia manquejava, aperreado por umas infames botas novas que n'essa manhã estreára. E descançaram um momento no bello banco de pedra que o pae de Gonçalo mandára collocar, quando Governador Civil d'Oliveira. Era esse o doce sitio d'onde se avista Villa-Clara, tão aceada, sempre tão branca, áquella hora toda rosada, d'esde o vasto convento de Santa Theresa até ao muro novo do cemiterio no alto, com os seus finos cyprestes.
Para além dos outeiros de Valverde, longe, sobre a Costa, o sol descia, vermelho como um metal candente que arrefece, entre nuvens vermelhas, accendendo ainda, em ouro coruscante, as janellas da Villa.
Ao fundo do valle, uma claridade nimbava as altas ruinas de Santa Maria de Craquêde, entre o seu denso arvoredo. Sob o arco, o rio cheio corria sem um rumor, já dormente na sombra dos choupos finos, onde ainda passaros cantavam. E na volta da estrada, por cima dos alamos que escondiam o casarão, a velha Torre, mais velha que a Villa e que as ruinas do Mosteiro, e que todos os casaes espalhados, erguia o seu esguio miradoiro, envolto no vôo escuro dos morcegos, espreitando silenciosamente a planicie e o sol sobre o mar, como em cada tarde d'esses mil annos, desde o Conde Ordonho Mendes.
Um pequeno com uma alta aguilhada passou, recolhendo duas vaccas lentas. Do lado da Villa, o padre José Vicente da Finta trotou na sua egoa branca, saudou o Snr. Administrador, o amigo Sueiro, abençoando tambem a chegada do Fidalgo para quem já preparára uma bella cesta da sua uva moscatel. Trez caçadores, com uma matilha de coelheiras, atravessaram a estrada, descendo pelo portello á quelha que contorna o casal do Miranda.
Um silencio ainda claro, de immenso repouso, tão doce como se descesse do ceu, cobria a largueza povoada dos campos, onde não se movia uma folha, na macia transparencia do ar de Setembro. Os fumos das lareiras accesas já se escapavam, lentos e leves, d'entre a telha rala. Na loja do João ferreiro, adeante da Portella, o clarão da forja avivou, mais vermelho. Um bum-bum de tambor bateu festivamente para o lado dos Bravaes, cresceu apressado, marchando:—n'algum cabeço, depois lentamente se afastou, esmoreceu, logo sumido, em arvoredos ou no valle mais fundo.
João Gouveia, que se recostára no canto do largo assento de pedra, com o seu côco sobre os joelhos, acenou para o lado dos Bravaes:
—Estou a lembrar aquella passagem do romance do Gonçalo, quando os Ramires se preparam para soccorrer as Infantas, andam a reunir a mesnada. É assim, a estas horas da tarde, com tambores: e por sitios... «Na frescura do valle...» Não! «Pelo valle de Craquêde...» Tambem não! Esperem vocês, que eu tenho boa memoria... Ah! «E por todo o fresco valle até Santa Maria de Craquêde, os atambores mouriscos abafados no arvoredo, tararam! tararam! ou mais vivos nos cerros ralatam! ralatam! convocavam á mesnada dos Ramires, na doçura da tarde...» E lindo!
Por sobre as costas do Titó que, debruçado, riscava pensativamente com o bengalão a poeira da estrada, Videirinha adeantou para o seu chefe a face estendida, com um sorriso de finura:
—Oh Snr. Administrador, olhe que talvez seja ainda mais bonito, quando os Ramires largam a perseguir o Bastardo! Cá para mim, tem mais poesia. Quando o velho faz aquella jura com a espada e depois lá na Torre, muito devagar, começa a tocar a finados... É d'appetite!
Á borda do assento, encolhido contra o Titó, para que o Snr. Administrador se alastrasse confortavelmente, Padre Sueiro, com as mãos no cabo do seu guarda-sol, concordou:
—Com certesa! são lances interessantes... Com certesa! N'aquella novella ha imaginação rica, muito rica: e ha saber, ha verdade.
O Titó, que depois de Simão de Nantua, em pequeno, não abrira mais as folhas d'um livro, e não lêra a Torre de D. Ramires, murmurou, com um risco mais largo na poeira:
—Extraordinario, aquelle Gonçalo!
O Videirinha não findára o seu enlevado sorriso:
—Tem muito talento... Ah! o Snr. Doutor tem muito talento.
—Tem muita raça! exclamou o Titó, levantando a cabeça. E é o que o salva dos defeitos... Eu sou um amigo de Gonçalo, e dos firmes. Mas não o escondo, nem a elle... Sobretudo a elle. Muito leviano, muito incoherente... Mas tem a raça que o salva.
—E a bondade, Snr. Antonio Villalobos! atalhou docemente Padre Sueiro. A bondade, sobretudo como a do Snr. Gonçalo, tambem salva... Olhe, ás vezes ha um homem muito serio, muito puro, muito austero, um Catão que nunca cumpriu senão o dever e a lei... E todavia ninguem gosta d'elle, nem o procura. Por que? Por que nunca deu, nunca perdoou, nunca acarinhou, nunca serviu. E ao lado outro leviano, descuidado, que tem defeitos, que tem culpas, que esqueceu mesmo o dever, que offendeu mesmo a lei... Mas quê? É amoravel, generoso, dedicado, serviçal, sempre com uma palavra doce, sempre com um rasgo carinhoso... E por isso todos o amam, e não sei mesmo, Deus me perdôe, se Deus tambem o não prefere...
A curta mão que acenára para o ceu, recahiu sobre o cabo d'osso do guarda-sol. Depois, e córado com a temeridade de pensamento tão espiritual acudiu cautelosamente:
—Que esta não é propriamente doutrina da Egreja!... Mas anda nas almas; anda já em muitas almas.
Então João Gouveia abandonou o recosto do banco de pedra e teso na estrada, com o côco á banda, reabotoando a sobrecasaca, como sempre que estabelecia um resumo:
—Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes. E sabem vocês, sabe o Snr. Padre Sueiro quem elle me lembra?
—Quem?
—Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquelle todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a immensa bondade, que notou o Snr. Padre Sueiro... Os fogachos e enthusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistencia, muito aferro quando se fila á sua ideia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negocios, e sentimentos de muita honra, uns escrupulos, quasi pueris, não é verdade?... A imaginação que o leva sempre a exaggerar até á mentira, e ao mesmo tempo um espirito pratico, sempre attento á realidade util. A viveza, a facilidade em comprehender, em apanhar... A esperança constante n'algum milagre, no velho milagre d'Ourique, que sanará todas as difficuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociavel. A desconfiança terrivel de si mesmo, que o acobarda, o encolhe, até que um dia se decide, e apparece um heroe, que tudo arrasa... Até aquella antiguidade de raça, aqui pegada á sua velha Torre, ha mil annos... Até agora aquelle arranque para a Africa... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem elle me lembra?
—Quem?...
—Portugal.
Os tres amigos retomaram o caminho de Villa-Clara. No ceu branco uma estrellinha tremeluzia sobre Santa Maria de Craquêde. E Padre Sueiro, com o seu guarda-sol sob o braço, recolheu á Torre vagarosamente, no silencio e doçura da tarde, resando as suas Avè-Marias, e pedindo a paz de Deus para Gonçalo, para todos os homens, para campos e casaes adormecidos, e para a terra formosa de Portugal, tão cheia de graça amoravel, que sempre bemdita fosse entre as terras.