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A Intrusa

Chapter 2: A INTRUSA
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About This Book

O romance acompanha um pai viúvo, advogado, cuja casa vazia e o círculo de amigos influem nas decisões sobre o futuro da filha quando uma mulher estranha é introduzida em seu convívio. As cenas alternam entre momentos domésticos íntimos e reuniões sociais em que debates políticos, juízos morais e intentos de casamento se cruzam, revelando tensões entre dever, reputação e desejo pessoal. Por meio de conversas e de uma observação minuciosa dos costumes, a narrativa examina a ansiedade paternal, as expectativas sociais e os efeitos perturbadores de uma intrusa sobre rotinas estabelecidas, ao mesmo tempo em que acompanha a posição da filha entre proteção e autonomia.

The Project Gutenberg eBook of A Intrusa

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Title: A Intrusa

Author: Júlia Lopes de Almeida

Release date: March 9, 2022 [eBook #67594]
Most recently updated: October 18, 2024

Language: Portuguese

Original publication: Brazil: Francisco Alves, 1908

Credits: Laura Natal Rodrigues (Images generously made available by Hathi Trust Digital Library.)

*** START OF THE PROJECT GUTENBERG EBOOK A INTRUSA ***

Julia Lopes de Almeida


A INTRUSA


LIVRARIA FRANCISCO ALVES—EDITOR

R. do Ouvidor, 134—Rio de Janeiro R. de S. Bento, 65—S. Paulo
Rua da Bahia—Bello Horisonte
1908




NOTA:

Este romance foi publicado em folhetim, no Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, em 1905.




INDICE

CAPITULO I
CAPITULO II
CAPITULO III
CAPITULO IV
CAPITULO V
CAPITULO VI
CAPITULO VII
CAPITULO VIII
CAPITULO IX
CAPITULO X
CAPITULO XI
CAPITULO XII
CAPITULO XIII
CAPITULO XIV
CAPITULO XV
CAPITULO XVI
CAPITULO XVII
CAPITULO XVIII
CAPITULO XIX
CAPITULO XX
CAPITULO XXI




A INTRUSA




I

—Que temporal!

—E um friosinho! Conhecem vocês nada mais gostoso do que ouvir-se o barulho forte da chuva quando se está agazalhado? Eu estou-me regalando!

—Sempre o mesmo egoista! Como estás em tua casa!... mas... desalmado, lembra-te de nós! São quasi horas de me ir recolhendo aos meus penates. E alli o padre Assumpção, caso não fique pelo caminho, terá tambem que marchar um bom pedaço a pé. Ao Telles, esse o bond leva-o até ao quarto de dormir! Nasceu impellicado.

Por essa feia noite de chuva, conversavam em casa do advogado Argemiro Claudio, no Cosme Velho, o seu grande amigo padre Assumpção, o deputado Armindo Telles e o Adolpho Caldas, homem de quarenta annos, sem profissão determinada, mas muito bem acceito nas rodas politicas e litterarias, que frequentava assiduamente.

Tinham jantado tarde, fumavam agora na bibliotheca de Argemiro, sentados á mesa do poker.

Menos por virtude que por cansaço, padre Assumpção não quizera tomar parte no jogo e andava pela sala sacudindo o panno da batina a cada impulso das suas largas passadas. Era alto, magro, anguloso, de uma côr pallida; e nas suas feições accentuadas, em que melhor condiria o sarcasmo, havia uma tal expressão de candura, que Adolpho Caldas costumava dizer:

—O riso do Assumpção cheira a rosas brancas.

O dr. Argemiro, advogado, conforme rezavam os diarios do Rio—dos mais distinctos do nosso fôro—jogava por jogar, sem vivo interesse, só para pretexto de chamar os amigos á sua casa de viuvo e de lhe dar uma palpitação de alma que lhe ia faltando...

«Ah! uma casa sem mulher, afirmava elle, é um tumulo com janellas: toda a vida está lá fóra...» E lembrar-se que aquillo havia de ser para sempre!

O dr. Argemiro Claudio de Menezes, descendente directo dos Iglesias de Menezes, nobres de Portugal, cujo solar brazonado existe ainda, bem que arruinado, naquelle reino, em terras limitrophes da Hespanha, á beira de um rio espelhento e de pinheiraes perdidos,—era um homem ainda moço, robusto, de carnes solidas e uns olhos negros, em que talvez a raça arabe transparecesse ainda, adoçada pelo cruzamento com a lusitana. A barba preta, talhada rente ao rosto pallido, tinha já um ou outro fio prateado, e o cabello muito curto desenhava-lhe a cabeça redonda e forte. Tinha as mãos pequenas, a attitude preguiçosa, em contradicção á energia do typo. Viuvo ha sete annos de uma formosa senhora, cujo retrato apparecia em todos os cantos da casa, elle protestára não tornar a casar-se.

A mulher, filha dos Barões do Cerro Alegre, levara-lhe a melhor porção da sua vida.

Do primeiro anno do seu casamento, que durara cinco, existia uma filha, Maria da Gloria. Vivia esta menina com os avós maternos, numa chacara dos suburbios, e andava agora pelos seus onze annos e os rudimentos de portuguez e de musica. Tanto como o pae e os avós, por ella se interessava o padrinho, padre Assumpção.

Sem interromper a partida, o deputado Armindo Telles gabou-se:

—Foi hoje um dos dias mais bellos da minha vida; não preciso de mais nada para julgar-me compensado dos enormes sacrificios que a deputação me tem custado... rios de dinheiro, noites de insomnia, descomposturas de outros partidos... de tudo colhi hoje o premio. Imaginem vocês que tive de luctar renhidamente com o proprio governo, molestar collegas, ir de encontro mesmo a principios que prezo de gratidão pessoal e de conveniencia propria, e que, arrostando tudo, como um soldado na guerra, consegui a minha victoria. Imaginem se não devo estar satisfeito! Uma victoria politica, já o disse Chartrier, embriaga melhor que o mais velho licor.

Chartrier?... perguntou com curiosidade o padre Assumpção.

Armindo Telles pareceu não ouvil-o e continuou:

—Infelizmente, temos agora na camara poucos talentos de combate. Carecemos de mais vivacidade... A indifferença de uns e a má vontade de muitos enfraquecem os golpes de um ou outro mais enthusiasta... Eu cruzei as minhas armas, nesta porfia, com os maiores talentos da camara e feri-os a todos sem piedade. Creei inimigos; pouco importa, mas triumphei!

Adolpho Caldas, levantando os olhos das cartas em leque na mão gorducha, indagou, sorrindo:

—Por que feito illustre glorificaste a patria?

—Pelo reconhecimento do Simão da Cunha, o meu collega Simão da Cunha, que a camara em peso guerreava!

Sob o bigode de Argemiro passou a sombra de um sorriso. Adolpho Caldas impregnou de candida ingenuidade os seus maliciosos olhos castanhos e disse apenas, como a procurar:

—Cunha?...

E depois:

—Ah! o Simão! sim... é desempenado. Veste-se bem.

—Não é aguia, affirmou Telles; mas é o que se chama—uma mediocridade operosa—e é, sobretudo, um homem de bem!

—Isso em politica não tem valor... commentou o dono da casa. Mas que faz você ahi, padre Assumpção, remexendo nas estantes?!

—Estou a ver se encontro algum livro de Chartrier...

—Olha, o catalogo dos livros deve estar naquella gaveta, se acaso o Feliciano já o não deitou ao fogo! Eu já nem sei o que tenho...

—O que você deve procurar é os sermões do Padre Vieira! disse malignamente Armindo Telles.

—Não preciso; sei-os de cór.

—Impinge-os como seus?

—Impingil-os-ia se os deputados fossem á igreja; mas você sabe, aos outros não... tenho medo que percebam!

Riram-se todos. Telles retrucou:

—Ainda o hei de ver na tribuna parlamentar, padre!

—Talvez. Os cilicios fazem os santos... mas eu, humilde padre, encontraria quem se batesse por mim com o mesmo denodo com que você se bateu pelo...?

—Simão da Cunha.

—Por esse senhor?

—Eu mesmo.

—Guarde as suas armas para melhor combate, amigo. Não tenho envergadura senão para um serviço—o divino. Cá tem você um livro precioso, Argemiro.

—Qual é?

—Vida de D. Frei Bertolameu dos Martyres.

Adolpho Caldas commentou:

—Solemnissimo! que bella lingua, reverendo!

—Formosa! Frei Luiz de Souza tinha a quem sahir...

Padre Assumpção ficou de pé, junto á alta estante de jacarandá, folheando o livro, muito attento.

O deputado recolheu as cartas dos parceiros: ganhava o jogo.

—A sabedoria dos proverbios está sendo compromettida... declarou Argemiro. Você prova que a felicidade em amor é compativel com a do jogo!

Adolpho Caldas accrescentou:

—Leito, tribuna e mesa. Ahi está um lema conveniente aos teus triumphos, Armindo!

Telles sorriu, respondendo sem disfarçar a vaidade:

—Leito e tribuna... vá; mas mesa, não sei porque!

Caldas, baralhando as cartas, concluiu:

—Mesa, empreguei eu na expressão lata, falando como um diccionario. Referi-me á mesa do orçamento, á mesa do baccarat e mesmo á do jantar. Não quero fazer-te a injustiça de suppôr que te alimentas a leite e a agua de Vichy... Começas a ter pança; não te pódes rir de mim; e jantaste hoje a meu lado, não te esqueças d'essa circumstancia; jantaste como um homem de boa consciencia e magnifico estomago! Fiquei-te considerando mais, depois que te vi comer.

Argemiro observou, rindo:

—É o exercicio da profissão!

Armindo Telles respondeu:

—Vocês confundem-me com o Araujo Braga... que trouxe da pasta a pratica da mastigação e leva mesmo a impudencia a ponto de dizer, como disse hontem á porta do Watson, á minha vista:—eu hoje só rôo subsidios e clientes.

—Esse tem, ao menos, o merito da franqueza. A mim então só me apparecem causas pessimas, clientes já esfolados, em osso. Se eu não tivesse alguns bens, iria esmolar na esquina declarou Argemiro.

O jogo chegára a um ponto que requeria a attenção absoluta dos jogadores. Ficaram largo tempo silenciosos, olhos fitos nas cartas, só entreabrindo a bocca para a passagem das expressões obrigadas do poker.

Padre Assumpção continuava a sua leitura, de pé, com o hombro encostado ao angulo da estante. A batina muito escorrida desenhava-lhe o corpo esguio, descendo rente á moldura do movel, confundindo-se com elle na sombra do aposento.

Os tres jogadores eram de bem differente aspecto. Em contraste ao todo severo do dono da casa, o deputado Armindo Telles alegrava a sala com os tons claros da sua roupa alvadia e da sua gravata escoceza picada por um rubi fulgurante.

Representante do Paraná, que o tinha como um politico habil, presumia conhecer as coisas e os homens do Rio de Janeiro como os da sua terra, onde a familia carpia saudades da sua pessoa airosa e bem tratada. Maleavel, imprimia ao seu jornal de Curitiba as cambiantes politicas do seu partido e a vontade soberana do seu chefe, e dest'arte equilibrava-se na invejada posição de representante da nação. Claro, louro, sem barba, que raspava escrupulosamente, elle apparentava menos edade do que a que tinha realmente. Falava com socego, num agradavel timbre de voz. Ás vezes mesmo Caldas caçoava:

—Na camara, quando o Armindo fala, não lhe escutam as palavras; ouvem-lhe a voz. C'est la voix d'or, do Congresso!

Assim como a voz elle tinha macio o gesto, que parecia obedecer a um estudo, a que por certo não se applicára nunca... As mãos, pequenas, mostravam os anneis de preço sem se desviarem muito do peito, sempre resguardado por linhos claros e fatos correctissimos.

Em frente d'elle, Adolpho Caldas, gordo e calvo, com um eterno charuto entalado entre os beiços carnudos, que o bigode castanho cobria, movia-se á vontade no seu veston de panno preto, com um bom ar de despretenciosa superioridade.

O Adolpho Caldas dizia-se rio-grandense, mas affirmavam alguns que elle era nascido em Montevidéo, de familia brasileira. Vivia desde os vinte annos no Rio de Janeiro, sempre na boa roda, de financeiros illustres e ministros afamados, chegando-se para as arvores de substanciosos fructos e boa sombra. Solteirão, intermediario de bons negocios, permittia se o luxo de uma viagem de longe em longe a Paris, cujos museus de quadros conhecia de cór.

Tinha a paixão da pintura e lia bons livros portuguezes, classicos sobretudo. Era com elle que o padre Assumpção conversava ás vezes sobre litteratura antiga, certo de que os bons livros espirituaes, como os profanos, tinham a mesma admiração no juizo competente d'aquelle homem de tão experta sagacidade.

Houve uma pequena pausa no jogo; o Feliciano entrou com os calices de Chartreuse. No abrir da porta ouviu-se o barulho da chuva batendo com força nos ladrilhos do terraço, e um arrepio de frio fez voltar-se o dr. Argemiro, que estava de costas para a entrada.

—Ó Argemiro, onde arranjaste tu este Feliciano? perguntou Caldas, mirando o copeiro, um negro de trinta e poucos annos, esgrouviado e bem vestido.

—Na familia de minha sogra... é filho da ama de minha mulher.

—Se não fôsse reliquia de familia, pedia-t'o para mim.

Feliciano serviu a todos como se não tivesse ouvido coisa nenhuma, substituiu por outros os cinzeiros já repletos e tornou a sahir, silenciosamente.

—Se me não engano, observou o Armindo Telles, vi-o outro dia em casa da Lolóta...

—Ah! tambem você?...

—Que! ir á casa da Lolóta? Mas toda a gente vae á casa da Lolóta!

—Até o Feliciano... murmurou Caldas.

—Não! o Feliciano levava um recado. Ia com uma carta minha, corrigiu Argemiro.

—Por isso ella discutiu leis com tanto apuro! Parabens. É uma mulher estonteadora...

—Não sei, a minha carta era ácêrca de negocios; ella é minha cliente.

—Homem puro, que nem sabe se as suas clientes são ou não são bonitas! Eu confesso-me peccador impenitente: quando vejo uma saia levanto logo os olhos para vêr se o rosto da dona é feiticeiro! Tape os ouvidos, padre Assumpção!

O padre sorriu e não desviou os olhos da leitura.

—Peccar ainda é e será a coisa melhor da vida, continuou o Armindo; peccado de amor, está claro. Ah, e neste Rio de Janeiro, por melhor que seja a vontade de resistir, ninguem foge á tentação! Você conhece o dr. Aguiar?

—O da Caieira?

—Esse mesmo. Pois quando pretende alguma coisa da camara ou dos ministerios, manda a mulher ás secretarias ou á casa dos deputados. A mim procurou-me ella um dia no hotel, e, como o negocio era reservado, tive de falar-lhe no meu quarto. O salão estava cheio. Ia linda!

—E?...

—O Aguiar entrou numa centena de contos; aliás a pretensão era justa; todavia, se a mulher fôsse feia, não digo isto por minha parte, creio que elle não arranjaria nada. O caso não dependia de mim, mas de quem «mais caso faz da formosura alheia»!

Armindo interrompeu o assumpto para sorver um gole de Chartreuse.

O padre Assumpção, talvez para desviar o assumpto mal encaminhado, por achar a proposito o trecho ou para fazel-o notar a Adolpho Caldas, leu alto uma phrase:

«...um peccado chama outro peccado, e este outro vem logo acompanhado até crear devassidão e ficarem em estado de se darem por sem remedio. Miseravelissimo estado que abre as portas de par em par a todo o genero de vicio e apaga toda a memoria do Céo e da Eternidade».

Padre Assumpção fechou o volumesinho de Frei Luiz de Sousa, pôl-o na estante e foi sentar-se ao lado de Argemiro.

Estava á espera de uma estiada para se ir embora; mas a chuva cahia em torrentes fortes e continuadas. Houve um momento mesmo em que a tempestade pareceu recrudescer de furia. Assumpção confessou:

—Estou com medo que o temporal d'esta tarde tenha quebrado a amendoeira do meu quintal...

Os jogadores estavam absorvidos; mal o ouviram. D'ahi a pedaço, já desinteressado do poker e prestando attenção á bulha das aguas, Argemiro propoz que ficassem todos com elle: a casa tinha quartos para hospedes. Nenhum acceitou. Caldas confessou que não sabia dormir no Rio senão em cama feita pela sua ménagère e padre Assumpção affirmou que a mãe não se deitaria senão depois de o vêr entrar.

A partida prolongou-se até ás onze horas, em que deixaram os baralhos, e Armindo foi afastar as cortinas para olhar para a rua atravez dos vidros das janellas.

—Chove ainda! E deve estar frio lá fóra! Parece-me que estou em Curitiba!

Padre Assumpção, voltando-se para o dono da casa, disse:

—Amanhã terei de ir á casa de tua sogra; queres alguma coisa para a nossa Maria?

Nossa Maria era como o padre chamava a filha de Argemiro, a quem baptisára e adorava.

—Nada... eu irei vel-a no domingo.

Quero ver se para a semana ella vem passar uns dois dias commigo.

—Aqui?

—De que te espantas?

—Ora essa! com quem a deixarás, quando tiveres de sahir?

—Vaes rir... Botei hoje um annuncio no Jornal, pedindo uma moça para tratar da casa de um viuvo só.

—Estás doido! Não caias nessa asneira... Olha que chamas o perigo para casa.

—Não posso mais aturar o Feliciano; preciso de alguem que me ajude a supportal-o. Mas a razão vocês sabem. Quero que minha filha não se crie completamente alheia á sua casa, preciso mesmo da sua companhia, ao menos uma vez por mez.

—E confiarás a nossa Maria a qualquer mulher desconhecida?!

—Gloria não deixará os avós senão por um dia... É uma consolação fugitiva, a que eu procuro. Estou velho...

Caldas preveniu:

—Olha que essas madamas trazem anzóes nas saias... Quando menos pensares... estás fisgado... E tu que és bom peixe! É uma raça abominavel, a das governantes... Verás ámanhã que afluencia de francezas velhas á tua porta! Feia ou bonita, a mulher é sempre perigosa. Eu deixar-me-ia ficar socegadinho nos braços do Feliciano!

—Que lembrança, por annuncio! repetia o padre. Ainda se não tivesses tua filha...

—Preciso de uma mulher em casa, que não seja boçal como uma criada, mas que não tenha pretensões a outra coisa. Saberei indicar-lhe o seu logar. Nem quero vêl-a, mas sentir-lhe apenas a influencia na casa. É a minha primeira condição.

—Acho-a acertada! Como já disse, só vêm para esse officio mulheres aposentadas, pela força da edade, de outros serviços! Feias mas habilidosas... No fim de algum tempo tu cahirás doente, ella será uma enfermeira carinhosa e a comedia acabará quasi sem se sentir. É o costume. O Assumpção reprova-te. Eu aviso-te.

—Consultaste ao menos tua sogra? perguntou o padre.

—Não. Ella, com receio de que eu lhe reclame a neta, negou-se sempre a coadjuvar-me nesse sentido.

—Não tires de lá a nossa Gloria. Está muito selvagem, mas está muito bem. Realmente, essas senhoras vindas por annuncio para tratarem da casa de um viuvo só, devem trazer intenções muito exquisitas. Será preferivel uma velha.

—Não! as velhas cheiram a gallinha, desde que não sejam de fina sociedade. Uma, que metti por experiencia em casa, encheu-me o jardim de patos e de perus, que ciscavam na grama. Quero uma mulher que tenha bôa vista, bom olfato e bom gosto. São as qualidades que eu exijo, por essenciaes, numa dona de casa. Quero uma moça educada.

Armindo Telles, enfiando o sobretudo, de que levantou a golla até ás orelhas, offereceu-se para vir esperal-a no dia seguinte...

Adolpho Caldas calçou as galochas, augurando que a moça educada teria mais de quarenta annos e não se resignaria a não conhecer monsieur... E concluiu:—cá estou para espectador da scena. Vamos rir.

Só o padre Assumpção não enfiou sobretudo nem calçou galochas, limitando-se a tirar do cabide o seu grande guarda-chuva inglez. Elle alli estava para defender a afilhada de um mau contacto... previa desastres que procuraria obstar. Ora, como pudéra Argemiro cahir naquelle ridiculo...

Sahiram os tres, calados, para a chuva; e o Feliciano, alagando os sapatos nos ladrilhos do vestibulo, desejou a todos—muito boas noites—e fechou a porta.




II

Era meio-dia quando um bond das Aguas Ferreas parou á entrada do Cosme Velho e uma moça desceu para a rua, com ar vexado. O bond continuou o seu caminho; ella consultou uma notasinha da carteira e entrou num predio côr de milho secco, ladeado por um jardim em meio abandono.

Um rapazinho lavava o vestibulo; a moça olhou para elle ainda embaraçada e perguntou:

—O dono da casa...?

Felizmente, o pequeno não a deixou concluir; estava prevenido e gritou logo para dentro, fazendo correr uma porta de vidro que devassou um trecho do interior:

—Ó seu Feliciano, venha cá! E voltando-se para a recem-chegada:—A senhora entre.

Ella levantou cuidadosamente o seu vestido de lã preta, para que se não molhasse no chão enxarcado, e atravessou o vestibulo em bicos de pés.

O rapazinho olhou e viu que ella levava as botinas esfoladas, tortas no calcanhar, e que tinha os artelhos finos. Mal ella chegava á porta do fundo, quando appareceu um negro, muito empertigado, com um arzinho desdenhoso e enfiado num dolman branco de impeccavel alvura.

Ella repetiu a mesma phrase e elle fez-lhe um gesto para que o acompanhasse.

Seguiram por um corredor até ao escriptorio do dr. Argemiro, que escrevia á secretária, no meio de um montão de papeis, muito atarefado, já prompto para sahir.

Feliciano avisou da porta:

—Uma pessoa que vem pelo annuncio!

O advogado levantou os olhos e viu entrar na sala uma figura meio encolhida, que lhe pareceu ter um hombro mais alto que o outro e cujas feições não viu, porque vinham cobertas com um véu bordado e ficavam contra a claridade.

—Tenha a bondade de sentar-se... permitta-me mais um momento e prestar-lhe-ei toda a attenção...

Ella fez um gesto de assentimento e sentou-se perto da porta. Elle, bem illuminado pela claridade de fóra, apressou as ultimas notas, fazendo ranger a penna no papel. Chegada a vez de ordenar as folhas esparsas pela secretária e de acamal-as na pasta, para não perder muito tempo, foi dizendo:

—Antes de mais nada, como estes annuncios reclamando senhoras para casas de viuvos são ambiguos e prestam-se a interpretações pouco airosas, digo-lhe desde já que preciso, para governante de minha casa, de uma senhora séria, uma senhora honesta, a quem eu possa francamente confiar minha filha, que é uma menina de onze annos. Ella móra fóra, mas deverá vir passar de vez em quando alguns dias em minha companhia...

Sendo essa a condição essencial, não extranhará por certo que lhe peça algumas informações...

Argemiro esperou um instante, a vêr se ella se decidia a falar sem ser interrogada; mas a coitada encolheu-se na cadeira e elle foi forçado a perguntar:

—A senhora é viuva?

—...Não senhor... sou solteira...

—Ah... mas já governou alguma casa, naturalmente?...

—Sim... senhor...

—Bem... Desculpe-me a minuciosidade. Poderá dizer me em que casa desempenhou o cargo a que se propõe?

Ella pareceu não entender; depois disse baixo:

—Na minha... na de meu pae...

—Ah!... O nome de seu pae é...

—Meu pae morreu... e é por isso que eu...

Houve uma pausa. Argemiro consultou o relogio. Era tarde. O diabo da mulher não serviria?!

—Que edade tem?

—Vinte e cinco annos...

—É saudavel? A saude é tambem uma das condições que eu exijo.

—Sou.

—Pois, minha senhora, infelizmente tenho o tempo contado e não posso demorar-me. Vou procurar em poucas palavras fazer-me bem entendido; pesso-lhe que me escute com a maior attenção e que me responda com absoluta franqueza.

Como lhe disse, quero uma governante para minha casa, que seja ao mesmo tempo uma companheira para minha filha nos dias em que ella vier vêr-me. Para isso é preciso que essa governante seja uma senhora séria, sobretudo educada, não digo instruida, mas que emfim não seja analphabeta e que tenha habitos de asseio, de ordem e de economia. É absolutamente preciso pôr um dique á impetuosidade das minhas despezas domesticas. Eu não posso tratar d'isso. A senhora dirigirá tudo, com energia, de modo a regularisar as coisas definitivamente. Para isso lhe darei toda a força moral. Ha uma clausula, que talvez lhe pareça absurda, mas é indispensavel na nossa situação, caso a senhora acceite as condições que estipulo...

Elle parou, com ar interrogativo.

Ella respondeu com um fio de voz tremula:

—Perfeitamente...

—É esta: não nos vermos senão quando isso fôr absolutamente indispensavel, ou melhor, não nos vermos nunca! A razão d'esta exquisitice, ou d'esta mania, não póde ser explicada por inteiro em poucas palavras; supponha, porém, que repouza só nisto: não querer eu que paire sobre quem deve velar por minha filha nem a sombra de uma suspeita! A minha casa é grande, tem dois pavimentos e eu passo o dia na cidade, só vindo jantar á noite. Na minha ausencia toda a casa será sua; desde que eu entre a senhora saberá e poderá evitar-me. Acha isso possivel?

—Acho...

—Concorda em que seja assim?

—Concordo.

—Pense na responsabilidade que vae assumir.

—Já pensei...

—Eu sou exigente. Quero sentir na minha casa a influencia de uma pessoa moça, saudavel e ordenada. Não quero vêr essa pessoa, por motivos que expuz e por outros particulares e que não vêem ao caso, como tambem já disse. Aviso-a de que sou commodista. A senhora julga-se com os predicados que apontei?

—Julgo-me.

—Tanto melhor; parece-me que nos entenderemos. Todavia, desejaria, repito, que a senhora me desse algumas informações a seu respeito. Como se chama?

—Alice Galba.

—Galba... tenho idéa de ter conhecido na minha infancia um velho com esse nome... um botanico, se me não engano...

—Era meu avô...

—Então seu pae...

—Meu pae morreu ha dez annos...

Argemiro puxou o relogio. Era a hora do bond; levantou-se apressado, apanhando a pasta e o chapeu.

—A senhora veio tão tarde! E temos ainda uma coisa a combinar: o ordenado?

A moça levantou-se com timidez.

—O senhor dará o que entender...

—Ora essa! Eu não sei.

—Eu tambem não... É a primeira vez que me emprego...

Argemiro presentiu sinceridade naquella confissão e olhou para a moça. Mal percebeu, atravéz do véo, um rosto magro e pallido.

«Parece-me feia...» pensou elle comsigo, com uma pontinha de desgosto; e logo alto:

—Onde poderei mandar prevenil-a?

—Eu virei, quando determinar, saber a sua resposta.

—Se quer ter esse trabalho... Venha então quinta-feira. Sómente, peço-lhe mais algumas informações sobre os seus antecedentes e que fixe o seu ordenado.

Elle já se mostrava impaciente, caminhando para a porta, como a despedil-a. Ella fez uma reverencia timida e sahiu.

Quando Argemiro chegou á rua, com a sua pasta pejada de papeis, viu Alice subir para o bond e notou, como o seu criado, que ella levava as botinas rotas e tinha os artelhos delicados.

O diabo da rapariga fizera-o perder um tempo precioso, e talvez inutilmente. Quem sabe? talvez apparecesse outra mais geitosa. Tudo lhe desagradava nesta, desde os hombros encolhidos até ás botas esfoladas...


Quando Argemiro voltou á casa para jantar, encontrou o padre Assumpção, que vinha trazer-lhe noticias de Maria da Gloria.

—Tua filha pediu-me que te viesse hoje mesmo dizer que está com muitas saudades tuas. Que diabo fazes, que a não vais ver?

—Bem sabes em que consumo as horas... uma estupidez! É tão longe aquillo, e minha sogra fecha tão cedo a casa!... Ah, estou morto por trazer minha filha, ao menos uma vez de quinze em quinze dias, para jantar commigo, encher esta minha casa triste de riso e de alegria. Como a achaste?

—Magnifica, muito córada, forte! A avó exasperada porque ella não lhe pára no estudo. Quando eu cheguei estava ella encarapitada no muro, apanhando as amoras do visinho; quando entrou trazia o avental manchado e a saia toda descozida. A avó mostrou-me aquillo muito queixosa, mas Gloriazinha mal a deixava falar, tantos eram os beijos que lhe dava!

Riram-se ambos, Argemiro e o padre.

—A avó tem razão; minha filha já está muito crescida para aquelles modos de rapaz...

—É uma criança... deixa-a.

—Mas afinal, de quem é a culpa? Dos avós. Se ella morasse commigo seria muito outra.

—Não estaria tão bem.

—É uma selvagem... esta é que é a verdade; mal sabe lêr, rabisca umas letras em pessima calligraphia... e toca sem compasso umas intoleraveis lições do methodo! Já era tempo de saber muito mais. Não te parece?

—Ora! sabe em que tempo se devem plantar os repolhos e podar as roseiras, como se córa roupa e se deitam gallinhas. É uma sciencia rara hoje em dia e muito util. Tua sogra pediu-me que lhe ensinasse o cathecismo, para a primeira communhão.

—E tu...

—Eu disse-lhe que deixasse a menina por emquanto adorar a Deus a seu modo. Quando eu entrei na chacara ella repartia fructas com a criançada pobre da vizinhança.

—É brutinha, mas tem bons sentimentos...

—É um anjo; o ser selvagem não é culpa sua; mudará com o tempo.

—Não basta o tempo; estás convencido de que ella precisa de mais alguma coisa... Pobre criança, terei o direito de sacrifical-a ao egoismo da avó? Andamos errados conservando-a lá... não acoroções a minha negligencia; esta é a verdade. Se eu pudesse organisar a minha vida de outro modo... A proposito: veio hoje uma rapariga, pelo annuncio do jornal, offerecer-se para governante. Só uma! vês tu? E vocês a dizerem que viriam em rebanho! Antes viessem varias, poderiamos escolher. D'esta gostei pouco. Pareceu-me acanhada, toda torta.

—Corcunda?

—Não... não sei. Preciso da tua intervenção. Ella voltará quinta-feira á tarde; conversa tu com ella e decide tudo. Não quero tornar a vêl-a, mas desde já te digo que seja como fôr, direita ou torta, será preferivel a coisa nenhuma.

—Vaes crear uma situação embaraçosa e insustentavel. Já não estás em edade de fantasias.

—Fala para ahi. Que disse tua mãe?

—Contra a minha espectativa, aprova a tua resolução...

—Por força.

—Mas não acredita que se possa viver sob o mesmo tecto com uma creatura sem nunca lhe pôr a vista em cima.

—Com esta, coitadinha, parece-me que isso ha de ser facil. Confesso-te até que a sua fealdade me desconcertou. Eu desejaria uma governante bonita, ou pelo menos graciosa. A belleza suggestiona e dá a tudo que a rodeia um movimento de elegancia. Imagina, se ella effectivamente fôr aleijada. Será escarnecida pelos criados e furtará toda a originalidade á nossa situação!

—Preferes o perigo...

—Para pôr á prova a minha impassibilidade e dar-me ares de heroe—respondeu, rindo, Argemiro. Preciso exercitar a minha vontade e o meu sangue-frio.

—Tolices!

—Mas que queres que eu te diga, a ti que me conheces de cór e salteado?! Vens com uns ares exquisitos assustar-me com um futuro que não promette coisa nenhuma! Tu bem sabes que o verdadeiro motivo d'esta imposição está nisto: ser-me-ia penoso vêr agitar-se em torno de mim uma mulher, nesta casa, onde nenhuma outra entrou depois que morreu a minha. A minha viuvez é tão saudosa, tão viuva, que só vivo para sentil-a. Não digo senão a ti estas coisas, com medo de parecer ridiculo. Tu me comprehenderás: foste seu amigo, seu confessor, soubeste mais da sua alma do que eu mesmo, darás razão a este aferro. Amo minha mulher atravéz do tempo, com a mesma tenacidade dos primeiros dias. Ella preside á minha vida, soberanamente.

Expliquei á outra, que ahi veio, que só uma razão me obrigava a impôr-lhe esta clausula extravagante: não querer dar azo á maledicencia e aos commentarios dos criados... Como se isso me importasse!

—E ella?

—Acceitou.

—Emfim... acho que fazes mal. Mas isso é comtigo. Preferiria que te casasses, apezar...

—Ah, isso nunca! Minha mulher, sabes bem, pediu-me que não me tornasse a casar; fez-me jurar... far-lhe-ei a vontade. Tanto mais que nenhuma mulher me interessa, a não ser...

—A não ser...

—Para essa especie de amores que só tem um sabor—o da frivolidade. Eu não sou santo, mas sou fiel. Acredites ou não, a verdade é que não me deito nunca sem beijar o retrato de Maria, desde o dia da sua morte pendente á minha cabeceira. Tenho a sensação de que a alma d'ella não sae d'esta casa que tanto amava; como que a sinto a envolver-me todo... Lá fóra sou um viuvo como outro qualquer, não me abstenho nem da côrte á mulher de salão, nem do abraço á mulher do peccado; mas logo que entro em minha casa, parece-me sentir as mãos finas de Maria segurarem as minhas e a sua voz, que não esqueço, repetir-me aquella sua phrase ciumenta e que era como que o seu estribilho:—ama-me, a mim só! a mim só!

Houve uma pausa. Padre Assumpção observou:

—A nossa Maria não se parece com a mãe...

—Nada.

—Sahiu a ti.

—Talvez. Mas vamos jantar, que tenho de ir ao Lyrico.

Á mesa, logo ao sentar-se, Argemiro viu á direita do seu prato um rasgão na toalha, do tamanho de um nickel; mostrou-o com um gesto de enfado ao padre Assumpção.

—Naturalmente, uma dona de casa faz falta... observou este.

Jantaram sem alegria; á sobremesa o criado foi buscar a caixa dos charutos e Argemiro, levantando o talher de christofle mostrou ao padre que o garfo tinha signaes de fogo na extremidade dos dentes, e que as laminas das facas começavam a bailar nos cabos.

E tudo aquillo era novo!

Padre Assumpção sorriu:

—Agora reparas em tudo!

Feliciano trouxe os charutos e Argemiro reconheceu que o negro se sortira abundantemente com os seus havanas. Sempre o mesmo abuso! Olhando com attenção para o criado, viu que elle ostentava cynicamente uma das suas camisas bordadas; tambem não estava certo de lhe haver dado já aquella bonita gravata roixa de bolinhas pardas. Como o padre Assumpção era considerado de casa, Feliciano, mesmo á vista d'elle, apresentou ao amo as contas da semana.

—A ode do desperdicio!

Era um batalhão de cifras encarreiradas, pelo almasso abaixo, atropellando-se no seu exaggero que as fazia saltar aos olhos de Argemiro. Desde o fornecedor das fructas finas, até á serzideira da roupa branca, todos tomavam vulto através a multiplicação do negro.

—Vês, Assumpção? quasi um conto de réis numa quinzena, isto numa casa propria, onde ha adega e que a chacara do sogro enche de perús, ovos, leitões e hortaliça! No tempo de Maria passava-se melhor, havia mais gente e gastavase muito menos.

—Ainda tens um recurso...

—Qual?

—Uma pensão...

—Deus me livre! A casa de pensão é a valla commum da vida. Repugna-me! e voltando-se para o negro:

—Olha cá, explica-me: porque, pagando eu tanto dinheiro a uma costureira, ella deixa buracos como este numa toalha de mesa? Que especie de costureira é essa?

O Feliciano fazia-se de parvo quando lhe convinha.

—É uma especie de velha...

—Ah! uma especie abominavel! Despede-a.

Acabado o jantar, padre Assumpção sahiu para a sua caminhada até ao largo do Machado, como de costume, e Argemiro foi vestir-se para o espectaculo. Quando, já encasacado, enfiava o sobretudo, viu o Feliciano estender-lhe um papel, murmurando com a maior naturalidade:

—Mais uma conta que me esqueci de entregar; estava no fundo do bolso.

—O teu bolso não tem fundo, nunca se póde encher! Que conta é essa?

—Uma conta antiga, de um carro...

Argemiro estava de bom humor. Riu-se. E sahiu pensando:—acabou-se o teu reinado, ladrão!

O salão do Lyrico estava repleto.

O primeiro acto ia quasi no fim.

Agarrados um ao outro, o tenor e a soprano esguelavam-se em protestos de amor. O publico via aquillo com respeito e certa solemnidade. Argemiro levantou os olhos para o camarote da Pedrosa, que olhava exactamente para elle nesse momento. No primeiro intervallo subiu a apresentar a essa senhora os seus respeitos. Ella estendeu-lhe a mão enluvada, segurando-o com dominio, fazendo-o sentar-se ao pé de si. Pedrosa esquivou se para o corredor, em conversa com o Conselheiro Isaias e o dr. Sebrão.

O Pedrosa almejava a pasta da fazenda; andava na occasião ostentando pelos jornaes grandes artigos financeiros, coalhados de algarismos encarreirados como formigas por entre a seccura sábia da phraseologia. Ah! como esses artigos espantavam uns e espicaçavam a maledicencia de outros, que os attribuiam ao Benedicto Lemos, um bohemio intelligente como o diabo e bebedo como uma gambá.

Elle, o Pedrosa, adulava agora o Sebrão e o Conselheiro Isaias, ambos commensaes e amigos do Presidente da Republica.

Era um homem arguto.

A esposa, baixa, trefega, de um moreno pallido sob o qual se via arder uma alma ambiciosa, instigava-o a ir ao encontro das posições apparatosas da alta politica.

Vingava-se do Destino a ter feito mulher, conservando-se moça através dos quarenta annos. Não era bonita, mas a sua expressão de desafio, que agradava aos homens e irritava as mulheres, tornava-a talvez um tanto original. Gostava de impôr a sua auctoridade. Para o Argemiro era de tão carinhoso acolhimento, que elle trabalhava por penetrar-lhe as intenções.

Conversavam os dois, como se esperassem ambos uma palavra reveladora, quando entrou no camarote o Benjamim Ramalho, todo tezo no seu alto collarinho, com uma camelia branca na lapella e o cabello achatado sobre as orelhas pequenas e redondinhas. A Pedrosa mal disfarçou a sua contrariedade. Benjamim curvava-se deante d'ella numa reverencia. E depois de sentado:

—Magnifico este primeiro acto. Não gostou?

A Pedrosa respondeu quasi seccamente:

—Muito.

Benjamim olhou para o Argemiro, que poz o binoculo para o camarote da Vieirinha. A Pedrosa, percebendo o movimento do advogado, seguiu-lhe o exemplo. Benjamim ficou por um momento só, perplexo; hesitou, comprehendeu que chegára inopportunamente e acabou binoculando tambem a Vieirinha!

Depois de um curto silencio ouviu-se a voz da dona do camarote num commentario de enfado:

—Não é feia aquella senhora, mas veste-se muito mal...

Benjamim, confirmando:

—Realmente, não tem gosto... usa umas côres muito espantadas...

Argemiro sorriu por dentro. A pobre da Vieirinha tinha um peccado: ser casada com um ministro, cuja pasta apanhára no ar quando vinha atirada ás mãos do Pedrosa!

Argemiro, sem retirar o binoculo:

—Então, Benjamim, você gostou muito do primeiro acto?

—Absolutamente!

—Homem feliz...

—Porque?!

—Porque póde gostar absolutamente de alguma coisa... quando para toda a gente tudo no mundo tem restricções...

—Pois olhe, acudiu a Pedrosa sem poder disfarçar uma pontinha de inveja; pela sua insistencia em olhar para a Vieirinha, dir-se-ia que ella, ao menos para o senhor, não tem restricções.

A Pedrosa tinha geito para dizer as coisas mais duras como se as tivesse fervido em mel. Falou rindo. Benjamim riu-se tambem e o advogado respondeu com um suspiro:

—É que aquella senhora não permitte com facilidade que a gente a veja de perto...

—Sim?! Deve ser para que não lhe vejam os defeitos... ou talvez tivesse estado num convento. A proposito, minha filha deixa ámanhã definitivamente o collegio das Irmãs de Sião. Vou buscal-a a Petropolis. Estou velha, com uma filha já moça!... Sabbado quero apresental-a aos meus amigos. Ella tem grande predilecção pelo sr. dr. Argemiro!

Notou então o advogado que a Pedrosa o olhava com uma expressão differente, como se lhe visse na cara pela primeira vez qualquer coisa desconhecida...

Intrigava-o aquillo, mas não achou a explicação até ao fim da visita; Benjamim atrapalhava-o. Em que pensaria a Pedrosa?...

Ao sahir do camarote, sentiu-se agarrado no corredor pela mão do marido, que o reteve, apresentando-o ao conselheiro Isaias e ao dr. Sebrão, a quem alcunhou de Demosthenes brasileiro.

Argemiro ouvira já o collega, num dos seus mais famosos discursos no Senado.

O conselheiro Isaias approvou o cognome de Demosthenes dado ao Sebrão, lamentando que o Rio de Janeiro não tivesse, como a formosa Athenas, o gosto fino pela palavra, tão desbaratada aqui, e não considerasse a politica como uma das artes superiores... tambem elles conheciam o dr. Argemiro Cláudio e sabiam que elle escrevia actualmente um livro juridico de extraordinario interesse...

Pedrosa, ufano da amizade dos tres, resplandecia de orgulho.

Argemiro cumprimentou-o pelo seu artigo d'essa manhã. Bons argumentos; excellentes demonstrações!

Pedrosa esfregou as mãos: sim, elle era sincero e estudara a questão a fundo. Fôra impelido á publicidade por uma serie de circumstancias muito especiaes; do contrario nunca sahiria do seu retiro, onde queimava as pestanas a lêr os mestres e a estudar as mais graves questões financeiras do paiz...

O conselheiro Isaias affirmou:

—Ainda não pude lêr o seu artigo; mas o Presidente leu-o e ficou bem impressionado.

Pedrosa deu um saltinho involuntario:

—O Presidente leu o meu artigo? Gostou? Ah, mas naturalmente! Elle ha de forçosamente vêr que eu não aponto alli senão erros da administração passada e que lhe tem acarretado a elle enormes embaraços...

—Difficeis de vencer...

—Facilimos, senhor, facilimos!

—A verdade é que o Presidente não está bem rodeado e deixa-se influenciar pelos ministros, mais do que convém... objectou Sebrão.

—Isso! approvou Pedrosa, estendendo a mão em fórma de juramento.

Os outros olhavam para elle com certa admiração. Pedrosa continuou, um tanto confidencial:

—Eu é que não quero dizer a ultima palavra...

Nesse instante rompeu a musica e Argemiro achou mais interessante ir ouvir o segundo acto da Tosca, do que a ultima palavra do Pedrosa. Cumprimentou-os á pressa e caminhou para a escada.




III

O trem dos suburbios ia partir, quando Adolpho e Argemiro entraram na gare da Central. Adeante d'elles corria uma multidão pressurosa e atrapalhada, sobraçando embrulhos e arrastando crianças.

—A hora do jantar aqui é uma hora perigosa, Argemiro! E digam que o feijãozinho não tem prestigio!

Nesse instante sentiram-se empurrados. Eram umas senhoras que lhes tomavam a deanteira no assalto, muito nervosas, olhando para traz, a contar-se, com medo que não ficasse alguma extraviada.

—Isto é uma ignominia. Obriga tua sogra a vir cá para baixo.

—Imagina se não lhe tenho pedido! Cada vez que vou vêr minha filha é este horror! E perco um tempo!

Caldas rogou uma praga.

—Que foi isso?! olha se te mandam para o xadrez!...

—Aquelle sujeito ia-me arrebatando o pacote dos marrons de tua filha! Não lhe basta a carga. Gente amiga de embrulhos, a dos suburbios! Olha.

—Não tenho tempo. Entra.

Entraram ambos para um carro.

Cheirava a carvão de pedra e havia calor.

Argemiro continuou, depois de sentado:

—Minha sogra tem razão; ella vive como uma abbadessa de convento rico; tem um prestigio por toda aquella redondeza que nem calculas... Muito boa, muito esmoler, é o centro de uma população de pobres e de familias que, se não dependem d'ella materialmente, acostumaram-se á sua tutela moral e não a dispensam. Eu comprehendo-a e dou-lhe razão. Ha ainda outro motivo que a obriga a viver na chacara: é o empenho de ter a neta só para si. Minha mulher, não sei se já te disse, era filha unica e criada com um mimo raro; durante o tempo em que vivi casado tive occasião de conhecer a mãe mais extremosa que jámais vi. Para mim foi de uma bondade e de uma ternura encantadora. Amava-me porque via bem quanto eu fazia a filha feliz... A neta reproduz para ella a filha morta. Gloria foi para casa da avó, muito pequena; foi ella quem a criou, julga-se com todo o direito a guardal-a para sempre... E é para tel-a só para si, nos mesmos logares em que cresceu minha mulher, que teima em não sahir do seu canto...

—E comtigo não se conta?

—Considera-me muito, mas entende, e com razão, que não posso ter Gloria em minha companhia.

—E se te casares?

—Ella sabe bem que isso não acontecerá nunca. Minha sogra herdou o ciume da filha... Sabes que minha mulher me pediu que não me tornasse a casar...

—Todas as mulheres rogam aos maridos a mesma coisa, e afinal... todos os viuvos se casam! Mais depressa que os solteiros, nota.

—Sinto-me bem assim.

—Teu sogro aferra-se tambem por gosto a este sitio?

—Por gosto e por economia. Elle explica melhor a sua predilecção pelo campo, dizendo que, á sombra das suas mangueiras, se sente mais longe da republica...

—Ahi está! e eu nunca o ouvi falar em politica...

—Não é homem que discuta factos consummados. Depois, está velho e é amigo do repouso... Fez-se botanico, para entreter os ocios da chacara. Teve uma mocidade tempestuosa; a mulher não foi feliz; agora então, para compensal-a, dá-lhe toda a soberania e é um cordeiro. O bom velho fez esquecido o mau rapaz...

Argemiro reparou que ainda tinha nas mãos distrahidas um lequezinho de papel apanhado á entrada do vagão. Revirou-o entre os dedos: tinha uma vareta quebrada, unida ás outras por um fio de linha.

—Deve ser d'aquella moça que se remecheu ha bocado procurando qualquer coisa... Pensei que lhe tivessem roubado o relogio!

—Talvez faça falta...

Era d'ella. Argemiro ao entregar-lhe o leque notou lhe um movimento de alegria mal disfarçada. Voltou a sentar-se e Caldas instou:

—Influe teu sogro a vender as suas terras em Minas. O Barreto pediu-me para organizar uma colonia suissa, para a industria dos lacticinios... e convem-lhe adiccionar ás d'elle as terras do barão. Dão-lhe resultado?

—Filho, não sei. Meu sogro é um homem calado e eu fujo de mostrar interesse por questões de dinheiro. Mas onde diabo vaes tu arranjar suissos?!

—Á China, talvez... Que pergunta! Irei á Suissa, homem!

—Sempre arranjas uns negocios!

—Nunca os procuro. Elles entram por seus pés em minha casa; ahi, ou os recebo ou atiro-os pela porta fóra. Fica certo que negocios procurados não prestam. Não ha nada como um sujeito passar por homem rico, para enriquecer... O proprio individuo chega até a illudir-se e a ficar mais bonito... Conheces maior volupia que a do dinheiro, senhor absoluto do mundo todo? Só o que é bom e caro, dá prazer...

Argemiro sorriu, lembrando-se do lequezinho quebrado, e do gesto de contentamento que fizera a dona ao rehavêl-o. Pobrezinha...

Caldas, por ter confiança no amigo, entrou a falar-lhe baixo da sua cooperação nos relatorios do Vieirinha, ainda maior trabalho do que tivera com os relatorios do Theobaldo, quando ministro da fazenda...

—Dize-me cá, atalhou Argemiro. Em que disposição está o presidente a respeito do Pedrosa, sabes?

—O burro do Pedrosa vae ser ministro.

Argemiro riu-se; Caldas retomou o fio das suas confidencias interrompidas.

O trem corria de estação em estação, com os seus guinchos ensurdecedores. Uma criança chorava no collo da mãe afflicta; um grupo de rapazes amarellos e desdentados falava de eleições do Club Riachuelo, ao pé de uma senhora de cabellos grisalhos, bem vestida, e que viajava só.

Lá fóra a paizagem estendia-se larga, banhada de sol escaldante. Um véu fino de pó dourava a atmosphera. Laranjeiras pequenas, de grandes fructos dourados, alegravam aqui e acolá um ou outro ponto dos campos mal tratados, onde em gramados secos trilhas barrentas descreviam linhas tortuosas.

—Isto é desconsolador... observou Argemiro, apontando para a extensa pradaria, onde em vários trechos se agrupavam casinhas feias.

—E este trem poderia rolar entre pomares cheirosos. O Brasil é a terra da flôr exquisita e da fructa saborosa. De um lado e de outro d'estas estradas, se tivessemos camponezes e agricultores de bom gosto, veriamos, Argemiro, lindas orchideas suspensas na galharia de arvores fructiferas. Olha bem para aquillo! É precizo não ter absolutamente gosto nem instincto, para se fazer uma cerca assim, de paus tortos, aqui no paiz do bambú. Do lindissimo bambú! Ah! o Japonez! que povo feliz e aproveitador... Vou lembrar ao Barreto instalarmos aqui uma colonia de Japonezes, com a condição de fazerem elles mesmos as suas casas e trazerem muitas musmés bonitas...

—Condição essencial!

—E que tu com toda a tua viuvez aproveitarias melhor do que eu...

—Aprecio pouco o typo e detesto a raça...

Adeante, o grupo de rapazes augmentára com outros sujeitos, que, abandonando os seus logares, tinham vindo discutir a eleição do club. Um dos moços, no calor da discussão, sentára-se no braço do banco em que viajava a senhora de cabellos grisalhos. Ella encolheu-se, com ar constrangido. O rapaz gritava aos outros:

—Se eu não tivesse educação, não teria contido o impeto que tive de esbofetear o Andrade, alli mesmo no club!

Um outro advertiu-o de que elle estava incommodando a viajante; elle levantou-se com uma desculpa e foi nesse instante que o trem parou em Madureira.

Caldas e Argemiro encontraram na estação a victoria do barão, que os esperava.

—Lá em casa todos bons? perguntou Argemiro ao cocheiro.

—Todos bons.

—Nota esta exquisitice, Adolpho; só me lembra que minha filha póde estar doente, no momento em que me approximo d'ella. Assalta-me então o terror de a ir encontrar de cama...

A chacara do barão ficava a um kilometro da estação. O carrinho partiu ao galope de um cavallo ligeiro, e dez minutos depois transpunha o largo portão da chacara, seguindo até á porta da habitação, por uma extensa rua de mangueiras bellissimas.

—Como isto repousa a gente! exclamou Caldas, aspirando com força o aroma da flôr de fructa e pascendo o olhar pela frescura d'aquellas sombras.

—O Paraiso... murmurou Argemiro, esticando o pescoço, a vêr se via, ainda que de longe, a filha.

Antes que o carro chegasse á casa, Maria da Gloria atravessou aos gritos um grande relvado lateral da rua e irrompendo d'entre as mangueiras atirou-se para o carro alegremente:

—Papae! papae!

O cocheiro mal teve tempo de diminuir a marcha do animal e ella trepou para o estribo, enfiando no carro a cara afogueada e risonha. O pae segurou-a, puxando-a para dentro, sem coragem de ralhar com ella por aquella imprudencia. Tentou falar, ella cobriu-lhe as barbas e a bocca de beijos.

—Que exhuberancia! exclamou Caldas, rindo.

Chegavam á porta do velho palacete dos barões do Cerro Alegre.

No patamar da escada, o sogro de Argemiro, barbeado de fresco, com o seu corpo franzino dentro de brins bem alvejados e o boné de seda preta seguro na mão fina e nervosa, sorria á espera dos hospedes, a quem abraçou.

—Mamãe?

—Espera-os na sala do meio. Entrem.

Argemiro aprendera com a mulher a chamar a baroneza de mamãe; percebendo agora quanto aquelle titulo commovia o coração da velha, continuava a dispensal-o de bom grado. Era como se a alma da morta lhe passasse pelos labios todas as vezes que dizia essas duas syllabas amadas.

A baroneza era uma senhora gorda, alta, de lindos olhos negros e cabellos completamente brancos.

Tinha as faces flacidas, a carne do pescoço descahida, a boca larga, a testa curta e ainda roubada pela espessura das sobrancelhas escuras. Cosia sentada em uma cadeira de balanço, ao lado de uma mesa redonda, coberta de um panno escuro e onde floria em um vaso um ramo de crysantemos pallidos.

—Bemvindos sejais! exclamou ella com a sua voz forte, de contralto.

Argemiro beijou-lhe a mão e sentou-se a seu lado. Caldas entreteve-se a conversar como barão, que, pedida a vénia, cobrira com o boné de seda os seus cabellos brancos e encaracolados.

—Então, meu filho, como acha sua filha?

—Forte... muito alta!

—Cresce de dia para dia! Se não vivesse no campo, com esta liberdade, não sei que seria... Precisa ralhar com ella: está muito voluntariosa...

—Tem a quem sahir...

—A mãe era um cordeirinho...

—Mas a avó é energica. E eu...

—Você é um homem. Sua mulher puxava toda ao typo do pae; Gloriazinha sahiu mais a mim... olhe para aquellas sobrancelhas!...

—Parecem uns bigodes! retrucou Argemiro para fazer zangar a filha. E depois de a beijar nos olhos: E a respeito de estudos?

—Isso! falle-lhe nisso! É uma vadia de força... o avô não se cança de a chamar e de ensinar-lhe as lições. Mas santos de casa...

—Pois chamemos os de fóra. Vae buscar os teus livros, Gloria.

—Ora, papae... depois... eu...

—O que ella quer é andar como os cabritos, aos saltos e correrias... eu, emfim, consinto nisso, porque com aquelle crescimento não deve haver sujeição... Graças a Deus, ella tem uma saude de ferro.

—Por isso mesmo precisa ter outros modos... se a puzessemos em um collegio?

Pelos olhos da baroneza passou a sombra de um desgosto e ella disse:

—Se quizerem matal-a...

O barão protestou:

—Isso nunca. Collegios nem para rapazes. São logares de perdição. O que temos a fazer é interessal-a pelo estudo.

—Mas como?

—Ha de haver um meio... Ó Gloria, vae tocar a tua ultima lição, anda. A professora de musica não está descontente...

Gloria amuou.

—Eu não sei nada!

—Como não sabes?! Vae tocar!

—Não...

—Gloria!

—Não...

—Esta menina!

Argemiro olhava para a filha com desgosto. A baroneza interveio:

—Depois do jantar teremos tempo; ella está com vergonha... manda botar o jantar na mesa, Gloria; depois tocarás...

Gloria aproveitou o ensejo e correu para o interior, onde d'ahi a instantes soavam as suas gargalhadas fortes, muito barulhentas.

O pae informou-se, voltando-se para o sogro:

—Como vae ella na leitura?

O velho abanou a cabeça, sorrindo; mas a avó exclamou, dirigindo-se ao Caldas:

—Se ella quizesse! não imagina o talento que aquella menina tem! aprende tudo com uma facilidade espantosa, de relance!

—Mas o diabo é que ella não quer! asseverou o avô, rindo.

—Ora! não é tanto assim; o sr. Caldas é capaz de pensar que a nossa Gloria é uma analphabeta!

—Quasi.

—Ora, não digas isso! Ella lê... e escreve... e demonstra muito geito para a musica. Afinal, não se educa para doutora nem para professora. No meu tempo não se exigia tanto...

—Não é razão. A mulher hoje precisa ser instruida, solidamente instruida, mamãe, e eu quero, eu exijo que minha filha o seja.

—Está direito, mas sempre quero saber se o sacrificio do estudo tem compensações verdadeiras! Andar atrás de uma pobre creança o dia inteiro, fazendo-a conjugar verbos e compôr e recompôr orações grammaticaes, atirando-lhe para dentro da cabeça nomes de terras e complicações mathematicas; curvar-lhe a espinha em cima de mappas e linhas geometricas, cançar-lhe a vista antes de tempo, roubando-lhe a liberdade que dá saude, alegria e ousadia, olhem que não me parece obra de amôr nem de caridade! Eu, cá por mim, confesso: fujo da sala do estudo quando vejo meu marido chamar a neta para a lição...

—Eu imagino que elle ha de ser muito rispido... commentou Caldas, sorrindo. Argemiro pegou nas mãos da sogra e disse:

—Mamãe, talvez que a senhora tenha razão; mas a verdade é que a Gloria já chegou a uma edade em que não deve ser tratada como o animalzinho amimado que é. Precisamos preparal-a para o futuro, que é sempre incerto. Imagine que um dia, que infelizmente ha de vir, faltem á nossa Gloria os seus cuidados, os do avôsinho e os meus... que será d'ella, se fôr uma ignorante, ella que é tão impulsiva e... e tão geniosa; hein?

—Quando isso acontecer, para longe o agouro, sua filha estará casada!

—Estará ou não. E se fôr mal casada? Se o marido esbanjar toda a sua fortuna e a atirar depois ás ortigas?

Os olhos da baroneza encheram-se de lagrimas; o velho pigarreou, advertindo o genro que avançara demais no caminho das hypotheses; mas a baroneza reagiu, sorrindo:

—Gloria casará bem, com um homem que a ame e a respeite. Não faltava mais nada! minha neta mal casada! pobre... desprezada... precisando trabalhar para viver... que coisa horrivel!

—O que é horrivel, mamãe, não é trabalhar; é não saber trabalhar!

—Ora... a necessidade é o melhor mestre; se algum dia... oh! não! nem pensar nisso!... A minha Gloria nasceu para ser amada. Eu leio naquelles olhos esse destino... É um pouco brusca... é um tanto auctoritaria... ora adeus! os homens gostam d'isso.

Riram-se e o riso abafou um suspiro em que o Argemiro murmurou:

—Eu queria-a mais meiga...

—Vovó! o jantar está na mesa! gritou Gloriazinha do corredor, fallando com a bocca cheia.

—Já ella me foi ás nozes... não tenho remedio senão concordar que ella é um diabinho e que é assim que eu a amo!

Foi só á sobremesa que Argemiro declarou ter tomado uma governante para casa, e querer d'ahi em deante ter uma visita da filha todas as semanas. Era um sacrificio para elle, homem tão occupado, ir alli a miude. Assim dividiriam o trabalho.

A sua Gloriazinha iria jantar com elle todos os sabbados, que era o seu dia mais livre.

A sogra parecia aterrada.

—Uma governante!... quem a inculcou? perguntou ella, mal disfarçando a sua má impressão.

—Ninguem; respondeu o genro placidamente; arranjei-a por annuncio.

A baroneza pulou na cadeira.

—Por annuncio! metteu em sua casa, na casa da milha filha, uma mulher por annuncio! E quer confiar-lhe a sua filha durante as horas em que ella estiver na cidade? Oh! meu amigo, isto não parece seu!

—Que queria, mamãe, que eu fizesse! Quantas e quantas vezes lhe pedi que me ajudasse a arranjar uma preceptora para Maria e que fôsse ao mesmo tempo governante da minha casa, e a senhora não se quiz nunca dar a esse trabalho... afinal eu não lhe roubo a neta. Maria da Gloria irá só aos sabbados. É justo que eu tambem gose um pouco da companhia de minha filha. Voltará no proprio sabbado, ou no domingo pela manhã...

—Era só o que faltava... Gloria dormir fóra de casa, entregue a uma mulher sahida Deus sabe de onde! Uma mulher de annuncio! Uma... A baroneza conteve-se; e depois de uma pausa, em que bateu com o garfo na mesa:—é velha, ao menos, essa creatura?

—É moça...

—Hein!?

—Tem vinte e poucos annos.

—Não é possivel, Argemiro, ter essa mulher em casa!

—Porque?!

—Não é conveniente...

—Pois já lá está. Entrou esta manhã.

—Poderá sahir esta noite...

—Não. Eu já esperava esta tempestade, e pela millesima vez direi isto: Eu não podia dispensar em casa uma pessoa que soubesse dirigir os meus criados, coisa de que eu sou incapaz. Reparem bem para o Feliciano: veste-se no meu guarda-roupa, fuma os meus charutos, folhéa as minhas revistas e serve-se da minha carteira muito melhor do que eu! Os outros, por seu lado, roubam como pódem e trazem o serviço mal acabado, feito por favor... Além disso, eu quero ter minha filha á minha mesa, uma vez por semana, ao menos, e não podia deixal-a só, entregue a homens, e que homens! Concordem que não é exigir muito!

—Pois sim! Fizesse tudo isso, mas arranjasse governante respeitavel, mulher edosa e com bons certificados... Conheço o seu caracter, sei que não poria nunca minha neta em contacto com uma... Ahi tremeu o queixo á baroneza e ella concluiu suffocadamente: