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A Mãe

Chapter 12: VIII
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About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

VIII

A pequena casa na extrema do bairro despertava a attenção: as suas paredes já tinham sido como que atravessadas por olhares suspeitosos. As azas do rumor publico agitavam-se por cima della; tentava-se descobrir o misterio que ali se occultava. Á noite, havia quem fosse espreitar pela janella; por vezes, alguem havia que batesse na vidraça, fugindo logo.

Certo dia, na rua, o taverneiro Bégountzef fez parar a mãe de Pavel. Era um bonito velhote que tinha sempre um lenço de seda preta á roda do pescoço vermelho e enrugado. O nariz brilhante e agudo era adornado por lunetas de aro d’escama de peixe, o que lhe tinha grangeado a alcunha de «Olhos d’osso».

Sem tomar a respiração nem esperar resposta, surpreendera Pélagué com uma torrente de palavras sêccas e vivissimas:

—Como vae, Pélagué Nilovna? E o seu filho? Ainda não acha tempo de o casar? O rapaz já está afinal na devida idade para ter uma mulher. Quando os paes casam cedo os filhos ficam mais tranquillos. O homem que vive em familia tem mais saude, tanto de corpo como de espirito, conserva-se como um cogumello em vinagre. No seu logar, eu já o tinha casado. Os tempos que vão correndo exigem que abramos os olhos no que respeita ao ente humano; ha quem se entregue a uma vida a seu modo, deixando-se arrastar a toda a casta d’acções censuraveis. Já se não vêem os rapazes no templo de Deus; afastam-se dos logares publicos, mas reunem-se ás escondidas pelos cantos, a cochichar. Porque andam elles a cochichar? se me permitte a pergunta. Porque se occultam? O que é que um homem não póde dizer em publico, na taverna, por exemplo? Misterios! Mas o logar dos misterios é a nossa santa egreja apostolica! Todos os outros misterios, realisados a occultas, vem da desorientação do espirito. Muitos bons dias lhe desejo.

E tirou o boné com um gesto pretencioso, agitou-o no ar, e foi-se, deixando Pélagué immersa na perplexidade.

D’outra vez, Maria Korsounova, visinha dos Vlassof, viuva d’um ferreiro, e que vendia comestiveis na fabrica, disse a Pélagué ao encontral-a no mercado:

—Não percas de vista o teu filho, Pélagué!

—Porquê?

—Correm uns boatos a seu respeito... segredou com ares misteriosos. Coisas feias! Diz-se que está organisando uma especie de corporação, no genero dos flagelantes. Chama-se a isto uma seita. Fustigar-se-ão uns aos outros como os flagelantes.

—Não digas mais tolices, Maria!

—Vae ralhar com elle que é quem as faz, e não comigo, que te dou parte do caso! replicou a vendedeira.

Pélagué contou a conversa ao filho, que encolheu os hombros sem responder. Quanto ao russo-menor, desatou a rir, com as suas gargalhadas benevolas.

—As raparigas tambem estão zangadas! Sois todos aptos para vos tornardes bons maridos, trabalhaes bem, não bebeis... e nem olhaes para ellas! Diz-se que da cidade vem visitar-vos pessoas de má reputação...

—Já cá faltava! exclamou Pavel, fazendo uma cara de nojo.

—N’um pantano tudo cheira a pôdre! disse André suspirando. Seria melhor, mãesinha, que explicasse a essas patetinhas o que é o casamento. Talvez não ficassem com a mesma pressa de caír na asneira!

—Ah! exclamou Pélagué. Ellas bem sabem, mas como hão de passar sem casarem?

—Falta-lhes a compreensão, aliás achariam outra coisa em que se occuparem! disse Pavel.

Ella dirigiu o olhar para o rosto irritado do filho, balbuciando:

—É a vós que cabe ensinal-as! Convidem para isso as mais intelligentes.

—Impossivel! respondeu Pavel, seccamente.

—Se tu experimentasses!... arriscou André.

Depois de um silencio, Pavel respondeu:

—Começariam a passear aos pares, alguns acabariam por casar, e prompto!

Pélagué caíu em meditações. A austeridade monacal do filho atordoava-a. Via que elle era obedecido pelos companheiros, até pelos mais velhos, como o russo-menor, mas parecia-lhe que todos o temiam e que não gostavam da frieza dos seus modos.

Uma vez que ella estava na cama e Pavel e André ainda liam, apurou o ouvido ás suas palavras que lhe chegavam atravez do tabique.

—Gosto da Natacha, sabes? disse de repente o russo-menor, a meia voz.

—Sim, sei.

Pavel não respondera logo.

Pélagué ouviu o russo-menor levantar-se, vagaroso, e começar a passear pelo quarto, com os pés descalsos. Assobiou uma triste canção; depois tornou a falar:

—Ella terá notado?...

Pavel ficou silencioso.

—Que te parece? perguntou de novo o companheiro, baixando a voz.

—Tem notado! respondeu Pavel. E é por isso que já não vem.

André voltou a passear, assobiando; até que:

—E se eu lho dissesse?...

—O quê?

—Que...

—Para quê?

Pélagué ouviu André rir.

—Eu cá, sim, parece-me que quando se ama uma rapariga, devemos dizer-lho, se não é o mesmo que nada!...

Pavel fechou o livro com ruido e perguntou:

—E que resultado esperas?

Estiveram calados durante alguns minutos.

—E então? perguntou André.

—É preciso ver claramente o que se quer... disse emfim Pavel com vagar. Supponhamos que ella tambem te ama. Não creio. Mas supponhamos. Casam. É uma união interessante, na verdade, a d’uma rapariga com um operario!... Vem os filhos... serás obrigado a trabalhar sósinho... e muito. A vossa vida será a de toda a gente, luctareis para ter com que vos sustentardes, para terdes casa onde viver com os filhos. E afinal ambos ficareis perdidos para a obra.

Houve um silencio, até que Pavel concluiu:

—Deixa-te d’isso, André! Cala-te. Não a perturbes.

—Mas Nicolao Ivanovitch prégava a necessidade de viver a vida integral, com todas as forças da alma e do corpo... Lembras-te?

—Prégava, mas não para nós. Como atingirias tu a integridade? Não existe para ti. Quando se ama o futuro, temos que renunciar a tudo no presente, a tudo, irmão!

—É custoso! replicou André em voz abafada.

—E como poderia não ser assim? reflecte!

Houve novo silencio. Ouvia-se apenas a pendula do relogio, compassadamente, dividindo o tempo em segundos.

O russo-menor disse:

—Metade do coração ama; a outra odeia... E é isto coração, an?

—E como poderia não ser assim?

Seguiu-se o folhear d’um livro: por certo Pavel voltava á leitura. Pélagué permanecia deitada com os olhos fechados, sem se atrever a fazer nem um movimento. Sentia-se profundamente apiedada de André, mas ainda mais do seu filho. Dizia comsigo: «Meu querido filho... meu martyr! meu sacrificado!»

De subito, André perguntou:

—Devo então calar-me, não é isso?

—É o mais honesto, André...

—Bem! entrarei n’esse caminho! decidiu o outro.

Mas accrescentou tristemente, decorrido um instante:

—Has de soffrer, Pavel, quando chegar a tua vez.

—Chegou. Já soffro... e cruelmente.

—Tu tambem?

Lá fóra o vento soprava em torno da casa.

—Não tem nenhuma graça isto!... disse André lentamente.

Pélagué metteu a cabeça debaixo da roupa para poder chorar.

Na manhã seguinte, André pareceu-lhe como fisicamente amesquinhado, e sentiu-o mais proximo do seu coração. Como sempre, o filho tinha o porte secco, silencioso, rigido. Até então ella tratava o russo-menor por André Onissimovitch; d’aquelle dia em diante, sem querer, sem dar por tal, disse-lhe:

—Deve concertar as suas botas, meu André, senão tem frio nos pés.

—Hei de comprar outras, quando receber a féria.

Depois desatou a rir e perguntou-lhe de chofre, pondo-lhe no hombro a sua pesada mão:

—Talvez a senhora seja a minha verdadeira mãe, mas que não queira confessal-o, porque me ache muito feio! Será assim?

Sem falar, ella deu-lhe uma pancadinha na mão. Desejaria dizer-lhe palavras carinhosas, mas o coração confrangia-se apiedado, e a sua lingua recusava-se a obedecer-lhe...