WeRead Powered by ReaderPub
A Mãe cover

A Mãe

Chapter 26: XXI
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

XXI

A vida ia decorrendo rapida, de dias variados. Cada qual trazia novas a Pélagué, que não se perturbava com ellas. Cada vez eram mais os desconhecidos que vinham á noite conversar com André, e que, sempre desconfiados e cautelosos, se retiravam no meio das trevas, com a gola do casaco levantada, a pala do bonet sobre os olhos.

Para Pélagué todos aquelles rostos, novos ou velhos, fundiam-se em um só rosto magro, calmo e decidido, de olhar profundo, carinhoso e severo ao mesmo tempo, como o de Jesus a caminho de Emmaús.

Contava-os e imaginava-os cercando Pavel, como para tornal-o menos visivel aos seus inimigos.

Uma noite, uma rapariga esperta, de cabello encaracolado, chegou da cidade, com um embrulho para André; e, ao saír, disse para Pélagué com um olhar brilhante e cheio d’alegria:

—Até á vista, companheira!

—Até á vista.

—E foi á janella para vêr a sua «companheira» pela rua abaixo, em passinhos meudos, fresca como uma flôr de primavera, ligeira como uma borboleta.

—«Companheira»!... Ah! minha queridinha! Deus te dê um bom companheiro por toda a vida.

Notava por vezes nos que vinham da cidade aspectos variegados que lhe despertavam a simpatia; mas o que principalmente a impressionava era a sua simplicidade, o seu bello e tão generoso esquecimento de si proprios.

Compreendia já muitas coisas que os visitantes discutiam; sentia, que de facto, elles tinham descoberto a verdadeira origem da desgraça dos homens, e ia-se acostumando a approvar as suas opiniões. Mas não acreditava que elles podessem transformar a existencia á sua maneira, nem que tivessem a sufficiente força de attraír a si todos os operarios.

Regularmente, continuava levando folhetos para a fabrica, com o sentimento do dever cumprido; imaginava toda a especie de astucias; e os guardas, acostumados a vél-a, nem já lhe prestavam attenção. Todavia, revistavam-na por vezes, mas sempre nos dias seguintes a ter havido distribuição de folhetos. Quando não os levava, Pélagué sabia fazer-se notada, excitar a curiosidade dos guardas, que a detinham, ficando afinal com caras de tolos.

Vessoftchikof não tornou a ser acceite na fabrica; metteu-se como operario n’uma estancia de madeira, e de manhã á noite guiava os carretos de traves, lenha, taboas. Os cavallos que puxavam a carroça iam como ás cegas, em risco de atropellarem quem passava, de irem de encontro ás outras carroças; o rapaz era perseguido por uma chuva de doestos e de imprecações. Sem levantar a cabeça, sem responder, assobiava estridentemente, e chicoteava, nos intervallos, resmungando:

—Toma! toma!...

Sempre que havia reuniões em casa de André para a leitura d’um folheto ou do ultimo numero d’um jornal estrangeiro, Vessoftchikof apparecia, sentava-se e escutava sem dizer palavra, durante uma ou duas horas. Concluida a leitura, os novos discutiam; elle porem não entrava na conversa, e era o ultimo a saír.

A sós com André, falava então com o seu modo sórna.

—Quem é o mais culpado de todos?

—Aquelle que foi o primeiro a dizer: «Isto é meu!» Mas como já morreu ha milhares d’annos, não vale a pena zangarmo-nos com elle! respondia André, gracejando.

—Mas os ricos e os poderosos? e os que os defendem? teem razão?

O russo-menor apertava a cabeça entre as mãos, retorcia o bigode e falava durante muito tempo acerca da vida dos homens, com palavras simples e claras.

Elle porém volvia:

—Não! Ha de haver culpados! Existem! Digo-te que é preciso revolvermos a vida toda, sem piedade, como um campo coberto de más hervas!...

—Foi o que o Isaías disse uma vez, falando do sr.... observou Pélagué.

—O Isaías?

—Sim. Que mau homem! Espia toda a gente... Vem até espreitar ás nossas janellas.

—Ás suas janellas?...

Ella estava já deitada e não lhe podia vêr a cara. Mas percebeu que tinha falado de mais, quando André disse, em tom conciliador:

—Pouco importa que elle venha espreitar-nos. Não tem que fazer a essa hora: passeia.

—Qual! exclamou o rapaz! Ora ahi tens o culpado?

—Culpado de quê? de ser parvo?

Mas o bexigoso não respondeu e saíu.

Pélagué não dormia.

—Tenho medo d’elle! exclamou. Parece um fogão levado ao rubro: não dá calor, mas queima.

—Sim... é um garôto irascivel. Nunca lhe fale do Isaías, mãesinha. Esse tal Isaias é em verdade um espião... Pagam-lhe até para isso.

—Que admira? O seu melhor amigo é um agente de policia!

—O Vessoftchikof ainda acaba por torcer-lhe o pescoço! Veja que sentimentos os que mandam na nossa vida fazem nascer nas camadas inferiores. O que succederá quando aquelles que se parecem com este rapaz tiveram a consciencia da sua situação humilhante e perderem a paciencia? O ceu raiar-se-á de sangue, e a terra cobrir-se-á d’espuma, como se a tivesse invadido um musgo vermelho.

—É terrivel, meu André!

—Os nossos inimigos não terão o que merecem. Todavia, mãesinha, cada gottinha do seu sangue terá sido lavado préviamente pelos lagos de lagrimas que o povo chorou.

E accrescentou, rindo:

—É justo, mas não é consolador!