No outro domingo, depois do almoço, Gonçalo acompanhou a irmã a casa da tia Arminda Villegas, que na vespera, ao tomar (como costumava todos os sabbados) o seu banho aos pés, se escaldára e recolhera á cama, apavorada, reclamando uma junta dos cinco cirurgiões d'Oliveira. Depois acabou o charuto sob as acacias do Terreiro da Louça, pensando na sua Novella abandonada na Torre durante essas semanas, e no lance famoso do Capitulo II que o tentava e que o assustava—o encontro de Lourenço Ramires com Lopo de Bayão, o Bastardo, no valle fatal de Cantapedra. E recolhia aos Cunhaes (porque promettera ao Barrôlo uma trotada a cavallo, até ao Pinhal de Estevinha, para aproveitar a doçura do domingo ennevoado) quando, na rua das Vellas, avistou o tabellião Guedes, que sahia da confeitaria das Mathildes com um grosso embrulho de pasteis. Ligeiramente, o Fidalgo atravessou logo a rua—emquanto o Guedes, da borda do passeio, pesado e barrigudo, na ponta dos botins miudinhos gaspeados de verniz, descobria, n'uma cortezia immensa, a calva, emplumada ao meio pelo famoso tufo de cabello grisalho que lhe valera a alcunha de «Guedes Pôpa»:
—Por quem é, meu caro Guedes, ponha o chapeu! Como está? Sempre féro e moço. Ainda bem!... Fallou com o meu Padre Sueiro? O Pereira da Riosa, por fim, só vem á cidade na quarta feira...
Sim! Sim! O Snr. Padre Sueiro passára pelo cartorio, para avisar—e elle apresentava os parabens a S. Ex.a pelo seu novo rendeiro...
—Homem muito competente, o Pereira! Já ha vinte annos que o conheço... E olhe V. Ex.a a propriedade do Conde de Monte-Agra! Ainda me lembro d'ella, um chavascal; hoje que primor! Só a vinha que elle tem plantado! Homem muito competente... E V. Ex.a com demora?
—Dois ou tres dias... Não se atura este calor de Oliveira. Hoje, felizmente, refrescou. E que ha de novo? Como vae a politica? O amigo Guedes sempre bom Regenerador, leal e ardente, hein?
Subitamente o Tabellião, com o seu embrulho de doces conchegado ao collete de seda preta, agitou o braço gordo e curto, n'uma indignação que lhe esbraseou de sangue o pescoço, as orelhas cabelludas, a face rapada, toda a testa até ás abas do chapeu branco orlado de fumo negro:
—E quem o não ha-de ser, Snr. Gonçalo Mendes Ramires? Quem o não ha-de ser?... Pois este ultimo escandalo!
Os risonhos olhos de Gonçalo logo se alargaram, serios:
—Que escandalo?
O Tabellião recuou. Pois S. Ex.a não sabia da ultima prepotencia do Governador Civil, do Snr. André Cavalleiro?
—O quê, caro amigo?...
O Guedes cresceu todo sobre o bico dos botins pequeninos, e bojou, e inchou, para exclamar:
—A transferencia do Noronha!... A transferencia do desgraçado Noronha!
Mas uma senhora, tambem obesa, de buço carregado, toda a estalar em ricas e rugidoras sêdas de missa, arrastando severamente pela mão um menino que rabujava, parou, fitou o Guedes—porque o digno homem com o seu ventre, o seu embrulho, a sua indignação, atravancava a entrada das Mathildes. Apressadamente, o Fidalgo levantou, para ella entrar, o fecho da porta envidraçada. Depois, n'um alvoroço:
—O amigo Guedes naturalmente vae para casa. É o meu caminho. Andamos e conversamos... Ora essa! Mas o Noronha... Que Noronha?
—O Ricardo Noronha... V. Ex.a conhece. O pagador das Obras-Publicas!
—Ah! sim, sim... Então transferido? Transferido arbitrariamente?
Na rua das Brocas por onde desciam, no silencio, a solidão das lojas cerradas, a colera do Guedes resoou, mais solta:
—Infamemente, Snr. Gonçalo Mendes Ramires, infamissimamente! E para Almodovar, para os confins do Alemtejo!... Para uma terra sem recursos, sem distracções, sem familias!...
Parára, com os doces contra o coração, os olhinhos esbugalhados para o Fidalgo, coriscando. O Noronha! Um empregado trabalhador, honradissimo! E sem Politica, absolutamente sem Politica. Nem dos Historicos, nem dos Regeneradores. Só da familia, das tres irmãs que sustentava, tres flôres... E homem estimadissimo na cidade, cheio de prendas! Um talento immenso para a musica!... Ah! o Snr. Gonçalo Ramires não sabia? Pois compunha ao piano cousas lindas! Depois precioso para reuniões, para annos. Era elle quem organisava sempre em Oliveira as representações de curiosos...
—Porque, como ensaiador, creia V. Ex.a que não ha outro, mesmo na capital... Não ha outro! E, zás, de repente, para Almodovar, para o Inferno, com as irmãs, com os tarecos! Só o piano!... Veja V. Ex.a só o transporte do piano!
Gonçalo resplandecia:
—É um bello escandalo. Ora que felicidade esta de o ter encontrado, meu caro Guedes!... E não se sabe o motivo?
De novo caminhavam demoradamente pelo passeio estreito. E o tabellião encolhia os hombros, com amargura. O motivo! Publicamente, como sempre n'estas prepotencias, o motivo era a conveniencia do Serviço...
—Mas todos os amigos do Noronha, por toda a cidade, conhecem o verdadeiro motivo... O intimo, o secreto, o medonho!
—Então?
Guedes relanceou a rua, com prudencia. Uma velha atravessava, coxeando, segurando uma bilha. E o tabellião segredou cavamente, junto á face deslumbrada do fidalgo.—É que o Snr. André Cavalleiro, esse infame, se encantára com a mais velha das irmãs Noronhas, a D. Adelina, formosissima rapariga, alta e morena, uma estatua!... E repellido (porque a menina, cheia de juizo, uma perola, percebera a intenção villissima) em quem se vinga, por despeito, o Snr. Governador Civil? No pagador! Para Almodovar com as meninas, com os tarecos!... Era o pagador quem pagava!
—É uma bella maroteira! murmurou Gonçalo, banhado de gosto e riso.
—E note V. Ex.a! exclamava o Guedes, com a mão gorda a tremer por cima do chapeu. Note V. Ex.a que o pobre Noronha, na sua innocencia, tão bom homem, gostando sempre d'agradar aos seus chefes, ainda ha semanas dedicára ao Cavalleiro uma valsa linda!... A Mariposa, uma valsa linda!
Gonçalo não se conteve, esfregou as mãos n'um triumpho:
—Mas que preciosa maroteira!... E não se tem fallado? Esse jornal d'opposição, o Clarim d'Oliveira, nem uma denuncia, nem uma allusão?...
O Guedes pendeu a cabeça, descorçoado. O Snr. Gonçalo Ramires conhecia bem essa gente do Clarim... Estylo—e estylo brincado, opulento... Mas para assoalhar, assim n'um caso gravissimo como o do Noronha, a verdade bem nua—pouco nervo, nenhuma valentia. E depois o Biscainho, o redactor principal, andava a passar surrateiramente para os Historicos. Ah! O Snr. Gonçalo Mendes Ramires não se inteirára? Pois esse torpissimo Biscainho bolinava. De certo o Cavalleiro lhe acenára com posta... Além d'isso, como provar a infamia? Cousas intimas, cousas de familia. Não se podia apresentar a declaração da D. Adelina, menina virtuosissima—e com uns olhos!... Ah! se fosse no tempo do Manoel Justino e da Aurora de Oliveira!... Esse era homem para estampar logo na primeira pagina, em letra graúda: «Alerta! que a Auctoridade superior do Districto tentou levar a deshonra ao seio da familia Noronha!...»
—Esse era um homem! Coitado, lá está no cemiterio de S. Miguel... E agora, Snr. Gonçalo Ramires, o despotismo campeia, desenfreado!
Bufava, arfava, esfalfado d'aquelle fogoso desabafo. Dobraram calados a esquina das Brocas para a bella rua, novamente calçada, da Princeza D. Amelia. E logo na segunda porta, parando, tirando da algibeira o trinco, o Guedes, que ainda resfolgava, offereceu a S. Ex.a para descançar.
—Não, não, obrigado, meu caro amigo. Tive immenso, immenso prazer, em o encontrar... Essa historia do Noronha é tremenda!... Mas nada me espanta do Snr. Governador Civil. Só me espanta que o não tenham corrido d'Oliveira, como elle merece, com pancada e assuada... Emfim, nem toda a gente boa jaz no cemiterio de S. Miguel... Até ámanhã, meu Guedes. E obrigado!
Da rua da Princeza D. Amelia até o Largo de El-Rei, Gonçalo correu com o deslumbramento de quem descobrisse um thesouro e o levasse debaixo da capa! E ahi levava com effeito o «escandalo, o rico escandalo», que tanto farejára, por que tanto almejára, para desmantelar o Snr. Governador Civil na sua fiel cidade de Oliveira que lhe levantava arcos de buxo! E, por uma mercê de Deus, o «rico escandalo» demoliria tambem o homem no coração de Gracinha, onde, apezar do antigo ultraje, elle permanecia como um bicho n'um fructo, esfuracando e estragando... E não duvidava da efficacia do escandalo! Toda a cidade se revoltaria contra a Authoridade femieira, que opprime, desterra um funccionario admiravel—por que a irmã do pobre senhor se recusou á baba dos seus beijos. E Gracinha?... Como resistiria Gracinha áquelle desengano—o seu antigo André abrazado pela menina Noronha e por ella repellido com nôjo e com mófa? Oh! o escandalo era soberbo! Só restava que estalasse, bem ruidoso, sobre os telhados d'Oliveira e sobre o peito de Gracinha como trovão benefico que limpa ares corrompidos. E d'esse trovão, rolando por todo o Norte, se encarregava elle com delicia. Libertava a cidade d'um Governador detestavel, Gracinha d'um sonho errado. E assim, com uma certeira pennada, trabalhava pro patria et pro domo!
Nos Cunhaes correu ao quarto do Barrôlo, que se vestia trauteando o Fado dos Ramires, e gritou atravez da porta com uma decisão flammejante:
—Não te posso acompanhar á Estevinha. Tenho que escrever urgentemente. E não subas, não me perturbes. Necessito socego!
Nem attendeu aos protestos desolados com que o Barrôlo accudira ao corredor, em ceroulas. Galgou a escada. No seu quarto, depois de despir rapidamente o casaco, de excitar a testa com um borrifo d'agua de Colonia, abancou á mesa—onde Gracinha collocava sempre entre flores, para elle trabalhar, o monumental tinteiro de prata que pertencera ao tio Melchior. E sem emperrar, sem rascunhar, n'um d'esses soltos fluxos de Prosa que brotam da paixão, improvisou uma Correspondencia rancorosa para a Gazeta do Porto contra o Snr. Governador Civil. Logo o titulo fulminava—Monstruoso attentado! Sem desvendar o nome da familia Noronha, contava miudamente, como um acto certo e por elle testemunhado, «a tentativa villôa e baixa da primeira Auctoridade do Districto contra a pudicicia, a paz de coração, a honra de uma doce rapariga de dezeseis primaveras!» Depois era a resistencia desdenhosa—«que a nobre creança oppuzera ao Don Juan administrativo, cujos bellos bigodes são o espanto dos povos!» Por fim vinha—«a desforra torpe e sem nome que S. Ex.a tomára sobre o zeloso empresado (que é tambem um talentoso artista), obtendo d'este nefasto Governo que fosse transferido, ou antes arrojado, cruelmente exilado, com a familia de tres delicadas senhoras, para os confins do Reino, para a mais arida e escassa das nossas Provincias, por o não poder empacotar para a Africa no porão sordido d'uma fragata!» Lançava ainda alguns rugidos sobre «a agonia politica de Portugal». Com pavor triste, recordava os peiores tempos do Absolutismo, a innocencia soterrada nas masmorras, o prazer desordenado do Principe sendo a expressão unica da Lei! E terminava perguntando ao Governo se cobriria este seu agente—«este grotesco Nero, que como outr'ora o outro, o grande, em Roma, tentava levar a seducção ao seio das familias melhores, e commettia esses abusos de poder, motivados por lascivias de temperamento, que foram sempre, em todos os seculos e todas as civilisações, a execração do justo!»—E assignava Juvenal.
Eram quasi seis horas quando desceu á sala, ligeiro e resplandecente. Gracinha martellava o piano, estudando o Fado dos Ramires. E Barrôlo (que não se arriscára a um passeio solitario) folheava, estendido no camapé, uma famosa Historia dos Crimes da Inquizição que começára ainda em solteiro.
—Estou a trabalhar desde as duas horas! exclamou logo Gonçalo, escancarando a janella. Fiquei derreado. Mas, louvado seja Deus, fiz obra de Justiça... D'esta vez o Snr. André Cavalleiro vae abaixo do seu cavallo!
Barrôlo fechou immediatamente o livro, com o cotovello nas almofadas, inquieto:
—Houve alguma coisa?
E Gonçalo, plantado deante d'elle, com um risinho suave, um risinho feroz, remexendo na algibeira o dinheiro e as chaves:
—Oh! quasi nada. Uma bagatella. Apenas uma infamia... Mas para o nosso Governador Civil infamias são bagatellas.
Sob os dedos de Gracinha o Fado dos Ramires esmoreceu, apenas roçado, n'um murmurio incerto.
O Barrôlo esperava, esgaseado:
—Desembucha!
E Gonçalo desabafou, com estrondo:
—Pois uma maroteira immensa, homem! O Noronha, o pobre Noronha, perseguido, espesinhado, expulso! Com a familia... Para o inferno, para o Algarve!
—O Noronha pagador?
—O Noronha pagador. Foi o infeliz pagador que pagou!
E, regaladamente, desenrolou a historia lamentavel. O Snr. André Cavalleiro namoradissimo, todo em chammas pela irmã mais velha do Noronha. E atacando a rapariga com ramos, cartas, versos, estropidos cada manhã por deante da janella, a ladear na pileca! Até lhe soltára, ao que parece, uma velha marafona, uma alcoviteira... E a rapariga, um anjo cheio de dignidade, impassivel. Nem se revoltava, apenas se ria. Era uma troça em casa das Noronhas, ao chá, com a leitura da versalhada ardente em que elle a tratava de «Nympha, d'estrella da tarde...» Emfim uma sordidez funambulesca!
O pobre Fado dos Ramires debandou pelo teclado, n'um tumulto de gemidos desconcertados e asperos.
—E eu não ter ouvido nada! murmurava o Barrôlo, assombrado. Nem no Club, nem na Arcada...
—Pois, meu amiguinho, quem ouviu, e um famoso estampido, foi o pobre Noronha. Arremessado para o fundo do Alemtejo, para um sitio doentio, coalhado de pantanos. É a morte... É uma condemnação á morte!
A esta apparicão da Morte, surdindo dos pantanos, Barrôlo atirou uma palmada ao joelho, desconfiado:
—Mas quem diabo te contou tudo isso?
O Fidalgo da Torre encarou o cunhado com desdem, com piedade:
—Quem me contou!? E quem me contou que D. Sebastião morreu em Alcacer-Kebir?... São os factos. É a Historia. Toda Oliveira sabe. Por acaso ainda esta manhã o Guedes e eu conversamos sobre o caso. Mas eu já sabia!... E tenho tido pena. Que diabo! Não ha crime em se estar apaixonado como o pobre André. Louco, perdido! Até a chorar na Repartição, deante do Secretario Geral. E a rapariga ás gargalhadas!... Agora onde ha crime, e horrendo, é na perseguição ao irmão, ao pagador, empregado excellente, d'um talento raro... E o dever de todo o homem de bem, que prese a dignidade da Administração e a dignidade dos costumes, é denunciar a infamia... Eu, pela minha parte, cumpri esse bom dever. E com certo brilho, louvado Deus!
—Que fizeste?
—Enterrei na ilharga do Snr. Governador Civil a minha bôa penna de Toledo, até á rama!
O Barrôlo, impressionado, beliscava a pelle do pescoço. O piano emmudecera: mas Gracinha não se movia do môcho, com os dedos entorpecidos nas teclas, como esquecida deante da larga folha onde se enfileiravam, na lettra apurada do Videirinha, as quadras triumphaes dos Ramires. E subitamente Gonçalo sentiu n'aquella immobilidade suffocada o despeito que a trespassava. Sensibilisado, para a libertar, lhe poupar algum soluço escapando irresistivelmente, correu ao piano, bateu com carinho nos pobres hombros vergados que estremeceram:
—Tu não dás conta d'esse lindo fado, rapariga! Deixa, que eu te cantarolo uma quadra, á bôa moda do Videirinha... Mas primeiramente sê um anjo... Grita ahi no corredor que me tragam um copo d'agua bem fresca do Poço Velho.
Ensaiou as teclas, entoou versos, ao accaso, n'um esforço esganiçado:
Ora na grande batalha,
Quatro Ramires valentes...
Gracinha desapparecera por uma fenda do reposteiro, sem rumor.
Então o bom Barrôlo, que deante da sua terrina da
India enrolava um
cigarro com
pensativo cuidado, correu, desafogou, debruçado sobre
Gonçalo, da certeza que lentamente o invadira:Quatro Ramires valentes...
—Pois, menino, sempre te digo... Essa irmã do Noronha é um mulherão soberbo! Mas o que eu não acredito é que ella se fizesse arisca. Com o Cavalleiro, bonito rapaz, Governador civil?... Não acredito. O Cavalleiro saboreou!
E com as bochechas lusidias d'admiração:
—Aquelle velhaco! Para cavallos e para mulheres não ha outro, em Oliveira!
V
A Gazeta do Porto, com a Correspondencia vingadora, devia desabar sobre Oliveira na quarta-feira de manhã, dia dos annos da prima Maria Mendonça. Mas Gonçalo, ainda que não temesse (resalvado pelo seu pseudonymo de Juvenal) uma briga grosseira com o Cavalleiro nas ruas da Cidade, nem mesmo com algum dos seus partidarios servis e façanhudos como o Marcolino do Independente—recolheu discretamente a Santa Ireneia na terça-feira, a cavallo, acompanhado pelo Barrôlo até á Vendinha, onde ambos provaram o vinho branco celebrado pelo Titó. Depois, para recordar os logares memoraveis em que na sua Novella se encontravam, com desastrado choque d'armas, Lourenço Ramires e o Bastardo de Bayão—tomou o caminho que, atravessando os pomares da espalhada aldêa de Canta-Pedra, entronca na estrada dos Bravaes.
N'um trote folgado passára á Fabrica de Vidros, depois o Cruzeiro sempre coberto pelas pombas que esvoaçam do pombal da Fabrica. E entrava no logar de Nacejas—quando, á janella d'uma casinha muito limpa, rodeada de parreiras, appareceu uma linda rapariga, morena e fina, com jaqué de panno azul e lenço de cambraieta bordada sobre fartos bandós ondeados. Gonçalo, sopeando a egua, saudou, sorriu suavemente:
—Perdão, minha menina... Vou bem por aqui, para Canta-Pedra?
—Vae, sim senhor. Em baixo, á ponte, mette para a direita, para os alamos. E é sempre a seguir...
Gonçalo suspirou, gracejando:
—Antes desejava ficar!
A moça corou. E o Fidalgo ainda se torceu no selim para gosar a fina face morena, entre os dous craveiros da janellinha, na casa tão bem caiada.
N'esse momento, ao lado, d'uma quelha enramada, desembocava um caçador do campo, de jaleca e barrete vermelho, com a espingarda atravessada nas costas, seguido por dois perdigueiros. Era um latagão airoso, que todo elle, no bater dos sapatões brancos, no menear da cinta enfaixada em seda, no levantar da face clara de suissas louras, transbordava de presumpção e pimponice. N'um relance surprehendeu o sorriso, a attenção galante do Fidalgo. E estacou, pregando sobre elle, com lenta arrogancia, os bellos olhos pestanudos. Depois passou desdenhosamente, sem se arredar da egua na ladeira estreita, quasi raspando pela perna do Fidalgo o cano da caçadeira. Mas adiante ainda atirou uma tossidela secca e de chasco—com um bater mais petulante dos tacões.
Gonçalo picou a egoa, colhido logo por aquelle desgraçado temor, aquelle desmaiado arrepio da carne, que sempre, ante qualquer risco, qualquer ameaça, o forçava irresistivelmente a encolher, a recuar, a abalar. Em baixo, na ponte, desesperado contra a sua timidez, deteve o trote, espreitou para traz, para a branca casa florida. O mocetão parára, encostado á espingarda, sob a janella onde a rapariga morena se debruçava entre os dous vasos de cravos. E assim encostado, depois de rir para a moça, acenou ao Fidalgo, n'um desafio largo, com a cabeça alta, a borla do barrete toda espetada como uma crista flammante.
Gonçalo Mendes Ramires metteu a galope pelo copado caminho d'alamos que acompanha o riacho das Donas. Em Canta-Pedra nem se demorou a estudar (como tencionava para proveito da sua Novella) o valle, a ribeira espraiada, as ruinas do Mosteiro de Recadães sobre a collina, e no cabeço fronteiro o moinho que assenta sobre as denegridas pedras da antiga e tão fallada Honra d'Avellans. De resto o ceu, cinzento e abafado desde manhã, entenebrecia para os lados de Craquede e de Villa-Clara. Um bafo môrno remexeu a folhagem sedenta. E já gotas pesadas se esmagavam na poeira—quando elle, sempre galopando, entrou na estrada dos Bravaes.
Na Torre encontrou uma carta do Castanheiro. O patriota andava por saber «se essa Torre de D. Ramires se erguia emfim para honra das letras, como a outra, a genuina, se erguera outr'ora, em seculos mais ditosos, para orgulho das armas...» E accrescentava n'um Post-Scriptum—«Planeio immensos cartazes, pregados a cada esquina de cada cidade de Portugal, annunciando em letras de covado a apparição salvadora dos Annaes! E, como tenciono prometter n'elles aos povos a sua preciosa Novellasinha, desejo que o amigo Gonçalo me informe se ella tem, á moda de 1830, um saboroso sub-titulo, como Episodios do seculo XII, ou Chronica do Reinado de Affonso II, ou Scenas da Meia-Idade Portugueza... Eu voto pelo sub-titulo. Como o sub-solo n'um edificio, o sub-titulo n'um livro alteia e dá solidez. Á obra, pois, meu Ramires, com essa sua imaginação feracissima!...»
Esta invenção de immensos cartazes, com o seu nome e o titulo da sua Novella em letras de côres estridentes, enchendo cada esquina de Portugal, deleitou o Fidalgo. E logo n'essa noite, ao rumor da chuva densa que estalava na folhagem dos limoeiros, retomou o seu manuscripto, parado nas primeiras linhas, amplas e sonoras, do Cap. II...
Atravez d'ellas, e na frescura da madrugada, Lourenço Mendes Ramires, com o troço de cavalleiros e peonagem da sua mercê, corria sobre Monte-Mór em soccorro das senhoras Infantas. Mas, ao penetrar no valle de Canta-Pedra, eis que o esforçado filho de Tructesindo avista a mesnada do Bastardo de Bayão, esperando desde alva (como annunciára Mendo Paes) para tolher a passagem.—E então, n'esta sombria Novella de sangue e homizios, brotava inesperadamente, como uma rosa na fenda d'um bastião, um lance de amor, que o tio Duarte cantára no Bardo com dolente elegancia.
Lopo de Bayão, cuja belleza loura de fidalgo godo era tão celebrada por toda a terra d'Entre Minho-e-Douro que lhe chamavam o Claro-Sol, amára arrebatadamente D. Violante, a filha mais nova de Tructesindo Ramires. Em dia de S. João, no solar de Lanhoso, onde se celebravam lides de toiros e jogos de tavolagem, conhecera elle a donzella explendida, que o tio Duarte no seu Poemeto louvava com deslumbrado encanto:
Que liquido fulgor dos negros olhos!
Que fartas tranças de lustroso ebano!
E ella, certamente, rendera tambem o coração
áquelle moço resplandecente e côr
d'ouro, que, n'essa tarde de festa, arremessando o
rojão contra os toiros, ganhára duas fachas
bordadas pela nobre Dona de
Lanhoso—e á noite, no sarau, se requebrára com
tão repicado
garbo na dança dos Marchatins... Mas Lopo era bastardo,
d'essa raça de
Bayão, inimiga dos Ramires por velhissimas brigas de terras
e precedencias desde o conde D. Henrique—ainda assanhadas depois,
durante as contendas de D. Tareja e de Affonso Henriques, quando na
curia dos Barões, em
Guimarães, Mendo de Bayão, bandeado com o Conde
de Trava, e Ramires o
Cortador, collaço do moço
Infante, se arrojaram ás faces os guantes
ferrados. E, fiel ao odio secular, Tructesindo Ramires
recusára com áspera
arrogancia a mão de Violante ao mais velho dos de
Bayão, um dos valentes de
Silves, que pelo Natal, na Alcaçova de S.ta
Ireneia, lh'a pedira para
Lopo, seu sobrinho, o Claro-Sol, offerecendo
avenças quasi submissas
d'alliança e doce paz. Este ultraje revoltára o
solar de
Bayão—que se honrava em Lopo, apezar de bastardo, pelo
lustre da sua bravura e graça
galante. E então Lopo ferido doridamente no seu
coração, mais furiosamente no seu orgulho, para
fartar o esfaimado desejo, para infamar o claro nome dos Ramires—tentou
raptar D. Violante. Era na primavera, com todas as veigas do Mondego
já verdes. A donosa senhora, entre alguns
escudeiros da Honra e parentes, jornadeava de Treixedo ao mosteiro de
Lorvão, onde sua tia D. Branca era abbadeça...
Languidamente, no Bardo,
descantára o tio Duarte o romantico lance:Que fartas tranças de lustroso ebano!
Junto á fonte mourisca,
entre
os ulmeiros,
A cavalgadura pára...
E junto aos ulmeiros da fonte surgira o Claro-Sol—que,
com os seus, espreitava d'um cabeço! Mas, logo no
começo da
curta briga, um primo de D. Violante, o agigantado Senhor dos
Paços d'Avellim, o
desarmou, o manteve um momento ajoelhado sob o lampejo e gume da sua
adaga. E com vida perdoada, rugindo de surda raiva, o Bastardo abalou
entre os poucos solarengos que o acompanhavam n'esta affouta
arremettida. Desde
então mais fero ardera o rancor entre os de Bayão
e os Ramires. E
eis agora, n'esse começo da Guerra das Infantas, os dois
inimigos rosto
a rosto no valle estreito de Canta-Pedra! Lopo com um bando de trinta
lanças e mais de cem besteiros da Hoste Real.
Lourenço Mendes Ramires com
quinze cavalleiros e noventa homens de pé do seu
pendão.A cavalgadura pára...
Agosto findava: e o demorado estio amarellecera toda a relva, as pastagens famosas do valle, até a folhagem de amieiros e freixos pela beira do riacho das Donas que s'arrastava entre as pedras lustrosas, em fios escassos, com dormido murmurio. Sobre um outeiro, dos lados de Ramilde, avultava, entre possantes ruinas erriçadas de sarças, a denegrida Torre Redonda, resto da velha Honra de Avellans, incendiada durante as cruas rixas dos de Salzedas e dos de Landim, e agora habitada pela alma gemente de Guiomar de Landim, a Mal-casada. No cabeço fronteiro e mais alto, dominando o valle, o mosteiro de Recadães estendia as suas cantarias novas, com o forte torreão, asseteado como o d'uma fortaleza—d'onde os monges se debruçavam, espreitando, inquietos com aquelle coriscar d'armas que desde alva enchia o valle. E o mesmo temor acossára as aldeias chegadas—porque, sobre a crista das collinas, se apressavam para o santo e murado refugio do convento gentes com trouxas, carros toldados, magras filas de gados.
Ao avistar tão rijo troço de cavalleiros e peões, espalhado até á beira do riacho por entre a sombra dos freixos, Lourenço Ramires soffreou, susteve a leva, junto d'um montão de pedras onde apodrecia, encravada, uma tosca cruz de pau. E o seu esculca que largára redeas soltas, estirado sob o escudo de couro, para reconhecer a mesnada—logo voltou, sem que frecha ou pedra de funda o colhessem, gritando:
—São homens de Bayão e da Hoste Real!
Tolhida pois a passagem! E em que desigualado recontro! Mas o denodado Ramires não duvidou avançar, travar peleja. Sósinho que assomasse ao valle, com uma quebradiça lança de monte, arremetteria contra todo o arraial do Bastardo...—No emtanto já o adail de Bayão se adeantára, curveteando no rosilho magro, com a espada atravessada por cima do morrião que pennas de garça emplumavam. E pregoava, atroava o valle com o rouco pregão:
—Deter, deter! que não ha passagem! E o nobre senhor de Bayão, em recado d'El-Rey e por mercê de Sua Senhoria, vos guarda vidas salvas se volverdes costas sem rumor e tardança!
Lourenço Ramires gritou:
—A elle, besteiros!
Os virotes assobiaram. Toda a curta ala dos cavalleiros de Santa-Ireneia tropeou para dentro do valle, de lanças ristadas. E o filho de Tructesindo, erguido nos estribões de ferro, debaixo do panno solto do seu pendão que apressadamente o alferes saccára da funda, descerrou a vizeira do casco para que lhe mirassem bem a face destemida, e lançou ao Bastardo injurias de furioso orgulho:
—Chama outros tantos dos villões que te seguem que, por sobre elles e por sobre ti, chegarei esta noite a Monte-Mór!
E o Bastardo, no seu fouveiro, que uma rêde de malha cobria, toda acairelada d'ouro, atirava a mão calçada de ferro, clamava:
—Para traz, d'onde vieste, voltarás, bulrão traidor, se eu por mercê mandar a teu pae o teu corpo n'umas andas!
Estes feros desafios rolavam em versos serenamente compassados no Poemeto do Tio Duarte. E depois de os reforçar, Gonçalo Mendes Ramires, (sentindo a alma enfunada pelo heroismo da sua raça como por um vento que sopra de funda compina) arrojou um contra o outro os dous bandos valorosos. Grande briga, grande grita...
—Ala! Ala!
—Rompe! Rompe!
—Cerra por Bayão!
—Casca pelos Ramires!
Através da grossa poeirada e do alevanto zunem os garruchões, as rudes balas de barro despedidas das fundas. Almogavres de Santa-Ireneia, almogavres da Hoste Real, em turmas ligeiras, carregam, topam, com baralhado arremesso d'ascumas que se partem, de dardos que se cravam: e ambas logo refogem, refluem—em quanto, no chão revolto, algum mal-ferido estrebucha aos urros, e os atordoados cambaleando buscam, sob o abrigo do arvoredo, a fresquidão do riacho. Ao meio, no embate mais nobre da peleja, por cima dos corceis que se empinam, arfando ao peso das coberturas de malha, as lisas pranchas dos montantes lampejam, retinem, embebidas nas chapas dos broqueis:—e já, dos altos arções de couro vermelho, desaba algum hirto e chapeado senhor, com um baque de ferragens sobre a terra molle. Cavalleiros e infanções, porém, como n'um torneio, apenas terçam lanças para se derribarem, abolados os arnezes, com clamores de excitada ufania: e sobre a villanagem contraria, em quem cevam o furor da matança, se abatem os seus espadões, se despenham as suas achas, esmigalhando os cascos de ferro como bilhas de grêda.
Por entre a pionagem de Bayão e da Hoste Real Lourenço Ramires avança mais levemente que ceifeiro apressado entre herva tenra. A cada arranque do seu rijo murzello, alagado d'espuma, que sacode furiosamente a testeira rostrada—sempre, entre pragas ou gritos por Jesus! um peito verga trespassado, braços se retorcem em agonia. Todo o seu afan era chocar armas com Lopo. Mas o Bastardo, tão arremessado e affrontador em combate, não se arredára n'essa manhã da lomba do outeiro onde uma fila de lanças o guardava, como uma estacada: e com brados, não com golpes, aquentava a lide! No ardor desesperado de romper a viva cerca Lourenço gastava as forças, berrando roucamente pelo Bastardo com os duros ultrajes de churdo! e marrano! Já d'entre a trama falseada do camalho lhe borbulhavam do hombro, pela loriga, fios lentos de sangue. Um lanço de virotão, que lhe partira as charneiras da greva esquerda, fendera a perna d'onde mais sangue brotava, ensopando o forro d'estopa. Depois, varado por uma frecha na anca, o seu grande ginete abateu, rolou, estalando no escoucear as cilhas pregueadas. E, desembrulhado dos loros com um salto, Lourenço Ramires encontrou em roda uma sebe erriçada de espadas e chuços, que o cerraram—em quanto do outeiro, debruçado na sella, o Bastardo bramava:
—Tende! tende! para que o colhaes ás mãos!
Trepando por cima de corpos, que se estorcem sob os seus sapatos de ferro, o valente moço arremette, a golpes arquejados, contra as pontas luzentes que recuam, se furtam... E, triumphantes, redobram os gritos de Lopo de Bayão:
—Vivo, vivo! tomadel-o vivo!
—Não, se me restar alma, villão! rugia Lourenço.
E mais raivosamente investia, quando um calhau agudo lhe acertou no braço—que logo amorteceu, pendeu, com a espada arrastando, presa ainda ao punho pelo grilhão, mas sem mais servir que uma roca. N'um relance ficou agarrado por peões que lhe filavam a gorja, emquanto outros com varadas de ascuma lhe vergavam as pernas retesadas. Tombou por fim direito como um madeiro;—e nas cordas com que logo o amarraram, jazeu hirto, sem elmo, sem cervilheira, os olhos duramente cerrados, os cabellos presos n'uma pasta de poeira e de sangue.
Eis pois captivo Lourenço Ramires! E, deante das andas feitas de ramos e franças de faias em que o estenderam, depois de o borrifarem á pressa com a agua fresca do riacho,—o Bastardo, limpando ás costas da mão o suor que lhe escorria pela face formosa, pelas barbas douradas, murmurava, commovido:
—Ah! Lourenço, Lourenço, grande dôr, que bem poderamos ser irmãos e amigos!
Assim, ajudado pelo tio Duarte, por Walter Scott por noticias do Panorama, compozera Gonçalo a mal-venturada lide de Canta-Pedra. E com este desabafo de Lopo, onde perpassava a magua do amor vedado, fechou o Cap. II, sobre que labutára tres dias—tão embrenhadamente que em torno o Mundo como que se calára e se fundira em penumbra.
Uma girandola de foguetes estoirou ao longe, para o lado dos Bravaes, onde no Domingo se fazia a romaria celebrada da Senhora das Candeias. Depois da chuva d'aquelles tres dias, uma frescura descia do ceu amaciado e lavado sobre os campos mais verdes. E como ainda restava meia hora farta antes de jantar, o Fidalgo agarrou o chapeu, e mesmo na sua velha quinzena de trabalho, com uma bengalinha de canna, desceu á estrada, tomou pelo caminho que s'estreita entre o muro da Torre e as terras de centeio onde assentavam no seculo XII as barbacans da Honra de Santa Ireneia.
Pela silenciosa vereda, ainda humida, Gonçalo pensava nos seus avós formidaveis. Como elles resurgiam, na sua Novella, solidos e resoantes! E realmente uma comprehensão tão segura d'aquellas almas Affonsinas mostrava que a sua alma conservava o mesmo quilate e sahira do mesmo rico bloco d'ouro. Porque um coração molle, ou degenerado, não saberia narrar corações tão fortes, d'eras tão fortes:—e nunca o bom Manoel Duarte ou o Barrôlo excellente entenderiam, bastante para lhes reconstruir os altos espiritos, Martim de Freitas ou Affonso de Albuquerque... N'esta fina verdade desejaria elle que os Criticos insistissem ao estudar depois a Torre de D. Ramires—pois que o Castanheiro lhe assegurára artigos consideraveis nas Novidades e na Manhã. Sim! eis o que convinha marcar com relevo (e elle o lembraria ao Castanheiro!)—que os Ricos Homens de Santa-Ireneia reviviam no seu neto, senão pela continuação heroica das mesmas façanhas, pela mesma alevantada comprehensão do heroismo... Que diabo! sob o reinado do horrendo S. Fulgencio elle não podia desmantelar o solar de Bayão, desmantelado ha seiscentos annos por seu avô Lionel Ramires—nem retomar aos Mouros essa torreada Monforte onde o Antoninho Moreno era o languido Governador Civil! Mas sentia a grandeza e o prestimo historico d'esse arrojo que outr'ora impellia os seus a arrasar Solares rivaes, a escalar Villas mouriscas: resuscitava pelo Saber e pela Arte, arrojava para a vida ambiente, esses varões temerosos, com os seus corações, os seus trajes, as suas immensas cutiladas, as suas bravatas sublimes: dentro do espirito e das expressões do seu Seculo era pois um bom Ramires—um Ramires de nobres energias, não façanhudas, mas intellectuaes, como competia n'uma Edade d'intellectual descanço. E os jornaes, que tanto motejam a decadencia dos Fidalgos de Portugal, deveriam em justiça affirmar (e elle o lembraria ao Castanheiro!):—«Eis ahi um, e o maior, que, com as fórmas e os modos do seu tempo, continua e honra a sua raça!»
Através d'estes pensamentos, que mais lhe enrijavam as passadas sobre chão tão calcado pelos seus—o Fidalgo da Torre chegára á esquina do muro da quinta, onde uma ladeirenta e apertada azinhaga a divide do pinheiral e da matta. Do portão nobre, que outr'ora se erguera n'esse recanto com lavores e brazão d'armas, restam apenas os dois humbraes de granito, amarellados de musgo, cerrados contra o gado por uma cancella de taboas mal pregadas, carcomidas da chuva e dos annos. E n'esse momento, da azinhaga funda, apagada em sombra, subia chiando, carregado de matto, um carro de bois, que uma linda boeirinha guiava.
—Nosso Senhor lhe dê muito boas tardes!
—Boas tardes, flôrzinha!
O carro lento passou. E logo atraz surdio um homem, esgrouviado e escuro, trazendo ao hombro o cajado, d'onde pendia um mólho de cordas.
O Fidalgo da Torre reconheceu o José Casco dos Bravaes. E seguia, como desattento, pela orla do pinheiral, assobiando, raspando com a bengalinha as silvas floridas do vallado. O outro porém estugou o passo esgalgado, lançou duramente, no silencio do arvoredo e da tarde, o nome do Fidalgo. Então, com um pulo do coração, Gonçalo Mendes Ramires parou, forçando um sorriso affavel:
—Olá! É vossê, José! Então que temos?
O Casco engasgára, com as costellas a arfar sob a encardida camisa de trabalho. Por fim, desenfiando das cordas o marmelleiro que cravou no chão pela choupa:
—Temos que eu fallei sempre claro com o Fidalgo, e não era para que depois me faltasse á palavra!
Gonçalo Ramires levantou a cabeça com uma dignidade lenta e custosa—como se levantasse uma massa de ferro:
—Que está vossê a dizer, Casco? Faltar á palavra! em que lhe faltei eu á palavra?... Por causa do arrendamento da Torre? Essa é nova! Então houve por acaso escriptura assignada entre nós? Você não voltou, não appareceu...
O Casco emmudecera, assombrado. Depois, com uma colera em que lhe tremiam os beiços brancos, lhe tremiam as seccas mãos cabelludas, fincadas ao cabo do varapau:
—Se houvesse papel assignado o Fidalgo não podia recuar!... Mas era como se houvesse, para gente de bem!... Até V. S.a disse, quando eu acceitei: «viva! está tratado!...» O fidalgo deu a sua palavra!
Gonçalo, enfiado, apparentou a paciencia d'um senhor benevolo:
—Escute, José Casco. Aqui não é logar, na estrada. Se quer conversar commigo appareça na Torre. Eu lá estou sempre, como vossê sabe, de manhã... Vá ámanhã, não me encommóda.
E endireitava para o pinhal, com as pernas molles, um suor arripiado na espinha—quando o Casco, n'um rodeio, n'um salto leve, atrevidamente se lhe plantou diante, atravessando o cajado:
—O Fidalgo ha-de dizer aqui mesmo! O Fidalgo deu a sua palavra!... A mim não se me fazem d'essas desfeitas... O Fidalgo deu a sua palavra!
Gonçalo relanceou esgaseadamente em redor, na ancia d'um soccorro. Só o cercava solidão, arvoredo cerrado. Na estrada, apenas clara sob um resto de tarde, o carro de lenha, ao longe, chiava, mais vago. As ramas altas dos pinheiros gemiam com um gemer dormente e remoto. Entre os troncos já se adensava sombra e nevoa. Então, estarrecido, Gonçalo tentou um refúgio na ideia de Justiça e de Lei, que aterra os homens do campo. E como amigo que aconselha um amigo, com brandura, os beiços resequidos e tremulos:
—Escute, Casco, escute, homem! As coisas não se arranjam assim, a gritar. Póde haver desgosto, apparecer o regedor. Depois é o tribunal, é a cadeia. E você tem mulher, tem filhos pequenos... Escute! Se descobriu motivo para se queixar, vá á Torre, conversamos. Pacatamente tudo se esclarece, homem... Com berros, não! Vem o cabo, vem a enxovia...
Então de repente o Casco cresceu todo, no solitario caminho, negro e alto como um pinheiro, n'um furor que lhe esbugalhava os olhos esbraseados, quasi sangrentos:
—Pois o Fidalgo ainda me ameaça com a justiça!... Pois ainda por cima de me fazer a maroteira me ameaça com a cadeia!... Então, com os diabos! primeiro que entre na cadeia lhe hei-de eu esmigalhar esses ossos!...
Erguera o cajado...—Mas, n'um lampejo de razão e respeito, ainda gritou, com a cabeça a tremer para traz, atravez dos dentes cerrados:
—Fuja, fidalgo, que me perco!... Fuja que o mato e me perco!
Gonçalo Mendes Ramires correu á cancella entalada nos velhos humbraes de granito, pulou por sobre as taboas mal pregadas, enfiou pela latada que orla o muro, n'uma carreira furiosa de lebre acossada! Ao fim da vinha, junto aos milheiraes, uma figueira brava, densa em folha, alastrára dentro d'um espigueiro de granito destelhado e desusado. N'esse esconderijo de rama e pedra se alapou o Fidalgo da Torre, arquejando. O crepusculo descera sobre os campos—e com elle uma serenidade em que adormeciam frondes e relvas. Affoutado pelo silencio, pelo socego, Gonçalo abandonou o cerrado abrigo, recomeçou a correr, n'um correr manso, na ponta das botas brancas, sobre o chão molle das chuvadas, até ao muro da Mãe d'Agua. De novo estacou, esfalfado. E julgando entrever, longe, á orla do arvoredo, uma mancha clara, algum jornaleiro em mangas de camisa, atirou um berro ancioso:—«Oh! Ricardo! Oh! Manoel! Eh lá! alguem! Vai ahi alguem?...»—A mancha indecisa fundira na indecisa folhagem. Uma rã pinchou n'um regueiro. Estremecendo, Gonçalo retomou a carreira até ao canto do pomar—onde encontrou fechada uma porta, velha porta mal segura, que abanava nos gonzos ferrugentos. Furioso, atirou contra ella os hombros que o terror enrijára como trancas. Duas taboas cederam, elle furou atravez, esgaçando a quinzena n'um prégo.—E respirou emfim no agazalho do pomar murado, deante das varandas da casa abertas á frescura da tarde, junto da Torre, da sua Torre, negra e de mil annos, mais negra e como mais carregada d'annos contra a macia claridade da lua-nova que subia.
Com o chapeu na mão, enxugando o suor, entrou na horta, costeou o feijoal. E agora subitamente sentia uma colera amarga pelo desamparo em que se encontrára, n'uma quinta tão povoada, exameando de gentes e dependentes! Nem um caseiro, nem um jornaleiro, quando elle gritára, tão afflicto, da borda da Mãe d'Agua! De cinco creados nenhum acudira,—e elle perdido, alli, a uma pedrada da eira e da abegoaria! Pois que dois homens corressem com paus ou enxadas—e ainda colhiam o Casco na estrada, o malhavam como uma espiga.
Ao pé do gallinheiro, sentindo uma risada fina de rapariga, atravessou o pateo para a porta alumiada da cosinha. Dois moços da horta, a filha da Crispola, a Rosa, tagarellavam, regaladamente sentados n'um banco de pedra, sob a fresca escuridão da latada. Dentro o lume estrallejava—e a panella do caldo, fervendo, rescendia. Toda a colera do Fidalgo rompeu:
—Então, que sarau é este? Vocês não me ouviram chamar?... Pois encontrei lá em baixo, ao pé do pinheiral, um bebedo, que me não conheceu, veiu para mim com uma foice!... Felizmente levava a bengala. E chamo, grito... Qual! Tudo aqui de palestra, e a ceia a cozer! Que desaforo! Outra vez que succeda, todos para a rua... E quem resmungar, a cacete!
A sua face chammejava, alta e valente. A pequena da Crispola logo se escapulira, encolhida, para o recanto da cosinha, para traz da maceira. Os dois moços, erguidos, vergavam como duas espigas sob um grande vento. E emquanto a Rosa, aterrada, se benzia, se derretia em lamentações sobre «desgraças que assim s'armam!»—Gonçalo, deleitado pela submissão dos dois homens, ambos tão rijos, com tão grossos varapaus encostados á parede, amansava:
—Realmente! sois todos surdos, n'esta pobre casa!... Além d'isso a porta do pomar fechada! Tive de lhe atirar um empurrão. Ficou em pedaços.
Então um dos moços, o mais alentado, ruivo, com um queixo de cavallo, pensando que o Fidalgo censurava a frouxidão da porta pouco cuidada, coçou a cabeça, n'uma desculpa:
—Pois, com perdão do fidalgo!... Mas já depois da saída do Relho se lhe pôz uma travessa e fechadura nova... E valente!
—Qual fechadura! gritou, o Fidalgo soberbamente. Despedacei a fechadura, despedacei a travessa... Tudo em estilhas!
O outro moço, mais desembaraçado e esperto, riu, para agradar:
—Santo nome de Deus!... Então, é que o fidalgo lhe atirou com força!
E o companheiro, convencido, espetando o queixo enorme:
—Mas que força! a matar! Que a porta era rija... E fechadura nova, já depois do Relho!
A certeza da sua força, louvada por aquelles fortes, reconfortou inteiramente o fidalgo da Torre, já brando, quasi paternal:
—Graças a Deus, para arrombar uma porta, mesmo nova, não me falta força. O que eu não podia, por decencia, era arrastar ahi por essas estradas um bebedo com uma foice até casa do Regedor... Foi para isso que chamei, que gritei. Para que vossês o agarrassem, o levassem ao Regedor!... Bem, acabou. Oh! Rosa, dê a estes rapazes, para a ceia, mais uma caneca de vinho... A vêr se para outra vez se affoutam, se apparecem...
Era agora como um antigo senhor, um Ramires d'outros seculos, justo e avisado, que reprehende uma fraqueza dos seus solarengos—e logo perdôa por conta e amor das façanhas proximas. Depois com a bengala ao hombro, como uma lança, subio pela lobrega escada da cozinha. E em cima no quarto, apenas o Bento entrára para o vestir, recomeçou a sua epopeia, mais carregada, mais terrifica—assombrando o sensivel homem, estacado rente da commoda, sem mesmo pousar a enfusa d'agoa quente, as botas envernisadas, a braçada de toalhas que o ajoujavam... O Casco! O José Casco dos Bravaes, bebedo, rompendo para elle, sem o conhecer, com uma foice enorme, a berrar—«Morra, que é marrão!...» E elle na estrada, deante do bruto, de bengalinha! Mas atira um salto, a foiçada resvala sobre um tronco de pinheiro... Então arremette desabaladamente, brandindo a bengala, gritando pelo Ricardo e pelo Manoel como se ambos o escoltassem—e ataranta o Casco, que recua, se some pela azinhaga, a cambalear, a grunhir...
—Hein, que te parece? Se não é a minha audacia, o homem positivamente me ferra um tiro de espingarda!
O Bento, que quasi se babava, com o jarro esquecido a pingar no tapete, pestanejou, confuso, mais attonito:
—Mas o Snr. Dr. disse que era uma foice!
Gonçalo bateu o pé, impaciente:
—Correu para mim com uma foice. Mas vinha atraz do carro... E no carro trazia uma espingarda. O Casco é caçador, anda sempre d'espingarda... Emfim estou aqui vivo, na Torre, por mercê de Deus. E tambem porque felizmente, n'estes casos, não me falta decisão!
E apressou o Bento—porque com o abalo, o esforço, positivamente lhe tremiam as pernas de cançasso e de fome... Além da sêde!
—Sobretudo sêde! Esse vinho que venha bem fresco... Do Verde e do Alvaralhão, para misturar.
O Bento, com um tremulo suspiro da emoção atravessada, enchera a bacia, estendia as toalhas. Depois, gravemente:
—Pois, Snr. Dr., temos esse andaço nos sitios! Foi o mesmo que succedeu ao Snr. Sanches Lucena, na Feitosa...
—Como, ao Snr. Sanches Lucena?
O Bento desenrolou então uma tremenda historia trazida á Torre, durante a estada do Snr. Doutor em Oliveira, pelo cunhado da Crispola, o Ruy carpinteiro, que trabalhava nas obras da Feitosa. O Snr. Sanches Lucena descêra uma tarde, ao lusco fusco, á porta do Mirante, quando passam na estrada dous jornaleiros, bebedos ou facinoras, que implicam com o excellente senhor. E chufas, risinhos, momices... O Snr. Sanches, com paciencia, aconselhou os homens que seguissem, não se desmandassem. De repente um d'elles, um rapazola, sacode a jaqueta do hombro, ergue o cajado! Felizmente o companheiro, que se affirmára, ainda gritou:—«Ai! rapaz, que elle é o nosso deputado!» O rapazola abalou, espavorido. O outro até se atirou de joelhos deante do Snr. Sanches Lucena... Mas o pobre senhor, com o abalo, recolheu á cama!
Gonçalo acompanhára a historia, seccando vagarosamente as mãos á toalha, impressionado:
—Quando foi isso?
—Pois disse ao Snr. Dr.... Quando o Snr. Dr. estava em Oliveira. Um dia antes ou um dia depois dos annos da Snr.a D. Graça.
O Fidalgo arremessou a toalha, limpou pensativamente as unhas. Depois com um risinho incerto e leve:
—Emfim, sempre serviu d'alguma coisa ao Sanches Lucena ser deputado por Villa-Clara...
E já vestido, abastecendo a charuteira (porque resolvera passar a noite na Villa, a desabafar com o Gouveia)—de novo se voltou para Bento, que arrumava a roupa:
—Então o bebedo, quando o outro lhe gritou «Ai, que é o nosso deputado,» cahiu em si, fugiu, hein?... Ora vê tu! Ainda vale ser deputado! Ainda inspira respeito, homem! Pelo menos inspira mais respeito que descender dos reis de Leão!... Paciencia, toca a jantar.