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A Mãe

Chapter 10: VI
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About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

VI

Quando a agua do samovar entrou em ebolição levou-o para o quarto. As visitas estavam sentadas em de redor da meza; Natacha tinha nas mãos um livro e ficára n’uma quina da mesa sob a luz da candeia.

—Para compreender por que as creaturas vivem tão mal... dizia Natacha

—...e porque são tão más... interveio o russo-menor.

—...é preciso ver primeiro como começaram a viver...

—Então, meus filhos, então!... murmurou Pélagué, preparando o chá.

Calaram-se todos.

—O que diz, mamã? perguntou Pavel franzindo o sobrolho.

—Eu?

Vendo todos os olhares cravados n’ella, explicou, embaraçada:

—Falava comigo mesmo... Dizia: então!...

Natacha desatou a rir assim como Pavel; o russo-menor exclamou:

—Obrigado, mãesinha, obrigado pelo chá!

—Ainda não o bebeu e já agradece?! replicou ella.

E, olhando para o filho:

—Não os incommodo?

Foi Natacha quem respondeu:

—Como pode incommodar os seus hospedes, se é a dona da casa?

E n’um tom infantil e lamentoso:

—Boa alma! dê-me chá depressa! Estou a tremer com frio... tenho os pés gelados...

—É para já! é para já!

Depois de ter bebido, Natacha suspirou á larga, atirou a trança para as costas e abriu um livro volumoso, illustrado e de capa amarella. Pélagué enchia os copos, deligenciando não os fazer retenir, e, com toda a attenção de que era capaz o seu cerebro pouco acostumado a trabalhar, escutava a leitura que a rapariga fazia com a sua voz harmoniosa, que se misturava ao murmurio da agua a ferver no samovar, semelhante a longinqua canção.

No quarto desenrolava-se tremente, como uma fita de côres magnificas, a historia simples e clara dos selvagens que viviam nas cavernas e atacavam com pedras os animaes. Era uma como lenda; por varias vezes, Pélagué olhava de soslaio para o filho, desejava saber o que haveria n’aquella historia de selvagens que a tornasse leitura prohibida. Mas a bréve trecho deixou de escutar e, sem que dessem por tal, começou a observar os seus hospedes.

Pavel estava sentado junto de Natacha; era bello entre todos os outros. A rapariga, inclinada sobre o livro, levantava a miudo os cabellos finos e encaracolados que lhe cahiam para a testa. Por vezes, sacudia a cabeça, e, com um olhar amigo, accrescentava algumas observações, abaixando a voz. O russo-menor tinha encostado o peito ao canto da meza, torcia o bigode, cujas guias deligenciava vêr, mettendo um olho por outro. Vessoftchikof, estava sentado n’uma cadeira, empertigado como um manequim, com as mãos nos joelhos; o seu rosto bexigoso, sem sobrolhos e de bigode muito raro, era immovel como uma mascara.

Sem desviar o olhar, contemplava obstinadamente a sua fisionomia reflectida no cobre brilhante do samovar; dir-se-ia que nem respirava. O pequeno Fédia escutava a leitura, movendo os beiços, repetindo para si as palavras do livro; o seu companheiro, o dos cabellos encaracolados, curvava-se, com os cotovellos nos joelhos, e sorria pensativamente, tendo a cara apoiada nas mãos. Um dos rapazes vindos com Pavel era ruivo e delgado; os olhos verdes tinham expressão alegre; parecia desejoso de dizer alguma coisa e fazia gestos de impaciencia; o outro, de cabellos loiros e curtos, passava a mão pela cabeça olhando para o sobrado, o que não permittia ver-se-lhe o rosto.

O quarto estava quente, n’uma temperatura especialmente agradavel n’aquella noite. No meio do murmurio da voz de Natacha, misturada á canção tremula do samovar, Pélagué recordava as noites tumultuosas da sua mocidade, as palavras grosseiras dos rapazes que cheiravam mal a alcool, os seus gracejos cinicos. Perante taes recordações, o seu coração humilhado confrangia-se compadecido d’ella propria.

Reviveu em pensamento o dia em que o marido pedira a sua mão. Foi durante uma reunião, á noite; elle detivera-a n’um corredor obscuro, obrigava-a á viva força a encostar-se á parede, dizendo-lhe n’um tom cavo e irritado:

—Queres casar comigo?

Ella sentira-se ultrajada; molestavam-na aquelles dedos grosseiros apertando-lhe os seios, aquella respiração offegante que lhe enviava ao rosto um hálito quente e humido. Tentou libertar-se d’aquelle abraço, fugir-lhe...

—Aonde vaes? urrou elle. Responde primeiro!

Ficara silenciosa, cheia de vergonha e de colera.

—Não te finjas embaraçada, pateta! Conheço-as, a todas! No teu intimo, estás satisfeitissima.

Porque alguem tivesse aberto uma porta, elle largara a rapariga, sem grande pressa, dizendo:

—No domingo mandarei pedir a tua mão.

Cumpriu.

Pélagué fechou os olhos e suspirou longamente.

—Não preciso saber como os homens viveram, mas sim como se deve viver! exclamou de subito Vessoftchikof num tom de surdo aborrecimento.

—Tem razão! concordou o rapaz de cabello ruivo, erguendo-se.

—Não estou d’acôrdo! disse Fédia. Se queremos caminhar para a frente, devemos saber tudo!

—Exacto! opinou o outro, a meia voz.

Veio em seguida uma discussão animada. Pélagué não comprehendia por que todos elles gritavam, com os rostos cheios de excitação. Mas ninguem estava irritado; nem mesmo se ouviam as palavras concludentes e obscenas ás quaes ella estava acostumada.

—Não se sentem á vontade na presença da pequena... pensou.

Sentia-se encantada pela fisionomia grave de Natacha, que parecia tomar conta em todos, como se fossem creanças para ella.

—Basta, companheiros! basta! disse de subito.

E todos se calaram, volvendo para ella o olhar.

—Os que affirmam que devemos saber tudo affirmam uma verdade. Devemos illuminar-nos a nós mesmos com a chamma da razão, para que as creaturas obscuras nos vejam; devemos responder a tudo com honestidade, com verdade. É preciso conhecer toda a verdade e toda a mentira.

O russo-menor meneava a cabeça ao rythmo das palavras de Natacha. Vessoftchikof, o rapaz ruivo e o operario que viera com Pavel formavam um grupo distincto; desagradavam a Pélagué, sem que ella soubesse porquê.

Quando Natacha concluiu, Pavel ergueu-se e perguntou tranquillamente:

—O que queremos nós ser? Apenas creaturas que comem e bebem? Não! queremos ser homens. Devemos mostrar aos que nos exploram e nos fecham os olhos, que vemos tudo, que não somos idiotas, nem brutos, que não queremos só comer, mas tambem viver como é proprio dos homens. Devemos mostrar aos inimigos que a vida de degredo que elles nos arranjaram não impede que possamos medir-nos com elles pela intelligencia e excedel-os pelo espirito...

Pélagué ouvia, estremecendo de orgulho por ser o seu filho quem assim falava.

—Ha muita gente farta, mas ninguem entre ella que seja honesto! disse o russo-menor. Construamos uma ponte que atravesse o pantano da nossa vida infecta e que nos conduza ao reino futuro da bondade sincera, eis a nossa tarefa, companheiros!

—Em tempo de guerra não se limpam armas! replicou soturnamente Vessoftchikof.

—Aliás fazem-nos os ossos n’um feixe, antes da batalha! exclamou alegremente o russo-menor.

Tinha passado meia noite quando o grupo dispersou.

O rapaz ruivo e Vessoftchikof foram os primeiros a saír, o que não agradou a Pélagué.

—Como vão apressados! pensou, cumprimentando-os.

—Acompanha-me, André? perguntou Natacha.

—Ora essa!

Emquanto Natacha se vestia na cosinha, Pélagué disse-lhe:

—Tem umas meias tão finas, com um tempo d’estes!... Se me dá licença, hei de fazer-lhe um par, de lã.

—Obrigado, mas as meias de lã arranham a pelle! respondeu, rindo.

Descanse, que, feitas por mim, não arranharão.

Natacha observou-a com os olhos semi-cerrados, e este olhar fixo embaraçou-a.

—Desculpe se é tolice, mas creia ser de bôa vontade!

—Sim. A sr.a é bôa! exclamou Natacha a meia voz, apertando-lhe a mão.

—Bôa noite, mãesinha! disse o russo-menor encarando n’ella; saíu, depois de beijal-a, acompanhando Natacha.

Pélagué olhou para o filho que no limiar da porta do quarto, sorria.

—Porque sorris? perguntou, como envergonhada.

—Ora! porque estou contente.

—Sou velha e tôla, bem sei, mas compreendo aquillo que fica bem.

—E tem razão. Vá deitar-se, vá, que são horas.

—E tu tambem deves ir. Eu é n’um instante.

Á roda da meza d’onde retirava os copos, sentia-se feliz: tudo se tinha passado sem novidade e terminado em paz.

—Tiveste uma bôa idéa, meu filho: é uma bella gente. O russo-menor... acho-o interessante. E a rapariga... Ah! que intelligente que é! Quem é ella?

—Professora de primeiras lettras, respondeu resumidamente, passeando ao comprimento do quarto.

—Por isso é tão pobre! Que mal vestida!...

Vae apanhar um frio!... Onde vivem os paes?

Em Moscou.

E Pavel, parando junto da mãe, disse em voz baixa e gravemente:

—O pae é muito rico, negociante de ferro, e possue varios estabelecimentos. Expulsou-a porque ella entrou neste caminho... Foi educada no luxo, toda a familia a amimava, dando-lhe quanto queria... E n’este momento é obrigada a andar a pé, sósinha, sete kilometros.

Estes pormenores impressionaram Pélagué. No meio do quarto, olhava para o filho sem dizer palavra, os sobrolhos erguidos n’uma expressão de assombro.

Depois perguntou a meia voz:

—Vae para a cidade?

—Vae.

—Ah! e não tem medo?

—Não, não tem medo! respondeu, sorrindo.

—Não tem?!... Poderia passar a noite cá em casa... Dormiria comigo.

—Impossivel. Vêl-a iam saír ámanhã pela manhã; e devemos evitar isso... Ella primeiro ainda.

Pélagué caíu em si, e tendo olhado para a janella, passeando, disse meigamente:

—Não percebo o que possa haver perigoso, e que torne prohibidas estas coisas. Que mal pode haver? Ella não sentia absoluta convicção e desejava obter do filho uma resposta negativa. Elle fitou-a, sereno, e respondeu com firmeza:

—Não fazemos nem faremos mal algum. Todavia, sabe que é a prisão o que nos espera.

As mãos de Pélagué tremeram. Foi com a voz enfraquecida que perguntou:

—Talvez... Queira Deus que tal não succeda!

Pavel, carinhoso, mas resoluto:

—Não! não quero enganar-te! O que te disse ha de succeder.

Acrescentou, sorrindo:

—Olha: vae deitar-te! Estás fatigada! Bôa noite!

Sósinha, a mãe approximou-se da janella e olhou para a rua. O vento passava, varrendo a neve dos telhados das casinhas adormecidas, batendo contra as paredes, murmurando não se sabe o quê, e baixando á terra para fazer correr ao longo das ruas nuvens brancas de flócos seccos.

—Jesus Christo, tende piedade de nós! supplicou baixinho.

As lagrimas accumulavam-se-lhe, a espectativa da desgraça da qual o filho falava com tanta tranquilidade e certeza, agitava-se dentro d’ella como uma borboleta nocturna. Perante os seus olhos desenrolou-se uma planicie coberta de gelo. O vento levando os flócos de neve, redemoinhava assobiando. No meio da planicie, um pequenino perfil de rapariga caminhava, solitario e vacillante. O vento enrolava-se-lhe nas pernas, enchia-lhe as saias, atirava-lhe ao rosto flócos aggressivos. O caminho era difficil para aquelles pequeninos pés que se enterravam na neve. Fazia frio e as trevas eram de metter medo. A rapariga inclinava-se para a frente como debil haste sacudida pelo sopro rapido do vento do outomno.

Á sua direita, no pantano, uma floresta erguia a sua sombra compacta onde as bétulas e os frageis pinheiros tremiam e gemiam tristemente.

Muito ao longe, na sua frente, scintillavam as luzes da cidade.

—Senhor! tende piedade de nós! disse ainda a pobre mãe, tremendo de frio e de medo.