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A Mãe

Chapter 24: XIX
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About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

XIX

Já por trez vezes ella sollicitara licença para ver o filho, recebendo sempre a negativa benevola do chefe dos guardas, um velho de cabellos brancos, faces escarlates e nariz comprido.

—D’aqui a uma semana, mulhersinha. Antes, não! Para a semana veremos. Hoje é impossivel.

—É muito delicado! contava ella a André. Sempre a sorrir!... Não me parece bem. Quando se é chefe, não se deve levar assim as coisas de brincadeira.

—Sim, sim... São amaveis, sorriem muito... Se lhes dizem: «Vê aquelle homem intelligente e honrado? É perigoso para nós: enforque-o!» Elles sorriem, enforcam-no, e depois continuam a sorrir.

—Aquelle que veio cá fazer a busca era mais simples, valia mais: via-se logo que era um canalha!

—Dir-se-ia que não são homens mas sim martellos, ferramentas, para nos talharem por forma a ficarmos ao gosto do governo. Elles proprios foram accomodados á mão que nos dirige...

...A final, Pélagué obteve a ambicionada licença. No domingo, entrou na secretaria da cadeia e sentou-se modestamente a um canto. Havia mais visitas n’aquella casa acanhada e suja, de tecto baixo. Não era a primeira vez que se encontravam ali: conheciam-se uns aos outros. A conversa ia-se arrastando lentamente, a meia voz.

—Sabe? dizia uma mulherona já de alguma idade, e que tinha uma malêta nos joelhos. Esta manhã, á primeira missa, o mestre-capella da catedral, esteve outra vez quasi a arrancar uma orelha a um menino de côro.

Um homem de meia idade, com o uniforme de soldado reformado, tossiu ruidosamente e replicou:

—Os taes meninos de côro são uns garotos!...

Um homemsinho calvo, de pernas curtas, braços compridos, a maxilla proeminente, passeava d’um lado para o outro, com ares de preocupado. Sem parar dizia:

—A vida está cada vez mais cara; e é por isto que os homens nunca foram tão maos! A carne de vacca de primeira qualidade custa a quatorze kopecks o arratel, o pão dois kopecks e meio...

De quando em quando, entravam prisioneiros, vestidos de cinzento, com grossos sapatos de coiro. Um d’elles trazia uma corrente no pé. Parecia que os visitantes estavam acostumados havia muito áquelle espectaculo. O coração de Pélagué tremia d’impaciencia; olhava perplexa para tudo o que a cercava.

A seu lado estava uma velhinha com as faces enrugadas e com os olhos amortecidos. Prestava attenção á conversa, estendia o pescoço delgado e fugia a olhar para os assistentes, com uma expressão de irascibilidade.

—Quem tem a sr.a aqui? perguntou-lhe Pélagué com doçura.

—O meu filho, que é estudante! E a sr.a?

—Tambem o meu filho, operario.

—Como se chama elle?

—Vlassof.

—Não conheço. Está cá ha muito tempo?

—Ha sete semanas.

—E o meu ha dez mezes!

E Pélagué, julgou perceber-lhe no tom da voz, o que quer que fosse parecido com o orgulho.

Uma senhora alta, vestida de preto, de rosto comprido e pallido, disse vagarosamente:

—D’aqui a pouco mettem na cadeia todas as pessoas de bem. Já não as podem aturar.

—Sim, sim! replicou o velho calvo. A paciencia vae faltando. Toda a gente se zanga e clama, e tudo vae augmentando de preço. É por isto que as pessoas vão diminuindo de valor. E não apparece nenhuma voz conciliadora...

A conversa generalisou-se e animou se. Cada qual formulava a sua opinião acerca da vida, mas todos falavam a meia voz; e Pélagué sentia n’aquellas palavras o que quer que fosse estranho. Em sua casa, falava-se d’outra maneira, d’uma maneira mais compreensivel, mais natural, mais aberta.

Um guarda, de grande barba grisalha, gritou:

—A Vlassof!

Mediu-a com o olhar e disse:

—Vem!

E foi andando, arrastando os pés. A vontade de Pélagué era empurral-o para que elle andasse mais depressa. Afinal, n’um pequenito quarto, encontrou-se com Pavel, que lhe estendeu a mão, sorrindo.

Ella agarrou-a, rindo muito, e dizendo:

—Bons dias! bons dias!

—Olá, mulher! exclamou o guarda. Afastem-se um pouco um do outro. É do regulamento.

E bocejou.

Pavel pediu á mãe noticias da sua saude, da sua casa. Ella esperava outras perguntas, procurava-as até, no olhar do filho, mas não as encontrou. Como sempre, elle apresentava-se tranquillo; apenas um pouco mais pallido; os seus olhos pareciam maiores.

—A Sachenka manda-te recommendações.

As palpebras de Pavel estremeceram e abaixaram. O seu rosto dulcificou-se e brilhou com um sorriso.

—Pôr-te-ão em breve na rua? perguntou, irritada de subito. Por que foi que te prenderam? Sim porque afinal os taes folhetos voltaram a apparecer.

Os olhos de Pavel tiveram um lampejo d’alegria.

—Serio?!

—É proíbido falar d’essas coisas! observou o guarda, indolente. Só se pode falar d’assuntos de familia.

—Ora essa! Então isto não é assunto de familia? perguntou ella.

—Sei lá! O que digo é que é proibido. Falem da comida, da bebida, da roupa lavada, e de mais nada! elucidou, continuando como indifferente.

—Está bem! Falemos da nossa casa, mamã? O que é que tu fazes?

—Levo comida aos operarios, comida e outras coisas! respondeu com audacia.

Deteve-se e explicou melhor, depois de resfolegar:

—Sopa, carne assada, tudo o que Maria costuma cosinhar, e... toda a especie de alimento.

Pavel compreendera. O rosto contraíu-se-lhe n’uma gargalhada abafada. Depois, carinhosamente:

—Minha querida mãe... Muito bem! muito bem! Sinto-me feliz, sabendo que tens tão bom emprego, que não te aborreces. Não é verdade que não te aborreces?

—E sabes? Revistaram-me toda quando os taes folhetos tornaram a apparecer! informou um tanto fanfarrona.

—Outra vez?! exclamou o guarda. Já lhes disse que é proíbido. Priva-se um homem da sua liberdade, para que elle não saiba do que vae lá por fóra, e vens tu, mulher, e começas a tagarelar!... Compreendam que o que é proíbido é proíbido!

—Está bem! não se fala mais n’essas coisas, mamã. O Matvé Ivanovitch é um bom homem: não devemos fazel-o zangar. Damo-nos bem um com o outro. É por acaso que elle assiste hoje ás entrevistas dos presos com os visitantes. Quem costuma assistir é o director. E o Matvé Ivanovitch receia que tu digas coisas... superfluas.

—Acabou o tempo da visita! disse o guarda, tendo consultado o seu relogio.

—Obrigado, mamã! muito obrigado, querida mãesinha! Não te dê cuidado, que dentro em pouco serei posto em liberdade.

Abraçou-a com effusão; ella começou a chorar.

—Separem-se! ordenou o guarda; e, reconduzindo Pélagué, ia-lhe dizendo, resmungando:

—Não chore... Está aqui está na rua! Vão dar a liberdade a muitos... os logares são poucos... não cabem todos...

Em casa, ella disse ao russo-menor:

—Falei-lhe... com geito... percebeu-me muito bem.

E acrescentou com um suspiro:

—Percebeu-me, sim, se não, não me abraçava com tanta gana! Foi a primeira vez...

—Ah! todos desejam isto ou aquillo, mas as mães não desejam senão affagos!