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A Mãe

Chapter 22: XVII
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About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

XVII

Quando no dia seguinte ella chegou á porta da fabrica, carregada com o seu fardo, os guardas detiveram-na rudemente, mandaram-na pôr no chão tudo o que trazia e examinaram-na attentamente.

—Olhem que a sôpa arrefece! disse, tranquilla, emquanto a apalpavam sem ceremonia.

—Cala-te!

O outro disse, dando levemente com o hombro no camarada.

—Se eu te affirmo que os atiram cá para dentro por cima do muro!...

O velho Sizof foi o primeiro a approximar-se d’ella, perguntando-lhe em voz baixa:

—Ouviste?

—O quê?

—Os folhetos tornaram a apparecer. As prisões e as buscas não serviram para nada. O meu sobrinho Mazine está preso, o teu filho tambem, e afinal os folhetos continuam a ser distribuidos.

E concluiu, passando a mão pela barba:

—O caso não está nas prisões, mas sim nos pensamentos. E os pensamentos não são coisa que se agarre como quem apanha pulgas. Porque não vens tu á nossa casa? É aborrecido tomar o chá sósinha.

Agradeceu. Apregoando sempre, ia activando o movimento cheio de animação que havia na fabrica. Os operarios pareciam contentes; formavam-se grupos, as vozes eram excitadas; pairava no ar um como sopro d’audacia. Ora d’um canto, ora d’outro, partiam exclamações approvativas, gracejos pesados e até ameaças. A figura avantajada do Goussef apparecia aqui e ali; o irmão seguia-o, rindo. Um mestre marceneiro chamado Vavilof e o apontador Isaías passaram diante de Pélagué sem se apressarem. Este ultimo disse vivamente:

—Olha, Ivan Ivanovitch: riem, andam satisfeitos, embora o caso possa trazer a destruição do imperio, como disse o sr. director. O necessario não é mondar, mas sim semear.

Vavilof, com os braços cruzados nas costas, apertava fortemente os dedos.

—Imprimam tudo o que quizerem, cães do diabo! mas não se mettam em falar da minha pessoa!

Vassili Goussef approximou-se de Pélagué.

—Dá cá de comer. O que tu vendes é bom.

Depois, baixaram a voz:

— Vê, mãesinha, que o nosso fim está conseguido!

Ella disse que sim com a cabeça. Sentia-se feliz por lhe falar em segredo aquella creatura que tinha tão má fama no bairro; e ao notar a efervescencia que ia pela fabrica, dizia a si mesma, satisfeita:

—E pensar que se não fosse eu!...

Trez operarios pararam perto d’ella; um disse, a meia voz:

—Não encontrei...

—Se conseguissemos lêl-o!... Eu nem mesmo sei soletrar; mas percebo que elle é util.

O terceiro, olhou em volta, e depois propôz:

—Vamos para o pé dos fornos de fundição; eu mesmo o leio.

—Os folhetos vão fazendo o seu effeito!... cochichou Goussef a Pélagué.

Ella voltou para casa, satisfeitissima, pois tinha visto com os seus olhos que as proclamações attingiam o fim desejado.

—Os operarios lamentavam-se de serem ignorantes. Quando eu era rapariga, sabia ler, mas depois esqueci tudo.

—É tornar a aprender! disse André.

—Na minha idade! Isso até dava vontade de rir!

Mas André pegou n’um livro e perguntou, apontando para uma lettra.:

—Que é isto?

—Um R! respondeu, rindo.

—E isto?

—Um A.

E depois de compreender que o sorriso d’elle nada tinha humilhante nem ironico:

—Pensa, na verdade, eu instruir-me, André?

—E porque não? Tentemos. Já que uma vez aprendeu, ser-lhe-á agora facil. Se o conseguirmos, tanto melhor; se não, paciencia.

E a lição continuou.

Dedicando-se com toda a boa vontade; mexendo os sobrolhos, procurava recordar-se das letras esquecidas; tanto se mergulhára no estudo, que não se lembrava de nada mais; os seus olhos fatigaram-se dentro em pouco, e n’elles se accumularam as lagrimas que o cansaço provocava.

—Aprendo a ler! exclamou, soluçando... na hora em que só devia pensar na morte.

—Não chore! Ha milhares de creaturas que podiam instruir-se ainda mais, e todavia vegetam como brutos, embora se gabem de que vivem bem... E o que ha na sua existencia que seja bom? Sempre a mesma vida: trabalhar e comer. De vez em quando, fazem filhos: a principio acham-lhes graça, mas quando elles começam tambem a comer, entram de embirrar com elles, e dizem-lhes: «Vejam lá se crescem depressa, seus comilões, e se começam a trabalhar!» Nunca a sua alma é animada por uma alegria, por um pensamento que dê jubilo ao coração. Uns mendigam sempre, como os pobres, os outros fazem-se ladrões. Inventaram-se leis infames, entregaram a guarda do povo a umas creaturas a quem disseram: «Obriguem a que respeitem as nossas leis, que nos permittem sugar o sangue humano.» Se o homem não cede quando o comprimem, mettem-lhe á força, nos miolos, preceitos que brigam com a razão.

Encostado á meza, fitava o olhar em Pélagué, continuando:

—Mas os outros, como o seu filho, são homens que libertam o corpo e o cerebro. E a mãesinha tambem se consagrou a esse trabalho, dentro das suas forças.

—Eu?!

—Sim. É como a chuva. Cada gotinha vae alimentar um grão de trigo. E quando souber lêr...

Levantou-se; e a rir:

—O Pavel é que ha de ficar espantado, quando voltar!...

—Ah! meu André! Tudo é facil emquanto se é novo; mas quando se é velha...

Á noite, o russo-menor saíu. Pélagué foi fazer meia, mas, de subito, fechando-se bem por dentro, tirou da estante um livro, encostou-se á meza, acurvou-se sobre elle, e os seus labios começaram a mover-se... Quando vinha da rua algum ruido, fechava o livro, a tremer, e punha o ouvido á escuta. E ficava-se a soletrar, mentalmente:

—L... A... V... I... A...