WeRead Powered by ReaderPub
A Mãe cover

A Mãe

Chapter 29: XXIV
Open in WeRead

Explore more books like this:

About This Book

The narrative follows a working-class mother whose gradual political awakening is sparked by her son's involvement in a radical labor movement. Scenes alternate between domestic hardship and collective organizing, portraying factory life, clandestine meetings, arrests, and trials that test loyalties. The mother evolves from submissive suffering to committed activism, making personal sacrifices as repression intensifies. The work juxtaposes individual conscience and collective struggle, exploring solidarity, state violence, and moral courage among ordinary people.

XXIV

De manhã muito cedo, apenas André e Pavel tinham sido, Maria Korsounova bateu á janella com estrondo.

—O Isaías foi assassinado! Vamos ver!

Pélagué estremeceu: o nome de assassino atravessou-lhe o peito como uma flécha.

—Quem o matou?

—O assassino fugiu!

Tendo posto um chale, á pressa, Pélagué foi ter com ella á rua.

—Naturalmente começam outra vez a fazer buscas. Ainda bem que a tua gente não saíu de casa áquella hora. Posso tesmunhar. Á meia noite passei eu por aqui, olhei pela janella e vi-os a todos trez sentados á meza.

—Mas, Maria, porque haveriam de accusal-os? perguntou aterrorisada.

—O assassino é forçosamente dos vossos! Todos sabem que o Isaías os espionava...

Pélagué parou, offegante, com a mão no peito.

—Que é isso? Não tenhas medo. O Isaías não merecia outra coisa. Vamos depressa, que não chegamos a tempo.

A pobre velha caminhava sem mesmo perguntar a si propria para que ia ver o cadaver; tremia pensando em Vessoftchikof: «Conseguiu o seu fim!»

Não distante da fabrica, sobre o entulho d’uma casa recentemente destruida por um incendio, grande ajuntamento de povo murmurava como uma nuvem de bezouros, e movia-se levantando em poeira a cinza com os seus passos. Já lá estavam muitas mulheres, ainda mais creanças, lojistas, os moços da taverna proxima, agentes de policia, o guarda Pétline, um guarda velho, de barbas brancas como prata, e com o peito coberto de medalhas.

Isaías estava meio deitado no chão; tinha as costas apoiadas a uma trave enegrecida pelo fogo, a cabeça descaída para o ombro direito. Conservava a mão direita na algibeira das calças; os dedos da esquerda desappareciam contraídos sob a terra fôfa.

Pélagué olhou para o rosto do morto. Um dos olhos tinha-o elle fixado no boné posto entre as pernas estendidas, a boca entreaberta n’uma como expressão d’assombro; a barbicha ruiva pendia. O corpo magro, com a cabeça ponteaguda, e o rosto ossudo coberto de manchas avermelhadas, parecia diminuido, comprimido pela morte.

Ella então benzeu-se suspirando. Em vida, aquelle homem fôra-lhe antipatico; morto, fazia-lhe dó.

—Não tem sangue! disse alguem. Talvez o prostrassem aos murros.

—Talvez ainda esteja vivo.

—Vão-se d’aqui! berrou o guarda.

—O medico já veio, e disse que elle estava morto!

—Fecharam a boca a um denunciador... Foi bem feito!

O guarda afastou as mulheres que o cercavam e perguntou ameaçadoramente:

—Quem é que falou?

Muitos recuaram; outros deitaram a fugir. Ouviram-se risos escarninhos.

Pélagué voltou para casa.

—Ninguem tem dó d’elle!... ia pensando.

—E o perfil macisso do bexigoso erguia-se na sua frente; os seus olhos tinham um brilho frio e rude; a sua mão direita balouçava, como se estivesse ferida.

Quando André e Pavel entraram para o jantar, perguntou-lhes logo:

—E então? Não está ninguem preso por causa do Isaías?

—Não ouvi nada... respondeu o russo-menor.

Ella notou que os dois vinham sombrios e reservados.

—Não falam do Vessoftchikof?... avançou.

O filho encarou-a com severidade e respondeu, accentuando muito as palavras:

—Não! Ninguem pensa n’elle. Está ausente. Hontem ao meio dia, partiu a caminho da ribeira e ainda não voltou... Tirei informações...

—Deus seja louvado! exclamou ella com um suspiro d’alivio.

Ao jantar, Pavel deixou caír de repente a colher no prato e disse:

—Não entendo isto!

—O quê? perguntou André, até ali triste e silencioso.

—Admitto que matem um animal feroz, uma ave de rapina... Julgo-me capaz de matar um homem que se tornasse uma fera para os seus semelhantes. Mas como ha quem possa levantar a mão para assassinar uma creatura miseravel e repugnante?

André encolheu os hombros, e depois:

—Elle era tão nocivo com uma fera.

—Sei...

—Nós tambem esborrachamos o mosquito que nos suga um pouco de sangue...

—Sim, é verdade. Não é esse o meu ponto de vista. Digo que é repugnante!

—Que se ha de fazer? e encolheu outra vez os hombros.

—Poderias matar uma creatura d’aquellas? perguntou Pavel depois de curta pausa.

—O russo-menor fitou-o, lançou um rapido olhar a Pélagué, e respondeu tristemente mas com firmeza:

—Se se tratasse de mim só, não tocaria em ninguem. Pelos companheiros, pela nossa causa, faria tudo. Mataria até meu proprio filho, se preciso fosse!

—Oh!... suspirou Pélagué.

Elle sorriu, concluindo:

—Impossivel proceder d’outra maneira! É a vida que assim o quer!

Como se obedecesse a um impulso intimo, André ergueu-se de repente.

—Que se ha de fazer? É-se obrigado a odiar o homem, para que venha mais cedo o tempo de admiral-o sem reservas. Temos que destruir aquelle que obsta ao curso da existencia, que vende os outros para adquirir honrarias ou o descanso. Se encontramos no caminho dos justos um Judas que nos espera para nos traír, eu proprio seria um traidor, se não o anniquilasse. É crime? É contra o direito? E os outros, os nossos senhores, com que direito se servem de soldados e carrascos, de casas publicas e de prisões, do degredo e de tanta coisa infame para protegerem a sua segurança e o seu bem-estar? Os nossos senhores assassinam-nos ás centenas, aos milhares; isto dá-me o direito de levantar a mão e de deixal-a caír na cabeça d’um inimigo, d’aquelle que mais se approximou de mim e que mais me prejudica na vida. Sei que o sangue dos meus inimigos não cria, que é esteril... Desapparece sem deixar vestigios, porque está podre; ao passo que quando o nosso rega a terra como uma chuva compacta, a verdade desenvolve-se exhuberante! Tambem o sei! Mas se vir que é indispensavel matar, matarei e revindicarei a responsabilidade do meu crime. Não falo senão de mim. O meu peccado morrerá comigo, não maculará o futuro com uma unica nódoa, não manchará ninguem, ninguem senão eu!

Cheia de tristeza e de inquietação, Pélagué sentia que elle tinha como que uma mola partida no seu espirito, e que soffria. Não a inquietava já o caso do assassinio: não tendo sido Vessoftchikof, nenhum outro companheiro de Pavel o seria, por certo.

André proseguia:

—Tempo virá em que os homens se admirarão uns aos outros, em que cada qual brilhará como uma estrella, em que escutará a voz do seu semelhante, como se fosse uma musica. Haverá na terra homens ricos, grandes pela sua liberdade, tendo todos o coração aberto, purificado de qualquer ambição ou interesse. A vida será então um culto prestado ao homem; a sua imagem será exhaltada porque para os homens livres todas as alturas são accessiveis. Viver-se-á então na liberdade e na egualdade, pela belleza; os melhores serão os que mais souberem abarcar o mundo no seu coração, os que mais o amarem! E por esta vida assim, estou prompto a tudo. Arrancaria o coração a mim proprio, e pizal-o-ia, com os meus pés!

O seu rosto tremia; as suas feições tinham uma excitação luminosa; uma a uma, as lagrimas deslisavam-lhe pelas faces.

Pavel levantou a cabeça e contemplou-o. Pélagué sentia-se inquieta, com um vago e terrivel presentimento.

—O que tens, André? perguntou Pavel, a meia-voz.

Elle esticou o corpo, e fitando a velha:

—Eu vi... eu sei...

Pélagué levantou-se, correu a elle, pegou-lhe nas mãos.

—Socega, André! meu filho!... socega!... murmurava.

—Esperem!... Quero dizer-lhes como a coisa foi...

—Não! não! accudiu ella, com os olhos razos d’agua.

Pavel approximou-se d’elle, com as mãos trémulas e muito pálido, e segredou-lhe:

—A minha mãe receia que tivesses sido tu...

Ella porem ouviu, e disse:

—Não receio, não. Sei que não foi elle. Ainda que tivesse sido, não acreditaria.

—Oiçam... pediu André, sem os fitar e buscando libertar as mãos que Pélagué não abandonava. Não fui eu... mas poderia ter evitado o crime.

—Cala-te, André! exclamou Pavel, pondo-lhe a mão no hombro, como para fazer cessar a tremura que lhe abalava todo o corpo.

O russo-menor explicou então:

—A coisa foi assim: quando nos deixaste, ficamos á esquina, eu e o Dragounof. O Isaías appareceu de repente... e conservou-se afastado... Troçava de nós, observando-nos... Dragounof disse-me: «Não vês! Anda-me a espiar todas as noites. Ainda venho a dar-lhe uma lição!» E afastou-se para entrar em casa, ao que julguei... Então o Isaías chegou-se a mim...

Suspirou:

—Ninguem me insultou mais rélesmente do que aquelle cão!

Sem falar, Pélegué fôra conseguindo puxal-o para junto da meza até obrigal-o a sentar-se.

—Disse-me que todos nós eramos conhecidos da policia, que tinha os olhos em nós, e que antes do primeiro de maio estariamos servidos!... Não respondi, limitei-me a rir-me, mas cá por dentro começava a ferver. Disse-me depois que eu era um rapaz intelligente, que não deveria metter-me a taes caminhos...

—Percebo!... murmurou Pavel.

—Isso! Acabou por dizer-me que seria melhor eu entrar ao serviço da policia...

E de punho cerrado erguido:

—Que alma infame a d’aquelle homem! Mais valia que me houvesse esbofeteado! ter-me-ia custado menos! e talvez fosse melhor para elle. Perdi a paciencia quando assim me cuspiu no coração a sua saliva infecta! Dei-lhe um muro em pleno rosto, e retirei-me. Ouvi uma voz atraz de mim: «Fizeste muito bem!» Era Dragounof, que por certo tinha ficado occulto na esquina. Não olhei para traz, apezar de sentir, de compreender a possibilidade... Ouvi depois um ruido, mas não fiz caso. Eu ia tão tranquillo como se tivesse acabado de esmagar um sapo. Quando cheguei á fabrica, dizia toda a gente: «Mataram o Isaías! Não quiz acreditar. A minha mão é que teve a culpa... Não sou senhor d’ella... Não me faz soffrer, não... mas dir-se-ia que a sinto retraída agora...

Lançou á mão um olhar rapido e exclamou:

—Não conseguirei nunca laval-a d’esta mancha!

—Tenhas tu bem puro o teu coração!... disse Pélagué chorando.

—Não me accuso, não! declarou elle com energia. Mas é repugnante... Não é agradavel ter esta lama cá dentro no peito!

—Que pensas fazer?

—O que quero fazer?

E depois de reflectir, de cabeça baixa, ergueu-a e respondeu com amargo sorriso:

—Não tenho medo de dizer que fui eu... mas tenho vergonha do que fiz! Não! não posso dizel-o! Tenho vergonha!

—Não te percebo bem! exclamou Pavel, encolhendo os hombros. Não foste tu quem matou; e ainda que...

—Irmão, apezar de tudo, era um homem. O assassinio é coisa repugnante. Saber que alguem assassina, e não o impedir... é talvez uma covardia infame!

—Continúo sem perceber!

Ouviu-se o apito da fabrica. André deixou tombar a cabeça para o hombro, escutando aquelle auctoritario chamamento e disse:

—Não quero ir trabalhar.

—Nem eu!

—Quero ir tomar um banho!

Vestiu-se á pressa e saíu.

Pélagué seguiu-o com um olhar de compaixão; depois abriu-se com o filho.

Podes dizer o que quizer, Pavel. Sei que é peccado matar um homem, mas n’este caso não encontro culpa em ninguem. Lembro-me de que o Isaías me ameaçou uma vez com a forca para ti... Eu não lhe queria mal, nem me alegro por elle ter morrido... Tinha apenas dó d’elle... E agora... nem mesmo isso já sinto...

—Ahi tens o que é a vida, mãe!