—Não consinto! Ah, eu é que não consinto; e o dono da casa sou eu! Porque sae a D. Alice? Não sabes?... Eu imagino: picuinhas... alfinetadas... tanto a aborreceram, tanto a azedaram, tanto a mordiscaram, que ella não pôde mais! Era o que eu temia, lá longe! Parece que estava adivinhando. Um inferno.
Ora o que me esperava! E agora? Dize-me: e agora?!
—Arranja-se outra...
—Estás tolo! Outra! A facilidade com que se dizem asneiras... Nem tu pensas no que estás dizendo. Conheço-te bem; sei qual é a tua opinião a respeito d'ella... Eu é que fui um asno, um idiota; não devia ter consentido na vinda de minha sogra para casa. Foi ella que escangalhou a minha felicidade com as suas bobagens de velha tonta. Disseste bem, fiz mal em fugir. Fugi por pusilanimidade... pelo eterno prazer do socego e do bem-estar. Fresco bem-estar, o dos hoteis! E agora, hein?! arranja-se outra! ora, que resposta! Se ha outra como aquella!
—Tu nem a conheces...
—Nunca a vi, mas conheço-a, adivinhei-a; abstrae da personalidade. Ella é o meu conforto, a minha segurança, a minha felicidade. Agora explica-me tudo: que lhe fizeram?
—Não sei, filho; mas creio que nada.
Teu sogro, temendo a tua decepção, como se se tratasse de uma terrivel catastrophe, escreveu-me hontem o que eu já te disse. A minha surpreza foi quasi do tamanho da tua. Sómente, eu espero conciliar as coisas.
—Ah, eu não... Acabou-se. Volto á ignominia do Feliciano. Não. O Feliciano roda hoje mesmo a pontapés. Cachorro... Outra... outra... onde encontral-a? Pensas que ha muitas mulheres assim, por ahi, á espera das minhas ordens? Tu estás bem convencido do contrario...
Eu sei que a consideras muito... Já a tens defendido, á minha vista, quando a accusam. Por mim, declaro-te que acabei de conhecel-a nesta ausencia...
Por acaso, no dia da partida, juntei alguns livros avulsos pelas mesas e metti-os na mala. Em uma das minhas noites de insomnia, no hotel, abri um d'esses livros, e verifiquei com espanto que elle pertencia a D. Alice. Lá estava o seu nome, por signal com uma letra bem bonita... Era um livro inglez de poesias. A minha governante lê versos; e demais a mais em inglez! Folheei o livro com alguma curiosidade...
Havia versos sublinhados, notas feitas á margem... Sabes que do meu exame de inglez não me ficou patavina... o livro não me poderia divertir; entretanto, não sei por que, era o unico que me interessava! Comprei um diccionario e pude mais ou menos penetrar um pouco no mysterio... Comprehendes que isto não poderia deixar de impressionar-me...
—Ella é intelligente...
—Muito. Para ter certeza d'isso eu não precisava das poesias inglezas; bastava-me a mudança radical de minha filha. Negarás isso?!
—Não...
—Lembras-te? Gloria era terrivel, intratavel, brutinha! E agora? Está docil, risonha, delicada. A avó perdia-a com os seus mimos e a D. Alice salvou-a. Tens reparado na bôa pronuncia franceza de minha filha?
Na vespera da minha partida ella leu-me uns exercicios do methodo. Fiquei espantado. Um prodigio!... Logo, esta mulher que ensina francez, lê versos inglezes, faz aguarellas razoaveis e interpreta ao piano trechos classicos, como já eu ouvi, sem que ella o percebesse... é uma rapariga de fina educação e que não me resigno a perder por caprichos de terceiros! As minhas flôres! Porventura tive eu nunca, nem mesmo no tempo de Maria, rosas como tenho agora?!
É ou não é verdade que o meu jardim é um dos mais bellos do bairro?!
—É...
—E quem o transformou? Ella.
Ainda agora, lendo o livro do Shelley, sentindo-lhe o perfume peculiar e que em poucos dias ella espalhou por toda a minha casa, capacitei-me de que a alma d'essa mulher é rara e voltada para tudo que torna a vida agradavel. Ainda não lhe descobri defeitos...
—Ha de tel-os.
—É humana... e portanto, queres dizer que se fosse perfeita seria defeituosa... Talvez seja feia... Sabia-me agora bem o imaginal-a.
—Occupavas-te nisso?
—Ás vezes; é natural: quando eu pegava no livro, e sobretudo quando sentia o seu aroma... Qualquer outro faria o mesmo... não te parece?
—Talvez...
—Sou-lhe muito grato. Asseguro-te que nunca me vi tão lisonjeado, tão contente da vida, como agora nestes ultimos tempos. Era uma atmosphera amorosa a da minha casa.
—Não ha bem que sempre dure...
—Ora que noticia! E eu que vinha morto por sentil-a!
Assumpção sorriu.
—De que te ris?!
—Da tua expressão.
—É sincera.
—Sei. Mas não desesperes... Realmente, a tua governante governou de mais; mas estou de accordo em que deves procurar guardal-a junto de tua filha; e talvez isso não seja tão difficil como te parece!
—É impossivel.
—Tentemos...
—Como se teria dado o rompimento?
—Não sei. A carta do teu sogro é laconica e succinta. Deveria mostrar-t'a, mas esqueci-a em casa.
—Naturalmente, minha sogra espicaçou-a de tal forma, que a pobre perdeu a paciencia e despediu-se. Guerras de mulher. Conheces nada mais indigno? Picadas de alfinetes embebidos em veneno... Eu sei! Estou agora arrependido de ter vindo de carro... O bond daria mais tempo e conversariamos melhor. Foi uma cacetada! Conheces nada mais importuno que a velhice? Até cheira mal! E que vae ser de Gloria?... Pensará a avó que lhe entrego a neta? pois sim!
É minha, de casa não me torna a sahir. Afinal, a prejudicada será ella... coitada! Mas com que direito commetteram meus sogros semelhante vilania?! Tu não me explicas nada!
—Filho, já disse o que tinha a dizer-te! D'aqui a pouco estaremos nas Laranjeiras; será então tempo de averiguar o caso. Lembro-te que a baroneza anda adoentada... que é muito sensivel, e que toda a sua antipathia por D. Alice se funda no ciume...
—Tolices!
—Tolices ou não. Suppõe que trahiste o que prometteste a Maria...
—E que trahisse! não era razão!...
—São modos de pensar... Tua sogra arvorou-se em sentinella do teu coração, já o disseste. Ella não quer lá dentro senão a imagem da filha.
—E não existe outra. Está farta de saber que eu não conheço esta mulher. Já enfada dizer e ouvir isto: nunca a vi! Nunca!
—Mas gostas de sentil-a... ha pouco o disseste. Avisei-te do perigo, procurei afastar-te... conheço a tua imaginação; mas fui tão fraco que não consegui o que devera ter conseguido... Não faz mal.
—Em vez de imaginação dize: egoismo. Aterra-me a idéa de voltar á desordem antiga... aos roubos do negro... á negligencia da casa, ao desperdicio da despensa.
Era um inferno. É só isso que me incommoda... mais o abandono de minha filha... Não terei remedio senão pôl-a num collegio... Eu não tenho tempo de me occupar de tantas coisas e já tenho abusado muito da tua amizade. Estou atarantado... Vê se me salvas! Só tu!
—Antes de mais nada, logo que chegarmos sóbe ao teu quarto, com o pretexto do descanço, banho e mudança de roupa. Entretanto eu irei fallar a D. Alice. Ella me dirá a verdade... Prepararei o terreno.
—Contas com a sua sinceridade?
—Absolutamente. É uma mulher simples.
—Mais uma virtude... E depois? É natural que meus sogros desejem fallar primeiro... Emfim, o que fôr soará! Pessima recepção!... Maldita a hora em que sahi de casa!
—Estás tragico! Mal imaginavas que um annuncio do Jornal do Commercio te trouxesse tantas complicações! O que nós rimos da tua lembrança, naquella noite em que nos declaraste a tua resolução. Tudo podiamos prevêr, menos isto!
—Ainda vocês negam a força occulta que obriga o individuo a executar, ás vezes, as mais extravagantes resoluções! Quando eu me lembro do ridiculo que vocês me atiraram á cara por causa d'aquelle annuncio! Eu mesmo o escrevi sem esperança, numa hora de raiva contra o Feliciano. Tudo se me affigurava melhor. Quem poderia crêr, porém, que fosse tão bom? Parece-me agora que a minha mão, ao escrever aquelle pedido de governante, num annuncio, puxou o fio do destino d'esta mulher...
Lembras-te? Não appareceu mais ninguem!
Dar-se-á o caso de só ella o ter lido?
—Não. Eu tambem o li... o Caldas... tua sogra...
—Já me tardavam as caçoadas.
Não tens o direito de rir de um afflicto. Estou até com medo de parecer grosseiro e tratar mal os velhos!
—Elles nem terão culpa... sim, é possivel que a D. Alice já estivesse resolvida a isto mesmo. Quem nos dirá? Não fez um pacto para toda a vida...
Argemiro calou-se, olhando attonito para o amigo. Quem sabe?
E depois:
—É pena que não me possas dar informações completas... Ella... nunca te fez confidencias... não terá tenções?...
—De que?
—Casar, por exemplo! Que diabo!
—Deve ter. É moça... Não sei. Minha mãe gostou d'ella...
—Ah! D. Sophia viu-a?
—Levou a Gloria a visitar-nos uma tarde, e emquanto eu mostrava as flôres e a vista á tua filha, ella entreteve-se com minha mãe.
—E D. Sophia então disse-te?...
—Que aquella moça faria a felicidade do homem com quem se casasse. Sabes a mania casamenteira de minha mãe. Ella julga, como foi feliz, que a unica felicidade perfeita na terra é a da familia... Quantas vezes a surprehendo com os olhos nublados sobre a minha batina de celibatario! Então, para vel-a sorrir, sabes o que eu faço? Carrego ao collo os seus petizes, que estão lindos e nedios como leitõezinhos. E a verdade é que já os amo tambem, a ambos.
O Jorge adormece á noite nos meus braços; emquanto minha mãe cose, embalo-o na cadeira de balanço, até vel-o pegadinho no somno.
Ao principio eu fazia isso para dar satisfação á minha mãe; mas hoje já o faço por gosto proprio. É bonito o somno de uma criança...
E o brutinho não adormece sem que eu lhe cante a
Passou por aqui... »
Minha mãe conseguiu atar-me a outros seres de mais longo futuro... não morrerá nella o meu interesse pela vida! Chegámos á tua porta. Lá está tua filha no jardim.
Depois de beijar Gloria e apertar a mão fina e molle do sogro, que desceu ao vestibulo a recebel-o, Argemiro subiu ao seu quarto. A baroneza descançava ainda: não a vira nem de passagem.
Argemiro subiu a escada do quarto, com as narinas dilatadas, farejando o aroma subtil e inconfundivel da sua casa. Na saleta, um ramo de La France e de resedá representou-lhe ao espirito a figura desconhecida de Alice, que elle sentia, emfim, naquella ordem e naquelle cheiro que lhe alegravam o lar.
O Feliciano fôra ao carro buscar a mala, e não merecera resposta ao cumprimento que fizera ao patrão.
—O homem vem zangado... pensou elle comsigo. Que dirá quando souber!
Pela primeira vez, Argemiro procurou, através das venezianas do seu quarto, vêr se descortinava o vulto ao menos da sua governante. Chegava-lhe a curiosidade pela sua pessoa. Um desejo de matar saudades de uma desconhecida! Voltou para o interior do quarto. Em cima da sua mesinha estava uma carta fechada, sobrescriptada por mulher.
—Quem sabe se será a sua despedida? pensou; e abriu-a com presteza. Leu:
«Meu amigo:
Fui pedida em casamento e desejo apresentar-lhe o meu noivo. Estou radiante! Venha.
Sinhá.»
Sinhá!... o pavilhão japonez... Fechava-se o panno sobre essa fantasia, cujo interesse se deixara todo para o fim. Estimava a felicidade da moça. Levar-lhe-ia uma prenda que o lembrasse no seu lar, eternamente. Era feliz, essa. Começava. E elle? Estava no fim. Sem destino, aborrecido, cançado... e ancioso!
XX
—Feliciano! diga á Sr.a D. Alice que eu desejo fallar-lhe...
—Ella está na sala de jantar, com D. Maria da Gloria...
—Bem, então não á incommode; eu vou lá.
O barão sumira-se atrás do genro, pela escada acima, e o padre Assumpção seguiu pelo corredor.
Gloria enfeitava uma cesta de flôres e fructas, dirigida pela governante. Era para o centro da mesa do almoço. Assumpção parou entre portas, ouvindo-as sem ser presentido:
«...tenha o cuidado, Gloria, de combinar as côres, de modo que umas façam resaltar as outras... por exemplo, sempre que tiver flôres escuras, como estas rôxas, ponha-as ao lado de brancas ou de amarellas... Refresque o musgo com agua todos os dias... não consinta na mesa de seu pae nenhuma falta... você já está uma mocinha... Hoje, por exemplo, offereça-se para lhe descascar uma laranja, e assim procure servil-o todos os dias... Não... essa maçã não fica bem ahi... repare que é da mesma côr do pecego... ponha-a antes aqui, entre esta camada de musgo...
Assumpção interrompeu-as:
—D. Alice...
Alice voltou-se. Estava pallida, com os olhos pizados de choro.
Gloria exclamou:
—Ah! padre Assumpção! estou muito triste.
—Já sei; vae brincar um pouco, minha filha, preciso fallar com a tua mestra...
—Eu não sou mestra...
—Assisti ainda a um trecho de lição!...
—Conselhos... só...
Gloria, entretanto, sussurrava ao ouvido do padrinho:
—Faça com que ella fique cá em casa, sim?!
E sahiu correndo.
—Sabe o que a Gloria me pediu?
—Adivinho...
—Recebi hontem uma carta do barão, dizendo-me que a senhora quer deixar esta casa...
—Despediram-me.
—Hein?!
—Despediram-me.
Assumpção quedou-se attonito deante da moça.
—Não se admire; os meus serviços deixaram de ser precisos, já sou de mais aqui.
—Mas...
—Presenti no senhor um amigo, e sei que me defenderá mais tarde. Isto já é uma compensação! D'aqui a duas horas sahirei d'esta casa...
A voz tremeu-lhe, um rubor cobriu-lhe as faces, e concluiu:
—Logo que tenha feito as contas com o Dr. Argemiro...
—Suppuz que a resolução tivesse sido sua, e por isso procurei-a em primeiro logar, desejando convencêl-a a mudar de idéa...
—Enganou-se... Fui posta na rua, e se não fosse corajosa teria abandonado hontem mesmo o meu posto. Não quero que saiba pela minha bocca do que se passou. Outros lh'o dirão. Só lhe peço uma coisa: affirmar que eu sou uma rapariga absolutamente honesta, se acaso ouvir qualquer allusão desairosa...
—Não ouvirei; todos a consideram aqui e eu sei bem quem a senhora é. Estive em sua casa.
—O senhor!
—Mas não o disse a ninguem. Descance. Permitta que a deixe, para ir fallar á baroneza. Vejo que era a ella que eu me deveria dirigir primeiro... Em todo caso, prometta-me não sahir sem fallar com o Argemiro.
—É só por isso que eu espero...
Assumpção contemplou-a. Ella fizera-se de novo como um lacre.
—Que tenciona dizer-lhe?
—Prestar-lhe as minhas contas. Tenho tudo em ordem. É questão para uns vinte minutos...
Dizem-se num minuto mais de cem palavras... pensou o padre comsigo; terão tempo de conversar!...
O Feliciano entrava e sahia, remexendo nos talheres, abrindo e fechando gavetas, maciamente.
Sentindo passos na escada, Alice fugiu para o interior. O padre voltou-se. Era o barão.
O velho approximou-se.
—Então... como recebeu o homem a noticia?
—Mal...
—Hum... foi o diabo!...
—A senhora baroneza?...
—Oh, você sabe, minha mulher não póde tolerar a outra. Aquillo é uma doença. Doença que nem os medicos nem os padres curam... Esgotei todos os argumentos a favor d'esta pobre rapariga; afinal, comprehendi que o melhor seria deixar correr a agua ao sabor da corrente. Os factos brutaes resolvem ás vezes questões delicadas melhormente do que palavras doces. Depois, esta situação é intoleravel e não podia ser prolongada, sob pena de ver a minha mulher no hospicio ou na sepultura... Sacrificio por sacrificio, mais vale o da moça... lá terá na propria mocidade consolação para os seus desgostos... se esse nome merece o dissabor do desemprego. Afinal, não devemos exaggerar os factos. Casas não faltam para essa especie de serviço. Mais lamento eu o Argemiro, que vae voltar aos embaraços antigos logo que tornemos para a chacara... Veja você se conhece alguem nas condições de substituir esta moça... D. Sophia talvez possa indicar...
—D. Alice é insubstituivel.
—Ora, ora! tambem você!
—Eu, mais do que ninguem, posso affirmal-o. Como sabe, Argemiro pediu-me que tomasse informações da governante, logo que se decidiu a confiar-lhe a filha... A mim bastava-me vêl-a e ouvil-a para perceber que a nossa Gloria estava bem entregue... mas a missão era tão delicada, que insisti em leval-a até o fim, mais com o proposito de defender a pobre moça d'estes ataques, previstos, do que por desconfiar d'ella. O acaso ajudou-me.
Um amigo de meu pae, o coronel Barredo, que tem a especialidade de saber a chronica de meio mundo, veio ao meu encontro, e por me ter visto a conversar com ella, desandou a fallar a seu respeito, poupando-me o trabalho de uma inquirição, para que me faltava o geito...
—Isso seria vago...
—Era positivo. O Barredo estava ao facto de tudo, conhecia até a fórmula do contracto entre Argemiro e D. Alice! Ha d'esses homens extraordinarios, cujas vistas perfuram paredes e desvendam mysterios... Ainda nós não sabemos do que se passa em nosso interior e já elles estão senhores do nosso segredo!
—As informações que elle deu foram então...
—Magnificas. Terei occasião de repetil-as agora deante da Sr.a baroneza.
—Pelo amor de Deus, não tente uma reconciliação! Seria recomeçar!
—Não se tractará senão de uma reparação. Mas sempre os conheci justos e amigos de fazer bem.
—Caridade bem entendida por nós mesmos é começada...
—Não se falla agora de caridade, mas de justiça!
—Dir-se-ia discutir-se a sahida de um ministro de Estado!...
—Esta é mais sensivel e merece maior ponderação.
—Emfim, o que está feito está feito. Parece-me que não vou agora pedir á menina que fique, pelo amor de Deus! Eu fiz muito dirigindo-me a ella e pedindo-lhe desculpa pela fórma por que minha mulher a despediu...
—Ah! e ella o que disse?
—Gaguejou umas coisas, fez-se vermelha, eu creio que o estava tambem, e voltei para o meu quarto mandando ao diabo as mulheres! Ah! Assumpção, estou morto pelas minhas mangueiras e o socego da minha casa. Passou-me a edade das fantasias, mas não me posso cohibir de lamentar minha mulher.
Ella está doente, levanta-se de noite, não dorme sem o retrato de Maria em baixo do travesseiro... É o seu fanatismo. A sua religião! O amor de mãe desvaira-a... Que soffrimento!
A mim, já me quer mal por eu defender o Argemiro, quando allude á probabilidade de outros amores!
Veja só...
Assumpção não respondeu; olhava machinalmente para o jardim bem relvado, fresco das regas e illuminado pelo fulgor dos ibiscos vermelhos e os cachos rôxos das viuvinhas. Aqui e alli, roseiras de qualidade vergavam as hastes molles ao peso de grandes rosas perfumadas. Em baixo da janella, num heliothropo florido, palpitavam borboletinhas brancas...
O barão interrogou o padre sobre o ultimo facto politico. Assumpção respondeu apenas. Mal entendia d'isso, apezar dos esforços da mãe com o sentido de o interessar pela vida... A ambição pessoal dos homens fazia-lhe mal aos nervos...
Feliciano passou assobiando pela porta do quarto de Alice. Fôra um desafogo á alegria que lhe alvoroçava a alma; mas conteve-se antes de entrar na sala, onde o esperava um olhar de censura do padre.
Pouco lhe importou. Alma de negro não é alma de cão. Senão, veriam d'ahi por deante quem mandaria alli!
Quando Argemiro desceu para o almoço, foi avisado de que a sogra o esperava na sala de visitas. A conversa precisava discreção,—imaginou logo do que se tratava. Ia ser bonita, a historia! Onde se teria mettido a Alice? Vinha-lhe agora uma curiosidade doida de a vêr!
Na sala encontrou os sogros e Assumpção, com um ar de solemnidade que o desorientou.
A baroneza derramava pelo sofá as dobras da sua saia, em frente ao retrato da filha, suspenso sobre um guéridon, entre dois grandes jarrões cheios de rosas brancas. Só faltam as velas!... pensou comsigo Argemiro, dando com a vista naquella especie de oratorio.
A sogra, emmagrecida e pallida, chamou-o para seu lado, e antes mesmo de qualquer cumprimento, foi-lhe dizendo:
—Meu filho, de accôrdo com a ultima vontade d'aquella que está alli, despedi hontem a sua governante. Sei que lhe dou um desgosto com isto e lamento-o; mas a minha consciencia impunha-me este acto de salvação para a sua alma e de paz para o espirito amoroso da nossa pobre Maria!
—Eu não a comprehendo... mamãe!
—Argemiro! a minha convivencia nesta casa com essa mulher provou-me que as minhas suspeitas tinham fundamento. Ella ama-o.
Argemiro não conteve um movimento de surpreza:
—É impossivel!
—Antes eu tinha a intuição d'isso; tive depois as provas, toda a certeza. Encontrei-a muitas vezes aqui, olhando para o seu retrato; vejo a ternura com que ella aperta nos braços sua filha, o desvello exaggerado com que trata tudo que diz respeito á sua pessoa e como enrubece ao pronunciar o seu nome. Affirmo-lhe que o ama. Eu nunca me enganei. Certa d'esta verdade, deliberei despedil-a antes da sua chegada, do que não me arrependo, por que era tempo de acabar a comedia, que não podia ser presenceada por minha neta.
—Minha senhora!
—Ah! já não diz minha mãe!... Era ainda... Emfim! peço-lhe desculpa se o offendi.
—Fallemos com calma. Não sei em que lingua hei de dizer, para fazer-me entendido: que nem sequer sei a côr dos olhos d'essa senhora, cujas feições ignoro e cuja voz mal tenho ouvido a distancia! É bonita? é feia? Que me importa! Nunca a vi. Não quero vêl-a. Para mim ella não é uma mulher, é uma alma apenas, que me enche a casa de perfumes, de conforto, de doçura, como nunca tive em minha vida.
—Nem no tempo de Maria?! Era o que faltava ouvir?
—Mas não fallemos do passado, pelo amor de Deus!
—Como não, se a elle está você preso por um juramento?! Nega ter jurado á minha filha, na hora da morte, fidelidade eterna?!
—Não deixei ainda de cumprir tal promessa; mas não teria escrupulo em fazel-o se as condições da minha vida o exigissem. Esse juramento foi sincero, mas mesmo sem sinceridade eu o faria naquelle transe, para adoçar o passamento de minha mulher...
—Quer você dizer com isso que romperá tal juramento...?!
—Sem escrupulo, já disse.
—A religião prohibe-o que o faça!
—Eu não sou religioso.
—Ah! vêem?! elle tambem a ama! Minha pobre filha! Minha pobre filha!
A baroneza estava tremula, ameaçadora. Crescera de estatura, passavam-lhe pelos olhos fulgores de mocidade e de odio.
—Se a religião não lhe impõe o cumprimento do dever, appello ao menos para a sua honra.
Não a terá tambem?!
—A minha honra obriga-me antes a defender essa pobre moça calumniada, do que a manter um voto que já produziu o seu effeito e de que nesta hora me liberto.
A baroneza recuara espavorida, com olhos de assombro. O marido sumia-se, encolhendo-se todo para dentro de si mesmo. A velha voltou-se afflicta para Assumpção, como a pedir soccorro. Seria possivel que elle, padre, testemunha de tudo, não viesse em seu auxilio?!
Elle comprehendeu-a e encheu-se de dó, ao mesmo tempo que dizia:
—Argemiro tem razão; a sua honra obriga-o a defender essa moça, muito mais digna de consideração que de desconfiança.
Foi ainda influenciada por paixões terrenas que sua filha exigiu do marido essa promessa. Desprendida do mundo, a sua alma tornou-se toda tolerancia e doçura, e seria offendel-a imaginar que os sacrificios d'aquelles a quem amou lhe sejam caros...
—Sacrificios!
—Ao contrario; no ceu, só será completo o seu goso se na terra vir felizes aquelles que a choraram. Creia, minha amiga, a pessoa que a senhora condemna com tamanha injustiça é de uma perfeição moral difficil de attingir.
Eu respondo por ella como se fôra minha irmã.
—Detesto-a!
—Ha de estimal-a um dia.
—Nunca!
—Bastará que eu lhe conte isto:
A baroneza abandonava-se, com desanimo, sentindo-se muito só. Os outros esperavam, voltados para Assumpção. Elle começou:
—Esta moça, que toda a gente recebeu com certa malignidade, de que eu não fui isento, exerce o encargo de governante d'esta casa para manter uma velha paralytica e um velho cego, verdadeiros cacos humanos, que ella visita todas as quarta-feiras piedosamente e de quem é o amparo. Filha unica de um advogado brasileiro, Constantino Galba e neta materna do General Vitalino Ortiz, logo que perdeu a mãe, foi mandada a educar num dos melhores collegios da França, onde viveu até que, por morte do pae, ficando quasi reduzida á miseria, voltou ao Brasil.
Aqui, por toda familia viu-se entre dois criados, uma velha que já fôra ama do pae, e o marido, antigo camarada do avô. Bens, só tinha uma casinhola velha em que se accommodou com o casal dos derradeiros amigos. Encararam os tres a vida com animo. O homem trabalhava ainda e viveram quasi sete annos dos recursos d'esse trabalho e de outros, incertos, de D. Alice: costuras... pinturas... bordados... Afinal lá chegou um dia em que o velho teve de sahir de scena. Cegou. Trabalhara demais. Com o desgosto e outras fadigas da edade, fica-lhe a mulher paralytica; e eis a nossa D. Alice entre esses dois seres de redobrado peso. Redobrou tambem ella de actividade nos trabalhos manuaes... propoz-se a dar lições... mas não lhe appareciam discipulos; os trabalhos, mal remunerados, não matavam a fome aos seus velhos...
Foi por essa occasião que appareceu no Jornal do Commercio um annuncio offerecendo um bom ordenado a uma senhora para governar a casa de um viuvo. Ella não hesitou. Os seus velhos teriam pão, ella um pouco mais de descanso... A filha do advogado, a neta do general, sujeitou-se a esse emprego para matar a fome aos seus criados.
A baroneza olhava para Assumpção, interrogativamente. Seria verdade tudo aquillo?...
Elle continuava:
—A pobreza apura os dotes naturaes da creatura; ella trouxe para aqui a experiencia do sacrificio... Ouçam agora: quando leva dinheiro para casa, o velho, zeloso, apalpa-lhe o pescoço, os pulsos, os dedos, a vêr se ella tem joias... A velha acha tudo pouco! Elle préga-lhe moral... desconfia... a outra queixa-se de necessidades... Ella socega a um, promette á outra e volta para os sarcasmos d'esta situação e para as pirracinhas do Feliciano. Senhora baroneza! Isto que eu lhe digo é a verdade. Eu vi.
A baroneza nem pestanejava. Sumira-se-lhe a côr dos beiços. Estava livida.
Argemiro curvou-se todo para o amigo:
—Viste?
—Vi! Um dia fui chamado a levar soccorros espirituaes a um doente. Era a paralytica. Foi junto á sua cadeira de rodas, que o marido me contou toda a historia de D. Alice. Conheciam-me de nome e preferiram-me a outro padre qualquer, exactamente para me fallarem d'ella, e pediram-me que a protegesse! O velho tinha medo; conhecia as tentações do mundo e a fraqueza das mulheres... queria ouvir da minha bocca palavras que o socegassem. Soceguei-o. No dia seguinte voltei, a saber da paralytica; tinha melhorado. Estava eu lá, quando, percebendo os passos de D. Alice, os velhos supplicaram-me que me occultasse. Ella ficaria vexada se me visse alli; occultei-me. Foi do meu esconderijo que assisti á scena de humilhações a que me referi. Não tinham bastado as minhas affirmações; o cego apalpou nervosamente os dedos, os pulsos, as orelhas da moça, á procura da joia compromettedora... A paralytica pediu-lhe goloseimas. Enjoara tudo. Morria de fraqueza...
Agora, senhora baroneza, creio que não preciso dizer mais nada...
O barão levantou-se:
—Luiza, não te parece que devemos pedir perdão a essa senhora?
Mas a mulher não respondeu. Parecia petrificada no seu logar, com os olhos fitos no retrato mudo da filha.
XXI
Chegára a hora da prestação de contas. Argemiro escrevia á secretária, quando Alice entrou na sala. Como da primeira vez que se fallaram, ella ficava contra a claridade, encolhida no seu vestido de lã barata, escura, e com o véo descido até ao queixo.
Estava prompta para sahir; esperava ordens...
Argemiro remexeu nos papeis. Abriu um caderninho encarnado, que a moça reconheceu de longe. Era o caderninho dos assentamentos do mez, que ella lhe mandára sommado e com saldo.
Sem saber porque, Argemiro sentia-se embaraçado, e foi com certa timidez que convidou a moça a sentar-se.
—Estou bem...
—Não; sente-se.
—Obrigada...
Ella parecia querer ficar em pé, prompta para fugir!
Elle gaguejou:
—Então...
Evidentemente não sabia como principiar.
De repente:
—Os seus cadernos estão numa ordem admiravel. Realmente eu nunca imaginei que uma senhora entendesse tanto de contas... é um guarda-livros! Comtudo... parece-me encontrar aqui um pequeno engano...
Alice approximou-se, com um arrepiozinho de susto.
Elle, indicando-lhe uma cadeira, a seu lado:
—Tenha a bondade de sommar...
Offereceu-lhe a penna, que ella mesma molhou no tinteiro.
Estavam sós. A casa em silencio.
Alice sentou-se, com afflicta curiosidade, e levantando o véo baixou os olhos para o caderno, recomeçando a sommar as parcellas indicadas. Entretanto, elle contemplava-a pela primeira vez. Era mais bonita do que pensava: tinha a pelle suave, os olhos pestanudos e o cabello escuro e abundante...
A mão esguia, branca, movia-se sobre o papel, num leve tremor nervoso.
Argemiro pensava:
«Fui um estupido; eu deveria ter apressado este instante. Ella é deliciosa! E aspirava num deleite o aroma que vinha d'ella, aquelle cheiro de cidrilha, de malva, ou flôr de fructa e que constituia já uma das suas necessidades.
Alice córava intensamente. Não atinava com o erro!
—Não acho... confessou por fim.
—Entretanto, elle não é pequeno...
Alice levantou com espanto os olhos para Argemiro; elle fixou-os com ternura. Estremeceram ambos.
Ella tornou a baixar a vista para o caderno. Letras e cifras dançavam estonteadoramente. Argemiro percebeu-lhe a commoção. Bem dissera a sogra! E com alegria:
—Quer que lhe aponte o engano?
—Se faz favor...
—Está aqui!
Argemiro apontou para a verba que representava o ordenado da moça, apressando-se em continuar:
—A senhora reduziu esta quantia...
—Foi o que nós combinámos!...
—Combinámos o dobro.
—Affirmo-lhe que não.
—Devo-lhe muito...
—Não me deve nada.
—Tel-a-ei offendido?
—Não...
Estava elle outra vez encalhado. Nem para traz nem para deante, sem saber que dizer, todo olhos para o rosto, que já desapparecia sob o véozinho bordado.
—D. Alice!
A moça respondeu com um olhar timido.
Elle calou-se. Parecia-lhe impossivel aquella estupidez!
—Então a senhora vae-se mesmo embora...
—É preciso.
—Se Gloria lhe pedisse para ficar... Ella é tão sua amiga...
—Nem assim...
Argemiro levantou-se e disse com voz grave e resoluta:
—Tem razão. O seu logar não é aqui, agora que a vi e a conheço. Só lhe peço uma coisa: que me consinta ir amanhã á sua casa, em companhia de minha filha... pedir-lhe perdão...
Alice esboçou um gesto de protesto. Receava chorar se fallasse.
Elle approximou-se e ficaram ambos calados, adivinhando-se atravéz do silencio, até que Maria da Gloria gritou da porta:
—D. Alice! o Feliciano já levou a sua mala!
Dois mezes depois, numa linda manhã, os barões assistiram ao casamento de Argemiro e de Alice, feito por Assumpção, testemunhado por Adolpho Caldas, Telles e D. Sophia.
A ceremonia foi simples e sem lagrimas. A baroneza conteve-se. Muito pallida, d'entre as sedas negras do vestido, ella adquirira pelo esforço energico da vontade, uma rigidez de estatua. Nem um musculo das faces lhe tremia. Com as mãos pousadas nos hombros da neta, ella parecia olhar para tudo como do alto de uma torre, imperturbavelmente.
Á tarde Assumpção foi visital-a. Tinham voltado á chacara do suburbio. Gloria correu a recebel-o no portão. Estava decidido que ella viveria alli uns mezes, para consolar a avó. Achava agora tudo tão bonito! O avô lá andava no horto, verificando o estado das suas plantas, alegre como um patinho n'agua! Ella estava por alli á cata de mangas maduras...
Assumpção acariciou-lhe a cabeça e entrou sózinho na saleta da baroneza. Ella alli estava no seu cantinho costumado, febril, com o corpo alquebrado, descahido, os olhos avermelhados entre as palpebras empapuçadas. Vendo-o, chamou-o a si; e segurando-lhe as mãos, numa queixa soluçada:
—Minha filha tornou a morrer hoje, Assumpção; agora está só commigo, e eu já vou perdendo as forças para chorar...
—Não a chorará sózinha... murmurou elle quasi em segredo, córando.
Ella voltou-se, e contemplou-o num mixto de esperança e de assombro.
—Você?...
Elle olhou silenciosamente para a batina, como para explicar tudo.
Transfigurada, num movimento inconsciente, alegre, ella apertou-o nos braços e exclamou:
—Meu filho!
FIM