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A Intrusa

Chapter 22: XVIII
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About This Book

O romance acompanha um pai viúvo, advogado, cuja casa vazia e o círculo de amigos influem nas decisões sobre o futuro da filha quando uma mulher estranha é introduzida em seu convívio. As cenas alternam entre momentos domésticos íntimos e reuniões sociais em que debates políticos, juízos morais e intentos de casamento se cruzam, revelando tensões entre dever, reputação e desejo pessoal. Por meio de conversas e de uma observação minuciosa dos costumes, a narrativa examina a ansiedade paternal, as expectativas sociais e os efeitos perturbadores de uma intrusa sobre rotinas estabelecidas, ao mesmo tempo em que acompanha a posição da filha entre proteção e autonomia.

—Acredita, meu velho, estás hoje com a fisionomia differente! Salvaste com certeza alguma alma do purgatorio...

—Talvez... mas talvez sejam tambem effeitos de um sonho que tive esta madrugada.

Imagina: eu estava sentado a um orgam de uma cathedral enorme, e de tão peregrina belleza, que nenhuma haverá assim sobre a terra... Por toda a vastidão do templo estendia-se uma luz pallida, de alvorecer ou de luar, desenhando nas naves os rendilhados das rosaceas e as figuras dos vitraes... Eu tocava musicas solemnes e de tão concentrado, tão profundo sentimento, que as lagrimas me cahiam dos olhos aos pares, quando acordei, e tenho andado todo o dia com a alma cheia de harmonias. Se eu fosse moço, teria corrido ao Instituto de Musica a vêr se tornaria um dia possivel tal ventura...

Por que hão de vir tão tarde semelhantes sonhos?!

—Para que se não realizem.

—É isso. Minha mãe, lembras-te? adorava a musica, e o piano poucos segredos teria para ella. Foi pena que não me tivesse transmittido essa prenda... A arte da musica é perfeitamente compativel com o sacerdócio e eu teria uma valvula para as minhas febres...

—Escreve...

—A palavra é indiscreta e arrastaria o meu temperamento, que eu trago fechado á chave...

—Nunca pensei que elle se submettesse a isso! És um forte, Assumpção!

—Nunca pensaste, porque?!

—Por que te conheço desde pequeno.

No collegio ou em casa, foste sempre um rebelde. Não posso esquecer-me do dia em que minha mulher, nesta mesma sala, alli, naquelle canto, me disse que tu ias tomar ordens.

—Effectivamente, foi ella a primeira pessoa a quem confiei essa resolução!

—Como eu protestasse, indignado contra a idéa (que sempre me foi muito desagradavel), ella observou: Tu te zangas! pois eu estimo... Elle será o meu confessor!—Tudo isso vae longe...

—Para mim não. Parece-me que tudo se passou hontem... No meu sonho, esta madrugada, reviveram essas commoções... As imagens da cathedral, todas de marmore branco, tinham, na opacidade da pedra, a expressão humana das creaturas que amei na minha adolescencia e na minha mocidade... As melodias gloriosas que eu derramava pela vastidão do templo eram formadas pelas vozes d'ellas, resuscitadas miraculosamente naquellas endeixas sacras... Não eram só vozes humanas que eu reconhecia nas sonoridades da minha musica, eram tambem outros sons que tenho sempre guardados no ouvido: o ranger da porta do seminario... o badalar do sino para a minha primeira missa... e o rugido das sedas de tua mulher no dia em que me foi fazer a sua primeira confissão... Nunca me esqueci... foi como um ruflar de azas... Pois a minha alma transportava essas impressões em largos canticos, vendo as imagens extaticas todas voltadas para a chuva do meu pranto e sentindo a minha alma encher o mundo! Um sonho de artista genial, e em que eu gosei as alegrias fecundas da creação. Não te parece que sejam os artistas os homens mais felizes da terra?

—Tenho convivido pouco com elles, e como não me basta imaginar... Quem sabe? Olha, toma vinho. Creio que não te basta o da missa...

—Pouco mais. Que é isso?!

—Nada...

Argemiro tivera um pequeno sobresalto involuntario, vendo a mão negra do Feliciano pegar na porcellana côr de leite do seu prato.

—Nunca te aconteceu, ao ter qualquer impressão, sentir mau ou bom gosto na boca?

—Nunca, respondeu o padre.

—Pois agora foi como se eu tivesse tomado uma colher de sumo de limão!

O olhar de Argemiro acompanhou o vulto do negro, que se dirigia para a copa. Assumpção argumentou:

—Está nas tuas mãos o remedio.

—Despedil-o?

—Pois então?

—Acabo por fazer isso mesmo. Realmente não ha nada como a ignorancia para certa gente. Meu sogro fez de um moleque humilde, um homem ruim... Se em vez de o mandar para a escola, com bolsa a tiracolo e sapatinhos de botões, o deixassem na modestia da cozinha ou da estrebaria, elle não teria agora nem a revolta da sua côr nem a da sua posição... O que o torna mau é a inveja e a sua ignorancia mal desbastada.

—Elle não é tão mau assim!

—Defende-o agora!

O Feliciano voltou com a sobremesa, um doce novo, desconhecido de ambos e que o copeiro não teve remedio senão confessar ter sido preparado por D. Alice, receoso de que ella o ouvisse por detrás das portas.

—Depois do café, ao entrarem os dois sózinhos para a bibliotheca, Argemiro notou:

—Foi o meu ultimo dia de bem-estar. Reparaste? nada faltou. É uma alegria, uma casa assim! E rara, eu sei, nas minhas condições, rarissima! Perfeita, a minha governante! se tem defeitos, nunca os deixa transparecer... nem é possivel que os tenha...

—Estás doido! Ella é uma mulher como muitas; sómente cuidadosa de não perder um emprego bem remunerado; mais nada.

—A esta accusas!

—Não. Esclareço-te. Jogaste uma cartada, foste feliz, dá-te por bem pago por estes largos mezes de tranquillidade. Suppondo que tua sogra se incompatibilise com a D. Alice, acharás depois outra governante nas mesmas condições. Esta é tão perfeita como será a outra, desde que tenhas com ella as mesmas exigencias que tiveste com esta...

—Pensas então que seja só movida pelo interesse pecuniario que ella tão bem se desempenha de tudo?

—Penso... que isso concorrerá!

—Pensas que só o interesse de agradar e de conservar um emprego mesquinho dicte as lições de moral e de desenho que ella dá a Gloria?!

—Concorrerá...

—És mau; ou não és sincero! Eu falo com imparcialidade, porque, como sabes, ella para mim não é uma mulher, mas uma alma. Não a vejo, não lhe toco, a sua imagem material é-me tão indifferente como um pedaço de pau ou uma pedra. Para mim basta-me a sua representação, neste aroma, peculiar d'ella e que erra subtilmente por toda a minha casa; nesta ordem, que me facilita a vida, e no gosto com que ella embelleza tudo em que toca e em que pousa a vista. É uma educada.

Afigura-se-me que ella deve ter estudado á sombra de castanheiros inglezes, entre campos de tulipas e de jacinthos, tão diversa ella me parece dever ser das outras mulheres. Não me digas que é feia. Já sei que o é; mas deixa-me com esta phantasia, que me sabe bem... Ahi vem o Adolpho. São os passos d'elle. É bom que venha cortar este idylio. Os idylios são como os sonhos: tambem ás vezes vêm tarde!... Foi um lindo sonho, o teu!

—Bom! elle já tem consciencia do perigo... pensou comsigo Assumpção.

Adolpho Caldas appareceu entre os humbraes da porta, com as largas faces rubicundas crestadas de sol. Fôra a Paquetá por causa de uma mulher. Não valera o sacrificio...

E o serão passaram-n-o a falar de amor, de politica e de negocios.


No outro dia, ás onze horas da manhã, um carro conduzia os barões e Gloria, da Central para as Laranjeiras. Estava um dia, como dizia Eça, arrepiado. Pequeninas nuvens cinzentas em fórma de escamas sobrepunham-se no azul do ceu. Nas ruas andava gente agazalhada. Um ventinho humido filtrava-se por entre as ramas empoeiradas do arvoredo das praças.

O barão sumia-se no assento do fundo, entre as dobras fartas da saia castanha da mulher, que uma expressão de firmeza e resolução animava. No assento da frente, Gloria, com um largo chapeu de fitas amarrotadas, observava tudo o que via de relance pelas calçadas. Commentavam a falta de Argemiro. Por que não teria vindo Argemiro á estação? Feliciano, esse viera, e lá ficara despachando malas e embrulhos para casa. Bem bom rapaz, o Feliciano.

A baroneza preparava o animo para conflictos! Bem suspeitava de que o genro não estaria contente, elle que tanto a estimava havia poucos mezes! Ia emfim ver o focinhosinho d'essa D. Alice, que se metia em tudo, estragando a felicidade da familia. Era o fermento mau; era a colher de veneno, a gota de azeite rançozo no leite doce e fresco! Como a receberia ella? Como uma creada grave?... como uma dona de casa? A baroneza preparava-se mentalmente: para tal caso, tal attitude...

O carro ia depressa, abalando o figado doente do barão, que se submettia a tudo contrariado, e fazendo tremer a papada flacida da baroneza.

A sombra das suas lindas mangueiras, o socego das suas salas amplas, abertas para o silencio dos campos ramificados por grossas veias de aguas fugitivas, o recorte azul das montanhas afastadas, que lhe era doce contemplar da sua varanda ao pôr do sol, affiguravam-se-lhe bens perdidos para sempre, como se não de bairro, mas para outro paiz estivesse de mudança!

—Arre! exclamou o barão, sem poder soffrear uma praga, a um arranco do carro que lhe abalou todas as visceras.

—Tem paciencia, meu velho! aconselhou a baroneza, voltando-se para elle, não menos abalada.

—O Feliciano escolheu o carro peor que encontrou! Decididamente...

Outro balanço cortou-lhe a phrase e o barão suspirou, lamentando de si para si a sua perdida liberdade da chacara, vigiando as suas plantas, os viveiros de passaros, os seus estudos de botanica, praticos, gostosamente feitos pelas orvalhadas madrugadas de Maio! Desacostumara-se de olhar para as paredes, odiava a cal.

—O mar! gritou Gloria com alegria.

O carro entrára no cáes da Lapa.

A baroneza demorou o olhar sobre a neta. Estava certa de que ella a atrapalharia... era um obstaculo á execução dos seus planos. Depois cerrou as palpebras, sem querer ver a rua por onde a sua Maria passára rigida, fechada á chave, entre galões d'ouro, caminho do Cajú...

Desde esse dia que não tornára áquelle bairro, em que a sua imaginação teimosa insistia em fazer de Maria o mesmo ser animado e doce que fôra em tempos perdidos. Fugira da realidade amarga para o sonho consolador, onde resistia ás solicitações da verdade...

Porque não afagar uma illusão, quando ella suavisa um soffrimento?

—Vovó está doente?!

—Não.... Vae-me custar...

—A culpa não é minha! observou o barão.

—Ninguem te accusa; descança.

—Que é que vae custar, vovó?

—Nada... filha...

Gloria voltara a olhar para a rua, rindo de umas coisas, admirando-se de outras.

Quando o carro parou á porta de Argemiro, a baroneza, dominando a dôr em que o seu coração se dissolvia, estendeu a mão ao genro, que descera á rua para ajudal-a a sahir da carruagem.

A baroneza atravessou o vestibulo com passo firme e vagoroso. Argemiro sentia no braço o peso da sua mão gorda alvejando entre as malhas negras da luva de retroz...

—Fez boa viagem? perguntou-lhe elle carinhosamente.

Mas era pedir muito, pedir-lhe que falasse. Ella não respondeu. Os seus olhos, de um azul turvo, interrogavam a porta do interior da casa, onde Maria vinha recebel-a outr'ora...

Penetrou na saleta com o mesmo silencio prudente. As lagrimas estavam-lhe na garganta. Gloria embarafustou pela casa, á procura de D. Alice. O barão sentou-se em frente da mulher e do genro, enxugando a calva humida, com movimentos nervosos.

Argemiro esperava...

Cançou-se. O constrangimento dos velhos fez-lhe pena. Começou:

—Esta casa é a mesma de ha oito annos, menos, muito menos alegre, mas egualmente sua. O que lhes peço é que se dirijam á governante, D. Alice, que tem plenos poderes para qualquer determinação, e com ella se entendam sobre tudo o que desejarem.

É uma moça distincta e a sua convivencia espero que lhes seja tão agradavel quanto a sua gerencia nesta casa me é util...

Estas ultimas palavras disse-as todo voltado para a sogra, que o ouvia sem pestanejar e muito séria. Elle continuou:

—Como sabem, esta senhora vive nesta casa sem que eu a conheça; e já agora manterei até ao fim esta situação, que parecerá exquisita a toda a gente, menos aos senhores... É um ponto sobre o qual não desejo insistir e por isso limito-me a pedir-lhes que a tenham na conta mais de uma amiga da familia, proveitosa principalmente á minha filha, do que de simples despenseira...

O barão espiava o effeito das palavras do genro no rosto da baroneza. Pallido, mais descahido sobre as pelles molles do pescoço, elle alongara-se, emmurchecido. As rugas faciaes, das narinas ao queixo, cavavam-se fundas, denegrindo a brancura enluarada da pelle. A boca fina esquecera a habitual expressão, arqueando-se muda sob o nariz pequenino e afilado. Só os seus olhos aguados, ensombrados por sobrancelhas inda negras, reflectiam contornos movediços de pensamentos dolorosos.

Argemiro articulava as palavras com propositada clareza; dizia ainda:

—A minha vida é passada na rua. Não esperem nunca por mim. As suas horas serão distribuidas aqui como eram lá em cima. O hospede sou eu.

O barão esboçou um protesto. A baroneza agradeceu, e a porta escancarou-se para dar passagem ao Feliciano sobraçando embrulhos. Atraz d'elle o carregador, as malas, a confusão!

Argemiro allegou necessidade de uma entrevista cuja hora se approximava, e fugiu.


Chegara a hora de vêr a outra, a tal D. Alice, que deveriam tratar como pessoa da familia!... Se valera a pena vir de tão longe para isso! Pessôa da familia... que heresia e que escarneo! A facilidade com que se dizem certas coisas! Como se uma creatura qualquer, pudesse entrar por uma familia a dentro, como por um hotel, sem cerimonia! Para que tinha vindo? para verificar um facto já conhecido?... não estariam ainda a tempo de voltar para traz, para a felicidade silenciosa das suas velhas mangueiras, e das suas aguas fugitivas?

Isso seria razoavel, se não houvesse a vingar a doce Maria, tão abandonada... Pobre filha, ter o seu lar, o seu logar, invadido por uma intrusa de má morte... O Rio de Janeiro era decididamente a capital da perdição. Quem lhe dera ter nascido e vivido numa villa inculta, sem outros rumores que os dos ribeiros, do vento ou do sino da ermidinha branca e socegada! Aquella saleta... sim... a mobilia era a mesma... mas tinha outra disposição... e haviam accrescentado alguns objectos novos... tapetes... quadros... idéas de mulher voluptuosa!

Argemiro, sempre que sahia, tocava a campainha electrica da porta de um modo especial, como um aviso á Alice para que ella pudesse circular á vontade por toda a casa.

Era a unica communicação que lhe fazia directamente, sem perceber que sentia certo contentamento ao executal-a. E a campainha tilintou na casa silenciosa.

Os velhos contemplavam-se interrogativamente, ainda na saleta, ambos tristes e constrangidos, quando Gloria entrou na sala pela mão da governante. O barão levantou-se, a baroneza olhou para a moça com dura frieza.

Ella alli estava em frente, nem submissa nem altiva, um pouco pallida, pela intuição talvez de vir ao encontro de inimigos.

—Vovó! É D. Alice!

Mas a avó de Gloria, reprehendendo o enthusiasmo da neta com um olhar, cumprimentou a moça de um modo quasi imperceptivel. O barão precipitou-se, para um aperto de mão e para apanhar a bolsinha e o lenço da mulher, pousados no sofá.

—Meu quarto está prompto? Perguntou a baroneza, como se falasse a uma criada.

—Está... sim, minha senhora... queira seguir-me...

—Não é preciso: eu sei o caminho; Gloria! vem tu commigo!

A baroneza abriu a porta do corredor e arrastando a neta sahiu, acompanhada pelo marido, que levava as mãos cheias de embrulhos, fingindo-se muito atrapalhado com elles.

Alice sorriu. Certamente a vida é ás vezes bem amarga e dura de ganhar!... Que deveria ella esperar?.. fosse o que fosse, esperaria até ao fim!




XVI

Padre Assumpção morava para os lados da Lapa, numa casa encravada no morro de Santa Thereza, velha e esguia como uma torre, com frente de dois andares para uma rua tranquilla e fundos rentes a um jardimzinho bem cultivado.

Entre o habitante e a habitação havia certas analogias de fórma e de caracter. Tinham ambos a silhueta fina e o aspecto melancolico e fatigado. E se as paredes grossas, da velha construcção, davam a idéa da firmeza que o vulto ossudo do padre suggeria, as rosas brancas entrelaçadas junto ao telhado, no jardim do morro, fariam lembrar a doçura dos seus sentimentos impregnados de idealidade...

As janellas de guilhotina, dos compartimentos superiores, viviam escancaradas para o azul da bahia, taes como os olhos do Assumpção para um sonho infinito...

Todo o edificio, da base ao cimo, parecia socegado; a loja era habitada por um casal de surdos-mudos, cujos gosos e soffrimentos não varavam paredes nem vãos; o primeiro andar pela mãe de Assumpção, e o andar superior, mais resumido, por elle só, que o enchia com os seus livros e as mobilias antigas do seu quarto.

A paz, se o silencio é paz, seria só apparente. O casal de mudos era pobre, e viviam ambos sob a canga do trabalho, cosendo botinas para as fabricas de calçado.

D. Sophia, a mãe de Assumpção, confessava desgostosa não ter criado o filho para Deus, mas para si. Aquella batina preta era o espantalho dá sua alegria. Para ella, o mysticismo do filho fôra uma fórma de doença a que não soubera dar remedio, e as maiores queixas voltava-as contra si propria, que o deixara afinal enveredar por aquelle caminho de sacrificio.

Ella educara-o para o mundo, para a familia, para o amor! Sonhara com outra filha, a mulher d'elle, que a ajudaria a amimal-o, e lhe daria meia duzia de netos fortes e bonitos! O sacerdocio reduzira a cinzas as suas esperanças luminosas. Tudo acabava, tudo morria nelle, que se abatera de repente, como uma vela rota no meio do temporal.

De que lhe servira ter-lhe insuflado o amor pela natureza, pela gloria, pela patria; ter-se sacrificado tanto para o tornar physica e moralmente um forte, se elle lhe escapara, por entre as mãos frageis, para o vacuo? Pobres mães, como os seus designios sahem errados! A quantos sacrificios ella se sujeitara, quando elle era pequeno, com o pensamento de que mais tarde ella teria de tudo a compensação, vendo o seu filho gosar a vida larga e amplamente!

E eil-o um concentrado... um padre! Fôra o collegio dos padres que lhe inspirara aquillo, ou alguma paixão? Elle nunca o dissera. E que importava a causa, se o effeito alli estava e irremediavel!

Amorosa e amiga de crianças, ella lamentara em moça não ter podido dar irmãos ao seu filho, que o alegrassem, arrastando-o em correrias; companheiros de infancia, confidentes amigos da mocidade! E era d'ahi tambem que lhe nascêra a visão d'aquelle futuro ruidoso, quando ella já velha visse a sua casa invadida pelo riso e a jovialidade dos netos!

E o filho, desegual no humor, ora timido, ora arrebatado, cresceu sob a suggestão d'esse sonho. O que lhe valia a ella era a amizade do Argemiro, que mais velho um anno que o amigo, lá o entretinha com as alegrias do seu temperamento robusto. Eram vizinhos, estudavam no mesmo collegio, amavam os mesmos poetas, completavam-se pelas suas semelhanças e dessemelhanças.

A amizade do Argemiro foi um allivio para D. Sophia. Bem percebia ella não bastar á felicidade do filho!

Os dois rapazes viviam como irmãos!

Passaram-se annos assim, até que um dia entraram ambos em casa, um radiante, outro constrangido. Que se passara? Não o soube nunca; mas por mal d'ella o constrangido era o filho, que entrou a empallidecer... a não dormir... emquanto o outro prosperava!

—Meu filho! que tens?

—Nada...

—Escondes-me alguma coisa!

—Nada...

—Quero-te alegre!

—Mas eu estou alegre... acredite que estou alegre e que sou feliz.

Era sempre o que elle affirmava.

—Elle mente-me! pensava a mãe amargurada. E a sua obra, a alegria, a ambição de glorias que, durante tantos annos se esforçara por implantar no filho, sumia-se, derrocava-se, sem que lhe fosse possivel, a ella, amparal-a para a reconstruir!

—Elle mente-me...

Ella queria-o franco, risonho, amigo da vida. Elle retrahia-se, tomava ares abstratos, entregava-se a leituras philosophicas e a estudos incompativeis com a sua edade. Ella não entendia bem d'aquillo, mas presentia um perigo, sem forças para o combater...

—Elle mente-me...

Era a sua amargura. O filho tornára-se de uma sensibilidade doentia; fugia da sociedade, evitava a propria mãe, que se encolhia chorosa, para o não aborrecer.

Aos vinte e tres annos vio-o morto com uma febre. E aos vinte e cinco—padre!

Não o quiz contrariar, não se podia oppôr. Elle lá teria uma razão, differente d'aquella que allegava e que ella espiára em vão!

Não fôra chamado por Deus ao sacerdocio, fôra levado por uma causa extranha, mas inabalavel.

Sonhar! de que vale o sonho que não fructifica, flôr que se esfolha e de que nem o aroma sequer permanece como suave consolação!

Ella sacrificára-se para tornar aquelle filho um vencedor, um homem! e eil-o mystico, retrahido, isolado do mundo para que o destinára!

Ella pedira-lhe uma nora, elle trouxera-lhe uma batina, e á sua indagação angustiosa:

—Meu filho, que tens?!

Respondia ainda:

—Nada. Eu estou contente... Eu sou feliz!

—Mente-me! Pensava ella comsigo, disfarçando as lagrimas.

O que lhe valia era a amizade de Argemiro. Esse sim, era um rapaz solido, pratico, como ella desejara o seu...

Ah, não se podia esquecer nunca! No dia em que Assumpção, pallido e tremulo, lhe confiara a resolução de ser padre, ella levantara para elle a mão, como no tempo de criança, em que se via forçada a corrigil-o... Elle estendera-lhe a face, como Christo; ella retrahira-se, desatando num pranto soluçado.

Negava o seu consentimento; não queria! O homem não nasce para o celibato, mas para a familia; a missão ensinada por Deus é a de creador! affirmava.

E toda afflicta:

—Mas, que determinou semelhante idéa, meu filho?

—A vocação...

—Não... não! Tens algum desgosto comtigo!

—Não tenho nada. Eu sou feliz...

—Elle mente-me! gemia sempre a mãe, por dentro, com os olhos extaticos no semblante impassivel do filho.

Elle tornava-se de pedra e era em vão que ella se debatia á espera de um milagre que nunca se realizou.

Teve que ceder, mas sem resignação.

O que lhe valia agora era a pobreza. Começou a repartir as suas migalhas com os vizinhos necessitados. Toda a sua actividade empregava-a a bem dos outros. Chamou para casa duas crianças orphãs e entretinha-se a ensinal-as e a vestil-as.

—Quando eu morrer, dizia ella ao padre, tu olharás por elles como se fossem teus filhos!

Forçava-o assim á paternidade; obrigando-o a amal-as, empurrando-as para os seus joelhos, contando-lhe as suas gracinhas, fazendo-o adorado por ellas.

Até já achava nas crianças traços da familia!

Assumpção deixava-se assaltar e abria os braços aos pequenos; mas a sua predilecção não estava alli. A proposito de tudo falava em Gloria. Era a sua preoccupação. Uma selvagem!

A mãe não tinha ciumes. Sorria. Se elle tivesse tres filhos amaria os tres, mas em verdade se preoccuparia mais com a menina! Os de casa eram rapazes, ambos de origem extrangeira, orphãos de italianos desconhecidos. Gloria, essa era uma continuação dos entes que mais se prendiam ao seu passado, do Argemiro e d'aquella suave Maria, que o estimara como irmã.

D. Sophia encontrara a salvação nos pequenos a que se dedicava. O seu espirito carecia do sonho. O filho cortara pela raiz todos os que floresciam nella até ao dia em que se fez padre...

Com o correr dos tempos, fôra-se habituando á batina do filho, mas continuava a frequentar pouco a egreja, certa de que Deus a ouviria egualmente do seu humilde canto.

Assumpção mudara tambem; perdera a taciturnidade, interessava-se pouco a pouco pela vida.

Mas a salvação de D. Sophia eram os pequerruchos, muito clarinhos e loiros, taes quaes ella sonhara os netos. Um começava a falar, o outro já dizia tudo numa meia lingua que era uma musica deliciosa. Ella, que tinha o espirito creador e era, sobre todas as coisas, amiga da humanidade, toda se desvelava em aperfeiçoar aquelles dois seres, cahidos como mercê divina nos seus braços saudosos.

Já decretara: um seria medico, o outro seria engenheiro; e ambos produziriam obras beneficas e se casariam com bondosas mulheres!

Assumpção sorria, animando a phantasia da sua querida velha. A experiencia de nada serve aos teimosos: e ella era uma obstinada.

Não fôra elle acalentado com as mesmas esperanças enganosas, certezas que ficaram em esboço nos dias da mocidade?

Ás vezes ainda, interrompendo o silencio do serão, D. Sophia suspirava:

—Quando me lembro, meu filho...

—Não se lembre; apague da lembrança o que lhe não fôr agradavel! Assim, sou mais seu...

—És de Deus. Eu sou humana e amo a humanidade acima de tudo o mais! Não sei a que fonte foste buscar esse mysticismo, que te isolou do mundo para que te criei. A tua profissão obriga-me a respeitar-te, a temer-te quasi... ha occasiões em que deixo de ver em ti o meu filho, sujeito á minha auctoridade, para só considerar o sacerdote, o julgador que me ha de punir ou absolver...

Ás vezes, tambem, era elle que falava, consolando-a:

—A sua vida conjugal foi curta. Meu pae não lhe deixou senão a impressão da felicidade estonteadora. Periodos longos de casamento desvanecem quasi sempre encantos que julgariamos eternos. Assim, vivo para um ideal que não me póde trazer desillusões... Depois, acredite: se eu não fosse padre, seria egualmente celibatario...

A voz d'elle era morna, abafada por um desgosto calado, amigo do segredo.

A mãe fingia acreditar naquella inspiração do ceu, descida a contentar a alma silenciosa do filho. O facto estava consummado, toda a reacção seria loucura; procurava resignar-se. Em vão. A egreja era a sua rival, tirara-lhe o filho dos braços, impuzera-lhe o sacrificio por norma e a solidão por dever!

Ainda se elle tivesse um organismo de combatente, de luctador! Se o visse no parlamento... se o lesse nos livros... mas Assumpção talhara-se na fórma rustica e accommodada do capellão de aldeia, alma simples em corpo simples, servo humilde dos homens e de Deus!

Por fortuna, elle era muito tolerante; parecia-lhe a ella, ás vezes, que elle se vestira de batina por commodidade egoista, como um meio de fugir ás assiduidades dos outros homens e á solicitação das mulheres... Era um meio de viver no mundo fóra do mundo, conforme as exigencias da sua neurasthenia...

Passado um longo periodo de abatimento e de taciturnidade, Assumpção readquiria a calma de outros dias, e foi então que principiou a interessar-se pelas leituras portuguezas, a enriquecer a sua modesta bibliotheca de livros classicos e a jardinar no terreno do morro, para onde abria a porta do seu quarto.

Argemiro enviuvara, e era á influencia da sua companhia, muito mais assidua, que D. Sophia attribuia esse milagre.

Agora elle revelava uma preoccupação: Gloria! A menina era o seu cuidado melhor. Lamentava-se de a ver muito solta, creada sem disciplina, como uma selvagemzinha! A avó era uma santa, dizia elle, mas incompetente para a dirigir.

Depois, a invocação constante que ella fazia da filha morta, chegara a criar em todos de casa como que a illusão de que de facto ella existia, invisivel, vigiando com saudade a sua orphã...

D. Sophia commentava:

—É uma especie de loucura, a que algumas mulheres são sujeitas; mas não me consta que nenhuma a tivesse levado a esse grau! Os filhos unicos acarretam grandes desequilibrios aos paes. É mais uma razão para te interessares pela pobre menina. Realmente, os mortos vão depressa... quando não deixam as mães no mundo! Faze por esclarecer a baroneza. Que se resigne á idéa de que, da linda Maria só existem os ossos...

—Tal affirmação não ficaria bem na minha bocca...

—Não estará na tua consciencia?

Sorris?! pois então, filho, alimenta a fogueira em que a pobre senhora se consome. Levas-lhe! achas e phosphoros, não te espantes de a veres arder! Se a alma existe, a de Maria trocaria o ceu para estar ao pé da filha... Era extremosa!

E nesse caso a baroneza tem razão...

Assumpção jardinava. De joelhos na terra, podava uma—Principe negro—quando a mãe subiu acompanhada de visitas: Alice e Gloria.

—É quando eu gosto de o ver de joelhos!—exclamou rindo D. Sophia, apontando para o filho, que levantou os olhos surprendido.

—Aqui!

—Viemos visitar D. Sophia!—exclamou Gloria. O senhor não merece!... Ha dois dias que não vae lá! Vovó está zangada! De mais a mais, papae foi para S. Paulo!

—Han?!

—Foi, sim. No mesmo dia em que viemos da chacara elle foi chamado por um telegramma! Não sabia?

—Não!

Houve uma troca de olhares involuntaria entre Alice e Assumpção. Que! pois ella desconfiaria?!...

A moça voltara-se para o terracinho, olhando agora para o mar, muito azul.

Assumpção pedia desculpas, tinha as mãos sujas de terra. Correu a laval-as, emquanto D. Sophia mandava vir cadeiras para o jardim.

—Isto sempre é mais bonito que lá dentro. Casa de uma velha e de um padre não tem alegria. Sentem-se aqui, olhando para o mar... assim. A vista é bonitinha, hein? Com que então, Sr.a D. Maria da Gloria, está muito adeantada?

—Qual!

—Não?! pois é pena: está ficando uma moça! E voltando-se para Alice:

—Como esta menina cresce! Acho-lhe uma differença!! É o pae!

—Sim... parece-se, confirmou Alice.

Gloria não se sujeitou á cadeira, levantou-se para revistar os canteiros e uns caixotinhos que via pregados ao muro. As duas senhoras conversavam e tão entretidas pareciam uma com a outra, que Assumpção ao voltar do lavatorio, preferiu ir avisar Gloria de que não mexesse nos caixotinhos, que eram casas de abelhas e iria perturbal-as.

—Eu já tinha pensado nisso, respondeu a menina. Ainda hontem D. Alice me explicou, no jardim lá de casa, a vida d'esses bichinhos. Tudo no mundo tem interesse, não é verdade? Eu tinha raiva das abelhas desde aquelle dia, lembra-se, em que fui picada no pescoço por uma d'este tamanho! Tive uma dôr! Pois agora já até quero bem ás abelhas... O caso é haver quem nos explique as coisas!

—Que te explicou D. Alice a respeito?

—Que as abelhas frequentam as flôres para chupar-lhes o mel, transportando o pollen de umas para as outras e...

—E explicou-te tambem o que era pollen?

—Certamente! com uma flôr na mão. Uma açucena!

—Conta tudo!

—Numa lição só não se póde aprender muito! Assim mesmo eu percebo bem D. Alice, exactamente porque ella não ensina,—conversa. Falou das abelhas... falou das mariposas, disse historias que eu não sabia e de que gostei... Prometteu levar-me á Tijuca para vêr borboletas azues muito grandes, que ha lá... Mas vovó... creio que não me deixará ir só com ella... Se o senhor fosse!

—Irei.

Gloria bateu as palmas com alegria, mas de repente tornou-se séria, olhando para uma roseira completamente coberta de flôres.

—Queres um ramo?

—Não. A ultima vez que fomos ao cemiterio encontrámos uma porção d'aquellas rosas no tumulo da mamãe... Foi o senhor! E vovó pensou que tivesse sido papae!...

—Foi teu pae... levou-as d'aqui,... mas não lhe digas nada, que elle não gosta que se fale nisso! Olha para o mar!

—O seu jardim é muito pequenino!

—Basta para mim... olha este rainunculo...

Emquanto Assumpção fazia Gloria vêr as suas flôres, D. Sophia conversava com Alice. Mandara subir os pequenitos. A moça puzera um nos joelhos e annelava os cabellos do outro carinhosamente.

Que se dizia? Menos do que se adivinhava. A sympathia nascera logo entre ambas. Assumpção pousou por um instante os olhos nellas e desviou-os para além, para o infinito... Tinha sido aquelle o sonho da mãe: uma mulher moça a seu lado, cercada de crianças lindas...

A tarde morria afogada em azul. Já no ceu brilhava a meia lua, e uma neblina prateada vinha da barra, cobrindo o mar.

—É tarde, Gloria...

—Adeus!

Nessa noite, ao chá, D. Sophia disse ao filho:

—Aconselha Argemiro a casar-se com aquella moça. Ella fará a sua felicidade.

E depois, baixo e num suspiro:

—Já que não póde fazer a tua.




XVII

A praia de Botafogo regorgitava: era dia de regatas. Por todo o cáes o povo apinhado olhava para o mar, coalhado de barcas, palpitante de luz. Nas archibancadas, á beira d'agua, as toilettes claras das moças despertavam a idéa de grandes flôres variegadas, desabrochadas ao sol, e, na rua, carros e bonds arrastavam-se cheios, vagarosos, por entre a multidão. Mas a belleza era o mar, cuja superficie apenas enrugada e de um azul violento, toda se paletava de escaminhas de ouro. Andavam pelo terceiro pareo. Baleeiras velozes, bem remadas, demandavam as balisas na ancia da victoria; outras, em repouso, deixavam-se balouçar pela agua, mollemente, emquanto lá no alto as gaivotas espalmavam as azas, tranquillamente.

—Bellos rapazes! observou Adolpho Caldas, olhando com enthusiasmo para a tripulação das baleeiras.

Arlindo Telles accenou com a cabeça que sim, e chupou com mais força e maior satisfação o seu havana.

Caldas continuava a meia voz:

—Contempla áquelles biceps e córa! Homem da cidade, da manhosa politica e das sobrecasacas bem feitas, não te envergonhas dos teus braços deante d'áquelles?...

—Se eu discutisse a murros...

—Quanto mais vigoroso é o braço, mais franca é a lingua!... Digo-te por mim, que as minhas banhas sentem-se humilhadas, offendidas, por áquelles musculos. A nossa raça salva-se. Ainda bem para os paes de familia... Vê o modo energico e bem rythmado por que os remos d'esta baleeira vêm golpeando a agua...

Telles soprou a baforada do seu charuto aromatico, e respondeu:

—Prefiro olhar para o pavilhão e as archibancadas... Se os rapazes são fortes, as mulheres são bonitas, e eu guardo para ellas, em todos os tempos e logares, a minha predilecção. Hum! isto hoje está chic... Se as galerias da Camara tivessem esta sociedade... eu falaria todos os dias!...

—Vês que as mulheres dão mais apreço ao musculo que ao verbo... Empresta-me o binoculo. Dança-se nas barcas...

—D. Maria Helena está no pavilhão... tambem lá estão as Tavares... a Chiquita Maia... A Pedrosa e a filha. Precisamos cumprimental-as.

—Depois... Deixa-me beber saude pelos olhos. Faze outro tanto, que precisamos ambos de lavar a alma...

—Chegou agora a Joanninha Mendes...

—E ella? indagou Adolpho sem desassestar o binoculo da barca, onde se dançava.

—Ainda a não vi... mas ha de vir!

—Lá passam os vermelhos a deanteira!

—Não... por emquanto ainda são os azues...

—Os demonios têm força... Agora!

—Bravo!

—Viva!

—Bravo! gritaram muitas vozes a um tempo, numa explosão de enthusiasmo. Ao lado d'elles um moço gordo berrava, agitando o chapeu. Telles sacudiu a cinza do charuto da lapella da sua sobrecasaca avelã, onde sorria a graça de uma orchidea lilaz, e voltou-se todo para o pavilhão.

Sinhá debruçava-se no pavilhão do jury, com as faces afogueadas e o olhar chamejante. A seu lado, a mãe lambiscava bonbons e as Moreiras, do Cattete, sacudiam os lenços com frenesi:

—É o Boqueirão!

—É o Flamengo!

—Não...

—É!

—Bravo!

—Bravo!

Os nomes dos clubs andavam no ar, como as gaivotas. Afinal, um d'elles ganhou o pareo. Rompeu a musica e a baleeira victoriosa veio receber as saudações, que rebentavam em palmas por todo o cáes, como uma onda. Ao passar pelo pavilhão, Sinhá, toda debruçada, vermelha como uma rosa, atirou-lhe o seu ramo de violetas. Aparou-o no ar um rapaz loiro, batido de sol, de rija musculatura e olhos brilhantes. Trocaram um sorriso luminoso.

—A mocidade!... a mocidade! É isto... um aroma que atravessa o espaço... um relampago que illumina a vida, para deixar saudades... Este sim! commentava Caldas comsigo, lembrando-se do Argemiro; e concluiu: Agora a Sinhá escolheu bem... isto é, não escolheu, achou. Aquillo é amor! E dirigindo-se ao Telles:—Vamos agora cumprimentar as senhoras, com escala pelo «buffet». Estou com sede.

O deputado acariciava o queixo nú com a mão gorducha, em que rutilava um rubi. Seus olhos vivos, de pestanas curtas, furavam por entre cabeças e hombros, á busca de alguem.

Á roda commentavam o pareo. Havia descontentes; moças indignadas, outras quasi chorosas, rapazes amuados. Tinham perdido. Mas outros e outras gesticulavam com alegria por aquelle triumpho, que dava mais uma medalha ao club da sua sympathia.

Falava-se alto nas archibancadas. Os sons da banda de marinheiros no Toureiro da Carmen, não permittiam segredos.

Em toda a linha do cáes os guarda-sóes de côres differentes, lembravam uma vegetação movediça de cogumelos fantasticos, desde os pequeninos, das crianças que assistiam á festa sentadas no paredão, com o olhar estúpido para o quadro polichromo, até aos grandes, protectores de velhos prudentes e amigos da sombra.

Corria uma aragem forte. Agitavam-se no ar os galhardetes vistosos e as bambinellas do pavilhão central, como a acenar a toda gente que fosse para alli, gosar aquelle quadro de luz!

O deputado impacientava-se. Adolpho parecia grudado ao «buffet», comendo sandwiches e bebericando cerveja, no meio de um grupo de remadores muito adulados pela admiração dos outros. Trocavam-se brindes apressados; e na alegria, até um velhote pallido e encartolado trauteava a Carmen, acompanhando as sonoridades da banda.

O intervallo acabava-se. Ouviu-se o estampido do signal de partida.

Voltaram-se para o mar.

—Lá vem ella! Exclamou Telles a meia voz, sobresaltado.

—Um ibisco! observou Adolpho, olhando para uma lancha que se approximava do cáes.

O ibisco era a madame Senra, toda de escarlate, com os bandós doirados rebrilhando sob as papoilas do chapeu. Ella agitava a sombrinha vermelha, rindo-se para o Telles, que se precipitou alvoroçado e inconveniente para a receber no desembarque, sem attenção aos bigodes retorcidos do Senra e á escolta de moças que a acompanhavam.

Caldas imaginou:

«O patife do Telles vae passar uma hora feliz, uma hora ligeira, d'essas que suspendem a vida! Porque será que as mulheres bonitas dão geralmente preferencia aos banaes? Esta é linda. Uma flôr!... Sempre que a vejo sinto os meus pensamentos transformarem-se em abelhas... ella mesma deve sentir-se como que nimbada por um adejo de azas... volupia dos olhos, tentados pela sua graça... Não se me dava!... Que lhe dirá o idiota do Telles? Sua Excellencia alcançará alli o que não alcança na Camara: chegar ao fim?... Pois é bem boa esta cerveja, e vou tomar mais um copo... Talvez chegue... sim... ella não é rigida... uma flôr»!

A Pedrosa vira-o agora. Cumprimentava-o de longe. Que maçada! era preciso ir dizer adeuzinho á Pedrosa!

«O amor faz falta, continuava a meditar Adolpho; desinteressa a gente de tudo... É um abandono, uma estupidez!»

Acotevelando o povo, elle sahiu do «buffet» e entrou no pavilhão central, ao mesmo tempo que uma cesta de flôres e uma bandeija de bonbons.

—Entrei num momento sympathico... concluiu elle para si. E foi cumprimentar as senhoras. Lá fóra renovava-se a scena:

—Bravo!

—Viva Icarahy!

—Viva... Vasco da Gama!

—Viva... a!

Voavam as flamulas e os galhardetes; outra baleeira veio passear o seu triumpho, beirando o cáes, onde a multidão estrondeava em palmas.

Na lindeza do ceu, de um azul carregado e limpido, resaltavam as côres maravilhosamente. Os perfis dos morros, rochosos uns, verdejantes outros, destacavam-se em todas as suas linhas, com surprehendentes minucias. Nas archibancadas as linhas das mulheres eram como orlas de flôres de matiz viçoso que as ondas tivessem deposto na terra maravilhada.

—O sport é a alma do Rio, affirmava a Pedrosa a uma amiga, no momento da approximação de Adolpho. Veja que enthusiasmo!

Decididamente, elle veio substituir os bailes... hoje dança-se pouco.

O remo e o foot-ball roubam os pares ás moças... não é verdade, dr. Caldas?

—Protestando contra o titulo, confirmo, como não podia deixar de confirmar...

—Protesta por modestia?...

—Por consciencia...

—Outros o usam com menos justiça... eu teimarei em chamal-o doutor... Porque não nos tem apparecido?

Elle desculpou-se, e, como se tivessem aconchegado mais as pessoas do grupo, deixou-se ficar, envolvido nos perfumes dos vestidos bonitos que o cercavam. Sinhá, sempre voltada para o mar, não perdia de vista uma baleeira onde um rapaz loiro se condecorára com um ramo de violetas... A mãe fallava, fallava sempre, semeando sentenças, no seu palavreado animado e imperativo.

O marido não a acompanhara. Lá tinha tempo para se divertir!

Os altos negocios do Estado suffocavam-n'o; vivia numa rêde de conferencias, projectos e estudos de responsabilidade. Se todos tivessem a sua sinceridade!

—Faziam-lhe justiça... observaram.

—Qual! os sacrificios eram de tal ordem, que não transpareciam completamente cá fóra... Um verdadeiro escravo das suas idéas, o marido! A politica é despotica... o que lhe valia era não ter ciumes... De resto, concluia ella, para dizer algo em ar de sentença: no amor, quando o ciume entra pela porta, a confiança salta pela janella! Em todo o sentido,—e sublinhava com o olhar a phrase—nunca deixára de confiar no marido.

Cultivava a illusão, se é que era illusão, como quem cultiva uma plantinha rara, de flôres miraculosas. E assegurava:—Está nisso o segredo da felicidade feminina!

As moças nem a ouviam, inclinadas sobre os peitoris, á espera!

Era agora o pareo do Campeonato. Crescia o enthusiasmo. Quem ganharia a taça de ouro?

Soou o tiro, signal da partida.

Arfavam as bambinellas de renda do pavilhão e as tiras garrulas das bandeirolas ao sopro salitrado da aragem. Um rosario de marrequinhas desfiou-se no ar com o susto. Nas archibancadas os leques e as fitas multicores agitavam-se numa palpitação violenta.

—Acceita este raminho de violetas, Sinhá? Disse Caldas com malicia.

O seu cahiu ao mar...

—Acceito, com a condição de poder dar a este o mesmo destino que dei ao outro...

Para tomar as flôres da mão de Adolpho, Sinhá voltou-se e relanceou depois o olhar em torno do pavilhão.

—Olhe quem está alli!... disse ella á mãe, baixinho, apontando com os olhos um certo ponto do cáes.

A mãe seguiu-lhe a direcção e tambem Adolpho, que lhe não perdera os movimentos.

Padre Assumpção estava de pé, e unida á sua murcha batina preta, Gloria esticava o pescoço para vêr bem o mar.

A Pedrosa trocou um olhar com a filha e voltou as costas ao padre. Sinhá demorou-se um pouco a contemplar com sympathia o perfil incorrecto de Gloria e o seu vestidinho de fustão branco sem laços. Depois, voltou-se para a bahia: calara-se a musica, e as baleeiras cortavam a agua céleres, vigiadas pelas barcas e por escaleres admiravelmente tripulados.

«A mãe não se esqueceu... mas a filha é já indifferente ao Argemiro... Amores novos...»

E já as lanchas guinchavam atordoadoramente, quando Adolpho metteu os hombros por entre a multidão.




XVIII

A pouco e pouco, autorizada pela ausencia do genro, a baroneza tomara posse da casa.

O marido intervinha ás vezes, aconselhando que deixasse á outra todas as determinações, ao que ella respondia—se valêra a pena ter sahido da chacara para se pôr á tutela da inimiga!

—Não, meu velho, tem paciencia, eu estou de sentinella á ultima vontade de minha filha. Elle jurou: terá de cumprir o juramento. Esta mulher é mais perigosa do que eu pensei, porque é tambem hypocrita e sabe conquistar pelo geito toda a gente. Menos a mim! Gloria pertence-lhe. Já me tem feito chorar, a filha da minha filha, por quem tanto me desvelei sempre! Até parece que já lhe vou perdendo o amor...

Não percebes o calculo?

—Não percebo nada. A rapariga trata como pode de ganhar a sua vida. O que tu fazes, filha, não é digno de ti. Inventaste uma paixão, onde talvez não exista nem sympathia, e vives a debater-te deante de fantasmas. A moça é fina; não é do estofo commum das governantes, isso é certo... Mas sabes lá, tu que tens vivido sem necessidades, a que sacrificios obriga a pobreza?

—Não faltam officios!

—Mas sobejam concorrentes... Eu sei o que vae por ahi! Olha: vou apontar-te um exemplo: o Dr. Theobaldo Ribas. Lembras-te? Um engenheiro distinto! Está com um emprego secundario numa companhia de empreitadas; a familia habita numa casinhola de porta e janella na Cidade Nova e póde-se adivinhar o que se passa lá dentro, entre oito crianças fracas e o casal sem recursos... Eu, francamente, não sei mesmo como esta pobre moça ainda te atura. Pelas desfeitas que lhe tens feito, se fosse outra...

—Ter-se-ia ido embora. É o que eu digo. Não tem brio. Mas o meu partido está tomado: custe o que custar e seja como fôr, hei de pol-a fóra d'aqui.

—Não faças isso!

—Ora essa! por que não?

—Não estás em tua casa!

—Estou na casa de minha filha.

—Para o que te deu! Tua filha só existe na tua imaginação. Capacita-te d'isso, pelo amor de Deus! É um caso de obstinação incomprehensivel, em ti, que foste sempre tão criteriosa. Acalma-te... e voltemos para a nossa chacara. Eu estou farto de cidade até aqui! E apontava para a calva.

—Voltaremos... deixa estar... eu tambem já não posso mais... A minha vida é um inferno... Todos esquecem, todos gosam, só eu vivo acorrentada ao passado, e revendo a todos os instantes a scena horrivel da morte de Maria! Está aqui tudo, tudo, estampado em meus olhos, enterrado no meu peito. A minha vida parou naquella hora! Não vejo, não ouço, não sei de mais nada. Os annos e os mezes têm corrido para mim ignorados. A minha existencia é a existencia da minha filha. O coração d'ella ficou dentro do meu. É o que eu sinto! Hei de defendel-o até ao ultimo extremo! Ás vezes, tambem eu acredito na loucura... Ao principio, emquanto Gloria era só minha, sentia até certa suavidade em conviver assim com a minha morta... Nota que já não digo: a nossa! mas agora, agora que a inimiga, a intrusa, me rouba tambem o amor da minha neta, sinto dentro de mim um clamor de choro que não posso suffocar, por mais que me esforce! Sou uma abandonada.

—Gloria adora-te, como sempre...

—Foge-me... esquiva-se... acha a minha companhia monotona... A outra conta-lhe historias, mostra-lhe gravuras, saracoteia-se com ella pelas ruas, até já a surprendi pulando na corda com a menina, como se fossem duas collegas, da mesma edade! As crianças gostam de alegria. É natural que a minha Gloria a prefira a mim! Tenho ciumes d'ella, sim, tenho muitos ciumes... E inda queres que a poupe e que me deixe roubar sem um protesto. Nunca!

—Consulta um medico... a tua excitação é doentia...

—Já me tardava! Um medico, e agua de flôr de laranjeira! A outra tambem te conquistou, a ti. Se te mandar dançar sobre a sepultura de Maria... tu dançarás?

—Talvez!

—Ainda o confessas!

—Mas, filha, que queres que eu faça?! Tenho pena de ti, mas não te posso dar razão. Quizeste vir, vim. Consumme-se o sacrificio. Faze o que entenderes, comtanto que voltemos depressa para a chacara. Consente, porém, que eu lamente a outra, como tu lhe chamas, e que a ache digna de maiores considerações. Agora deixa-me prevenir-te de que o Argemiro se cançou do desterro e volta ámanhã.

—Escreveu-te?

—Telegraphou a D. Alice, pedindo-lhe que mandasse o Feliciano esperal-o á Central.

—Ora, vê tu! telegraphou á outra, em vez de o fazer a ti, como era natural. Queres mais claro?!

—Eu sou hospede. É ella quem põe e dispõe aqui.

—É a dona da casa!

—Tal qual.

—E achas isso toleravel?

—Perfeitamente. É paga para isso.

—Elle deve chegar?...

—Ámanhã, ás oito da manhã.

—São?...

—Tres horas da tarde.

—Tão pouco tempo!

—Achas pouco?! repara que ha um mez e dois dias que elle partiu; e para quem conhece os hábitos do Argemiro, faz espantar tamanha demora...

—Fugiu de nós...

—Já pensei nisso...

—E eu que o amava como filho!

—E ainda lhe queres muito bem.

—Não...

—Lembras-te de ser sogra, quando já não o és...

—Sou.

—Em vida de Maria o teu genro era para ti um deus!

—Porque fazia a sua felicidade. Mas agora trahiu-a... Vamos lá para baixo. Onde estará Gloria mettida! Ámanhã... elle volta ámanhã... e eu tenho sido tão cobarde... não sei o que me dá, quando vejo aquella mulher! Delambida. E em baixo d'aquella pelle macia ella tem uma alma de ferro. É dura.

—O Argemiro não ha de gostar quando souber que nunca a admittimos á nossa mesa...

—Ella ia á d'elle, porventura?

—É differente.

—Ora...

—Tambem não lhe agradará a confiança exaggerada que dás ao Feliciano...

—É cria de casa...

—É um velhaco.

—Tambem te desagrada?

—Completamente.

—Pobre rapaz... Prouvera a Deus que a outra fosse tão sincera...

O barão limitou-se a sorrir, com escarneo e tristeza.

Desceram.

A baroneza gritou:

—Feliciano! onde está minha neta?

—No quarto de D. Alice...

—Vá chamal-a.

E depois, como para si: a casa não é tão pequenina assim; o diabinho da menina mette-se naquelle quarto maldito... para que?!

O barão desceu ao jardim, calado, sem disfarçar o seu aborrecimento e um certo pavor. Começava a scena...

Feliciano batia com os nós dos dedos na porta da governante.

—D. Gloria?

—Que é? respondeu ella de dentro.

—Sua avó está chamando a senhora...

—Diga a vovó que já vou. Estou desenhando!

A baroneza exasperava-se, passeando na sala de jantar. E como a menina não apparecesse logo, ella gritou:

—Feliciano!

—Senhora?...

—Então?

O negro sorriu malevolamente:

—Estão conversando...

—Bata outra vez! Diga que venha já! Desaforo!

Feliciano voltou a bater, maciamente, sem impaciencia.

—D. Gloria?

—Já vou! Diga a vovó que espere só um bocadinho...

Era demais! aquillo precisava ter um fim. Até a neta lhe desobedecia! Sim, senhores! A obra da outra estava completa! A não ser o negro, todos conspiravam contra ella. Até o marido... até a filha da sua filha!

Pela porta aberta da saleta ella via na parede fronteira o retrato da filha, muito desbotado, esvaindo-se, cercado por uma moldura de ébano.

«Emquanto eu viver, meu amor, será lembrada a tua ultima vontade... não me esqueci; eu vivo só para a tua memorial...» Pensou ella. E depois, por entre dentes:

—Parece que ella está fazendo de proposito... mas commigo não se brinca!

Feliciano rondava a scena, disfarçadamente, polindo com um trapo de camurça os trastes já polidos. Fôra por manha que entreabrira a porta da sala, quasi sempre fechada, bem em frente ao retrato da morta e, sem parecer olhar, elle vigiava todos os movimentos da baroneza. Ella tremia de raiva por não vêr chegar a menina.

—Ora já se viu uma coisa assim! Querem maior provocação! E apontando para o relogio: ha mais de cinco minutos! Isto não póde continuar... Está bonito!

E imperativamente, furiosamente:

—Feliciano?!

—Senhora?

Apezar da sua mascara de seriedade, percebia-se, que o negro estava por dentro contentissimo.

—Diga a D. Gloria, uma vez por todas, que venha já ou que eu vou buscal-a pelas orelhas!

Feliciano quiz prolongar aquelle desespero e arrastou os movimentos, calculando o tempo para maior accumulação de odio; mas a baroneza, impaciente, passou-lhe á dianteira e caminhou pelo corredor para o quarto da governante.

—É agora! pensou o negro, encostando-se a um humbral, para vêr.

Gloria, já de pé, punha em ordem a sua pasta de desenhos, e Alice cosia perto da janella, quando a baroneza, empurrando com força a porta do quarto, apenas encostada, entrou, livida de raiva, no aposento.

—Vovó!

Alice levantou-se, perplexa.

—Já, lá para dentro! não ouviu? Ha que tempos a mandei chamar e a senhora é assim que obedece ás minhas ordens?! Quem manda aqui? Sou eu, ou é aquella mulher? Diga!

—Vovó... eu...

—Nem uma desculpa! Não quero ouvir mais nada! Tudo é mentira! Já; lá para dentro! e não me torne a pôr os pés neste quarto.

—Vovó...

—Cale a bocca! ande!... ande!

E, pela primeira vez em sua vida, a baroneza empurrou com as mãos fechadas, brutalmente, o corpo da neta.

—Saia d'aqui! já disse! Rode depressa, antes que eu perca a cabeça! Fuja! que está-me ficando perdida pelas más companhias!

E, sem interromper o tom de furia, com os olhos vermelhos, a papada tremula, voltou-se para Alice:

—Quanto á senhora, não é precisa para nada aqui. Se fosse outra teria comprehendido que já é demais. Eu sou sufficiente para tomar conta da casa de minha filha. Veja quanto se lhe deve e retire-se hoje mesmo.

Alice, com os olhos engrandecidos pelo espanto e pela lividez nervosa das faces, respondeu, forçando a calma:

—Não conheço a senhora sua filha.

—É demais!

—Considero a casa como do seu genro e só elle poderá dispensar os meus serviços.

—Isso é um atrevimento!

—É uma resposta.

—Bem me diziam que a senhora não era apenas uma criada, mas tambem a amante de Argemiro!

—Enganaram-na. Nem uma, nem outra coisa.

—Se fosse outra, eu não precisaria dizer tanto, para que já estivesse lá fóra! Capacito-me de que realmente a sua companhia é prejudicial á minha neta e não hesito em pôl-a na rua. Saia!

Alice não respondeu, fixando os olhos no rosto transtornado da baroneza. E depois, com raiva subjugada:

—E se eu não quizer?...

—Sahirá á força. De mais a mais, é cynica!

—Sou honesta. Estou de guarda a um logar que me confiaram e que deffenderei até á morte. Seu genro chega ámanhã. Partirei depois d'elle ter entrado nesta casa. Antes, não! não, não e não!

—Ah, a amaldiçoada! Imagina talvez que Argemiro a prefira a mim! Exclamou a baroneza com uma gargalhada insultuosa.

Alice mordeu os beiços para não responder: todo o corpo lhe tremia, como num accesso de febre.

Gloria corrêra para o quintal. E era como se a casa se desmoronasse sobre a sua cabeça. Que razão teria a avó para querer tanto mal á D. Alice? Que iria succeder?! A quem gritar por socorro?

A voz da baroneza perseguia-a. Sentia nos hombros o peso das suas mãos irritadas. Quem lhe diria!... A loucura?! Seria a loucura?! Deveria chorar pela avó, pela sua razão perdida, ou salvar a moça, que ficara sózinha em sua frente? mas salvar como, se ella tinha medo? Gloria atirou-se chorando para o jardim, na ancia da liberdade e do silencio. O avô ao vêl-a comprehendeu tudo e correu a amparal-a.

—Que tens, meu amor?!

Animada pela presença do velho, a menina agarrou-o com força.

—Venha, vovô... corra... vovó é injusta... é má... está dizendo coisas terriveis á D. Alice... não sei o que é... Vovó me bateu!... pelo amor de Deus... ande depressa!

O avô resistia; mas, ao ouvir-lhe as palavras—vovó me bateu—endireitou-se num espanto e olhou de perto para os olhos da neta.

Não! ella não mentia. Os alegres olhos da sua Maria da Gloria estavam cheios de lagrimas, em que boiavam uma grande decepção e uma terrivel dôr.

—Ah, se papae estivesse aqui!

O barão apressou-se, agarrado á neta; mas ao approximar-se do quarto estacou. Não devia entrar. Não queria entrar. Em vão a neta o impellia, supplicando-lhe que interviesse.

Elle sabia. A mulher não cederia por nada d'esta vida. O mal estava feito; para que recomeçal-o?

Não conseguindo abalar o avô, Gloria avançava sózinha para o quarto, affrontando tudo, quando a baroneza sahiu, hirta, com os labios afinados e pallidos, os olhos circulados de rôxo. A menina recuou espantada. Nunca a avó lhe parecera tão alta.

—Que estás fazendo aqui? Eu não te disse que não tomasses a pôr os pés neste quarto?!—Rugiu ella ao topar com a menina.

—Vovó...

Mas a avó não quiz ouvil-a, e agarrando-a por um braço foi-a levando, numa furia.

O marido, mettido num vão de janella, não a interrompeu, temendo exacerbal-a com as suas ponderações. Passado o offêgo do desabafo ella se explicaria.

Apiedava-se de um rumorzinho de chôro que lhe parecia perceber agora no quarto da D. Alice. As mulheres são terriveis, pensava elle, devoram-se umas ás outras, como animaes de especie differente... Até a minha, que foi sempre incapaz de torcer o pescoço a uma gallinha, dá-se agora, depois de velha, ao prazer de torturar uma creatura sua semelhante... E, afinal, coitada, quem soffre mais é ella... que não encontra remedio para a sua doença. Aquillo já é doença... E ora aqui chegámos, ao desfecho que ella tanto ambicionava e eu tanto temia... E agora? Que se teriam dito?...

E nunca a sua chacara cheirosa, os verdes campos macios, cortados de mangueiras e aguas remançosas, lhe fizera tão fundas saudades. As suas flôres do horto, preparadas para a distilaria, estariam morrendo nos pés e o seu catalogo interrompido, amarellecendo no fundo inerte de uma gaveta. Olhando para as flôres do genro, elle via as outras, as suas: o absyntho, as marcellas medicinaes, o sabugueiro vaporoso, as malvas bemfazejas, o limonete perfumado e mil outras, confundindo-se nos tons azulados ou verdes das suas ramagens bem alimentadas.

Olhava para as rosas pensando nas papoilas, quando o Feliciano lhe disse atrás das costas, com uma vozinha ciciada:

—Sá Baroneza tá chamando o senhor...

O barão não quiz olhar para o negro e subiu para o quarto, abafando um suspiro.

Que mais?




XIX

—Assumpção!

—Argemiro...

—Fizeste bem em vir esperar-me; estou doido por conversar comtigo; disseram-te lá em casa que eu chegaria hoje?

—Naturalmente... eu não poderia adivinhar!... olha a tua mala... Pareces-me magro...

—Um pouco...

—Boa viagem?

—Regular... Como está a minha gente?

E tua mãe?

—Dá a mala ao carregador... Conversaremos em caminho.

—Tens razão; e eu estou com pressa de chegar a casa. Decididamente, abomino os hoteis. Que desconforto! que aborrecimento! que noites!

Ah! Assumpção, nunca o meu cantinho me pareceu tão delicioso como nesta ausencia. Isto deve ser velhice.,. os meus ossos não se afazem a outros colchões, nem a minha cabeça a almofadas que não sejam as costumadas. Has de acreditar que soffri de insomnias em S. Paulo?

Depois eu não tinha noticias! Gloria escreveu-me duas cartinhas; tu nenhuma... Nenhuma! inacreditavel o teu descuido! Meu sogro escreveu-me tambem, mas só fallava na mulher e na neta. É verdade, o Caldas tambem me escreveu... Referia-se a ti...

—Tiveste então cartas de todos!...

Sahiam da Central. Argemiro acenou para um carro.

—De todos... mas incompletas... Só tu me poderias dizer tudo; és intimo de minha casa, mais intimo do que eu! Comprehendes que eu fugi!

—Porque, homem?!

—Nem sei porque... medo do barulho, da intriga... de não poder conter o meu máo humor. Estava enervado, aborrecido... Depois arrependi-me. Não tinha que fazer; bocejava pelas ruas... o hotel indispunha-me commigo mesmo. Estou como o caracol,—não posso sahir da minha casa sem perder a vida... Acredita: até do cheiro da minha casa eu tinha saudades! Parece-me incrivel que um sujeito de vida bem organizada goste de viajar. Tu nunca viajaste. É uma maçada! Mas que diabo, tu não me dizes nada!

—Não me dás tempo...

—Tens razão; mas estou cheio até á raiz dos cabellos. Mal conversei durante a viagem; estava com a lingua entorpecida. Este cocheiro é um lorpa... não toca os animaes! De que te ris?! estou morto por beijar minha filha! Muito crescida? Tens ido lá todos os dias? Tens estado sempre com todos?...

—Todos os dias, não... mas quando vou estou com todos...

—Minha sogra ainda se demorará cá por baixo?... Isso é o que me interessa mais saber.

—Ignoro... Eu tenho frequentado menos a tua casa, receando que os barões achassem importuna a minha assiduidade...

—Estás doido! Sabes que te estimam muito! Bem... e... não houve por lá nenhuma questão...

—Tem paciencia, escuta.

—Mau!

—Hontem á noite recebi uma carta de teu sogro, pedindo-me para vir esperar-te hoje á Central, e prevenir-te de que a D. Alice só espera por ti para deixar a casa.

Argemiro não respondeu logo, e, arregalando os olhos, voltou-se para o amigo, muito desapontado.

—A noticia não é amavel e acredita, Argemiro, que a dou com pena. Mas já agora deixa-me dizer-te que mais uma vez andaste impensadamente... Não deverias ter sahido de casa nesta occasião, tanto mais que já temias qualquer incidente desagradavel...