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A Illustre Casa de Ramires

Chapter 9: VI
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About This Book

An aging nobleman, Gonçalo Mendes Ramires, devotes himself to composing a historical novella and to an exhaustive genealogy that celebrates heroic ancestors while the present household decays. The narrative alternates vivid ancestral episodes with present-day scenes of dwindling fortunes, complacency and social decline, using irony and satirical observation to explore memory, pride, inherited honor and the gap between heroic legend and contemporary reality.




O relogio de charão, no corredor, rouquejou as nove horas. E só então Gonçalo percebeu a densa chuva que alagava a quinta, e a que elle, embebido na sua gloria, passeando pela livraria n'um luminoso rolo de imaginações, não sentira o rumor sobre a pedra da varanda, nem sobre a folhagem dos limoeiros.

Para se calmar, occupar a noite encerrada, deliberou trabalhar na Novella. E realmente agora convinha que terminasse essa Torre de D. Ramires antes do afan da Eleição—para que em Janeiro, ao abrir das Côrtes, surgisse na Politica com o seu velho nome aureolado pela Erudição e pela Arte. Envergou o roupão de flanella. E á banca, com o costumado bule de chá inspirador, repassou lentamente o começo do Capitulo II—que o não contentava.

Era no castello de Santa Ireneia, n'aquelle dia de Agosto em que Lourenço Ramires cahira no valle de Canta-Pedra, mal ferido e captivo do Bastardo de Bayão. Pelo Almocadem dos peões, que, com o braço varado por uma chuçada, voltára em desesperada carreira ao Castello, já Tructezindo Ramires conhecia o desventuroso desfecho da lide.—E n'este lance o tio Duarte, no seu poemeto do Bardo, com um lyrismo molle, mostrava o enorme Rico-Homem gemendo derramadamente atravez da sala-d'armas, na saudade d'esse filho, flôr dos Cavalleiros de Riba-Cavado, derrubado, amarrado n'umas andas, á mercê da gente de Bayão...

Lagrimas irrepresas lhe rebentam,
Arfa o arnez c'o soluçar ardente!...

Ora, levado no harmonioso sulco do tio Duarte, tambem elle, nas linhas primeiras do Capitulo, esboçára o velho abatido sobre um escanho, com lagrimas relusentes sobre as barbas brancas, as duras mãos descahidas como as de languida Dona—em quanto que nas lages, batendo a cauda, os seus dois lebreus o contemplam n'uma sympathia anciada e quasi humana. Mas, agora, este choroso desalento não lhe parecia coherente com a alma tão indomavelmente violenta do avô Tructezindo. O tio Duarte, da casa das Balsas, não era um Ramires, não sentia hereditariamente a fortaleza da raça:—e, romantico plangente de 1848, inundára logo de prantos romanticos a face ferrea de um lidador do seculo XII, d'um companheiro de Sancho I! Elle porém devia restabelecer os espiritos do Senhor de Santa Ireneia dentro da realidade epica. E, riscando logo esse descorado e falso começo de Capitulo, retomou o lance mais vigorosamente, enchendo todo o castello de Santa-Ireneia d'uma irada e rija alarma. Na sua lealdade sublime e simples Tructezindo não cuida do filho—adia a desforra do amargo ultraje. E o seu esforço todo se commette a apressar os aprestos da mesnada, para correr elle sobre Montemor, e levar ás Senhoras Infantas os soccorros de que as privára a embuscada de Canta-Pedra! Mas quando o impetuoso Rico-Homem com o Adail, na sala-d'armas, regia a ordem da arrancada—eis que os esculcas, abrigados do calor d'Agosto nos miradouros, enxergam ao longe, para além do arvoredo da Ribeira, coriscos d'armas, uma cavalgada subindo para Santa-Ireneia. O Villico, o gordo e azafamado Ordonho, galga arquejando aos eirados da torre albarrã—e reconhece o pendão de Lopo de Bayão, o seu toque de trompas á mourisca, arrastado e triste no silencio dos campos. Então arqueia as cabelludas mãos na bôca, atira o alarido:

—Armas, armas! que é gente de Bayão!... Besteiros, ás quadrellas! Homens em chusma ás lavadiças da carcova!

E Gonçalo, coçando a testa com a rama da penna, rebuscava ainda outros veridicos brados, de bravo som Affonsino—quando a porta da livraria abriu cautellosamente, atravez d'aquelle perro rangido que o desesperava. Era o Bento, em mangas de camisa:

—O Snr. Dr. não poderia descer cá baixo á cozinha?

Gonçalo embasbacou para o Bento, pestanejando, sem comprehender:

—Á cozinha?...

—É que está lá a mulher do Casco a levantar uma celeuma. Parece que lhe prenderam o homem esta tarde... Appareceu ahi por baixo de agoa, com os pequenos, até um de mama. Quer por força fallar com o Snr. Dr. E não se calla, lavada em lagrimas, de joelhos com os filhos, que é mesmo uma Ignez de Castro!

Gonçalo murmurou—«que massada!» E que contrariedade! A mulher, n'uma agonia, entre gritos, arrastando os filhos supplicantes até ao portão da Torre! E elle, nas vesperas da sua Eleição, apparecendo a todas as freguezias enternecidas como um fidalgo deshumano!...—Atirou a penna furiosamente:

—Que massada! Dize á creatura que me deixe, que se não afflija... O Snr. Aministrador ámanhã manda soltar o Casco. Eu mesmo vou a Villa-Clara, antes d'almoço, para pedir. Que se não afflija, que não aterre os pequenos... Corre, dize, homem!

Mas o Bento não despegava da porta:

—Pois a Rosa e eu já lhe dissemos... Mas a mulherzinha não acredita, quer pedir ao Snr. Dr.! Veio por baixo d'agoa. Até um dos pequenitos está bem doentinho, ainda não fez senão tremer...

Então Gonçalo, sensibilisado, atirou á meza um murro que tresmalhou as tiras da Novella:

—Ora se uma cousa d'estas se atura! Um homem que me quiz matar! E agora, por cima, é sobre mim que desabam as lagrimas, e as scenas, e a creança doente! Não se pode viver n'esta terra! Um dia vendo casa e quinta, emigro para Moçambique, para o Transvaal, para onde não haja massadas... Bem, dize á mulher que já desço.

O Bento approvou, com effusão:

—Pois se o Snr. Dr. lhe não custa... E como é para dar uma boa nova... Sempre consola a pobre mulherzinha!...

—Lá vou, homem, lá vou! Não me masses tambem... Impossivel trabalhar n'esta casa! Outra noite perdida!

Enfiou violentamente para o quarto, atirando as portas—com a ideia de metter na algibeira do roupão duas notas de dez tostões que consolariam os pequenos. Mas, deante da gaveta, recuou, vexado. Que brutalidade, compensar com dinheiro creancinhas—a quem elle arrancára o pae, algemado, para o trancar n'uma enxovia! Agarrou simplesmente n'uma boceta de alperces seccos—dos famosos alperces do Convento de Santa-Brigida de Oliveira, que na vespera lhe mandára Gracinha. E, cerrando lentamente o quarto, já se arrependia da sua severidade, tão estouvada, que assim desmanchava a quietação de um casal. Depois no corredor, ante a chuva clamorosa que dos telhados se despenhava nas lages do pateo, ainda mais doridamente se impressionou, com a imagem da pobre mulher, tresloucada pela negra estrada, puxando os filhinhos encharcados, moídos, contra a tormenta solta. E ao penetrar no corredor da cozinha—tremia como um culpado.

Atravez da porta envidraçada sentiu logo a Rosa e o Bento consolando a mulher, com palradora confiança, quasi risonhos. Mas os «ais» d'ella, os ruidosos lamentos pelo «seu rico homem», resoavam, mais agudos, como a rebater e a abafar toda a consolação. E apenas Gonçalo empurrou timidamente a porta—quasi acuou no espanto e medo d'aquella afflicção estridente que se arremessava para elle e para a sua misericordia! De rojos nas lages, torcendo as magras mãos sobre a cabeça, toda de negro, parecendo mais negra e dolorosa contra a vermelhidão do lençol estendido que seccava ao lume forte da lareira—a creatura estalára n'um tumulto de supplicas e gritos:

—Ai, meu rico Senhor, tenha compaixão! Ai, que me prenderam o meu homem, que m'o vão mandar para a Africa degredado! Jesus, meus filhinhos da minha alma que ficam sem pae! Ai, pelas suas almas, meu senhor, e por toda a sua felicidade!... Eu sei que elle teve culpa! Aquillo foi perdição que lhe deu! Mas tenha piedade d'estas creancinhas! Ai, o meu pobre homem que está a ferros! Ai, meu rico Senhor, por quem é!

Com as palpebras humedecidas, agarrando desesperadamente, a boceta d'alperces, Gonçalo balbuciava, atravez da emoção que o estrangulára:

—Oh mulher, socegue, já o vão soltar! Socegue! Já dei ordem! Já o vão soltar!

E d'um lado a Rosa, debruçada sobre a escura creatura que gemia, recomeçava docemente:—«Pois foi o que lhe dissemos, tia Maria! Logo pela manhã, o vão soltar!»—E do outro o Bento, batendo na coxa, com impaciencia:—«Oh mulher, acabe com esse escarceu! Pois se o Snr. Dr. prometteu! Logo pela manhã o vão soltar!»

Mas ella não se calmava, com o lenço da cabeça desmanchado, uma trança desprendida, soluçando e clamando atravez dos soluços:

—Ai que eu morro, se o não vejo solto! Ai perdão, meu rico Senhor da minha alma!...

Então Gonçalo, que aquelle infindavel e obtuso queixume torturava, como um ferro cravado e recravado, bateu o chinello nas lages, berrou:

—Escute, mulher! E olhe para mim! Mas de pé, de pé!... E olhe bem, olhe direita!

Hirtamente erguida, atirando as mãos para as costas como a escapar d'algemas que tambem a ameaçassem—ella arregalou para o Fidalgo os olhos espavoridos, fundos olhos pretos, de fundas olheiras tristes, que lhe enchiam a face rechupada e morena.

—Bem, perfeitamente! exclamava Gonçalo. E agora diga! Acha que tenho bojo de lhe mentir, quando vocemecê está n'essa afflicção? Pois então socegue, acabe com os gritos, que, sob minha palavra, ámanhã cedo, o seu homem está solto!

E a Rosa e o Bento, ambos triumphando:

—Pois que lhe dizia a gente, creatura de Deus? Se o Snr. Dr. tinha promettido... Ámanhã lá tem o homem!

Lentamente ella limpava as lagrimas, já silenciosas, á ponta do avental negro. Mas, ainda desconfiada, com os tenebrosos olhos mais arregalados, devorando Gonçalo. E o Fidalgo mandava com certeza a ordem, cedinho, de madrugada?...—Foi o Bento que a convenceu, com violencia:

—Oh mulher, vossê até parece atrevida! Ora essa! Pois duvida da palavra do Snr. Dr.?

Ella soltou o avental, baixou a cabeça, suspirou simplesmente:

—Ai, então muito obrigada, seja pela felicidade de todos...

E agora a curiosidade de Gonçalo procurava os pequenos que ella acarretára desde os Bravaes atravez da chuva cerrada. A pequenina de mama dormia com beatitude sobre a tampa de uma arca, onde a boa Rosa a aconchegára entre mantas e fronhas. Mas o pequeno, de sete annos, encolhido n'uma cadeira deante do lume, rente ao lençol que seccava, seccando tambem, com a carinha afogueada de febre, tossia despedaçadamente, n'um cabecear de somno e cançasso, a arquejar, a gemer contra a tosse que o esfalfava. Gonçalo pousou a boceta de alperces na arca, palpou a mão com que elle, sem cessar, raspava pela abertura da camisa encardida o peito ainda mais encardido.

—Mas esta creanca tem febre!... E vossê, com uma noite d'estas, traz o pequeno assim desde os Bravaes, mulher?

Da cadeirinha baixa, onde se sentára prostrada, ella murmurou, sem erguer a magra face, torcendo a ponta do avental:

—Ai! era para que elles tambem pedissem, que estavam sem pae, coitadinhos!

—Vocemecê é doida, mulher! E pretende talvez voltar para os Bravaes, debaixo d'agoa, com as creanças?

Ella suspirou:

—Ai! volto, volto... Não posso deixar sózinha a mãe do meu homem, que tem oitenta annos e está entrevada.

Então o Fidalgo cruzou descorçoadamente os braços—no embaraço d'aquella aventura, em que, por culpa da sua ferocidade, se arriscavam duas creanças. Mas a Rosa entendia que a pequenina, a de mama, não soffreria com a caminhada, bem achegadinha ao collo da mãe, debaixo de uma manta grossa. Agora o outro, com a tosse, com a febre...

—Esse fica cá! exclamou logo Gonçalo, decidido. Como se chama elle? Manoel... Bem! O Manoel fica cá. E vá descançada, que a Sr.a Rosa toma cuidado. Precisa uma boa gemada, depois um bom suadoiro. Um d'estes dias lá lhe apparece nos Bravaes, curado e mais gordo... Vá socegada!

De novo a mulher suspirou, no cançasso immenso que a invadira, a amollecia. E sem resistir, no seu longo e abatido habito de submissão:

—Pois sim senhor, se o Fidalgo manda, está muito bem...

O Bento, entreabrindo a porta do pateo, annunciava uma «aberta», o negrume a levantar. Gonçalo immediatamente apressou a volta aos Bravaes:

—E não tenha medo, mulher. Vae um moço da quinta com uma lanterna, e um guarda chuva para abrigar a pequena... Escute! Vocemecê até podia levar uma capa de borracha!... Oh Bento, corre, desce a minha capa de borracha. A nova, a que comprei em Lisboa...

E quando o Bento trouxe o «impermeavel» de longa romeira, o lançou por sobre os hombros da mulher, que o estofo rico intimidava, com o seu ruge-ruge de seda—foi na cozinha uma divertida risada. O pranto passára, como a chuva. Agora era uma visita amoravel, findando n'um arranjo alegre d'agasalhos. A Rosa apertava as mãos, banhada de gosto:

—Assim é que vocemecê fica uma bonita Madama, hein!... Se fosse de dia, olhe que se juntava gente!

A mulher sorria emfim, descoradamente, sem interesse:

—Ai! nem sei que pareço... Que avantesma!

Atravez do pateo, onde as acacias gottejavam docemente, Gonçalo acompanhou o rancho até á porta do pomar, gritando ainda—«Agasalhem bem a pequena!»—quando já a lanterna do moço se fundia na humida espessura da noite acalmada. Depois, na cozinha, batendo contra as lages as solas dos chinellos molhados, apalpou novamente o Manoelsinho, que adormecera n'um somno rouquejado, torcido sobre as costas da cadeira.

—Tem pouca febre... Mas precisa um suadoiro forte. E, antes de o cobrirem bem, um leite quente, quasi a ferver, com cognac... O que elle precisava tambem era esfregado a côco... Que porcaria de gente! Emfim fica para mais tarde, quando se curar... E agora, oh Rosa, mande acima alguma cousa para eu cear, cousa solida, que não jantei, e o sarau foi tremendo!

Na livraria, depois de mudar os chinellos, descançar, Gonçalo escreveu ao Gouveia uma carta reclamando com commovida urgencia a liberdade do Casco. E accrescentava:—«É o primeiro pedido que lhe faz o deputado por Villa-Clara (comprimente!), porque acabo de receber telegramma do nosso André, annunciando que «tudo feito, ministro concorda, etc.» De sorte que precisamos communicar! Queira pois vossa mercê vir jantar ámanhã a esta sua Torre, á sombra do Titó e com acompanhamento de Videirinha. Estes dous benemeritos são indispensaveis para que haja appetite e harmonia. E rogo, Gouveia amigo, que os avise do festim, para me evitar a remessa de circulares eloquentes...»

Lacrada a carta, retomou languidamente o manuscripto da Novella. E, trincando a rama da penna, ainda procurou vozes, de bom sabor medieval, para aquelle lance em que o Villico e as roldas enxergavam a cavalgada do Bastardo, pela encosta da Ribeira, com refulgidos d'armas, sob o rijo sol d'Agosto...

Mas a sua imaginação, desde a carta escripta ao Gouveia pelo «Deputado de Villa-Clara» escapava desassocegadamente da velha Honra de Santa Ireneia—esvoaçava teimosamente para os lados de Lisboa, da Lisboa do S. Fulgencio. E o eirado da torre albarran, onde o gordo Ordonho gritava esbaforido—incessantemente se desfazia como nevoa molle, para sobre elle surgir, appetitoso e mais interessante, um quarto do Hotel Bragança com varanda sobre o Tejo... Foi um allivio quando o Bento o apressou para a ceia. E á mesa espalhou livremente a imaginação por Lisboa, pelos corredores de S. Carlos, por sob as arvores da Avenida, atravez dos antiquados palacios dos seus parentes em S. Vicente e na Graça, atravez das salas mais modernas de cultos e alegres amigos—parando ás vezes deante de visões que considerava com um riso deleitado e mudo. Alugaria aos mezes, certamente, uma carruagem da Companhia. E para as sessões de S. Bento sempre luvas côr de perola, uma flor no peito. Por commodidade levava o Bento, bem apurado, com casaca nova...

O Bento entrou com a garrafa do cognac n'uma salva. Dera a carta ao Joaquim da Horta com a recommendação de correr logo ás seis horas a casa do Snr. Administrador, de se demorar na Villa por deante da Cadeia até soltarem o Casco.

—E já deitamos o pequeno no quarto verde. Fica perto de mim, que tenho o somno leve, se elle berrar... Mas já dorme regaladamente.

—Está socegado, hein? acudiu Goncalo, sorvendo á pressa o calice de cognac. Vamos vêr esse cavalheiro!

E tomou um castiçal, subiu ao quarto verde com o Bento, sorrindo, abafando os passos pela estreita escada. No corredor, junto da poria, n'um desbotado camapé de damasco verde, a Rosa dobrára carinhosamente a roupa trapalhona do pequeno, o collete esgaçado, as calças enormes, só com um botão. Dentro o leito de pau preto, vasto leito de ceremonia, atravancava a parede forrada d'um velho papel avelludado de ramagens verdes. Ao lado dos dous postes torneados, á cabeceira, pendiam dous paineis, retratos de antigos Ramires, um Bispo obeso folheando um folio, um formoso Cavalleiro de Malta, de barba ruiva, appoiado á espada, com um laçarote de rendas sobre a couraça polida. E nos altos colchões o Manoelzinho resonava, sem tosse, quieto, abafado pela grossura dos cobertores, humedecido por um suor fresco e sereno.

Gonçalo, caminhando sempre de leve, repuxou cuidadosamente a dobra do lençol. Desconfiado das janellas decrepitas, experimentou que não entrasse traiçoeiro ar pelas gretas. Mandou pelo Bento buscar uma lamparina, que arranjou sobre o lavatorio, com a luz esbatida por traz d'uma vazilha. Ainda attentamente relanceou os olhos lentos pelo quarto, para se assegurar do socego, do silencio, da penumbra, do conforto. E sahiu, sempre na ponta dos pés, sorrindo, deixando o filho do Casco velado pelos dous nobres Ramires—o Bispo com o seu Tratado, o Cavalleiro de Malta com a sua pura espada.

Recolhendo do Tanque-Velho, do fundo da quinta, onde passára a calma, depois do almoço, na frescura do arvoredo, entre susurros de agoas correntes, a folhear um volume do Panorama—Gonçalo encontrou sobre a mesa da livraria, com o correio de Oliveira, uma carta que o surprehendeu, enorme, em papel almaço, fechada por uma obreia. E dentro a assignatura, desenhada a tinta azul, era um coração chammejante.

N'um relance devorou as linhas, pautadas a lapis, d'uma lettra gorda, arredondada com esmero:—«Caro e Ex.mo Snr. Gonçalo Ramires. O galante Governador civil do Districto, o nosso atiradiço André Cavalleiro, passeiava agora coastantemente por deante dos Cunhaes, olhando com ternura para as janellas e para o honrado brazão dos Barrôlos. Como não era natural que andasse a estudar a architetura do Palacete (que nada tem de notavel), concluiu a gente seria que o digno Chefe do Districto esperava que V. Ex.a apparecesse a alguma das janellas do Largo, ou das que deitam para a rua das Tecedeiras, ou sobretudo no mirante do Jardim, para reatar com V. Ex.a a antiga e quebrada amizade. Por isso muito acertadamente procedeu V. Ex.a em correr pessoalmente ao Governo Civil, e propor a reconciliação, e abrir os braços generosos ao velho amigo, evitando assim que a primeira Auctoridade do Districto continuasse a esbanjar um tempo precioso n'aquelles passeios, de olhos pregados no Palacete dos fidalguissimos Barrôlos. Enviamos portanto a V. Ex.a os nossos sinceros parabens por esse acertado passo que deve calmar as impaciencias do fogoso Cavalleiro e redondar em beneficio dos serviços publicos!»

Revirando o papel nas mãos, Gonçalo pensou:

—É das Louzadas!

Ainda estudou a lettra, as expressões, descortinando que redundar fora escripto com um O, architectura sem C. E rasgou furiosamente a grossa folha, rosnando no silencio da livraria:

—Aquellas bebadas!

Sim, era d'ellas, das odiosas Louzadas! E essa origem mais o aterrava—porque maledicencia, lançada por tão ardentes espalhadoras de maledicencias, já certamente penetrára em todas as casas d'Oliveira, mesmo na Cadeia, mesmo no'Hospital! E agora a cidade divertida, lambendo o escandalo, relacionava perfidamente os rodeios do André pelos Cunhaes com essa sua visita ao Governo Civil que assombrára a Arcada. Na ideia pois d'Oliveira, e sob a inspiração das Louzadas—fôra elle, elle, Gonçalo Mendes Ramires, que arrancára o Cavalleiro á sua Repartição, o conduzira serviçalmente ao Largo d'El-Rei, lhe escancarára as portas do Palacete até ahi rondadas e miradas sem proveito, e com sereno descaro alcovitára os amores da irmã! Se taes desavergonhadas não mereciam que lhes arregaçassem as sujas saias no meio da Praça, em manhã de Missa, e lhes fustigassem as nadegas melladas, furiosamente, até que o sangue ensopasse as lages!...

E, para maior damno, as apparencias todas se combinavam contra elle, traidoramente! Essa insistencia de André, cocando Gracinha, estrondeando a calçada em torno do Palacete, crescera, impressionava, justamente agora, n'este Agosto, nas vesperas d'essa sua apparição á janella do Governo Civil, que Oliveira commentava como um misterio historico. Que inopportunamente morrera o animal do Sanches de Lucena! Mezes antes, nem mesmo a malicia das Louzadas ligaria a sua reconciliação com André a um cêrco amoroso que não começára, ou não andava tão murmurado. Tres ou quatro mezes depois, André, sem esperança ante o Palacete inaccessivel, certamente findaria os seus giros pelo Largo, de rosa ao peito! Mas não! infelizmente quando esse André, com maior estrepito, ronda a porta almejada—é que elle acode, e abraça o rondador, e lhe facilita a porta! E assim a maledicencia das Louzadas encontrava uma base, a que todos na cidade podiam palpar a substancia, e a solidez, e sobre ella se erigia como Verdade Publica! Infames Louzadas!

Mas agora? O que? manter rigidamente as suas relações com o Cavalleiro dentro da Politica, evitando escorregadias intimidades que o tornassem logo nos Cunhaes, como outr'ora na Torre, o conviva desejado? Como poderia? Desde que elle se reconciliava com André, logo e tão naturalmente como a sombra segue a inclinação do ramo, se reconciliava tambem o Barrôlo, seu cunhado e sua sombra... Mas como impôr ao Barrôlo que a sua renovada familiaridade com o Cavalleiro se realisasse unicamente dentro da Politica como dentro d'um Lazareto?—«Eu sou outra vez o velho amigo do André, tu, Barrôlo, tambem—mas nunca o convides para a tua mesa, nem lhe abras a tua porta!»—Imposição desconcertada, de dura impertinencia—e que, na pequena Oliveira, logo os faceis encontros, a simplicidade hospitaleira do Barrôlo, quebrariam como um barbante poido... E depois que grotesca attitude a sua, hirto deante do portão do Palacete, como um Archanjo S. Miguel, de bengala de fogo na mão, para sustar a intrusão de Satanaz, Chefe do Districto! Mas tambem que toda a cidade largasse a cochichar pelos cantos o nome de Gracinha embrulhado ao nome de André, com o nome d'elle, Gonçalo, emmaranhado atravez como o fio favoravel que os atára—era horrivel.

E na impaciencia d'esta difficuldade, de malhas tão asperas, que tanto o feriam, terminou por esmurrar a meza, revoltado:

—Irra, que massada! São tudo massadas, n'estas terras pequenas e coscovilheiras...

Em Lisboa quem se importaria que o Snr. Governador civil passeasse n'um certo Largo—e que certo Fidalgo da Torre se reconciliasse com o Snr. Governador Civil?... Pois acabou! Romperia soberbamente para diante, como se habitasse Lisboa, desafogado de mexericos e de malignos olhinhos a cocar. Era Gonçalo Mendes Ramires, da casa de Ramires! Mil annos de nome e de solar! Dominava bem acima de Oliveira, de todas as suas Louzadas. E não só pelo nome, louvado Deus, mas pelo espirito... O André era seu amigo, entrava em casa de sua irmã—e Oliveira que estoirasse!

E nem consentiu que a suja carta das Louzadas desmanchasse a quieta manhã de trabalho para que se preparára desde o almoço, relendo trechos do Poemeto do Tio Duarte, folheando artigos do Panorama sobre as guerras de muralhas no seculo XII. Com um esforço d'attenção erudita abancou, mergulhou a penna no tinteiro de latão que servira a trez gerações de Ramires. E emquanto repassava as tiras trabalhadas, nunca o Castello de Santa Ireneia lhe parecera tão heroico, de tão soberana estatura, sobre tamanha collina d'Historia, sobranceando o Reino, que em torno d'elle se alargava, se cobria de villas e messes, pelo esforço dos seus castellões!

Temerosa, com effeito, se erguia a antiga Honra de Santa Ireneia, n'essa Affonsina manhã d'Agosto e rijo sol, em que o pendão do Bastardo surgira, entre fulgidos d'armas, para além dos arvoredos da Ribeira! Já por todas as ameias se apinhavam os besteiros, espiando, encurvadas as béstas. Das torres e adarves subia o fumo grosso do breu, fervendo nas cubas, para despejar sobre os homens de Bayão que tentassem a escalada. O Adail corria pelas quadrellas, relembrando as traças de defeza, revistando os feixes de virotões, os pedregulhos d'arremesso. E no immenso terreiro, por entre os alpendres colmados, surdiam velhos solarengos, servos do forno, servos da abegoaria, que se benziam com terror, puchavam pelo saião d'algum apressado homem de rolda, para saberem da hoste que avançava. No emtanto a cavalgada passára a Ribeira sobre a rude ponte de pau—já, por entre os alamos, serenamente se acercava do Cruzeiro de granito, outr'ora erguido nos confins da Honra por Gonçalo Ramires, o Cortador. E, no socego da manhã abrazada, mais fundamente resoaram as buzinas do Bastardo, e o seu toque lento e triste á mourisca...

Mas quando Gonçalo, enlevado no trabalho, tentava reproduzir, com termos bem sonoros, avidamente rebuscados no Diccionario de Synonimos, o toar arrastado das buzinas de Bayão—sentiu realmente, do lado da Torre, um gemer de sons graves que crescia atravez dos limoeiros. Deteve a penna—e eis que o Fado dos Ramires s'eleva offertadamente da horta, em serenada, para a varanda florida de madresilva:

Ora, quem te vê solitaria,
Torre de Santa Ireneia...

O Videirinha!—Correu alvoroçadamente á janella. Um chapeu côco tremulou entre os ramos, um brado estrugio, acclamador:

—Viva o deputado por Villa-Clara! Viva o illustre deputado Gonçalo Ramires!

No violão rompera triumphalmente o Hymno da Carta. Videirinha, alçado na biqueira das botas gaspeadas de verniz, gritava—«Viva a illustre casa de Ramires!» E por baixo do chapeu côco, sacudido com delirio, João Gouveia, sem poupar a garganta, urrava—«Viva o illustre deputado por Villa-Clara! Viva!»

Magestosamente, Gonçalo, alagado de riso, estendeu da varanda o braço eloquente:

—Obrigado, meus queridos concidadãos! Obrigado!... A honra que me fazeis, vindo assim, n'esse formoso grupo, o chefe glorioso da Administração, o inspirado Pharmaceutico, o...

Mas reparou... E o Titó?

—O Titó não veio?... Oh João Gouveia, você não avisou o Titó?

Repondo sobre a orelha o chapeu côco, o Administrador, que arvorára uma gravata de setim escarlate, declarou o Titó «um animal»:

—Estava combinado virmos todos trez. Até elle devia trazer uma duzia de foguetes, para estalar aqui com o Hymno... A reunião era ao pé da Ponte... Mas o animal não appareceu. Em todo o caso ficou avisado, avisadissimo... E se não vier, é traidor.

—Bem, subam vocês! gritou Gonçalo. Eu n'um instante me visto. E, para aguçar o appetite, proponho um vermouth, depois uma volta pela quinta até ao pinhal!...

Immediatamente Videirinha, têso, empinando o violão, metteu pela rua larga da horta, recoberta de parreira; e atraz João Gouveia atirava os passos em cadencia nobre, alçando o guarda-sol como um pendão. Quando Gonçalo entrou no quarto, berrando pelo Bento e por agoa quente—o Fado dos Ramires soava, em trinados heroicos, atravez do feijoal, por sob a janella aberta onde seccava o lençol do banho. E eram as quadras preferidas do Fidalgo, as quadras em que o grande avô Ruy Ramires, sulcando os mares de Mascate n'uma urca, encontra trez fortes naus inglezas, e, do alto do seu castello de prôa, vestido de gran-vermelha, com a mão no cinto d'anta tauxeado d'ouro e pedras, soberbamente as intima a que se rendam...

Todo alegre, e a mão no cinto.
Junto da Signa Real,
Gritando ás naus—«Amainae
Por El-Rei de Portugal!...»

Gonçalo abotoava á pressa os suspensorios, retomára o canto glorificador—Todo alegre, a mão no cinto... Junto da Signa Real...—E, atravez do esforço esganiçado, pensava que com tal linha d'avós, bem podia desprezar Oliveira e as suas Louzadas horrendas. Mas o trovão lento de Titó retumbou no corredor:

—Então esse deputado de Villa-Clara?... Já está a vestir a farda?

Gonçalo correu á porta do quarto, radiante:

—Entra, Titó! Os deputados já não usam farda, homem! Mas se a tivesse, c'os diabos, ia hoje farda, e espadim e chapeu armado, para honrar hospedes tão illustres!

O outro avançára vagarosamente, com as mãos nas algibeiras da rabona de velludo côr d'azeitona, o vasto chapeu braguez atirado para a nuca, desafogando a honesta face barbuda, vermelha de saude e sol:

—Eu, por farda, queria dizer libré... Libré de lacaio.

—Ora essa!?

E o outro mais retumbante:

—Pois o que vaes tu ser, homem, senão um sujeito ás ordens do S. Fulgencio, do horrendo careca? Não lhe serves o chá, quando elle te mandar; mas, quando elle te mandar votar, votas! Alli, direitinho, ás ordens! «Oh Ramires, vote lá!» E Ramires, zás, vota... É de escudeiro, homem, é de escudeiro de libré...

Gonçalo sacudiu os hombros, impaciente:

—Tu és uma creatura das selvas, lacustre, quasi prehistorica... Não entendes nada das realidades sociaes!... Na sociedade não ha principios absolutos!...

Mas o Titó, imperturbavel:

—E esse Cavalleiro? Tambem já é rapaz de talento? Tambem já governa bem o Districto?

Então Gonçalo protestou, picado, com uma roseta forte na face. E quando negára elle ao André talento ou geito de governar? Nunca! Só rira, gracejando, da sua pompa, da bigodeira lustrosa... E de resto, o serviço do Paiz exigia que por vezes se alliassem homens que nem partilhavam os mesmos gostos, nem procuravam os mesmos interesses!

—E emfim o Snr. Antonio Villalobos vem hoje um moralista muito terrivel, um Catão com quem se não pode jantar!... Ora foi sempre o costume dos Philosophos muito rispidos fugir da sala do banquete onde triumpha o devasso, e protestar comendo na cosinha!

Titó, serenamente, virou as costas magestosas.

—Onde vaes, ó Titó?

—Para a cosinha!

E, como Gonçalo ria, Titó, junto da porta, girando como uma torre que gira, encarou o seu amigo:

—Sério, sério, Gonçalo! Eleição, reconciliação, submissão, e tu em Lisboa ás cortezias ao S. Fulgencio, e em Oliveira de braço dado com o André, tudo isso me parece que destoa... Mas emfim se a Rosa hoje se apurou, não alludamos mais a cousas tristes!

E Gonçalo bracejava, de novo protestava—quando o violão resoou no corredor, com as patadas bem marchadas do Gouveia, e o Fado recomeçou, mais meigo, mais glorificador:

—Velha casa de Ramires,
Honra e flor de Portugal!



VI



A casa do Cavalleiro em Corinde era uma edificação dos fins do seculo XVIII, sem elegancia e sem arte, pintada d'amarello, lisa e vasta, com quatorze janellas de frente, quasi ao meio d'uma quinta chã, toda de terras lavradas. Mas uma avenida de castanheiros conduzia, com alinhada nobreza, ao pateo da frente, ornado por dois tanques de marmore. Os jardins conservavam a abundancia esplendida de rosas que os tornára famosos—e lhes merecera em tempos do avô de André, o Desembargador Martinho, uma visita da Snr.a D. Maria II. E dentro todas as salas reluziam d'asseio e ordem, pelos cuidados da velha governanta, uma parenta pobre do Cavalleiro, a Snr.a D. Jesuina Rollim.

Quando Gonçalo, que viera da Torre na egoa, atravessou a ante-sala, ainda reconheceu um dos paineis da parede, fumarento combate de galiões, que elle uma tarde rasgára jogando o espadão com André. Sob esse painel, á borda do canapé de palhinha, esperava melancolicamente um amanuense do Governo Civil, com a sua pasta vermelha sobre os joelhos. E d'uma porta remota, ao fundo do corredor, André, avisado pelo creado, o fiel Matheus, gritou alegremente:

—Oh Gonçalo, entra para cá, para o quarto! Sahi da tina... Ainda estou em ceroulas!

E em ceroulas o abraçou, n'um generoso abraço de parabens. Depois, em quanto se vestia, por entre as cadeiras atravancadas com o recheio das malas—gravatas, peugas de sêda, garrafas de perfumes—conversaram do calor, da jornada enfadonha, de Lisboa despovoada...

—Um horror! exclamava o Cavalleiro aquecendo um ferro de frisar á lampada d'alcool. Todas as ruas da Baixa em obras, cobertas de caliça, de poeirada. O Central enfestado de mosquitos. Muito mulato. Uma Tunis, Lisboa!... Mas emfim, lá combatemos bravamente o bom combate!

Gonçalo sorria, do canto do divan onde se accommodára, entre uma pilha de camisas de côr e outra de ceroulas com monogramma flammante:

—E então, Andrésinho, tudo arranjado, hein?

O Cavalleiro, deante do toucador, frisava com enlevado esmero as pontas grossas do bigode. E só depois de o ensopar em brilhantina, d'acamar as ondas da cabelleira rebelde, de se mirar, de se requebrar, assegurou a Gonçalo, já inquieto, que a eleição ficára solida...

—Mas imagina tu! Quando appareci em Lisboa, no Ministerio do Reino, encontrei o circulo promettido ao Pitta, ao Theotonio Pitta, o grande homem da Verdade...

O Fidalgo pulou, despenhando a ruma de camisas:

—E então?...

E então elle mostrára muito asperamente ao José Ernesto a inconveniencia de dispôr do Circulo como d'um charuto, sem o consultar, a elle, Governador Civil—e dono do circulo... E como o José Ernesto se arrebitava, alludia á conveniencia superior do Governo, elle logo, estendendo o dedo firme:—«Pois Zésinho, flôr, ou trago o Ramires por Villa-Clara, ou me demitto, e arde Troia!...» Espantos, escarceus, berreiros—mas o José Ernesto cedêra, e tudo findou jantando ambos em Algés com o tio Reis Gomes, onde á noite, ao «bluff», as senhoras lhe arrancaram quatorze mil reis.

—Em resumo, Gonçalinho, precisamos conservar os olhos attentos. O José Ernesto é rapaz leal, meu velho amigo. E depois conhece o meu genio... Mas ha os compromissos, as pressões... E agora a novidade pittoresca. Sabes quem se propõe contra ti, pelos Regeneradores?... Adivinha... O Julinho!

—Que Julinho?... O Julio das photographias?

—O Julio das photographias.

—Diabo!

O Cavalleiro encolheu os hombros, com piedade:

—Arranja dez votos á porta da quinta, tira o retrato a todos os taverneiros do circulo em mangas de camisa, e continua a ser o Julinho... Não! só Lisboa me inquieta, a canalha politica de Lisboa!

Gonçalo torcia o bigode, desconsolado:

—Imaginei tudo mais solido, mais inabalavel... Assim com todas essas intrigas, ainda surde trapalhada... Ainda lá não vou!

O Cavalleiro, ao espelho, esticava o fraque—que experimentára abotoado, depois repuxadamente aberto sobre o collete de fustão côr de azeitona onde, no trespasse largo, tufava a gravata de sedinha clara, prendida por uma saphira. Por fim, encharcando o lenço com essencia de fêno:

—Nós estamos bem alliados, bem consagrados, não é verdade? Então, meu caro Gonçalo, socega, e almocemos regaladamente!... Creio que este fraque do nosso Amieiro assenta com certa graça, hein?

—Magnifico! affirmou Gonçalo.

—Bem. Então agora descemos ao jardim, para tu reveres os velhos poisos e te florires com uma rosa de Corinde.

E logo no corredor, ornado de jarrões da India, de arcas de charão, enlaçando o braço de Gonçalo, do seu recuperado Gonçalo:

—Pois, meu filho, aqui pisamos ambos de novo os nobres soalhos de Corinde, como ha cinco annos... E nada mudou, nem um creado, nem uma cortina! Agora, um d'estes dias, preciso visitar a Torre.

Gonçalo accudiu ingenuamente:

—Oh! a Torre está muito mudada... Muito mudada!

E um embaraçado silencio pesou—como se entre elles surgisse a imagem entristecida da antiga quinta, no tempo dos amores e das esperanças, quando André e Gracinha procuravam as ultimas violetas d'Abril, sob o sorriso tutelar de Miss Rhodes, rente aos humidos muros da Mãe d'Agoa. Ainda em silencio desceram a escada de caracol—por onde ambos outr'ora se despenhavam cavalgando o corrimão. E em baixo, n'uma sala abobadada, rodeada de bancos de madeira com as armas dos Cavalleiros nas espaldas, André quedou deante da porta envidraçada do jardim, ondeou um gesto desconsolado e languido:

—Eu tambem, agora, pouco appareço em Corinde. E, comprehendes bem que não me reteem em Oliveira os cuidados da Administração... Mas este casarão arrefeceu, alargou, desde a morte da mamã. Ando aqui como perdido. E acredita, quando cá me demoro, são uns passeios tristonhos por esses jardins, pela Rua Grande... Ainda te lembras da Rua Grande?... Vou envelhecendo muito solitariamente, meu Gonçalo!

Gonçalo murmurou, por concordancia, sympathia renovada:

—Eu tambem m'aborreço na Torre...

—Mas tens outro genio!... E eu realmente sou um elegiaco.

Correu, com um esforço, o fecho perro da porta envidraçada. E limpando os dedos ao lenço perfumado:

—Eu creio que Corinde, agora, só me encantava com grandes cerros escalvados, grandes rochedos agrestes... Ás vezes, cá dentro d'alma, necessito o ermo de S. Bruno...

Gonçalo sorria d'aquelle appetite ascetico, murmurado com preciosidade, atravez da bigodeira torcida a ferro, resplandecente de brilhantina. E no terraço, junto á balaustrada de pedra enramada d'hera, galhofou, louvando o areado alinho, o relusente viço do jardim:

—Com effeito, para um discipulo de S. Bruno, que escandalo, todo este asseio! Mas para um peccador como eu, que delicia!... O jardim da Torre anda um chavascal.

—A prima Jesuina gosta de flôres. Tu não conheces a prima Jesuina? Uma velha parenta da mamã, que governa agora a casa. Coitada! e com um escrupulo, com um amor... Se não fosse a santa creatura, os porcos fossavam nos canteiros... Meu filho, onde não ha saia, não ha ordem!

Desceram a escadaria redonda, por entre os vasos de louça azul que trasbordavam de geranios, de secias, de canas da India. Gonçalo recordou a vespera de S. João em que rolára por aquelles degraus, n'um trambulhão tremendo, com os braços carregados de foguetes. E lentamente, atravez do jardim, evocavam memorias da camaradagem antiga. Lá se conservava o trapezio, dos tempos em que ambos cultivavam a religião heroica da força, da gymnastica, do banho frio... N'aquelle banco, sob a magnolia, lera uma tarde André o primeiro canto do seu Poema, o Fronteiro d'Arzilla. E o alvo? O alvo onde se exerciam á pistola, para os futuros duellos, inevitaveis na campanha que ambos meditavam contra o velho Syndicato Constitucional?...—Oh! toda essa parte do muro, que pegava com o lavadoiro, fôra derrubada depois da morte da mamã, para alargar a estufa...

—De resto o alvo era inutil! accrescentou o Cavalleiro. Eu logo por esse tempo entrei tambem no Syndicato... E agora entras tu, pela porta que eu te abro!

Então Gonçalo, que colhêra e esmagava entre os dedos, para lhe sorver o perfume, folhas de lucia-lima—acudiu com uma franqueza, que aquelle desenterrar de recordações tornava mais penetrante e sentida:

—E eu desejo entrar, e ardentemente, bem sabes. Mas tu afianças a eleição, com segurança? Não surgirá difficuldade, Andrésinho?... Esse Pitta é um habil!

O Cavalleiro murmurou apenas, mergulhando os dedos nas cavas do collete:

—Da habilidade dos Pittas se ri a força dos Cavalleiros...

Por trez degraus de tijolo baixaram ao outro jardim, desafogado de arvoredo e sombra, onde desabrochava desde Maio, com explendor, o tão celebrado bosque de roseiras, orgulho da quinta de Corinde, que deleitára uma Rainha. Aquelle facil desdem pelo Pitta confirmava a segurança da Eleição. Gonçalo, caminhando respeitosamente como n'um Museu, regou de louvores deslumbrados as rosas do Cavalleiro:

—Uma belleza, André, uma maravilha! Tens aqui rosas sublimes... Aquellas repolhudas, além, que luxo! E estas amarellas? deliciosas!... Olha este encanto! o ruborsinho a surdir, a raiar, do fundo das petalas brancas... Oh, que escarlate! Oh, que divino escarlate!

O Cavalleiro cruzára os braços, com gracejadora melancolia:

—Pois vê tu! Tal é a minha solidão social e sentimental que, com todas estas rosas abertas, não tenho a quem mandar um ramo!... Estou reduzido a florir as Louzadas!

Um escarlate, mais vivo do que as rosas que gabava, cobriu as faces do Fidalgo:

—As Louzadas! Oh que desavergonhadas!

André atirou ao seu amigo os lustrosos olhos, n'um inquieto reparo de curiosidade:

—Por quê?... Desavergonhadas, por quê?

—Por quê? Por que o são! Pela sua natureza, e pela vontade de Deus!... São desavergonhadas como estas rosas são vermelhas.

E o Cavalleiro, tranquillisado:

—Ah, genericamente... Com effeito têm immensa peçonha. Por isso eu as cubro de rosas. E em Oliveira, todas as semanas, meu filho, tomo com ellas um chá respeitoso!

—Pois não as amansas, rosnou o Fidalgo.

Mas o Matheus apparecêra nos degraus de tijolo com o guardanapo na mão, a calva rebrilhando ao sol. Era o almoço. O Cavalleiro colheu para Gonçalo uma «rosa triumphal»—e para si um «botão innocente...» E, enflorados, subiam para o terraço entre o brilho e o perfume de outras roseiras—quando o Cavalleiro parou com uma ideia:

—A que horas vaes tu para Oliveira, Gonçalinho?

O Fidalgo hesitou. Para Oliveira?... Não tencionava apparecer em Oliveira, toda essa semana...

—Por quê? É urgente que vá a Oliveira?

—Pois certamente, filho! Ámanhã mesmo precisamos conversar com o Barrôlo, combinarmos, por causa dos votos da Murtosa!... Meu querido Gonçalo, não podemos adormecer. Não é pelo Julio, é pelo Pitta!

—Bem! bem! acudio logo Gonçalo, assustado. Parto para Oliveira.

—Por que então, continuava André, vamos ambos logo, a cavallo. É um bonito passeio pelos Freixos, sempre com sombra... Tens talvez de mandar á Torre, por causa de roupa...

Não! Gonçalo, para evitar a importunidade de malas, conservava nos Cunhaes um bragal inteiro, desde a chinella até á casaca. E entrava em Oliveira como o Philosopho Bias em Athenas—com uma simples bengala e paciencia infinita...

—Delicioso! declarou André. Fazemos então logo a nossa entrada official em Oliveira. É o começo da campanha.

O Fidalgo torcia o bigode, consternado, pensando nos risinhos perversos das Louzadas, de toda a cidade, perante uma entrada tão apparatosamente fraternal. E, quando o Cavalleiro recommendou ao Matheus que mandasse apromptar o Rossilho e a egoa do Fidalgo para as quatro horas e meia, Gonçalo exagerou o seu receio do calor, da poeira. Antes partissem ás sete, pela fresca! (Assim esperava penetrar em Oliveira desapercebidamente, esbatido no crepusculo). Mas André protestou:

—Não, é uma secca, chegamos á noite. Precisamos entrar com solemnidade, á hora da musica no Terreiro... Ás cinco, hein?

E Gonçalo, vergando os hombros sob a Fatalidade:

—Pois sim, ás cinco.

Na sala de jantar, esteirada, com denegridos paineis de flôres e fructas sobre um papel vermelho imitando damasco, André occupou a veneranda cadeira de braços do avô Martinho. O brilho das pratas, a frescura das rosas n'uma floreira de Saxe, revelavam os desvelos da prima Jesuina—que, com dôr d'entranhas n'essa manhã, não se vestira, almoçava no quarto... Gonçalo louvou aquella elegante ordem, tão rara n'uma casa de solteirão, lamentando a falta de uma prima Jesuina na Torre... E André sorria deliciadamente, desdobrando o guardanapo, com a esperança que Gonçalo contasse aos Barrôlos o confortavel luxo de Corinde. Depois, picando com o garfo uma azeitona:

—Pois é verdade, meu querido Gonçalo, lá estive n'essa grande Capital, depois um dia em Cintra...

O Matheus entre-abriu a porta para recordar a S. Ex.a o amanuense do Governo Civil, que esperava.

—Pois que espere! gritou S. Ex.a.

Gonçalo lembrou que talvez o digno homem se impacientasse, com fome...

—Pois que almoce! gritou S. Ex.a.

Aquelle secco desprezo de André pelo pobre empregado, esquecido no banco d'entrada, com a sua pasta sobre os joelhos—constrangia o Fidalgo. E espetando tambem uma azeitona:

—Dizias então, Cintra...

—Semsabor, resumiu André. Poeirada horrenda, femeaço mediocre... E já me esquecia. Sabes quem lá encontrei, na estrada de Collares? O Castanheiro, o nosso Castanheiro, o dos Annaes, de chapéo alto. Ergueu logo os braços ao céo, desolado:—«E então esse Gonçalo Mendes Ramires não me manda o romance?» Parece que o primeiro numero da Revista sae em Dezembro, e elle precisa o original em começos d'Outubro... Lá me supplicou que te saccudisse, que te recordasse a gloria dos Ramires. E tu devias acabar a Novella... Até convem que, antes d'entrares na Camara, appareça um trabalho teu, um trabalho serio, d'erudição forte, bem portuguez...

—Pois convem! concordou vivamente Gonçalo. E á Novella só falta o Capitulo quarto. Mas esse justamente demanda mais preparação, mais pesquizas... Para o acabar precisava o espirito bem socegado, a certeza d'esta infernal eleição... Não é o animal do Julio que me inquieta. Mas a canalha intrigante de Lisboa... Que te parece?

Cavalleiro riu, estendendo de novo o garfo para as azeitonas:

—Que me parece, Gonçalinho? Que estás como uma creança pequena, afflicta, com medo que te não chegue o prato de arroz doce. Socega, menino, apanhas o teu arroz doce!... Mas com effeito, encontrei o José Ernesto muito teimoso. Já existiam compromissos antigos com o Pitta. A Verdade tem sido furiosamente ministerial... E esse Pitta, agora quando souber que lhe tapei Villa-Clara, arde em furor contra mim. O que me é soberanamente indifferente; colerasinhas ou piadinhas do Pitta não me tiram o appetite... Mas o José Ernesto admira o Pitta, necessita do Pitta, está empenhado em pagar ao Pitta com um circulo... Ainda no ultimo dia me disse na Secretaria, até lhe achei graça:—«Eu vejo que os deputados por Villa-Clara morrem; ora se, por esse bom costume, o teu Ramires morrer em breve, então entra o Pitta.»

Gonçalo recuou a cadeira:

—Se eu morrer!... Que animal!

—Oh, se morreres para o Circulo! atalhou o Cavalleiro rindo. Por exemplo, se nos zangassemos, se ámanhã entre nós surgisse uma dissidencia... Emfim o impossivel!

O Matheus entrava com a terrina de caldo de gallinha, que rescendia.

—A elle! exclamou André. E não se falle mais de Circulos, nem de Pittas, nem de Julios, nem da negregada Politica!... Conta antes o enredo da tua Novella... Historica, hein?... Meia-idade? D. João V?... Eu, se tentasse agora um Romance, escolhia uma epocha deliciosa, Portugal sob os Philippes...