WeRead Powered by ReaderPub
A Mãe cover

A Mãe

Chapter 15: XI
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

XI

Soube-se na manhã seguinte que Boukine, Samoílof, Somof e mais cinco pessoas tambem tinham sido presos. Á noite, Fédia Mazine veio de corrida: haviam feito uma busca em sua casa; estava radiante por isso, e considerava-se como um heroe.

—Tiveste medo, Fédia? perguntou Pélagué.

Empallideceu, encovou-se-lhe o rosto, as narinas estremeceram-lhe.

—Tive medo de que o official me batesse! Tinha barba negra e era forte; os dedos cabelludos; usava lunetas de vidros pretos; parecia que lhe faltavam os olhos. Gritou, batendo com o pé: «Faço-te apodrecer na cadeia!» Em mim nunca ninguem bateu, nem o meu pae, nem a minha mãe, porque eu era filho unico, e elles queriam-me muito. Toda a gente tem levado pancada; eu, nunca.

Fechou por um instante os olhos avermelhados e apertou os beiços; com um gesto rapido, atirou para traz com os cabellos e disse, encarando em Pavel:

—Se alguem me bater, enterro-me n’elle como uma navalha, retalho-o com os dentes. É preferivel que me estendam de vez!

—Tão magrito e fraco!... exclamou Pélagué. Como poderias luctar?

—Pois luctarei! respondeu em voz baixa.

Quando elle saiu, ella disse para o filho:

—Será esmagado primeiro do que os outros.

Pavel não respondeu.

Minutos depois, a porta da cosinha abriu-se devagar, e Rybine entrou.

—Bôa noite! disse, sorrindo. Sou eu outra vez. Hontem á noite, obrigaram-me a cá vir; hoje venho por minha conta.

Apertou com vigor a mão de Pavel, e pondo a mão no hombro de Pélagué:

—Dás-me chá?

Pavel observou em silencio o amplo rosto atrigueirado do seu visitante, a sua espessa barba negra e os seus olhos intelligentes. Havia um tanto de gravidade no seu olhar tranquillo; todo o aspecto do recemchegado, de athletica corpolencia, inspirava simpathia pela sua decidida firmeza.

A mãe foi á cosinha preparar o samovar.

Rybine sentou-se, afagou o bigode, e, encostando-se á meza, envolveu Pavel n’um olhar.

—Com que então... Assim começou, como se reatasse o fio de uma conversa. Devo falar-te abertamente. Observei-te por muito tempo antes de vir á tua casa. Somos quasi visinhos, via que recebias muita gente e que ninguem se embriagava nem fazia escandalos. Isto dava nas vistas. Quando alguem se porta bem, é logo notado, vê-se logo quem é. Eu proprio chamo as attenções para a minha pessoa porque vivo á parte, sem praticar porcarias.

Falava vagarosamente, com ripanso; tinha inflexões que inspiravam confiança.

—Com que então, toda a gente fala de ti. O meu senhorio chama-te «herético» porque não vaes á egreja. Eu tambem lá não vou. Depois appareceram essas fôlhas, esses papeis... A idéa foi tua?

—Foi! respondeu Pavel sem desviar o olhar da fisionomia de Rybine, que tambem o fitava.

—Ora vamos! exclamou Pélagué, sobresaltada, e saíndo da cosinha. Não foste só tu...

Pavel sorriu. Rybine tambem.

—Ah!... murmurou este.

A velha fungou e saíu, um tanto irritada por não terem prestado attenção ás suas palavras.

—Era uma bôa idéa. Perturbam o povo. Quantas foram ao todo? Umas dezenove, não?

—Isso mesmo.

—Então li-as todas! Bem... bem... Ha por lá coisas incompreensiveis, superfluas. Quando o homem fala muito, acontece-lhe falar para nada.

Sorriu; tinha os dentes brancos e sãos.

—Depois, a busca que fizeram em tua casa... Foi o que me dispoz a teu favor. Tu, o russo-menor e Vessofchikof mostraram-se muito... muito...

Como não encontrava a palavra, calou-se, olhou pela janella, e bateu com um dedo na mesa:

—Mostraram-se decididos. Foi como se dissessem: «Faça a sua obra, Excellencia, que nós faremos a nossa!» O russo-menor tambem é um rapaz como se quer. Ás vezes, na fabrica, quando o ouvia falar, pensava: «Este não é para se deixar esborrachar, não! Só a morte poderá vencel-o. Tem um bigode, o typo!» Não acha, Pavel?

—Acho! respondeu, movendo a cabeça affirmativamente.

—Ora bem... Tenho quarenta annos, o dobro da tua edade; tenho visto vinte vezes mais do que tu. Fui soldado durante mais de trez annos; fui casado duas vezes; morreu-me a primeira mulher; deixei a segunda. Estive no Caucaso, vi os Doukhobors... Não souberam vencer a vida, irmão! oh! não souberam!

Pélagué escutava avidamente estas palavras; era-lhe agradavel vêr um homem de edade respeitavel procurar o filho como para confessar-se. Achava, porém, que Pavel o tratava com demasiada seccura, e para destruir esta impressão, perguntou a Rybine:

—Talvez tenhas vontade de comer alguma coisa, Mikhaíl Ivanovitch?

—Não, obrigado. Já ceei. Com que então, Pavel, pensas que a vida não vae por bom caminho?

O rapaz levantou-se e passeando, com as mãos atraz nas costas:

—Qual! Por magnifico caminho! E tanto assim que elle o trouxe até mim, agora que tem a sua alma francamente aberta. N’este caminho, a vida une-nos, pouco a pouco, a todos nós que trabalhamos incessantemente; e tempo virá em que ha de unir-nos a todos! As coisas acham-se dispostas de uma maneira injusta e penosa para nós; mas é a propria vida que nos abre os olhos, descobrindo-nos o que encerra amargo; é ella propria que mostra ao homem como lhe deve dirigir a norma.

—É verdade! Mas espera! É preciso renovar o homem. N’isto creio eu! Quando se apanha sarna, a gente toma banhos, lava-se, veste-se com asseio e fica bom, não é assim? Mas se a sarna ataca o coração, podemos por acaso arrancar-lhe a pelle, ainda que ficasse sangrando? podemos laval-o, vestil-o de novo? an? Então, como purificar o homem por dentro? O quê?

Pavel falou calorosamente de Deus, do imperador, das auctoridades, da fabrica, da resistencia que os trabalhadores do estrangeiro oppunham áquelles que queriam limitar os seus direitos. Rybine sorria por vezes; depois batia com o dedo na meza, como para pontuar o discurso de Pavel, sem comtudo deixar de dizer de quando em quando:

—É isso mesmo!

Todavia, commentou a meia voz com um sorrisinho:

—Ah! és ainda novo. Não conheces o proximo!

Pavel, de pé diante d’elle, explicou gravemente:

—Não falemos de novos nem de velhos! Vejamos antes qual é a melhor opinião.

—Portanto, em tua opinião até se teem servido de Deus para nos enganarem? Concordo. Tambem creio em que a nossa religião é nociva e erronea.

Pélagué interveiu. Quando o filho falava de Deus, das coisas sagradas e queridas que se ligavam á fé que ella tinha no seu Creador, tentava sempre encontrar o olhar de Pavel para pedir-lhe tacitamente que não lhe despedaçasse o coração com palavras de incredulidade, cortantes e aceradas. Ella porém sentia que, apezar de mostrar-se sceptico, o seu filho era crente; e isto tranquilisava-a.

—Como poderia eu compreender os seus pensamentos? dizia a si mesma.

Pensava que devia ser desagradavel e ultrajante para Rybine, um homem d’idade, ouvir taes palavras de Pavel. Mas quando Rybine dirigira aquella pergunta perdeu, de todo a paciencia.

—Sêde mais prudentes falando de Deus! disse resumidamente, mas com obstinação. Façam o que quizerem, mas...

E tendo tomado a respiração, continuou com mais vigor:

—Mas em que me hei de apoiar, no meio dos meus desgostos, eu que estou velha, se me tirarem o meu Deus?

Os olhos encheram se-lhe de lagrimas. Com as mãos trémulas, continuou lavando a loiça.

—Não nos compreendeu, mamã! disse Pavel com suavidade.

—Desculpe-nos! accrescentou Rybine em tom vagaroso, lançando um olhar risonho a Pavel. Esquecia-me de que estás muito velha para ser ainda tempo de te cortarem as verrugas!...

—Eu não falava, de maneira alguma, do Deus bom e misericordioso no qual a mãe acredita, mas sim d’aquelle com que os padres nos ameaçam como se fosse um flagello, e em nome do qual exigem que a grande maioria dos homens se submetta á vontade malevola d’alguns.

—Exactamente! Isso é que é! exclamou Rybine, batendo com o dedo na meza. Transformaram-nos até Deus. Os nossos inimigos lançam mão de tudo quanto lhes sirva para abater-nos. Recordo-te, Pélagué, que Deus creou o homem á sua imagem e semelhança e portanto parece-se com o homem, visto que o homem se parece com Elle. Nós, porém, não nos assemelhamos a Deus, mas sim aos animaes selvagens... Na egreja, o que nos mostram, em logar de Deus, é um espantalho. É mister transformar Deus, purifical-o! Revestiram-no de mentira e de calumnia, mutilaram o seu rosto para matarem a nossa alma...

Falava baixo, mas com espantosa nitidez; cada uma das suas palavras era para Pélagué um golpe doloroso. Sentiu-se assustada por aquella grande cara taciturna enquadrada n’uma barba negra, e o brilho sombrio dos seus olhos tornava-se-lhe insupportavel.

—Ah! Prefiro ir-me embora! disse, sacudindo a cabeça. Não tenho coragem de ouvir taes coisas... Não posso!

E fugiu para a cosinha, emquanto Rybine dizia:

—Vês, Pavel? Não é pela cabeça, mas sim pelo coração que se deve começar. O coração é um logar da alma humana no qual não brota mais do que...

—Do que a razão! acabou Pavel com firmeza. Será só a razão que libertará o homem!

—A razão não dá o poder! replicou Rybine, vibrante e obstinado. É o coração que dá a força e não o cerebro!

Pélagué despira-se e deitara-se sem haver resado. Tinha frio e sentia-se pouco bem. Rybine, que lhe parecera tão sensato, tão correcto, ao principio, excitava-lhe uma reservada hostilidade.

—Herético! agitador! pensava, prestando o ouvido á voz sonora que saía com facilidade d’aquelle peito amplo e forte. Para que veio elle cá?!...

E Rybine ia dizendo, tranquillo e firme:

—Um logar santo não póde ficar vasio. O logar onde Deus vive dentro de nós é atacado; se Elle caír da alma, ficará uma chaga! Ora ahi está! É preciso inventar uma fé nova, Pavel. É preciso crear um Deus justo para todos, um Deus que não seja nem juiz, nem guerreiro, mas sim o amigo dos homens.

—E que outra coisa foi Jesus?! exclamou Pavel.

—Espera!... Jesus não era firme d’espirito... «Affastem de mim este calice...» disse elle. E reconhecia o poder do Cezar. Deus não pode reconhecer uma auctoridade humana reinando sobre os homens, porque elle é que é a omnipotencia! Elle não dividiu a sua alma n’uma parte divina e em outra humana, e visto que confirmou a sua divindade, não carece de coisa alguma humana. Jesus reconheceu tambem como legitimos o commercio e o casamento. Foi injustamente que condemnou a figueira. Que culpa tinha ella da sua esterilidade? Não é por sua culpa que a alma não dá bons frutos. Fui eu que semeei n’ella o mal?

As duas vozes vibravam sem interrupção no quarto, como se se arrojassem uma á outra, combatendo-se em lucta animada e apaixonada. Pavel ia e vinha, a passos largos, e o sobrado rangia sob os seus pés. Quando falava, todos os sons se fundiam no ruido da sua voz; quando Rybine replicava, calmo, tranquilo, ouvia-se o tic-tac da pendula do relogio e o sêcco estalido da neve que roçava com as suas garras agudas nas paredes da casa.

—Vou falar-te como authentico fogueiro que sou: Deus parece-se com o fogo. É isto, sim! Não consolida coisa alguma, não o pode. Queima e funde, illuminando. Illumina as egrejas, mas não as constroe. Vive no coração. Disse se: «Deus é o Verbo»; e o Verbo é o espirito.

—A razão! emendou Pavel, obstinado.

—Isso! Portanto, Deus está no coração, e na razão, e não na egreja. E eis d’onde vem as desgraças, as dores, os infortunios do homem: é que todos nós somos arrancados de nós mesmos! O coração é repellido pela razão, e a razão foi-se! O homem não é uno. Deus une o homem em um todo, em um globo. Deus creou sempre coisas redondas: a terra, as estrellas; tudo o que é visivel, o que é agudo, foi o homem quem o fez. Quanto á egreja, é o tumulo de Deus e do homem.

Pélagué adormeceu, não tendo ouvido saír Rybine.

Elle voltou a apparecer muitas vezes. Quando qualquer companheiro de Pavel estava em casa d’este, o fogueiro sentava-se a um canto e continha-se em silencio; de tempos a tempos, dizia:

—Isso! Exactamente!

Uma vez, espraiou o seu negro olhar pelos assistentes, e disse, nada satisfeito:

—Deve-se falar do que é; o que será não sabemos nós. Quando o povo fôr livre, elle proprio verá o que tiver de melhor a fazer. Já lhe metteram na cabeça muitas coisas que elle não queria! Basta! Elle que se examine! Talvez elle repilla tudo, toda a vida e todas as sciencias; talvez veja que tudo lhe é hostil, como por exemplo: Deus e a egreja. Dêem-lhe para a mão todos os livros, e elle responderá. Mas para isto, seria necessario que elle compreendesse que quanto mais apertada é a colleira, mais penoso é o trabalho.

Quando Pavel e Rybine estavam a sós, punham-se logo a discutir, tranquillamente, por muito tempo. A velha escutava-os inquieta, seguia-os com o olhar silencioso, deligenciando compreender. Por vezes, parecia-lhe que ambos tinham cegado. Nas trevas, entre as paredes do pequeno quarto, os dois vagueavam d’um para outro lado, como em busca d’uma saída ou d’uma luz; agarravam-se a tudo com as suas mãos vigorosas, mas inhabeis; agitavam, revolviam tudo, deixando caír por terra coisas que depois espezinhavam. Esbarravam em tudo, tateavam e repelliam tudo, sem pressas, sem perderem a esperança nem a fé. Tinham-na acostumado a ouvir uma palavras terriveis pela sua simplicidade e audacia; estas palavras já não a opprimiam com a mesma violencia. Rybine não era simpático á velha, mas a repulsão, que a principio lhe inspirára, tinha desapparecido.

Uma vez por semana, Pélagué ia á cadeia levar roupa e livros a André; um dia obteve licença de vêl-o; e ao voltar para casa, contou enternecidamente:

—Continúa sendo o mesmo. Amavel para com todos. Todos brincam com elle. Parece que tem sempre o coração em festa. Custa-lhe a vida, soffre, mas não quer dal-o a perceber.

—E é assim que devem fazer todos! replicou Rybine. Todos nós estamos envolvidos em desgostos como n’uma segunda pelle... Respiramos desgostos... vestimo-nos de desgostos... Não temos de que nos gabar. Nem toda a gente tem os olhos furados, e muitos ha que os fecham de motu-proprio... Quando se é parvo, então sim, não ha remedio senão esperar o soffrimento...