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A Intrusa

Chapter 8: IV
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About This Book

O romance acompanha um pai viúvo, advogado, cuja casa vazia e o círculo de amigos influem nas decisões sobre o futuro da filha quando uma mulher estranha é introduzida em seu convívio. As cenas alternam entre momentos domésticos íntimos e reuniões sociais em que debates políticos, juízos morais e intentos de casamento se cruzam, revelando tensões entre dever, reputação e desejo pessoal. Por meio de conversas e de uma observação minuciosa dos costumes, a narrativa examina a ansiedade paternal, as expectativas sociais e os efeitos perturbadores de uma intrusa sobre rotinas estabelecidas, ao mesmo tempo em que acompanha a posição da filha entre proteção e autonomia.

—Pobre da minha filha!

Houve um silencio constrangido. O barão interrompeu-o:

—Bom, bom! Está tudo determinado: aos sabbados Gloria irá visitar o pae. É muito justo...

—A moça é bonita, papae? perguntou Gloria.

A baroneza olhou para o genro com curiosidade.

—Não sei... fallei-lhe uma vez só, e ella levava a cara tapada por um véu lavrado, muito espesso. Mas não me pareceu bonita; nem mesmo isso me importa. Quanto aos attestados, mamãe, ella deu-m'os e bons. O Padre Assumpção tomou algumas informações a seu respeito e todas excellentes. Está claro que eu não tomaria levianamente uma mulher, a quem, embora por poucas horas, terei de confiar minha filha.

—Eu preferiria que você desmanchasse a casa e viesse morar comnosco... não sei o que parece ir uma mulher extranha para o logar de... minha filha...

—Oh, mamãe, que lembrança! A senhora repare que esta é uma mulher mercenaria, uma alugada, pouco mais do que criada, não passa d'isso... O logar de Maria é insubstituivel no meu coração, bem o sabe, melhor que ninguem. Quanto a eu morar aqui, isso é absurdo; preciso viver na cidade: os meus negocios não me permittem este luxo do campo... Agora só lhe peço uma coisa: tomar esta minha resolução como irremediavel e acceital-a, ao menos, por algum tempo...

Gloria assistira a toda a scena com muita attenção. O avô só no fim se lembrou da conveniencia de a afastar. Caldas, um pouco constrangido, demorava-se a descascar a sua laranja, conservando um silencio discreto, e foi só depois do jantar que elle pôde convencer o barão a vender as suas terras ao ministro para a formação da colonia suissa, exploradora dos lacticinios.

A baroneza retirou-se para o seu quarto, declarando uma enxaqueca subita. Argemiro aproveitou o momento para conversar um bocado com a filha.

—Escuta, meu amôr, porque é que tu não modificas esses teus modos de rapaz? Já estás crescida.

Ella abraçou-o com frenesi pelo pescoço.

—Olha que me amarrotas o collarinho! disse elle rindo. Não me respondes?

—Eu não sei!...

—Gostas de ir jantar commigo todos os sabbados?

—Se gosto! Havemos de ir ao theatro, sim, papae?

—Ainda é cedo... terás tempo...

—Eu tenho uma vontade doida de ir ao theatro!...

—Irás... irás, se fôres boasinha e docil a teus avós... teu avó queixa-se de que estudas pouco... não quero isso.

—Não gosto de estudar; não gosto e não quero.

—Não quero?! não quero! então isso é coisa que se diga?!

—É. Eu não quero mesmo! Se o papae soubesse como é aborrecido estudar! Outro dia fiquei com tanta raiva que até rasguei o livro!

—Oh!

—Que espanto! olhe, foi assim: vovô lembrou-se de me chamar, exactamente quando eu ia para a horta ajudar a Emilia a apanhar vagens...

—É muito divertido apanhar vagens?

—É mais divertido do que estar sentada ao pé de vovô, na sala, com a penna na mão ou o livro deante dos olhos! Eu estava lendo e estava pensando na horta, estava escrevendo e estava pensando na horta, estava fazendo contas e a maldita horta não me sahia da cabeça!... Vovô ralhou commigo; eu não sei que disse e elle levantou a régua para me dar... vovó entrou, zangou-se com vovô... Sahiram os dois, eu fiquei sózinha... um pouco arrependida... quiz estudar... abri o livro, mas não sei o que é que tinha nos olhos, que não via bem... Então, desesperada, rasguei o livro...

—O que tinhas nos olhos eram lagrimas, minha filha, lagrimas de remorso por ter respondido mal ao teu avô, que te ama tanto, e teres sido causa de outro desgosto ainda maior...

—Oh! papae! exclamou Gloria, atirando-se de encontro ao peito de Argemiro, lacrimejante.

—O que me vale é que tens bom coração...


Durante a viagem de regresso, Argemiro e Caldas fallaram pouco. Um pensava na familia, o outro em negocios. Foi já quasi no fim que Argemiro desabafou:

—Preciso tomar uma resolução séria a respeito de minha filha. Viste bem como a educam? O avô não sabe ser severo; a avó prejudica-a pelo seu excesso de amôr, e a menina cresce cheia de vontades e á lei da natureza! Se fallo em collegio, arrepiam-se; se fallo em trazel-a para mim...

—Estás doido? têl-a comtigo, como? Olha que eu não quiz nem podia intervir naquella scena de familia; mas a tua sogra tem razão. Que diabo! uma mulher, arranjada por annuncio, póde lá tomar conta de uma menina que está exactamente na edade mais delicada da mulher! Deixa a pequena com os velhos e arranja-lhe uma preceptora ingleza ou allemã. Verás o milagre. Vocês custam a atinar com as coisas simples! São uns complicados...

—Talvez tenhas razão...

—Por força. Eis-nos chegados. Apparece ámanhã na Camara, ás duas horas; o Telles vae soltar o verbo. Não faltes.

Argemiro chegou a casa muito fatigado e entrou para o seu quarto. Extranhou logo ao principio qualquer coisa que não pôde determinar o que fosse, mas que o impressionou bem. Ao pendurar a roupa no cabide de pé, viu que o tinham alliviado do grande peso de ternos de casimira, que o Feliciano deixava accumulados alli semanas e semanas, por preguiça de os escovar e guardar. Enfiando o robe-de-chambre, notou que lhe tinham pregado um botão que lhe faltava. E pensou: Realmente, só as mulheres sabem governar bem uma casa...

Sentou-se ao lado de uma mesa a lêr um jornal, mas a folha descahiu-lhe das mãos e elle pôz-se a olhar para um retrato da mulher, suspenso em um cavalletezinho de prata fôsca. A saudade da sua morta revivia todas as vezes que vinha de vêr a filha; sentia-lhe a falta então, poderosamente. Se ella vivesse! Ah, se ella vivesse correria tudo suavemente!

Argemiro levantou o retrato e contemplou-o de perto. Quantas vezes beijára aquella fronte larga e pallida, emmoldurada por cabellos loiros, que tão mal se adivinhavam na photographia! Que pena não ter Gloria herdado a finura d'aquellas feições, tão bem delineadas, tão puras, nem a doçura d'aquelle caracter, que só o ciume conseguia agitar. Pobre ciumenta, quantas torturas inventára para seu martyrio! Que imaginação a d'ella para crear fantasmas de amôres...

Argemiro cerrou os olhos, depondo o retrato sobre a mesa; e calculou: se ella fosse viva estaria agora com trinta e dois annos... teriamos um rancho de filhos... um rapaz... Tanto desejei um rapaz!... e Maria teria outra educação... Pobre da minha filha, foi a sacrificada!...




IV

Num bello sabbado, o Barão do Cerro Alegre trouxe a neta á cidade e foi depôl-a no escriptorio do pae, que a esperava, já impaciente. O velho não se demorou; tinha horror ás ruas abafadas e ás feias salas dos escriptorios. Mostrava-se mesmo apressado em se desembaraçar da incumbencia, temendo ser cumplice em algum desastre que acontecesse a Maria, que via cercada de perigos, sempre que sahia da sua chacara. Ainda assim, não se pôde conter e recommendou ao genro:

—Dizem que por ahi ha muitas febres... é preciso ter prudencia! A avó pede-lhe que não deixe a Maria comer dôces na confeitaria. Ella póde abusar, é gulosa...

—Vá descansado; e obrigado!

Emquanto Argemiro despachava uns papeis, Maria ora se debruçava na sacada, ora remexia todo o escriptorio do pae.

Mas Argemiro tinha pressa tambem de atravessar as ruas com a sua Gloriazinha pela mão, e abreviou o trabalho. Sahiram; e as recommendações dos pobres velhos foram absolutamente esquecidas...

Maria da Gloria agarrou-se ao pae, atordoada com o borborinho do povo com que ia esbarrando; aquillo alvoroçava-a sem divertil-a, mas a pouco e pouco, a cada paragem para uma conversa de minutos, em que os amigos do papae lhe beijavam a mão, como a uma princeza, acordava nella uma curiosidade extranha por esta vida da cidade, tão embaraçada de enleios. Queria ver tudo, retinha Argemiro em frente das vitrinas, embarafustava pelas lojas; e como via em exposição muitas coisas que não tivera nunca, exigia-as do pae, que, docil como a cêra molle, ia comprando tudo, sentindo-se ainda feliz por satisfazer assim a sua Maria, só d'elle, nesse sabbado bemdito.

Quando chegaram ás Laranjeiras, o pae subiu logo para o seu quarto e recommendou a Gloria que esperasse na sala Alice Galba, a quem mandou avisar, pelo Feliciano, que viesse receber a menina.

Maria recostou-se no sofá, esmagando no estofo as papoilas do seu chapeu á jardineira. A antipathia da avô suggerira-lhe instinctiva repugnancia por essa intrusa, como chamavam lá em casa a governante das Laranjeiras. Ah, mas Gloria tinha o seu plano, não deixaria que a outra tomasse confiança comsigo. Uma alugada, uma mercenaria!

E dava-se ares de grande dama, muito atirada sobre os almofadões de pellucia, com uma expressão de desprezo afeiando-lhe a bocca e as suas faces rosadas, de criança. Realmente aquella attitude não era agradavel, o chapeu sobretudo incommodava-a mortalmente, e sentia enterrar-se-lhe nas costas, como um castigo, a ponta de um colchete. Supportou o sacrificio heroicamente, até que viu entrar na sala, com o modo mais simples e desembaraçado do mundo, uma moça, nem bonita nem feia, vestida de cinzento, com aventalzinho preto e um molho de chaves pendentes da cintura.

Gloria impertigou-se mais. Alice approximou-se d'ella sorrindo e estendeu-lhe as mãos, duas mãos muito brancas e longas. Gloria levantou-se, sem se dignar tocar nessas mãos, e disse com aspereza:

—Quero vêr o meu quarto.

Alice contemplou-a com tristeza e curiosidade; depois, voltando as costas:

—Siga-me...

Atravessaram o corredor, subiram uma escada e entraram em um quarto forrado de azul, com janellas abertas para os lados do Sylvestre e duas camas brancas.

—É aqui?!

—É aqui.

—De quem é esta cama?

—Sua.

—E aquella?

—Minha.

—Eu quero dormir sózinha; não sou medrosa. Arrange outro quarto para mim. Agora, tire-me o chapeu!

Gloria sentou-se na cama, brutalmente. Alice tirou-lhe o chapeu e endireitou-lhe o cabello. A menina foi ao espelho, achou-se bem penteada e lá no fundo da sua consciencia concordou que jámais sentira pousar sobre a sua cabeça mãos mais habilidosas. Voltando-se, contemplou Alice de alto a baixo, e perguntou:

—Quantos annos tem?

—Vinte e tres.

—Parece mais velha.

Alice sorriu.

—Eu tenho doze...

—Parece mais criança...

—Hein?! toda a gente diz que já pareço uma moça! É myope?

—Parece criança no juizo, minha amiguinha, e é por eu vêr muito bem que lhe digo isto... Não seja má... venha lavar as mãos; seu pae espera-a para jantar; não está ouvindo o tympano? É o signal...

Gloria tremia, sem atinar com a resposta para semelhante affronta. Depois, num desabafo:

—Você é muito grosseira!

Alice apoiou-se ás costas da cama e fechou os olhos.

—Bem diz vovó: sempre é mulher de annuncio!

—Quê?!

Gloria não respondeu, e correu, rindo ás gargalhadas, para a mesa do jantar.

Argemiro esperava-a de braços abertos.

—Ah! como a tua alegria me faz bem ao coração! Senta-te aqui e conta-me: por que te ris tanto?

—Por nada... átoa!

—Átoa! como é bom rir átoa!

Como eu preciso da tua innocencia ao pé de mim! Ri sempre, meu amôr!... Olha o guardanapo... Estás contente?... aqui tens o teu pãozinho... É a primeira vez que jantas sozinha com teu pae... que te parece? Olha a tua sopinha... Está a teu gosto?

—Eu não quero sôpa.

—Estás sem apettite?

—Eu não gosto de sôpa.

—Ah, aqui é preciso gostar de tudo, minha senhora! uma pessoa de educação nunca diz a uma mesa:—eu não gosto d'isto, eu não gosto d'aquillo... toma a tua sopinha... E agora dize-me: como achaste a D. Alice?

—Horrenda.

Feliciano sorriu, sorriu com tamanha indiscreção, que Argemiro reprehendeu-o com um olhar.

—Seja boa e é o que se quer... precisas tratal-a com delicadeza e amizade; ouviste? é, graças a ella que te tenho hoje aqui... Queres vinho? muito pouco... com agua... assim... Ora, a minha Gloria! Tomára já ver-te moça e tomando conta definitivamente d'isto tudo, para ter-te sempre aqui... sempre!

Gloria, que recusára a sôpa, comia agora com satisfação. O pae revia-se nella, todo contente.

A mesa estava bem posta; desde que Alice entrára não deixára de haver flôres e fructas ao jantar.

Gloria, confundindo a elegancia com o luxo, exclamou:

—Que mesa rica, papae!

—Se viesses jantar commigo antes da D. Alice estar aqui, não dirias isso, embora na mesa estivessem as mesmas porcellanas e os mesmos talheres. Repara nisto, minha filha, que a arte e o gosto dão ás coisas mais simples uma apparencia de conforto e de alegria muito agradaveis á vida. A minha mesa era triste... agora é assim!

Feliciano franziu as sobrancelhas, mal humorado. Gloria confessou:

—Lá em casa só se botam flôres na mesa em dia de visitas...

—Porque tua avó é uma senhora velha e cansada. Compete agora a ti esse trabalho. Informa-te com a D. Alice a esse respeito. Ella parece perita na arte de fazer bouquets. Repara para aquelle...

—Quem não sabe!

—Pensas que é facil?

—Tenho certeza.

—Pois então incumbo-te de fazeres todos os dias um ramo para a mesa de teu avô...

—Está dito.

Argemiro não cessava de olhar para a filha, num embevecimento de noivo, muito sollicito em servil-a, provocando-lhe as expansões, com uma alegria de moço. Ella percebia a adoração e abusava, ora rindo, ora franzindo o narizinho aos pratos que o Feliciano lhe apresentava.

Entre as peças da baixella figurava nesse dia na mesa do jantar um candelabro de prata fosca, que Argemiro reconheceu com difficuldade, tal era o tempo em que esse objecto vivêra segregado no fundo escuro de um armario. Na verdade, Alice caprichára em adornar a mesa! Seria uma homenagem a esse jantar de festa, só de dois talheres, para um homem quasi velho, e uma menina quasi moça?

Quando o Feliciano offerecia a Gloria uma fatia de coelho assado, ella exclamou, batendo com o cabo do garfo na mesa:

—D. Fuas morreu, papae!

Argemiro contemplou-a com espanto; mas desatou logo a rir deante da expressão de seriedade quasi comica da filha.

—O teu gato?

—O meu coelho branco... Todas as manhãs, quando me levantava, a primeira coisa que eu fazia era correr para o páteo da criação... D. Fuas conhecia-me e vinha para mim... eu levava sempre muita couve para elle, e gostava de ver aquelle focinhinho, toca que toca, mastigando a verdura... Hontem desci, e nada de D. Fuas! Procura para aqui, procura para alli, e fomos achar o coitado embaixo da paineira, todo esticadinho, e ainda mais branco porque estava cobertinho de paina... Então eu e a Emilia fizemos uma cova, forramos a terra com a paina limpinha, deitámos alli D. Fuas, tornámos a cobril-o com paina, depois com terra, e acabou-se!

—Choraste?

—...Chorei... mas vovô prometteu-me outro!

—Á saude do outro que ha de vir e que te consolará!

Argemiro bebeu convictamente á saude do coelho, como se o fizera á de uma illustre personagem. Como elle adorava e era grato a tudo o que alegrasse a vida da sua Gloriazinha!

Ouvia-a com tal interesse, que a chamma infantil dos olhos d'ella ateava-lhe n'alma curiosidades de criança, tambem. Eram dois meninos á mesa, áquella mesa que Alice enfeitara como para um noivado.

Passaram então a discutir as qualidades dos animaes predilectos.

Argemiro elogiou os gatos. Gloria repellia-os; preferia os cães e cães de fila, que mordessem os outros e a adorassem a ella! Confessou ter muito desejo de ver leões e elephantes. Contou que uma onça, fugida do Jardim Zoologico, andára rondando a chacara: mas que, visse o pae que exquisitice! ella só se lembrava de temer a féra á hora de ir para a cama, quando estava toda a casa fechada... De dia não; corria pela horta, pelo pomar... Mas á noite!...

—És medrosa?

Ella fez notar ao pae, com um olhar, o Feliciano.

—Que mulherzinha! pensou Argemiro; e riu-se. Embora quizesse, elle não pôde prolongar a demora na mesa; Gloria ardia de impaciencia; comêra muito depressa, com a idéa de andar pela casa toda, a sua casa, que ella dentro de poucos annos governaria... E relanceou um olhar de dominio em redor de si.

—Bem, meu amor, gira um pouco pela casa e vai depois fazer companhia á D. Alice...

Feliciano informou:

—Ella está jantando.

—Ella janta na cozinha? perguntou Gloria no tom mais natural do mundo.

—Não, filha; ella tem a sua mesa.

—Então cada criado aqui tem a sua mesa? Lá em casa...

Feliciano riu-se. Argemiro atalhou:

—Não digas mais. D. Alice não é uma criada; representa aqui a dona da casa.

—Tal qual como se fosse mamãe?

Feliciano olhou de esguelha para o patrão.

—Tal qual, não; basta dizer que á D. Alice eu não a vejo nunca, e que estava sempre ao pé de tua mãe; mas para manter a ordem da casa e dirigil-a, é como se fosse.

O ciume da avó relampejava agora nos olhos da neta. Gloria olhava para o pae numa attitude de desafio.

Toda ella crescera em um instante, como se a raiva a insuflára; e no momento mesmo em que ia formular um protesto, que lhe custava a articular, o padre Assumpção entrou na sala, dando risonhamente as bôas noites.

Argemiro despegou vagarosamente os olhos da filha e ficou por um bocado alheio a tudo o mais, sem responder aos cumprimentos do amigo.

—Que tens tu?! perguntou-lhe o padre, que lhe pousou no hombro a mão espalmada depois de ter abraçado a menina.

—Nada... Chegas a proposito; vem ao meu escriptorio. Gloria, vai tocar um pouco; experimenta o teu piano, emquanto D. Alice acaba de jantar.

—Eu não preciso d'ella!... resmungou a menina, dirigindo-se para a sala.

—Ouviste? Eu não preciso d'ella! A prevenção da minha sogra imbuiu no espirito de minha filha uma antipathia medonha por esta pobre moça que tenho em casa e que ainda verdadeiramente nenhum de nós conhece! Ora, eu preciso de uma mulher em casa, exactamente para poder chamar minha filha a mim, e gosar, embora fortuitamente, a sua companhia; e vêm-me a criança cheia de azedumes e idéas preconcebidas contra a unica pessoa a quem posso confial-a! Como ha de ser?

—Fazer com que se estimem.

—Mas como?! Sem convivencia, e com más insinuações... não ha amisade possivel. A minha filha tem ciumes! Herdou o tormento da mãe, que tão bem conheceste, e o unico defeito da avó... isto é, herdaram ambas, d'ella, o mesmo sentimento, porque só são ciumentas de mim! Minha sogra confessa nunca ter tido ciumes do marido, e, entretanto, não dou um passo em que não sinta a sua vigilancia!

A alma da filha parece ter-se incarnado nella, e é essa talvez a attracção poderosa que me chama a si... mas esse excesso de zelos vae estragar-me á pequena... Não imaginas o gesto de revolta que ella fazia no momento em que entraste, só porque eu prestigiava a governante! E agora?!

—Agora vaes sahir por umas duas horas, e eu ficarei seroando com a nossa Maria e a tal senhora.

Quero vel-as a ambas reunidas; não fazes obra acertada atirando tua filha, muito selvagem mas muito innocente, para os braços de uma creatura que tu não conheces... Convem estudal-a...

—Mas, homem de Deus! não me trouxeste, tu mesmo, as melhores informações d'essa tal senhora?

—Sim... disseram-me que é uma moça honesta... de boa familia... pobre... saude de ferro... Foi o que me disseram; mas isso bastará? Para governar teus criados, sim; para captar Maria e conviver, mesmo que por poucas horas, com ella... não!

—Neste caso voltamos á mesma. Despeço a mulherzinha e nunca mais tornarei a ter a minha filha aqui, commigo, só commigo, livre um bocadinho d'aquella atmosphera da chacara, que a faz tão malcriada... tão aborrecida e até antipathica. Acabou-se.

—Nada acabou; tudo começa agora. Foste sempre prejudicado pela tua impaciencia, homem! é tempo de te corrigires. Vai passear. Dizem que ha bonitas coisas ahi pelos theatros... resigna-te a perder um pouco do teu tempo indo ver qualquer d'ellas... Ahi tens o jornal, escolhe.

—Não tenho pachorra...

—Eu iria a uma magica. Contam maravilhas d'esta—Fada Azul...

—És um homem innocente!

—Sou padre... mas se te não diverte a magica, vae a outra parte, mas vae! Que diabo! lembro-te tão bom alvitre e ainda vacillas!

—Vaes aborrecer-te...

—Menos do que tu...

—É possivel...

—É certo. O teu chapeu está alli... queres que te procure a bengala?!

—Parece-te que estou á espera que me dês com ella no lombo para então sahir?

—Já me lembrei d'isso...

—Se não fosses padre...

—Não proporia zelar por tua filha com tamanho interesse...

—Por que?!

—Porque seria provavel que estivesse velando pela minha...

Argemiro levantou os olhos para o padre Assumpção, com uma pontinha de espanto, e mal lhe percebeu nos labios finos um fio subtil de ironica amargura.

—Está bem; cedo-te por instantes o meu logar e dir-me-ás depois se elle vale a solidão a que te condemnaste!...

O padre Assumpção desceu á sala onde Maria arranhava o teclado com uma furia de gata brava. Encostou-se ao piano, ouvindo as desharmonias d'aquella criança, em que elle sentia um vago perfume da saudade materna. Quão differente fôra a mãe, toda delicadeza e graça, do que era agora a filha! Na penumbra da sala reconstruia-lhe o vulto airoso e fino, que os bandós loiros illuminavam de uma luz branda, de sol de primavera.

Que linda a vira naquella mesma sala, áquella mesma hora...

Maria levantou-se com impeto. O padre Assumpção attrahiu-a a si e beijou-a na testa, com infinita ternura.

—O senhor está tremulo... Onde está papae?

—Teu pae sahiu. Manda accender o gaz da saleta e convida D. Alice para vir passar o serão comnosco.

—Não gosto d'ella...

—Por que?

—Não sei... e o senhor?

—Eu gosto de toda a gente, minha filha... de uns mais... de outros menos, mas não quero mal a ninguem. Vae pedir á D. Alice, com muito bom modo, que nos faça o favor da sua companhia por umas duas horas...

—Papae foi ao theatro?

—Não.

—Onde foi?

—Não sei... d'ahi, talvez tivesse ido ao theatro...

—Sem mim?!

—Sem ti.

—Que desaforo!

—Hein?! Ah! Maria, precisamos mudar de genio... Não te quero assim... faze o que te disse, anda.

—Vamos antes para a janella.

—Não. Vae chamar D. Alice.

—Ella é muito enjoada! muito feia!

—Seja como fôr; quero conhecel-a.

—Ah! se é só para isso! Que bicha!

Maria percebeu de relance que havia uma intenção occulta naquella insistencia e movida pela curiosidade acabou por ceder á ordem do padre.

E o serão correu tranquillamente. Alice trouxera a sua cestinha de trabalho e um livro de historias, confiando pouco nos seus meritos de conversadora.

Vendo que Maria se impacientava, propoz-lhe ensinar-lhe um ponto facil de crochet, com a lã do seu agrado, Maria repelliu o offerecimento; mas, aconselhada pelo padre, acceitou-o por fim. Ella detestava os trabalhos de agulha, que achava difficeis de comprehender. Alice tinha o condão de explicar tudo com tamanha simplicidade e clareza que a intelligencia mais rebelde se esclarecia ás suas palavras limpidas e teimosas. Maria interessou-se, por fim, tentada por uma meada de lã vermelha; e, ora vendo ora tentando fazer, guiada pelas mãos pacientes e ageis da moça, conseguiu aprender não só esse ponto como outro mais complicado.

—A senhora é paciente... Gosta de crianças?

—Muito!

—Tem irmãs pequenas?

Alice olhou para o padre Assumpção com ar de queixa. Para que interrogal-a, naquella hora distrahida, acordando-lhe a saudade da familia ausente ou perdida?

Foi isso que o padre pareceu sentir na expressão da moça.

Entretanto, ella disse:

—Tive... uma...

Como Gloria se atrapalhasse, tirou-lhe o trabalho das mãos, adiantando-o um pouco, para influir a menina.

—Repare bem; olhe... uma volta... outra volta... vou bem devagar... comprehende?

Maria arrancou-lhe a agulha e o novello das mãos com impaciencia, morta por fazer ella mesma o trabalho. O padre reprehendeu-a; Alice sorriu.

—Deixe... são todas assim!

Decididamente, esta rapariga não é uma rapariga vulgar, pensava de si para si Assumpção, olhando para a moça. Havia no seu vestido pobre, de lã barata, uma elegancia reservada e distincta. O cabello, sem frizados, de um castanho escuro, desnudava-lhe a testa clara, enrolando-se num penteado de uma graça discreta. As mãos bem tratadas, longas e pallidas, traçavam os gestos com firmeza de quem conhece o seu valor; e a sua voz, um pouco grave, tinha a doçura de uma queixa disfarçada. As feições vulgares não lhe offereciam nenhum traço caracteristico, e o padre Assumpção impoz-se penitencias, para castigar a sua vaidade, presumindo que na curta convivencia de duas horas, pudesse conhecer bem uma mulher! Começava a ter medo de sympathisar com esta, e que esse sentimento lhe tolhesse mais tarde acções imprescindiveis para a salvação do amigo e de Maria...

Conversaram os tres durante todo o serão. E afinal, qual foi o resultado de tantas palavras ditas e ouvidas? Nenhum... no serão o lucro correra todo para Gloria, que aprendera a fazer crochet e ainda ficara de uma assentada dona da agulha e da meada de lã.




V

Argemiro ouvia um constituinte no seu escriptorio da rua da Quitanda. A causa era chôcha; o homem expressava-se mal, perdendo palavras sobre palavras. O advogado deixava-o fallar, olhando silencioso para os raminhos azues do papel reles, como se pedisse ás paredes encardidas a paciencia de que deviam estar impregnadas.

Effectivamente, toda aquella casa, onde o cupim voraz trabalhava de parceria com os medicos especialistas, advogados e solicitadores, parecia derrear-se ao peso da sabedoria e da malicia.

Á noite, fechados os escriptorios e cubiculos, os ratos, passeando por aquelles corredores e alcovas desertas, commentariam as chicanas, as mentiras e os segredos, com que a sciencia transfigura a verdade e uns homens enganam os outros... E não seriam poucos os ratos, porque ás vezes, mesmo á plena luz do meio-dia, surgia de qualquer canto obscuro o focinhito agudo de um d'esses roedores mais curioso, como a querer tomar contas do que se passasse; e a sua murrinha vagava na casa, de frente a fundo, enchendo-a como uma alma.

O constituinte de Argemiro voltava ao principio da sua exposição; temia ter esquecido algum detalhe precioso, e a consulta era cara... foi num desses pontos de repetição que o criado apresentou ao advogado um cartão da Pedrosa.

—A mulher do Ministro!

Argemiro abotoou o collete de fustão e prometteu ao homenzinho que faria tudo por elle, mas que se fosse embora!...

O outro atropellou as ultimas perguntas e marcou nova entrevista.

Atravez a meia parede de tabique ouvia-se na sala proxima o frou-frou das sedas abafadas em lãs e um sussurro de vozes femininas. Logo, a Pedrosa não viera só... Argemiro não a via desde a noite em que fôra cumprimentar o marido pela sua nomeação. Que a traria alli?

O aroma do Bouton d'or introduzia-se pelas frinchas das portas, invadindo tudo, soberanamente.

Argemiro considerou aquelle aroma como muito indiscreto, mas gostou.

A Pedrosa afinal... Ora, com que então estava no seu escriptorio a mulher do Ministro!... elle ageitou o nó da gravata e foi recebel-a á porta. Ella entrou logo, com o olhar reprehensivo, o busto impertigado e um sorriso amigo na bocca descorada. Atrás d'ella vinha a filha, muito espigada, mais alta do que a mãe, com um arzinho petulante no rosto claro, de feições miudas.

—Seu mau! então é preciso que a gente o venha ver aqui?!

—Oh, minha senhora...

—Não se desculpe, nem me agradeça a visita.

D'ahi rompeu a fallar, queixando-se de não ter o marido um minuto de descanço que lhe permittisse tratar dos seus negocios particulares, vendo-se ella na contingencia de intervir, como fazia agora, a contragosto... Ia consultar o advogado e o amigo...

Argemiro agradeceu.

Emquanto a Pedrosa remexia na sua bolsinha de camurça, procurando um documento qualquer, o advogado olhou para a Sinhá, que não desviava o olhar de cima d'elle, numa expressão perturbadora, de mulher amorosa.

—Diabo! pensou elle comsigo.

A consulta representava um pretexto. O negocio dispensaria a intervenção do advogado; todavia, a Pedrosa parecia não se importar de passar por estupida: repetia as perguntas com uma difficuldade de comprehensão que dava tempo á filha de espichar a alma pelos olhos fóra.

Mas o coração do viuvo parecia fechado a sete chaves e duro como uma pedra. Sinhá levantou-se, deu um giro pelo escriptorio, riu, fallou, interrompeu a mãe e sentou-se depois mais perto do Argemiro, deixando-lhe cahir de encontro a um joelho, por descuido, a sua linda sombrinha de seda e rendas brancas.

Como o assumpto da consulta já não désse de si, a Pedrosa embarafustou por outras portas: as ultimas récitas do Lyrico, o jantar do Presidente, o casamento do Angelo Barros... aquelle Angelo que dizia ter feito tambem o juramento de ficar solteirão!

E a proposito a Pedrosa perguntou ao Argemiro quando teria de assistir ao seu...

—Eu já me casei, minha senhora...

—Sabemos; mas ser viuvo é como ser solteiro...

—Estou velho...

—Pois sim, a verdade é que eu conheço mais de uma moça bonita que se daria por feliz se o senhor a escolhesse... Olhe, na festa da apresentação de Sinhá, houve uma que ficou enfeitiçada pelo senhor.

Mãe e filha trocaram um olhar e riram alto. Depois, a Pedrosa continuou:

—É raro o homem que enviuva que se não torne a casar; o que é a melhor prova a favor das mulheres... Ora, o seu coração por que ha de ser mais insensivel que os dos outros? Um segundo casamento é ainda uma homenagem ao primeiro... Só procuramos repetir os actos que nos trazem felicidade...

—Será assim, mas o meu coração é pequeno para as saudades que tenho. Está todo occupado pela minha morta...

Sinhá levou o lenço ao rosto e uma nuvem de Bouton d'or adejou pela feia sala do escriptorio. Argemiro percebeu o movimento e deliciou-se com o aroma. Que significaria aquelle gesto? Colheria o lenço uma lagrima ou disfarçaria um sorriso? Seria elle realmente amado por aquella criança, ou simplesmente preferido por aquellas mulheres como um marido de posição? Deveria ter pena, ou deveria ter nojo?

Ah! a pobre Sinhá talvez não tivesse culpa; quem era odiosa era a mãe, que assim o vinha provocar no logar do seu trabalho arrastando pelos degraus carunchosos d'aquella casa de homens, a sua filha solteira, apenas sahida do collegio! Mas a verdade era que o olhar da pequena perturbava-o, mais pela sua expressão, que pela sua fixidez. Obedeceria ella á suggestão da mãe, ou agiria a mãe em obediencia a uma supplica da filha? Argemiro, apesar de lisonjeado na sua vaidade de homem, começou a desejar a sahida das duas senhoras; mas a Pedrosa não parecia apressada e entrou pela seara da politica, como entrára pela do amor.

Acertou no ponto de fascinação. Ella estava bem informada; Argemiro abriu ouvidos curiosos e dobrou-se na cadeira para escutal-a de mais perto. Ella era indiscreta, por ser com elle... pedia segredo de algumas affirmações, mostrando-se de vez em quando em opposição a actos do marido...

—Pedrosa morre por servil-o em qualquer coisa... veja se inventa um pedido, para contental-o... concluiu ella, levantando-se com um arzinho malicioso nos olhos espertos.

Sinhá imitou-a, quebrada de languidez, como desanimada...

Argemiro observou-a de face; ella baixou os olhos, corando. Estava galante.

—Recebemos ás sextas-feiras e Sinhá tem umas amigas novas que desejam conhecel-o... o senhor anda muito arredio, mas nem só de saudades vive o homem... é preciso distrahir-se e ser amigo dos seus amigos! Até sexta-feira?

—Até sexta-feira.

Sahiram, e ainda por alguns minutos vagou na atmosphera o aroma d'ellas. Argemiro poz-se a remexer nos seus papeis, pensando:

—E haver quem se case assim, pescado, pescado como um peixe! Não seria mais digno que a Pedrosa viesse a mim e dissesse: minha filha ama-o desde a primeira vez que o viu; o senhor convem-me para genro; quer casar com ella?

Elle mesmo se riu da idéa. Essa innocencia de costumes só passaria pela cabeça de um doido; e de mais pol-o-ia em embaraços. Que responderia elle á coitadinha?

D'ahi, talvez que tudo fosse velleidade sua. Os seus cabellos começavam a estriar-se de branco e Sinhá deveria ter ideaes moços... Fôra com certeza illusão... Não lhe faltariam a ella, bonitinha e moça, bons partidos. Todavia...

Apoderou-se d'elle uma doce tristeza. Não poderia amar nunca mais! Nunca mais? Fôra tamanho o encanto da sua Maria, que nenhuma outra mulher tivesse jámais o poder do o emocionar?

Nenhuma! Ella perdurava no seu espirito como o conjunto de todas as perfeições. A sua figura esguia e branca, que a cabelleira aureolava de ouro pallido, plantara-se no seu coração como uma sentinella prompta a repellir á invasão de um sentimento amoroso, por mais leve e subtil que elle fosse.

O continuo voltou, annunciando novo constituinte.

Nas suas tócas os ratos faziam provisão de assumptos para os commentarios da noite, nos livres passeios das salas e corredores... e o novo consultor fornecer-lhe-ia materia para ironicas conclusões: era um velho que procurava salvaguardar os direitos da sua casa de jogo encapado em disfarces, com que espoliava incautos e viciosos. Argemiro indicou um collega mais habil no assumpto. O outro sahiu, elle poz-se a ler, á espera do Caldas para um negocio de valor.

Razão tinham aquellas paredes para parecerem desgostosas e estarem enxovalhadas. Só a torpeza que rolava entre ellas!




VI

Desde que fôra entregue aos avós, era a primeira vez que Maria da Gloria dormia fóra de casa. A baroneza morria de impaciencia por vêl-a voltar; á tristeza da ausencia juntava-se um cuidado que a punha doente. Que teria succedido á sua netinha, longe do seu carinho e da sua vigilancia? Se ella chegasse com febre! Que idéa maldita a de tirarem a criança d'alli, para a metterem na cidade, por uma noite inteira!

Mas a Maria chegou alegre. Saltou do carro sobraçando um grande embrulho de pasteis.

A baroneza estendeu-lhe os braços, com os olhos luzindo de alegria.

—Vem, meu amor! Eu estava com tantas saudades!! Coitadinha...

—Coitadinha por que, vovó?! Eu estou boa. Gostei muito!

—Ah, gostaste muito... Então não tiveste saudades minhas...

—Tive, mas gostei. Tome estes pasteis, são muito bons.

—Eu tambem tenho um doce guardado para ti.

—Onde está?

—Depois... escuta, conta-me o que fizeste.

—Passeei com papae, toquei, brinquei... Já disse: gostei muito!

—E...

—E... e o que?!

—A tal... a tal mulher, como a achaste?

—D. Alice? É tão boa! sabe? hontem ella me ensinou a fazer crochet, e deu-me depois a agulha e o novello de lã!

—Ora que prenda, crochet! Eu não aprecio isso. Ella é bonita ou feia?

—É bonita!

—Ah...

Maria percebia bem que a avó não estava contente; mas continuava a açular o seu ciume, com maldade.

—Tomaste banho hoje?...

—Tomei. Foi D. Alice quem me penteou. Sabbado voltarei para lá, sim, vovó?

—Já?! mal chegaste já pensas em voltar!

—D. Alice pediu...

—Ora, D. Alice!

A baroneza retinha a neta a custo entre os braços. Maria tinha pressa de ir ver os coelhos e verificar se lhe tinham apanhado uma bella manga-rosa que ella trazia de olho havia dias...

—Socega, menina! Olha para mim!

—Estou com pressa...

—Deixa-me tirar a faixa... como este laço vem mal dado... não has de ir com este vestido para o quintal!

Que penteado! logo se vê que a tal mulher não tem geito para tratar de crianças!

—Como não tem?! É tão delicada...

—Dize-me cá: em que quarto está dormindo?

—No quarto azul...

—Da sala de jantar?!

—Não. Em cima, aquelle do terracinho.

—O gabinete de trabalho de Maria! Será possivel? Para uma empregada, um quarto tão bonito...

E tu, onde dormiste?

—Ao pé d'ella.

—Na mesma cama?!

—Não; mas no mesmo quarto...

A baroneza suspirou. Ella não pudera conciliar o somno, em frente á cama vasia da neta! e a criança ingrata, ao lado da inimiga, nem pensara nella!

O trabalho da baroneza seria agora afastar Maria quanto possivel da idéa de voltar á cidade. Disputal-a-ia á outra, a ferro e a fogo. A verdade é que Maria exagerava a sua sympathia por Alice, por perceber o desgosto da avó, assim como se comprazia em torturar Alice na ausencia da baroneza...

No meio d'essa semana o Feliciano foi, a mandado de Argemiro, levar uma carta á chacara dos velhos.

Gloria corria pela checara; o barão lia sob alpendre e a baroneza, a seu lado, serzia meias, socegadamente. O negro, todo emproado e bem vestido, entregou a carta á velha, que foi a mais prompta em estender a mão.

—Então, Feliciano, como vae tudo por lá?

O negro sorriu, meneou a cabeça e calou-se.

—Que temos? indagou o barão.

—Uma carta do Argemiro; pede-me que não me esqueça de mandar Maria no sabbado!...

—Pois lá a levarei.

—Não póde ser. Vou no domingo com ella á Tijuca; já está isso decidido.

—Tijuca! que idéa é essa?

—É uma idéa como outra qualquer! Estou sempre como os caracoes mettida em casa, e quando fallo em sahir lá vem tudo a baixo!

—Estimo que saias; mas que diabo! vae noutro dia á Tijuca e deixa a pequena ir vêr o pae no sabbado, como se combinou.

—Ha muitos sabbados; neste ella não poderá ir. Elle que venha jantar comnosco no domingo.

Eu vou almoçar á Tijuca com a minha neta e voltarei ás quatro horas para casa. É uma promessa.

—O Argemiro póde ficar sentido...

—Que fique. Eu preciso mais da neta que elle da filha. Lá tem outras consolações...

O Feliciano sorriu e approvou com a cabeça. O barão levantou-se e foi para o escriptorio responder ao genro. Antes mesmo que a baroneza perguntasse qualquer coisa, o Feliciano resmungou:

—Aquella casa já não parece a mesma... se a senhora visse! Até me dá saudades de quem está no céu!... Pobre de quem morre!

A baroneza suffocou o desejo de indagar do criado aquillo que mais queria, e recomeçou a trabalhar, limitando-se a offerecer:

—Entre, Feliciano; vá lá dentro tomar uma chicara de café.

—Obrigado; tomei lunch lá em casa antes de sahir... apesar de que agora anda tudo muito contadinho...

—Isso é bom. O tempo não está para estragos...

—Sim, mas poupa-se de um lado para se gastar do outro; afinal, para o patrão as despezas talvez sejam maiores... D. Alice tem uma récua de parentes pobres... Para a gente ás vezes o pão não chega, entretanto não bate bicho-careta na porta que ella não dê do bom e do melhor do armario. Até vinho.

—Até vinho! exclamou inconscientemente a baroneza; e logo, reprimindo se: a caridade é aconselhada por Deus...

—Mas deve começar por casa... A senhora não diga nada ao patrão, porque elle agora é só: D. Alice na terra e Deus no ceu!

—Ah...

—A senhora sabe que eu sempre fui um empregado de confiança, que punha e dispunha de tudo como entendia; pois hoje não posso mover uma palha, que não me tomem satisfações. Ella, com o seu modo de santinha, faz tudo quanto lhe dá na cachóla! Eu não gosto de fallar, mas... ha certas coisas... hontem não affirmo, mas pareceu-me que D. Alice trazia no peito um alfinete...

A baroneza pousou a costura nos joelhos e levantou os olhos para o negro.

—A senhora não se lembra de um alfinete que Yayá sua filha gostava de usar e que representava uma andorinha de pedras?

A velha corou até á raiz dos cabellos e abriu a bocca, como se lhe faltasse o ar.

—Não diga nada ao patrão, pelo amor de Deus! eu não affirmo... Póde ser outro alfinete... sómente...

—Cala-te!... É impossivel que as coisas chegassem até esse ponto!... Oh! minha filha!

—A senhora perdôe... mas acho do meu dever...

—Eu fallarei a Argemiro!

—Pelo amor de Deus! a senhora me perde! Deixe eu adquirir certeza e depois lhe direi toda a verdade... juro por quem está no céu! Lá vem seu barão... não diga nada a elle tambem!

—Por que não? estás doido! Se não mentes, não deves temer coisa nenhuma!

—É porque assim serei despedido e não poderei velar de perto pelo interesse de D. Gloria...

A baroneza já não ouviu as razões do preto e gritou para o marido, num desabafo:

—Sabes o que me disse o Feliciano?! Que a tal Alice se empavôa com as joias de nossa filha, joias que só podem ser usadas por Maria! Vê a que ponto chegou aquillo! E ainda querem levar a minha Gloria para lá! Nunca mais!

O barão voltou-se furioso para o negro, que repetia afflicto as suas palavras:—não affirmo... parece-me... não digam nada, pelo amor de Deus!

—Vá-se embora! E não me torne cá, seu patife! gritou-lhe o velho, fóra de si. Não queremos saber de nada, ouviu? De nada! Suma-se!

A baroneza interveio a favor do rapaz, aconselhando-o a calar-se; entregando-lhe a resposta escripta pelo marido, accrescentou:

—Gloria não iria, nem nesse domingo nem em nenhum outro! Passassem por lá sem ella! Era o que faltava!

Foi exactamente nesse instante que a menina, percebendo o criado do pae, correu para elle com um ramo de rosas na mão.

—Você já vae, Feliciano?

—Já, sim senhora...

—Bem; então leve estas rosas a D. Alice!

A baroneza fez um gesto para impedir tal incumbencia; mas o barão travou-lhe do braço:

—Deixa-a lá.

—Minha pobre filha, exclamou a baroneza olhando para o céu; não sei como hei de defender-te sózinha!

E os olhos encheram-se-lhe de pranto.

—Lagrimas, ahi temos lagrimas! Mas, querida, repara que a nossa Gloria não offendeu em nada a memoria da mãe e lembra-te tambem de que, se fôr verdade o que pensas, o Argemiro é rapaz, não póde guardar a castidade de uma menina... Que mais queres?

Amou a nossa filha, fêl-a feliz durante a vida e isso basta para lhe sermos muitissimo gratos.

—Que favor!

—Se ella vivesse, estou certo de que elle lhe seria fiel... mas d'ella já não resta senão a memoria. Os homens são vários, não exijas d'elles virtudes que não podem ter... Almas immaculadas só as das mães.

—Para mim, Maria existe, sinto-a tão viva na minha saudade, que trahil-a me parece uma profanação!

—Exactamente, porque és mãe.

—Não achas tambem indigno que elle dê as joias da mulher a uma rapariga de maus costumes e que metteu em casa, precisamente na casa onde viveu a outra e que está ainda toda cheia d'ella?

—Parece-te a ti. Elle, o viuvo, deve ter sentido o isolamento d'aquella casa, onde por nove annos viveu sózinho! Nove annos não são nove dias. Outro fosse elle... De mais a mais no Rio de Janeiro, que é a terra da tentação!

—Defendes o Argemiro!

—Tu havias de comprehendel-o e dar-lhe razão se...

—Se eu fosse homem...

—Ou se não fosses mãe de Maria...

—Maria! Acredita, ella renasce todos os dias, sinto muitas vezes o peso d'ella sobre os meus joelhos, ou nos meus braços, como quando a adormecia... Vejo-a desde pequenina, e de quando andava por ahi correndo com o seu bibe branco e o cabello solto, lembras-te? Tão linda! até depois, já mocinha... e sempre, sempre, tenho-a commigo, só commigo! Ás vezes sinto nos dedos a seda dos seus cabellos tão finos e no rosto a doçura dos seus beijos...

Sei que é illusão, mas quem nos diz que no mundo não seja tudo illusão?

A alma perfeita e amorosa de Maria não está longe de nós, mesmo que esteja no céu. É a minha convicção.

—Uma alma perfeita perdôa todas as offensas.

—Mas soffre. Imagina a dôr, se do outro mundo ella vê o marido pregar amorosamente as suas joias ao peito de outra mulher, e que mulher, uma mercenaria!

Maria foi ciumenta... Argemiro foi o seu unico amor!

—Está bem; mas não acredites que elle tenha dado as joias da mulher á outra...

—O Feliciano viu...

—O Feliciano é um despeitado.

—Quando te parece, és cego e és surdo!

—Todos devem sêl-o em certas occasiões!

—A tua opinião é talvez que me cale!

—Que te cales e que mandes a nossa Gloria todos os sabbados visitar o pae. Elle assim o quer e manda, faça-se a sua vontade.

—Isso nunca! Seria uma desmoralisação! O meu dever é velar por minha neta!

—Argemiro é um homem sério e muito amigo da filha.

—E nós?

—Nós só somos responsaveis por ella para com o pae.

—E perante Deus!

—Deus... A proposito de Deus: pedi na carta ao Argemiro que trouxesse no domingo o Assumpção.

—Padre Assumpção... que idéa! Se lhe fallassemos?

—A que respeito?

—A respeito das joias... Elle aconselhará o Argemiro e indagará de tudo...

Se não estiver tambem fanatisado!

O barão riu-se.

—Faze o que quizeres; eu lavo d'ahi as minhas mãos.

A baroneza, resolvida a agir, sentiu-se subitamente reanimada. Ella iria até ao inferno pela sua idéa. Defenderia, custasse o que custasse, a sua morta!

Nessa mesma tarde telegraphou ao padre chamando-o.




VII

O domingo amanhecera de chuva; um bom dia para preguiça. Argemiro escreveu aos velhos desculpando-se por não ir vel-os e deliberou consagrar essa manhã aos seus papeis em desordem. Fôra uma providencia Gloria não ter vindo.

Com tão feio dia...

A verdade, que elle sentia, que o penetrava por todos os póros, era que a sua casa nunca lhe soubera tão bem. Havia um conforto novo, um aroma de malva ou de pomar florido, melhor luz, melhor ar, por aquelles compartimentos que o Feliciano, quando sózinho, enchia do cheiro de cigarros e de charutos. Sempre era um fumante!

Agora não; percebia-se que o ar d'aquelles quartos tinha sido renovado e o ambiente purificado pelas roseiras abundantes do jardim.

Argemiro sentiu nessa manhã, pela primeira vez, uma certa curiosidade de ver Alice; mas não procurou pretexto para isso, certo de que, estando muitas horas em casa, forçosamente esbarraria com ella por acaso. Deixava pois, e de bom grado, a esse senhor a responsabilidade do encontro. Dahi, a idéa da moça trazia-lhe á lembrança umas pobres botinas cambadas...

O seu gabinete reluzia de asseio, cheirava bem, não precisava de mais nada.

Começou tranquillamente a leitura dos jornaes.

Estava em meio de um artigo quando o padre Assumpção bateu á porta.

—Então! preguiçoso!

—Entra. Como vês! Tens razão, preguiçoso! E nunca tanto como agora... absolve-me e senta-te.

—Cá estou... bravo, como esta cadeira está bonita!...

—Que cadeira? homem, é verdade... has de crêr? Ainda não tinha reparado... agora me lembro, ella tinha o estofo do espaldar esgarçado...

Este lirio seria pintado por D. Alice?

—Se t'o não pôz na conta do estofador...

—Posso verificar já. Hontem á noite recebi uma caderneta com a nota das despezas do mez e... pasma, saldo a meu favor!

Eu não dizia que o Feliciano era um abysmo? Que differença! basta olhar. Tu, que és mais observador, repara: está tudo luminoso, tudo limpido, tudo bem arranjadinho... hein? Ha outra atmosphera nesta casa; estou melhor aqui do que em parte nenhuma, porque em tudo me parece haver o proposito de me ser agradavel. Abre essa gaveta, e verás como está bem arranjadinha a minha roupa branca.

Um primor!

E o que me dilicia, é sentir a alma d'esta creatura, que aqui tenho embaixo do meu tecto, sem que nunca os meus olhos a vejam nem de relance... Ella esconde-se, ao mesmo tempo que se espalha pela casa toda. É a mulher-violeta, positivamente, não ha outra comparação! Esta será estafada em litteratura, mas na vida pratica talvez nunca tivesse tão boa applicação... A Gloria, que é tão rebelde, já aprendeu com ella alguma coisa... Faz crochet!

É uma coisa abominavel, o crochet; mas, emfim, é uma prenda... Eu deveria ter tomado esta resolução ha mais tempo...

Talvez não tivesse vindo esta mulher... Outra seria assim?

—Não! Hontem, por exemplo, entrei em casa uma hora antes da do costume; atravessava o jardim, quando senti accordes no piano; mas accordes bem harmonicos, vibrados por dedos disciplinados, conscientes. Ouvindo-me tocar a campainha, ella fugiu da sala; e quando eu entrei, um pouco curioso, confesso-te, encontrei o piano aberto, mas a sala deserta... Logo, esta mulher é uma mulher educada: desenha, ahi está esse lirio, que o prova; sabe musica e escreve com firme calligraphia.

Gloria tem aqui uma excellente companheira e a minha casa uma alma intelligente, que lhe faltava desde a morte de Maria, que aliás não era tão prendada... Emfim, emquanto eu me visto, examina essa caderneta, acolá, naquella mesa...

—Para que, meu velho? Só a ti compete isso. Eu não entendo de cifras. Mesmo de almas, apesar de me ter dedicado a ellas, cada vez entendo menos... Estou um ignorantão.

—Almoças commigo? Almoças, sim, e vaes vêr o que é uma mesa bem posta; sempre com flôres e com fructas. Esta mulher deve ter sido criada com luxo. Noto que ella gosta de rendas... Emfim, estou contente!

—Lamento.

—Hein?

—Lamento.

—Estás doido!

—Não.

—Explica-te. Ah! já sei! Pensas talvez que estou apaixonado?! Quem me dera, Assumpção, que assim fosse! Não sei que filtro mysterioso tinha a minha pobre Maria, que não me deixa amar mais ninguem!... Se eu fosse espirita explicaria isso bem, dizendo-te que a sinto á roda de mim, e que ella se interpõe mesmo entre os meus mais frivolos beijos!

Mas sabes que não sou espirita, nem religioso. O que me apraz, nesta situação, é sentir em roda de mim a influencia de uma mulher moça, sem comtudo a vêr nunca. Gosto do silencio e da ordem e a sua presença me perturbaria; assim, ella preside á minha casa, sendo para mim como um ser immaterial, que não me impõe a maçada dos cumprimentos, e eu vivo rodeado de solicitudes, podendo conservar a minha impassibilidade. Não acredites que me seja possivel amar outra mulher, como amei a minha... O ciume d'ella creou tantos fantasmas que eu mesmo acabei por temel-os!

—Pois foi para espantar um d'esses fantasmas, que tua sogra me chamou hontem. Jantei lá em cima.

—Sim?! E Gloria? como a achaste?

—Perfeita, isto é, perfeita quanto ao physico. Parece uma maçã madura. Até a pelle lhe cheira a fructa! Mas escuta: a baroneza, como toda a gente, menos eu, desconfia que tens pela tua governante uma adoração menos espiritual.

—Já me tardava, o ciume! Maria vive naquelle coração como no meu!

—Folgo que a comprehendas e a desculpes... que tencionas fazer?

—Nada. Affirma-lhe tu que não existe ligação absolutamente entre essa pobre moça (que conheces muito melhor do que eu) e o viuvo da filha...

—Já affirmei.

—E então?

—Não se contentou...

—Achas então que devo despedir esta senhora, que me torna a vida agradavel, facil e boa, só por um capricho da minha sogra?

—Acho.

—Ora! isso é levar muito longe a minha affeição filial!

—É uma medida de prudencia...

—Mas se eu já te disse que estamos na mesma casa e é como se morassemos a cem leguas um do outro! De que côr são os seus olhos? nem sei. Dize a minha sogra que farei tudo por ella, menos isso... Com o governo da minha casa ninguem tem nada que vêr. Nada! Lê a caderneta, que é melhor. Verifica como tudo isso está em ordem, direitinho... Nem um guarda-livros!

—Não digo que não. Amanhã terei de ir fallar com tua sogra, a respeito de um logar que arranjei no Asylo, para uma criança sua protegida. Desejaria levar-te em minha companhia. Ha algum tempo que não appareces por lá. Ella adora-te. Farás bem em socegal-a... Por hoje basta sobre o assumpto. És ainda moço, Argemiro, e o tempo fará o milagre que desejas... Temos outra conversa de interesse: Terás porventura entre as joias de tua mulher algum alfinetinho, ou broche, não sei bem como se chama, que possas levar á nossa Gloria? Ella deu bem as suas lições, segundo me disse o avô, e seria justo recompensal-a. Para incitamento, prometti-lhe que lhe levarias uma lembrança que tivesse pertencido á mãe... Sobretudo, é naquelle coração que se deve cultivar a adoração d'ella...

Contraria-te a idéa?

—Não será cedo para dar joias á minha filha?

—Conforme a joia; vamos vêr... onde as tens?

—No cofre. Espera... ou antes, vem commigo.

Entraram para um gabinete contiguo e emquanto Argemiro escolhia a chave do cofre, Assumpção estremeceu á idéa de poderem verificar um roubo...

Feliciano vira no peito de Alice um alfinete de Maria... a baroneza o dissera. Logo, se as joias faltassem...

Era uma andorinha de pedras...

Senhor! uma minuscula andorinha de pedras teria o poder de fazer tremer um homem?!

A chave rangeu na porta do cofre e Argemiro tirou de dentro uma caixa de setim branco, amarellecido, que levou para cima da mesa.

—Ha quanto tempo não mexo nisto! Faz-me saudades... Escolhe tu...

—Não... escolheremos juntos...

Argemiro abriu a caixa e logo Assumpção suspirou de allivio vendo reluzir as pedrarias dos anneis e das pulseiras.

—Ella tinha muitas joias... gostava de brilhantes... e a Gloria, por emquanto, ainda não póde usar brilhantes... disse Argemiro.

Collares, broches e pulseiras iam sendo retirados do cofre, com a maior attenção, num silencio commovido.

Quantas vezes a dona lhes sorrira e os deslumbrára no meio d'aquelles adereços?

Não brilhava tanto uma estrella, como os seus cabellos de ouro coroados por aquelle diadema... os anneis faziam-lhes saudades dos seus dedinhos pallidos e meigos.

De repente, Assumpção gritou com jubilo:

—Este!

—Este? É tambem de brilhantes...

—São uns diamantinhos modestos. E depois representa uma avezinha innocente, symbolo da primavera... leva-lhe esta andorinha, e colloca-a tu mesmo no peito de tua filha, em nome de sua mãe...

—Mas que tens tu? estás tremulo, com os olhos razos d'agua!

—Abraça-me, meu velho. Tambem eu tive saudades de Maria... Que queres?

—Eras o seu confessor... e agora, com franqueza, dize-me: um homem que foi casado com um anjo d'aquelles, póde jámais pensar em outra mulher?

—Póde; e pensarás e has de ser feliz. Quem sabe? talvez mais!

Argemiro olhava para o padre, com certo espanto.

—Agora fecha a caixa e apressa a tua toillete. Lembra-te que estou em jejum e com fome...

—Vae descendo... Eu irei ter comtigo num minuto.

Momentos depois sentavam-se á mesa. Alice armára uma cestinha de flôres e fructos, entrelaçando-as com umas pontas de renda. Argemiro apontou-as com o dedo:

—Lembras-te do que te disse lá em cima? Gostos finos... rendas... flôres...

Padre Assumpção sorriu, acenou que sim, desdobrou o seu guardanapo e começou:

—Um pouco de politica: ouvi dizer que o...

Um criado interrompeu a phrase, servindo os hors d'œuvre; mas logo depois a palestra enveredou afoitamente pelos labyrinthos da Camara e do Senado.




VIII

Provada a intriga do Feliciano, recomeçaram as visitas de Gloria ás Laranjeiras. A baroneza exigira segredo do que se passara, desejosa de que Argemiro conservasse em casa o criado, que já o fôra da filha. De resto, ella estava intimamente convencida de que o negro não mentira, mas se enganara. Convinha-lhe tel-o de guarda naquelle lar em ruinas, como se á sua voz de alarme ella pudesse correr e ainda salvar alguma coisa!

A verdade, que percebia sem a confessar, é que a neta lucrava muito na conveniencia de Alice. Ella perdia aos poucos aquelles modos aggressivos de criança malcriada, começava a interessar-se pela vida e a abrir os livros com mais frequencia. E já não lhe bastavam as visitas curtas, do sabbado para o domingo; desejava extendel-as agora até ás segundas-feiras, cujas manhãs aproveitaria em passeios com a governante do pae.

A Baroneza protestou indignada:

—Mais essa! andar uma menina de bôa familia, collada ás saias encardidas de uma mulher suspeita, por essas ruas da cidade! Não faltava mais nada...

Padre Assumpção interveio:

—Consinta na primeira experiencia. D. Alice parece-me severa e digna de toda a confiança. Confesso-lhe que sinto uma certa curiosidade pela direcção que ella vae dando aos gostos da nossa Maria... Prometto velar pela sua neta.

—Ah! Padre Assumpção, a Republica estragou nossa terra! Agora qualquer creatura parece digna de toda a confiança... Quem nos dirá quaes as tenções d'aquella creatura? Por mim tenho medo, apesar da sua vigilancia...

Gloria zangou-se e fugia, aos repellões, dos braços da avó. Não haveria remedio senão ceder á vontade da criança, e a Baroneza cedeu, molestada, enfraquecida.

Na primeira segunda-feira o padre Assumpção recebeu muito cedo uma cartinha da Baroneza:

«Gloria está nas Laranjeiras; é hoje o dia determinado para o seu passeio. Confio-a á sua guarda; olhe por ella.—Luiza».

Assumpção telegraphou a Alice. Esperal-a-ia no largo do Machado, ás tres horas.

Logo que Maria deparou com o seu grande amigo sentado sózinho em frente á estatua, correu alegremente para elle e afogueada, risonha, abraçou-o com força. Elle mal teve tempo de interrogal-a e já ella, revelando uma piedade até então occulta no mais fundo do seu peito, lhe contou o que vira, toda enthusiasmada. Vinha do Instituto dos Surdos-mudos.

—Ah, padre Assumpção, eu não sabia que havia gente assim, fechada dentro de si mesma, como me explicou D. Alice. Que desgraçados seriam se não houvesse aquella casa tão boa, e onde elles conseguem aprender tudo, como os homens perfeitos! Como a gente tem vontade de ser boa, quando vê coisas d'essas!

E tremula, loquaz, desatou a descrever as aulas, as officinas, os dormitorios do estabelecimento, e os grupos dos alumnos, risonhos, limpos, socegados...

Padre Assumpção voltou-se para Alice, que, sentada a seu lado, riscava a areia do jardim com a ponteira do chapeu de sol.

—A senhora já foi preceptora?

—Nunca...

—Não podias ter empregado melhor o teu dia, minha Gloria; agradece a D. Alice ter-te feito conhecer infelizes, cuja existencia, como disséste, desconhecias... e que te despertaram tão bons desejos... Agora, vamo-nos embora, que tua avó deve estar impaciente!

Maria beijou Alice na bocca, e ainda, depois, voltou-se da rua para lhe dizer adeus com a mão.

Que differença entre esta despedida e o seu primeiro encontro...

Padre Assumpção ia calado, meditativo. Que especie singular de mulher era aquella, que, com tão alto senso de moral, se sujeitava ao papel de governante da casa de um viuvo só? Humilhada em sua posição, maltratada por aquella menina orgulhosa, ella ia chamando habilidosamente a sua sympathia para os pobres e os infelizes. Seria por despeito ou por outro motivo mais maternal e em que a sua personalidade offendida não tomasse parte? Fosse qual fosse a razão, a verdade é que aquella simples visita a um instituto do seu bairro valera por todos os sermões com que elle procurara abrandar o coração altivo de Gloria. O tacto subtil d'aquella mulher começava a encantal-o; mas vinha-lhe medo de suggerir ao amigo essa impressão. Argemiro estava com o coração repousado, facil lhe seria o apaixonar-se e o padre não se esqueceria, cem annos que vivesse, das ultimas palavas trocadas por elle e a mulher moribunda:

—Jura que te não tornarás a casar!

—Juro.

—Jura por Deus!

—Juro pelo teu amor, juro por Deus!

Fragilidade do coração humano, porque has de ser agrilhoada por palavras de ferro que se não podem partir?!

Toda a scena da morte de Maria se reproduzia da memoria do padre, alli chamado para a ultima bençam. O som da voz d'ella ficara-lhe para sempre no ouvido, como nos olhos a sua imagem pallida... E não fôra elle só a testemunha d'aquella terrivel promessa: a mãe e o pae da moribunda ouviram com elle a voz de Argemiro, no inquebrantavel juramento!