WeRead Powered by ReaderPub
A Intrusa cover

A Intrusa

Chapter 17: XIII
Open in WeRead

About This Book

O romance acompanha um pai viúvo, advogado, cuja casa vazia e o círculo de amigos influem nas decisões sobre o futuro da filha quando uma mulher estranha é introduzida em seu convívio. As cenas alternam entre momentos domésticos íntimos e reuniões sociais em que debates políticos, juízos morais e intentos de casamento se cruzam, revelando tensões entre dever, reputação e desejo pessoal. Por meio de conversas e de uma observação minuciosa dos costumes, a narrativa examina a ansiedade paternal, as expectativas sociais e os efeitos perturbadores de uma intrusa sobre rotinas estabelecidas, ao mesmo tempo em que acompanha a posição da filha entre proteção e autonomia.

Por fim aventurei timidamente, querendo valer áquella afflicção:

—Por que não casas essa tal Lucinda com outro... que diabo!

—Com outro?! estás doido! Ella adora o Braz e não póde absolutamente casar com outro. Seria um desastre! Com o Braz é que ella ha de casar, quer elle queira, quer não queira!

O desespero do romancista era tão evidente e profundo, que eu não ri. Fiquei desde então convencido de que a ficção, como a realidade, obedece a leis de imprevisto e de fatalidade. Li depois o romance... O Braz não casou com a Lucinda. Porque não quiz, está claro!

Adolpho, acabando de dizer estas palavras, soltou uma baforada de fumo, afundou mais o corpo na larga poltrona do Argemiro e suspirou:

—Está-se bem aqui!

—Não achas? Pois essa poltrona amavel estava encerrada no quarto dos badulaques por imprestavel! Foi ella que a arrancou de lá, mandou-a ao estofador e pôl-a aqui. E guerreiam uma mulher que me presta taes serviços!

—Deixa guerrear... Na vida como nos folhetins, os romances fazem-se por si... Vê tu o trabalho e os manejos da Pedrosa em que deram! Surprendeu-me tanto o que me disseste da filha, que estou quasi apaixonado por ella... Palavra! nunca a suppuz capaz de uma scena tão fina. Parece do Thadeu.

—E estava linda!

—Demais a mais!... E depois de uma pausa: A tua governante é bonita? Disse-me a Pedrosa que não. Por isso infiro que sim.

—Não sei...

—Deixa-te de asneiras: sê franco.

—Já te disse.

—Ella leva o seu rigor até aos teus amigos?

—Parece. A não ser o Assumpção...

—Teria graça se o nosso Assumpção atirava a batina ás urtigas por amor da tua...

—Cala-te, impio!

—Estou calado! Mas é cada vez mais adoravel, o Assumpção! Para mim, elle tem lá dentro coisa occulta, obra de feitiçaria, que nem a minha sagacidade nem talvez a tua intimidade pôde adivinhar... Não te parece?

—Não. Nelle ha só o amor do ceu... mais nada...

—Estás seraphico! Pois tu acreditas que hoje em dia, um homem valido se faça padre só por amor do ceu? Qual, historias! Elles escolhem a vida clerical como poderiam escolher outra qualquer acommodada ao seu egoismo e á sua habilidade... Os intelligentes pensam tanto na vida eterna como eu ou tu, mas fazem nesta o que podem para chegarem a bispos... Tenho um medo d'elles que me pélo... O nosso Assumpção é um exemplar unico, faz-me lembrar um d'esses sacerdotes virtuosos dos romances anti-clericaes, com que o auctor adula o sentimento dos leitores piegas... O que me agrada sobretudo no Assumpção é que elle é mais amigo da humanidade que dos santos; e gasta-se mais em esmolas que em jejuns... Não vês o recato em que elle envolve as suas acções e as suas idéas? Annulla a sua personalidade, como para dar vulto ao facto e pôr em toda a evidencia a personalidade alheia... A palavra eu parece que lhe morre na garganta antes de lhe chegar á bocca, e todavia elle é intelligente. Já me tenho servido da sua bibliotheca; é opulenta em obras classicas portuguezas. Se fosse escriptor, seria um defensor da lingua!

—O valor do Assumpção, para mim, que o conheço desde bem moço, está principalmente no coração. Elle é bom. Ás vezes penso que elle estaria melhor num logarejo qualquer do interior, ensinando crianças e animando a pobreza a supportar a vida, do que no Rio de Janeiro. Dizes bem. Elle não é luctador nem ambicioso; é um resignado e um meigo. Se eu tivesse um irmão não lhe quereria mais. Entretanto, o Assumpção nunca me confiou o seu segredo, que elle guardou sempre com tamanho recato que tive escrupulo em interrogal-o. Por que não havemos de acreditar na vocação? Elle sempre foi um mystico. A mãe, uma senhora adoravel, fez tudo para desvial-o do sacerdocio; batalhou como uma heroina; mas elle dizia-se chamado por Deus, e Deus venceu a vontade materna. Fomos sempre amigos. Elle vivia com a sua illusão, eu com o meu peccado; e com tão oppostas idéas nunca offendemos a nossa amisade. É verdade que elle me contagiou um pouco do seu sentimentalismo. É mais forte do que eu, que não lhe transmitti nem uma sombra da minha personalidade...

—Não lhe conheceste nem uma paixão?

—A dos livros, de que fallaste ha pouco; e essa mesma ha alguns annos é que me dá a impressão de ser a taboa fluctuante do seu naufragio!

—E tua filha?

—Sim, elle adora minha filha!

—Ora pois, já tem com que se entreter. Dá-me outro charuto. São magnificos os teus charutos... Realmente, está-se bem aqui. Estou vae não vae a raptar-te a tua Alice!

—Psiu! falla baixo...

—Receias que ella esteja atráz da porta?

—Quem sabe?...

—Não duvides! uma governante de casa de um viuvo só, vinda por annuncio de jornal... deve ter ao menos um defeitozinho, e olha que o da curiosidade é quasi virtuoso... Antes do que me disse a Pedrosa, eu suppuz que vocês estivessem a mangar commigo, e que a tua mulherzinha fosse por ahi uma matrona gorda, de cabellos pintados e verruga no queixo. Mas a Pedrosa, mais afortunada do que eu, esbarrou de cara com ella, e pela raiva com que lhe ficou, deduzi que a rapariga deve ser bonita...

—A Pedrosa disse-te isso?

—Disse que era feia.

—Então!

—Por isso mesmo fiquei sabendo que o não é. As mulheres nesse assumpto são sempre contradictorias. Para experimental-a, exclamei com ar de desgosto:

—Oh, minha senhora, uma velha! E ella logo, muito indignada:

—Velha?! moça! e toda presumpçosa, com a sua gravatinha azul!

—Pensou, talvez, que a gravata fosse minha!

—E d'ahi!... Ó diabo, corre aquelle reposteiro!

—Falla á vontade. Ninguem nos ouve.

—Que confiança!

—Absoluta.

—É extraordinario!

—É extraordinario. Desde que esta mulher entrou em minha casa eu sou outro homem, muito mais tranquillo e muito mais feliz. Nunca a vejo, mas sinto-a; a sua alma de moça como que enche estas salas vasias, de juventude e de alegria. Sózinho com os criados, eu abandonava-me. Ia ás vezes para o almoço de chambre e de chinellos; passava pelo jardim sem olhar para os canteiros; e no escrupulo de alterar as coisas da antiga ordem em que as dispuzera minha mulher, deixava-as envelhecer monotonamente, sem uma reforma que as alegrasse. Eu estava mofado, tinha bolor na alma. Botava pontas de cigarros pela casa... estava, emfim, de um desmazelo torpe! Depois, sentindo a influencia d'ella, percebendo-lhe os gostos finos, que em tudo se demonstravam, comecei a exigir de mim habitos mais cortezes e a tratar a minha pessoa com mais consideração e maior carinho. A idéa de que ella poderia ver-me por uma fresta de veneziana, quando eu ia para a rua, fazia-me prestar attenção ao meu jardim e observar o seu progresso e melhor tratamento... Almoçando, eu via na cadeira vasia em frente ao meu logar, a minha governante a observar por que maneira eu levava o garfo á bocca ou enchia o copo de vinho. Retomei insensivelmente os meus habitos de elegancia, prejudicados com o abandono em que por tantos annos vivi nesta casa, dirigida por um preto ladino. Entrando da rua, nunca surprendi a minha governante, como aconteceu á Pedrosa; mas ella vinha e vem ao meu encontro num aroma fresco de pomar florido, e que eu nunca sentira antes da sua estada nesta casa. Tu o disseste ha bocado:—Está-se bem aqui!—A pouco e pouco as coisas mudas que me rodeavam, e que só suggeriam idéas saudosas e melancholicas, foram-se despindo d'esse aspecto doentio e talvez tolo e animando-se em novos polimentos ou côres risonhas, que me davam saude. Cadeiras velhas, esgarçadas no estofo, atiradas para uma alcova do porão, subiram lustradas e estofadas de novo para os cantos desguarnecidos das salas, onde o conforto é muito maior do que foi sempre! Repara para o assoalho: um espelho! Vê as cortinas: resplandecentes! Em um meio que se asseava cada vez com maior primor, eu tive de corrigir-me dos defeitos que ia adquirindo na solidão e no desmazelo... Estou só, sentindo que sou o alvo da attenção e da magnanimidade de alguem... Esta caricia sem mãos sabe-me bem; tanto mais que me dispensa o trabalho do agradecimento! Se não a queria ver antes, por prudencia, não a quero ver agora, por egoismo,—para não desfazer esta illusão agradavel e exquisita, mas bem sincera.

Uma noite, entrando inesperadamente em casa, senti que alguem fugia precipitadamente da sala. Não pude vencer a minha curiosidade; entrei. Junto á janella do jardim, perto de uma cadeira de balanço, encontrei um livro aberto. Ergui-o. Cheirava a flôr de fructa. Era um romance inglez. A minha governante lia inglez! foi a sua primeira revelação. Depuz o livro fechado sobre a mesa e vi o nome d'ella escripto na capa.

Para sympathizar com ella bastaria talvez isso; para respeital-a, o modo porque tem sabido corrigir Gloria das suas brutalidades de menina malcriada...

—Como terminará tudo isto!

—Não terminará. Emquanto ella se sujeitar a este papel, eu ficarei muito bem naquelle em que estou. Se não... ir-se-á embora e tratarei de arranjar outra pelo mesmo processo escandaloso, mas commodo.

—Hum!...

—Afinal, talvez seja facil...

—É impossivel, digo-lo eu! Essa mulher deve ter vindo acossada por uma grande miseria! Lembra-me uma garça maritima que vi caçar na floresta do alto da Serra! Tinha fugido á tempestade sózinha, branca, até áquellas paragens desconhecidas e inhospitas. Pobre ave do mar!

—Mataram-na?

—E empalharam-na.

—Esperemos que esta não tenha a mesma sorte.

—Pelos desejos da tua sogra!

—Que ciumenta! como se pudesse haver alguem neste mundo que me fizesse esquecer Maria!

—Ha...

—O tempo?

Caldas não respondeu, e sorriu.

E depois:

—Dizem que fama sem proveito faz mal ao peito. A tua governante morrerá tisica!

—Coitada... defende a quando se te offerecer ensejo. Eu sou tão mau que a sacrifico ao meu bem-estar. É á minha imperfeição! Ignominioso! não achas?

—Humano. Ella veio ao encontro d'esse desastre. Tinha obrigação de prevêl-o. Talvez o desejasse... Que somos nós todos? Poços de mysterio! Que póde esperar uma mulher que se aluga—por mais que te repugne a expressão, ella é corrente aqui—para tomar conta e governar a casa de um homem só? O teu egoismo explica-se; tu pagas esse direito; agora a sua sujeição, meu Argemiro, é que não tem duas faces por onde possa ser encarada. Para mim, ella é, unica e simplesmente, uma especuladora.

—Não digas isso!

—Por que te indignas?

—Não...

—Acaba...

—Sem ter posto os olhos nunca em cima d'esta pobre moça, eu parece que a conheço já ha muito... Ella fiava-se naturalmente na sua altivez para defender-se de qualquer assalto. Porque não acreditar que tenha, como tu disseste, vindo acossada pela miseria, estonteadamente, até á minha porta? A unica impressão que tenho d'ella, no dia em que a contratei, foi a de lhe ver as botinas esfoladas... Não lhe vi o rosto, que o trazia velado; mas vi-lhe os pés. Caprichosa como revela ser em tudo, bem vês que só por grande necessidade se sujeitaria a andar assim...

—Porque só uma pobre se sujeita a tal posição, naturalmente; mas as pobres honestas têm outros meios de ganhar o pão, menos suspeitos e sobretudo menos arriscados... Tua sogra tem uma certa pontinha de razão na insensatez do seu ciume... De fóra ninguem póde acreditar que esta situação não seja senão uma fantasia.

—Mas que têm com isso?

—Nós outros, nada; mas tua sogra talvez tenha alguma coisa, por causa da tua filha!

—Não é por causa de Maria... é por mim! Minha sogra é uma sentinella sempre álerta na defesa do meu coração. Ella não se importa que me roubem os haveres ou que eu esbanje a minha fortuna; que eu tenha ou não tenha amigos, que eu trabalhe ou que descançe, que eu soffra ou que eu me divirta; o que ella não quer, absolutamente, é que eu ame! Maria ha de viver eternamente deante dos meus olhos, como vive deante dos seus, e hei de manter até ao meu ultimo alento a promessa que lhe fiz de não tornar a casar-me...

—Tolice...

—Que queres!

—Maria era um anjo... mas hoje é um phantasma; e um homem não póde viver abraçado a uma sombra...

—Dize-lhe isso...

—Na primeira occasião.

—Não a mortifiques. Eu, bem o sabes, estou perfeitamente de accordo com ella.

—É o que te parece. Em todo caso, dou-te um conselho: despede a tua governante, ou dá um piparote nestas convenções romanticas em que te embaraças e trata-a como toda a gente trata as governantes... Parece-me que nos temos occupado demais com uma creatura que talvez não mereça tanto...

—Ou talvez mais...

—É o que eu digo!

—Não te entendo.

—Não admira, visto que nem te entendes a ti! Só te direi outra coisa, para concluir: a imaginação é uma amiga perigosa, e tu estás abusando d'ella.

—Estás tolo e sybilino. Na tua, queres dizer que acabarei apaixonado por uma mulher que vivo em minha casa e que me obstino em não conhecer, julgando, talvez, que me occupo em pensar nisso! Mas, nada! Eu penso tanto na minha governante, que talvez seja picada de bexigas, ou desdentada, como penso na Sinhá, que tem os olhos que sabes e a pelle lindissima. Fiel á minha morta, não por virtude, mas porque não encontro no mundo mulher que se lhe compare, eu deleito-me no sacrificio de viver abraçado a sombras... É a minha exquisitice...

—Faze-te espirita.

—Nunca.

—Como espectador, eu estou gostando do caso. O que te peço é licença para conquistar a menina...

—Tens toda....

—E se ella acceitar a côrte?

—Tanto melhor para ti...

—Não impões condições?

—De não ser em minha casa...

—Sabes onde é a d'ella?

—Não sei de onde veio, nem presumo para onde irá!

—Como num sonho!

—Tal qual!

O relogio do escriptorio marcava seis horas quando o dr. Telles e o padre Assumpção entraram em casa de Argemiro. Telles resplandecia. Tinha falado nessa quarta-feira na Camara. Via-se-lhe na cara, núa de pêllos, a vaidade, e todo o corpo emproado num terno de sobrecasaca côr de avelã, parecia impertigar-se com mais satisfação. De vez em quando elle olhava com um sorrizinho para as unhas reluzentes, como se relesse nellas o seu discurso famoso e sensacional...

Assumpção vinha triste, com um ar fatigado, que mal dissimulava, dizendo-se amollecido por uma grande caminhada a pé. Emquanto os outros, com o calix de vermouth na mão, discutiam o ultimo escandalo da camara, elle, recostado no divan, levantou o olhar para o retrato de Maria, suspenso na parede em frente, com o seu doce perfil de loira a esvair-se já no embranquecimento das tintas.

A belleza... a bondade... a juventude... tudo com o tempo se esvae, como o fumo delevel. Na curta passagem da vida, confundem-se á distancia todos os traços, os que marcam os caminhos da alegria, como os que vêm da tristeza... A saudade do passado é o nevoeiro que envolve tudo na mesma claridade enganadora e opaca...




XIII

A noite estava escura. Alice levantou a golla do casaco e, puxando o véuzinho até ao queixo, desatou a andar em direcção ao largo do Machado, sem paciencia de esperar o bond á porta de casa.

Atrás d'ella, a curta distancia, Feliciano não lhe tirava os olhos de cima, cosendo ás paredes o seu corpo esguio. A sombra, protectora de segredos, confundia-se com a côr do seu rosto, esvaindo-lhe a imagem. Os tacões da moça batiam na calçada em pancadinhas miúdas e sonoras; os delle dir-se-iam forrados de velludo.

A espionagem tem azas de morcego, teme a luz, mas espalma-se na treva sem rumor nem receio. Seu elemento é o mysterio. O desejo do mal é silencioso. Oh, se elle pudesse estender as unhas afiadas e fazer sangrar na escuridão a carne branca d'aquella mulher!

Não fôra ella quem o desprestigiara diante dos outros que elle dominara antigamente como senhor? Todas as suas fraquezas, os seus crimesinhos de infidelidade não tinham sido farejados e descobertos por essa creatura imperativa e doce a um tempo? Nem uma palavra lhe sahira dos labios, mas a verdade salta pelos olhos quando a não deixam sahir pela boca.

Ella sabia tudo. Tratava-o como um inferior, uma machina de serviço, sempre necessitada de direcção. Não fôra para isso que elle aprendera a ler na mesma cartilha da sua antiga Yayá!

Revoltado contra a natureza que o fizera negro, odiava o branco com o odio da inveja, que é o mais perenne. Criminava Deus pela differença das raças. Um ente misericordioso não deveria ter feito de dois homens iguaes dois seres dissemelhantes!

Ah, se elle pudesse despir-se daquella pelle abominavel, mesmo que a fogo lento, ou a afiados gumes de navalha, correria a desfazer-se d'ella com alegria. Mas a abominação era irremediavel. O interminavel cilicio duraria até que no fundo da cova o verme puzesse a nú a sua ossada branca...

Branca! Era a mulher branca que elle preferia, desprezando com asco as da sua raça.

A superioridade d'aquella que ia toc-toc na sua frente, exasperava-o. O seu humor inalteravel, os seus habitos de asseio e de ordem não lhe tinham dado ensejo para a intriguinha facil e perturbadora. Chegara o dia de castigar a affronta d'aquella branca intromettida, que elle odiava, e ardia por esmagar com a divulgação de algum segredo que a compromettesse. Desprezava o ardil pela verdade; mas, se esta lhe escapasse, então recorria a tudo, até ao feitiço de algum velho parceiro africano...

Mas d'esse recurso extremo só lançaria mão quando não pudesse contar com os da sua intelligencia e malignidade.

Tinha ainda na memoria uma sentença materna: «quem faz feitiço morre de feitiço» e essa idéa affligia-o. A mãe era filha de mina. Devia saber... Aquella branca pobre e presumpçosa, que era mais do que elle na ordem das coisas, para o tratar assim por cima do hombro, com um arzinho superior de patrôa fidalga?

—Ella ha de me pagar!

O que elle queria agora era saber bem da sua vida, penetrar no mysterio d'aquella existencia fluctuante, sem raizes conhecidas; assenhorear-se de um segredo que a tornasse escrava da sua vontade poderosa.

Como aos de Adolpho Caldas, ella tambem representava aos seus olhos o encardido papel de especuladora.

Não era outra coisa; mas a intrusa teria o seu castigo, zurzido com mão de ferro, na hora marcada pela sua justiça.

O arrependimento entraria então no coração de Argemiro.

O bond tardava e Alice não diminuia o rythmo dos passos. Antes assim; elle gostava de ir andando a pé, atrás d'aquella figurinha nervosa e fugidia.

Quem tanto se apressa, corre para a felicidade, que para o aborrecimento o passo é tardo. Pensava o negro: ella vai para alguma entrevista de amor...

Isso contrariava-o... e crescia-lhe com essa idéa a raiva pela usurpadora dos seus regalados descanços e da sua autoridade de chefe!

Ella matara o seu prestigio. Viesse quem viesse depois d'ella, encontraria lançada na casa a semente da desconfiança. Fôra um dia o Feliciano, que lia jornaes nas cadeiras do amo, com deliciosos charutos entalados entre os beiços!

Um bond! E o bond parou a um gesto de Alice, que subiu para um dos bancos da frente, conchegando com um arrepio o casaco côr de mel ao corpo friorento.

Feliciano, em pé na platafórma, não a perdia de vista.

No largo do Machado ella desceu e passando pela frente da igreja tomou a direcção da rua Bento Lisboa.

O negro, a pequena distancia, ia atrás d'ella, dando graças ao vento que fazia ulular o arvoredo da praça, abafando outros rumores. Na rua Bento Lisboa, Alice accelerou a marcha. Parecia levada por um grande desejo. Feliciano espiava-a afflicto, numa anciedade!

A sua admiração era não vêr apparecer um homem, a quem ella désse o braço, que a compromettesse e o ajudasse na intriga... De resto, elle não queria crêr, queria denunciar!

—De repente estacou; a moça sumira-se na portinha negra de uma casa antiga, meio arruinada.

Feliciano passou, tornou a voltar, sondou com olhar atrevido o corredor escuro, procurou vêr se estaria alguem a quem pudesse fazer qualquer pergunta na vizinhança, encostou-se a um humbral fronteiro e esperou, indignado, contra aquellas paredes, que um murro de homem deitaria abaixo e que lhe escondiam o mysterio desejado!

O vento e o pó obrigavam os moradores do lugar á reclusão. As janellas fechadas entristeciam a rua, ordinariamente animada. Que se passaria lá dentro?

Feliciano esteve uma ou duas horas á espera, como um vigia cuidadoso, firme no seu posto. Nem uma restea, um tenue fio de luz vinha cortar a treva d'aquella fachada muda!

O negro tinha impetos de ir encostar o ouvido ás janellas ou penetrar no corredor, cançado de esperar, numa impaciência que o adoecia.

Eram quasi dez horas quando ouviu rumor de vozes e reconheceu a de Alice. Depois a moça reappareceu, puxando a porta sobre si.

A casa, impenetravel, guardava o seu segredo. Alice deslisava na sombra com o mesmo passo apressado. Dir-se-ia que igual desejo a levava ao ponto de onde partira tres horas antes!

Desnorteado, Feliciano hesitava se deveria acompanhar Alice, cujo destino conhecia, se ficar mais alguns instantes esperando alguem que por ventura sahisse d'aquella casa. Alice nunca entrava nas suas quartas-feiras depois das dez horas; logo, ella marchava para o Cosme Velho. Interessava-o agora quem ficava alli. Começaram a cahir grossos pingos de chuva e a escuridão era apenas dissimulada pelos lampeões de gaz. Já sem receio de ser surprehendido, Feliciano verificou o numero da porta por onde Alice sahira, mas só se afastou quando ouviu que a ferrolhavam de dentro.

«Quem estava, fica... logo, vou-me embora». E elle voltou, intrigado, aborrecido, com maior odio ainda por aquella mulher que se lhe escapava de entre os dedos fracos quando julgava prendel-a para toda a vida!

Emfim já sabia alguma coisa: aprendera o caminho da tóca, onde ella vinha furtivamente todas as semanas, em horas e dias determinados...

Quem se fia em mulheres está bem servido!... pensava comsigo o negro, desandando no seu caminho. Esta inda é peor do que as outras, porque é fingida. Fingida como Judas!

—Ella ha de me pagar...

Alice deu volta á casa pelo jardim e entrou por uma porta do fundo, evitando um encontro provavel com Argemiro, que falava alto no escriptorio, junto á saleta da frente.

Cançada, sentou-se um momento na sala de jantar, antes de subir para o seu quarto, vigiando a porta do escriptorio, prompta a fugir num relance, caso elle apparecesse. Com as mãos abandonadas nos joelhos, sorria com amargura ás palavras de Argemiro, que lhe chegavam nitidamente aos ouvidos. Elle arengava contra as mulheres. Os outros davam-lhe razão, citavam exemplos destacados de escandalos, riam-se alto, declarando o casamento uma instituição prejudicada.

A uma phrase atrevida de Argemiro, respondeu Adolpho Caldas maliciosamente:

—Emquanto pelo annuncio do Jornal acudirem governantes moças para as casas de viuvos sós... Mas é que nem todos são viuvos, meu caro!

Telles riu alto; a voz de Assumpção disse qualquer coisa que a palestra dos outros suffocou.

Poderiam gritar. Alice tapara os ouvidos com os dedos e subiu correndo para o seu quarto, onde se fechou por dentro.

Quem falava agora na sala era o padre Assumpção:

—Ainda ha mulheres tão puras como as mais puras de todos os tempos. Tenho ouvido muitas Ruths no confessionario, e conhecido almas adoraveis de innocencia e de bondade. Vocês conhecem-nas pelas exterioridades, eu pelos sacrificios,—que são ordinariamente as sacrificadas que nos vêm pedir conselho e consolação. Tenho encontrado em meu caminho sublimes abnegações, sempre por parte das mulheres...

—Porque os homens não se confessam!...

—Confessam-se alguns, mas não dizem tudo, ou, quando o dizem, fazem tremer! Tenho muito respeito pela mulher e sobretudo pela mulher pobre, porque nunca a pobreza deixou de ser affrontada, nem a mulher deprimida...

—Meu evangelico Assumpção, parece-me que a tua psychologia está errada! Nós sacrificamo-nos muito mais...

—Nós sacrificamo-nos pelas idéas; ellas sacrificam-se por nós, que somos menos compensadores e mais ingratos...

—Bonitas coisas você deve ter ouvido, padre! A mim o que me espanta e revolta, é que ainda haja paes e maridos que consintam nessa abominação do confessionario. A religião não poderia ter inventado coisa mais vil nem mais repugnante. Vamo-nos embora.

—Vamo-nos embora, que a noite está negra que nem uma alma peccadora, disse Telles, ao mesmo tempo que Adolpho continuava:

—A minha confissão é que tu não ouves, padre! que me mandarias pelo telegrapho para o inferno. Basta que eu te confesse isto: amanhã darei um assalto á tua bibliotheca. Preciso de Rodrigues Lobo... D'aquelle—Pastor Peregrino.

Assumpção, procurando o chapeu, exclamou:

«Cabellos que na côr formosa e pura
Estaes ao mesmo sol fazendo inveja,
Que confiança em vós será segura...»

Mas o Telles interrompeu:

—Olhem que o Argemiro está com somno e eu morto por me ver na pensão!...

Desceram, e, já na rua, o padre relembrou ainda uma phrase do classico:

Deixai-me enganosas alegrias, que eu não busco, na ventura senão, o que a meu desterro sem esperança e á minha vida desesperada convém.

—Sinto cheiro a bafio quando ouço classicos, commentou o deputado.

Adolpho accendia um charuto. Assumpção adiantou-se para mandar parar o bond.




XIV

A baroneza não recebera ainda a carta annunciada pela cartomante e andava inquieta, doente. Gloria voltava radiante todas as segundas-feiras das visitas paternas e não tinha na boca senão o nome de D. Alice.

Aquillo fazia recrudescer o desespero da pobre senhora.

—D. Alice! D. Alice! não falas senão da tal D. Alice! que personagem!

—Eu gosto d'ella...

Prendendo as mãos da neta, puxando-a para si, a avó perguntava entre supplicante e imperativa:

—Mas que te faz essa mulher para lhe quereres assim?

—Nada... passeia commigo... conversa...

—Tenho medo d'essas conversas... É a tal historia dos sapatinhos de ferro!

—Da vaquinha Victoria?

—Sim... Que te diz ella?

—Tantas coisas... Hontem fomos ao Jardim Zoologico. Vovó ha-de crer? Ella contou-me a vida d'aquelles bichos todos!

—Mentiras... Que póde ella saber!

—Eu contei a papae e elle affirmou que era verdade!

—Ah! tu contas a teu pae tudo que ella te diz? Bem disse eu! é a tal historia dos sapatinhos de ferro... Um dia ha-de enterrar-te coma a madrasta fez á outra.

—Mas se ella não é minha madrasta! Nem diz nada de mal... Vovó pergunte só ao padre Assumpção. Elle tambem gosta de conversar com ella. Hontem estavam muito tristes...

—Ambos?!

—Ambos.

A baroneza riu-se.

—De que se ri, vovó?

—De nada... achei graça! Ia bem vestida a tua D. Alice?

—Assim... assim... ella anda quasi sempre com o mesmo vestido, quando sae. É pobre...

—Ella usa anneis?... tem alguma joia?...

A neta admirou-se de ver a avó tão córada de repente; e, antes de responder á pergunta, exclamou:

—Nunca vi vovó tão vermelha! E depois, naturalmente:—Não usa anneis... tambem não usa joias.

—Nunca te falou da familia?...

—Nunca... Papae me recommendou que eu nunca lhe perguntasse por isso!

—Ah! teu pae recommendou!...

—Por que seria, vovó?

—Por que geralmente mulheres assim não têm familia.

—Coitadas! Mas assim como? D. Alice é como as outras!

—Talvez mais bonita...

—Não... Hontem então ella estava com os olhos tão pisados!

—Pobre infeliz!

—Eu queria que vovó gostasse d'ella!

—Para quê? Estamos muito bem assim... Cada um no seu lugar!

—Já tenho aprendido muita coisa com ella...

—Deus queira que não aprendas tudo!

—Papae gosta que ella me ensine!

—Ah...

—Padre Assumpção tambem... Elle hontem assistiu á minha primeira lição de desenho. Uma lição só por semana é pouco... Vovó deixa D. Alice vir cá de vez em quando dar-me outra lição?

—Nunca!

Gloria recuou espantada; a velha conteve-se, e depois:

—Os retratos de tua mãe ainda estão nos mesmos logares?

—Estão... um em cima do piano... outro no escriptorio... outro no quarto de papae...

—Já tiraram o do quarto de toilette?!

—Ah! é verdade! e outro no quarto de toilette! Como vovó se lembra!

—Minha pobre filha!

—O do quarto de papae está ficando branco...

—Até desapparecer! É que a imagem de Maria está-se sumindo ao mesmo tempo da memoria e do papel! disse a Baroneza abafando um suspiro.

—Da memoria de quem?

—Vai brincar, minha Gloria; corre, faze das tuas brutalidades antigas... quero ouvir os teus gritos, as tuas risadas .. Onde está a tua cabrinha? Já nem fazes caso d'ella!

—Como não?! D. Alice até me prometteu uma colleira para ella!

—Já me tardava...

As mãos da avó affrouxaram. Gloria fugiu para o quintal.

—Está tudo acabado! venceu e domina todos. Gloria, a filha da minha filha, talvez já ame a outra mais do que a mim!... Tem trabalhado, a maldita... e não ha quem defenda a minha pobre Maria! Nem o Assumpção... ninguem!...

A Baroneza revia a scena, que não lhe sahia deante dos olhos: Maria, recostada nos almofadões da cama, muito diaphana, com os cabellos loiros espalhados sobre os hombros magros e os olhos engrandecidos, circulados de violeta... Á sua cabeceira, em pé, o padre Assumpção, livido, com os olhos velados por uma expressão de agonia dominada. Argemiro, de joelhos ao lado da moribunda; ella aos pés da cama, de mãos postas, olhando, na insensata esperança do milagre!

Na sua alma echoava ainda a vózinha da filha:

—Jura, Argemiro, que não te tornarás a casar...

—Juro!

—Jura que viverei sempre no teu coração!

—Juro!

A voz d'ella era como um sopro; a d'elle, formidavel!

Maria morreu sorrindo, com os dedos embaraçados nos cabellos do esposo... Não falara na filha... não olhara para a mãe. Fôra toda d'elle... e elle repellia aquella imagem angelical, para substituil-a pela de uma mercenaria!

Aquella amaldiçoada.

Como expulsal-a d'alli?! Não estaria perdendo muito tempo?...


Uma tarde, o Feliciano procurou-a; e ao relatar-lhe a sua espionagem ella mandou-o calar-se. Não queria saber de nada por esse modo. Que se fosse embora!

O negro não pôde reprimir um movimento de espanto. Não fôra ella que o impellira áquillo?

Fôra, mas em um momento de desanimo e de fraqueza. Envergonhara-se. Readquiria a calma; estava feito o seu plano. O negro foi despedido sem explicações e com a prohibição de acompanhar a moça.

Feliciano sahiu murcho, maldizendo as mulheres.

A baroneza dirigiu os seus passos pesados de mulher gorda para o escriptorio do marido, que se entretinha na collecção do seu herbario.

—325... murmurava o barão, olhando para as suas listas; e depois:

—Que temos? perguntou elle, sem levantar a cabeça, mas percebendo no ar qualquer novidade.

—Que tomei uma deliberação.

—Qual?...

—Ir morar com Argemiro.

—Hein?

—Ir morar com Argemiro.

—Ora essa!

O barão tirou os oculos e olhava agora de face para a mulher.

—Que idéa!

—Como outra qualquer... meu velho...

—Qual! nós lá podemos viver na cidade!

—Por que não?

—Por que?... por tudo! Tu gostas d'esta liberdade... ha trinta annos que te enterraste aqui e que d'aqui não tens querido sahir para nada... Eu, ao principio, confesso, fazia sacrificio; hoje não. Olha para esta mesa: Vês? estou catalogando as minhas plantas... plantadas aqui na minha chacara e tratadas só por mim!...

—Virás á chacara de vez em quando.

—Estás doida!

—Nunca o estive menos!

—No tempo em que Maria era viva nunca pensaste nisso, e então agora.... Ora adeus!

—No tempo de Maria eu não era lá precisa para nada; e agora sou.

—Precisa? Em casa do Argemiro?! Para que? Estás sonhando...

—Bem acordada. Vocês é que estão dormindo...

—Hum... já sei... deixa lá a rapariga em paz, minha velha ciumenta; exclamou o barão, rindo e cavalgando de novo a luneta no nariz.

—Tambem tu!...

—Tambem eu...

Que diabo! tu imaginas um mundo ao teu feitio e queres governal-o a teu bel-prazer? Guerrear a moça? por que? Porque é limpa, economica, dirige bem a casa do teu genro e ainda por cima dá lições uteis á tua neta? mas isso é uma insensatez!

—Para que te servem os olhos? para que te serve o entendimento e a moral? Já te esqueceste das ultimas palavras da nossa Maria? Não as ouviste tão de perto e tão bem como eu?

—A nossa Maria... morreu...

—Para ti e para os ingratos; não para mim, sua mãe, que a adoro e a vejo sempre deante dos meus olhos! Como é triste a morte, que até faz esquecidas as filhas aos proprios paes!

O barão retirou de novo os oculos, collocou um peso sobre os papeis em que catalogava as suas plantas e contemplou a mulher demoradamente, com tristeza. Ella estava abatida, com os olhos empapuçados, as faces emaciadas, o pescoço mais molle e pellancoso.

—Minha pobre velha! tem paciencia e resigna-te. Comprehendo a tua magoa, mas é preciso esforçares-te por comprehender tambem o mundo tal como elle é. Imagina que a tua neta é ella, a nossa Maria, e concentra nella todo o teu carinho e todo o teu amor... já não peço nada para mim... bem vês! Gloria é a filha da tua filha, vive para ella aqui, no meio das tuas arvores e não penses no que vae lá por baixo, pela casa dos outros.

—Casa de minha filha.

—De teu genro. Tua filha já não existe.

—Para mim existe! E depois, tu não vês que já me vão tambem roubando a neta? D'aqui a pouco estaremos sós!

—Não... não é tanto assim!

—Desde que o Argemiro tem aquella peste em casa...

—Que está satisfeito e tem o seu lar em ordem. Se em vez de ser sogra fosses mãe d'elle, tu bemdirias essa pobre rapariga... Tem juizo, minha filha, não vivas com os olhos fixos num fantasma e pensa na realidade das coisas.

—Seria bom... se o Argemiro não violasse o juramento que fez... ao fantasma... como tu lhe chamas!

—Escuta; quando elle jurou fez bem em jurar. Acreditava então poder cumprir tal juramento, e caso mesmo não acreditasse juraria do mesmo modo, porque essa era a vontade de uma moribunda. Nossa filha morreu sorrindo, graças a essa promessa. Não me interrompas! O Argemiro foi um marido raro, amoroso, serio e deu á mulher a mais ampla e perfeita felicidade. Ella acabou. Elle foi (se ainda o não é) fiel á sua memoria por muitos annos. Se agora tivesse alguma paixão, nada terias que dizer. Elle ainda é moço, e essa circumstancia basta para explicar tudo. Somos-lhe muito obrigados.

—Achas então muito natural e muito bonito que elle ponha a filha em contacto com a...

—Não acabes!

—Tambem tu a defendes!

—Tambem eu!

—Mas não a conheces!

—Conheço o Argemiro. Basta-me. Elle já nos expoz mais de uma vez em que condições tinha essa moça em casa. Se elle lhe entrega a filha é porque a julga digna de a receber—e não pódes negar a influencia moral que ella tem exercido sobre tua neta! Gloria repete palavras e pratica acções que reflectem um grande senso moral. É ou não é verdade isso?

—Quem nos diz que não seja essa uma obra de hypocrisia?

—Ora, adeus!

—Vocês estão cegos!

—Só tu vês!

—Só eu.

—Pois antes fosses cega, que a tua clarividencia só te faz mal. De que te serve perceber ao longe tanta coisa que ninguem mais vê?

—Serve-me para defender quem não tem mais ninguem por si!

—Se tua filha do ceu te escutasse, choraria!

—Fazes bem em dizer: tua filha. Ella é só minha, agora!

—Bom... acalma-te...

—Estou calma.

—Nesse caso dir-te-ei ainda que o Argemiro é senhor do seu nariz e que nós não temos autoridade, absolutamente, para mettermos o bedelho na sua vida. Fará o que muito bem quizer. De mais, que jurou elle a Maria? Não se tornar a casar. Casou? Não. Logo...

—Mas vive como tal...

—Sabes que mais?! Deixa-me trabalhar... lamento-te muito, mas não posso argumentar comtigo. 325... parece-me que era este o numero...

—Como és frio...

—Sou velho; e tenho juizo.

—Tambem eu sou velha...

—Mas és mulher, e vives mais do sentimento que da razão... Alimentas a idéa de que tua filha sente, soffre, existe, e exiges que ella occupe um lugar que infelizmente está bem vasio... Deleitas-te em revolver saudades; fixas-te em pensamentos de que devêras fugir; a morte assusta-te; a idéa do nada apavora-te e crêas então um mundo á parte para tua filha, que, se continúa a viver, é só no teu cerebro, mais ainda do que no teu coração! Reage contra essa tortura...

—É a minha consolação...

—É o teu desespero!

—Não é... talvez deva ser como dizes... mas eu agarro-me a esta illusão, para poder supportar a saudade...

—Não chores...

—Sinto-me tão sózinha!

—E eu?

—Fugiste-me...

—Não, minha velha, estou e estarei comtigo até á morte. O que te fiz soffrer na mocidade, quero redimir na velhice... Tua mãe, sim, teria razão de queixa contra mim; tu não a tens contra o Argemiro! Nossa filha, repara o que eu digo—nossa filha—gosou emquanto viveu; já foi uma felicidade! Tu esperaste por mim algumas vezes até alta noite... lembra-te! Ella nunca esperou... Fiz-te chorar, do que me arrependo; o Argemiro só a fez sorrir.. Foi por causa do teu ciume de esposa, muito justificado, que escolheste este ermo para viver... Sujeitei-me. Venceste. Hoje, arrependido, vivo cosido ao agasalho das tuas saias e acredita que, se morreres antes de mim... creio que me fecharei vivo no teu caixão...

O Barão dizia estas coisas rindo, mas com os olhos afogados em pranto; a mulher, chorando francamente, approximou-se e uniu os seus labios tremulos aos labios murchos do marido.

—Vai descançar! disse-lhe elle, afagando-a.

Ella sahiu; elle limpou os olhos, esteve algum tempo a pensar em coisas distantes; depois, com um suspiro, voltou ao seu catalogo:

—325...

Os dias passavam lentamente para os dois velhos.

A baroneza não dormia; tinha ao levantar-se o rosto pallido e os olhos vermelhos.

O barão entristecia-se por não lhe saber dar remedio. Que fazer? Deixal-a finar-se... e penar com ella. Á proporção que as visitas da filha se prolongavam nas Laranjeiras, Argemiro, occupadissimo em novas causas, deixava de apparecer na chacara.

Esse afastamento era tambem motivo de censura e tristeza.

O tempo leva tudo comsigo, menos a saudade das mães pelos filhos mortos; pensava a baroneza em silencio, junto á janella, olhando vagamente para o campo pallido, cortado pelas linhas negras das altas e ramalhudas mangueiras, sob cuja sombra Maria correra em menina, entre a polvilhação d'oiro da cabelleira desatada, ou scismara, em mulher, aquellas doces scismas que a idealisavam tanto.

Parecia-lhe que, se procurasse bem, encontraria na terra as pegadas mimosas da filha e que seria ingratidão abandonar aquelle lugar em que ella vivera a doce vida da criança e da moça... Em vão o materialismo do marido lhe affirmava que o corpo branco da pobrezinha apodrecêra como um lirio cortado, no fundo negro da cova, e que já d'elle não existia senão um feixe de ossos, tão pequeno, que caberiam todos no seu cofre de lembranças!

Em vão o padre Assumpção lhe dizia que a alma bondosa da sua santa estava no ceu, longe de tudo e de todos, voltada como uma açucena para os pés do Senhor! O que ella sentia é que sob a roupagem fluidica, a sua Maria estava a seu lado, ora sentada sobre os seus joelhos, como quando tinha dez annos, ora seguindo com o olhar ciumento o Argemiro, como nos tempos de casada; e que existia, que tinha o seu lugar na terra!

O sol desmaiava; as mangueiras com a tarde faziam-se mais negras. Um sabiá cantava, outro mais longe respondia, e a baroneza, dorida, persuadia-se de que a melancolia mais amarga é a dos velhos, porque não tem a suavisal-a nem o mais tenue raio de esperança!

Ás vezes Gloria, entrando bruscamente na sala, quebrava-lhe o devaneio. Morena, forte, com os cabellos pretos cobrindo-lhe as orelhas em ondas accentuadas, ella afastava a imagem loira e fidalga da mãe para o fundo esfumado do sonho; e, palpitante de vida e de força, vinha lembrar á velha que só se devia consumir por ella.

—De onde vens? Como te sujaste... trazes palhas no cabello... Olha o vestido rasgado!

—Quando pulei a cerca...

—Pulaste a cerca! muito bonito! Então uma menina pula cercas?!

—Foi para entrar na horta...

—Vem cá... deixa-me abotoar-te... ora... ora ..

Os dedos da baroneza prolongavam de proposito a operação, só pelo prazer de estarem em contacto com o corpo adorado da neta.

A menina debatia-se por fim, morta por correr para o pomar ou para o jardim.

—Fica quieta...

—Vovó! ande depressa...

—Para que?

—Ainda não dei couve aos coelhos e quero engordal-os para levar um a D. Alice. Ella disse que...

—Bom. Vae-te embora!

A neta, percebendo tudo, cahia-lhe aos beijos nas faces e nos cabellos, rindo, apertando-a nos braços vigorosos.

—Vovósinha do meu coração! Como eu amo esta avó! Como eu adoro esta avó!

Então sentava-se e contava as historias lá de fóra:

O vovô ainda não percebera que as formigas estavam-lhe dando no pé de absintho... A mangueira grande do pasto estava com herva de passarinho. Ella já avisára o João... A gallinha pedrez apparecêra com dez pintinhos nascidos no matto e havia um ninho de pintasilgos na limeira da horta...

A avó sorria, ella incitava-a a sahir com ella pela avenida das mangueiras, até lá abaixo ao portão, para ver uma paineira da estrada toda coberta de flôres! Completamente rosada!

A avó, puxada pela neta, arrastava os passos pesados pela aléa deserta e só nesses curtos momentos o seu pensamento tinha repouso.

Segurando na mãozinha da neta, dizia comsigo:

—Deixa-me aproveitar bem a companhia d'ella, antes que ma levem!

Mas lá chegava o sabbado, em que a levavam, ou o avô, ou o padre Assumpção, que ia ás vezes cedo almoçar com os amigos e buscar a pequena. Sem ser annunciado, elle, bom andarilho, vinha a pé desde a estação, uns bons dois kilometros, até á chacara.

Quando ás vezes o percebiam, elle já estava dando os bons dias na sala da entrada; outras occasiões os olhos anciosos de Gloria descortinavam-lhe ao longe a batina negra, destacando-se no fundo luminoso do portão aberto.

A menina corria para elle; e a avó, encostada á janella, via-o approximar-se, com tristeza...

O padre parecia-lhe então um carrasco, connivente com os projectos criminosos da outra e os actos hypocritas do genro. Não o via sempre prompto a defender a outra e a elogiar a moral severa de Argemiro?

Tambem elle esquecia essa pobre Maria, tambem elle trahia o cumprimento da sua ultima vontade! É bem verdade que os mortos vão depressa!...

Num sabbado, depois de ter visto Gloria entrar no carro com o avô, a caminho da cidade, a baroneza dirigiu-se para a sua saleta de costura, e tentou acabar um avental da neta; mas os dedos preguiçosos paravam no ar e o aventalzinho escarlate cahiu-lhe sobre os joelhos tão incompleto, depois de meia hora de manuseado, como estava antes.

Arguia em mente a sua fraqueza e indolencia.

Via irem as coisas por agua abaixo e não fazia nem sequer um aceno para prendel-as! Não era tempo de tomar uma resolução?

A culpabilidade dos outros atemorizava-a?

O dever das mães não é defender os filhos até á morte?

A sua passividade não era, portanto, um crime, e não seria tempo de pôr em acção o seu desejo, até agora suffocado pelas mãos dos outros, de rehaver para a sua Maria o coração de Argemiro e guardal-a lá dentro, como santa unica em devoto oratorio?!

Á força de pensar nisso, materializava as imagens, dava corpo e sangue ás suas idéas, prompta a bater-se por ellas até ao ultimo alento.

Recriminava-se agora da sua altivez, mandando calar-se o negro quando este lhe ia relatar o resultado da sua espionagem... Que tola generosidade fôra a sua, e de que desencontrados sentimentos são victimas as criaturas humanas... Repellira tambem o alvitre da cartomante, cançada de esperar pela carta annunciada...

Vinham-lhe agora tentações de voltar lá, a vêr se ao menos encontrava alguem a seu favor! Que falta lhe fazia um braço em que se apoiar!... Certamente que a cartomante não lhe devia merecer absoluta fé... mas não acertara ella em muitos pontos com a verdade? A Inimiga e as suas machinações não lhe tinham saltado aos olhos logo no principio da consulta?

Dever-lhe-ia negar o poder da adivinhação? E em vez de negar, não seria prudente recomeçar?

Uma elucidação...

O aventalzinho escarlate cahira para o assoalho, e nos resedás da janella um beija-flôr destemido batia as azas delirantemente.


Eram tres horas da tarde quando a baroneza, muito afogueada, subiu a escadinha ingreme da D. Alexandrina. Como na primeira vez, teve de esperal-a longamente na sala de jantar, entre chromos pregados a gomma na parede e aniagens sujas de cortinas. Um cãozinho rateiro rosnava a um canto, de focinho desconfiado erguido para as sedas pretas da velha bem tratada. Depois de uns minutos que se afiguraram longuissimos á consultante, a portinha do quarto abriu-se e D. Alexandrina appareceu, com o queixinho sumido em um riso largo de boas-vindas.

A baroneza, em tom queixoso:

—Não recebi a tal carta annunciada pela senhora...

—Ha-de recebel-a .. as cartas não mentem! Ainda não é tarde... Entre...


Nessa segunda-feira o passeio fôra ao Instituto dos Cegos.

Gloria voltava cora a alma cheia de espanto. Divizando no banco do jardim o padre Assumpção, pontual na espera, correu para elle com enthusiasmo. Alice acompanhava-a a distancia, com ura sorriso placido.

—Adivinhe onde eu fui, padre Assumpção!

—A algum lugar muito bonito, porque os teus olhos reflectem maravilhas!

—Acertou. Fui ao Instituto dos Cegos!...

—Ah! mas... pareceste-me tão alegre!

—Pois então! eu imaginava que todos os ceguinhos vivessem amargurados... zangados... que no escuro em que vivem não se entretivessem com coisa nenhuma, nem pudessem lêr, nem tocar, nem nada... Quando D. Alice me disse: vamos ao Instituto dos Cegos... eu não respondi nada, por vergonha, mas fiquei com medo...

—Os cegos nunca fizeram mal a ninguem...

—Não sei... mas eu tive medo de ficar com pena!

Alice chegava nesse momento; o padre cuprimentou-a e recebendo a menina, despediu-se d'ella.

Gloria abraçou a moça com frenesi e partiu, em companhia do padre, para o escriptorio do pae.

No bond recomeçou a conversa:

—Então hoje gostaste do passeio...

—Muito! Quando chegamos eu estava aborrecida; mas logo que passei pela primeira sala fiquei interessada. D. Alice ia-me mostrando todas as coisas com tanta paciencia... tudo muito limpo e as cegas tão risonhas! Havia lá uma menina chamada Rosinha, da minha edade... e mais adeantada do que eu!

—Porque é estudiosa.

—Mas eu vejo!

—É que não basta vêr...

—D. Alice levou uns biscoitos para as crianças... Se o senhor visse a algazarra que ellas fizeram! São conhecidas de D. Alice... Uma tocou piano e um mocinho, violino... Fiquei admirada... nunca imaginei que os cegos pudessem ser felizes.

—São, alli, porque não tem tempo de pensar na sua desgraça, tão occupadas têm todas as horas. Assististe ás aulas?

—Assisti... leram... deram geographia...

—Foste ás officinas?

—Fui. Vi empalhar cadeiras, fazer escovas...

—Ahi está: lendo, tocando, enramando vassouras ou fazendo outro qualquer trabalho, elles estão sempre entretidos. É uma casa santa, aquella em que puzeste hoje os teus pés. Guarda na memoria a lembrança d'esse passeio, que te servirá de conforto quando ouvires mais tarde falar mal dos homens... Se não houvesse bondade, ninguem iria ao encontro da miseria, nem protegeria os fracos...

—Foram as palavras de D. Alice, quando sahimos de lá...

—Ah, ella disse isto mesmo?

—Tal e qual...

—É extraordinario!... que mais te disse?

—Que todos nós devemos conhecer as casas em que se pratica o bem na nossa terra, para as bemdizermos e conduzir até á sua porta os necessitados de seu soccorro... Disse que o Rio de Janeiro é uma cidade generosa e que nós todos devemos fortifical-a no empenho de agasalhar os infelizes.

—Ella tem razão!

—Quando eu lhe disse que os cegos já não me pareciam desgraçados, ella mostrou-me o mar... o ceu... os morros... os barquinhos de vela... e perguntou-me depois se eu não teria pena de não ver tudo aquillo.

É o exemplo vivo, a commoção aproveitada para o exemplo moral... pensou o padre. Quem teria inoculado naquella mulher esta delicadeza, este tacto de educadora, tão raro? Ella conhece as plantas dos jardins e ensina os nomes das nossas arvores; sabe de cór as casas de caridade e chama para ellas a sympathia das crianças, interessando-as ao mesmo tempo pela grande familia dos infelizes... sujeita-se a exercer um lugar suspeito, aceitando todas as condições que lhe impõem e revela uma sensibilidade rara em todos os actos em que a podemos apreciar...

Será ella na verdade a mulher perigosa, não pelo que calcula e inventa, mas pelo que merece? Não será prudente encobrir, tanto quanto possivel, essa feição singular do seu caracter ao Argemiro?... Gloria não repetirá ao pae as palavras que me disse, fica-lhe no coração o sentido, mas a memoria não as guardará com a mesma fidelidade... Eu serei mudo... Convém ser mudo. Elle quer guardar a sua independencia... e nem percebe que já está captivo! Diz que não. É sincero quando o diz... pensa que não. Nunca a vê... Mal lhe ouviu a voz um dia... Entretanto, só se alegra quando entra em casa... já não olha com o mesmo olhar saudoso para o retrato de Maria. Se a governante sae, estando elle em casa, logo se aborrece.

É exquisito. Não a ouve... não a vê, mas sente-a! Como acabará tudo, se ella não fôr o que parece?... Ha almas tão complicadas, tão indecifraveis! A d'esta mulher assusta-me... preciso defender o Argemiro... sou o unico amigo em contacto com ambos...

Ella é difficil... eu desageitado. Se eu fosse mais corajoso e ella mais franca... Mentirosa?... não me parece... mas é possivel. Minha mãe gostou d'ella. Mas o coração de minha mãe é propenso á sympathia. O melhor coração da Terra!... Argemiro mudou. Está illuminado... Ella envolve-o com um cuidado excessivo... é isso que me faz scismar... Emfim, seja como fôr, a verdade é que a minha Gloria tem aproveitado. Cá em baixo parece outra. Deixa a casca selvagem com a avó, e fica de setim! Teremos isso de lucro! Porque, afinal, para tudo o mais o remedio é a inercia.

Gloria era esperada pelo avô no escriptorio do pae e, como o velho tivesse pressa, as despedidas foram precipitadas. Só depois d'elles sahirem Assumpção reparou na expressão aborrecida do amigo.

—Que novidades temos? Estás com uma cara!

—Imagina: minha sogra vem morar commigo!

—Felicito-te. Terás assim tua filha sempre a teu lado. Parece-me que já lhe pediste isso mesmo ha tempos.

—Quando enviuvei. Então não quiz. E agora...

—Quer. É natural.

—Mentes; não achas natural. Tu percebes tudo tão bem como eu.

—Direi mais: acho que faz bem.

—Em espionar-me?!

—Defender-te.

—Quem me ameaça?

—A tua imaginação.

—Vocês são todos uns imbecis!

—Talvez...

—Metteu-se-lhes uma asneira em cabeça e é alli! Eu sempre quero saber que mal fez a pobre moça á minha sogra! E a vocês todos, que a guerream... mas guerream porque? porque traz a minha casa alegre, cheirosa, bonita, limpa; porque economisa o meu dinheiro, fazendo-me passar bem como nunca, e ainda corrige a minha filha de feios vicios de educação! A eterna malicia faz d'isto um enredo e mette-se-me no caminho para me perturbar. Tu sabes que eu quero muito á minha sogra; depois da morte de Maria redobrou por ella o meu affecto e a minha consideração... Sabes que tenho um grande prazer em vel-a, em estar a seu lado, em chamal-a mamãe... como uma criança... como minha mulher fazia... Sabes que sou fiel ao passado e ao juramento que fiz; sabes tudo isso e sabes tambem que sou profundamente egoista, que amo a ordem, o silencio, o socego, o conforto e a liberdade! A liberdade, sobretudo! Aquella creatura que tenho em casa não é uma mulher; é uma alma, que me não constrange absolutamente em nada. Levanto-me, deito-me, saio, entro, janto, converso, ralho ou rio, sem ter que dar por isso a minima satisfação a ninguem. Vaes vêr agora! Minha sogra e ella são incompativeis...

—Talvez não...

—Sim, com certeza! Abre-se a guerra. A moça sae. O Feliciano readquire o perdido prestigio. Começa o desbarato dos charutos, das camisas engommadas e das gravatas. A mobilia ficará com pó; a comida será atirada para os pratos como para os cães. Minha sogra, velha e pesada, não poderá subir e descer as escadas na fiscalização dos quartos. Os retratos de Maria apparecerão rodeados de perpetuas e sempre-vivas, flôres da minha especial embirração; aquelle perfume suave que me entrou em casa com esta rapariga, desapparecerá com ella; abrirão a porta do gallinheiro para o jardim e seccarão roupas no gradil do terraço do fundo... Verás! Á noite não poderei passear no meu quarto, como costumo fazer, com receio de incommodar a mamãe, que tem somno leve e soffre de enxaquecas; e terei mesmo, para socegal-a, de apagar a vela muito antes de adormecer, porque tem medo de incendios!...

Assumpção sorriu.

—Que pretexto dá para essa resolução?

—Doença. Está doente e precisa de vir morar ao pé dos medicos!...

—Effectivamente, achei-a abatida outro dia...

—A doença d'ella, sabes qual é? ciumes!

Vem vigiar-me... pôr obstaculos... fazer scenas... Como se eu me sujeitasse!

—Não...

—Não?! És innocente! Mas eu fujo, invento uma viagem. Parto!

—Para onde?

—Não sei... para o inferno.

—Pobre senhora...

—Eu adoro-a, Assumpção! adoro-a, lá, á sombra das suas mangueiras, afundada na sua cadeira de balanço, cheirando a alecrim e dizendo as coisas maternaes que sabe dizer. Mas em minha casa atrapalha-me... desarranja-me a vida... altera-me o socego. Pensa commigo: minha sogra pôde viver em companhia da Alice?

—Pôde...

—Como?!

—Pedindo-lhe para não se immiscuir em nada na direcção da casa...

—Seria bom se ella não viesse já com o proposito de supprimir a outra. Engole-a. Verás que a engole logo na primeira entrevista.

—Exaggeras...

—Estás convencido d'isto, tão bem como eu. Não a defendas, nem disfarces!

—Quem te deu essa noticia, o barão?

—Sim. Quando vocês entraram elle acabava justamente de pedir-me que lhe dispensasse um quarto em minha casa. Outra coisa: o meu quarto eu não o dou; e a não ser o meu, o unico quarto nas condições de servir-lhes é o que dei á governante... terei de a desalojar... é desagradavel isso não te parece? Será necessaria a tua intervenção. Agora levo em capricho, não quero vêr nem falar com aquella moça. Uma sacrificada á brutalidade dos outros.

—De que me incumbes?

—De ir communicar isso mesmo á coitada e combinar com ella os arranjos do quarto...

—Tua sogra descerá?...

—Amanhã. Ella entra por uma porta e a Alice sahirá pela outra; é o que vae acontecer.

—Talvez não...

—Vê se com o teu prestigio de padre e a tua diplomacia consegues conciliar as coisas...

—A baroneza desconfia de mim...

—Ah, já notaste!

—Todavia, procurarei ellucidal-a. Ninguem acredita, a não serem os amigos intimos, que mantenhas no segredo da casa a situação que fazes transparecer cá fóra... Não censures tua sogra, pela mesma persuasão, que...

—Persuada-se do que quizer; mas não lhe assiste o direito de impedir a minha vontade e a minha liberdade de homem, de fazer o que eu muito bem entender. Nem minha mãe seria capaz d'isso, nesta situação...

—Não te exaltes...

—Meu sogro notou com certeza o meu sorriso amarello...

—Pobres velhos!

—Só os lamentas a elles! E a mim?...

Assumpção. não quiz dizer a quem mais lamentava, mas a figura pallida de Alice atravessou-lhe o espirito numa aureola de piedade. A sua commissão era muito delicada, e nem sabia por onde começar.

Argemiro passeava agitado pelo escriptorio, falando entrecortadamente:

—Exactamente agora, que tenho tanto trabalho... aquelle doce socego... ainda hontem escrevi até ás duas horas...

Qual!... E aquella mania da comida sem sal?!... E eu que aprecio os salgados... Outra coisa que eu abomino... o cheiro do tal matte queimado! E o senhor meu sogro não dispensa o matte!... Logo de manhã cedo é cada chicara!

O Feliciano vae rejubilar-se! Se me apparecer com a cara alegre, mato-o!... Se não fossem certas considerações... Ah! os meus livros, tão bem arrumadinhos... Has de crêr? Depois que ella está lá em casa nunca achei uma falta e nem uma traça na minha bibliotheca! Antes, era um desespero! O Feliciano tinha aquillo em uma desordem... Eu estava agora tão bem... tão bem!... Que castigo!

—Tranquillisa-te... tudo se ha de arranjar.

Por quanto tempo vêm os teus velhos?

—Tempo indeterminado. Quer dizer: toda a vida!

—Se elles soubessem d'este acolhimento...

—Sabem. Presumem! Minha sogra com que fim vem cá para baixo? Com o fim de escangalhar a minha felicidade. Pensa que eu amo, que sou correspondido e vem pôr-se entre os meus beijos e os da pobre rapariga... O que conseguem com isso tudo? Despertar-me a curiosidade e obrigarem-me talvez a apaixonar-me de verdade. E ainda se hão de queixar... de mim, quando eu confessar isso! Verás.

Assumpção sorriu, dando razão ao amigo, sem se entretanto manifestar.

—Envergonho-me antecipadamente do que se vae passar lá em casa...

—Tua sogra é delicadissima...

—É ciumenta! e os ciumentos chegam a praticar desatinos! Lembras-te de Maria? Um anjo; mas quando lhe dava para ter zelos... perdia a cabeça!

—Tal qual a mãe... Decididamente, eu vou-me embora!...

—Parece-me prudente conversares hoje com D. Alice.

—Nunca... já agora, não quero! Tem paciencia, meu velho, fala-lhe tu... és tão bom, tens-te interessado tanto pela minha vida, que não sei já dar um passo sem ti... e quando o dou não sou feliz.

Estou a falar-te e a reparar numa coisa: vocês nunca alludem ao nome da minha governante sem o acompanharem do dom... vejo que ella inspira respeito a toda a gente... deve effectivamente ser uma mulher fina e educada... D. Alice!... pois a D. Alice vae soffrer vexames.

—Não sejas tolo.

—Verás.

—Espera-me hoje para o jantar. Conversarei depois com a... D. Alice. Ella é cordata e conhece o seu logar. Dás-lhe demasiada importancia. Afinal, ella é uma empregada... uma subalterna. Não exaggeres os melindres e tranquillisa-te. Que mais ordena meu principe ao seu mordomo?

—Que me abrace e me perdôe.

Assumpção sentiu no abraço do amigo uma ternura intensa.

Ama-a... pensou elle comsigo tristemente. Elle ainda o não sabe... mas a verdade é que ella já lá está dentro...




XV

Intoleravel, o Feliciano, ao servir nessa tarde á mesa. Sem pronunciar uma unica palavra e mais impertigado ainda que de costume nuns collarinhos que lhe roçavam as orelhas, percebia-se que no seu mutismo e seriedade elle suffocava de contentamento. Quando o olhar de Argemiro o lobrigava espigado aos cantos, esperando ordens, desviava-se com uma impressão exquisita e que não podia definir. Durante todo o jantar desgostou-o a figura limpa e correcta do negro, approximando-so e afastando-se maciamente, conforme as exigencias do serviço.

Em frente de Argemiro o padre Assumpção, encostando os hombros quadrados no alto espaldar da cadeira de couro, dilatava as narinas ao aroma das frescas rosas que alegravam a mesa.

Para tornar uma hora agradavel basta ás vezes bem pouca coisa... pensava elle comsigo.

Uma toalha bem limpa... umas flôres orvalhadas... esmaltes de loiças reluzindo... e já os olhos e o olfacto tem um repasto regalador... Ámanhã, as coisas estarão de outra maneira, que é vezo de inimigos contradizerem-se em tudo. E então Argemiro confessará o que ainda pensa ignorar...