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A Mãe

Chapter 11: VII
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About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

VII

Os dias succediam-se; como as contas de um rosario, addiccionavam-se em semanas e em mezes. Todos os sabbados, os companheiros reuniam-se em casa de Pavel; e cada sessão era como um degrau da longa escadaria em suave declive que conduzia a muito distante, não se sabia aonde, elevando lentamente os que por ella subiam, e da qual se não via o fim.

Novas caras appareciam constantemente. O pequeno quarto dos Vlassof ia-se tornando apertado. Natacha continuava a comparecer, transida de frio, fatigada, mas sempre alegre e bem disposta. Pélagué tinha-lhe feito as taes meias que ella propria lhe calçou. A principio, Natacha tinha rido, depois calou-se, e, reflectindo por um momento:

—Tive uma creada, disse baixinho, que tambem me era extraordinariamente dedicada! Olhe, Pélagué Nilovna é muito para pensar este caso: o povo que tem uma vida tão ardua, tão cheia de humilhações, possue mais coração, mais bondade do que os outros!

Tinha erguido o braço, designando um ponto muito afastado d’ali.

—E a menina?—disse-lhe a mãe de Pavel—que sacrificou seus paes e o resto...

Não chegou a concluir o seu pensamento, suspirou e calou-se olhando para Natacha. Sentia-se-lhe reconhecida, sem bem saber de quê, e deixara-se ficar sentada no chão, diante da rapariga, que sorria pensativa, com a cabeça descaída para o peito.

—Sacrifiquei os meus paes... tinha repetido Natacha. Mas não é isto o peor. O meu pae é tão estupido e ordinario, o meu irmão tambem, e demais costuma beber! A minha irmã mais velha é uma desgraçada, causa compaixão. Casou com um homem muito mais idoso do que ella, muito rico, mas avarento e repugnante. De quem eu tenho mais saudades é da mamã!

—Coitadinha! lamentou a mãe de Pavel, com um triste movimento de cabeça.

A rapariga endireitou-se de subito e exclamou:

—Ah! não! Ha momentos em que a minha alegria, a minha felicidade não tem limites!

O seu rosto empallideceu, e saíam chispas de seus olhos azues. Pondo a mão no hombro de Pélagué, disse em voz profunda, n’um tom que parecia vindo do coração:

—Se soubesse... se podesse compreender a obra brilhante e enorme que estamos realisando!... Havia de sentil-a!

Uma impressão, não muito afastada da inveja, apoderou-se do coração de Pélagué, que disse tristemente, erguendo-se:

—Estou muito velha para essas coisas... sou ignorante... estou muito velha...

...Pavel falava muito, discutia cada vez com maior ardor, e emagrecia. Pélagué julgava notar que, quando elle conversava com Natacha ou para ella olhava demoradamente, o seu olhar severo se tornava suave, que a sua voz vibrava com mais carinho, que elle se revelava ainda mais simples.

—Deus o queira!... pensava. Sorria á ideia de que Natacha podesse vir a ser sua nora.

Quando, nas reuniões, a discussão tomava mais calor, o russo-menor levantava-se, e bamboleando como o badalo d’um sino, soltava com a sua voz sonora palavras claras e simples que faziam voltar o socego. O taciturno Vessoftchikof levava constantemente os companheiros a actos mal definidos; era sempre elle e Samoílof, o rapaz ruivo, quem esquentava as discussões. Tinham por partidario Ivan Boukine, o rapaz de cabeça redondinha, de sobrolhos brancos, e que parecia deslavado como o sol. Jacob Somof, sempre modesto, asseado e bem penteado, falava pouco e breve, em voz baixa e grave. Como Fédia Mazine, o adolescente de fronte alta, era sempre da opinião de Pavel e do russo-menor.

Por vezes, em logar de Natacha, era Nicolao Ivanovitch quem vinha da cidade. Usava occulos e tinha barbicha loira. Natural d’uma provincia distante, as inflexões da sua voz eram especiaes e cantantes, falando quasi sempre sobre themas simples, a vida em familia, as creanças, o commercio, a policia, o preço da carne e do pão, emfim a vida de todos os dias. E em tudo descobria êrros, confusão, coisas estupidas, divertidas ás vezes, mas sempre prejudiciaes para os homens. Parecia a Pélagué que Nicolao Ivanovitch viera de longe, d’outro paiz onde a existencia era facil e honesta, e que ali, onde ella vivia tudo lhe desagradava. Era de côr amarelenta; pequenas rugas lhe circumdavam os olhos, a voz era grossa, e tinha as mãos sempre quentes. Quando cumprimentava a mãe de Pavel, agarrava-lhe a mão por completo com os dedos vigorosos, e tal aperto era como um consolo para a alma d’ella.

Da cidade vinham ainda outras pessôas, por exemplo uma rapariga esbelta, de olhos grandes e rosto magro e pallido. Chamavam-lhe Sachenka. Havia o que quer que fosse masculo nos seus gestos e no andar; franzia os sobr’olhos negros como irritada; quando falava, as delicadas narinas estremeciam.

Foi ella que um dia disse primeiro que os outros:

—Nós, socialistas...

Quando Pélagué ouviu esta palavra, olhou para a rapariga com mudo terror.

Sabia que os socialistas tinham assassinado um tzar. Fôra durante a sua mocidade; dissera-se então que os proprietarios ruraes, indignados contra o imperador por ter libertado os servos, haviam jurado não cortar os cabellos emquanto elle não fosse morto. Por isso não podia compreender a rasão por que o seu filho e a companheira se tinham feito socialistas.

Quando todos se retiraram, perguntou a Pavel:

—Pavloucha, é verdade que és socialista?

—É! respondeu firme e franco como sempre.

Pélagué deu um profundo suspiro e disse, baixando os olhos:

—Parece-te bem, meu filho?... Elles são contra o tzar... já mataram um!...

Pavel entrou de passear pelo quarto, passando a mão pela cara, até que respondeu com um sorriso:

—Nós não precisamos d’isso!

Falou-lhe muito tempo a serio. Ella chorava e reflectia. Depois, a terrivel palavra foi repetida cada vez mais a miudo, e tornou-se tão familiar aos ouvidos de Pélagué como um amontoado d’outros termos incompreensiveis para ella. Mas Sachenka não lhe agradava; quando a via, sentia-se pouco á vontade, anciosa...

Uma noite, disse ao russo-menor, com um tregeito de mal-estar:

—É muito rispida a Sachenka! Está sempre a mandar: façam isto! façam aquillo!

O russo-menor riu ruidosamente.

—É a pura verdade! nem mais nem menos! Não é assim, Pavel?

E, piscando o olho, disse em tom escarninho:

—A nobreza!

Pavel replicou seccamente:

—É uma rapariga decidida!

E ficou-se com ar de mal disposto.

—Não ha duvida tambem! concordou o russo-menor. Ha apenas uma differença: não compreende que é ella quem deve e que somos nós que queremos e podemos.

Pélagué notara tambem que a severidade de Sachenka caía mais em particular sobre Pavel a quem por vezes chegava a repreender. Elle sorria, ficava silencioso, e contemplava a rapariga com o olhar suave que outrora tinha para Natacha. E isto não agradava a Pélagué.

Reuniam-se duas vezes por semana; e quando a mãe de Pavel via a attenção apaixonada com que os novos escutavam as falas do filho e do russo-menor, as interessantes narrativas de Natacha, de Sachenka, de Nicolao Ivanovitch e dos outros que vinham da cidade, esquecia as suas inquietações, e recordando-se dos fastidiosos dias da sua mocidade, meneava tristemente a cabeça.

Muitas vezes, Pélagué ficava surpreendida dos accessos de alegria ruidosa que os atacavam de subito. O facto dava-se geralmente quando tinham lido nos jornaes noticias da classe operaria estrangeira. Era uma alegria estravagante, como infantil; riam todos com um riso limpido e muito alegre, e batiam amigavelmente no hombro do companheiro mais proximo.

—Teem trabalhado a valer, os nossos companheiros allemães! annunciava qualquer d’elles, como embriagado de extasi.

—Vivam os nossos companheiros italianos! gritava outra voz.

E quando enviavam estas exclamações ao longe, aos amigos desconhecidos, pareciam convencidos de que elles os ouviam e participavam do seu enthusiasmo.

O russo-menor, cheio de um amor que abrangia a todos os seres, declarava:

—Deveriamos escrever-lhes, não acham, para que saibam que teem na Russia, tão distante, amigos, operarios que professam a mesma religião que elles, companheiros que teem o mesmo fim, e rejubilam com as suas victorias...

E, com o sorriso nos labios, falava-se durante muito tempo dos francezes, dos inglezes, dos suecos, como de entes queridos, em cujas felicidades e soffrimentos se tomava parte.

No pequeno quarto nascia assim o sentimento do parentesco espiritual, unindo os operarios de aquella terra da qual elles eram ao mesmo tempo os senhores e os escravos. Esta confraternidade, que lhes dava uma só alma, impressionava Pélagué, e embora ella lhe fosse inaccessivel, fazia-a elevar se sob a influencia d’aquella força alegre, triunfante, embriagadora e cheia de mocidade, acariciadora e cheia de esperanças.

—No meio de tudo, como os srs. são! disse ella um dia ao russo-menor. Para os srs., todos são companheiros: os judeus, os armenios, os austriacos... Falam d’elles como se falassem de amigos, entristecem-se e alegram-se com o mundo inteiro!

—Sim, mãesinha! exclamou elle. O mundo é nosso! o mundo é dos operarios! Para nós não ha nações, nem raças! ha somente companheiros e... inimigos. Todos os operarios são nossos amigos; todos os ricos, todos os que teem auctoridade, são nossos inimigos. Quando se olha para a terra com bons olhos, quando se vê quanto nós, os operarios, somos numerosos, que poder espiritual nós representamos, sente-se o coração invadido pela alegria e pela felicidade, como na celebração de uma festa solemne. O francez e o allemão teem o mesmo sentimento, e os italianos tambem rejubilam. Somos todos nascidos da mesma mãe, da grande, da invencivel idéa da fraternidade operaria, em todos os paizes da terra. Desenvolve-se, aquece-nos com o seu calor, é o segundo sol no ceo da justiça; e este ceo está no coração do operario. Qualquer que elle seja, seja qual fôr o seu nome, o socialista é nosso irmão em espirito, agora e para sempre, por todos os seculos dos seculos!

Esta exuberancia infantil, esta fé luminosa e inabalavel manifestava-se de mais em mais no pequeno grupo, n’uma força crescente.

E quando Pélagué via esta alegria, sentia instinctivamente que na verdade viera ao mundo o que quer que fosse grande e resplendente, como um sol semelhante ao que via no ceo.

Ás vezes, cantavam, alegremente e a plenos pulmões, canções familiares; por outras, aprendiam novas canções, tambem melodiosas, mas com musica melancólica e fóra do vulgar. Então, abaixavam a voz, as fisionomias tornavam-se graves, pensativas, como ao som de um hymno religioso. Os rostos tornavam-se pallidos, os que cantavam animavam-se, e sentia-se que uma grande força se occultava sob as palavras sonoras.

Uma d’aquellas canções principalmente perturbava e inquietava Pélagué. Não traduzia os gemidos, as preplexidades da alma ultrajada que vagueia solitaria nos atalhos obscuros das incertezas dolorosas nem dos gritos da alma incolor e informe assaltada pela miseria, embrutecida pelo medo. Não repetia os languidos suspiros do ser avido de espaço, nem os gritos de provocação da audacia fogosa prestes a destruir o mal e o bem, indifferentemente. O cego sentimento da vingança e do odio, capaz de aniquilar tudo, impotente para crear, não apparecia então; não havia em taes canções qualquer vestigio do antigo mundo, do mundo dos escravos.

As palavras rispidas, a melodia austera não agradavam a Pélagué, mas havia n’aquellas canções uma como força immensa que abafava o som e as palavras, despertando no coração o presentimento de alguma coisa grandiosa para o pensamento. Pélagué via isto nos rostos, no olhar dos novos, e, cedendo áquelle poder misterioso, escutava sempre a canção, duplamente attenta, com inquietação profunda.

—Já é tempo de a cantarmos pelas ruas! dizia o sombrio Vessoftchikof, em principios da primavera.

Quando o pae mais uma vez foi prezo, declarou tranquillamente:

—Agora poderiamos reunirmo-nos em minha casa...

Quasi todas as tardes, depois do trabalho, um ou outro dos companheiros ia a casa de Pavel; liam juntos, copiavam trechos das brochuras. Andavam preoccupados e nem já tinham tempo de se lavarem. Ceavam juntos e tomavam o seu chá sem pôrem de lado os livros; e as suas conversas cada vez se tornavam mais incompreensiveis para Pélagué.

—Precisamos de um jornal! repetia Pavel, a miude.

A vida tornava-se febril e agitada; dirigiam-se uns aos outros com mais celeridade, era com mais rapidez que passavam d’um livro a outro, como abelhas voando de flôr para flôr.

—Começa-se a falar de nós! disse uma noite Vessoftchikof. Provavelmente, acabamos por ser presos, dentro em pouco.

—Quem não quer ser lobo não lhe veste a pelle! observou o russo-menor.

Cada vez agradava mais a Pélagué. Quando elle lhe chamava mãesinha, parecia-lhe que uma suave mão de creança lhe afagava o rosto. Ao domingo, se Pavel tinha que fazer, era elle quem rachava a lenha; um dia appareceu carregado com uma grande taboa, pegou na ferramenta e substituiu com habilidade um degrau pôdre da porta d’entrada; doutra vez, recompoz a varanda que ameaçava ruina. Emquanto trabalhava, assobiava musicas melancólicas.

Pélagué disse um dia ao filho:

—Se nós fizessemos do russo-menor nosso hospede? Seria mais commodo para ambos, que não precisariamos de andar sempre a correr de casa d’um para casa do outro.

—Para que ha de ir arranjar mais esse trabalho? perguntou Pavel, encolhendo os hombros.

—Ora! Durante toda a minha vida tenho sido atormentada com trabalho sem saber para quê; posso perfeitamente fazer isto hoje em favor de tão bom homem.

—Faça o que quizer! Se elle acceitar, dar-me-á satisfação.

E o russo-menor passou a viver com elles.