As azas do tempo têem forte envergadura; não cançam de voar, mas levam ás vezes comsigo pennas que se não mudam, embora fiquem disfarçadas entre outras que vão nascendo...
Assumpção soffria por não encontrar remedio para os males futuros, que via proximos. O seu papel estava feito por si, tinha de acceital-o, fazendo, como religioso, cumprir-se um juramento dito em nome de Deus. Mas o amigo? mas o homem? mas aquella pobre mulher sózinha? Deveria consentir que a guerreassem como a uma inimiga?
Elle não era cego nem era surdo. A obra de Alice era de paz e de beneficio. Fôra ella que modificara as impetuosidades d'aquella criança, cuja vontade omnipotente dobrava tudo e todos a seu bel-prazer.
Seria isso um calculo, uma impostura? Especularia ella, servindo-se da filha para entrar no dominio do pae? Afinal, que se sabia d'ella? Que pertencia a uma boa familia decahida da fortuna e que passava por uma moça honesta...
Em boas familias quantos maus germens existem e quantas mulheres honestas maquinam tramas infernaes! O confissionario ensinara-lhe que o bem e o mal nascem da mesma fonte sempre inconstante e fertil...
A familia... Seria certo o que a Baroneza lhe insinuara? Dissera que uma récua de famintos ia tirar aos criados de Argemiro os pedaços que lhes competiam...
A que horas? Como? Deveria tambem indagar d'isso?! Por que não, se esse era um meio de conhecer a mulher com quem talvez tivesse de luctar?
E uma triste sympathia attrahia-o logo para a pobre governante, sempre bem arranjadinha nos seus vestidos surrados, sempre sorridente e sempre simples.
—O senhor tambem parece mudo! disse Maria, rindo.
—Estava pensando cá numas coisas...
—Eu tambem.
—Em que pensavas?
—Em D. Alice.
—Ah... e quaes eram as tuas conclusões?
—Que é muito boa moça.
—A razão deve estar comtigo.
—Eu queria que vovó gostasse d'ella...
—Ha de gostar.
—Hum...
—Mais tarde; dá tempo ao tempo.
—Por que é que papae não quer vêr D. Alice?
—Oh, filha, é... é porque teu pae... receia avivar as saudades de tua mãe...
Já me tardava esta pergunta, disse elle de si para si.
—Não entendo...
—Tua mãe não era a dona da casa?
—Era.
—D. Alice não está desempenhando o papel de dona da casa?
—Ah, mas não é mulher d'elle!
—Ah!...
—Nem come á mesa, nem apparece ás visitas... é, afinal, uma especie de criada!
—Não. Ella governa os criados. É differente...
—Tenho pena d'ella. Agora tenho pena d'ella...
—Agora?
—Antes não tinha... tinha raiva.
—Mas... porque? ella queixou-se?
—Não... não sei porque! mas acho aquillo exquisito! Mal sente os passos de papae, zás! foge! chega a ser engraçado!
Realmente é uma situação de comedia, pensou Assumpção, rindo involuntariamente com Maria.
E a situação prolongava-se. Argemiro, cada vez mais caseiro, não lobrigava nem a pontinha da saia de Alice, a quem, de resto, resolvera definitiva e absolutamente evitar, contente por sentir a influencia d'ella não só no seu lar como na sua filha. Maria aproveitava sempre as segundas-feiras em passeios, uma vez ao Jardim Botanico, outras aos asylos ou a novos bairros e differentes jardins, trazendo sempre impressões bem definidas e em que se percebia uma direcção cuidadosa e intelligente. A pouco e pouco a criança ia-se tornando mais observadora e mais piedosa. O padre Assumpção, que ia buscal-a sempre no ponto indicado por Alice, sentia arraigar-se-lhe a idéa de que esses passeios através da cidade desenvolviam melhor o espirito e o coração de Maria do que o mais volumoso livro de moral.
Se vinha de visitar um asylo de velhos, com que meiguice Gloria falava dos seus cabellos brancos, dos seus passos tremulos e do seu triste sorriso desdentado! Se vinha da Tijuca, quantas exclamações de enthusiasmo para as bellas arvores poderosas e as quédas de agua da cascata e as lindas flôres sylvestres! Se vinha do mar, que de indagações curiosas sobre os navios e lanchas, e quantos elogios para as largas paizagens azues, varridas de ar fresco! A vida dos marinheiros, com os seus perigos, a dos pescadores com os seus atrevimentos, attrahiam a sua sympathia e a sua piedade. Ia vendo que o numero dos sacrificados é muito maior no mundo do que o dos felizes e assim se tornava menos selvagem e mais humana.
Ora, o padre Assumpção sabia bem que tudo aquillo era reflexo e suggestão de Alice. Maria era intelligente, e as suas qualidades moraes, ainda informes, propendiam mais para a maldade que para o bem. Aquella metamorphose era, pois, toda, obra da moça, que parecia acolher a companhia da criança como um presente cahido do ceu... Realmente, ella estava tão só!
O ciume da baroneza augmentava a cada novo triumpho de Alice, que lhe disputava a neta com furor. Soffria calada, não ousando queixar-se nem ao marido nem ao padre Assumpção, que ambos glorificavam com enthusiasmo a obra da moça. Fechada na sua chacara, á sombra das mais lindas mangueiras dos suburbios, ella maldizia a hora em que o genro chamara para casa aquella aventureira, cujo proposito percebia ás leguas. O Feliciano não voltára, e ella tinha pena... só elle lhe poderia dizer toda a verdade, por não estar enfeitiçado pela bruxa e por conhecel-a melhor que os outros, visto estar sempre na sua convivencia...
Sua tenção estava feita. Havia de cumprir-se. Quando o negro, por acaso, apparecesse alli, ella puxar-lhe-hia pela lingua, de modo que ninguem mais o ouvisse senão ella... ah! e então, nada ficaria em meio!
Com as idas de Maria á cidade rareavam as visitas de Argemiro á chácara; esse desgosto vinculava as suspeitas da baroneza; mas quando o genro se lembrava de ir vêl-a, achava geito de falar na filha a todo o instante, numa obstinação dolorosa e impertinente.
—Você tem ido visitar o tumulo de Maria? Mandou reproduzir os retratos de Maria? e assim o nome da filha sahia-lhe constantemente da bocca, como a querer impôl-o á lembrança de todos.
Os retratos de Maria, desde o de collo, de quatro mezes, até ao ultimo, em que o seu perfil delicado se voltava para o ceu, como a interrogal-o, alinhavam-se sobre o guéridon, sobre o piano, na sala de visitas, na saleta de trabalho e na sala de jantar, repetindo-se por toda a casa, para que nunca os olhos maternos deixassem de o encontrar... Ella vivia assim perpetuamente arrastada pela saudade, nunca conformada, e creadora da illusão!
Argemiro identificara-se tanto com a sogra nesse sentimento, que para elle era como se Maria estivesse longe, muito longe, mas estivesse, e houvesse de voltar um dia. Era uma certeza tida pelo coração e não compartilhada pelo cerebro, mas que, sendo terrivel, não deixava de o consolar...
Por seu lado, a baroneza temia vêl-o fugir para outras adorações, e não cessava de lhe lembrar a triste supplica da filha.
Agora, porém, não se tratava de juramento; Argemiro não o violaria por amar Alice, dando lhe um lugar deixado vasio a seu lado. Esta solução, que ella não previra, enchia-a de dôr. Afinal elle não tinha outra esposa, mas tinha outra mulher!
Por mais que dissessem, a baroneza não acreditava que dois entes moços, vivendo sempre na mesma casa, não se vissem nunca; e desesperava-a a idéa de atirar Maria todas as semanas para aquelle poço de hypocrisia e de immoralidade!
IX
A Pedrosa empenhava-se na conquista de Argemiro. Não contente de o convidar com insistencia, arrebanhava-lhe os amigos para os seus jantares das sextas-feiras, em que a sedução rescendia até nos molhos do peixe. Adolpho Caldas, que se gabava aos intimos de fazer os relatorios do ministro, traduzindo para portuguez castiço a linguagem quebradiça do homem de Estado, não faltava nunca a essas reuniões; e o deputado Telles, governista, assistia aos banquetes com o desassombro de quem concorria poderosamente para a felicidade e o prestigio d'aquella casa.
Argemiro, o mais solicitado, era incerto. Só o padre Assumpção se esquivava sempre a essas honrarias, allegando que o seu sacerdocio o afastava de todos os gosos profanos. Para se aproximar tambem d'este amigo, a Pedrosa não lhe faltava ás suas missas das quartas-feiras, allegando devoção particular a S. José, patrono do marido e offerecendo pela mão da filha esmolas gordas para os seus pobres.
A esmola vinda d'aqui, d'alli ou d'acolá, mata da mesma maneira a fome. É dinheiro. Padre Assumpção agradecia sinceramente. S. José que valesse áquellas almas interesseiras, que outras menos dignas iam á sombra do seu manto peccar na egreja, sem que do seu peccado resultasse algum bem para os necessitados...
Que ambicionava afinal a Pedrosa? casar a filha com um homem de bem. Expôr a menina áquelle desfrute, não era por certo acção digna de uma mulher criteriosa; mas a boa justiça encontraria para ella certa indulgencia... Desgostavam-n'o mais as outras, que á sombra dos altares iam falar de amor, alli no interior sagrado da sua querida Matriz da Gloria!
Pensaria por exemplo a Eugenia Duarte, que elle, padre, via com bons olhos a sua assiduidade na egreja? Fôra sua confessada, sabia-a casada, com filhos, um lar precisado da sua presença e do seu carinho...
E lamentava os filhos d'essa mãe, abandonados todos os dias, á hora exactamente de saltar do leito e da bençam maternal... Outra, cuja presença o inquietava alli, era a Joaquininha Lobo, sempre com os pulsos cheios de rosarios, sempre a dobrar-se em profundas reverencias deante das imagens dos santos. Tambem essa fôra sua confessada, e debandara como as outras, affligidas pelos seus conselhos e pelas suas admoestações... O marido d'esta vivia em viagens, como official de marinha; ella rabeava pelas egrejas, dando entrevistas entre padre-nossos, sempre envolvida em grandes obras de beneficencia.
Numa quarta-feira, sahia o padre Assumpção de dizer a sua missa, quando foi abordado no adro pela Pedrosa e a Sinhá, que o aguardavam com a competente esmola. Em baixo, junto aos degráus, esperava-as o coupé. O dia estava magnifico.
—Reverendissimo!
—Minhas senhoras...
—Acabamos de receber a sua bençam e viemos esperal-o para darmos esta esmolinha aos seus pobres...
—Meus ou dos outros, todos os pobres me merecem a mesma consideração. VV. Ex.as devem têl-os tambem...
—Repelle então o nosso offerecimento?!—perguntou a Pedrosa desapontada.
—Não tenho esse direito. Sómente, se me permittirem... eu ensinarei a uma das minhas velhinhas o caminho da sua porta, e a esmola será então, dada directamente, mais agradavel a ambas...
—Isso não obsta... darei outra esmola á sua velhinha!...
A Pedrosa continuava de mão estendida; e como o padre não a acceitasse logo, ella disse com a sua costumada vivacidade:
—O sr. padre Assumpção desconfia de nós!... não crê por certo na sinceridade da nossa sympathia. Tem sempre reluctancia em acceitar as nossas esmolas!
—Engana-se, minha senhora, engana-se! Não posso recusar o que não é para mim!... Todavia, desculpem-me a teimosia, a pessoa a quem eu destinaria esse dinheiro procural-as-á amanhã. Posso morrer de um momento para o outro... é bom que ella conheça as suas bemfeitoras...
—Morrer! Quem fala nisso, ainda tão moço!
Elle sorriu com ironia, sem responder.
—Diga-me, que fim levou o nosso amigo Argemiro? Não ha quem o veja!... Não sei quem me disse têl-o visto ha dias com a filha... ella ainda mora com a avó?
—Sim, minha senhora...
—Então elle vive sózinho... absolutamente sózinho?...
—Sózinho.
—Que barbaridade!... Aquella ovelha está tresmalhada do seu rebanho... não lhe parece, padre Assumpção?
—Ao contrario, Argemiro consagrando-se á saudade da sua mulher, está bem escudado contra os perigos do mundo... Mas, minhas senhoras, perdôem-me VV. Ex.as estar a entretel-as aqui, com este sol!
—Ao contrario, eu...
Mas o padre apressou-se no cumprimento e as duas senhoras não insistiram na conversa, percebendo que elle tinha uma preoccupação qualquer.
Ficaram as duas ainda alguns segundos no alto da escada, vendo a longa figura secca e angulosa do padre atravessando, a grandes pernadas, o jardim.
—É um homem difficil de conquistar... já não sei quantas esmolas lhe temos dado, não sei quantos convites lhe temos feito... parece antipathisar comnosco...
—Se eu fosse a senhora não lhe dava mais nada, nem o tornaria a convidar para ir lá a casa. Por ser padre não deve ser grosseiro...
—É o melhor amigo do Argemiro... Comprehendes que o não convido só pelos seus bellos olhos.
—Ah...
A Pedrosa olhou para a filha com certo espanto.
—Mamãe espera mais alguem?!
A Pedrosa, por unica resposta, começou a descer a escada, e ao entrar no coupé gritou para o cocheiro:
—Estação do Corcovado!
Sinhá, sentando-se a seu lado, indagou curiosamente:
—Vamos ao Corcovado! a esta hora! fazer o que?
—Almoçar...
—Sózinhas? E papae?
—Teu pae não almoça hoje em casa.
—Mas elle sabe?
—Ha de saber, quando eu lhe disser.
—E se elle não gostar?...
—Tolinha... vejo que não tenho outro remedio senão ir-te dizendo já o que adiava para mais tarde. Não sahiste a mim na perspicacia...
Sinhá olhava para a mãe com uma linda expressão de estupidez.
—A razão por que vamos almoçar ás Paineiras não pôde ser desagradavel a teu pae. É esta:
Está lá em cima no hotel o encarregado dos negocios da Inglaterra. Fui-lhe apresentada ha dias rapidamente: convém fazer-me lembrada... Aquelle homem póde ser muito util a teu pae. Apparecendo lá, como por acaso, elle forçosamente virá cumprimentar-nos. Almoçaremos talvez á mesma mesa e terei ensejo de lhe repetir o offerecimento de nossa casa. É uma relação util. A vida, minha filha, é como uma caixa vasia que os soffregos e os tolos enchem com tudo que topam, e os atilados só com coisas escolhidas.
Se não fosse a minha tactica, pensas que teu pae teria alcançado as posições que tem tido?!
—Julguei que fossem só os seus merecimentos que...
—Tontinha! Só pelos merecimentos, sem um pouco de manha, ninguem faz nada neste mundo!...
—Mas, sendo papae ministro a utilidade das relações é toda para o tal inglez!
—Não, filha; o homem é consideradissimo no alto commercio e só por iniciativa d'elle podem advir para teu pae grandes sympathias... e choverem-lhe manifestações de apreço, que são sempre de um optimo effeito. Um banquete, por exemplo, offerecido pelo alto commercio a um ministro, pensas que não lhe accrescenta a importancia? É preciso ter faro para se perceber bem isso.... Catando-se seixinhos podem-se fazer castellos... Este é um proverbio inventado por mim e de que te não deves esquecer...
—Mamãe não receia...
—Quem tem medo não vae á guerra. E depois, medo de que?
—Que percebam...
—Faço tudo com muita diplomacia; sei disfarçar a minha vontade, fazel-a triumphar sem que ninguem a perceba. É um dom peculiar e que eu desejo transmittir-te. Mas acho-te muito frouxa; és ainda muito innocente, muito ingenua. Lá para deante, quando tiveres os teus trinta annos, me comprehenderás. Apesar de que eu, desde que me conheço sou assim... atilada e corajosa. Quando me casei, teu pae não passava de um advogado pobre... Quem o lançou na politica? Fui eu. Quem trabalhou para a sua eleição de deputado e que maior numero de votos alcançou? Fui eu. Quem o levou pela primeira vez ao paço de Suas Magestades? Fui eu, e tinha apenas vinte e dois annos!... Quem, depois de proclamada a Republica, o persuadiu de adherir e lhe arranjou uma cadeira no Senado? Eu. Quem o fez ministro agora? Eu. Eu sempre, servindo-me d'estas estrategias, aproveitando todas as occasiões e todas as sympathias, obsequiando um dia para insinuar no outro uma protecção que parecesse vir espontaneamente; realçando os méritos de teu pae, quer de espirito quer de coração, seguindo-o como um cão de caça segue o caçador, através de todos os perigos, corajosamente.
—Se papae não tivesse qualidades extraordinarias, a senhora, por mais que fizesse, nada alcançaria!... interrompeu Sinhá, defendendo os brios paternos.
—Ah! eu não havia de ser tão tola que me casasse com um insignificante. Casei por amor, mas tambem por vêr em teu pae um homem de altas tendencias. As mulheres são mais ambiciosas e mais activas. Homem que casar com mulher accommodada, está perdido. É outra maxima das minhas. Toma nota.
—Homem que se casar com mulher accommodada... repetia Sinhá, quando a mãe continuou:
—Já minha avó era assim. Casou todas as filhas com quem muito bem quiz. Os homens com herdeiras ricas, as filhas com senadores e conselheiros...
—Com homens velhos...
—Homens de posição. Que vale a mocidade sem dinheiro e sem brilho?
—Oh! mamãe...
—Não vale nada!
—Papae era moço...
—Nem tanto... Em todo o caso, maridos querem-se como os fructos: maduros. Teu pae era de familia distincta, excellentemente relacionado; percebi logo muito bem que seria feliz. E effectivamente elle tem sabido deixar-se levar.
—Por quem?!
—Que pergunta! Pelas circumstancias... e por mim! Olha que saber levar alguem a um destino desejado, sem que nem mesmo esse alguem perceba que vae sendo impellido por mãos alheias... é uma grande arte! É a minha. Mas, credo! em que disparada nos leva o João!... isto cança os animaes!
—Leva-nos sem arte... disse a Sinhá, sorrindo.
Ella tinha agora a fronte velada por uma sombra de tristeza. O vestido escuro, abotoado até ao queixo, fazia-lhe resaltar a pallidez do rosto emoldurado por dois ondeados bandós pretos.
—A casa do Argemiro não deve estar longe... Ahi está o Argemiro! já não é muito moço... os cabellos começam a pintar. Entretanto, conheces algum rapaz mais distincto?!
Sinhá não respondeu. A mãe, depois de ter esperado um pouco, continuou:
—Elle fará a tua felicidade. É dos taes que precisam de ser estimulados... Tendo tantos recursos, não se serve de nenhum! Nem deputado é.
—A eterna mania da politica...
—Não ha nenhuma mais patriotica. Mas advirto-te que não deves alcunhar de manias as minhas opiniões...
—Mamãe desculpe...
—Olha! a casa d'elle é aquella... é bonita... é própria... repara! Será tua...
—Já reparei, mamãe!...
—O unico inconveniente é a filha...
—E elle não gostar de mim! accrescentou Sinhá.
—Queiras tu! Para mim isso seria até um estimulo. Sempre gostei de vencer difficuldades...
—Eu sou muito mais fraca...
—Deixa isso por minha conta...
—Mamãe!...
Sinhá fez-se vermelha e não conseguiu dizer mais nada. Aquella palavra dita em tom de supplica parecia tel-a engasgado. Estava com os olhos cheios de agua.
A Pedrosa continuou:
—Trabalharei para a tua felicidade, como tenho trabalhado para a felicidade de teu pae. Digo-te isto só a ti e exijo que o não repitas a ninguem! É uma lição de experiencia, que te deve aproveitar. Infelizmente, no mundo só os expertos alcançam bom logar. Quem não tiver cotovellos não se metta nas multidões...
—Outro adagio, mamãe?
—Não é, mas póde servir... O padre Assumpção ainda ha de fazer o vosso casamento; e quero-lhe então ver a cara! Acha o pateta tão justo que o amigo exgote a mocidade a choramingar pela mulher defunta!
—Deve ser bom, ser chorada assim!
—Qual o que! nem a outra vê nada! Ella já em vida parece que não via grande coisa... Era tão vaga... tão vaporosa!
—Bonita?
—Hum... Delicada... Precisamos arrancal-a do coração de Argemiro.
—Deixe-a... Não devemos guerrear os mortos!
—Nem nos deixar vencer por elles. Endireita o teu chapeu... repara para o meu... está bem?
—Está bem...
O carro rodou ainda alguns minutos. Quando chegaram á estação, a Pedrosa recommendou ao cocheiro que as viesse esperar ás quatro horas, e subiram para o trem que estava a partir.
Sinhá, perturbada pelas theorias da mãe e procurando uma das extremidades do banco, voltou o rosto para fóra e fez toda a viagem olhando para o matto. A Pedrosa não interrompeu o silencio; tambem ella precisava recolher-se, arregimentar as idéas, preparar a sua scena...
Ás onze horas no jardim do hotel das Paineiras, não havia ninguem.
A sombra das arvores derramava-se silenciosa sobre mezinhas núas. Só numa estavam restos de apperitivo em dois copos. A Pedrosa calculou logo que aquelle vermouth tivesse sido ingerido pelo encarregado dos negocios da Inglaterra—e olhou com sympathia para os calices sujos...
Sinhá seguira até a extremidade do jardim e olhava para deante, para o valle despido de neblinas, resplandecendo no azul do dia. Entretanto, a Pedrosa encommendava o seu almoço alli mesmo, no ponto mais visivel do jardim, inquirindo ao mesmo tempo com a vista se o inglez estaria almoçando na sala de jantar...
Não estava; e o criado, geitosamente interrogado, declarou ter Sua Excellencia descido no primeiro trem, para ir buscar um amigo a bordo do Magdalena.
A Pedrosa olhou com raiva para os dois copos de vermouth e apressou o almoço!
Sinhá contemplava a paizagem magnifica, afastada da mãe, perturbada por um sentimento que não saberia explicar. Era como se meia despertada de um sonho extravagante a sua consciência não pudesse determinar ainda bem a realidade da vida, presentindo-a apenas...
Um dia de setim, macio, vasava sobre montes e mares uma luz clara, destacando as copas das arvores e os pedregulhos das praias, escorregando pelas encostas acolchoadas de matto, de onde irrompiam pios de aves e manchas alvinitentes das umbaúbas. Duas grandes borboletas de um azul doirado intensissimo, perseguiam-se, indo e vindo, ora ao pé, ora longe da moça, que as acompanhava com o olhar deslumbrado. Para onde ia uma, partia logo a outra, para voltarem juntas, pousarem no mesmo galho, beijarem a mesma flôr.
Amam-se, e o amor deve ser aquillo, o não poder estar uma sem a outra, na ancia do beijo definitivo, do laço que as prende até á morte!... Felizes as borboletas, que procuram sózinhas os seus casaes...
—O homem foi-se! exclamou a Pedrosa, approximando-se da filha. E logo depois:
—Estás com os olhos chorosos!
—É de olhar para a luz...
—Bem, vamos almoçar. Ora que contrariedade! O bebado não podia escolher outro dia para ir buscar o amigo! Diz que foi buscar um amigo a bordo. Emfim, é um passeio... ha de fazer-nos bem... ficará para outra occasião...
—A senhora não desiste?
—Não. Nunca desisto do que emprehendo.
Senta-te. Mas elles estão pondo alli outra mezinha... Tens fome? Eu perdi o appetite. Isto aqui sem companhia é insipido... E eu que dei ordem ao João para me esperar ás 4 horas.
A outra mezinha era para um casal, a mulher morena e robusta, o marido já grisalho e magrinho.
A Pedrosa reconheceu-os logo que os viu e disse á filha:
—É a Marianninha Serpa, do Rio Grande... foi minha collega nas Irmãs. Deus queira que não me reconheça!...
—Porque?!
—Filhinha, assim como devemos procurar certas relações, devemos evitar outras... esta senhora é casada com um medico e tem d'elle não sei quantos filhos... abandonou a familia e participou agora a toda a gente o seu casamento com este...
—O outro morreu de desgosto?
—Não; em primeiro logar, porque o desgosto não mata; depois, porque elle tambem se casou com outra!
Sinhá arregalou os olhos, espantada.
A manhã era de revelações! Ella cuidára sempre que os laços do matrimonio eram indissoluveis... A grande poesia do casamento parecia-lhe estar na perpetuidade do amor e na perpetuidade do voto. Que era o casamento, então? um contracto quebradiço, sujeito a ser violado logo ao primeiro amúo?
As idéas embaralhavam-se-lhe na cabeça. Ainda na vespera discutira-se á mesa, era sua casa, a lei do divorcio. E o proprio pae affirmára que ella jámais seria decretada no Brazil... Interrogou a respeito a mãe, que respondeu quasi em segredo:
—Elles estão olhando para nós... disfarça... não convem falar nisso agora... A Marianninha já me conheceu... não fosse eu a mulher do ministro... verás como me abraça!
Assim aconteceu.
Pelos fins do almoço a Marianninha atirou o guardanapo para a mesa e arrastando o marido correu a falar á Pedrosa.
—Petronilha! exclamou ella num arranco enternecido.
A Pedrosa levantou-se com um sorriso cerimonioso e um ar de quem não atinava com o nome da outra...
—Não se lembra da Marianninha Serpa! das irmãs? O diabrete azul, como me chamavam?
—Ah! sim!... o diabrete azul... lembro-me!... Desculpe-me... mas estava tão longe!...
—Mesmo depois d'isso encontrámo-nos varias vezes em casa do...
Mas a Marianninha interrompeu-se para apresentar o marido.
Pedrosa apresentou, por sua vez, a filha e os outros voltaram para o seu logar; faltava-lhes o café.
—A vida é uma comedia... commentou a ministra. Vá a gente fiar-se... Eu não te disse? Viu que tinhamos acabado e não quiz deixar-nos sahir sem se apresentar. E agora teremos de ir cumprimental-as. Mas vão esperando que lhes offereça a casa... não por mim, que afinal não desgosto d'ella... A Marianninha é pianista, entretem; mas por causa da sociedade!
Reuniram-se depois, passeando ao longo do aqueducto; era preciso fazer horas para descer. Marianninha tinha vivacidade, falava muito. O marido colhia avenças que Sinhá deixava cahir dos dedos distrahidos. Á hora da partida, o casal, obsequioso, offereceu a Sinhá uma caixa de passas de pecego do Rio Grande, lembrança acabadinha de chegar da sua terra.
Logo que o trem se poz em movimento, a Pedrosa suspirou de allivio. Que dia!
E, abrindo a caixa de pecegos, contemplou-os com approvação e disse:
—A unica coisa boa do dia! Vê como estão bem arranjadinhos e como são bonitos. O fabricante tem arte... estes lacinhos de fita estão bem dados...
E ella antes de fechar a caixa cheirou os pecegos.
—Esta gente agora, seja onde fôr que nos encontre, ha de se atravessar deante de nós... Entendem lá comsigo que já nos obsequiaram. É o que se chama vir buscar lã...
—Pare no n.° 273, disse a Pedrosa ao João, ao entrar no carro.
—Na casa do dr. Argemiro? Para que, mamãe? Eu não entro!
—É só por curiosidade... a esta hora elle não está em casa... deixo-lhe um cartão e a caixa dos pecegos... dir-lhe-ei depois que ia passar-lhe tambem um bilhete de caridade...
—Mamãe, os pecegos são meus!
—Não sejas gulosa. Aquillo fez-se só para presentes. E, afinal, para quem quero eu o Argemiro? Les petits cadeaux entretiennent l'amitié, dizem os francezes. Elle irá agradecer-m'os a casa e tu o receberás...
—Mamãe!
—A mamãe só quer a tua felicidade, descança!
Quando o carro parou, a Pedrosa desceu e ordenou á filha que a acompanhasse. Sinhá hesitou antes de obedecer.
O vestibulo da casa de Argemiro, resguardado da rua por um largo paravento de vidros lavrados, tinha uma porta lateral abrindo sobre o jardim e outra ao fundo, dando para uma saleta de espera. A Pedrosa dirigiu-se com a filha para a porta do fundo e ia tocar a campainha quando ouviu uma voz de mulher dando uma ordem. Depois, a porta abriu-se e a figura de Alice appareceu entre os humbraes.
A Pedrosa arregalou os olhos, espantada:
—Vejo que me enganei... não mora aqui o dr. Argemiro?!
Alice acenou que sim, com a cabeça e um leve sorriso.
—A familia... a filha... está?
—A filha não mora aqui...
A Pedrosa, percebendo que não falava a uma criada, observou Alice com extranheza, da cabeça aos pés. Sinhá murmurou:
—Vamos, mamãe...
Adivinhando a confusão das senhoras, Alice, despeitada, voltou-se para o Feliciano, que se approximava, e disse:
—Feliciano, receba as ordens d'estas senhoras!
Depois, cumprimentando-as, atravessou o vestibulo e sahiu pela porta do jardim.
A Pedrosa acompanhou-a com a vista.
Feliciano esperava impertigado, com um arzinho malicioso na fisionomia experta. A Pedrosa escreveu a lapis num bilhete de visita:
«Dr. Argemiro.—Passando pela sua porta quiz deixar estes pecegos para a sua Gloria. Tinham-me informado que ella estava aqui. Cumprimentos.»
Feliciano recebeu a caixa e o cartão e apressou-se em ir adiante abrir o guardavento e a portinhola do coupé.
No carro a Pedrosa explodiu:
—Que tal o viuvinho, hein?! E o bandido do padre, que ainda hoje affirmou que o hypocrita vive só com a sua saudade! Será o nome d'ella?! Deixa-a estar... vamos a vêr quem vence!...
—Mamãe!
—Mamãe! Mamãe! lá estás tu a balir como uma ovelhinha assustada! Ora o ladrão do Argemiro!... Este Rio de Janeiro está perdido! É por isso que ficam tantas moças solteiras... O ménage! já é com um descôco que falam na sua ménagère!... Se as mães não tomam sentido, ficam-lhes as filhas em casa... havemos de defendêl-as, custe o que custar... Ladrões!
—Mas não pense mais no Argemiro... mamãe...
—Hein?! que idéa, não pense no Argemiro! mas se elle é o marido que te convem! Julgas que é muito facil encontrar um homem que reuna tantos predicados? Só por ter uma ménagère? Desistir de um marido por causa de uma ménagère! Tolinha... isto até prova em seu favor... já não cheira á defunta... Depois, essa especie de mulheres só embaraçam os tolos. Acredita que muitas vezes é a amante quem atira, inconscientemente, um homem para os braços da esposa... Tu... bem! mas por emquanto não te posso dizer mais nada. Já falei demais.
Sinhá olhava para a mãe com olhos de espanto.
X
Era uma fortuna cahir o anniversario de Maria num domingo. Sempre era um dia roubado á companhia da outra. O consumidor ciume trazia a baroneza doente, de uma tristeza sem remedio. Os beijos da neta sabiam-lhe a falsidade, os seus abraços, amollecidos, tinham perdido o impeto selvagem dos tempos de que a via ir fugindo tão depressa. Qualquer dia leval-a-iam de todo, sem que nem ella ao menos voltasse a cabeça para tráz, para um ultimo sorriso...
Nem por ser exercitado no amor, o coração deixa de desvairar se o contrariam!
Ás vezes, para o desabafo, a queixa subia-lhe aos labios descorados; mas o marido, inflexivel, acudia logo, com a crua lei do destino:
—Acostuma-te: mais tarde ella terá de acompanhar o marido, como a avó acompanhou o avô, e a mãe acompanhou o pae.
E ella então gemia, desconsolada:
—Até lá, onde estarão os meus ossos! como se a idéa da morte a tranquillizasse.
Se os pensamentos a atormentavam de dia, á noite perseguiam-n'a os sonhos. Alice, sempre a Alice, apresentava-se-lhe sob diversas fórmas, mas sempre com as mãos que nem garras.
A insistencia da idéa penetrava-a de crenças novas. Debateu-se em vão, concentrada no seu canto, com os olhos no retrato da filha, que o tempo ia desvanecendo num descolorido suave. Assim se attenuasse na sua alma a dôr, como aquella sombra no papel! Por que ha de haver coisas eternas na vida transitoria? Já viu alguem reflectir-se uma imagem com fixidez em aguas de grande correnteza? A vida não faz outra coisa senão passar, e a d'ella então immobilisara-se num momento de horror? Uma noite, em sonhos, a filha appareceu-lhe lavada em pranto. Seus olhos, como dois ramos, de myozotis inundados, vinham varados pela tristeza moça do amor. Não houve outra queixa. A mãe comprehendeu-a. Era tempo de agir. Consultaria os espiritos, já que na terra não a ajudava ninguem.
Lembrou-se de uma tal D. Alexandrina, da estação do Rocha. Contavam-se d'ella maravilhas, revelações estupendas!
Preparou-se cedo. Vendo-a sahir do quarto, de chapeu e de capa, o marido espantou-se, tão raramente ella punha os pés na rua.
—Vou á missa pedir a Deus saude e juizo para Gloria. Ella faz annos hoje...
—Sei...
A baroneza não sabia mentir.
Ao mesmo tempo que falava, as faces tingiam-se-lhe de vermelho.
Mas o marido não deu por tal; e ella sahiu.
D. Alexandrina morava num sobradinho estreito, onde a baroneza entrou envergonhada. Fizeram-n'a esperar numa salinha de jantar atravancada por uma mesa coberta por um panno de aniagem, de franjas sujas, e uns caixotes acolchoados, á guiza de divans.
Nas paredes, collados sobre os mandarins do papel desbotado, chromos de folhinhas e uma gravura representando o Marechal Floriano Peixoto. Depois de alguns minutos de espera, entrou D. Alexandrina, uma mulherzinha magra e morena, quasi sem queixo, de olhos redondos.
A baroneza entrou, seguindo-a, para uma alcova, onde ardia uma lamparina em frente a um oratorio. Como na sala de jantar, havia alli profusão de imagens colladas ás paredes; sómente, estas eram apenas de santos. Uma cortina de chita corrida encobria um leito de que se viam sómente os pés. Ao cheiro do oleo da lamparina juntava-se o de manjericão, num copo.
D. Alexandrina retirou um baralho de cartas de uma gaveta, pousou-o sobre a mezinha redonda, junto á qual se sentaram e, pedindo com ura gesto á baroneza que esperasse, voltou-se para o oratorio e rezou baixo, com os olhos e o queixinho a tremer-lhe.
Finda a reza, a cartomante pediu á baroneza que partisse o seu baralho, de grandes cartas, e começou a operação.
—A senhora tem uma inimiga...
A baroneza fez que sim com a cabeça.
—É uma mulher má, que abusa da sua confiança...
—Da minha confiança?!
—Repito o que está nas cartas... A senhora tem a receber uma grande herança...
—Não...
—Sim... d'aqui a um anno... Mas deve mudar-se da casa em que está, antes que lhe succeda um desastre... A sua inimiga é moça, é bonita e é pertinaz; ella alcançará tudo que deseja, se a senhora não se atravesar no seu caminho... Ella finge amar seu marido, por calculo...
—Meu marido, não... meu genro! rectificou a baroneza, offendida.
—A carta... diz um cavalheiro que a interessa... cuidei que se tratasse de seu esposo. Será de seu genro...
—Póde saber-se quaes são as suas intenções?
—Ser amada por elle e exploral-o.
—Eu já desconfiava!...
—Não se apoquente... ella será desmascarada a tempo... Não é livre... ama um rapaz pobre... com quem se encontra furtivamente... A senhora receberá uma carta...
—Que mais?
—O mais não digo; a senhora poderia ficar impressionada, sem vantagem... Seja prudente... queime a carta que receber... e esteja álerta... não convém intervir já... espere um pretexto, que não se fará esperar muito... a sua inimiga tem recursos...
—Se tem!
—E já conseguiu muita coisa... Recommende a seu genro cuidado, sobretudo com uns papeis lacrados que elle tem encerrados em um cofre!
—Tenciona roubal-o?!
—Por hoje não lhe posso dizer mais nada; concluiu D. Alexandrina, cerrando os olhos.
A baroneza sahiu tonta. Era a primeira vez em sua vida que se abalançava a consultar uma adivinha. Envergonhava-se do seu acto; o marido censural-a-ia... fôra alli buscar um pouco de socego e sahia em maior confusão—aterrada!
Fizera mal até então em não acreditar nas cartomantes: como pudera aquella adivinhar a existencia da inimiga e as suas idéas perigosas? Mas, porque não lhe dera a ponta da meada, por onde ella pudesse desfazer toda a teia? Tinha que esperar uma carta e só depois d'ella lida e desfeita em cinzas teria de entrar em scena! Entretanto, a outra iria tomando inteira posse do coração de Argemiro, que ella queria só cheio do amor e da saudade da filha!
Era por causa d'aquelle coração que a sua doce Maria lhe apparecera banhada em lagrimas! Havia de luctar até restituil-o á morta!
O carro entrava na larga rua das mangueiras da chacara, quando a baroneza viu o Feliciano a pé, sobraçando um grande embrulho. Ella fez parar o carro e chamou o negro.
—Feliciano! Bote esse embrulho aqui e ajude-me a descer. Quero fazer um pouco de exercicio... E voltando-se para o cocheiro: Guarde isso no carro até á minha chegada.
O carro partiu; a baroneza disse:
—Feliciano, quero saber toda a verdade:
Que se passa em casa de minha filha?
O rapaz fingiu-se mais espantado do que estava e balbuciou:
—Nada de mais... não senhora.
—Não é verdade. Estou informada de que D. Alice conversa com o senhor doutor... nega, se és capaz.
—Quem informou a senhora?! perguntou Feliciano, para não dizer que sim nem que não.
—Alguem... Ella tem dias certos para sahir?
—Sae com D. Gloria nas segundas-feiras...
—Que bem me peza! Mas além d'essas vezes?
—Nas quartas-feiras, á noitinha...
—Sózinha?
—Sózinha.
—Precisas acompanhal-a de longe, uma d'essas vezes, e vir dar-me o resultado da tua espionagem... Deus me perdôe! mas é para bom fim!
—Não posso...
—Hein?!
—Nas quartas-feiras o patrão está em casa; é o dia em que os amigos vão jantar e jogar com elle, e sou eu que sirvo...
—O demonio prevê tudo! Ella não recebe visitas?...
—Não senhora...
—Estás comprado por ella! Deu-te bola!
—A mim?! não! que a Feliciano Ermelindo Braga ella não engana... nem enrola! É muito experta mas eu tambem não sou tolo...
—Feliciano, preciso que estejas sempre de olho vivo e vigiando a casa da tua antiga senhora. Lembra-te de como ella era tua amiga e tão condescendente!
—Não me esqueço...
—Se não te esqueces, dize a verdade: Argemiro não fala com essa mulher?
—Á minha vista não, senhora.
—Julgas que se falem?...
A baroneza parou, envergonhada. O negro começou:
—Ante-hontem, mal o patrão sahiu, eu entrei devagarinho na sala de visitas e vi D. Alice espiando, para o vêr, por detráz da cortina... Outra vez, entrei no escriptorio e ella estava encostada no cofre...
—No cofre! É bom verificar sempre se o teu patrão se esquece de fechar o cofre...
—Não era com o sentido no cofre, não, senhora; ella tinha tirado da parede o retrato de D. Maria e estava olhando de perto para elle!...
—Que sacrilegio! com o retrato de minha filha nas mãos!
—Já por duas ou tres vezes eu pilhei-a assim... parece que ella tem inveja... ou ciume...
—Por que não contou isso ao seu patrão?
—Deus me livre! Seu doutor parece que está enfeitiçado... não admitte que a gente diga nada. Tambem, ella pôde fazer o que quizer! Desde que aquella senhora entrou lá em casa, não fui mais senhor de arrumar uma camisa do patrão nas gavetas, nem de mecher nos seus papeis. Eu tenho de levar o taboleiro da roupa, para perto da commoda e é ella quem ageita tudo. Outro dia pareceu-me, não affirmo, vêl-a pôr um raminho verde em baixo das camisas de meia... A senhora sabe que ha certas artes de feitiçaria que só o diabo as entende... ella depois fecha tudo á chave... Quem poderá livrar o patrão?
—O anjo custodio de minha filha! Feliciano, consta-me que ella ama um moço pobre e que o encontra de vez em quando. Falla verdade... elle não vae lá nunca?
—Pobres vão lá... ás vezes até tenho vontade de enxotar aquella canalha toda... mas o patrão deu licença...
—Impostora! Que dinheiro ella ganha para poder fazer tanta caridade!
—Não, senhora, são os restos... ella tem lá uns devotos para a ceia...
—A despensa está bem sortida!
—A senhora não falle nisso ao patrão, porque elle disse outro dia ao padre Assumpção, á minha vista, que nunca em sua vida teve casa tão bem administrada como agora!
—Nunca, em sua vida?!
—Depois que D. Maria falleceu...
—Ah...
—Agora me lembro que foi lá um dia um moço procurar a D. Alice!
—E...
—Foi numa segunda-feira; ella tinha sahido com D. Gloria.
—Então não a viu?
—Não, senhora.
—Mas ao menos não lhe perguntaste o nome?
—Não quiz dizer...
—Era fino... bonito? Ha de ser o tal!
Estavam a curta distancia da casa quando Gloria sahiu correndo:
—Vovó! Por que não me levou! Venha depressa! Vovô não quer-me deixar abrir o embrulho que veio no carro e eu sei que é para mim! Adeus, Feliciano. Como está D. Alice?
—Em vez de perguntar por teu pae, perguntas ela... criada! Anda; vamos vêr o teu presente!
—Papae virá logo... mas a D. Alice...
—Basta! não quero que me tornes a fallar nessa creatura... ouviste?
—Eu gosto d'ella... É bem boa!
—Para o fogo.
—Eu gosto d'ella muito!
—Mas D. Gloria lá em casa trata a D. Alice com seccura... Observou o negro.
—É mentira! Você é um mentiroso! protestou a menina, com raiva.
—Gloria!
—Que é, vovó?
A baroneza não podia mais. Entrou e fechou-se no seu quarto. Arrependia-se já d'aquellas acções que praticara. Deus a livrasse de condemnar uma innocente, mas lhe désse forças para punir uma culpada. O que a affligia eram os meios de que lançara mão para conhecer a verdade. A espionagem do negro... a intervenção da cartomante... oh! como isso lhe repugnava agora, bem a sós com a sua consciencia! Valera a pena viver toda uma vida pura e nobre, para na velhice fazer aquelles desatinos?
O retrato da filha, suspenso á cabeceira da cama, absolvia-a d'aquella culpa, sorrindo-lhe docemente d'entre a onda pallida dos cabellos soltos.
A baroneza sentia nojo pelas armas que ia preparando para o combate. Repugnava-lhe ter de servir-se da adivinha e do Feliciano. Receava acreditar demasiadamente na primeira; temia fazer-se echo dos despeitos do segundo... e todavia acceitava as indicações da cartomante, espantada de lhe ter ouvido referencias tão verdadeiras... e déra o passo repugnante de induzir o criado á espionagem!
—No dia em que eu receber a carta, revelarei tudo a meu marido, decidia ella; e se nada receber... não tornarei a voltar á D. Alexandrina... Que poderá aquella fraca creatura contra as disposições do destino? Velha tonta que eu sou!
Á hora do jantar, quando a avó de Gloria appareceu na sala, notou toda a gente que ella estava pallida, com olheiras pizadas e um sorriso forçado que não conseguia levantar-lhe os cantos da bocca fatigada. A carne pallida e flacida do pescoço descahia-lhe sobre as rendas da gravata segura por um broche de esmalte representando a cabeça loira de Maria, cópia do seu ultimo retrato, e em que o doce perfil da moça parecia já velado por uma sombra de infinita tristeza. Os cabellos brancos, presos á nuca por um pente de tartaruga, illuminavam de reflexos de prata a sua fronte amargurada, em que o pensamento parecia perder-se no labyrinto das rugas.
Argemiro correu a abraçal-a e sentiu-a fria ao beijo com que correspondeu ao seu. Accudiram logo todos a rodeal-a de cumprimentos.
Adolpho Caldas fôra arrebanhado na rua, pedia desculpa para o seu veston de trabalho, pondo nas mãos bondosas da velha um ramo de violetas, que ella prendeu junto ao broche da filha.
Dr. Telles beijou-lhe os dedos curtos, de unhas sem brilho; e o padre Assumpção, lendo-lhe no rosto uma agonia extranha, fixou-lhe penetrantemente os olhos, que se turbaram, como a agua clara de uma lagôa a que uma pedra revolve o fundo.
Gloria avançou radiante, com os braços cheios de pacotes de bonbons, de livros bonitos e de rosas. Tambem a D. Alice lhe mandara um presente pelo padre Assumpção! Era um vazinho para flôres, de crystal branco, mimosamente lavrado.
Gloria entregou-o á avô, gabando-lhe a delicadeza; mas, no instante em que declarou o nome de Alice, os dedos da velha abriram-se tremulos, e o lindo vaso fez-se pedaços no soalho.
Argemiro e o padre Assumpção trocaram um olhar rapido. Gloria exclamou, num grito lamentoso:
—O meu vazinho! Ah! vovó!
—Perdôa, filha... eu te darei outro egual, perfeitamente egual... não sei o que tenho nas mãos. Que sensaboria!
—Realmente, censurou o barão, sem comprehender; não sei como se pode deixar çahir assim um objecto d'esses!... Foi pena, porque era um bonito veneziano...
Gloria olhava para os destroços, com os olhos marejados e começava outra lamentação quando o pae a chamou para o terraço e a aconselhou a se mostrar resignada e alegre. Empurrou-a para a sala.
Caldas foi ter com elles, e, rindo-lhe na cara:
—Han! que te dizia eu, meu velho?! Eis-te em pleno romance, já no capitulo dos zelos! Para quem está de fóra, o caso é bonito; chega mesmo a ser interessante... Ça marche!
—Cala-te, abelhudo. Foi uma injustiça. Se os meus olhos a não tivessem visto, não acreditaria nella. Tão delicada é quem a praticou que chego mesmo a suppôr não ter havido proposito no desastre!
—Olha que a ingenuidade faz mal ao appetite, a acreditar no exemplo das ingenuas... Vamos nós á sopa, que cheira melhor que a tua intriga...
—Vamos.
—O Assumpção fez-se livido. Reparaste-lhe para o rosto? Não reparaste: tu estavas contemplando a tua alma! Não ha nada como ser espectador... Vi tudo e cresceu-me a admiração por tua sogra... foi transparente! Se amas a outra terás de luctar com esta. Sapristi! Quando as mães...
—Estás doido! Eu lá amo a outra! Eu nem a vejo! Dou-te a minha palavra de honra, que nem a conheço!
Caldas contemplava-o espantadissimo, repetindo:
—Sério? Sério?!
—Já te dei a minha palavra de honra! Que mais queres?
—Não quero mais nada, filho, estou enthusiasmado! Basta-me o espanto, que é dos maiores que tenho tido em minha vida. É adoravel.
Gloria, já risonha, veio puxal-os para a mesa, que o avô enfeitara toda de margaridas brancas. Dr. Telles discutia politica com o barão. A baroneza, affastando-se do padre, com quem conversava, designou o logar a cada um dos convivas e sentou-se á cabeceira.
XI
A casa do dr. Pedrosa era uma das mais antigas da rua do Senador Vergueiro. Á sua fachada, de velho estylo portuguez, a vaidade do dono mandara addicionar uma cimalha, que encobria as telhas aldeãs com os seus floreados medalhões de estuque e dois torreões lateraes, ligados ao corpo central por passadiços envidraçados, de caixilhos miudos. Dentro de um vasto jardim, fechado por gradil prateado, essa residencia ficava meio encoberta da rua por dois misericordiosos tamarineiros, altos e frondosissimos.
Num dos torreões fazia o senhor ministro o seu gabinete de trabalho. O outro, todo esteirado e guarnecido de kakimonos, era chamado em casa o «pavilhão japonez», e destinado a Sinhá, que ahi recebia as amigas e pintava as suas timidas aquarellas.
Era noite de recepção e a Pedrosa embarafustou pelo quarto da filha.
—Estás prompta?
—Sim, mamãe.
—Que! de azul?! Não! muda de vestido. Branco, branco! Trouxe-te os meus brincos de perolas. Toda de branco, só com estas duas perolas nas orelhas, ficarás melhor. Como uma noiva...
O olhar da mãe acariciava a filha, que sorriu com tristeza.
A Pedrosa tornou a sahir, recommendando pressa; ella ia para a sala esperar os amigos; antes de abrir a porta puxou a filha a si e beijou-a com ternura.
A moça começou passivamente a desenlaçar o seu vestido azul, pensando no ar mysterioso com que a mãe a attrahira naquelle beijo.
Sem poder obedecer ás ordens maternas, que lhe haviam imposto pressa, ella, mal enfiou o seu vestido branco, deixou-se cahir sentada na beira do leito e alli ficou um largo espaço de tempo, com os olhos fixos no vacuo e os dedos embaraçados nas fitas desatadas do cinto.
Tinha pensado muito desde aquelle passeio ao Corcovado e começava a comprehender o seu papel... A mãe offferecia-a ao Argemiro... era por causa d'elle que lhe puzera nas orelhas aquellas perolas, que pareciam queimal-a... Porque? Porque elle era rico e occupava na sociedade um logar brilhante... Amava-a elle? não!... amava-o ella? talvez...
Na verdade, a imagem de Argemiro nunca se lhe apresentara senão levada pela mão da mãe... lembrava-se mesmo de que a primeira vez que o vira achara-o velho e triste... depois, a pouco e pouco, habituara-se a imaginar-se noiva d'aquelle homem sério, que todo o mundo dizia votado inteiramente á sua viuvez... e agora eil-a enciumada de uma mulher de cuja existencia até ás vesperas nem suspeitara e que occupava já o logar que a mãe lhe destinava a ella!
A figura de Alice desenhava-se inteira deante dos olhos pasmados da moça. Revia-lhe o rosto de um moreno pallido, de feições irregulares; o talhe esbelto do corpo, as mãos longas, o vestido cinzento, alegrado por uma gravatinha azul...
Que idéa faria d'ella o Argemiro? Um leve rubor subiu-lhe ás faces e ella escondeu o rosto entre as mãos geladas.
A criada veio apressal-a. Sinhá levantou-se resolutamente e concluiu a sua toilette sem hesitação.
Quando entrou na sala, a mãe, entre um grupo de amigas, conversava com um homem gordo, de longos bigodes côr de vinhatico. Apresentou-a; era o encarregado de negocios de Inglaterra no Rio de Janeiro!
Sinhá cumprimentou-o, admirada da habilidade da mãe; ella conseguira o seu desejo!
Alli estava na sua sala o homem por quem ella subira inutilmente ao Corcovado. Bem o dissera ella: realizo todos os meus emprehendimentos!
Attendendo ás visitas que rodeavam a mãe, Sinhá prestava attenção, a vêr se distinguia a voz de Argemiro entre as vozes dos homens que palestravam no gabinete do pae.
Ahi, entre os livros de direito e de economia politica, arrumados em estantes de canella ou espalhados sobre a secretária e a mesa, conversavam animadamente Adolpho Caldas, Argemiro, dr. Sebrão, o Conselheiro Isaias e o dono da casa.
—Fallem-me de tudo! exclamava o Pedrosa supplice, menos da politica! Vocês não imaginam! não lhes direi que estou farto d'ella até aos cabellos, por que sou careca; mas ultrapassa a minha força atural-a até nos cavacos entre camaradas.
Conselheiro Isaias, lembrando-se lá comsigo do empenho de Pedrosa para alcançar a pasta, commentou do canto onde acolhera o seu corpinho murcho:
—Percebe-se o sacrificio...
Caldas levantou-se com estrondo, disfarçando a malicia do outro, e foi ao lampeão reaccender o charuto, emquanto Pedrosa continuava:
—É muito grande, e só mesmo a patria poderia exigir tanto de mim. A acção de governar vae-se tornando cada vez mais difficil e mais perigosa nesta terra... Nós temos maus auxiliares e o povo tem má fé... A opposição agora serve-se de todos os meios para impedir-nos os passos, usando das armas mais perfidas, que são as do ridiculo e as da calumnia...
—Essa senhora é velha como Socrates... não faça caso... disse o conselheiro.
—Não faço caso, mas no fundo, francamente, desgosta-me. Trabalho sem interrupção e a final...
—Não faz nada! disse o conselheiro rindo.
—Não seja perverso, amigo! ou declare-se já contra mim! Quem sabe se é você o auctor d'aquelles versinhos que andam por ahi carpindo a minha falta de eloquencia e de desinteresse, que julgam as qualidades primordiaes para um homem de Estado!
—E são...
—Nego. Um politico, do que precisa, sobretudo, é de tenacidade, sangue-frio, patriotismo, sinceridade e um grande dominio sobre as suas paixões... além das qualidades superiores, que lhe são indispensaveis, de intelligencia e de illustração...
—É por isso que o seu collega Marcondes está fazendo tão bonita figura!... Disse ainda o conselheiro, com um fundo suspiro. Riram-se todos, que bem conheciam os dotes fraquissimos do Marcondes.
Pedrosa continuou, com um sorrizinho magnanimo:
—Elle é bem intencionado, e trabalha!
Ha dias em que nem tenho tempo de beijar minha filha... O homem publico é um galé, principalmente neste nosso paiz, em que os mais puros devotamentos são sempre interpretados ás avessas!
—Muito bem! Apoiado! exclamou o conselheiro, levantando-se.
—Eu sei que você é um homem corajoso, desde aquella celebre caçada que fizemos juntos em Theresopolis... lembra-se? perguntou, sorrindo, o dr. Sebrão ao Pedrosa.
—E com bastantes saudades!
—Quem tem edade e competencia para arcar com o peso de uma pasta é alli o amigo Argemiro... disse o conselheiro Isaias.
Argemiro protestou; era um homem sem maleabilidade; não podia servir bem á politica. Ao mesmo tempo o dr. Sebrão, voltado para Adolpho Caldas, começou a descrever a caçada feita com o Pedrosa e outro amigo nas florestas da serra.
—Tinham-nos fallado em javalis. Uma madrugada partimos da Varzea, montados nuns velhos cavallos de aluguel, nós e mais um velhote de Theresopolis, que se inculcara como excellente guia. Levavamos boas armas, bom farnel para o almoço, estando combinado voltarmos a jantar com a familia. Trotámos para o alto, o velhote na frente, nós muito esperançosos, atrás. Chegados a um certo ponto amarrámos os animaes e mettemo-nos a pé pelo matto. Imaginem que entrar nas florestas da serra é como entrar na treva. Alli, para se ser bom caçador é preciso ter affeito a vista á escuridão do hervaçal e ter creado sobre a epiderme uma segunda pelle, ou melhormente uma especie de couro, onde os espinhos se quebrem sem lograr ferir. Cada vez que os nossos pés se afundavam no colchão de folhas mortas, a idéa de ser mordido pelas cobras juntava-se ao prazer de conseguir matar algum porco do matto. O guia assegurava ter encontrado signaes: galhos quebrados, rastro de animaes em fuga. Seguimol-o com fé. Era prudente almoçar cedo. Comemos á beira do Paquequer, entre touceiras cheirosas de lirios côr de marfim. As aguas convidavam. Quiz banhar-me, mas o Pedrosa ponderou que a fresquidão da lympha applacaria o meu humor sanguinario, que antes deveria ser exacerbado por um golfinho de paraty... Tropeçando em troncos, enrodilhando-nos em cipós, alagando-nos até ao queixo em vallas, passámos o dia inteiro á espera da porcada glorificadora! Mas os diabos dos porcos, zombando dos caçadores sem cães, deram-nos ao desprezo. Escureceu. Quer dizer: o negrume ainda se fez mais negro. O guia, desnorteado, levava-nos para um lado, para outro, sem achar sahida...
Tiritando de frio, rodeados pelo fragor da agua e do vento, alli passámos uma noite pavorosa; eu gemendo com dôres nas articulações, Pedrosa febril e impressionado com a idéa do susto que havia de estar curtindo a nossa boa D. Petronilha... Só no outro dia, ás dez horas, esfomeados, lanhados e rotos, conseguimos sahir da mata. Correu todo o mundo a vêr-nos. As familias choravam. Tinham andado pelas estradas, á noite, com archotes, gritando por nós... Tivemos de passar cabisbaixos e envergonhadissimos por entre os curiosos... explicar aventuras... imaginarias... E querem vocês saber? Passaramos a noite a pequena distancia de um hotel! O barulho da agua e do vento abafou os outros rumores que nos denunciariam essa salvação. Foi uma tragedia comica!
—A evocação não foi das mais felizes para consolar o amigo Pedrosa das suas attribulações! disse ainda o murcho conselheiro Isaias, levantando-se do seu canto. E depois, para o Argemiro:
—É tempo de irmos prestar as nossas homenagens ás senhoras; não lhe parece?
Levantaram-se todos e iam para a sala, quando o dr. Telles, entrando pela porta do jardim, reteve o Pedrosa, que deixou sahir os outros e se ficou com o deputado confabulando sobre politica.
Caldas, antes de entrar na sala, puxou Argemiro de parte e, com o pretexto de acabar o charuto, encostado ao gradil do passadiço, espalhando baforadas para o jardim, foi avisando:
—Olha que a Pedrosa já teve uma conferencia commigo a teu respeito, esta tarde!
—Hein?!
—Não me faças repetir palavras: aviso-te de que já se sabe por aqui que tens uma ménagère moça, bonita... e que os conceitos são naturaes. Quero dizer: maldosos.
—Ora!
—Ora! mais nada?
—Então? que lhe respondeste?
—Fiquei meio burro... disse-lhe que effectivamente tu tinhas uma ménagère, mas que a não conhecias!
—E ella?
—Riu-se.
—Riu-se?!
—Escandalosamente. Eu tambem me ri.
—Tu?!
—Que querias que eu fizesse? Crias uma situação de comedia e impões seriedades de melodrama?
—Mas que tem ella com a minha vida? Já se viu uma tal indiscreção? É boa!
—Cubiça-te para genro. Sabes perfeitamente disso! Estás farto, fartissimo de o saber, e ainda te admiras? Ora, meu velho!
—Mas essa senhora já deve estar convencida de que não lhe acceito a filha. Não quero casar! Aposto em como não aproveitaste a occasião para lhe dizer isto?!
—Certamente que não! mas afinal aquella rapariga que lá tens em casa, é séria ou não é séria?
—Eu presumo que sim.
—Se é séria, manda-a embora, porque a comprometes; se não é... não deves ter escrupulos em fazel-a passar como tal!
—E minha filha? Lembra-te que tenho uma mulher em casa, não tanto pela boa ordem de minha vida como para poder recebel-a e guardal-a de vez emquando commigo... E depois, sabes que mais?! pouco me importo com a opinião dos outros! Deita fora o charuto. Vou despedir-me lá dentro. Estou enojado. Lá te espero quarta-feira. Não te esqueças...
—Ó egoista! lá irei com um baralho novo!
Argemiro entrou na sala a tempo de applaudir a Sinhá, que acabava de tocar uma rêverie ao piano. Vendo-o, a Pedrosa foi ao seu encontro:
—Pensei que fosse hoje todo do meu marido! Chego a ter ciumes da politica, acredite!
Elle sorriu.
—Foi pena que não tivesse ouvido Sinhá desde o principio... ella toca com muito sentimento... anime-a... diga-lhe, embora mentindo... que a apreciou... as suas palavras são o melhor incentivo para ella...
A Pedrosa procurou a filha com a vista, para approximal-a de Argemiro, mas já a moça desapparecera da sala.
Argemiro percebeu-lhe a contrariedade no olhar e apressou-se em dizer meia duzia de banalidades, á espera do momento de se despedir. Mas a Pedrosa tinha que dividir a sua attenção. Estava com a casa cheia, e as moças mostravam desejos de dançar...
Por fortuna, as sobrinhas, as tres filhas do dr. Adão, ajudavam-n'a a armar as quadras para os lanceiros, tirando pares e influindo os moços, que se deixavam arrastar, por complacencia, para o meio da casa...
Como faltasse o pianista, foi mesmo a Pedrosa para o piano, rompendo com força os primeiros compassos da quadrilha. Argemiro aproveitou aquelle instante de alegria, para ir buscar o chapeu e o sobretudo ao pavilhão japonez e sahir para a rua sem ser visto.
O pavilhão estava a meia luz, para que toda a força do gaz convergisse para a sala. Nas paredes forradas de esteirinha as japonezas dos kakimonos requebravam-se entre os setins das suas kobaias e o ouro das borboletas e dos crysanthemos dos seus penteados... Carinhas de marfim, graciosamente pendidas sobre os hombrinhos estreitos, pareciam offerecer as cerejas das boquinhas para a guloseima de um beijo. Aves e insectos delicados, de azinhas transparentes, voejavam entre os galhos de pecegueiro em flôr, nos pannos cinzentos dos biombos. No meio do pavilhão, um enorme vaso bojudo, fabricado em Kioto, sustinha um profuso ramo de camelias brancas, grandes e silenciosas...
Os passos de Argemiro morreram ao entrar no pavilhão, abafados na esteirinha, e elle dirigira-se para o fundo, onde deixára o agasalho, quando Sinhá sahiu de tráz do biombo e veio ao seu encontro, trazendo-lhe ella mesma nas mãos a capa e o chapeu.
Argemiro não pôde conter um movimento de surpreza. Ella, muito séria, com uma gravidade que a tornava linda, estendeu para elle o agasalho e disse com um fio de voz suave e triste:
—Agradeço a sua resolução... vá-se embora e peço-lhe que não volte, senão quando souber que eu já não estou aqui... Para o senhor isso não será um sacrificio; e quanto a nós... a saudade que nos deixar será attenuada pela certeza do seu respeito e da sua estima...
Toda de branco, naquella meia luz em que bailavam insectos e sorriam japonezas, a figura grave da moça resuscitava uma visão de sonho, que perturbava o espirito de Argemiro. Elle curvou-se, beijou-lhe as pontas dos dedos gelados e com a voz engasgada pela commoção, affirmou:
—Eu não a tinha comprehendido, distanciado como estou da sua edade e da sua perfeição... Consinta que eu volte no dia em que o seu coração de menina tiver encontrado um outro coração, moço e digno d'elle! Bastará então uma palavra sua: venha!
Sinhá não respondeu. Argemiro acceitou o agasalho das mãos d'ella e sahiu, commovido, tonto. Fóra, as estrellas palpitavam luminosamente no fundo avelludado do ceu. O ar cheirava a flôres. E o viuvo caminhava a pé, sózinho, pensando nas surprezas d'esta vida de civilisação, e revendo a pallidez da moça, o seu olhar sincero e transparente. Não teria elle repellido a felicidade?
Entretanto, vendo-o sahir, Sinhá recolheu-se para tráz do biombo, chorando devagarinho, devagarinho, em segredo.
XII
«Bem dizem os romancistas, que os romances se fazem por si. Creada a personagem, posta no meio em que terá de agir, ella caminhará por seus pés até ao ponto final do ultimo capitulo.
Acontece por isso que o auctor tem ás vezes verdadeiras surprezas, como se todos os actos dos seus heróes não fossem obra sua! Concebida a idéa fundamental do livro, está creado o sopro de vida que o animará. A difficuldade está toda no primeiro impulso! Hei de sempre lembrar-me de uma noite em que fui encontrar o Thadeu, pallido, passeando agitadissimo pelo escriptorio, com um verdadeiro ar de furia.
—Que tens tu?! perguntei-lhe assustado, de entre portas.
Voltou para mim os olhos esgazeados e disse, com uma sinceridade commovedora:
—Tenho que o patife do Braz apaixonou-se por tal fórma pela Delfina, que não sei como hei de casal-o com a Lucinda! E apontava com o dedo colerico para as folhas esparsas do seu romance, desordenadas por um vento de insubmissão. O caso era grave. Entrei, sentei-me e fiquei calado, assistindo ao duello fantastico de um romancista com a sua personagem revoltada.