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A Mãe

Chapter 25: XX
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About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

XX

Uma noite, estando Pélagué a fazer meia e André lendo em voz-alta a historia da revolta dos escravos romanos, alguem bateu violentamente á porta. O russo-menor foi abrir, e Vessoftchikof entrou, com um embrulho debaixo do braço, o boné descaído para os olhos, e todo elle enlameado até aos joelhos.

—Passando na rua, vi luz cá dentro e bati á porta para a cumprimentar. Saí da cadeia agora mesmo!

E apertando a mão de Pélagué:

—O Pavel recommenda-se muito.

Deixando-se caír n’uma cadeira, hesitantemente olhou em volta, como de costume desconfiado.

A sua cabeça angulosa e rapada e os seus olhitos tornavam no antipatico a Pélagué, o que não impedia que estivesse gostando de vel-o e que lhe dissésse, affectuosa:

—Emagreceste!... Ó André, vamos fazer-lhe o chá!

—Já cá estou preparando o samovar! respondeu da cosinha o russo-menor.

—E então como vae o Pavel? Vieram outros para a rua comtigo?

Vessoftchikof respondeu abaixando a cabeça:

—O Pavel continúa preso... Encheu-se de paciencia... Para a rua vim só eu.

E levantando o olhar, continuou vagaroso e com os dentes cerrados:

—É que eu disse-lhes: «Deixem-me ir embora, que já estou farto! senão mato o primeiro que puder, e suicido-me depois!» Ora!... foi logo! E fizeram bem, porque eu cumpria o que promettera!

—Sim, sim, creio!... balbuciou ella, afastando-se, com as palpebras tremulas, como sempre lhe acontecia quando fitava aquelle rosto bexigoso.

—E como vae o Fédia Mazine? perguntou da cosinha André. Continúa fazendo versos?

—Continúa! Quer dizer... não o percebo bem. Parece um pintasilgo: mettem-no na gaiola, e canta. O que sei é que não tenho nenhuma vontade de ir para casa.

—E tens razão. Vaes encontral-a vasia, o fogão apagado, tudo muito frio...

Vessoftchikof calou-se, cerrou os olhos, depois, tirando da algibeira um masso de cigarros, começou a fumar, muito descansadamente. Com o olhar ia seguindo as nuvens de fumo que se esvaía por cima da sua cabeça; e de subito, rindo esganiçadamente como o uivar d’um cão:

—Sim, muito frio... Naturalmente, o chão está, cheio de baratas geladas, os ratos devem estar tambem mortos de fome... Pélagué Nilovna, dás licença que eu durma cá em casa?

—Está dito! respondeu logo. Sentia-se pouco á vontade; por isto não disse mais.

Foi elle que murmurou em tom abatido:

—Estamos agora no tempo em que os filhos teem vergonha dos paes.

—O quê? perguntou ella, estremecendo.

—Não te apouquentes, que não falo de ti. Tu nunca envergonharás o Pavel. Eu é que me envergonho do meu pae... Não quero voltar para casa d’elle. Já não tenho pae, nem casa. Estou sob a vigilancia da policia, agora, se não ter-me-iam mandado para a Siberia. Creio que um homem, que não se poupasse a trabalhos, teria muito que fazer na Siberia... Daria a liberdade aos exilados, ajudal-os-ia a fugir...

Graças ao seu coração sensivel, a velha percebia que o rapaz estava soffrendo, mas a sua dôr não lhe provocava a compaixão.

—Dizes bem. Sendo assim, seria melhor teres ido... André veio da cosinha.

—Que estás tu para ahi a cantar, homem?

A velha ergueu-se.

—Vou arranjar alguma coisa para comer.

Vessoftchikof olhou fixamente para o russo-menor e respondeu com firmeza:

—Digo que é preciso matar umas pessôas!...

—Ih!... E para quê? perguntou, tranquillo.

—Para que deixem de existir!

—Tens então o direito de transformar os vivos em cadaveres?

—Tenho!

—E onde foste buscal-o?

—Foram os homens que mo deram!

O russo-menor, alto, magro, parou no meio do quarto, bamboleando o corpo; com as mãos nas algibeiras, observava dos pés á cabeça o bexigoso. Este, sentado e envolto n’uma nuvem de fumo, tinha n’aquelle momento o rosto palido salpicado de manchas vermelhas.

—Foram os homens que mo deram! repetiu, de punho cerrado. Desde que me dão pontapés, tenho o direito de responder, atirando-me aos focinhos, aos olhos... Se não me tocarem, eu não toco em ninguem. Deixem-me viver como quero, que eu viverei quieto, sem incommodar os mais. Juro! Supponhamos que quero viver n’uma floresta, construir uma cabana n’uma ravina, na margem d’um regato... e viver ali, sósinho...

—Pois faz isso! respondeu, encolhendo os hombros.

—Agora? Não! É impossivel! Estou ligado estreitamente aos homens até á morte! Ligaram o meu coração com o odio, prenderam-me a elles com o mal. É um laço muito solido. Odeio-os, e vá por onde fôr não os deixarei viver tranquillos. Incommodam-me, e eu incommodal-os-ei. Respondo por mim, só por mim; não posso responder por mais ninguem. E se o meu pae é um ladrão...

—Ah! exclamou repreensivamente André, em voz baixa, approximando-se.

—Ainda acabo por arrancar a cabeça ao Isaías Gorbof, verás!

—E porquê?

—Porque anda a espiar-me. Foi por causa d’elle que o meu pae se perdeu, é com elle que o meu pae conta para entrar para a policia secreta!

—Olhem o grande mal! Mas quem te censura, a ti, pela vida do teu pae? Isso é para os tolos!

—Para os tolos e para os não tolos! Olha: tu és intelligente, o Pavel tambem. Dize lá: teem por mim consideração igual á que teem pelo Fédia Mazine ou pelo Samoílof, ou um pelo outro? Não mintas, que não te acreditaria. Atiram-me para o canto!

—Tens a tua alma doente, amigo! respondeu André, affectuosamente, sentando-se ao lado d’elle.

—A vossa tambem soffre. Mas imaginam que as suas ulceras são mais nobres do que as minhas. Procedemos uns para os outros como canalhas! é o que te digo! O que respondes a isto, an?

Fitou o olhar penetrante em André e esperou, com os dentes á mostra. O seu rosto palido estava impassivel; apenas lhe tremiam os labios grossos como se tivessem sido queimados e contraídos por algum liquido caustico.

—Nada te responderei! disse André acariciando o olhar hostil de Vessoftchikof com o sorriso luminoso e triste dos seus olhos azues. Sei demais que querer discutir com alguem, cujo coração está sangrando, é o mesmo que irrital-o. Sei, irmão.

—Não se pode discutir comigo; não sei discutir! resmungou, abaixando os olhos.

—Estou certo de que todos nós caminhámos como tu agora, com os pés descalços por cima de vidros partidos; que todos nós respirámos essas mesmas evaporações de horas sombrias...

—Não podes dizer coisa alguma que me socegue. Nada! A minha alma uiva como um lobo!

—Nem tenho tal intuito. O que sei é que isso ha de passar. Talvez não muito depressa; mas ha-de passar.

E pôz-se a rir, batendo no hombro do rapaz:

—É uma doença de creanças, no genero da escarlatina, irmão. Todos nós fomos atacados do mesmo mal, com maior ou menor violencia, conforme eramos fortes ou fracos. Ataca a gente da nossa condição, quando nos encontramos sósinhos, quando não compreendemos ainda a vida, quando não vemos o logar que nos foi destinado. Parece-nos que somos o unico homem n’este mundo e que ninguem se importa comnosco, a não ser para nos devorar. Mais tarde, quando vires que ha tambem boas almas n’outros peitos alem do teu, consolar-te-ás... e envergonhar-te-ás de ter acreditado que só tu davas a nota afinada, e de ter querido trepar ao campanario sendo o teu sino tão pequeno, que ninguem o ouve na bimbalhada dos dias de festa. Perceberás então que és uma voz apenas perceptivel, mas necessaria, no côro poderoso e magnifico da verdade. Compreendes o que eu quero dizer?

—Compreendo... compreendo... Mas não te acredito!

—Tambem eu não queria acreditar...

O bexigoso pôz-se então a rir com a bôca aberta até ás orelhas.

—Que é isso?

—Pensava que seria um grande parvo aquelle que te insultasse.

—E porque hão-de insultar-me? perguntou ainda André, encolhendo os hombros.

—Sei lá! O que digo é que o homem que te tiver insultado, ha-de ficar depois com uma linda cara de parvo!

—Era a isso que querias chegar!... commentou, rindo.

Ouviu-se a voz de Pélagué:

—Venha, André! venha buscar o samovar.

A sós, Vessoftchikof olhou em volta; estendeu a perna, observou as botas grossas; acurvou-se, palpando a barriga da perna; depois observou attentamente a palma e as costas da mão pelluda; levantou-a, e ergueu-se.

Quando André trazia o samovar, o bexigoso, diante do espelho, acolheu-o com estas palavras:

—Ha quanto tempo eu não via o meu focinha!... Estou feio como o diabo!

—Que te faz isso?

—A Sachenka diz que o rosto é o espelho da alma...

—Qual historia! Tem o nariz de gancho, as faces agudas como bicos de tezoura, e todavia a sua alma é pura como uma estrella!...

Sentaram-se para tomarem o chá e comerem. Vessoftchikof deitou a mão a uma grande batata, salgou um pedaço de pão e começou a comer tranquillamente, vagarosamente, como um lobo.

—E como vão as coisas por cá? perguntou com a bôca cheia.

E, tendo ouvido as informações d’André:

—Tudo isso vae de vagar! É preciso ir mais de pressa.

—A vida não é um cavallo: não a fazemos andar ás chicotadas.

Mas o bexigoso meneava a cabeça, obstinado.

—Vae devagar... vae... Eu não tenho grande paciencia... Que é preciso que eu faça?

—Devemos aprender a ensinar os outros. É este o nosso dever!

—E quando entraremos em lucta?

—Ignoro. Segundo a minha opinião, antes de pegarmos em armas, deveremos armar o nosso cerebro.

—O rapaz ficou silencioso, voltando a comer. Sem que elle percebesse, a velha observava-lhe o rosto picado das bexigas, tentando descobrir n’elle alguma coisa que a reconciliasse com aquelle caracter aggressivo; mas ao encontrar-lhe o olhar penetrante, ficava na mesma e movia os sobrolhos, desanimada.

No seu intimo, os dois moradores do velho pardieiro sentiam-se como apertados, pouco á vontade, e lançavam de quando em quando olhares furtivos para o hospede.

Até que este ergueu-se.

—Não me saberia mal deitar-me. Estive encarcerado por muito tempo, puzeram-me na rua de repente... vim por ahi adiante... Estou cançado.

Quando elle foi para a cosinha, a velha cochichou a André:

—Tem uns pensamentos terriveis!...

—Não é um rapaz docil, não. Mas ha de passar-lhe. Eu tambem era assim. Quando o coração não aquece a valer, junta-se n’elle muita gordura... Vá deitar-se, mãesinha, que eu ainda vou ler um pouco.

André ouviu-a resar n’um murmurio. Emquanto elle ia lendo, um tanto febrilmente, a pendula do relogio oscilava em cadencia, nas vidraças o vento gemia.

A velha murmurava:

—Ó Senhor! quanta gente por este mundo, queixando-se conforme os seus males! Onde estão os felizes?

—Ha-os, sim; e dentro em breve serão em grande numero! ah! muito grande! respondeu elle.