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A Invenção do Dia Claro cover

A Invenção do Dia Claro

Chapter 41: +A VERDADE+
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About This Book

A series of short essays, manifestos and lyrical fragments unfolds a personal and polemical meditation on art, language and modern life. The narrator mixes autobiographical anecdotes, theatrical addresses, and imagined pedagogies to argue for renewed attention to painting, the invention of forms, and the creative use of words. Recurring motifs include the crafting of books and tools, the pedagogy of mastery, and playful reflections on gendered images, travel, and the history of language. The tone shifts between ironic provocation and intimate confidence, aiming to initiate readers into a practical and aesthetic program for artistic renewal.

+UMA FRASE QUE SOBEJOU+

Quando copiei pela ultima vez a Invenção do Dia Claro, sobejou uma frase que não me recordo a que alturas pertence. A frase é esta:

Ha systemas para todas as coisas que nos ajudam a saber amar, só não ha systemas para saber amar!

NOTA—Seguem-se as démarches para a Invenção. Foi-nos completamente impossivel incluir na presente edição as démarches. No entanto, reproduzimos como specimen a mais antiga de todas para que o leitor se convença do seu interesse quotidiano e imediato. N'esta, como em todas as outras démarches para a Invenção é flagrante a maneira como se representa a fortuna que nos rodeia todos os dias.

+A VERDADE+

Je ne crois que les histoires dont les témoins se feraient égorger!

PENSÉES, PASCAL.

Eu tinha chegado tarde á escola. O mestre quiz, por força, saber porquê. E eu tive que dizer: Mestre! quando sahi de casa tomei um carro para vir mais depressa mas, por infelicidade, deante do carro cahiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo.

O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade!

E eu tive de dizer: Mestre! quando sahi de casa… minha mãe tinha um irmão no extrangeiro e, por infelicidade, morreu hontem de repente e nós ficámos de luto carregado.

O mestre ainda se zangou mais comigo: Não minta! diga a verdade!!

E eu tive de dizer: Mestre! quando sahi de casa … estava a pensar no irmão de minha mãe que está no extrangeiro ha tantos annos, sem escrever. Ora isto ainda é peor do que se elle tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de lucto carregado ou não.

Então o mestre perdeu a cabeça comigo: Não minta, ouviu? diga a verdade, já lh'o disse!

Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me passou pela cabeça que acreditei que o mestre queria effectivamente que lhe dissesse a verdade. E, creança como eu era, puz todo o pezo do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração á solta confessei a verdade: Mestre! antes de chegar á Escola ha uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de côr­de-rosa! Mestre! a boneca estava vestida de côr-de-rosa! A boneca tinha a pelle de céra. Como as meninas! A boneca tinha os olhos de vidro. Como as meninas! A boneca tinha as tranças cahidas. Como as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas! Mestre! A boneca tinha os dedos finos…

JOSÉ DE ALMADA-NEGREIROS

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O MOINHO 1 ACTO
23, 2.^O ANDAR 3 ACTOS
ANTES DE COMEÇAR 1 ACTO
OS OUTROS 3 ACTOS

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O MENDES—A ENGOMADEIRA—HERCULES DA SILVA
A SCENA DO ODIO
SALTIMBANCOS—MIMA FATÁXA—LA FEMME ÉLECTRIQUE
O QUADRADO AZUL

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DÉMARCHES PARA A INVENÇÃO DO DIA CLARO
DA ARTE DE ATRAVESSAR A MULTIDÃO, COM APONTAMENTOS SOBRE O QUE EU QUIZ DIZER.
POBREZA VOLUNTARIA
DADOS ARBITRARIOS PARA A FUTFURA ARISTOCRACIA

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AS TREZ IDADES DE CADA UM
—«AS TREZ IDADES DE CADA UM» É O OVO DE COLOMBO!

Dr. F. Alves de Azevedo.

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O MENINO D'OLHOS DE GIGANTE
FEITO COM A PRETENÇÃO DE POEMA UNIVERSAL.
COM UMA POSIÇÃO GEOGRAFICA PORTUGUEZA NA FORMA POETICA DA TONTERIA POPULAR.

ACABADA D'IMPRIMIR AOS TRINTA DIAS DO MEZ DE NOVEMBRO DE MIL NOVECENTOS E VINTE E UM, NAS OFICINAS DA SOCIEDADE NACIONAL DE TIPOGRAFIA, RUA DO SECULO, 59, FICANDO DEPOSITARIA «PORTUGAL E BRAZIL», RUA —GARRETT, 58, 60, LISBOA.—